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segunda-feira, 24 de março de 2025

 

          Um Herói Verdadeiro

           Cyro de Mattos

 

Feitos superiores, inacreditáveis, aclamado como herói, inigualável nos anais da história local. Coragem digna dos heróis gregos. Cada proeza inspirava história de cordel surpreendente, trovadores vendiam os folhetos na feira.

Certa vez enfrentara uma onça preta, a mais temida entre os grandes felinos da Mata Atlântica. Fugira do circo, invadira a rua do comércio em plena luz do dia, faminta, há oito dias não se alimentava.

          Gente correu para dentro das lojas, as portas imediatamente fechadas. 

Menino lá dentro do quarto chorava, a mãe rezava, o pai se urinava.

Lá fora correu atrás da bichona, estava prestes a abocanhar uma criança. Saltou no cangote da fera, deu um murro no ouvido, quebrou-lhe o pescoço.     

Pessoas apavoradas deixaram as lojas, vivas seguidos deram para o audaz herói conterrâneo, abraçavam efusivos o homem de coragem incomum. Mais uma vez livres do perigo. Quando passava, aconteciam mais palmas para o intrépido herói da cidade com um comércio próspero. 

         Outro dia venceu os assaltantes ao banco. Ali mesmo alvejou vários   deles com os tiros certeiros, deflagrados com o revólver cano longo, calibre 38.  Saiu na moto em perseguição do último assaltante, o carro do vilão fazendo ziguezague na disparada. Atirou no pneu traseiro do carro em fuga célere, na curva rodopiou, capotou e bateu no poste.       

Trêmulo, o bandido cabeludo, a barba crescida, tatuagem de mulher nua no pescoço. A arma apontada na sua cabeça por aquele homem zangado. O bandido pedia com o rosto choroso, tenha dó, não vou fazer mais isso, eu lhe prometo, não me dê uma surra, seja piedoso. 

Novamente recebido com palmas calorosas, vivas, assovios dos que assistiram as cenas, pasmos. Todos sabiam outra vez que com o seu herói infalível a cidade estava segura. Perguntavam-se incrédulos, onde aquele homem de cara fechada, de baixa estatura, conseguira tanta coragem?

O prefeito baixou decreto honroso, considerando seus feitos altamente corajosos, cívicos, exemplares. Seria condecorado com a Medalha Fundador Libório Machado, o homem que penetrou a mata hostil, derrubou pau grande, pegou cobra com a mão, esmagou com o pé, afugentou onça parida com esporro, comeu inseto, bebeu água de ribeirão com a concha da mão calosa. 

         O herói foi chamado ao palco armado no jardim, comemorava-se mais um ano de emancipação política da cidade. Todos aplaudiram de pé. Antes que fosse condecorado com a distinção cobiçada, a mais alta honraria do executivo municipal, gaguejou com uma voz amedrontada diante do homem vermelhuço, rosto flácido, cara de lua cheia, orelhas de abano. Tinha um olho de vidro, a posição solene para fixar no peito do herói o cobiçado distintivo.   

       - Tire ela daqui, está perto de meu pé! - Gritava, o rosto aflito:  - Se não tirar, saio correndo. 

        O homem narigudo esmagou a barata com o pé.

        Aliviado do tremendo susto que passara deixou que fosse cumprido o ritual da homenagem.

        Observou:

        - Desde pequeno tenho medo de barata!

quarta-feira, 12 de março de 2025

 

A crônica, a vida e a ternura

Henrique Fendrich*

 

Há pouco mais de 10 anos, eu percorria uma biblioteca pública em Brasília, ávido por descobrir novos cronistas, escritores que pudessem me oferecer um mínimo que fosse daquilo que já havia me encantado em Rubem Braga. A seção de crônicas não era das maiores, mas eu tirava cada livro da estante e considerava gravemente se deveria pegar emprestado este ou aquele. Um desses livros era “Alma mais que tudo”, de Cyro de Mattos que me agradou já pelo título. “Este”, decidi.

 

Foi a partir de então que passei a ter notícias regulares de Itabuna e de como viam o mundo aqueles que tiveram a sorte de nascer no mesmo lugar que Jorge Amado. A cidade do sul da Bahia, afinal, é para Cyro o mesmo que Cachoeiro do Itapemirim é para o Braga, um lugar com suas histórias, seus dramas, seus personagens e até sua personalidade, e tudo isso, ao ser transposto para o texto da crônica, faz a gente se lembrar da cidade de cada um de nós, por mais distante que ela fique.

 

O parentesco com o cronista capixaba não se limitava ao encanto e às memórias de sua cidade de origem, pois Cyro também compartilhava uma íntima relação com a natureza, comungando do grande mistério que é simplesmente estar vivo. Com a sua prosa elegante e correta, ele demonstrava grande sensibilidade, e por isso um dia eu o convidei a escrever na revista de crônicas que leva o nome de Rubem.

 

Ele aceitou, e desde então a cada duas semanas publicamos uma crônica sua, e sempre é uma crônica que mantém aquelas boas características que me fizeram conhecê-lo e que, agora percebo, também estão presente por todo este “A mulher que virou beija-flor” – que, aliás, é o nome de uma das mais belas peças do livro, com toda a sua poesia e o seu toque de fantasia a favor da ternura e da vida. 

Escritor que circula por vários gêneros, Cyro também aplica aquilo que é próprio do conto na forma breve da crônica, e daí resultam pungentes flagrantes da vida, com histórias cheias de candura e beleza, como “Chuva de janeiro”, algumas delas bem ligeiras, ágeis em seus diálogos, e todas marcadas por um sentimento que parece ser o de compaixão pelo ser humano, em sua luta para construir a própria vida.

 

Não admira que, com muita frequência, o lirismo já pronunciado de suas crônicas se transforme em poesia pura e simples, com os versos em geral servindo para um desfecho que ilustra e ao mesmo tempo reforça o significado de sua prosa. Não se consegue fazer crônica muito longe desses elementos, é sempre a vida, observada por um olhar de afeto, às vezes se expandindo até chegar ao formato de um verso.

 

É de se destacar que em um número significativo das histórias aqui apresentadas os personagens são já pessoas de certa idade (em um caso, até com 102 anos!). O cronista já está, ele próprio, na casa dos 86, e é estupendo que, a essa altura, ainda esteja escrevendo crônicas, inclusive aquelas em que tematiza, de forma madura e bonita, os dramas de uma faixa etária que costuma ter pouco espaço nos livros.

 

Mas não se pense que, por conta disso, o cronista também não seja um menino. É igualmente um menino e, ao contar uma história do passado, o tempo volta e aquilo acontece outra vez, um mundo de inocência, alegria e futebol no interior da Bahia. A crônica também é um terreno da memória e, ao evocar as próprias lembranças, o cronista permite que o leitor tenha acesso às dele, talvez não tão diferentes assim.

 

Tudo isso sempre com um importante vínculo com a cidade, seja a de memória, a de quando a cidade tinha lá os seus 15 mil habitantes, seja a do presente, moderna, automatizada, e que mesmo assim teve o seu fluxo interrompido na pandemia. Em todas as fases, é ali que encontramos o cronista, em sua maneira sensível de conceber a vida “na mais completa leitura do mundo, mas através da arte da palavra”.

 

Calhou que a cidade de Cyro ficasse afastada dos grandes mercados editoriais, o que torna ainda mais difícil a aspiração de viver apenas de literatura, o escritor, e o cronista mais do que todos, é antes de tudo um forte, alguém que nem conseguiria agir de outra maneira: “O sapo pula, o pássaro voa, o autor desta crônica escreve porque assim devia ser. Assim é sua maneira de ser útil ao mundo”.

 

Na mistura dos valores cristãos com a crença nos orixás, na condição sincrética de sua fé, Cyro encontra a força para continuar a “fazer a leitura do mundo um pouco mais acessível” – eis a utilidade do que escreve, e não é pouca. Não será a crônica[cp1]  que vai mudar o mundo, mas ela dá testemunho do tempo em que se escreve. E a ternura de histórias como a deste livro já alivia nosso peso e nos faz viver melhor.

 

*Henrique Fendrich

Jornalista, escritor, cronista.

Editor de Revista Rubem

 


 [cp1]

sexta-feira, 7 de março de 2025

 

                 O Caminhante das Letras

                         Cyro de Mattos

                                                  

A arte literária organiza conflitos, possibilita sonhos, equilibra-nos na loucura do mundo. Há quem diga que não serve para nada porque não se preocupa com as necessidades materiais no cotidiano da vida. Mas sem ela, não pensamos nem temos emoção. Sou, como diz o poeta Pessoa, cadáver ambulante que procria. Ela põe o tempo dos humanos com opções para aprofundar a vida, dos dias retirar personagens que se queimam com suas dúvidas, choram às escondidas com a sua incandescente ternura.  

      Costumo dizer que o escritor é a única criatura neste planeta que gesta e pare duas vezes o mesmo filho. Gesta com suas idealizações e pare assim que acaba de concluir o livro.  Gesta pela segunda vez na fase de produção editorial até que o livro seja publicado. Às vezes nada, nada, morre na praia. O editor comunica que vendeu a empresa a outro grupo. E agora José? Procurar ser indenizado através de uma ação judicial? Impossível quando o autor reside numa cidade do interior da Bahia, quilômetros de distância de São Paulo, a comarca eleita pelas partes para dirimir a questão dessa natureza, como determina o contrato de edição.  Só resta ao autor procurar outra editora, seguir seu suplício, pois tudo ficou como antes no quartel de Abrantes. Mesmo que se trate de autor com uma obra consolidada.

 Jorge Luís Borges declara que escreve para viver.  Gabriel García Márquez afirma que morre se não escrever, mas também morre se escrever. Drummond declara que escreve porque é escritor. O sapo pula, o pássaro voa, o autor desta crônica escreve, bem ou mal, porque assim devia ser. É  a sua maneira de ser útil ao outro no mundo. Se tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo, de novo escuto dizer isso Fernando Pessoa. Bom não esquecer, nós somos iguais, entre nascer, viver e morrer. Cada um no seu canto conta o seu tanto, como o vento não ficamos, para isso fomos feitos, o tempo não muda, perdura, nós passamos, passamos. E irremediavelmente sonhamos.

Viver de literatura só nos casos raros. Escrever prosa ou verso, para o adulto ou criança, é isso      que gosto de fazer. Amo a literatura, ela tem demonstrado que gosta de mim, vem me dando reconhecimento, boas surpresas, sustos esplêndidos, nem pensava chegar até aqui, ganhar com a literatura esses momentos que não têm preço. Aliás dizem que o homem se completa quando tem um filho, escreve um livro, planta uma árvore. Tenho três filhos, já plantei várias árvores e publiquei muitos livros de diversos gêneros, que mais posso querer?  

A estrada das letras, a essa altura comprida, me faz lembrar nesse momento os versos de Fernando Pessoa: “Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.”

 

domingo, 2 de fevereiro de 2025

 

Dia de Iemanjá

   Cyro de Mattos

 

Hoje é dois de fevereiro, dia de Iemanjá.  Aos pares ou em grupos todos vão ao Rio Vermelho para prestar sua homenagem à dona do mar. Vem gente do interior e de todos os cantos de Salvador de Bahia para comemorar a festa da rainha do mar. Pessoas circulam na areia da praia, entram no mar, depositam a oferenda nas águas. Desde cedo os fiéis vêm fazer suas preces e entregar presentes que são levados em barcos e deixados nas ondas. Flores, perfumes, colares, pulseiras, brincos, anéis, enfeites, espelhos, imagens de uma mulher formosa onde nos mares mais bela não há. 

Em sua linguagem mágica, atabaques tocam no tom cativante, brando. Cânticos e orações saem de vozes contritas, gestos de gratidão. Lamentos e pedidos, afetuosos com certeza. Provavelmente os pedidos são para que a rainha do mar apague o fogo dos inimigos com a força de suas águas. Traga ondas cheias de paz, saúde e prosperidade. Que sejam levados para os espaços mais profundos do mar desconhecido as dores, privações e ressentimentos.

Quando era estudante universitário, sempre frequentava o Rio Vermelho nesse dia especial para os baianos. O sol se pondo, o movimento de pessoas aumentando, à noite era difícil encontrar um espaço no largo para se instalar de maneira cômoda. Em trânsito, turistas queriam se aproximar dos grupos de pessoas que estavam entoando cânticos em torno da imagem de Iemanjá com os seus ares de orixá afetuoso, com bondade que sai do seu jeito maternal e se instala no coração de cada fiel com suas ondas de carícia.

O fiel sabe que não sucumbiu no ano graças a Iemanjá. Suplicou para que a rainha do mar o salvasse da situação contrária, levando-o para longe nas águas perigosas. Sem os verdes e azuis de ondas que jogam e passam serenas.

 Pessoas em fila movimentam-se na direção da baiana do acarajé.  Bares e barracas cheias de gente. Tudo é alegria que circula nos rostos com os ares perfumados que chegam das águas do mar. É dia também de brincar e brindar.

Há algum tempo já não vou à festa de Iemanjá no Rio Vermelho. Com a idade avançada, o corpo se ressente de movimentos firmes entre gente festiva por onde passa. Mas não deixo de acender minha vela no peji e agradecer à minha mãe mais um ano de vida no seio de minha família. Ainda vejo a vida com seus raios claros, escuto o canto dos passarinhos que saltitam alegres nas árvores do quintal do vizinho, nesse dia em que a Bahia inteira na cidade marinha  se rende em homenagens aquela mulher formosa e translúcida, de deusa poderosa que desde a madrugada vem cantar, rezar, na areia dançar. 

. Não esqueço o gesto daquela figura de homem concentrado em algo distante no dia dois de fevereiro. Um preto velho, cabelo miúdo, fios brancos, como se formassem uma boina natural tecida de bucha para adornar a cabeça marcada de esperança. Tinha um cacho de flores nos braços para na sua vez deixar nas ondas de mãe Iemanjá. Saía da expressão de seu rosto algo de místico e profundo. A certa altura cantou, mesclou seu canto com reza numa língua entendida por poucos. Interrompeu-se no gesto silencioso, de concentração e humildade nos olhos miúdos. Ficou olhando para longe, bem longe, seu olhar atravessando as ondas, indo rumo àquele ponto de onde vieram seus ancestrais na carga do navio com gente aprisionada no porão escuro. Olhava para lá das zonas mais remotas do mar, talvez buscando encontrar alguns de seus antepassados, que foram   arrancados daquela terra livre onde o sol nasce radiante e o céu faz uma curva.

Como esquecer esse dia florido nas espumas, dança mágica sob a luz do sol, prata da noite no dia perto de clarear, oguns em oração que também querem homenagear. Carícia de alga, onda rainha, sempre rezo nesse dia festivo consagrado à dona do mar. Salve, minha rainha. Odoiá! Odoiá! Ó minha mãe, no mar difícil vem me proteger.  Do sal que fere no atrito torna-me onda mansa desse mar sem grito.

sábado, 18 de janeiro de 2025

 

Para Lembrar a Academia de Letras de Itabuna

Por Cyro de Mattos

 

Verdade, o confrade Marcos Bandeira demonstrou qualidades admiráveis de um juiz de direito operoso na Vara Criminal da Comarca de Itabuna, apresentando domínio dos fatos trazidos ao processo, além de ser dono de instrumental teórico jurídico consistente em suas sentenças, proferidas com lucidez e equilíbrio, como o artigo de Rilvan Santana ressalta em boa hora. Com relação à sua atuação na fundação da Academia de Letras de Itabuna gostaria de acrescentar que se não fosse ele eu não seria um dos fundadores da entidade.   Quando fui presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, por várias vezes seguidas ele me visitou no meu gabinete, acompanhado do juiz de Direito Antônio Laranjeiras e o promotor Carlos Eduardo Passos. Mostraram da intenção e necessidade para se fundar uma academia de letras em Itabuna, na qual eu não poderia faltar. De tanto insistir com os outros dois preclaros homens da lei e por amor a Itabuna, terminei sucumbindo.

 

Para tanto, cedemos a sala da diretoria da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania para que fosse o local das primeiras reuniões preliminares com o intuito da criação da sonhada academia de letras. Na primeira reunião compareceram Marcos Bandeira, Antônio Laranjeira, Ary Quadros, Carlos Eduardo Passos, Cyro de Mattos, Dinalva Melo, Gustavo Fernando Veloso, Lurdes Bertol, Genny Xavier, Ruy Póvoas, Sione Porto, Sônia Maron, Marialda Jovita e Maria Luiza Nora.

 

Nas reuniões, indiquei dois terços dos nomes que deveriam constar no corpo de patronos e de membros da entidade. O nome de Jorge Amado para ser o patrono foi indicação de Sonia Maron e teve o apoio unânime dos presentes. Fiz ver que o nome do patrono devia ser Adonias Filho, uma vez que Jorge Amado já era o patrono da Academia Grapiúna de Letras. Sonia Maron e Sione Neto redigiram o Estatuto da Academia de Letras de Itabuna, em trabalho árduo e profícuo da Juíza de Direito e da competente delegada de polícia.

 

 Ao término daquelas reuniões tomadas emprestadas ao sonho e ao querer fazer o melhor para Itabuna, no campo das letras, ciências e cultura, sugeri que o escritor Aramis Ribeiro Costa, na qualidade de Presidente da Academia de Letras da Bahia, viesse presidir a sessão de instalação da instituição, o que aconteceu em memorável noite festiva no auditório lotado da Faculdade de Ciências e Tecnologia.

 

Antes que esqueça, o confrade Ary Quadro indicou, na última reunião realizada lá na FICC, o meu nome para ser o presidente da instituição, que estava nascendo alimentada pelo idealismo de alguns abnegados. Foi aceito por aclamação. Agradeci, mas recusei, por não me achar com perfil para a importante missão, daí ter referido o nome de Marcos Bandeira para ser o primeiro presidente da entidade, o que também foi aceito por aclamação.

 

Quanto à revista Guriatã e os dizeres Litteris Amplectis como marca do brasão da instituição foram sugestões nossas aprovadas em votação democrática da assembleia. Os dizeres Litteris Amplectis venceram as indicações desse teor mencionadas pelas confreiras Sonia Maron e Ceres Marylise, e isso foi registrado em ata. Esses fatos aconteceram quando a Academia estava funcionando com precariedade em duas salas do Edifício Dilson Cordier. Na época era presidida pela confreira Sonia Maron, diga-se com empenho, competência e sacrifício.  As duas salas foram cedidas sem custo por nossa querida Presidenta, de saudosa recordação. 

 

Tivemos ainda a ideia de apresentar o nome da revista, com o pássaro guriatã para a capa, aos presentes em uma sessão na sessão da assembleia, além disso funcionei como editor nos três primeiros números. A letra do hino e a criação da Medalha Jorge Amado são ideias nossas. Fiz mais de dez lançamentos de meus livros tendo como anfitriã a instituição. Tenho comparecido na revista Guriatã e site da Academia com frequência, desde a sua fundação, como autor de ensaios, contos, poemas e discurso. Mas é imperioso notar que não estou alegando  nada, acreditem. 

 

O confrade Marcos Bandeira tem declarado em algumas das reuniões que para ser como Jorge Amado eu só precisava morrer. Também afirmou que a Academia de Letras de Itabuna não existiria se não fosse por mim.  Não vejo assim, o gesto do confrade com tais afirmações decorrem de sua generosidade. Considero-me mais um membro da Academia de Letras de Itabuna, chamada carinhosamente de ALITA, para a qual procuro cumprir com os deveres estatutários. Concederam-me a distinção de Presidente de Honra, isso me qualifica como integrante da instituição, mas outros membros mereciam esse reconhecimento.

 

Fundada em 2011 para valorizar a literatura regional, entre seus objetivos, essa academia tem em seu Quadro de Presidentes o acadêmico Marcos Bandeira, as acadêmicas Sonia Maron, Silmara Oliveira e o confrade Wilson Caitano. Atualmente, a presidenta Raquel Rocha é quem rege o destino da entidade com altivez e dedicação, realizando bons projetos e conta para isso na diretoria com uma equipe constituída de membros eficazes em cada função. Possui a instituição quarenta patronos e quarenta acadêmicos, mais três sócios correspondentes.

 

E assim, como nos versos do poeta maior Marcus Accioly, “que o mundo todo é gaiola / E a vida é Guriatã”, vejo a Academia de Letras de Itabuna prosseguir com suas pegadas afirmativas de querer crescer para o bem das letras. É uma instituição pobre em termos econômicos, não tem sua sede, renda suficiente para dar voos mais altos, como a instituição anual de um concurso nacional de contos, romance, ensaio, exposições, encontros e seminários.  Faz o que pode com a junção de algumas vozes associativas que persistem com brio em escrever sua história.  Precisa do apoio de empresários para realizar suas ações, dos poderes públicos e da boa vontade dos que amam essa terra. 

 

 

sábado, 11 de janeiro de 2025

 

Entidade Símbolo dos ´Trabalhadores 

Por Cyro de Mattos

No dia 8 de fevereiro de 1920, artistas e operários de Itabuna se reuniram em momento festivo para a posse solene da primeira diretoria da Sociedade Monte Pio dos Artistas, eleita em 1º de novembro de 1919. Em momento histórico, de saudável memória, mostravam que de fato e de direito tinham obtido autonomia suficiente para construir uma sociedade de amparo à sua classe e que iria sobreviver às intempéries da dura lei da vida. A criação da entidade simbolizava um triunfo justo da luta organizada dos trabalhadores em busca de melhores condições de vida no sul baiano.  

Ao longo dos anos essa sociedade iria se consolidar como uma das principais agremiações de artistas e operários do Sul da Bahia, construindo uma significativa rede de sociabilidade e de solidariedade entre os trabalhadores.  Funcionou como palco de importantes reuniões envolvendo artesãos e autoridades políticas, bem como cenário de festividades em torno de quermesses e de tocatas da filarmônica, fruto do esforço das atividades desenvolvidas pelos seus membros.

A fundação da Sociedade Monte Pio dos Artistas foi liderada pelo carpinteiro Flaviano Domingues Moreira, que, após receber uma carta, que lhe fora enviada pelo deputado Maurício de Lacerda, reuniu ourives, pedreiros, tanoeiros, funileiros e outras categorias de artistas para criar uma das primeiras associações de trabalhadores da região cacaueira da Bahia. Através da instituição de caráter filantrópico, seus associados tornaram-se detentores de uma série de direitos que ajudavam a amparar parte da classe trabalhadora no enfrentamento de dificuldades econômicas, apesar da riqueza promovida pela economia cacaueira na região sulina do Estado.

Entre as vantagens, o membro da sociedade era amparado em caso de acidente de trabalho, de moléstia contraída, ou se viesse a ficar desempregado ou impedido de trabalhar. Esse espírito de corpo revelava o caráter solidário de humanismo social da associação, que buscava criar mecanismos de sobrevivência para seus membros.

O Monte Pio dos Artistas promoveu também a criação de duas outras entidades de relevante importância para a sociedade local – A Escola Manoel Vitorino e a Filarmônica Euterpe Itabunense. Foi por meio dos esforços de seus associados que, em 1921, inaugurou-se a escola noturna, destinada a educar os filhos de artistas e de trabalhadores que não tinham acesso à educação pública ou que não tinham condições de pagar escolas particulares.

Ressalve-se que a Sociedade Monte Pio dos Artistas de Itabuna tornou-se uma das poucas entidades dessa natureza que conseguiu sobreviver até o século XXI, mantendo-se ativa em suas funções, provavelmente a única. O autor do presente texto aprendeu o ABECÊ nos bancos da Escola Manoel Vitorino, com a professora Lourdes Hage. Pessoas ilustres da terra tiveram o aprendizado das primeiras letras nessa escola. Por outro lado, a Filarmônica Euterpe Itabunense foi criada em 1925 e sua função era reunir trabalhadores associados ao Monte Pio que tivessem vocação para a música. Era função da filarmônica comparecer às manifestações cívicas, religiosas e festivas da cidade. As tocatas dos músicos da Euterpe Itabunense ficaram registradas na memória de muitos moradores.

Uma dessas tocatas na praça Adami, sob a batuta do maestro Elpídio, foi assistida por um menino que se tornaria depois um dos poetas de sua terra. Anos mais tarde, o poeta registraria no seu livro Cancioneiro do Cacau o poema “Músico”, motivado por aquele momento de encanto e magia produzido pela Filarmônica da Euterpe na sua infância.

Abaixo transcrevo o poema.

 MÚSICO

(Para Sabará)

 

Encanto de som

vem da filarmônica,

na praça o povo

 êxtase de onda.

 Prata do clarinete,

 ouro do saxofone,

flor da flauta.

riso da tuba,

brilho do pistão,

diamante da caixa

e o voo na valsa.

(Cyro de Mattos)

 

 


 

Cyro aos quatro anos com os coleguinhas na Escola Montepio dos Artistas, é o primeiro da frente que segura o ABECÊ.

 

 

domingo, 5 de janeiro de 2025

 

Evocação de Ferradas em Versiprosa  

Por Cyro de Mattos                

                

                 Para Jorge Amado

                 e Telmo Padilha,

                 em memória.

 

De tanto estar o céu em longe amanhecer

dizendo o bem na fé houve o padre Livorno 

com a sua batina mágica.

Ecoava temente a Deus sua voz no chão bárbaro,

indiferente ao que dizia a escritura da paixão.

A catequese do louvor na sapiente profecia

se ligava nos indígenas como refúgio do amor.

Cruzavam as solidões sacolejando na carga

os que vinham de longe. No pouso do povoado

queriam nova ferradura para o casco da burrada.

Em alvoroço de festa ferravam até as árvores,

uma coisa grandiosa de ver onde deixavam sua marca 

para o mundo não esquecer.    

O machado anunciou os propósitos da terra,  

duras mãos enredaram grossos nós do destino.   

Com talhos na jaqueira a folhinha imprimiu      

as vastidões desoladas.  Em ébrio ouro vegetal

 facão e podão dançaram. 

Comercinho novo veio cifrar o mundo, o fazer

das ferramentas anotava a cada chuvada

a arte de influenciar a lavra.

Inaugurou-se a praça com água boa, ardente.

Lá para as tantas a viola no peito gemia,

 sua irmã sanfona retirava da lágrima     

sons agudos com suor, um frio medonho

da serra, os dias de açoite do vento

derrubando os paus grandes.  

 

Em casas escoradas o bafo da noite abafada, 

na cama de vara o coito quente ligando corpos

na danada hora do gozo se amassando e gemendo

e no ninho acontecendo.   

Marasmo de rua comprida oculta os dias de outrora,

amadurecidos na safra dourada como a riqueza,

no sobrado amanhecendo, o sol veio sumindo sem brilho

na vontade alquebrada soterrada de desejos.

Armazém de porta larga guarda o tempo remoto  

das estações grávidas, a barcaça com amêndoas

valendo tanto quanto ouro.

 Ferradas nem mais viceja, dorme agora, seu sono

arrastado de bicho pesado, submersa onde somras

 envolvem a praça calada,

Perto da igreja, em vigília costumeira, espera sua gente

 humilde, que vem à procura de Deus. Sua atitude lenta

agora é desprovida do cheiro de resina ligada na memória

de bairro-mãe  desprezado,  ao léu de omissões seguidas,

ninguém quer conhecer como ali se plantou a vida. 

Ao invés do vazio na história tudo que deseja é um caminho,

nada mais correto o lugar que lhe é devido nos frutos que deu,   

pois o amor ao amor retorna quando a razão tem caráter,

protege o que é da terra numa ação de erguimento

e não como longo despejo através da cor desbotada.