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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

 

TE ESTREMECES POR EL LOBO Y EL CORDERO

              Poema de Alfredo Pérez Alencart *

 

Te estremeces por el lobo y al cordero.

Amas ultrahumanamente, sin límites, como la música

del universo. Oh profunda sinfonía forjando

lo sagrado de principio a fin, alto asidero donde sobrepuja

la esperanza. Oh sucesión eterna que desatas

unisonancias, instintos trajinando hacia el magma

de lo trascendente, de la cadencia absolutoria

concebida compartiendo a ultranza las aguas profundas

y las hondas delicias de un contravuelo angélico

que se abroquela para recibir al Viento más feraz.

Siempreviva estás, trashumante presencia.

Te hospedas en la Luz que no aniquilan los ocasos.

Estando sin estar, eres evidencia,

cerebro verbal resaltando chispas de pureza,

latidos sin cautiverio, ciertísimo llamado de traslación

más allá de anhelos y desveladas ensoñaciones.

Pertenencia al páramo del Desprendido de sí,

a su oculto ritmo, a su lenta llama venturosamente

extemporal, cual indescifrable alianza.

Pertenencia al portal de los testigos,

al presagio de otro Reino, al aliento acrisolado

cual plenitud donde prospera lo sublime.

Pertenencia al verbo de una estrella.

Pertenencia al llagado cuerpo de doliente ternura.

Pertenencia al ala que se desvanece por los aires.

Pertenencia al linaje que acopia inocencias de siete en siete.

Te perpetúas en la antelación de la alegría

y asciendes, porque tu Unidad sabe la fórmula

de diásporas y deslumbramientos.

Clamas por tu orfandad. Clamas contra látigos agresivos,

fraternizando con los perseguidos, abrazándoles,

compartiéndoles la realidad que hay en los milagros.

Nada te desmide,

Criatura de nombre hermosamente pronunciado,

piel consumante, contorno que se aviene a penetrar

en frondas de cálido renacer.

Mantienes el don de ser el antes y el después,

lámpara alumbrando los vuelos breves del pájaro, su sombra

en la alta noche del abismo.

Conduces los fervores hacia el alba adolescente,

pulsas con tu estatura de Árbol de vida, riegas violetas

con el cause de tus transpiraciones.

¡Horizontal ejemplo el de las manos extendidas,

el del pulso que sustenta! ¡Belleza de la Forma en el paisaje!

¡Oh Dios, qué desnudo afán el de este Amor

avanzando eterno, dándose así, tan pródigo!

 

¿Qué savias vas donando?, ¿qué otras luciérnagas te rondan?

 

 TE AGITAS PELO LOBO E O CORDEIRO 

        Poema de Alfredo Pérez Alencart

               Tradução de Cláudio Aguiar*

 

Te estremeces pelo lobo e pelo cordeiro.

Amas de forma ultra-humana, sem limites, como a música

do universo. Oh profunda sinfonia forjando

o sagrado do começo ao fim, alto pretexto onde domina

a esperança. Oh sucessão eterna que desencadeias

assonâncias, instintos laborando rumo ao magma

do transcendente, da cadência absoluta

concebida com o compartilhamento das águas profundas

e das saborosas delícias de um contravoo angelical

acomodadas para suportar o Vento mais copioso.

Estarás como a sempre-viva, qual presença transumante.

Ficarás na luz que não mata o pôr do sol.

Estando sem estar, tu eres evidência,

cérebro verbal destacando faíscas de pureza,

pulsações sem cativeiro, correta chamada de translação

além de anseios e de desvelados sonhos.

Pertencias ao terreno do Despretensioso,

ao seu ritmo oculto, à sua chama lenta, felizmente

extemporânea, qual aliança indecifrável.

Pertencias ao portal das testemunhas,

para profecia de outro Reino, ao refinado alento,

cuja plenitude reside onde floresce o sublime.

Integravas o verbo de uma estrela.

Pertencias ao corpo ferido de ternura sofredora.

Pertencendo à asa que desaparece pelos ares.

Pertencias à linhagem que coleta inocências de sete em sete.

Te perpetuas na antecipação da alegria

e ascendes, porque tua Unidade conhece a fórmula

das diásporas e dos deslumbramentos.

Clamas por tua orfandade. Clamas contra chicotes agressivos,

confraternizando com os perseguidos, abraçando-os,

compartilhando com eles a realidade dos milagres.

Nada te rebaixa,

criatura de nome formosamente pronunciado,

pele aliciante, contorno para penetrar

em frondes de renascimento quente.

Tu manténs o dom de ser o antes e o depois,

lâmpada iluminando os breves voos do pássaro, sua sombra

na alta noite do abismo.

Conduzes os fervores rumo ao amanhecer adolescente,

pulsas com tua estatura de Árvore da vida, regas violetas

com o leito de tuas transpirações.

Exemplo horizontal o das mãos estendidas,

o do pulso que sustenta! Beleza da forma na paisagem!

Oh Deus, que desejo nu é este Amor

avançando eterno, dando-se, assim, tão pródigo!

 

Que seivas estás doando? Que outros vaga-lumes te rodeiam?

 

 

*Poeta peruano-espanhol, Alfredo Pérez Alencart reside em Salamanca, Espanha, onde é professor universitário e organizador dos Encontros de Poetas Ibero-Americanos. Poeta premiado, de reconhecimento internacional. Já publicou mais de uma vintena de livros de poesia, é traduzido e publicado em inúmeros idiomas.  

** Cláudio Aguiar é ficcionista e ensaísta. Autor premiado com o Jabuti e pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. Foi presidente do Pen Clube do Brasil.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

O homem que sabia a verdade

 

Cacá Diegues                                                                     5 de fevereiro de 2021

 

Já disse, mais de uma vez, que João Ubaldo Ribeiro foi um presente que Glauber Rocha me deu. Quando soube que eu ia à Bahia pela primeira vez, para apresentar “A grande cidade”, meu segundo longa-metragem, num festival local, Glauber decretou formalmente que eu não veria ninguém na cidade antes de conhecer e encontrar Ubaldo. Pensando bem, não era apenas um presente que Glauber queria me dar. Era também uma ordem, como era seu costume fazer.

 

Como era meu costume fazer, cumpri ao pé da letra a ordem de Glauber. No dia seguinte à minha chegada, a cidade se preparava febril para o carnaval quando deixei o hotel e fui à redação do jornal em que Ubaldo trabalhava, conforme Glauber pusera num pedaço de papel, com data e hora, para que eu não me esquecesse.

 

Para minha surpresa, Ubaldo não era um sedutor afável como os outros baianos dessa geração que eu havia conhecido. Me perturbava ter de falar mais do que ele e obter respostas curtas que pareciam conter uma ironia que eu não era capaz de entender.  Ubaldo tinha que voltar para a redação e exagerava, como se tudo no jornal dependesse dele. Eu não podia ter argumento para mantê-lo a meu lado. 

 

Como no romance de Graciliano Ramos, conheci Ubaldo mas não o conheci de uma vez. Foram necessários fins de tarde indo aonde ele me mandava ir, descobrir de onde vinha sua capacidade de explicar o que a gente, sem lhe pedir nada, precisava que fosse explicado. Nossa amizade se desenvolveria depois, no crescente caos material e espiritual do Rio de Janeiro, para onde se mudara. Hoje, posso passar o resto de minha vida falando e escrevendo sobre ele. Embora, como todo personagem de romance que vale à pena, ainda não saiba exatamente quem era João Ubaldo.

 

Já disse também que adoro a epígrafe de “Viva o povo brasileiro”, esse monumento da literatura em língua portuguesa: “O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”. Uma versão solar da ideia de Gilles Deleuze a propósito de Proust: não existe a verdade, só interpretações. Mais adiante, ainda em “Viva o povo brasileiro”, ele se explica com clareza: “Saber da verdade e querer impô-la aos outros, num mundo onde tudo muda e tudo se encobre por toda sorte de aparências, é uma grave espécie de loucura”.

 

Há pessoas que, quando morrem, nos tiram pelo menos um pouco da graça da vida. Ubaldo foi uma delas.  Fico esperando que um texto seu, um excerto qualquer, me diga porquê. Quando fui informado pela direção do jornal que minha coluna passaria a ser publicada no domingo, como foi a dele até a semana de sua morte, tive a impressão de vê-lo a meu lado rindo muito, nem sei direito porquê. No próximo delírio sobre o assunto, vou pedir a Ubaldo que me traga com ele Glauber Rocha, para que eu possa explicar um pouco quem eu sou. Só um pouco, porque muito também não sei. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

 

Recordações do Internato

       Cyro de Mattos

 

             A primeira noite no internato não dormiu bem. A mangueira lá fora sob a claridade da lua projetava com os galhos figuras estranhas na parede do dormitório.  A chuva que caiu forte fez barulho no telhado. O vento uivou por entre a folhagem da mangueira. Os ruídos que chegavam de fora entravam no dormitório pelas gretas da janela. Teve medo. A noite tremia dentro dele com sombras e rumores. Que seria o mundo para ele dali para frente?   

   Levava consigo as lembranças que cada um carregava de sua cidade para onde fosse:  gestos, gostos, cores, bichos, sustos esplêndidos, risos com os amigos, pois era assim que respirava o dia na aventura da vida, lá no chão de seu nascimento, portando a flor do sol acesa no peito nu pelas ruas da fantasia e alegria. Recordou mergulhos e pescarias que fazia com a turma de amigos no rio de vertentes puras e claríssimas, o vaivém do jogo de bola nos campinhos improvisados dos terrenos baldios e o roubo constante de frutas maduras nos quintais espalhados pela sua cidade amada, que de tão enlameada com a chuva grossa de inverno sujava os sapatos dos seus habitantes, atolava os carros na rua. 

Houve naquela primeira noite do internato sombras que envolviam um pássaro com a plumagem do temor. Um pássaro que de repente se sentiu aprisionado, em vão tentara se libertar para voltar à paisagem da terra natal, no espaço sem voo ficava dando agora com as asas de encontro às paredes da gaiola. Sentia que o calendário reservado pelo tempo para ele era agora diferente, descortinava no caminho comprido só estudo, disciplina e reza. Atrás, na sua pequena cidade, o tempo se encarregaria de esfumar todas as manhãs do mundo tecidas nos eternos fios do sonho, com as brincadeiras pontilhadas na aventura feita com delícia e liberdade.

Não mais o tempo se apresentaria com suas mil línguas de chuva para arejar o dia com o cheiro cheiroso de terra molhada, nem daria uma sensação especial quando o sol resvalasse nos seres e coisas com o brilho de sua flor gigantesca aberta no céu. Não mais saberia do convite que o tempo costumava fazer para correr e ampliar-se na ciclagem de prazer que o coração nutria em si mesmo, em pulsações generosas, que pareciam não ter término. 

 

           

 

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

 Sonetos Inspirados em Fernando Pessoa 

                             

                                 Cyro de Mattos

 

I

Daqui este mar inunda-me de ilhas

Dos que quiseram o sonho, cansaço

A subir das espumas e sabê-lo.

Daqui este mar define-me anseios

 

Da caravela de onde venho e vou.

Daqui este mar um lugar remoto,

De tanto estar nele o fado a querer

Que eu navegasse atento, sem tremor,   

 

E lambesse o sal de meus sentimentos

Esperançosos de pisar na terra 

Que me acenava com as suas riquezas.  

 

Daqui este mar fado vazando veia,

De repente a Pátria na onda do mito

O azul mais vasto a terra inteira visse.

 

II

Um doido que estranhou sua própria alma,

Fingidor que, na hora abissal ou pasma,

Como verdade chegou a fingir

Ser dor o que dentro sente; a urdir

 

Que tudo vale a pena se a alma não é

Pequena, grande ergue-se no poema,

Que o serve de metafísica extrema.

Traduz na frase grave como é

 

Ser genial, fruto de heterônimos

Em diversos enredos de nós mesmos,

Nas vozes todas em que sonhos pomos.

 

Triste passageiro, que insone chora,

Esse Apolo no som de sua lira,         

Apegado à noite final que o espera. 

 

III

Lá na minha aldeia

Tem um rio só 

De sonho, melhor 

Que o Tejo, maior

 

Que o Nilo.  Meu rio,

Que comigo traça   

Castelos de amor,   

O de minha aldeia.

 

Brilha volta e meia

Nos cachos do sol, 

No leito do eterno

 

Onde sempre leva  

Nas águas correntes    

Meus versos com flor.           

     

IV

Tocador de lira.  Cordas sentem

Sustos e surpresas na passagem

Do infante, no íntimo do homem, na vida 

Fadada nos desvãos da alma sentida.

 

É belo o som que vem dessa música,

Fala do tecido duma túnica

Que se mede nas imagens das dores,

Paredes de tristezas e clamores

 

Misturados do que é, foi e será.   

Círculo de tormentos no mundo    

Enquanto vê e deste quer falar.      

 

As cartas de amor pulsam em degredo,       

Mostram falhas da vida assim disposta,        

Dos que vivem sozinhos sem resposta.            

 

V

 Amargura, desgraça, solidão.

Os deuses também moram no meu ermo, 

Sabem   do meu fado nesse desterro,

De onde procedo na velha   ilusão

 

De que tudo emerge dos sentimentos,

Da esperança de fortes movimentos.

Parecem deter-se nessa poeira

Do tempo, rumo à névoa derradeira.

 

Nunca me querem como um cadáver

Ambulante que procria, incumbem-me  

Ser tudo no verbo, como refém, 

 

Dessa hora difícil pra achar a chave

Da vida que por aí vai na asa dessas   

Emoções conhecidas como intensas.     

           

VI

Sou um ser interior, demiurgo

E profeta, de lira no meu burgo

O enigma em pessoa, um e vário,

Amarrado nesses nós do mistério.

 

Criei as odes de Ricardo Reis,

O Álvaro de Campos, também Caieiro,

No tempo sonhos do mundo gravei,    

Falei de solidões de amargo travo.

 

Fiz, como simulador de emoções,

Que gente enxergasse da identidade

Novas cenas, da existência verdade.

 

Culminei no legado, que, por razões

Do fado, pôs nas zonas da cegueira

Esses ritos de minha canção rara.     

 

VII

Digo, nunca fui campeão de nada.  

Sou um fraco, sempre tomei porrada.  

Ninguém me salva, está na colisão

Do viver com os outros meu coração.

 

Vejo muitos amigos senhores de tudo,

Ao largo vão como gente sem falha

Enquanto eu, o mais imperfeito, na malha

Da ilusão persigo o mundo que espalha

 

 Minhas almas nessa hora do café. 

No quarto tenho o meu pai, o poema.

Meu jeito de ser só, mas nunca a fama  

 

Quero. Cartas de amor, leais, até

Que me esforço para escrevê-las puras, 

Isentas de dor nas pancadas duras. 

 

*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta. Premiado no Brasil e exterior. Autor de mais de 50 livros. É também publicado no exterior. Seus livros infantojuvenis são adotados nas escolas do Brasil. Os destinados ao leitor crítico são estudados em universidade. Membro da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris

sábado, 9 de janeiro de 2021

 

           Uma Rosa para Aqueles Doidos Mansos

                  

                            Cyro de Mattos

 

         A cidade tinha seus doidos mansos, suas manias faziam com que gente adulta sorrisse e os meninos mangassem quando deparavam a cena engraçada. De tão mansos mal não faziam a uma mosca. Ingênuos, indefesos, triste gente perseguida pelo fado. Incansáveis atores na vida diária, funcionavam como o riso da rua. Havia Mula-Manca, só andava bêbado, mal se aguentava nas pernas, tropeçava nos passos. Maria Camisão suspendia de repente a camisola e mostrava a parte debaixo, entre as pernas, coberta com o tufo de cabelo. Ela dizia nomes feios, oferecia a quem quisesse o sexo cabeludo aparentando uma coisa horrenda. Zeles Carnavalesco pela rua saracoteava, tremia como um boneco elétrico em tempo de carnaval. Não parava de pular, mexer e rodar na frente do bloco carnavalesco.

      O tal de Jipe se dizia portador dentro dele de um carro de corrida, que não tinha preço. Saía disparado pelo calçamento, buzinando. Na avenida do comércio, passava veloz segurando numa mão uma placa com o número do carro e na outra um farol sem lâmpada.  Chiranha era o que adivinhava qual seria o número sorteado no jogo da loteria. Ainda tinha o doido Paturi, um meio azoado, ele virava uma fera quando era arreliado com aquele apelido que detestava.

          E o Ciro Mergulhador?

          Quando o gaiato dizia:

       - Ciro Mergulhador!

       A resposta era uma só:

       - Atrás de moça bonita!

        Todos eles exerciam seu papel particular na vida da cidade. O tal Jipe fazia o preparo físico para fortalecer o fôlego pela madrugada, indo e vindo disparado muitas vezes na travessia que fazia no piso da Ponte Velha. Até que chegava como um vento veloz ao centro da cidade, buzinando, gritando para que a pessoa saísse da frente, se não quisesse ser atropelada, estava com pressa, ia calibrar os pneus de seu carro para uma viagem que faria naquele dia até a cidade vizinha de Ilhéus. Não queria chegar atrasado no local de saída, as pessoas que iriam ser conduzidas na viagem poderiam desistir com o atraso de seu jipe e irem embora.

           Lembro de todos eles, como se estivessem agora ressurgidos do tempo longínquo, que se esfumou na curva dos anos. Exsurgem com suas graças e ingenuidades de gestos para fazer a cidade mais humana, com sons e cores de uma gente que divertia a vida sem querer nada de volta.  Doidos mansos de minha terra, anunciados pelo destino em cada número do teatro da vida, como se fossem figuras grotescas, mas que eram queridas por gente grande e pequena, pelo espetáculo que era dado de graça.  

           Mula-Manca, Maria Camisão, Ciro Mergulhador, o tal Jipe falado, Zeles Carnavalesco, Chiranha, mais Paturi, porque me fizeram um menino alegre, dedico-lhes agora essa crônica como se fosse uma rosa que emerge com o seu perfume suave do lugar onde não morre a ternura.

 

           Uma Rosa para Aqueles Doidos Mansos

                  

                            Cyro de Mattos

 

         A cidade tinha seus doidos mansos, suas manias faziam com que gente adulta sorrisse e os meninos mangassem quando deparavam a cena engraçada. De tão mansos mal não faziam a uma mosca. Ingênuos, indefesos, triste gente perseguida pelo fado. Incansáveis atores na vida diária, funcionavam como o riso da rua. Havia Mula-Manca, só andava bêbado, mal se aguentava nas pernas, tropeçava nos passos. Maria Camisão suspendia de repente a camisola e mostrava a parte debaixo, entre as pernas, coberta com o tufo de cabelo. Ela dizia nomes feios, oferecia a quem quisesse o sexo cabeludo aparentando uma coisa horrenda. Zeles Carnavalesco pela rua saracoteava, tremia como um boneco elétrico em tempo de carnaval. Não parava de pular, mexer e rodar na frente do bloco carnavalesco.

      O tal de Jipe se dizia portador dentro dele de um carro de corrida, que não tinha preço. Saía disparado pelo calçamento, buzinando. Na avenida do comércio, passava veloz segurando numa mão uma placa com o número do carro e na outra um farol sem lâmpada.  Chiranha era o que adivinhava qual seria o número sorteado no jogo da loteria. Ainda tinha o doido Paturi, um meio azoado, ele virava uma fera quando era arreliado com aquele apelido que detestava.

          E o Ciro Mergulhador?

          Quando o gaiato dizia:

       - Ciro Mergulhador!

       A resposta era uma só:

       - Atrás de moça bonita!

        Todos eles exerciam seu papel particular na vida da cidade. O tal Jipe fazia o preparo físico para fortalecer o fôlego pela madrugada, indo e vindo disparado muitas vezes na travessia que fazia no piso da Ponte Velha. Até que chegava como um vento veloz ao centro da cidade, buzinando, gritando para que a pessoa saísse da frente, se não quisesse ser atropelada, estava com pressa, ia calibrar os pneus de seu carro para uma viagem que faria naquele dia até a cidade vizinha de Ilhéus. Não queria chegar atrasado no local de saída, as pessoas que iriam ser conduzidas na viagem poderiam desistir com o atraso de seu jipe e irem embora.

           Lembro de todos eles, como se estivessem agora ressurgidos do tempo longínquo, que se esfumou na curva dos anos. Exsurgem com suas graças e ingenuidades de gestos para fazer a cidade mais humana, com sons e cores de uma gente que divertia a vida sem querer nada de volta.  Doidos mansos de minha terra, anunciados pelo destino em cada número do teatro da vida, como se fossem figuras grotescas, mas que eram queridas por gente grande e pequena, pelo espetáculo que era dado de graça.  

           Mula-Manca, Maria Camisão, Ciro Mergulhador, o tal Jipe falado, Zeles Carnavalesco, Chiranha, mais Paturi, porque me fizeram um menino alegre, dedico-lhes agora essa crônica como se fosse uma rosa que emerge com o seu perfume suave do lugar onde não morre a ternura.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

 

Editora da UESC Lança Três Livros

Novos do Autor Cyro de Mattos

 

A Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, acaba de publicar três livros novos do ficcionista e poeta Cyro de Mattos. Os livros formam a Coleção Infância Livre e são estes: Nada Era Melhor, romance da infância, O Discurso do Rio, poesia, e Pequenos Corações, contos. O tema é a infância, retratada nos sentimentos que o autor teve na sua cidade natal, naqueles idos longe da diversão dos jogos eletrônicos de hoje.

A infância aqui circula como expressão do sonho e da liberdade, nostalgia e inconformismo. Uma fusão de saudade e dor encontramos nos trinta sonetos de O Discurso do Rio. Uma representação da infância com as marcas da aventura generosa vemos nos episódios de Nada Era Melhor. Em Pequenos Corações, contos de meninos, vivemos dentro de nós a vida que em cada episódio ela suscita com os ritos de passagem, ora alegres, ora tristes.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

 

O Pequeno Franzino Lua

                    Cyro de Mattos

 

O futebol de Itabuna, digno de seu passado amador brilhante, quando era vencedor constante, dava orgulho à cidade. De uns tempos para cá se tornara em grande frustração, abatendo o torcedor de gerações passadas, acostumado a comparecer ao velho Campo da Desportiva para torcer com entusiasmo pelo seu time do coração. A frustração que esse torcedor saudoso carrega dentro dele hoje força que acenda o coração no sentimento de amor e saudade. De grandeza, autoestima. Lembre-se do tempo em que esse futebol amador foi pródigo em oferecer partidas memoráveis, portadoras da verdade como reflexo da vida, dizendo que nela existe a alegria dos que vencem, a tristeza dos que perdem, conformismo ou não dos que empatam em cada batalha.

           Eram    quatro irmãos, quatro craques do nosso futebol amador. Os quatro irmãos Riela formaram um capítulo à parte nas partidas disputadas no Campo da Desportiva. Eram conhecidos como os quatro mosqueteiros do rei, pois constante era o sentimento de união entre eles no relacionamento com a vida. Fernando, Carlos, Leto e Lua eram inseparáveis. A separação somente acontecia quando iam defender as cores de seu clube. Carlos e Fernando jogaram no Fluminense, Leto no Flamengo e Lua no Janízaros. Quando se enfrentavam, o sentimento de irmandade ficava de lado, cada um dava o melhor para defender o seu time. Os quatro eram jogadores dotados de recursos técnicos invejáveis. Cada um com a sua característica na intimidade com a bola.

Fizeram história no Campo da Desportiva. Fernando como um ponta-esquerda que driblava numa velocidade espantosa, deixava o marcador para trás, batido pelo chão, e o torcedor incrédulo ante a investida impetuosa, fundamental na conclusão da jogada perfeita pela beirada do campo. O meia-direita Carlos tinha boa visão de jogo, não olhava para a bola, de cabeça erguida via o companheiro e o campo para o lançamento preciso. Era um médio armador elegante. Leto jogou no Flamengo e se sagrou campeão pela seleção de Itabuna, médio-esquerdo implacável na marcação, com uma eficiência exemplar anulava o ponta-direita, que pouco pegava na bola durante os lances acirrados da partida.

         Lua, o mais novo, era dos quatro o que mais encantava, fazia o torcedor ficar com a boca larga, de tanto que sorria com os seus dribles desconcertantes.  Parecia flutuar em campo na condução da bola, um pássaro que se desvencilhava do obstáculo e no chão voava?  Gingava, driblava, enganava, aquele jogador franzino transvestido em um artista que desenhava a jogada como num sonho. Fazia a tabelinha com o companheiro, deslizava, bailarino ou vento ligeiro que fazia o espetáculo pontilhado de riso e gozo?

         Os admiradores de Lua não cansavam de dizer que dos irmãos Riela ele era o melhor, o que tinha mais recursos técnicos, o pequeno maior. Jogou no Janízaros e na seleção amadora de Itabuna quando esta começou o declínio para não mais conquistar o Intermunicipal. O seu futebol era de tão boa qualidade que foi aproveitado no time profissional do Itabuna. Tinha recursos para jogar em qualquer time grande do Rio ou São Paulo. Se fosse hoje, não tenho dúvida, melhor preparado fisicamente, estaria atuando até em equipes europeias de ponta. Por que não? Quem viu, sabe do que estou falando, não me deixa mentir.

          Aquele jogador franzino, travesso em cada drible que dava, deixou-nos há pouco, está em outras dimensões fazendo os anjos não parar de sorrir com os seus dribles cheios de molecagem.  

 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

 



 
No Brasil o "I Seminário Edivaldo M. Boaventura"- Academia Baiana de Educação: homenagem a um imenso educador 

por
Antonella Rita Roscilli


                                                                      

                                                                                                                                                                                  

Muito poderà contar Itália sobre  o prof. Edivaldo M. Boaventura quem està escrevendo estas páginas, e que teve o imenso privilegio de conhecer este grande educador, sempre acompanhado por uma humanidade e gentileza impar junto à sua esposa Solange. Tive a honra de ter ele como orador durante a minha posse em 2012 como membro correspondente pela Italia na ALB. Me convidou para escrever o prefacio da obra dele "Viagens a caminho do saber" (Quarteto ed.), com a bela capa criada por Daniel Boaventura.

Com ele promovemos em 2017 no IGHB-Instituto Geográfico Histórico da Bahia o seminário “O Príncipe italiano Umberto di Savoia e a sua passagem na Bahia em 1924” e foi uma grande alegria ter ele na mesa com um texto belissimo, junto ao ex Governador Roberto Santos, filho do Reitor Edgar Santos que tanto fez para desenvolver a Universidade Federal da Bahia. E ainda, ter a honra de ter ele como colaborador desta Revista italiana "Sarapegbe", com artigos brilhantes. Guardo na minha estante suas  preciosas obras.
 
A "Academia Baiana de Educação" organiza para o dia 10 de dezembro o I Seminario Edivaldo M. Boaventura, um webinario que visa comemorar os 87 anos de nascimento de Edivaldo M. Boaventura (Feira de Santana, 10 de dezembro 1933- Salvador, 22 de agosto de 2018), uma das mais notáveis personalidades do cenário cultural e educacional baiano e brasileiro contemporâneo, e que deixou um conjunto de obras e ações de valor incomensurável para o estado da Bahia e o Brasil inteiro. Profissional dedicado, acreditava firme na Educação como fator de desenvolvimento e a isso dedicou a própria vida, com alta competência e coerência e humildade.
 
O Seminário, organizado por Alfredo Matta  teve como anfitrião Astor de Castro Pessoa, Presidente da Academia Baiana de Educação, e como conferencistas professores e intelectuais de alto nível profissional como Antonietta Nunes, Dom Emanuel Amaral, Adriano Eysen, Leda Jesuino, Lidia Pimenta, Adriano Matta, Francisca de Paula, e do Portugal Miguel Monteiro.  Durante o evento foi lançado o Memorial virtual e houve o pré-lançamento do livro "A criação da UNEB: Percursos de Edivaldo Boaventura" (ed. Mondrongo), Adriano Eysen, Bruno Lopes Do Rosario e Lidia Boaventura Pimenta (organizadores).
 
                                                                   
Professor e educador, Edivaldo M. Boaventura contribuiu na formação de professores e de profissionais, e orientou milhares de estudantes até o fim da sua vida. Entre as suas múltiplas atividades, foi escritor, diretor-geral do Jornal A Tarde, ocupou a cadeira 39 da Academia de Letras da Bahia-ALB desde 1971, foi Presidente da ALB quando foram reorganizados o site na Internet, o Arquivo e a Biblioteca da ALB, re-inaugurada por ele no dia 10 de agosto de 2012 e intitulada a Jorge Amado.
 
Exerceu funções de importância e destaque na sociedade baiana, como secretário de Educação e Cultura da Bahia, além de ser fundador e primeiro Reitor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) com seus muitos Campus que difundiram a UNEB em vários lugares e cidades do interior da Bahia, assim possibilitando aos jovens o direito de acesso à educação academica publica, de qualidade e inclusiva, a sem  eles terem mais a obrigação de deixar a própria cidade para poder continuar com os estudos. Era Membro da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), membro da Academia de Letras Jurídicas da Bahia, membro da Academia Brasileira de Educação, Membro e Orador Oficial do IGHB, fundador da Faculdade de Educação da Ufba e Academia de Ciências da Bahia.
 
Foi pioneiro na introdução dos estudos africanos na educação. Em "A construção da universidade baiana: origens, missões e afrodescendência"(ed. Edufba), na página 215 Edivaldo M. Boaventura escreve: "A educação estaria comprometida se não estivesse assentada na realidade histórico-cultural da sociedade a que se destina. Firmada nesta convicção, a Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia, gestão 1983-1987, instituiu a disciplina Introdução aos Estudos Africanos, precedida do Curso de Especialização em Estudos da História e das Culturas Africanas para habilitar docentes no ensino dessa matéria. Desenvolvemos uma iniciativa pioneira e condizente com as tradições afrobaianas." 

Entre as muitas e ilustres atividades, não podemos esquecer a criação do primeiro parque na Bahia, o Parque Castro Alves, em Muritiba, na Fazenda Cabaceiras, onde o poeta Castro Alves nasceu, a cerca de 150 quilômetros de Salvador. "Hildérico Pinheiro de Oliveiro trabalhara com Anísio Teixeira, e foi fundamental nesse projeto. Pedro Calmon também desenhou o que imaginava. O parque acabou saindo no segundo semestre de 1970. Deixamos a localidade com quatro salas de aula, então o curso primário completo" disse uma vez. E depois criou um outro, o importante e belo Parque de Canudos. 
 
No Jornal A Tarde, Edivaldo Boaventura assumiu o cargo de diretor-geral em 1996. Durante a gestão, ele deu especial atenção ao projeto A Tarde Educaçãoinserindo o jornal nas escolas do interior da Bahia. Orgulhoso Cidadão de Feira de Santana era membro da Academia Feirense de Letras. Apaixonado estimador do Portugal, foi condecorado pelo governo de Portugal com a Ordem da Instrução Pública no grau de Comendador, pelos serviços prestados à educação e cultura nos dois países de língua portuguesa.
 
Educador e trabalhador incansável e visionario, jà há muito tempo ele estava convencido de que a educação a distância é um fator fundamental, ao atingir áreas e pessoas muito distantes dos grandes centros deste país continental e do estado da Bahia, que tem mais de 560 mil quilômetros quadrados. "Temos que ser pelas aprendizagens híbridas, a presencial e aquela a distância; as duas modalidades devem se complementar" dizia.
Edivaldo M. Boaventura permanece um farol de Luz e viverà para sempre através seus livros que continuam ajudando milhares de estudantes e estudiosos.
 

Antonella Rita Roscilli. Lusitanista, jornalista, escritora e tradutora. Formada na Itália em Língua e Literatura do Brasil e dos países africanos de língua oficial portuguesa, trabalhou por muitos anos na emissora publica  RAI-Radiotelevisione Italiana. Se ocupa de temáticas interculturais e comunicação. No Brasil faz parte da Academia de Letras da Bahia e do Instituto Geográfico Histórico (IGHB), eleita Membro Correspondente pela Itália. No Brasil està vinculada à UFBA e è pesquisadora do CNPq.  Como biógrafa da memorialista Zélia Gattai, esposa do escritor Jorge Amado, publicou no Brasil obras quais Zélia de Euá Rodeada de Estrelas (ed. Casa de Palavras), Da palavra à imagem em “Anarquistas, graças a Deus” e Zélia Gattai e a Emigração italiana no Brasil entre Séc. XIX e XX com a Edufba, editora da Universidade Federal da Bahia. 

 

OS 100 ANOS DE NASCIMENTO DE CLARICE LISPECTOR

 

Ricardo Cravo Albin

 

Nesta quinta feira a literatura está em festas. A celebração dos 100 anos de Clarice Lispector representa mais, muito mais, para o fazer literário, o escrito na língua portuguesa, do que pode avaliar nossa apelidada “vã consciência”.

 

Clarice, que se intitulava mais uma jornalista do que escritora, errou em sua auto avaliação. Porque tudo que fez manejando palavras e o estímulo do intelecto em forma de arte ficou revestido de um grau superior e universal.

 

Por essa razão, acode-me a memória das muitas conversas que mantínhamos dentro do Conselho de Literatura do Museu da Imagem e do Som, de que ela participava a meu convite tanto na busca dos nomes para os depoimentos destinados à posteridade quanto para escolha dos prêmios Golfinho de Ouro e Estácio de Sá, os melhores do ano em literatura. Ao final da tarde, o Conselho de Literatura já encerrado, eu levava Clarice ao seu apartamento no Leme, na Gustavo Sampaio.

 

Evoco essa memória de amizade e admiração porque já naquela época muitos críticos intuíam dentro e fora do Conselho que caberia à Clarice uma consagração internacional. Sua literatura absolutamente original para a época estimulava o futuro, projetava audácia, arquitetava beleza e surpresa.

 

Seguem abaixo, tanto como farei amanhã com seu vizinho de data de aniversário, Noel Rosa, algumas frases que definem a essência do seu pensamento provocador.

 

1- “Não entendo, apenas sinto. Tenho medo de um dia entender e deixar de sentir.”

2- “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

3- “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

4- “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

5- “O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.”

6- “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”

7- “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar.”

8- “Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar. Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.”

9- “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.”

10- “E se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.”

11- “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.”

12- “Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”

 

Como fiz questão de que o Pen Clube Internacional do Brasil a homenageasse, repito aqui a frase que encimou toda a correspondência do nosso Organismo Internacional.

 

2020 – ANO DOS 100 ANOS DE CLARICE LISPECTOR

 

·      Ricardo Cravo Albin é presidente do Pen Clube do Brasil.

 

 

OS 100 ANOS DE NASCIMENTO DE CLARICE LISPECTOR

 

                          Ricardo Cravo Albin

 

Nesta quinta feira a literatura está em festas. A celebração dos 100 anos de Clarice Lispector representa mais, muito mais, para o fazer literário, o escrito na língua portuguesa, do que pode avaliar nossa apelidada “vã consciência”.

 

Clarice, que se intitulava mais uma jornalista do que escritora, errou em sua auto avaliação. Porque tudo que fez manejando palavras e o estímulo do intelecto em forma de arte ficou revestido de um grau superior e universal.

 

Por essa razão, acode-me a memória das muitas conversas que mantínhamos dentro do Conselho de Literatura do Museu da Imagem e do Som, de que ela participava a meu convite tanto na busca dos nomes para os depoimentos destinados à posteridade quanto para escolha dos prêmios Golfinho de Ouro e Estácio de Sá, os melhores do ano em literatura. Ao final da tarde, o Conselho de Literatura já encerrado, eu levava Clarice ao seu apartamento no Leme, na Gustavo Sampaio.

 

Evoco essa memória de amizade e admiração porque já naquela época muitos críticos intuíam dentro e fora do Conselho que caberia à Clarice uma consagração internacional. Sua literatura absolutamente original para a época estimulava o futuro, projetava audácia, arquitetava beleza e surpresa.

 

Seguem abaixo, tanto como farei amanhã com seu vizinho de data de aniversário, Noel Rosa, algumas frases que definem a essência do seu pensamento provocador.

 

1- “Não entendo, apenas sinto. Tenho medo de um dia entender e deixar de sentir.”

2- “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

3- “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

4- “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

5- “O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.”

6- “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”

7- “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar.”

8- “Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar. Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.”

9- “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.”

10- “E se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.”

11- “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.”

12- “Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”

 

Como fiz questão de que o Pen Clube Internacional do Brasil a homenageasse, repito aqui a frase que encimou toda a correspondência do nosso Organismo Internacional.

 

2020 – ANO DOS 100 ANOS DE CLARICE LISPECTOR

 

·      Ricardo Cravo Albin é presidente do Pen Clube do Brasil.