Páginas

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Escritor Baiano Eleito Membro
Titular do Pen Clube do Brasil


          O escritor baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos foi eleito Membro Titular do Pen Clube do Brasil  e sua posse ocorrerá no dia 23 de outubro, às 17 horas, no salão nobre da entidade, na Praia do Flamengo, 172, Rio de Janeiro. A Professora Emérita Doutora Olívia Barradas proferirá o discurso de recepção ao novo membro.  A indicação do poeta  para integrar o Pen Clube do Brasil foi por iniciativa da escritora Helena Parente Cunha, Doutora em Letras e Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
        Fundado em 2 de abril de 1936, no Rio de Janeiro, por iniciativa do escritor Cláudio de Sousa, o Pen Clube  destina-se a congregar escritores do País, estimular a criação literária e a concepção universalista dos bens da cultura, da liberdade e da paz, propugnando os sentimentos que animam o P.E.N. Internacional, bem como a UNESCO, sob cujos auspícios se encontra. O Centro Brasileiro (RJ) integra o PEN Internacional, sediado em Londres, conservando-se autônomo em seus procedimentos administrativos e culturais.

         ALTO NÍVEL

          Vários membros do Pen Clube do Brasil pertencem também à Academia Brasileira de Letras. O seu presidente atual é o escritor Cláudio Aguiar. A instituição reúne um conjunto de intelectuais  do mais alto nível,  formado por escritores, poetas,  tradutores, educadores  e professores universitários, como Rubem Fonseca, Muniz Sodré, Nélida Piñon,  João Ubaldo Ribeiro, Paulo Coelho, Ana Maria Machado, Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony, Carlos Nejar,  Cleonice Berardinelli, Deonísio  da Silva, Domício Proença Filho,  Edivaldo Boaventura, Eduardo Portella, Evaristo de Moraes Filho, Fábio Lucas, Fernando Gabeira,  Ivan Junqueira, Ives Gandra da Silva Martins, Ivo Barroso, Ivo Pitanguy, , Marcos Maciel, Dom Paulo Evaristo Arns, Pedro Lyra, Reynaldo Valinho Alvarez, Ricardo Cravo Albin, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Sábato Magaldi,  Silviano  Santiago, Stella Leonardos, Salgado Maranhão, Helena Parente Cunha, Olívia Barradas  e Sílvio Back.  


  PEN Clube do Brasil
  Filiado ao PEN International (Londres)
  Fundado em 2 de abril de 1936


Ofício PEN - nº 47 / 2013
 Rio de Janeiro, 1º de julho de 2013

        
Escritor Cyro de Mattos:


Tenho a satisfação de comunicar que, pela Assembleia Geral Extraordinária do PEN Clube do Brasil realizada no dia 28 de junho p. passado, Vossa Senhoria foi eleito para integrar o Quadro Social de Membros Titulares de nossa Instituição, de acordo com proposta de iniciativa da escritora Helena Parente Cunha.

Estou certo de que Vossa Senhoria encontrará no PEN uma atmosfera de convivência acolhedora e participativa que, agora, passará a contar com a sua importante presença e colaboração.

O PEN Clube do Brasil se enriquece com o seu ingresso e, em nome da Diretoria, transmito-lhe os nossos melhores votos de boas-vindas.

Informo, ainda, que sua posse poderá ocorrer dentro do prazo estatutário de 6 (seis) meses, a contar dessa data. Para maiores informações, relativas aos procedimentos de sua posse (administrativa ou solene), favor entrar em contato com a Secretaria do PEN Clube.

Atenciosas saudações,                                                                    


           

                           Cláudio Aguiar
                                                            Presidente do PEN Clube do Brasil





Praia do Flamengo, 172 – 11 º andar – Rio de Janeiro / RJ - CEP 22210-030 – Tel/Fax: (21) 2556-0461

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Escritora Maria Nadja Nunes  Participa do III ENEBI


A escritora de literatura infantil, Maria Nadja Nunes participará do III Encontro de Escritores Baianos Independentes (ENEBI) e lançará seu terceiro livro Isa Isa Isabela. A obra é uma homenagem à segunda neta, nascida em 2012.O ENEBI acontecerá nos dias 10 e 11 de outubro, na Biblioteca Pública Thales de Azevedo, na Rua Adelaide Fernandes da Costa, no Costa Azul, em Salvador/Ba.
Além de Isa Isa Isabela, Nadja apresentará os livros A menina do dente mole e A menina que tinha medo de vento, livros para um público entre 3 e 7 anos. Pedagoga e diretora da Editora da Universidade do Estado da Bahia (Eduneb), Nadja diz ter se inspirado em sua neta, chamada Júlia, nos dois primeiros livros, para compor as histórias. “Acho que há uma relação muito estreita da pedagogia com a avó. Vivi essas situações cotidianas com uma criança perto de mim”, revela.
O Encontro, que  homenageia o líder sul africano Nelson Mandela, pretende proporcionar um momento de troca de idéias, discussões e o desenvolvimento de projetos e publicações de escritores baianos. A programação conta com palestra, mesa-redonda, lançamento de livro e revista, exposição de publicações, recital poético etc.
O III ENEBI é realizado pela União Baiana de Escritores e Fundação Òmnira, com o apoio da Fundação Pedro Calmon, da Associação dos Professores Universitários da Bahia (APUB), da Cantina da Lua e do site Galinha Pulando.
Lançamento
Isa Isa Isabela também será lançado no dia 05 de outubro, na Livraria Cultura, no Salvador Shopping, e durante o Tabuleiro das Letrinhas Baianas, no dia 16 às 16h, no Shopping Itaigara, em Salvador.
Valor
Isa Isa Isabela – R$ 25
A menina que tinha medo de vento – R$ 20
A menina do dente mole – R$ 20


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Cerimônia de Posse da Academia de Letras de Itabuna- ALITA

O escritor Cyro de Mattos e sua esposa Marisa com a cineasta Raquel Rocha.









Fotos: Thiago pereira


O Clarim da Garrincha

                                  (Crônica de Cyro de Mattos)
        


                 Lá  está a garrincha com o seu clarim no alto do poste.  Escovo os dentes, tomo banho e, apressado, ainda vestido no pijama,  vou para a  sacada do apartamento. Fico ali sentado na cadeira, ouvindo o clarim da garrincha, que estridente não para de anunciar que a noite chegou ao fim. Quanto mais escuto, quero mais escutar esse aviso que ressoa nos meus ouvidos como um dos milagres operado por Deus na manhã clara. Um passarinho aceso de canto e luz matinal, tão pequeno, vestido num casaquinho marrom,  com seu clarim a vibrar contente,  todas as vezes em que  anuncia a vida perto de clarear o dia.
              Quando surge a madrugada, de azul, branco e rosa nas asas,  a garrincha logo vibra lá no alto seu clarim. Repetidas vezes, ela toca forte, enquanto o sol começa a desembarcar da carruagem de ouro, vindo lá detrás do morro, que cerca uma das partes da cidade. Todo dourado pela cauda, o sol não demora a resvalar seus raios sobre casas e prédios de minha rua. Imagino como devagar o sol, nessa hora, passa a iluminar os seres e as coisas em vários locais da cidade. As coisas que foram postas no mundo para que sejam vistas e alcançadas. Assim, na manhã  que brilha no sem fim, é que fico a escutar a garrincha tocando  seu clarim, sem me cobrar nada, numa cena bonita de ver.
          Todas as vezes que a garrincha começa a tocar seu clarim para anunciar que a noite chegou ao fim, o bem-te-vi sai de sua casa no alto da palmeira e vai pousar na  antena da televisão, instalada no telhado da casa do vizinho, em frente. De lá, ele avista os raios de sol alagando de luz a  fachada dos prédios e casas na rua. Batendo as asas, radiante canta:
               - Bem-te-vi!
               - Bem-te-vi!
               - Bem-te-vi!
               Nervosos e barulhentos, os assanhaços bicam a manhã luminosa  nos galhos do flamboyant. A rolinha faz carícias de amanhecer no companheiro que se aproxima dela.  As andorinhas dão voos ligeiros, trissam alegres na manhã banhada de luz. O beija-flor, no seu pequenino ventilador,  sai beijando, uma a uma, as flores no quintal do vizinho. Os pombos enchem o ar como naves serenas que seguem na direção do prédio de fachada amarela.  Um casal de pombos pousa no telhado da casa. Os bicos se tocam, sempre  inquietos no afeto. Nunca é de mais o arrulho seguido, nesse ritual do amor, que eles cumprem desde ontem, continuam hoje, prosseguirão amanhã e depois.
                          Havia me mudado com a família para esse novo apartamento, que dá para a nascente. É bem ventilado e iluminado,  não fica distante do centro da cidade. A rua é calma, nela passam poucas pessoas e carros. Quando era pequeno, no lugar desse bairro onde está localizado o apartamento em que agora eu moro,  havia pastos e capoeiras de uma fazenda de cacau decadente. Aqui jogava futebol com meus queridos amigos no campo improvisado; no meio do pasto, duas pedras marcavam as balizas de cada gol. Era aqui mesmo que  armava arapuca para pegar passarinho na capoeira.
           Antes de fazer a mudança para o apartamento, andava me perguntando o que era que um homem idoso como eu estava fazendo ainda neste mundo. Com setenta e quatro anos de idade, sentia-me deslocado  nesse mundo cheio de atropelos e sobressaltos, consumismo extremo, guerras inconcebíveis, desigualdades e dominações. Crimes horrendos pelo insano matador das vítimas indefesas e inocentes. Tráfico de drogas. A arte literária machucada pela onda de falsos artistas, uma gente vaidosa e compulsiva  que deturpa o que é belo, sem qualquer remorso. Arremedos de escritores e poetas tomam o lugar de quem merece aplauso e reconhecimento, ao invés do exílio e esquecimento. Ao  largo a música popular alucinante, alimentada por manadas ferozes,  feita com fácil arrumação da letra, que não suaviza a alma, não cativa nem comove. Presta-se apenas para o prazer do corpo, que balança e treme, mexe  e remexe,  na dança que não se esgota. É  a hora e a vez  da imagem e som como faces de uma linguagem que domina o social.  Perguntava-me o que  ainda eu estava  fazendo aqui, neste mundo conturbado, de gestos truculentos, políticos corruptos, resvalando sobre minhas sombras esse mal-estar que me envolve agora, desafinando-me, impiedoso,  com a natureza das coisas em constante transformação.   
                         O que se envolve em mim de luz e pluma, a cada  manhã anunciada por um pequenino músico divino, retira-me, neste instante, a tristeza de tudo que é o fim. De repente eis que estou salvo. O mundo,  que ressoa  nessa guerra lá fora,  de cada um só pensar em si, passa a ter uma visão diferente. Impele-me a olhar para ele de uma maneira agradável,  inclinado de alegria nos sons diminutos,  cantantes e brilhantes do amor.
                     Enquanto a garrincha prossegue na manhã tocando forte seu clarim.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Posse na Academia de Letras de Itabuna- ALITA


Nesta sexta as 19:00 horas A Academia de Letras de Itabuna diplomará 10 novos membros, sendo 7 efetivos e 3 membros correspondentes.

Como membros efetivos serão empossados pessoas que se destacaram em diversas áreas: Celina Santos, jornalista (Cadeira nº 24, que tem Clodomir Xavier de Oliveira como patrono); Gideon Rosa teatrólogo e jornalista (Cadeira nº 37; Patrono: Luís Gama)  a professora Maria Delile de Oliveira, educadora (Cadeira nº 28; Patrono: Firmino Rocha),  Maria Rita Dantas, também educadora (Cadeira nº 36; Patrono: José Bastos); Naomar Almeida Filho, reitor da Universidade Federal do Sul da Bahia (Cadeira nº 38; Patrono: Manuel Lins); Raquel Rocha, cineasta (Cadeira nº 25; Patrona: Elvira Foeppel), e Sérgio Habib, jurista (Cadeira nº 32; Patrono: Itazil Benício dos Santos). 

Na mesma sessão solene serão empossados como acadêmicos correspondentes da ALITA o professor Cristiano Lobo, o jurista Edvaldo Brito e a professora Ivete Sacramento.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Mostra Cyro de Mattos - Universidade de Salamanca


A Literatura do Sul da Bahia  
Ultrapassa Fronteiras do Brasil

A literatura do Sul da Bahia  ultrapassa as fronteiras do Brasil e ganha o mundo. No próximo dia 30 de setembro, na Casa de Escrita da Câmara Municipal de Coimbra, Portugal, o escritor Cyro de Mattos  estará autografando a edição portuguesa de seu livro “Vinte e Um Poemas de Amor”, com ilustrações da artista plástica baiana Edsoleda Santos.  Este é o terceiro livro do poeta publicado pela Editora Palimage, de Coimbra. Os outros são “Vinte Poemas do Rio”, bilíngüe, português-inglês, e “Ecológico”.
           Nos dias 2 e 3 de outubro, Cyro de Mattos estará representando a Bahia no XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos, evento realizado na Espanha e coordenado pelo professor da Universidade de Salamanca, Alfredo Perez Alencart. Nessa edição, o Encontro reunirá 50 poetas de 12 países, entre eles México, Portugal, Espanha, Chile, Colômbia, Nicarágua, Uruguai, Argentina, Peru e Honduras. Além de Cyro de Mattos, os poetas Álvaro Alves de Faria, de São Paulo,  Paulo de Tarso e Rizolete Fernandes, do Rio Grande do Norte,  representam o Brasil no evento de repercussão internacional, que neste ano homenageará um dos maiores nomes das poesia espanhola, Fray Luís de León.      
         Durante o Encontro, uma antologia  com poemas escritos por autores convidados, entre eles Cyro de Mattos, será lançada para homenagear Fray Luís de León. “Minha poesia intitula-se Soneto de Fray Luís de León.  A antologia será publicada em 50 línguas. Essa é uma oportunidade ímpar para a cultura do nosso Estado da Bahia ultrapassar as fronteiras brasileiras e mostrar seu nível expressivo de  criatividade”, disse Cyro de Mattos.
        Na edição do XVI Encontro, haverá o lançamento de “Onde Estou e Sou”, antologia poética de Cyro de Mattos, bilíngue, com versão para o espanhol  e prólogo de Alfredo Pérez Alencart, e ainda uma exposição de livros do poeta e narrador, no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca.  A obra “Onde  Estou e Sou”  reúne poemas extraídos de “Vinte Poemas do Rio”, “Cancioneiro do Cacau”, “Ecológico”, “Vinte e Um Poemas de Amor” e “Oratório de Natal”, livros publicados, e dos inéditos “Rumores de Relva e Mar”, “Agudo Mundo” e “Devoto do Campo”. O convite para Cyro de Mattos participar do evento partiu do professor Alfredo Pérez Alencart. Os outros livros do poeta que foram editados no exterior são “Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte” (Alemanha), tradução de Curt Meyer Clason, “De tes instants dans le poème”/De teus instantes no poema”, Les Editions du Cygne, Paris, versão para o francês de Pedro Vianna, Prêmio Internacional de Poesia Jean Paul Mestas, da UBE/RJ, capa do baiano Ângelo Roberto,  “Canti della terra e dell`acqua”, Editora Romar. de Milão, e Poesie della Bahia/Poemas da Bahia”, Edfitora  Runde Taarn, de Varese, os dois últimos na Itália,  com tradução de  Mirella Abriani.

sábado, 31 de agosto de 2013

                           Tempo das Boiadas

                                  (Cyro de Mattos)

No tempo em que a infância não era como hoje, com os jogos eletrônicos sendo o divertimento dos meninos, a  cidade tinha pouco movimento de carro nas ruas.  Ficava movimentada quando as tropas de burro passavam pela rua do comércio, carregadas de cacau ensacado. Paravam em frente aos armazéns de portas largas, onde homens fortes descarregavam do lombo dos animais os sacos de cacau ensacado. A cidade tinha poucos prédios de dois pavimentos. A feira ficava atrás da antiga estação ferroviária. Aos sábados, parecia uma onda que tinha de tudo, com gente que ia e vinha, uns compravam, outros vendiam. 
O jardim próximo à beira do rio ficava na Praça Olinto Leoni, o primeiro intendente da cidade. Os habitantes da cidade orgulhavam-se do jardim, era um cartão postal que encantava os visitantes, diziam. Dava uma impressão agradável a quem visse. O jardim tinha plantas e flores bem cuidadas pelos jardineiros da prefeitura,  palmeiras onde os passarinhos se aninhavam em algazarra pelo cair da tarde, duas  fontes luminosas,  um coreto para a filarmônica tocar marchas e hinos em dia especial.  Havia bancos embaixo das árvores para quem quisesse descansar. Os velhos ali sentavam e ficavam conversando sobre os anos idos e vividos. Os namorados davam voltas de mãos dadas pelo passeio do jardim. Quando estavam sentados no banco, permaneciam com as mãos entrelaçadas. A moça sorria para o rapaz que lembrava o beijo dado pelo galã  nos lábios doces da mocinha,  na última fita romântica exibida no Cine Itabuna.
Uma balaustrada comprida, erguida bem perto do rio, ficava separada do jardim pela rua calçada de pedras regulares. Por detrás da balaustrada havia um caminho estreito, margeando o rio, por onde desciam pequenas boiadas na direção do matadouro, construído em condições rudimentares em um dos aclives do morro.
                       Um dia combinei com dois amigos para irmos até o matadouro. Lá ficaríamos sabendo como o boi era abatido, retalhado em pedaços de carne, os quais seriam  transportados para que fossem vendidos no açougue. Lá chegamos calados por volta das quatro horas da tarde. Ficamos concentrados, apreensivos, em cima de um dos muros do curral, que tinha o piso do pátio cimentado, lá fora, como também na área debaixo do telheiro.
          Então vimos entrar no pátio do curral um boi laçado pelo homem musculoso. Foi preso ao mourão no meio do pátio. E logo tomamos grande susto quando o homem musculoso golpeou com as costas do machado a cabeça do boi. O animal deu um grito estranho, ajoelhou-se e borrou de bosta o piso de cimento. Ouvimos um baque surdo quando o bicho emborcou no chão, estrebuchando. Daí a pouco instante, o homem musculoso começou a tirar o pelo do boi com uma faca de lâmina afiada. 
           Não quisemos ficar mais tempo no matadouro. Saímos depressa de lá, horrorizados com a cena que acabávamos de presenciar. À noite, antes de dormir, eu com  os amigos Nei Gordinho e o Duduca armamos um plano lá na rua para impedir que no outro dia os bois, vindos do sertão, conduzidos por vaqueiros, chegassem até o matadouro. Nei Gordinho, o filho do funcionário do banco, seria o encarregado de soprar o apito na esquina quando avistasse a boiada descendo pela margem do rio e viesse se aproximando para descer pelo caminho estreito, junto à balaustrada.
            No dia seguinte, quando ele trilou o apito três vezes, bem forte, e avistamos a boiada se aproximando, começamos a soltar os fogos de São João na direção dos bois, que costumavam se apertar procurando entrar no caminho estreito que margeava o rio e a parede de pedras da balaustrada.  Eu e  Duduca, o filho do farmacêutico, estávamos em nossos esconderijos, encobertos pelos troncos de duas árvores no jardim. De lá acendíamos e soltávamos os fogos Adrianino para que as bombas explodissem no meio da boiada. 
           Logo os bois se assustaram e se esparramaram para todos os lados.  Alguns caíram nas águas e foram nadando até o outro lado do rio. Outros saíram em carreira desabalada, pisando plantas e canteiros do jardim. Ainda outros entraram na rua do comércio em correria, espalhando o pânico aos comerciantes, vexame e corre-corre às pessoas que por ali passavam pelo passeio das lojas.  
           Não sei até hoje quantos bois não seguiram naquele dia para o matadouro. Mas tenho certeza que alguns deles, que estavam marcados para morrer, não tiveram o mesmo destino daquele que vimos tombar sob o golpe do machado desferido pelo homem musculoso no matadouro. E que mal teve tempo para gritar, logo caindo de joelhos e borrando de bosta o piso cimentado do pátio. Numa cena terrível, que nunca mais queríamos que fosse repetida,  diante de nossos olhos espertos de meninos, ansiosos de descobertas e desafios na aventura da vida.  

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Bienal do Livro no Rio
A Editora da Universidade do Estado da Bahia (Eduneb) lançará as obras Ecológico, de Cyro de Mattos, poesia, da Coleção Nordestina,  Jorge Amado – da ancestralidade à representação dos orixás,   do professor Gildeci de Oliveira Leite, e Revelações Literárias, antologia, organizada por Ricardo Tupiniquim Ramos, durante a XVI Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, no dia 31 de agosto, no Riocentro.
       Enquanto isso, a Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Editus) estará lançando na Bienal do Livro do Rio o livro “Berro de Fogo e Outras Histórias”, de Cyro de Mattos, além de outros títulos. Promovido pela Câmara Brasileira do Livro de São Paulo, a Bienal do Livro, que neste ano será realizada no Riocentro, é um dos maiores eventos do livro no Brasil.
A Eduneb e a Editus participarão da Bienal  à convite da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU).

domingo, 25 de agosto de 2013

                      A Escritora Sonia Coutinho
                                             Cyro de Mattos  
Tomo conhecimento da notícia de que a escritora  Sonia Coutinho foi encontrada morta pela filha em seu apartamento, no Rio de Janeiro, na sexta-feira, dia 23 de agosto.   Aos 74 anos de idade, a escritora baiana,  contista e romancista respeitável,  morava só. Havia  comunicado à filha pouco antes um mal-estar.
.   Nunca nos  acostumamos com o quadro triste da morte. É amarga  sempre sua memória. Em alguns  casos,  quando se vive muito, preenche-se a vida com ganhos, formando-se uma biografia bem-sucedida no plano familiar, econômico e profissional, há o consolo entre os parentes, amigos e conhecidos do falecido. O trauma é atenuado com  o fato  de que não se podia querer mais do morto. A dura lei da  vida foi para ele  recheada de trunfos. Assim, o falecido, de saudosa memória, deixa boas marcas e lembranças.
Com Sonia Coutinho, a traiçoeira invenção da vida não permitiu sob vários aspectos que os fatos acontecessem no lado azul da canção. Mas  não é o momento agora para se falar das amargas que perseguiram essa notável escritora baiana.  Se Virgínia Woolf disse que viver é perigoso, o que alcança todos nós,  em nossa condição de solitários no mundo, com Sonia Coutinho, autora de qualidades expressivas  indiscutíveis na moderna literatura brasileira, ao nível de Clarice Lispector, a dose deve ter sido bem forte. Uma lástima.
Ela nasceu em Itabuna, em 1939, filha do promotor Natan  Coutinho, homem culto, poeta parnasiano, inteligência brilhante, que chegou a ser  deputado estadual na Bahia. Com a família, ainda menina,  mudou-se para Salvador. Na capital baiana graduou-se em Letras pela Universidade Federal da Bahia.  Depois que estreou com Do Herói Inútil, em 1966, contos, pequeno grande livro, que já prenunciava uma ficcionista de boas qualidades na sondagem e exposição contraditória da alma humana, ela foi morar no Rio onde exerceu o jornalismo. Viveu para sobreviver no sul da Brasil  também como tradutora de grandes romancistas e  deu prosseguimento à sua carreira literária.
Tornou-se autora dos livros de contos Nascimento de Uma Mulher, 1971, Uma Certa Felicidade,1976, O Último Verão de Copacabana, 1985, Mil Olhos de Uma Rosa, 2001, Ovelha Negra e Amiga Loura, 2006. E dos romances: O Jogo de Ifá,  1980, Atire em Sofia, 1989,  O Caso Alice, 1991,  e Os Seios de Pandora, 1999. Era  também ensaísta,  seus textos participam   de importantes  antologias do conto, no Brasil e exterior. Conquistou prêmios literários expressivos, com destaque para o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (SP), duas vezes, o da Revista Status, para literatura erótica, e o da Fundação Biblioteca Nacional.
Sua ficção une arte e documento para situar o real como vínculo de gravidade nas limitações da condição humana. Desenganos,  desencontros, problemas existenciais e psicológicos de natureza aguda, na cidade grande, informam o herói em crise, que a autora logra questionar através de cortes e monólogos na mente do personagem,  em suas narrativas curtas e longas.
Sonia Coutinho pertenceu à minha geração. Sua obra ficcional, como a de Hélio Pólvora,   Euclides Neto e outros, mostra, nessa altura,  que a boa literatura de  autores nascidos no sul da Bahia não acontece apenas com a grandeza de Jorge Amado e Adonias Filho. Estudos críticos calcados em bases investigativas  e de análise mais larga  desses outros autores são necessários  para que a  literatura de alto nível não se torne exclusivista e repetitiva apenas através de dois nomes fundamentais.
Tal postura contribui em especial  para que certos legados primorosos, que se sustentam em admirável estrutura criativa  sejam sufocados e/ou relegados ao plano menor, injusto. É que a ideologia predominante de certos setores de nossa mentalidade  costuma debruçar-se  no que já está construído.  Não gosta de arriscar, por comodismo, até porque nessa condição é mais fácil  julgar e divulgar, enfim, tirar proveito do que não impõe mais esforço.
Quando se fizer uma história séria da literatura baiana, com relação aos legítimos escritores  nascidos na região cacaueira sulina,  mesmo que  não  tenham  questionado  o tema da civilização do cacau em sua obra,  será inadmissível a falha de  quem não situar com relevância a ficção de Sonia Coutinho. Como ícone da literatura brasileira no século XX ela já é reconhecida.





sábado, 24 de agosto de 2013

Cyro de Mattos Vai Proferir Palestra
e Lançar Livro de Poesia na Academia
de Letras de Ilhéus Dia 4 de Setembro



O escritor e poeta Cyro de Mattos vai proferir palestra sobre o tema “Viver e Escrever” na Academia de Letras de Ilhéus, no dia 4 de setembro, a partir das 18 horas, com entrada franca. Depois da palestra estará lançando o livro “Onde e Estou e Sou”,  de poesia, publicado pela  Ler Editora de Brasília,  bilíngüe, com prefácio e versão para o espanhol do poeta peruano-espanhol Alfredo Pérez Alencart, professor da Universidade de Salamanca.
O livro “Onde Estou e Sou” será também lançado durante o XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos, evento de repercussão internacional promovido pela Fundação Cultural de Salamanca e Universidade de Salamanca, nos dias 2 e 3 de outubro. Na oportunidade,  professores universitários e estudantes estarão recitando poemas do autor grapiúna no Liceu e Teatro de Salamanca.
 “Onde Estou e Sou” é uma antologia poética com textos extraídos dos livros “Vinte Poemas do Rio”, “Cancioneiro do Cacau”, “Ecológico”, “Vinte  e Um Poemas de Amor” e “Oratório de Natal”, livros publicados, e dos inéditos “Rumores de Relva e Mar”, “Agudo Mundo” e “Devoto do Campo”. Nessa amostragem poética foram reunidos textos   que inauguram novos sentidos da vida, motivados  pela pureza da infância, solidões na colheita do nada, verdes visões na rota da felicidade, mundo cego do homem contra o homem, o erótico e o afetivo no encontro perfeito do amor, vozes do campo, ora fraternas, ora aflitas, rumores de relva e mar, cantos dedicados  ao Cristo, todos eles com versos idênticos  de ternuras e dores na paisagem do tempo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Um jipe sem Igual
                                  
                                          (Crônica de Cyro de Mattos)




Tinha o apelido de Jipe, Não era apenas mais um doido manso que causava graça com suas esquisitices na cidade. Era o mais querido da garotada e gente grande. Descalço, vestido numa calça de brim e camisa de malha, no início andava correndo nas ruas,  depois passou a fazer viagens mais demoradas pelas estradas que interligavam as cidades circunvizinhas. Lá se ia veloz no jipe de sua imaginação, buzinando, cortando as lufadas de vento no peito, onde ele dizia que funcionava o motor do carro.  O ponto de partida era no passeio da barbearia do Álvaro.
Certa vez andou mudando de carro. Experimentou o Chevette, a DKW, a pick-up da Ford, o caminhão FNM, o automóvel de passeio da Chevrolet, para cinco passageiros, o Dodge, o Mercury, até a confortável, macia e cobiçada Cadilac, mas não se deu bem com nenhum desses carros. O casamento perfeito era com o jipe, carro duro, que não quebrava. Enfrentava estrada com poeira ou lama, no duro ou no mole. Não fazia cara feia para buraco grande. Seguro do que estava afirmando, ele sempre destacava as qualidades do carro de sua preferência, o imbatível jipe.  
Só descansava aos domingos, dia para a revisão geral no seu estimado veículo. Trocar o óleo, apertar parafuso, completar o tanque com gasolina. Fazer a lavagem cuidadosa na corredeira rasa do rio. Esfregar as rodas, retirar qualquer vestígio de lama, deixar o seu querido jipe na ponta dos cascos. 
Na segunda-feira, no passeio da barbearia do Álvaro,  às oito horas, anunciava com fortes buzinadas – pon, pon... pon, pon... – que Jipe ia dar partida daqui a pouco, rumo à cidade vizinha de Ilhéus. Ligava o motor – ruuuum ruuum –, olhava para a sua frente com atenção dobrada, procurando ver se a rua estava livre, sem algum desses motoristas malucos, que não obedecem aos sinais de trânsito e de repente provocam o desastre. Quando não colide o carro no outro veículo, atropela o transeunte, sem mais nem menos. Uns irresponsáveis no volante, pouco respeitam a vida alheia. Essa gente não merecia receber carteira do departamento de trânsito. Nem carteira de profissional nem de amador, dizia de si para si, resmungando.
Não era o seu caso. Com boa experiência no volante, nunca havia causado qualquer leve acidente nas ruas da cidade ou nas estradas. Era o máximo, só puxava mais de oitenta quando a reta permitia isso,  não houvesse perigo de ultrapassar o outro carro. Na cidade, o pedestre sempre tinha preferência. Logo parava e mandava o transeunte atravessar a rua. Se fosse portador de deficiência física, o cuidado era redobrado. Tinha ocasião que estacionava o seu jipe bem devagar, saltava do carro e ia ajudar o cego a atravessar a rua.
Por que se tornara um jipe, afamado e comentado por suas proezas automobilísticas nas ruas da cidade e estradas? Gostava de afirmar que não havia motorista de ônibus, caminhão ou carro de passeio que conseguisse vencer uma corrida disputada com ele. Sempre chegava primeiro, graças à sua habilidade de controlar bem o volante, saber passar a marcha na hora certa e pisar o acelerador no momento oportuno. Só dirigia seu jipe com prudência, perícia e competência, nada de fé em Deus e pé na tábua, saindo  por aí em alta velocidade feito um doido..
Foi o meu amigo Duduca que me contou o motivo pelo qual ele se tornara um jipe na sua imaginação. O pai havia prometido dar a ele um jipe se fosse aprovado no vestibular de Direito. Nem estudou muito para enfrentar o temível exame do vestibular na Capital. Conseguiu ser o primeiro na lista dos aprovados, graças à sua inteligência privilegiada. O pai não cumpriu a promessa. Ele foi se desgostando de ser um estudante universitário, com o futuro promissor para se tornar um advogado brilhante. Um dia, para surpresa do pai, vergonha de uma das famílias aristocráticas da cidade, abandonou os estudos. Sonhou que não havia nascido para se tornar um advogado, mas para ser um jipe.
Amanheceu no passeio da barbearia do Álvaro, alardeando a novidade. Decidira  se tornar um jipe. Trazia com ele um farol, duas placas, espelho retrovisor, a buzina e a caixa de ferramentas. E lá se foi correndo pela rua, na sua primeira incursão como um jipe de verdade, buzinando, buzinando.
Dá pena, pois não mais veremos Jipe guiando o carro de sua imaginação pelas ruas da cidade ou estradas pedregosas. O amigo Duduca deu-me a notícia com o semblante triste. Faleceu aquele homem de estatura baixa, voz nervosa, que só aparecia com a camisa molhada, o rosto respingado de suor, e que havia nascido em Amargosa, conforme anotava a carteira de motorista, que ele mesmo confeccionou.
Contou-me ainda mais o amigo Duduca que os apetrechos de seu carro, uma placa, que ele costumava trazer  presa atrás, outra pendendo do pescoço, a antena de rádio que portava na mão esquerda e, na direita, um retrovisor, foram com ele dentro do caixão. O Jipe mais engraçado da cidade agora estava lá nas nuvens, pegando corrida com os anjos, pelas estradas de algodão do céu.




quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Uma sentença para a História
Acusado de não ter direito de publicar a biografia de João Guimarães Rosa sem autorização prévia e de ter com.  
etido crime de plágio, o escritor goiano Alaor Barbosa obteve na semana que terminou ontem uma retumbante e histórica vitória na Justiça da comarca da cidade do Rio de Janeiro
                                                                                 Elpides Carvalho

Após cinco anos de batalha judicial, o escritor goiano Alaor Barbosa obteve, na semana  passada, uma vitória histórica na ação de proibição do seu livro Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa, proposta há mais de cinco anos – em julho de 2008 – contra a sua editora, a LGE Editora, de Brasília.
A sentença, que já se considera como integrante da história da luta em defesa da liberdade de expressão do pensamento no Brasil e um marco inaugural na construção de uma jurisprudência correta a respeito da questão das chamadas “biografias não autorizadas”, foi proferida pelo juiz Maurício Magnus, da 24ª Vara Cível da comarca do Estado do Rio de Janeiro.
Ao julgar improcedente a ação, o juiz determinou a liberação do livro, que está proibido, por despacho liminar (tutela antecipada) desde que a ação foi proposta. Declarou também o juiz que o livro de Alaor Barbosa subsiste íntegro e válido mesmo sem as citações de outros livros que nele foram feitas, as quais de modo algum, seja pela quantidade, seja pela qualidade, caracterizam o crime de plágio.
        A sentença baseou-se principalmente no laudo da perita Carolina Mori Ferreira e nas afirmações que ela acrescentou ao laudo, no momento em que, no processo, foi chamada a fazê-lo. Mas o juiz acrescentou argumentos e observações próprios, muito bem expostos, que conferiram uma forte densidade jurídica à sentença.
Convém notar e ressaltar um pormenor de sutil e significativa prudência e sabedoria na sentença: ao determinar a liberação do livro liminarmente proibido, o juiz não julgou necessário se referir ao direito constitucional de liberdade de expressão do pensamento (e, pois, de publicação de livros e especialmente de biografias), deixando subentendido que considera esse direito um ponto pacífico, insusceptível de controvérsia, e uma premissa implícita, como verdade indiscutível, na sua decisão.
Em entrevista ao “Diário da Manhã”, de Brasília, o escritor Alaor Barbosa conversa sobre a sentença que deu ganho de causa à LGE Editora, a qual já se tornou uma decisão para história da liberdade de expressão do pensamento no Brasil.

Alaor Barbosa, de 73 anos, nasceu em Morrinhos, em Goiás, em março de 1940. Atualmente divide residência entre Brasília e Goiânia.  Casado e pai de três filhos e cinco netas, ele já publicou vinte e dois livros, três dos quais de um ano e meio para cá. Outros quinze livros estão em processo de editoração e devem ser lançados na proporção de três por ano. Três deles saíram de um ano e meio para cá. O próximo livro deve ser lançado nos próximos trinta dias: o romance Eu, Peter Porfírio, o maioral, editado em Portugal em setembro de 2009, por ter sido contemplado com o prêmio de publicação em um concurso promovido pela editora. A edição brasileira vai apresentar um texto bastante refundido e muito aprimorado.
Alaor é jornalista, advogado e escritor. Desde 1979, faz parte da Academia de Goiana de Letras, para a qual foi eleito por unanimidade. Neste mês de agosto, no  dia 2,  foi  eleito titular da Cadeira 29 da Academia Brasiliense de Letras. É membro também da Associação Nacional de Escritores, da Academia de Letras do  Brasil, da Academia Morrinhense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Em 1975 tornou-se, por eleição secreta, o primeiro advogado goiano residente em Goiás, a fazer parte do Instituto dos Advogados Brasileiros.
DM: Como o senhor avalia essa sentença favorável da Justiça carioca?
Alaor: Uma sentença que vai entrar na história da liberdade de expressão do pensamento no Brasil. Muito bem fundamentada, não somente no brilhante laudo da perita do juízo, Carolina Mori Ferreira, mas também em outros argumentos muito bem expostos pelo juiz.
DM: Já houve alguma repercussão da sentença?
Alaor: A sentença, logo que começou a ser divulgada, causou um imenso júbilo no meio literário brasileiro. É preciso assinalar que, desde a proposição da ação e a proibição do meu livro, intelectuais e escritores de várias partes do Brasil se manifestaram de modo uníssono e unânime solidários aos meus direitos e em protesto contra a errônea proibição ocorrida.   
DM: O senhor acredita que as autoras da ação podem recorrer da sentença?
Alaor: Existe a possibilidade, acho eu, de que as autoras da ação se conformem com a sentença. Seria a atitude mais sensata.  
DM: Quem  foi seu advogado ou seus advogados?
Alaor: A ação foi proposta não contra mim, mas contra a minha editora.  Inicialmente atuaram no processo, fazendo a contestação com muita lucidez e competência jurídica, dois advogados: Ian Santos, que é meu sobrinho-neto e morava no Rio, e Daniel Campello de Queiroz. Tendo o Ian se mudado logo depois para São Paulo, o Dr. Daniel prosseguiu sozinho no trabalho, realizado com muita dedicação e responsabilidade. Minha vitória se deve muito ao trabalho deles, que souberam mostrar os direitos em causa e as circunstâncias que tornavam inaceitáveis as acusações feitas ao meu livro. 
DM: O senhor pensa em recolocar o livro em circulação, depois de efetivamente liberado pela justiça? 
Alaor: Só admito recolocar o livro em circulação e à venda na versão, que preparei há muitos anos – logo que surgiu a notícia de que seria proposta ação para proibi-lo – da qual expungi o texto da maioria das citações de outros livros. Meu livro não precisava e, portanto, não precisa delas. Sem elas, ele fica muito melhor. Foi o que eu verifiquei. E que, para minha surpresa, afirmaram a perita do juízo no Rio e o juiz da causa.
DM: Entre os seus três filhos algum pretende seguir a carreira de escritor?
Alaor: Minha filha Noêmia, a primogênita, vai lançar no próximo dia 29, no Memorial Darcy Ribeiro, da Universidade de Brasília (UNB), um livro, escrito em colaboração com Luiz Isola, A bailarina empoeirada (Histórias do povo de Brasília). Uma história da construção da cidade de Brasília que focaliza os construtores, principalmente o povo humilde, os candangos. São quase mil e quinhentas páginas de uma pesquisa e levantamento muito bem-feitos e sérios.