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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O Poeta Maior Francisco Carvalho


   O Poeta Maior Francisco Carvalho
  
                           Por Cyro de Mattos


O poeta Francisco Carvalho, cearense de Russas, despediu-se deste velho mundo aos 86 anos.  Autor de vasta obra, ganhador do Prêmio Bienal Nestlé de Literatura com o livro Quadrante solar (1982), deixa uma herança lírica de altitude incomum na poesia brasileira contemporânea, mesmo que desconhecido pelos dispositivos midiáticos e pela indiferença do circuito editorial dos grandes centros econômicos do país. Dono de uma obra poética de qualidades inquestionáveis, tanto no plano formal como no conteúdo, no poema de lastro clássico ou moderno, de verso extenso ou curto, esse poeta insulado em  Fortaleza mais seria estudado na universidade, reconhecido pela crítica e conhecido do leitor se publicado por editora de circulação nacional, de São Paulo e Rio, centros dinâmicos de um eixo  que  até hoje funciona  como tambor cultural do Brasil.
 
Há quem diga que a melhor poesia produzida  hoje no Brasil está no Nordeste. A afirmação pode soar exagerada, mas deve ser considerada como procedente  com relação a alguns nomes que revelam em sua fatura poética modelar uma produção  da melhor qualidade. Nesse patamar figuram o cearense Francisco Carvalho, em Fortaleza, os baianos Florisvaldo Mattos, Ruy Espinheira Filho e Myriam Fraga em Salvador, Telmo Padilha, Valdelice Soares Pinheiro no Sul da Bahia,  e o pernambucano Marcus Accioly no Recife. Todos eles, sem esforço,   são nomes  que se inserem na pertinência da observação.
 
 O poeta  Francisco Carvalho estreou com Dimensão das Coisas em 1966 e de lá para cá publicou mais de vinte livros de poesia, demonstrando assim sua fidelidade   à “arte de excitar a alma com uma visão do mundo através das melhores palavras em sua melhor ordem”, conforme definição de Geir Campos, calcada na fusão que o crítico fez das concepções  de Novalis, Eliot e Coleridge sobre a obra literária escrita em verso.
 
            Na antologia Memórias do Espantalho, organizada pelo autor, publicada em 2004, o poeta cearense reuniu em alentado volume poemas escolhidos dos livros Os Mortos Azuis (1971), Pastoral dos Dias Maduros (1977), As Verdes Léguas (1979), Rosa dos Eventos (1982), Quadrante Solar (1983), Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, As Visões do Corpo (1984), Barca dos Sentidos (1989), Rosa Geométrica (1990), Crônica das Raízes (1992), O Tecedor e Sua Trama (1992), Sonata dos Punhais (1994), Artefatos de Areia (1995), Galope de Pégaso (1995), Raízes da Voz (1996), Romance da Nuvem Pássaro (1998), A Concha e o Rumor (2000), O Silêncio é uma Figura Geométrica  (2002) e Centauros Urbanos (2003).
 
        Digo que mantive correspondência saudável durante anos com esse poeta maior, que me ajudava a viver o mundo e transmitia o bem com seus versos. Certamente suas cartas irão enriquecer o volume que pretendo organizar e publicar de  minha correspondência com poetas, escritores e tradutores, e que tem o título provisório de “Barraca de Cartas”. Eu prestei pequena homenagem a esse  poeta maior, dedicando-lhe uma  cantiga de agrado no meu livro Os Enganos cativantes.
 
      Transcrevo a seguir o poema “Meu Verão com Francisco Carvalho”: O sonho sobreviverá/ Enquanto houver um bico/Que cate o alpiste/ Do tácito entendimento,/Leve para outros ares/O som aceso do azul./ Um bico que semeie o amor/ De graça dando a messe justa / Na fazenda livre do ar./ O sonho sobreviverá/ No verso que inventa cores, /Pássaro que resume dores,/ Canto por onde me iludo, /Triste eu me canso de tudo, /Faço-me rouco quadrante solar. Rima do poço da morte, /Vertente da vida sem data / Sendo ilha e desvario,/ Súbito prodígio de luz/ No verão que esparrama/ Pendões debaixo de nuvens/ Como o espírito de Deus./ E sopra sobre as águas/ O eterno de um instante./ O sonho sobreviverá.

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