Páginas

domingo, 27 de julho de 2014

Onde Está Minha Cidade?

Sigo pela cidade a pé. Acompanha-me um  menino outrora afoito, magro,  que fazia da vida uma expressão da liberdade. “Primeiro a obrigação, depois a diversão”, a mãe dizia, ele cumpria a regra sem pestanejar.  Era um dos primeiros da classe.  Tinha gosto de fazer  os deveres escolares e de estudar as lições na semana. Depois disso ia se encontrar  com os amigos em algum local antes combinado  para vasculhar os cantos da cidade, em busca da melhor brincadeira que os dias pudessem oferecer. Roubar fruta madura nos quintais era uma deliciosa aventura.
Esse menino está vendo agora o quanto mudou sua cidade. Já não  existe mais a pequena casa onde morava com os pais e o irmão. Ficava na rua estreita por onde não passava carro, perto da delegacia.  O melhor mirante  da cidade era o alto do telhado, de onde se via a vida acontecer no céu e na rua, por onde passavam personagens e fatos importantes que iriam marcar a sua vida  para sempre.
Outro é o cenário  da rua do  comércio. Onde antes era lama no inverno e poeira no verão agora é uma avenida bem comprida, asfaltada. A sinaleira acende os sinais vermelho e verde,  controlando o movimento intenso dos carros e dos pedestres, que atravessam a avenida pela faixa, de um lado para o outro.   Guardas fiscalizam os motoristas, multam aqueles que estacionam os carros em locais proibidos, rompem os sinais de trânsito de maneira imprudente. Lojas, bancos, lanchonetes. Meninos de rua, guardadores de carro, mendigos. Gente no passeio indo e vindo.
O menino quer saber por onde andam as tropas de burros, que desciam carregadas de cacau seco ensacado, na direção dos armazéns de portas largas. O desfile dos animais deixava alegres os meninos, que paravam para ver os burros andando  com os passos cadenciados. Chegavam puxados pela madrinha, a mula da frente, enfeitada de guizos no peitoral, o chocalho no pescoço. Naquele desfile de cascos cadenciados,  som de guizo e chocalho, a tropa dos animais inaugurava o dia com um canto metálico,  que se propagava festivo na manhã luminosa.
O menino pergunta por que as tropas perderam-se na estrada, depois que dobraram a curva e  nunca mais retornaram. Mudo, fico sem saber como responder à pergunta, convencido de minha impossibilidade para saber do tempo por que razão tudo tem que acontecer assim no seu curso invariável. Ontem seres e coisas ali estavam nítidos, definidos, eram vistos e alcançados. De repente, sem que fosse percebida a mudança, fugiam para outra paisagem, perdiam-se por trilhas e atalhos, encobertos para sempre na estrada desconhecida. Obedeciam assim a um ritual de indiferença desde não sei quando, sem que pudessem retornar das terras do sem fim.   
Insiste, esse menino de olhos espertos,  em ver o  campinho na margem do rio onde jogava futebol com os amigos. Ele me diz que quando a bola rolava pelo barranco ia cair no rio. O jogo ficava interrompido até que um dos meninos fosse procurar a bola lá embaixo, às vezes era encontrada boiando nas águas. O jogo então  recomeçava nos lances aguerridos.  No lugar do campinho do futebol encontramos o cais, que foi construído em cada margem do rio para evitar com isso que as águas derrubassem nas cheias as casas ribeirinhas,  causando estragos e até mortes.  Onde estão as pedras pretas que eram cobertas pelas roupas coloridas quando  as lavadeiras estendiam para secar  ao sol. Espetáculo vistoso de cores que os olhos nunca cansavam de ver. As  lavadeiras, os areeiros, os pescadores, os canoeiros? As   águas do rio ficaram poluídas, não existe mais peixe, ninguém se atreve a tomar banho no rio,   tomado de baronesas. E o Campo da Desportiva, lugar festivo  aos domingos, com seus jogadores habilidosos no trato com a bola?  A seleção amadora da cidade foi oito vezes campeã do Intermunicipal.
            O menino está com os olhos úmidos e vermelhos. Desiste de continuar no passeio com o homem  calvo, de  rosto tristonho, que também busca um tempo que se foi com suas vozes, cores, brincadeiras. No jardim da Beira-Rio havia um coreto, fontes luminosas, árvores que abrigavam os namorados, conversando sentados no banco. Flores, muitas flores. Para não ficar mais triste com o que vê agora na paisagem com outro visual, revestido de ausências íntimas, o menino afasta-se desse  homem idoso, que tem o rosto coberto de uma pequena nuvem cor de sombra.






Orlando Mattos Nos Deixa

Faleceu com 79 anos de idade,   no sábado (26) ,  José Orlando Pereira de Mattos,  vítima de complicações cardíacas. Orlando Mattos, como era conhecido,  foi médico cirurgião durante muitos anos em nossa cidade,  provedor da Santa Casa de Misericórdia, agricultor e  um dos fundadores  da Sociedade Itabunense de Cultura, entidade que fomentou as artes e a cultura locais  quando ainda não existiam órgãos públicos e privados dando apoio ao desenvolvimento destes setores. 
Além disso, foi artista plástico  e secretário de Turismo do Município na primeira administração  do prefeito Fernando Gomes.  Seu falecimento deixa consternados a  viúva e professora Celeste Cotrim Mattos, os filhos Catarina, José Orlando,  Lorena, o genro Guilherme, parentes e amigos da família.  Era irmão do escritor Cyro de Mattos, do advogado Humberto,  agente cultural Dário e  universitária Marta. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Despedida de João Ubaldo Ribeiro





Por Cyro de Mattos  

Nascido em 23 de janeiro de 1943, na Ilha de Itaparica, o  escritor João Ubaldo Ribeiro faleceu na última sexta-feira (18), no seu apartamento,  do bairro  Leblon, Rio de Janeiro, vítima de embolia pulmonar. Jornalista, contista, romancista, cronista,  tradutor e roteirista de cinema. Laureado com o Prêmio Jabuti duas vezes, Golfinho de Ouro (Rio),  Prêmio Camões, para autores brasileiros e portugueses. Esse baiano de Itaparica  deixa uma obra de  altíssimo nível no corpo das letras brasileiras. Destacam-se  na sua vasta produção os livrosSargento Getúlio (1971),  Viva o povo brasileiro, (1984) O sorriso do lagarto,romances,  e Livro de histórias (1981). Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, na turma de 1962, nunca exerceu a advocacia. 
Começou a escrever muito cedo, publicando os primeiros contos nas coletâneas Panorama do conto baiano (1959), Reunião (1961) e Histórias da Bahia (1963).  O romance Sargento Getúlio,  que virou filme e, há pouco tempo,  foi adaptado ao teatro, colocou João Ubaldo Ribeiro como um valor excepcional na moderna literatura brasileira.  O livro foi traduzido por ele mesmo para o inglês e publicado nos Estados Unidos. Foi editado também na França.  Com Livro de histórias (1981), o modo debochado de narrar do autor baiano mais uma vez retorna  com incursões  nas venturas e desventuras do povo de Itaparica e do sertão da Bahia. 
Com Viva o povo brasileiro (1984), magnífico romance,  com seu prodígio técnico, conhecimento incomum de  linguagem e fala brasileira,  vasto cabedal de informações sobre a vida e cultura do povo, João Ubaldo Ribeiro passa a ser reconhecido como um dos escritores mais significativos da América latina, ao lado de Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e outros.  
           É triste, muito triste, essa despedida física de João Ubaldo Ribeiro. Ele foi meu amigo, companheiro de geração em Salvador e colega na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia,  no período compreendido entre 1958 e 1962. 
         Quando estudante universitário, uma das coisas que eu gostava era de ir à Rua Chile. Quase todos os dias,  visitava a Livraria Civilização como uma necessidade que o tempo me impunha, semelhante àquela quando se tem sede ou fome. Era lá que eu me encontrava com os companheiros de geração, à qual alguns deles pertenciam por afinidades eletivas, enquanto outros em razão da idade. Ildásio Tavares, Alberto Silva, Ricardo Cruz, Marcos Santarrita, Orlando Sena, Olnei São Paulo, Adelmo Oliveira, Carlos Nelson Coutinho e, presença indispensável, João Ubaldo Ribeiro.  Lá estava o jovem de voz gutural, contador de casos como o  primeiro sem segundo, sorriso largo e franco,  olhos por trás de óculos com lente forte e armação grossa. De bom humor com  tudo que viesse de graça e da graça da boa terra baiana. 
       E não é que, neste instante, pregando mais uma de suas travessuras e saindo da memória de repente, eis que risonho vejo diante de mim  o colega que deu as mãos à criação literária como meio de leitura crítica da vida? João Ubaldo Ribeiro, com o seu jeito brincalhão de circular naquela querida Faculdade de Direito. Ele era  encontrado na cantina, às vezes namorando com Belô, a moça mais bonita da faculdade. Comentava-se que feio como ele só mesmo sua inteligência rara poderia levá-lo à conquista do coração daquela moça, que, quando passava, arrancava suspiros dos estudantes universitários,  de tão bela. Lá mesmo na  cantina  contava alguma história de sua gente de Itaparica aos colegas Davi Sales  e Ildásio Tavares, o primeiro mostrando que sua vocação era  para crítico literário e o segundo para a poesia, e não para a profissão de advogado.   
           Uma vez fez uma prova  de Direito do Trabalho em versos e ganhou do professor Elson Gottschalk a nota máxima. Outra vez, quando soube que havia passado de ano, subiu numa cadeira da cantina e, em transe, como se algum  espírito de luz tivesse se apossado dele, começou a recitar Shakespeare em inglês clássico. Com aquela cabeça grande de baiano em que formigavam histórias, gozações repentinas, que pegavam os colegas sem defesa, só podia João Ubaldo Ribeiro dá no que deu. Em vez de advogado militante, dotado de vasto saber jurídico, fôlego de sete gatos para enfrentar os litígios forenses, tornou-se em pouco tempo o romancista consagrado de Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, entre outros livros soberbos.  
         Era membro da Academia Brasileira de Letras. Seus livros foram traduzidos para oito idiomas.
  

sábado, 19 de julho de 2014

JOÃO UBALDO NOS DEIXA


O escritor João Ubaldo Ribeiro faleceu na última sexta-feira (18), no seu apartamento, no Leblon, Rio, vítima de embolia pulmonar. Tinha 73 anos de idade. Jornalista, contista, romancista, cronista,  tradutor e roteirista de cinema. Premiado com o Jabuti duas vezes, Golfinho de Ouro do Rio,  Prêmio Camões, para autores de língua portuguesa, entre outros. Nascido na Ilha de Itaparica, deixa uma obra de  altíssimo nível no corpo das letras brasileiras. Na sua vasta produção, destacam-se Viva o povo brasileiro, Sargento Getúlio, O sorriso do lagarto e Livro de histórias. Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, em 1962, nunca exerceu a advocacia. O governo da Bahia e a Prefeitura de Salvador decretaram três dias de luto pela morte do grande escritor.

sábado, 12 de julho de 2014

Cyro de Mattos lança livro sobre o universo mágico do mundo infantil


“Aí, eu vi o sol que acordava lá onde o céu faz uma curva. Abria seu olho enorme para ver se ainda restavam algumas sombras da noite nos passos da madrugada”.

Essa é a história de uma criança sonhadora passeando pelo mundo. Aquilo que seus olhos enxergam pode se transformar em um cenário magnífico, onde as ondas do mar são leões com jubas brancas e os raios de sol são as pernas finas e compridas de uma aranha dourada.

Em O que eu vi por aí, indicado para crianças a partir de 8 anos, o autor Cyro de Mattos aproxima os pequenos (e grandes) leitores de um universo mágico e divertido, com direito às ilustrações vivas e coloridas da polonesa Marta Ignerska. Cada página traz um novo ângulo de visão, onde o texto se mistura com a arte e conduz o leitor como se fosse o guia de um city tour.

Sobre o autor
Cyro de Mattos nasceu em Itabuna, sul da Bahia. Contista, poeta, cronista, organizador de antologias e autor de livros infantojuvenis, já publicou mais de 30 livros. Foi laureado com a Medalha do Mérito do Governo da Bahia. Está presente em antologias importantes no Brasil, em Portugal, Alemanha, Itália, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Integra o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e a Academia de Letras da Bahia.

Sobre a ilustradora
Marta Ignerska é uma importante designer gráfica e ilustradora polonesa. Nasceu em 1978 e formou-se na Academia de Belas Artes de Varsóvia, em 2005. Ilustrou e fez o projeto gráfico de muitos livros e já ganhou diversos prêmios, cinco deles pelo livro O Tamanho do Meu Sonho, publicado pela Editora Biruta em 2010.


O que eu vi por aí, Cyro de Mattos, R$ 35, ISBN 978-85-7848-131-5, a partir de 8 anos, 44 páginas.

Biruta lança "O que eu vi por aí"


terça-feira, 8 de julho de 2014

Gol

Leva a galera ao delírio, milhares de vozes numa só garganta, corações saem atônitos pela boca. Pelé, um rei, esmurra o ar, abraço festivo dos companheiros e bei­jo nas alturas. A bola passou lá onde a coruja dorme, co­menta o locutor. Que felicidade ver a rede balançar. Ban­deiras desfraldadas, orgasmo de milhares, o estádio es­tremece com o grito geral. Desferido o chute, a bola ro­lou normal, bateu no montinho artilheiro e enganou o goleiro. Óóóóóóó! Que fatalidade!
Observa um torcedor: "Nada melhor do que um gol aos 45 minutos do segundo tempo". Nada mais prazeroso no último minuto, a conquista do campeonato assim nada é igual. No torcedor derrotado um soco na barriga, como dói, quando a partida é uma final de campeonato. É como um nocaute que derruba todos no abismo. Rosto cabis­baixo, bandeira enrolada, queimada. No gol de impedi­mento xingam o homem do apito vestido de preto e, de quebra, a mãe deixa de ser pura. Vociferam, ameaçam Deus e o mundo, nada mais terrível na alma do que a dor de não ser campeão. Estava escrito nas estrelas. Os deuses tinham escrito há milênios. De um lado o sol tão claro, do outro amargura e solidão.
Obra-prima dos pés, oferta divina que o craque fes­teja no topo da pirâmide humana. O torcedor ama as co­res do momento azul, chora e ri. Reação em cadeia dos que mergulham em depressão. Certeza de guerra vencida, tudo por causa de um lance bobo do zagueiro. A bola ia sair pela linha de fundo, ele foi cortar com a mão. Agora não tem mais jeito. É sair pra outra, bola no pênalti só milagre pra não ser gol.
Gol engraçado, chapliniano, nascia da trama genial daqueles dribles desconcertantes. Comovia, encantava, fazia rir o estádio com a sua boca enorme. Garrincha dribla toda a defesa, pernas se enrolam no tapete verde, passa pelo goleiro que fica babando na grama. Com o pé na bola, espera que eles se levantem, o espanto da galera vai de canto a canto. Huuuuuuuuuuuuuu! E como uma criança irresponsável Garrincha toca a bola devagar para o fundo do gol. O que é isso torcida brasileira! Desmaios, risos, beijos. O estádio quase vem abaixo, o sol partindo-se em gargalhadas sonoras. "Este gol aí foi pra matar a mãe de qualquer um!"
Em 1950, Brasil contra Uruguai, final do campeo­nato mundial no Rio. O Brasil joga pelo empate. Um gol faz estremecer um estádio com 200 mil pessoas. Foi de Friaça no início do segundo tempo, lenços acenam para os valentes uruguaios. É campeão! É campeão! Todos os brasileiros cantam o grito de glória numa só corrente de irmãos. Veio o gol de empate dos uruguaios, Schiafino o autor da proeza. Um calafrio penetra ossos e nervos do Maracanã com a lotação máxima. O inexorável acontece aos 34 minutos. O ponteiro Gigia chuta a bola e a grama. Ninguém acredita no que vê, a bola entra entre a trave e o goleiro Barbosa. Lenços já não acenam. Aquela coisa que só infunde medo, estupidamente sem tamanho, percorre todo o estádio. Domina o ar de milhões de brasileiros. Ninguém pode reverter o capricho dos deuses. Encerrado o jogo, a procissão de mortos sai do Maracanã, o país das chuteiras, que pensa e ama pelos pés, em caos desencan­ta-se.
Na cidade pequena o menino vê as ruas desertas, bares fechados, a praça em silêncio. O padre não reza a missa das oito à noite. Daí pra frente o canto amargo da memória vai lamber chagas daquele que ficou frustrado no cais, esquecido de si, preso ao nada. Precisou que vi­esse a Suécia, em 1958, para explodir na garganta o grito com a força de granadas. O Brasil sagrava-se pela pri­meira vez campeão mundial de futebol. Em 1962, no Chi­le, outra vez o grito profundo é bisado, assim como no tricampeonato do México. Depois de vinte e quatro anos de espera, o grito volta a irromper nos Estados Unidos da América, através da conquista do tetracampeonato mun­dial de futebol. Sem dúvida, esse grito que faz sair atôni­to o coração pela garganta vai retornar em outros mo­mentos de delírio do torcedor brasileiro. Nas disputas dos campeonatos mundiais de futebol. Melhor será com o tí­tulo de campeão para a nossa Pátria amada.


domingo, 29 de junho de 2014

Futebol

Febre. Religião. A nossa maior paixão popular. Que bonito é a torcida no estádio superlotado. As bandeiras desfraldadas. Apoteose de não sei quantas gargantas que explodem no ar um só grito de gol. Delira a torcida, ven­do a rede balançar, que felicidade!
Em 1958, a nossa maior conquista. Fomos campe­ões mundiais nos gramados da Suécia. Com um rei que surgia. Um garoto chamado Pelé. Magia na intimidade com a bola. Fenômeno que pensa pelos pés. Emoção mai­or em todos os estádios. Atleta do século, com as estrelas descendo do céu, todas elas iluminadas vindo beijar-lhe os pés.
Surge também Garrincha, o Mané das pernas tor­tas, alegria do povo. Na escrita certa os dribles desconcertantes. Garrincha e mais dez canarinhos bisando o feito de cam­peões mundiais nos estádios do Chile, em 1962. A marchinha dizendo que com o brasileiro não há quem possa, é bom no samba, é bom na bola, a taça do mundo mais uma vez era nossa.
No México, em 1970, todo o Brasil voltava a vibrar com o olho na telinha da televisão. Olho no lance. Radinho de pilha colado no ouvido atento. Goleada histórica na Itália, quatro a um, na partida final. A marchinha agora dizia que somos uma corrente pra frente. Todos juntos vamos saudar a seleção tricampeã mundial. Nesse cordão do amor, nesse delírio geral, nessa emoção dada de graça por todo o País, que tem um só coração.
Em 1994, após vinte e quatro anos de rações duras, o grito de tetracampeão de futebol ressoava em gramados norte-americanos e pelos quatro cantos do Brasil. "El! El! El! Vai que é sua, Tafarel!" Zero a zero no tempo normal de jogo e na prorrogação, vinha a certeza da guerra vencida com a cobrança de penalidades. A Itália protagonizava o lado dos rivais derrotados mais uma vez, perdendo três penalidades. Um dos pênaltis foi defendido pelo herói Tafarel.
Mas tivemos derrotas que até hoje ferem a memó­ria do torcedor tetracampeão. A primeira delas, a mais triste, quando jogávamos pelo empate e ganhávamos o jogo no primeiro tempo por um a zero. Perdemos por dois a um. Inauguração do Maracanã naquele campeonato mundial realizado em 1950, vencido pelo Uruguai. O país do fute­bol todo coberto de silêncio. Naquela tarde trágica, dei­xam o Maracanã os torcedores como uma procissão de rostos cabisbaixos, por que não dizer de mortos, sem sa­ber para onde ir.
A segunda pior derrota acontece na Copa do Mun­do da Espanha, em 1982. Uma seleção feita de craques, como Zico, Sócrates, Junior, Eder e Leandro. Tudo dava errado. As bruxas estavam soltas outra vez. Não passa­mos pelas semifinais. Outra vez jogávamos pelo empate. Final de jogo: Itália 3 e Brasil 2. A dose de amargura que se aloja no peito do torcedor brasileiro retornaria na Copa do Mundo de 1986, de novo realizada no México. O Bra­sil não passa outra vez pelas semifinais. Eliminado nos pênaltis pela França. No último deles a bola bateu na tra­ve, em seguida nas costas do goleiro Carlos e foi para o fundo das redes. Era demais para qualquer coração brasi­leiro suportar.
Minha paixão pelo futebol vem desde menino, jo­gando peladas nos campinhos dos terrenos baldios da ci­dade natal. Havia o "Campinho do Fole" no outro lado do rio. Ali eram jogados aos domingos as partidas mais im­portantes. O time de garotos da rua de cima com o da rua de baixo. No vaivém do jogo não faltavam empurrões, bate-bocas, xingamentos e algumas brigas fortes. Termi­nado o jogo, o banho na correnteza de águas límpidas se­renava os ânimos. Uma amizade feita de relações natu­rais logo se refazia com mergulhos e saltos do barranco íngreme.
O pai levava o menino para ver a seleção amadora de sua cidade jogar no Campo da Desportiva. Cercado com folhas de zinco no início, depois murado, o Campo da Desportiva era uma festa aos domingos. Lá, naquele campo de grama mal tratada, o menino viu o drible de Puruca como o maior de sua vida. O gol de Juca. A defe­sa de Asclepíades. A matada de Santinho. A catimba de Tombinha. O nó de Carrapeta. A investida do ponta Fernando Riela como um raio fulminante na defesa adversária. O engraçado torcedor Rodrigo Bocão. E o cracão de bola Léo Briglia, sem igual. Viu o menino a Seleção Amadora de sua cidade como o maior time de sua vida. Ah, os roletes da Desportiva como o melhor doce de sua vida. E sentiu esse tiro na memória, que seria, inevitavelmente, o gol mais triste de sua vida.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Exposição sobre a Copa do Mundo

Para aproximar seus usuários sobre as histórias das cinco vitórias do Brasil na Copa do Mundo e divulgar o acervo de livros sobre futebol, a Biblioteca Comunitária “Wolgran Junqueira Ferreira”, do Campus São João da Boa Vista, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), preparou duas exposições, intituladas “ Histórias Curtinhas de Todas as Copa do Mundo que o Brasil Foi Campeão” e “Craques das Palavras”. 
A antologia “Contos Brasileiros de Futebol”, com prefácio, notas e organização deste articulista, publicada pela Editora LGE, de Brasília, está participando da exposição “Craques das Palavras”.  O livro foi selecionado pelo Ministério da  Educação (MEC) em 2009 para  o Programa Nacional da Biblioteca Escolar (PNBE). Na oportunidade, com a seleção do MEC, entre centenas de livros enviados por editoras brasileiras, a antologia teve  uma edição de 20 mil exemplares, que foram distribuídos  nas escolas brasileiras.
A primeira exposição do IFSP é composta por cinco camisetas e por curiosidades que relembram os acontecimentos ocorridos nos anos em que o país do futebol foi campeão da Copa. Na segunda exposição, “Craques das Palavras”, as bibliotecárias Maria Carolina Gonçalves e Thais Mariano Cunha divulgam aos usuários oito obras literárias que tratam sobre o universo do futebol em suas histórias.
 Entre romances, contos e memórias, estão como destaque os livros “Futebol ao sol e à sombra” de  Eduardo Galeano, “Sabor de vitória”, de Fernando Vaz,  “O segundo tempo”, de Michel Laub, e “Contos Brasileiros de Futebol”.  Além desses livros, a exposição conta com  “Histórias de futebol” coletânea organizada por Maria Viana e Adilson Miguel.  Outros destaques da exposição são também os livros   “Dia de são nunca à tarde”, de Roberto Drummond, “Mãos de cavalo”, de Daniel Galera, e “Contos plausíveis”, de Carlos Drummond de Andrade, no qual figura a conhecida história “O torcedor”.  
Já a antologia “Contos brasileiros de futebol” reúne  grandes craques de nossas letras que escreveram sobre essa forte paixão do homem brasileiro, o futebol. E, entre eles, estão Hélio Pólvora, Deonísio  Silva, Caio Porfírio Carneiro, Edilberto Coutinho, Salim Miguel, Hélio Pólvora, Adyr Schlee, Sérgio Sant’Ana, Renard Perez e Duílio Gomes.
Os livros selecionados para a exposição que tem como tema a Copa do Mundo estarão em exposição até o final da Copa do Mundo no Brasil.  Os visitantes que forem à Biblioteca também poderão conferir a decoração especial preparada para torcer pelo Brasil.
Para as bibliotecárias Maria Carolina e Thais, a “iniciativa da exposição é informar aos visitantes sobre os momentos marcantes das copas dos anos de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, bem como incentivar a leitura de livros cujo pano de fundo narrativo é o esporte mais querido de nosso país”.
Ressalte-se que, além dessa exposição realizada pelo Instituto Federal de Tecnologia, Ciências e Artes de São Paulo (IFSP),  a antologia “Contos brasileiros de futebol” integra o acervo do Museu de Futebol Manoel Garrincha, do Estádio Maracanã, que mantém uma exposição permanente sobre a história do  nosso esporte mais popular. Outro livro deste articulista  que figura na exposição permanente do Museu de Futebol Manoel Garrincha é “O dia em que vi Garrincha jogar”, contos, Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores/Rio, publicado pela Saraiva na Coleção Jabuti.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Passeio pela Espanha


           
            A estrada bem sinalizada nas curvas, encostas e cruzamentos. O ônibus desliza no asfalto, tem a maciez de um colchão. Dá sono esta viagem que atravessa planícies, uma paz que suaviza a alma. Campos de trigo como imensos lençóis até a curva do horizonte.   Uma família portuguesa, com certeza de classe média, rostos de cada um até certo ponto afável, ocupa poltronas  perto  da minha.  Um casal de velhos puxa conversa para saber o que aconteceu com o avião seqüestrado depois de decolar no aeroporto de Nova Iorque, levando cento e cinqüenta passageiros. O velho ouviu a notícia no quarto, estava arrumando a mala para a excursão a Madri. Plantão da TV Planeta.  A velha, com veias grossas nas mãos magras, cabelos alvos e sedosos, disse que o avião explodiu sobre o oceano. A mãe do menino põe  a mão na boca horrorizada. Santo Deus, que barbaridade! (o pai do menino).
            O ônibus faz a segunda parada nas imediações de Toledo. Trinta minutos para apreciarmos a cidade ali do alto. Da balaustrada podemos tirar fotos e filmar. No retorno de Madri, vamos conhecer Toledo por dentro. Puerta Bisagra, Castillo Visigodo, Calle de Santa Isabel, Casa del Greco, a Catedral famosa e outros locais importantes. O guia anuncia com sua voz ligeira. Alguns não escutaram direito o que a voz nervosa dele  acabou de dizer. Pedem para ele repetir, devagar, por favor. Toledo é um museu a céu aberto, você vai ver isso, o passado chegando da Idade Média em silêncio, a mulher de olhos azuis diz para o homem de cabelos cor de ouro, nariz comprido no rosto com o queixo saliente. A cidade foi construída sobre uma grande rocha, lá embaixo o rio contornando-a e seguindo com a sua enorme cobra grossa. Estratégia perfeita montada com a ajuda da natureza para impedir a invasão das hordas inimigas. A entrada da cidade fica lá em cima, no topo da rocha. Chega-se à grande porta atravessando por uma ponte sobre o fosso de garganta escura.
            Distante dos outros, numa das extremidades da balaustrada. Calado, arredio.   Espio as casinhas lá embaixo, próximas ao rio, num dos lados em que circunda a rocha. O guia informa que só podem ser construídas com a mesma arquitetura dos tempos medievais. De longe observo Toledo. Visão que se mistura com a sensação de uma fortaleza impenetrável, muralhas altas, circulando a cidade, construídas sobre o topo da rocha.  Torres dentadas onde outrora ficaram sentinelas, na ronda com espada e lança.  Noites expectantes sob a dura vigília à espreita da morte.
            O  ônibus cruza a Puerta d´Alcalar, em Madri. Ao desembarcar sigo atrás  dos outros turistas, que em grupos estão entrando no Hotel Washington, na Gran Via de Madri. O guia recomenda que só vamos ter  cinqüenta  minutos para descermos até o salão de refeição, fica  no primeiro andar do hotel. Entrega a cada um de nós  o cartão magnético, ensina como deve ser enfiado na fenda da porta do apartamento para abri-la. Ao ser enfiado na porta, o lado da tarjeta para baixo. Cuidado para não esquecer o cartão magnético enfiado na porta quando sair. Convite para o ladrão entrar no apartamento e ganhar o dia fácil (risos).
            Ficaria sem fazer a refeição do jantar, se não chamasse  o chefe dos garçons para saber o que estava acontecendo. Ali sozinho na mesa do canto, vendo os outros deglutir a sopa: são servidos com atenção especial por dois garçons que parecem irmãos  gêmeos. “Levo o caso para a Embaixada do Brasil para as providências legais”. Impaciente, voz um pouco alterada, absurdo o tratamento que estão me  dando. “Por favor, senhor, está havendo um mal entendido”, calmo o chefe dos garçons, “num instante o senhor será servido.” Um português de fala fina, o chefe dos garçons,  impecavelmente vestido no uniforme do hotel, cor de vinho.  O nome do hotel com letras douradas no bolso superior do paletó. Incumbe um dos garçons para me servir imediatamente.
O guia reúne todos no salão de recepção do restaurante, ao lado do salão de refeições. Vamos dar um breve passeio pelo centro da cidade agora à noite. Fontes de Cibelis e Netuno, Porta do Sol, Praça da Espanha, passaremos em frente ao Palácio Real. Após a refeição matinal, amanhã, às 8,30 horas, todos na recepção do hotel. Pela manhã, passeio no Parque do Retiro e, à tarde, Praça Maior. À noite, como opção conhecer o flamenco, a dança e a música que apresentam chamas. Despesas no teatro por conta de cada  um de vocês, diz o guia.        
       Depois de três dias visitando outros locais importantes em Madri, o ônibus retorna a Lisboa de manhã cedo. Começa a subir a Grande Via, durante o dia com muito movimento de carros. O ônibus deixa para trás ruas com os vultos de pessoas andando pelos passeios. O roteiro no retorno da Excursão Eldorado indica parada no Vale dos Caídos, visita à monumental Salamanca e à admirável Toledo. No retorno,  como aconteceu na ida, continuo na excursão como um desconhecido, que viaja em silêncio. 

domingo, 8 de junho de 2014

O Torcedor na Desportiva



Penso que um futebol de jogadores com boa técnica, que  se exibiam no velho e saudoso Campo da Desportiva, não deveria ficar esquecido. Merece um museu  para que um dos aspectos de nossa memória seja valorizada.  Estudos para que as novas gerações tomem conhecimento  de que é o homem que faz o lugar e  não o lugar que faz o homem.  É preciso que seja explicado melhor. Como nasceu e se desenvolveu com tão boas qualidades, em seu longo curso de amadorismo. Avaliado nas razões de como jogadores que não eram profissionais, numa época distante do interior baiano, longe de centros esportivos desenvolvidos, como Rio e São Paulo, ou até Recife,  Belo Horizonte e Porto Alegre, deram espetáculos com um potencial técnico surpreendente, movido com arte e emoção. Jogadores amadores que podiam vestir a camisa de  grandes clubes brasileiros, se tivessem atuando hoje. Não será exagero afirmar que com sorte alguns desses jogadores poderiam chegar  até mesmo à Seleção Brasileira. Como aconteceu com Perivaldo, que surgiu no declínio do Campo da Desportiva, ou com outros de época mais recente, quando então os meios de comunicação fazem ficar conhecidos os atletas que jogam  em lugares distantes desse imenso Brasil. 
                         Sem ufanismo, sabem como eu os mais antigos desportistas de Itabuna, alguns deles hoje passando dos setenta anos, que aqueles jogadores amadores escreveram, no piso esburacado de um estádio acanhado, páginas belas de uma das nossas maiores paixões populares. Basta dizer que meio século depois nenhuma cidade do interior da Bahia conseguiu igualar o feito da seleção amadora de Itabuna, campeã seis vezes seguidas pelo Intermunicipal. Antes de alcançar essa marca, venceu  o Torneio Antonio Balbino, em Salvador, no qual participaram as boas seleções de Feira de Santana, Ilhéus, Santo Amaro, São Félix e Alagoinhas.
             Publiquei o livro “O Velho Campo da Desportiva” para contribuir um pouco com a preservação dessa memória. E, quando fui presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania,  promovi o documentário “Saudosa Desportiva, Gloriosa Seleção”, dirigido pelas talentosas cineastas Adrian Greyce e Paula Martins. A exibição desse documentário  foi um sucesso. Juntamente com a distribuição do DVD e de exemplares do meu  livro, encheu as dependências do Centro de Cultura Adonias Filho. O documentário “Saudosa Desportiva, Gloriosa Seleção” tocou os corações dos que compareceram ao evento, familiares de jogadores, torcedores daquela época do futebol amador, curiosos de ontem e hoje. Naquela oportunidade, uma seleção amadora de futebol ressurgiu do fumo do tempo para mostrar na tela uma das faces da alma do povo brasileiro: o futebol. Jogado com emoção e garra, classe e algum feitiço no campinho do interior.
           Sempre estou agradecendo àqueles artistas da bola na época de ouro de nosso futebol amador, pelas  alegrias que me deram no velho e saudoso Campo da Desportiva. Deles e do velho campo, que tinha a arquibancada coberta de zinco, não posso, não  devo esquecer.  Como neste poema que acabo de escrever e divulgo a seguir:  

                                           

                    
                     Soneto do Campo da Desportiva

De zinco era coberta a arquibancada,
A cancha tinha um piso esburacado.
Nem um pouco essa chuva demorada
Conseguia deixar desanimado

O torcedor, que curtia a jogada
Do seu ídolo na bola passada.
Dos pés a mágica mostrava ser
Tudo um sonho para nunca esquecer.

O gol de placa do atacante quando
A partida já chegava ao final
E a marca da seleção que venceu 

Tantas vezes o intermunicipal
Seguiram-me na torcida de meu
Grito feliz com o futebol no mundo.