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sexta-feira, 10 de abril de 2020






Poemas Cristãos

        Cyro de Mattos




Jesus

Deus é o crivo   da
Dor no  coração.  Pétala
 Que da chaga exsurge.


Calvário

Na opressão
na perseguição
na aflição
na traição
na depressão
na escuridão
na solidão
na sensação
do cuspe
e do cravo
no coração
Senhor meu
dá-me tua mão

 Este Cristo

É maior que o mundo
este andor feito na dor
dos grandes rumores.
É maior que o mundo
esta luz feita na cruz
dos grandes tremores.
É maior que o mundo
este amor feito no ardor
dos grandes clamores.
Ó peso da terra
cuspe, chicotada, crivo.
E das chagas flores.


  Canto de Amor

E todo este peso
terrestre perfurou
a flor da comunhão,
de braços abertos
clamas como cacto.
E dignos não somos
de olhar este rosto
que pende no amor
do sangue derramado.
E solitários caminhos
da ternura os desviados
na voz de tudo que é perdão.
O canto de amor prossegue
pelos que têm fome e sede
e carregam o dilema do pacto.


Santa Cruz


Todo o peso da terra
com ofensa e lenho
aqui deste desterro.

      Pedras cor de vinho,
      setas de veneno
      dos que ladram.

      Lábios de sede,
      botão que se abre
      na flor do perdão.

      Até hoje a oferta.
      A ternura como meta
      jogada na sarjeta.

Sexta-Feira Maior

O sol morre.
Turva onda
o mundo em aflição
molha-me de roxo.
Nada valho.
Nada sou de fato.
Prefiro Barrabás,
crucifico o amor,
sem dó e lágrima
até o último silêncio.

 Soneto da Paixão

Ao pé do Cristo todas as infâmias,
ao pé do Cristo todas as insônias,
ao pé do Cristo todas as intrigas,
ao pé do Cristo todas as refregas.

Ao pé do Cristo todos os sedentos,
ao pé do Cristo todos os famintos,
ao pé do Cristo todos os horrores,
ao pé do Cristo todos os clamores.

Ao pé do Cristo todos os insultos,
ao pé do Cristo todos os corruptos,
ao pé do Cristo todos os ladrões,

ao pé do Cristo todas as prisões.
Nessa onda que nos leva como cães,
cura-me, ó Deus de todas as paixões.

             Louvemos Baixinho

                                 Para Manuel Bandeira,
                                em memória

 Nasceu numas palhas
o nosso reizinho,
os matos cheiravam,
o vento embalava.

A Virgem Maria
sentia como doía
o destino humano
do filho de Deus.

Quando for um homem
com o nome de Jesus
de tanto nos amar
irá morrer na cruz.

Louvemos no Natal
o nosso reizinho
enquanto ele dorme
como um cordeirinho.
                                                         

*Cyro de Mattos escreve crônica, conto, poesia, romance, ensaio e literatura infantojuvenil. Já publicou mais de 50 livros. Doutor Honoris causa da UESC. Tem no prelo da Editus, editora da UESC, Nada Era Melhor, romance da infância, Pequenos Corações, contos, e O Discurso do Rio, poesia. Membro  da Academia de Letras da Bahia.










sábado, 28 de março de 2020


                                  




                              RIO CACHOEIRA

                                 Cyro de Mattos        

               
           Cada cidade ou região tem o seu rio, com sua gente, águas, bichos e lendas. Escorrendo sentimentos líquidos, cada pessoa carrega no coração o rio de sua cidade. Cachoeira é como se chama o rio que atravessa a minha cidade. Divide-a em duas partes. Já teve lavadeiras, aguadeiros, pescadores  e tiradores de areia  quando ainda não existia a represa próxima à Ponte Velha. Baronesas não ficavam entulhadas entre as pedras pretas, espalhadas em vários trechos do rio. A Ilha do Jegue era comprida e nela nunca se viu uma garça. Bocas de vômito não despejavam detritos nas águas claras.
              Lavadeiras estendiam roupas que coloriam as inúmeras pedras pretas. O rio lavava suas águas com o canto das lavadeiras. Cores e cantos davam um belo visual ao velho rio. Pequenas correntezas conversavam entre as pedras. O leito era límpido, dava para se ver a areia com pedrinhas lisas e redondas.  Borboletas pousavam nas margaridas silvestres que cobriam os barrancos. Andorinhas trissavam acima do rio quando acontecia o entardecer.
           O rio Cachoeira perdeu muito de seu encanto, sem as lavadeiras, os pescadores, os aguadeiros e os tiradores de areia. De sol a sol, homens e meninos buscavam com suas pás  no fundo do rio a areia, que servia para as construções na cidade. Os jumentos transportavam em latas as cargas de areia. Tempo bom para o areeiro retirar a areia do fundo do rio era nos meses de verão. A cidade toda sabia, pelas mãos do areeiro, que o rio era uma dádiva e a argamassa da casa feita de fibra específica: calo, suor e areia. O homem passava  pelas ruas, tangendo com a taca os jumentos carregados de areia nas latas. As casas cochichavam. Areia sem a pá não seria dádiva. Nada seria a pá sem a areia. Ajoelhando as fachadas, as casas tomavam a velha bênção ao rio. Ao tirador de areia agradeciam comovidas.        
          Para quem não sabe, o velho  Cachoeira já forneceu à cidade água boa no bebedouro da vida. Esse tempo já vai longe, muito longe. Um  tempo de fontes puríssimas do nosso rio. Foi na infância da cidade quando ela tinha poucas ruas calçadas, três ou quatro bairros. Tropeçava nas pernas quando era chegado o inverno. Caminhava alegre batida pelos raios de sol quando era tempo de estio, o verão temperado de ardências por entre verdes e azuis das safras.  Tempo melhor  não havia para tomar banho com os querido amigos nas águas do nosso rio.
         O nosso rio Cachoeira ficava brabo nas cheias, descia  feito um réptil sem tamanho, espumando e invadindo as ruas ribeirinhas, até mesmo a avenida do comércio, a principal da cidade. Descia feito um bicho do outro mundo, levando no lombo toro de pau, bicho morto, porta e janela. Algumas dessas enchentes ficaram na memória do povo de minha cidade. Um poeta popular chegou a fotografar em versos a zanga do pequeno rio. Leia um trecho do que o poeta popular dizia.                                           
                                  
As casas comerciais,                                                                                                  
Assim que o dono chegava,                                                       
A que tinha ainda porta,                                                                                 
Quando ele a destrancava,                                                                     
A sua mercadoria                                                  
Coberta de lama achava.
           
           Tinha gente que acordava                                                                                                        Naquele grande alvoroço,                                                                                 
         A água levando tudo,                                                                                                                Fazendo o maior destroço,                                                                                                       O  pobre salvava a vida                                                                                                             Com água pelo pescoço.











quinta-feira, 26 de março de 2020


        


         Câmara Municipal de Salvador
         Faz Homenagem  a Cyro de Mattos
        Com  Medalha Zumbi dos Palmares
        
O projeto de Resolução N* 16/2020, da Câmara Municipal de Salvador, publicado no Diário Oficial,  em 20 de março de 2020, concedeu ao escritor baiano Cyro de Mattos a Medalha Zumbi dos Palmares, uma das mais altas honrarias daquela instituição legislativa.  Foi criada para homenagear  a pessoas atuantes no combate ao racismo, discriminação e intolerância na cidade de Salvador e Bahia, bem como na valorização da cultura do negro afrodescendente baiano. .
O projeto  é de autoria do professor e vereador Edvaldo Brito, que salienta em sua justificativa a ênfase  que o autor baiano vem dando na sua vasta obra para a valorização do  negro,   através de publicação de  contos, crônicas,  poemas e artigos, em especial com os seus livros O Menino e o Trio Elétrico, Prêmio  da União Brasileira de Escritores (Rio), também editado na Itália, Natal das Crianças Negras, em seis idiomas, e Poemas de Terreiro e Orixás, das Edições Mazza (BH).
        Em Natal das Crianças Negras, Cyro de Mattos conta  o encontro pela primeira vez de duas crianças negras e pobres com   Papai  Noel na véspera de Natal. Na loja de brinquedos, o  velhinho aparece na telinha da televisão, de rosto alegre,  com suas promessas de presentear as crianças naquele dia cheio de inocência e esperança.  As crianças  Bel e Nel colocam os chinelos na janela. No outro dia, nada encontram neles. E então souberam que o Natal era a lágrima  que pelo rosto descia. Já em O Menino e o Trio Elétrico,  narra a história de Chapinha, um menino pobre e negro, que vende amendoim  no ônibus para ajudar  a mãe viúva e a vó Pequena no sustento  da vida.  Ele sonha  em ter  o seu abadá  para  sair atrás de um trio elétrico de arromba,   puxado por um astro da música popular baiana, mas em face de suas condições  pobres não vê como esse sonho possa ser realizado.  Cyro toca aqui  nas contradições do carnaval baiano, bom para turista se divertir e quem tem condições econômicas de viver  a festa   Em Poemas de Terreiro e Orixás, comparece com o seu modo solidário e encantatório de pensar o negro. Sentimentos refletem um jeito comovente de ser negro, ritmado no canto vindo da África, que transforma a alma em crença e magia.  Imagens dizem de coisas tristes,  que não se apagam no rastro das distâncias, na sucessão infeliz dos momentos e gritantes  situações adversas.   

















Prefeitura de  Recife Adquire 12 Mil Exemplares de Livro Infantil de Cyro de Mattos

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A Prefeitura Municipal de Recife acaba de adquirir doze mil exemplares de “Lorotas, Caretas e Piruetas”, de  Cyro de Mattos, livro de poesia infantil   publicado pela Editora  RHJ, de Belo Horizonte, com ilustrações de Luís Sartori do Vale.  O livro foi selecionado  e aprovado no Projeto –  Programa de Desenvolvimento  da  Educação e da Gestão Pública da Prefeitura Recifense, entre dezenas de autores brasileiros do gênero.  A Prefeitura de Recife destinará os exemplares  à rede escolar pública e privada, bibliotecas e instituições culturais.
“ Lorotas, Caretas e Piruetas”  recebeu  o Prêmio Alice Maria da Silva, da União  Brasileira de Escritores, RJ, em 2012. Reúne poemas em torno do mundo encantado e divertido do circo. Os personagens e cenas circenses compõem esta divertida coletânea de poesias. Os extraordinários versos com as peripécias  dos  palhaços brincam com o ritmo e os  sons das palavras, em poemas que garantem  a leitura ainda em processo e  alfabetização. Na Bienal Internacional do Livro de Minas, em 2012, escolas  de Belo Horizonte fizeram teatrinho dos poemas enquanto o autor recitou vários deles, como o Palhaço Sansão, Palhaço  Bom de Briga e o Palhaço Perguntador.
Ficcionista e poeta, Cyro de Mattos é membro das Academias de Letras da Bahia e de Ilhéus, Doutor Honoris  Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020




AINDA FACULDADE DE DIREITO

Cyro de Mattos



Ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia quando era localizada na Praça da Piedade, nas imediações do Gabinete Português de Leitura, terminando o curso no prédio novo  construído no Vale do Canela.
Informo que na minha turma da Faculdade,  idos de 1958 a 1962, havia o deputado federal Raul Ferraz, o deputado estadual Arquimedes Pedreira e a Desembargadora Lucy Lopes Moreira. O pensador social João Berbert, o que se foi tão cedo na viagem sem regresso. O padre Jair e o pianista Mário Boavista. Havia também uma juíza da Justiça do Trabalho, Marietinha, a pequena notável. Um juiz da Justiça Comum, Artur Caria, que usava óculos de lentes fortes, e o jurista Dylson Dórea, a causar espanto com o brilho de sua memória. O casal João Pedro e Célia, os noivos Eduardo Adami e Lícia. A estonteante Ynessa. O empresário Marcelo Gomes, alegre baterista do conjunto que tocava na faculdade, à noite, aos sábados. O nigeriano Edvaldo Brito, tributarista admirável, ‘’croner’’ do conjunto e o orador da turma. O civilista Antônio Luís Calmon Teixeira, de fino trato e jeito manso, campeão imbatível de pesca submarina nas águas do Rio Vermelho. O sinfônico Afrânio, tocador de oboé e outros instrumentos de música erudita. Os craques Adalberto, Jair, Marcelo Santos e Cadilaque. O filósofo Álvaro Peres, o poeta maior Ildásio Tavares, o magnífico romancista João Ubaldo Ribeiro e o arguto crítico literário Davi Sales.
Ressalta o cronista as molequeiras do delegado Dermeval Pó-Secante. As aventuras do Mascate Edvaldo Bispo, consagrado por tribos comedoras de gente como “O Grande Cacique Turgulês”, quando das suas negociações de terras devolutas no Baixo, Médio e Alto Amazonas. O faro incorrigível do promotor Cícero de Magalhães para descobrir as batidas mais gostosas nos botecos escondidos da Cidade Baixa. Os estudos abalizados do recatado Vilaboim, sempre recolhido à elaboração do vigésimo e último volume da primeira parte de seu Tratado Puro de Direito Internacional decorrente do comportamento atávico do urubu nas correntes aéreas.
Se lembrar é maneira de conhecer a vida, amá-la no vertical aceno das distâncias, como é bom saber que tive dentro daquela faculdade uma juventude marcante, a inscrever no tempo um calendário feito de sensações ricas, gestos discordantes e atos solidários. Discussões acaloradas aconteciam num ambiente de companheirismo, as opiniões se fazendo livres em seus ritmos de passagem. O pensamento ideológico conflitava-se e terminava muitas vezes em amizade permanente, o ideal dava lugar às relações cotidianas fora das dimensões críticas.
De anel no dedo e diploma na mão, regressaria ao Sul                                                                                 da Bahia com muitas lembranças agradáveis de meus idos acadêmicos na gloriosa Faculdade de Direito. Depois de muitos anos de militância profissional, questionando o percurso do moço do interior que se fez advogado, proclamaria dentro de mim a certeza dos que não se agacharam neste chão verbal  da lei com suas ervas daninhas nestes versos:
           
         “O sinete cônscio sempre
            para deslindar os cipós
            na terra a se fazer limpa
            refrescada pela chuva
            fecundada por um sol
com seus raios quentes
na pauta e julgamento,
o mundo desses crimes
nos porões e sonhos
de minha própria lei”.

                                 



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020






Prefeitura de  Recife Adquire
12 Mil Exemplares de  Livro
Infantil de Cyro de Mattos



        A Prefeitura Municipal de Recife acaba de adquirir doze mil exemplares de “Lorotas, Caretas e Piruetas”, de  Cyro de Mattos, livro de poesia infantil   publicado pela Editora  RHJ, de Belo Horizonte, com ilustrações de Luís Sartori do Vale, correspondendo ao valor de 120 mil reais. O livro foi selecionado  e aprovado no Projeto -  Programa de Desenvolvimento  da  Educação e da Gestão Pública da Prefeitura Recifense, entre dezenas de autores brasileiros do gênero.  A Prefeitura de Recife destinará os exemplares  à rede escolar pública e privada, bibliotecas e instituições culturais.
        “ Lorotas, Caretas e Piruetas”  recebeu  o Prêmio Alice Maria da Silva, da União  Brasileira de Escritores, RJ, em 2012. Reúne poemas em torno do mundo encantado e divertido do circo. Os personagens e cenas circenses compõem esta divertida coletânea de poesias. Os extraordinários versos com as peripécias  dos  palhaços brincam com o ritmo e os  sons das
palavras, em poemas que garantem  a leitura ainda em processo e  alfabetização. Na Bienal Internacional do Livro de Minas, em 2012, escolas  de Belo Horizonte fizeram teatrinho dos poemas enquanto o autor recitou vários deles, como o Palhaço Sansão, Palhaço  Bom de Briga e o Palhaço Perguntador.
         Ficcionista e poeta, Cyro de Mattos é membro das Academias de Letras da Bahia e de Ilhéus, Doutor Honoris  Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020





AUSCHIWTZ NUNCA MAIS
           
                                                          Cyro e Mattos 

Foi há pouco mais de meio século. Libertado pelos soviéticos, Auschiwtz era o maior campo de concentração, onde os alemães eliminavam milhares de judeus sob o ritmo implacável de um programa com incrível capacidade de persistência. Selecionavam homens, mulheres e crianças. Separavam os pais dos filhos, as mulheres dos maridos. Formava-se o grupo dos condenados à morte, o dos trabalhadores forçados, sendo que todos eram despojados de sua identidade cultural, substituída pelo número de série tatuado no pulso. Como gado que vai para o matadouro, criaturas indefesas apertadas nos vagões. Desapareciam sem que pudessem dizer adeus com esperança. Eram sombras, vestígios, pontos obscuros que se esfumavam ao longe.           
            Diante dos soldados do Exército Vermelho, em 27 de janeiro de 1945, muita gente morta, pessoas enforcadas e outras queimadas. Como o ser humano conseguia construir monstruoso absurdo e o que o tornava possível? O mundo não estava preparado para achar uma resposta ao horror executado pelos alemães nos anos do holocausto.                             Uma nação moderna, com a sua cultura requintada, que dera ao mundo homens como Bach, Mozart, Beethoven, Haendel, Goethe, Hesse, Thomas Mann, Rilke, Kant, Hegel, agora bloqueava um povo, recuava-o para os subterrâneos mais indignos, sugava sua identidade cultural, liquidava seus corpos e fazia com que o bem e o mal coexistissem numa vizinhança das mais imprevisíveis,  quanto mais niilista.
           Os corpos eram usados para experiências absurdas. Almas sem clamor e pequenos corações viviam aterrorizados sob a expectativa de que só sairiam de Auschiwitz pela chaminé,  reduzidos a cinzas. Tudo acontecia de maneira imperturbável. A fera ressurgia da antiga caverna para galopar nas trevas. Não concedia a trégua, bania a pomba na légua, só queria a selva, como se o amor fosse inútil e o absurdo fosse o horror na relva. O mal não tinha limites.
Como se os Direitos do Homem ainda não tivessem sido proclamados.  Foi há pouco mais de meio século. No século que celebrava os tempos modernos, da aviação, cinema e psicanálise. Fornos crematórios reduziam a cinzas milhares de judeus. Morriam com a sua mais difícil prova, a de que eram inocentes,  indefesos, e sem qualquer possibilidade para contradizer uma condenação sem sentido.  Naqueles idos de 1945, do lado de cá, numa cidade do interior da Bahia, um menino era levado pela mãe para aprender as primeiras letras no prédio escolar. Não sabia que milhares de habitantes da Europa eram reduzidos a cinzas por homens que se elegiam filhos de uma raça superior, sustentada em sua feição ariana por botas de ferro de soldados impassíveis.     
O menino assistiria a vitória do amor com o desfile sonoro do povo nas ruas e os sinos tocando na cidade pequena. À frente do desfile, um homem, baixote e gordo, levava uma tabuleta com esses dizeres: AUSCHIWITZ NUNCA MAIS. Era o gringo Leone Leibowitz, um judeu lituano que tinha uma loja de calçado, chapéu e tecido na rua do comércio. Vendia barato e ninguém entrava na sua loja para não comprar um sapato, chapéu ou tecido. Tinha uma maneira de falar engraçada, misturando o lituano com o português das terras do sul da Bahia.  Quase sempre o freguês demorava de  entender o preço exato que ele dava a um chapéu ou sapato. Gostava de fumar Yolanda Azul. O cigarro apagado ficava esquecido no canto da boca durante bons minutos. Não fazia mal a uma mosca.                                                                
           Os meninos de meu tempo gostavam muito dele.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020





Livro Infantil de Cyro de Mattos Foi Atração
no Festival Literário de Senhor do Bonfim

Com uma programação pra lá de especial, o  primeiro Festival  Literário de Senhor do Bonfim foi realizado em 19 e 20 de dezembro de 2019,  movimentando   o Centro-Norte da Bahia através  de encontros fascinantes entre os leitores e os livros.   Contou  para isso com uma série de eventos e, entre eles, na parte de contação de histórias,foi apresentado o livro infantil Minha Feira Tudo Tem Como Onda Vai Vem, de Cyro de Mattos, publicado pela editora Via Litterarum.

. A  Biblioteca de Extensãodo Estado (Bibex) teve dessa vez como ponto de parada o Festival Literário de Senhor do Bonfim (Flisbon), sendo esta a primeira edição do evento que patrocinou  na região.  A unidade da Bibex é integrada ao Sistema de Bibliotecas Públicas da Fundação Pedro Calmon (FPC), órgão da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA).
Foi esta a programação do Flisbon:
Quinta-feira (19):
9h às 12h – Exposição Bibliográfica;
9h às 12h – Visita à Biblioteca Móvel;
9h30 – Contação de História: O poderoso chinelinho. Autora: Patrícia Gonçalves;
10h30 – Entretenimento Cultural – Brincadeiras Educativas;
14h30 – Contação de Histórias: Minha feira tudo tem como onda vai e vem. Autor: Cyro de Mattos;
15h – Oficina Criativa: Origami.
Sexta-feira (20)
9h às 12h – Exposição Bibliográfica;
9h às 12h – Visita à Biblioteca Móvel;
9h30 – Contação de História: Mauro e o pé de pitanga. Autores: Camila Baqueiro;
11h – Oficina Artística: Pintura, desenho e colagem;
14h30 – Contação de Histórias: O rei bigodeira e a sua banheira. Autor: Awdrey Wood;
15h30 – Oficina Criativa: Primavera.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020






Editora de São Paulo Publica
Novo Livro de Cyro de Mattos


              A Editora Penalux, de São Paulo, acaba de publicar “Histórias de Encanto e Espanto”, livro que deu ao escritor baiano Cyro de Mattos o Prêmio Literário Nacional Cidade de Manaus, em 2018. Nas  dezesseis  “Histórias de Encanto e Espanto”,   encontram-se o dramático e o lírico, nos quais  certas  manifestações  do amor,  da tristeza,  do riso, da violência,    do  encanto e  do  espanto são  inventadas  graças a uma aguda compreensão da natureza humana.  Nestas narrativas de prosa prazerosa, percebe-se que Cyro de Mattos  dá continuidade ao seu projeto de ficcionista genuinamente brasileiro. 
As dezesseis histórias apresentam-se  em sete blocos, conforme o assunto. Os blocos com as respectivas histórias são estes:  1)  Histórias Enlaçadas no Amor -  As Ligações do Padre com  a Vizinha, Do Amor Desfeito e  Outro Mais Que Perfeito; 2)  Histórias da Velha Cidade - Seu Bem Maior, Os Negros; 3)  Histórias dos Mais Vividos - Um Homem  Muito Feliz, Uma Índia Chamada Kinani; 4)  Histórias do Riso - Fim de Carreira do Goleador,    O Rufião Simão dos Prazeres Neto e Joaninha da Mata Virgem ; 5)  Histórias  de Encanto e Espanto -  História de Vovó Maria da Guiné , Narrativa de Beda Cigano; 6)  Histórias do Calendário Triste -    Restos da Mata, Pelas Águas,  Menina de Rua; 7) Histórias Naquele Fim de Mundo -  O Cavaleiro Vingador contra o mandão da Crueldade,  Os Primitivos ou o Longo Curso da Violência, Nas Bandas de Tabocal.                                                                           
    Em artigo publicado no “Jornal de Letras” (Rio, 1980),    Jorge Amado referiu-se   à  personalidade vigorosa e original de Cyro de Mattos, à  condição humana dos personagens que surgem do seu conhecimento e emoção,  sem qualquer espécie de  artificialismo. Essas particularidades fazem com que “o autor  de Os brabos  pise chão verdadeiro, toque a carne e o sangue dos homens, entre sombras e abismos.”  O crítico Alceu  Amoroso Lima, relator do Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, concedido a Os brabos,  revelou ter encontrado neste livro “ narrativas dramáticas e brasileiríssimas, por seu tema e  por sua linguagem.”  Completou o seu pensamento: ‘Escritor visceralmente nosso... admirável  ficcionista.”
Cyro de Mattos nasceu na cidade baiana de Itabuna, em 31 de janeiro de 1939. Graduado em Direito pela Universidade Federal da Bahia. Contista, novelista, romancista, cronista, poeta, autor de livros para jovens e crianças, organizador de antologia e coletânea.  Publicou cinqüenta livros pessoais no Brasil, quatorze  no exterior e organizou nove antologias. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado em Portugal (quatro livros), Itália (seis livros), França (um livro), Alemanha (um livro),  Espanha (um livro) e Dinamarca, novela, ao lado de Mário Vargas Llosa, Alejo Carpentier, Jorge Luís Borges, Júlio Cortázar, Juan Rulfo,  Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, entre outros autores da América Latina. Participou como convidado do Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra, Portugal, Feira Internacional do Livro de Frankfurt, Alemanha, Encontro de Poetas Iberoamericanos, em Salamanca, Espanha, e Festa Internacional do Livro de Cachoeira (Fliqinha), Bahia.  Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna.  Diretor Presidente do Centro de Cultura Adonias Filho, da Fundação Cultural do  Estado da Bahia,  com sede em Itabuna, atuação para o  Sul da  Bahia, e Presidente da Fundação Itabunense de Cultura.

     Transcrevemos abaixo  a relação de distinções e prêmios do escritor Cyro de Mattos.    
Prêmios e distinções\: Prêmio Internacional Cervantes da Casa dos Quixotes do Rio de Janeiro, para autores de língua portuguesa, 1968. Prêmio de Ficção Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, 1978. Prêmio Nacional de Ficção Jorge Amado do Centenário de Ilhéus, 1981. Um dos Quatro Finalistas do Prêmio Internacional da Revista Plural do México, 1981. Prêmio Nacional de Ficção da Academia Pernambucana de Letras, 1983. Menção Honrosa do Jabuti, 1988. Comenda do Mérito Governo da Bahia, 1991. Prêmio Nacional de Poesia Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, 1997. Prêmio Adolfo Aizen da UBE/Rio, 1997. Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes, 2001. Prêmio Nacional de Ficção da Academia Pernambucana de Letras, 2002. Prêmio Adolfo Aizen Hors Concours da UBE/Rio 2002. Finalista do Jabuti, 2002. Finalista do Jabuti,  2003. Terceiro Lugar Prêmio Nacional Emílio Moura da Academia Mineira de Letras, 2003. Prêmio Marcos Almir Madeira da UBE/Rio, 2005. Segundo Lugar do Prêmio Marengo d’Oro, Obra Estrangeira Publicada, Itália, 2006. Segundo Lugar do Prêmio Marengo d’Oro, Obra Estrangeira  Obra Inédita, Itália, 2006. Prêmio Maria Alice de Lucas da UBE/Rio, 2007. Prêmio Internacional de Poesia Leodegário Azevedo da UBE/Rio, 2011. Prêmio Cancioneiro Infantojuvenil do Instituto Piaget de Portugal, 2012. Prêmio Olívia Barradas da UBE/Rio, 2012. Prêmio Maria Alice de Silva Lima da UBE/ Rio, 2013. Prêmio Internacional Jean Paul Mestas de Poesia da UBE/Rio, 2013. Membro Titular do Pen Clube do Brasil, 2013. Prêmio de Ficção Pen Clube do Brasil, 2015. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia, 2016. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, Sul da Bahia, 2016. Prêmio Literário Nacional Cidade de Manaus, 2018.  



quinta-feira, 16 de janeiro de 2020






Ginásio Divina Providência

Cyro de Mattos

O grande sonho dos estudantes de meu tempo era concluir o curso primário e, submetidos ao exame de admissão, ingressar no ginásio. Ser aluno do Ginásio Divina Providência era a maior glória. Significava pertencer a uma classe privilegiada de estudantes, motivo de orgulho dos pais, ser  admirado por pessoas importantes.
Ginásio de meninos e meninas como nuvens. Aquelas mesmas nuvens que acompanhavam a criatura em seus primeiros passos. Juntos queriam construir o futuro. Queriam melhorar de nível, atingir metas e entender tudo que é posto no mundo para ser alcançado.  Buscavam arma e bagagem para um dia tornar a vida rica de significados. Por isso suportavam o massacre diário, com exercícios aritméticos, lições de português, ciências naturais, geografia e história.
Era um tempo de desafio constante povoado de sombras. Tempo que ia passando com uma pesada carga de estudos. Noites de expectativa, alegria e susto quando chegava o fim do ano com a notícia de que tinha sido aprovado.  Havia em nosso ginásio professores com a sua maneira de ser rigorosa, como Nivaldo Rebouças, que ensinava inglês, e Odete Midlej, português. Havia também os de coração de açúcar, como Helena Borborema, padre Nestor, Lode Hage e ‘’seu’’ Queirós. Professores responsáveis todos eles, que não faltavam aula durante o ano, deixando nas lições sem disfarce a palavra fluir com dedicação e competência. Professores que, na voz tolerante, rigorosa ou paciente, faziam que os alunos amassem ou respeitassem o ginásio.
Ginásio dos meus verdes anos. Dos meninos Roland, Rafael e Nilton Gago. Das meninas Yeda, Ritinha e Mary Kalid. Dos futuros advogados Joel, Eraldo e Rui Fontes. Do engenheiro Dagô. Dos médicos Moacir, Euvaldo e José Orlando. Do escrivão Ronald Cravo, delegado Péricles e juíza Sônia Carvalho. Do deputado Jorginho Hage e prefeito Ubaldo Dantas. Do gringo Marcel Midlej. Das piadas inesquecíveis de Nilton Jega Preta. Dos namorados Carlos Euvaldo e Clotildes, Néviton e Marilene. Do goleiro Edsel e Chico, o craque. Do odontólogo Cleres Franco. Dos irmãos Ildo, Eudes, Uraci e Ovaci. Dos artistas plásticos Bebeto e Renart. Dos poetas, os lavradores do sonho, Valdelice e Florisvaldo. Dos que já não estão mais na sala, se foram cedo na viagem sem volta. João Berbert, Alberto Simões, Valter Delmondes, Vadinho. Valter Delmondes saltou da pequena ponte para as águas profundas. Aquela sombra que infunde medo instalou-se nas salas do ginásio. Pela primeira vez, solitário eu indagava pelos cantos sobre a escuridão daquelas águas.
Setembro tinha sentido com a cor do desfile no ar verde e amarelo. Tambores uníssonos, compenetrados do toque, rufavam a pátria amada. Marcha cívica ou efervescente música na pele de adolescentes com a alma de girassóis flamantes? Nem o aguaceiro que despencou de repente conseguiu tirar o brilho de um escudo glorioso sob os passos encharcados de sonho.
Ginásio de velhas brincadeiras em vozes tão novas.
Dona Lindaura, a diretora, certa vez me disse que o Colégio Divina Providência foi fundado pela Sociedade São Vicente de Paula, em 1924. Anos depois, o ginásio começou a ser administrado pelas irmãs de caridade. Criatura de estatura pequena, cabelos brancos e ralos, a diretora do ginásio segue nos passos firmes todos os dias rumo ao antigo sobrado da Rua São Vicente de Paula. Da primeira lição que ela me ensinou, nunca esqueci. Disse que para alguém ser gente na vida precisava conviver com o hábito do estudo. Ser gente era munir de saber a ideia. A cidade pequena escorregava na lama do inverno. Os alunos passaram a saber no ginásio  que as sementes boas do estudo para munir a ideia estavam no primeiro educandário da cidade. Colheitas desse saber haviam de ser feitas em pouco tempo. Com o passar dos anos, para orgulho dos pais, produziriam rimas ricas.


sábado, 4 de janeiro de 2020




FACULDADE DE DIREITO
Cyro de Mattos

Da Universidade Federal da Bahia. Gloriosa Faculdade de Direito, como eram comum alguns universitários dizerem, voz cheia de expressão feliz que o rosto deixava transparecer. No percurso que eu fiz na Faculdade de Direito, de 1958 a 1962, recordo a maneira de ser dos mestres nas aulas, a regularidade, a precisão e a ordem daqueles homens de vasto saber.
Diante de mim, nesse instante, a paixão de Adalício Nogueira pelo Direito Romano. A exposição exemplar que Nelson Sampaio fazia sobre a desumanização da Política ao longo dos séculos. A visão ampla e moderna de Machado Neto em torno da consideração do Direito concebido como norma de Kelsen, o jurista austríaco. A graça do professor Machadinho, o tetracatedrático, baixinho e gordo. Dizia em voz sonante, antes de iniciar a aula, que os alunos ficassem mais  que atentos, com os seus ensinamentos as paredes iriam tremer.
Lembro a eloquência de Josafá Marinho em suas lições de Direito Constitucional, a maneira encantatória das aulas de Direito Penal,  ministradas por Aloysio de Carvalho Filho, substituído  depois pela veemência de Raul Chaves. A eficiência de Elson Gottschalk para demonstrar o lado pragmático do Direito do Trabalho. O jeito elegante, a dicção objetiva, o poder de síntese e densidade com que o mestre Orlando Gomes transmitia,  sem esforço, as aulas admiráveis de Direito Civil.
Com esse e outros mestres, a razão do moço que veio do interior logo tomou conhecimento que o Direito é uma das maiores conquistas do ser humano neste planeta. Sem essa hora não existe o homem real, mas o regresso na escala biológica. Não há coexistência, a paz, meta maior de todos nós  nesse tão difícil gesto de viver.
Faculdade de Direito de minha adolescência. Dos jovens de ontem, residentes na Capital ou vindos do interior, alguns deles bem nascidos. A minha turma da Faculdade de Direito era também a de Antônio Luís Calmon Teixeira, o civilista, Marcelo Gomes, o empresário, Adalberto Carvalho, o cracão de bola, João Berbert, o cientista social, Dylson Dórea, de notável memória, o jurista, Artur Caria, o juiz, Raul Ferraz, o deputado, Lucy Lopes Moreira, a desembargadora, Ildásio Tavares, o poeta, João Ubaldo Ribeiro, o romancista, e Edvaldo Brito, o orador.
No rigor de atitude que comanda, o tempo passa e não perdoa. Sabe todos os caminhos, a claridade do dia e  a escuridão  da noite. Deixa-me sem resposta, se pergunto por essas  vozes, risos, expectativas, desafios, emoções que passam por meus olhos agora como sombra de uma paisagem precária. Por que tão depressa lá se foram esses gestos na curva da estrada? Ninguém pode me dizer algo sobre esse instante em que só tenho ouvido para escutar o rumor daquelas vozes.
Ninguém decifra como dói saber que a recordação de certas imagens nada mais é do que saudade de certos instantes. E as pessoas, objetos, bichos, ruas são fugidios. Como os dias, semanas e meses. Infelizmente.