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segunda-feira, 1 de agosto de 2022

 

               Um Homem Bom

                Cyro de Mattos

Homem alto, forte, voz grossa e mansa. Gostava de usar boné. Era sempre visto na feira do Centro Comercial aos sábados. Cedo recolhia com a pequena cesta donativos para a feira dos pobres. De porta em porta, na semana, pedia ajuda para a construção de mais leitos no albergue.

Dormia pouco, o tempo disponível era dedicado ao próximo. Dor é vida, sofremos porque estamos na vida, li no poeta Jorge de Lima. O homem que usava um boné ensinou que a vida torna-se leve quando habitada com amor. Há milênios que as religiões estão tentando mostrar ao ser humano que só o amor constrói. Braço ao abraço a rota fica mais fácil. Há milênios nós os humanos estamos construindo a história de nossa condição com intolerâncias, violência, egoísmo. Com uma escrita às avessas, desviada da ternura, mais para urubu do que para curió. O que sabe hoje o nosso pobre coração humano de Deus? Do enigma, da dor e do amor?

Essa lição fácil, dar alpiste aos desvalidos, pássaros tristes com as penas doídas, aquele homem de coração solidário ensinou no dia a dia. Por onde andou o seu coração foi para dizer que Deus existe. Podemos senti-lo na flor do coração. Basta amar o outro. A flor do coração sente-se em outros que a ele se juntam. O semeador de esperança no país dos frutos dourados, no chão onde o emblema da vida consiste em perseguir o dinheiro como a chave de todas as coisas.

Homem filho de um território onde no início o ser humano matava e morria por um pedaço de terra fértil, numa fome sem precedentes. Ensinou que a vida tem sentido com excesso de pobreza. Como pode vencer léguas do chão áspero e construir grande abrigo para centenas de pássaros sem voo e canto? Recolhidos aos dias tristes? Acreditava que a morada neste planeta é possível com todas as mãos numa só comunhão.

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Gandhi lembra que a cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se cada um de nós tomasse o que lhe fosse necessário, não haveria pobreza no mundo. Ninguém morreria de fome. O genial Charles Chaplin fala do caminho da vida com beleza e liberdade. Lamenta que tenha ocorrido o desvio da ternura. A cobiça envenenou a alma dos homens, ergueu muralhas de ódio no mundo, fazendo-nos marchar a passos de ganso para a miséria e horror dos morticínios.

Aquele homem, que usava um boné xadrez, gostava de oferecer uma rosa a qualquer um quando percorria a cidade, em seu rito de recolher donativos para os pobres. Em linguagem simples dizia que todos nós somos missionários. Consistia a prática em doar-se ao outro, semear o amor entre os excluídos de uma vida digna, muitos deles sem saber a razão da fome e sede. Ele, Bionor Rebouças, o pai, o filho, o irmão. Um homem como outro qualquer. Um libertador para os enfermos do Albergue Bezerra de Menezes. Um anjo que desceu do céu.

 

quarta-feira, 27 de julho de 2022

 

Dísticos

Cyro de Mattos

 

O bandolim

Tocou tanto para a lua no jardim

que ficou com as cordas de prata

 

A Garça

Em cima da pedra

a noiva pernalta

 

Infância

O mundo é uma criança

com palhaço e lambança

 

O Grilo

Todo o peso terrestre

nesse cricri constante

 

O Beija-flor

Beijar e amar

essa a vida do ar

 

A Isca

Quando vem à tona

como se arrisca

 

Adivinha

No avião faz proezas  

e é o rei da criação?

 

A Poesia

Sentimento e pensamento

nos fios sem fim do sonho

 

O Cais

Água batendo

pedra em saudade

 

O Rio

Morrendo de sede

Cachoeira o seu nome

 

O Canário

Pinga cantiga no paraíso

começando de novo.

 

A Canção

Doce como a chuva

venha comigo se molhar

 

A Casa

As flores no vaso

a mesa só ternura 

 

A Harpa

Cativante nos céus

enquanto as nuvens sonham

 

O Pinto

Minúsculo amanhecer

no pio no trisco

 

Os Janeiros

A cidade de brinquedo

um tempo de frutas

 

As Formigas

De folhinha em folhinha

o amor pela natureza

 

 O Campeador

No meu burrico

venço a solidão

 

A Hiena

Gargalhada anuncia

o espectro da fome

 

O Cão

O meu cão em hino

músculos me festejam

 

A Avó

Saudade assim

fixa o ouro na memória

 

O Coqueiro

Abano do vento

  carícia de lenço

sábado, 9 de julho de 2022

 

Cento e doze anos

 

Cyro de Mattos

 

 


Ultrapassou a barreira comum de nosso saco de tripas, superando a linha de chegada que Deus programou para nossa sobrevivência neste planeta. Ele fez cento e doze anos de idade. Seu nome: Benevenuto Jesus dos Santos.

No aniversário do patriarca, festa que começou a ser programada há dez meses, compareceu gente da prole que se espalhou por todos os cantos do Brasil. Filhos, netos, bisnetos e tetranetos. Gente que vive do Oiapoque ao arroio Chuí. Saibam os poucos que lerem essa crônica que ele tem vinte e cinco filhos, oitenta e seis netos, cento e dezoito bisnetos e, de quebra, dezesseis tetranetos. Sem dúvida, trata-se de um fato incomum, feito de vitalidade, otimismo e alegria. Serve como exemplo aos seus mais jovens descendentes e também para os jovens dos atribulados dias de hoje. Um homem viver tanto tempo e manter sua crença na vida.

Como eu disse, veio gente dos confins para o aniversário do patriarca. Gente de toda cor. Branca, preta, mulata, loura, sarará, cafuza, parda. E o que também impressiona nessa prole imensa e vária é ela se encontrar aí pelo mundo bem viva. Confiantes, alguns dos filhos do patriarca observaram que irão superar a marca do pai, um deles adiantou que essa proeza de fazer que a vida seja longa não vem só do lado paterno. A mulher do patriarca, Dona Filomena, perfumada, ruge no rosto, boca pintada de batom, o cabelo amarrado com uma fita azul, vestido com peixinhos no tecido rosa, não fica por menos, esse ano apagou noventa e cinco velinhas.

O que deve passar na cabeça de um homem com mais de cem anos de idade e que atravessou um dos períodos mais conturbados da humanidade? Foram duas grandes guerras mundiais, dezenas de guerras localizadas, muitas revoluções, inúmeras práticas de genocídio a povos e grupos discriminados, apogeu e desaparecimento de estadistas que a história conheceu como heróis.

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O patriarca nunca fumou, só veio tomar alguns goles de cerveja quando se aproximava dos cem anos. Devoto de Santo Antônio, sempre acordou às quatro da madrugada, logo indo abrir as janelas para evitar que os filhos ficassem perdendo tempo na cama.

Mais de trezentas pessoas transformaram a cidade onde o patriarca nasceu numa festa como nunca houve igual. Uma missa foi concelebrada ao ar livre pelo padre da cidade e dos municípios vizinhos.

Lá estava toda a prole em ritmo de alegria, vestindo camisetas com a foto do patriarca. Desde o filho caçula, com cinquenta e nove anos de idade, até o mais velho, com oitenta e seis anos. O padre da cidade mostrou-se feliz por ver uma família conseguir manter-se em unidade sob princípios cristãos. Destacou a fibra do patriarca, que, não sendo rico, educou os filhos numa vida de trabalho, sacrifício, honradez e sabedoria.

Os instrumentos de trabalho do patriarca, os arreios de sela, a capa contra chuva e o chapéu de couro foram doados durante o ofertório na missa. O largo da igreja estava lotado de pessoas entre felizes e curiosas. Terminada a missa, um churrasco para quatrocentas pessoas foi servido em outro local, ao ar livre. O velho Benevenuto Jesus dos Santos teve dificuldade em soprar as cento e doze velinhas.

Sabem do que o patriarca mais gosta atualmente? De dormir e comer, mas nada de alimentos enlatados. Sua alimentação é natural. Entre as poucas atividades que exerce, ensina aos mais jovens como melhor cultivar a terra, mostrando-lhes o tempo certo para arar e plantar. Ele disse que dormir cedo e acordar de madrugada todos os dias, comer sem exagero o alimento natural, não fumar, não beber, trabalhar a terra com a enxada, andar sempre e nunca se enervar nos momentos difíceis tem sido a fórmula que usou para chegar tão longe.

 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

 

Soneto do Cavalo

Cyro de Mattos

 

Músculo, suor, galope, cadência;

vento, porteira, campina, relincho.

No passo picado rude elegância,

maneira de cascos: trote, compasso.

 

Incansável crina em qualquer distância;

se selvagem, vence quem vem com o laço.

Nervoso fere com uma espada ígnea,

coito na seda, tremura, entrelaço.

 

Na chuva grossa, forte estiagem,  

que de melhor pra montar no cavalo?

A amizade? Na manhã a aragem?

 

Na sela agora surgem do que falo

coisas de ontem como se hoje fossem...

ele, relva quadrúpede, o cavalo.

 

(Do livro Cancioneiro do Cacau, Prêmio Nacional Ribeiro Couto, União  Brasileira de Escritores (RJ), um dos vencedores do Prêmio Emílio Moura da Academia Mineira e Letras, Segundo Lugar no Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Genova, Itália, e Finalista do Jabuti.)

terça-feira, 14 de junho de 2022

 

MACHADO DE ASSIS: ESTÁTUA VIVA

                                                               Raquel Naveira

                                  

 

        A pessoa que mais tenho visto e de que me lembro aqui no Rio de Janeiro é o escritor Machado de Assis. Não foi à toa que vim morar na rua das Laranjeiras. Algumas vezes caminho rumo ao Largo do Machado, com suas barracas de livros usados, de flores (e eu “por flor tenho loucura”, como dizia uma música de Cássia Eller); suas mesas de pedra, onde idosos jogam baralho e xadrez; sua entrada do metrô, conduzindo filas intermináveis   de gente pelos subterrâneos que levam aos bairros, às florestas, aos estádios, às favelas e às praias. Passo antes pelo concorrido sinaleiro em frente à suntuosa Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória, que lembra a de St. Martin em Londres. Às vezes, quando fecho os olhos por alguns instantes, pois creio em viagens no tempo, imagino o espaço entre a Igreja e o Largo forrado de antigos tílburis, aqueles carros de aluguel de duas rodas, dois assentos, com capota e sem boleia, puxado por um só cavalo, que servia de condução na época da corte. Dona Carlota Joaquina passando com sua luxuosa carruagem rumo à Chácara Botafogo. E mais tarde, o próprio Machado de Assis, apoiado em sua bengala, andando apressado em direção às palmeiras.

       Mas o Largo do Machado não tem esse nome em homenagem a Machado de Assis como algumas pessoas afirmam. O Largo já era do Machado, quando Machado de Assis tinha apenas quatro anos de idade, pois o escritor nasceu em 1839. A versão mais aceita hoje em dia é que no local existiu um açougue que exibia na sua fachada um machado de madeira. Um nome pobre, popular, que marcou aquele terreno outrora pantanoso e cheio de moluscos.

        Subindo um pouco mais, entre as ruas do Catete, Marquês de Abrantes e Conde de Baependi há uma bela estátua de outro escritor, José de Alencar, um dos expoentes do Romantismo brasileiro. É uma escultura de Bernardinelli, uma estátua viva, pois José de Alencar foi grande e mereceu virar estátua. Suas obras não cessam de surpreender sucessivas gerações.

                      Machado de Assis proferiu um comovido e saudoso discurso na cerimônia do lançamento da primeira pedra da estátua de José de Alencar, um homem que foi acima de tudo seu amigo e seu mestre. Disse Machado:

 

 “Agora que os anos vão passando sobre o óbito do escritor, é justo perpetuá-lo pela mão do nosso ilustre estatuário nacional. Concluindo o livro de Iracema, escreveu Alencar esta palavra melancólica: ‘A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro, mas não repetia já o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra.’ Senhores, a filosofia do livro não podia ser outra, mas a posteridade é aquela jandaia que não deixa o coqueiro, e que ao contrário da que emudeceu na novela, repete e repetirá o nome da linda tabajara e do seu imortal autor. Nem tudo passa sobre a terra.”

       Subo pelas ruas do Catete em direção ao centro da cidade, chego à Academia Brasileira de Letras, local onde Machado de Assis, seu fundador, também virou uma estátua viva. Uma estátua feita pelo escultor Cozzo, bem na entrada do charmoso Petit Trianon, local onde são feitas as sessões semanais, as palestras, os chás, as cerimônias de posse. Lá está ele sentado, quieto, pensativo, de bigode e pince-nez. Às vezes ele me parece tão perto, às vezes tão distante, mas sinto sempre na pele o seu olhar de bruxo.

            “_ É, meu caro Machado, digo-lhe baixinho, a literatura é mesmo ideal que eleva, honra e consola. As letras são boas amigas para quem tem a alma enojada e abatida como eu. A arte é a minha liberdade, meu remédio. É assim que venço as tristezas do coração e continuo amando. Você entende, não é?”

        Há manhãs, quase todas de sol, que caminho em sentido oposto, orientada pelo abraço do Cristo Redentor. Vou em direção ao Cosme Velho, ao número dezoito, último endereço de Machado de Assis e de sua esposa, dona Carolina. Foi de lá que saíram a cama do casal, a penteadeira, a mesa de jantar, fotos e objetos que hoje estão no Petit Trianon. Quando passo pelo casarão onde viveu Austregésilo de Athayde e pelo Largo do Boticário com seus casarões coloniais, azulejos e paralelepípedos, penso que poderei topar com Machado na primeira esquina. Talvez ele me falasse:

           “_ Você veio de tão longe, de um lugar cheio de pássaros, rios, cachoeiras, céus estrelados, boiadas, campos de vacaria, mas tenho certeza de que lá a natureza humana é a mesma: perigosa, sempre. Entre, Carolina nos fará um café.”

        Aí eu o abraço e deliro:

         “_ É verdade, vim lhes fazer uma visita aqui no Cosme Velho. Queria vê-lo de perto, escrevendo, debruçado sobre seus papéis avulsos. Queria andar por esses corredores, observar esses retratos. Ah! Como é linda essa “Dama do Livro”! Sabe, eu o acompanho quando o senhor vai pela rua do Ouvidor, entre alfaiates, floristas e joalheiros até chegar à livraria Garnier. Sigo-o pelas repartições, pelos gabinetes, pelos jantares e reuniões. Conheço sua ironia tranquila, sua piedade por todos, vítimas e algozes. Presenciei tudo, vi todos os vermes que roeram os cadáveres em suas ressacas de pessimismo.”

        Depois do café oferecido por dona Carolina, vestida de preto, beijo as mãos de meu   amigo e volto para minha casa, gruta ou caverna de aço. O Cristo agora é uma sombra projetada em minhas costas.


* Raquel Naveira é graduada em Direito e Letras, cronista, poeta, autora de uma vintena de livros.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

 

                Tanta dor, poesia  

                Cyro de Mattos

 

Adelmo Oliveira nasceu em 13 de maio de 1934, na cidade de Itabuna, sul da Bahia. Sua família constituída de retirantes da seca retornou às origens no sertão da Bahia, na época da Segunda Guerra Mundial. Publicou: O canto da hora indefinida (1960), O som dos cavalos selvagens (1971) , Cântico para o Deus dos ventos e das águas (1987), Espelho das horas (1991), Canto mínimo (2000), Poemas da vertigem (2005) e Antologia (2012) na coleção Poesia Seleta, da Editora Mondrongo.

Em Cântico para o Deus dos ventos e das águas, prossegue na jornada de andarilho da ilusão pelo “reino das estrelas eternas”, como ele mesmo diz em um de seus versos. Retorna ao espaço da emoção e reflexão ritmado com a  palavra que  expressa seu sentimento de mundo,  testemunho de seu tempo e lugar.   

Este livro está dividido em quatro partes:  Silêncio & memória, Grito & silêncio, O menino & o sonho, O homem & o sonho.  Com seus ventos e águas de eternas datas, esse cântico revela um poeta que em seu navegar solitário assume o gosto lírico da tristeza. Dotado de irmandade em   “Pássaro, humanismo político em “As bodas da morte”, moralizante em “Bilhete a um poeta”, ingênuo em  “O menino & os pássaros”, luto e dor  em “Elegia dos deuses”, sagrado no grave ritual de  “Confissão”. A dicção se compraz em guardar no tom pungente o que é fundamental moldado com a marca das distâncias. Na flauta que toca a música de tristes claridades, a expressão lírica filtra ausências por entre sombras, queixas de muitas solidões, isolamento, cais, despedida. Longe de desesperar, afirme-se com o poeta no seu ermo que “esse pranto e ponteio num poço de ondas e mágoas” redime, conforta.  Elucida no silêncio a rosa quando nasce ade pesares na paisagem solitária.

É uma poesia que se vincula à linhagem de tradição universal em seus elementos mais presentes: o verso, a rima, a imagem, o uso do soneto, o subjetivismo. E, moderna em sua expressão lírica, sem os desvios técnicos de certa vanguarda experimentalista. No ritual de dor, tristeza e solidão, conduz sua mensagem por “caminhos de orvalho”, através de uma dicção confessional que converte o poeta “a uma seita antiga para o culto de deuses invisíveis.”

O cântico que Adelmo Oliveira fere nessas águas de sal é vazado com solidariedade, equilíbrio de ventos ofendidos no tempo interior, doloroso e intenso, que corre no mundo. Sua música não é artificial. Há, em notas agudas,  o eu profundo que resiste a um mundo despido de ternura, em ritmo veloz que pulsa  no absurdo, impele a criatura para uma zona ausente  de esperança e compreensão.

É um cântico que comove, dado que nele submerso está o sujeito  como alguém triste, em  armadura frágil nos limites do próprio casco, com “um pé no chão e outro no espaço”, eis que emerge  daquela região fincada de pureza, apesar de perdida, na qual gravita  de si mesma a memória de cenas episódicas  eternamente nuas. A voz que escorre assim desse cântico mostra que na canção do viver e morrer lirismo e o lado social do homem como ser gregário podem conviver de mãos dadas, solidárias.

Pode-se dizer que em Cântico para o deus dos ventos e das águas o poeta resgata o homem com mãos cheias de amor no apito sonoro das extensões e fragmentos doloridos latejando na memória. Com voz subjetiva eficaz, tom suficiente de queixa na vida que passa, suporta no seu ermo o mito da inocência perdida. Navega nessas águas feridas, caminha nesses ventos ofendidos, diz do eco de vozes oprimidas. Guarda na melodia de rude mar rumores de madrugada, que se anuncia solitária e indefinida.

Na Antologia (2010), organizada por Gustavo Felicíssimo, Coleção Poesia Seleta, da Mondrongo, a poesia de Adelmo Oliveira é como uma estrela fixa que revela o mundo em órbita de ventos contrários. Constata de que estamos enredados com o peso do enigma, representados no atrito dos  seres e as coisas, até mesmo quando o cenário é a infância, que entre fissuras e rupturas forma fragmentos de uma fruta que de súbito acaba  com a idade adulta. Simbolizada por questões e momentos agudos, essa poesia é   algo que sempre está se fazendo e implica na criação de nós mesmos. Ora como feridas, que, no desencontro da passagem do tempo, deixam marcas profundas, próximas de verdades. Ora é a guerra que anula, a paz que marcha na esperança para colher a felicidade.

Ocorrem cismas dentro da alma do poeta:

 

Vértice no tempo

De tanta dor

Meu pensamento

É só amor

 

 

 Eis aqui uma poesia que, também, veste-se de coragem e dignidade no espelho das horas. De ritmo que agrada, conduz sem pressa quem a lê  por meio de discurso elegante,  sem a  dicção para  esquivar-se  da vida na colheita das dores. Não teme os desafios, nunca recua em suas constatações do que não agrada e oprime. Não se envergonha  de mostrar   como   dolorida  é a memória do eu pronunciado, vertido por meio  de insinuações e motivações na  lágrima feita de sal.

O mundo está dentro do poeta e o poeta dentro mundo. Essa é a sua  maneira  de  circular na existência, como um “filho errante da poesia.“ Os últimos versos de  “Monólogo de uma  rapsódia ligeira”, poema incluso na antologia, deparo-me com a certeza da crença desse poeta,  em voz viva:

 

  Só confio nas palavras

 Ainda que inutilmente revelem

 A verdadeira face da noite

                        

                         da noite

 

          Da grande noite de nossa inexorável miséria

 

A poesia acompanha decididamente os passos do poeta no seu ofendido ser-estar do mundo, enredado na ilusão sob o peso do enigma, condição que lhe é cobrado pelo tempo na morte dos dias. Ao ler a poesia de Adelmo Oliveira, escuto o poeta T.S. Eliot quando diz que o rio flui dentro de nós, o mar cerca por todos os lados. Escuto no poeta baiano a sua voz  que se abre com as palavras , soltas na garganta como canto de  pássaro,  retirando  de dentro a fala, o grito, que  diz:

 

Sou um eco de silêncio do infinito

que perturba a razão deste enigma.

 

Neste enigma vestido no silêncio dos desertos, o poeta medita o quanto o peito desesperado fala do homem habitado de sofrimento. As palavras são nítidas, cortantes, constatam, servem às feridas que não se fecham. Revelam sempre na metáfora do cérebro que tudo explode nos caminhos onde a cruz está fincada e abalam ideias no pensamento com incansáveis cavalos em   irascível galope. 

 Jogo e drama são movimentos de sondagem dessa poesia que pulsa em nervos e sentimentos, são vísceras do mar salgado da vida. Ninguém sabe de onde vem nem para onde vai este solitário coração. Com ele, no itinerário  de armazenadas solidões, salta o  pássaro riscado nas penas com pesares, desconfiado de sombras. Assim é que o poeta acha o equilíbrio por  entre os medos  e os vazios, delírios e sonhos. E se vê como um intervalo que não chega a compreender, não consegue decifrar o código cujas pontas estão atadas entre o primeiro vagido e o último suspiro. 

Da infância, o poeta lembra o Rio do Ouro que secou, os caminhos que não se completaram, as veredas compartilhadas com o destino que deságua em um leito de águas mortas, nesse súbito estuário escuro. De outras vezes romântico ou assumido realista, toma emprestado a voz de figuras fundamentais na crença de uma sociedade justa. Mostra-se engajado na poesia social, solidária, de alto nível, humanista, suportando dores refeitas na esperança do mundo melhor, seguindo na marcha de esperança. 

O poeta libertário, em “Pequena canção do porta-estandarte distribui versos cantantes para comover e unir todas as mãos em uma só cantiga:

 

Não é sede de vingança

Não é ânsia de terror

Não é fuga ao desvario

Não é escape de angústia amorosa

Nem murmúrio de sentimentos dissolutos.

 

E já podemos concluir com ele que a liberdade, o bem mais forte dos humanos, só é a força pura da vida, legítima, quando se escreve o seu nome  “como quem prega a paz e busca a felicidade.”

No exercício do soneto, faturado com sinceridade, verdades, dá mostras de certa morte que é puro fingimento. Vertido de vertigens e fantasia, enuncia uma de suas estações prediletas a perdurar segredos e desejos do mito que circula na rota da ilusão:

 

Aqui perto de mim, na minha vida

Meus olhos ficam cheios de poesia

- A estrela se debruça na janela

E a lua troca a noite pelo dia.

 

O poeta só emprega palavras que não desmentem o que sentiu e colheu nas dores da vida. Em Adelmo Oliveira, o universo verbal do poema não é feito com os vocábulos do dicionário, não se trata de ornamento que serve de mero passatempo. Quer dar no auge dos conflitos um sentido mais puro da vida.  (Ensaio que participa do livro Prosa e Poesia no Sul da Bahia, Editora Via Litterarum, Ibicaraí, Bahia, 2020)

 

 

Referência  

 

OLIVEIRA, Adelmo. Antologia, Coleção Poesia Seleta, Editora Mondrongo, Itabuna, Bahia, 2012.

 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

 

                                    Meu tio Raimundo 

                                          Cyro de Mattos

 

            Meu tio Raimundo tinha uma fazenda grande de criatório de gado. Às vezes ele pedia a meu pai para deixar eu ir passar com ele alguns dias na sua fazenda chamada Bela Paisagem. Lá o capim era verde e parecia que não tinha fim, se perdia nos pastos até onde as vistas pudessem alcançar.  Meu tio era muito sorridente, mostrava que estava de bem com a vida, apesar de não ter um filho, ele dizia que isso tia Edite não podia lhe dar. Ele dizia que eu era o sobrinho que ele mais gostava, o filho que ele queria ter.

         Gostava de pegar na minha cabeça e ficar repetindo Mundeco, meu sobrinho esperto, corra bem depressa, que é evem o boi brabo, maior que um boneco. Gostava de fazer adivinha comigo. Se eu acertasse uma adivinha, ele me dava sorvete, saco de pipoca, cocada ou um copo grande com caldo de cana. Eu escolhesse. Se eu não acertasse, ele dizia que não tinha importância. Era uma adivinha com a reposta difícil. Guardasse comigo, fosse apostar guloseima com os amigos para ver quem acertava a resposta da adivinha difícil, que somente ele e eu sabíamos.  

         Guardei várias adivinhas que ele me passou. Como essa:   O que é, o que é? Bolota voadora, Tem um zumbido Que não para, Entrando e saindo De uma casa Com cem portas? Ou essa outra: O que é, o que é?  Tem cabeça, Não tem rosto, Fura e segura, Marca o caminho Para a agulha Andar na costura? Olhe, se você não for um menino esperto, não vai responder certo. Eu lhe ajudo com a resposta certa. A primeira é abelha, a segunda só pode ser alfinete.

     Meu tio presenteou-me no aniversário com um carneirinho. Pai e mãe não aprovaram o presente, ia dar preocupação e trabalho até que ficasse crescido. A ovelha, mãe do carneiro, morreu de uma picada de cobra, o carneirinho ficou órfão, berrando sem parar, de causar pena, segundo meu tio informou. Agora eu ia ter que cuidar dele dando leite na mamadeira. Fiz a dormida dele no quintal, na casa onde guardava meus brinquedos, como bicicleta, skate, bola de futebol, bambolê e patim.

      Quando chegava da escola, ele ficava no quintal berrando até que eu chegasse com a mamadeira grande de leite. Saía comigo pela rua puxado pelo cabresto. Gente adulta parava, ficava olhando admirada o menino e seu carneiro, fazendo seu passeio pela rua do comércio. Ao passar a mão nele para fazer agrado, os dedos pareciam que estavam pegando em algodão. Ele tinha uma pelagem fofa. Daí eu passar a lhe chamar de Lanzudo. Quando deixou de beber leite e começou a comer capim, que meu pai mandava trazer na carroça, a mãe dizia que ele devia voltar para a fazenda do tio, era melhor ele viver no meio dos outros carneiros. Lugar de carneiro era no campo, finalizava, meu pai concordava com ela, sem pestanejar.  

      De fato, isso aconteceu, não que me conformasse com a ausência dele.  Era meu bicho de estimação, com quem me exibia com os amigos lá da rua. Cada um tinha seu bicho de estimação, cada um achava que o seu era melhor, mais bonito e esperto do que o do outro menino.

          Quando meu tio Raimundo faleceu, meu pai ficou muito triste, minha mãe chorou bastante, era o único irmão que ela ainda tinha. Eu, nem é bom falar do quanto chorei, até hoje fico saudoso quando lembro dele.  Não escondo, choro porque tenho saudades de mim.

 

terça-feira, 3 de maio de 2022

 

                   Romance em tempo de ternura  

                            

                                Cyro de Mattos

              

 

            Aníbal Machado estreou em 1944 com Vila Feliz, contos que seriam acrescidos de mais sete histórias inéditas, formando o volume de Histórias Reunidas (1959). Compendiado como autor de obras-primas com os contos “A Morte da Porta-Estandarte”, “O Iniciado do Vento” e “Viagem aos Seios de Duílio”, publicou ainda a coletânea Cadernos de João (1957), em que reúne breves meditações lírico-filosóficas e poemas em prosa. João Ternura (1965, rapsódia romanesca, teve publicação póstuma, após lendária gestação durante o período de quarenta anos.

Na longa gestação do romance, cujo personagem tem uma alma impregnada de visões do mundo numa paisagem que não lhe é vulnerável, considera-se que o clima em que se cumpre viver pelo personagem conota no real coerência e naturalidade. Daí ser compreendido por particularidades pessoais onde pulsa a ternura. Na peregrinação para escrever o livro, contemporâneos que viveram no ambiente íntimo do criador de João Ternura   informaram que Aníbal Machado passou por momentos difíceis de sua jornada criativa, na iminência da conclusão ou engavetamento dos escritos.

Aníbal Machado ressalta na introdução de João Ternura:

 

É possível que alguns leitores, de tanto ouvirem falar neste livro,

o recebam de pedras na mão. Especialmente os da geração mais

antiga. Tal seria a minha reação, se, em vez do autor, fosse aqui

            o leitor (pág. 3).

 

Valeu a pena a espera, tantas são as lições carregadas de humanismo que o herói terno-lírico transmite nas cenas fomentadas na rotina obediente ao seu próprio ritmo de contradições. Porque é simples, nascido cercado de desvelos, inquietações e expectativas, esse personagem solto na realidade aparentemente generosa constitui um grito lúcido contra a miséria da existência humana. Na pauta de egoísmo corriqueiro, em que   funciona a vida competitiva, o que ele vê não é um cenário desalentador, mas a necessidade que tem a natureza humana de seguir em frente, dentro de uma normalidade, que gera movimento e comportamento entranhados na rotina de expectativas e repressões.     

Através de gestos ingênuos, o personagem torna-se uma reflexão profunda da vida. Sem qualquer espécie de partidarismo ou pieguice, é cativante no itinerário das ocorrências que preenchem a biografia lírica cercada de intenções pequenas. Não se dá à reflexão em face de gestos desconcertantes, porque as contradições e dúvidas vêm desde os primeiros passos na infância quando o mundo adulto da incompreensão e insolência começa a existir até os momentos desagregadores das qualidades humanas.  Na cidade grande que esmaga, a vida mostra-se tal qual ela é, pulsa tendo como o principal os dias constituídos de indiferenças, incoerências que não fazem sentido diante do racional.  

Esse passageiro tranquilo, símbolo do vulgar ligado na ternura, “esse pobre João ternura que nas nuvens melhor ficaria, uma vez que sua simplicidade e inocência nem sempre encontravam resposta num mundo em que não conseguiu (e nem suportava) atingir a chamada idade da razão e das conveniências sociais que tão tristemente já alcançamos” (pág. 5). Ele não mede a vida com seus despropósitos porque a simplicidade é a tônica da sua mentira verdadeira, da qual emerge a vulgaridade das ideias, que nos sabem seres estranhos formados com a natureza das próprias conveniências. Até mesmo nas reações ingênuas diante da morte quando tinha a ilusão que poderia depois continuar de olhos abertos. Alguns anos em silêncio, sem direito à vida, a espiar com prazer a sucessão das novas gerações no Brasil progressista, com o seu crescimento material, a grandeza humana de seu povo, enfim, com os homens vivendo com simplicidade, cordiais nas atitudes para longe da exploração e do medo.

Frágil e forte, o personagem do romancista mineiro acredita na inocência como uma coisa útil e, por ser terno, não se corrige com as decepções que a vida oferece.

Aníbal Machado explica:

 

E você pensa que ele vai se corrigir? Duvido. É possível que um dia

ainda abra os olhos. Isso a poder de muita cabeçada. Precisa primeiro

 sofrer na pele, levar trancos. Mas esse diabinho parece que não sofre,

 nem toma conhecimento da realidade. Não analisa os fatos. Nem

raciocina. Falta-lhe espírito objetivo... (pág.125). 

 

Em sua maneira de contar com o mundo sem merecer inconformismos, vê-se que João Ternura acha tudo natural, a cegueira de lidar com a vida sem ver nela o sofrimento o absorve de tal maneira que suas relações com o cotidiano chegam a dar pena. Ele está sempre consciente de que entrou na vida inconsciente como qualquer um de nós. Não entrou nesta briga pensando em Dom Quixote, mas apenas trazendo como arma e bagagem uma maneira ingênua para sentir os seres humanos como agentes naturais das coisas que precisam ser alcançadas. Nessa visão desprevenida de que viver é rolar na vida com simplicidade, sem se importar com as agruras, manter com ele qualquer tipo de conversa que analise a realidade tal qual ela é não será proveitoso. Ele não pode entender, por exemplo, que há em cada esquina pelo menos meia dúzia de desgraçados precisando de socorro. Não consegue conceber o mundo como um nunca acabar de murros, com os fortes, em geral estúpidos, pisando nos fracos.

Na escrita reveladora de candura, contradições e desconcertos, a fabulação sincopada em cada episódio sugere o ambiente necessário para revelar o conflito contado em determinadas passagens. Com isso quer traduzir a criatura humana em seus becos sem saída, prisões e medos.  Mostrá-la com a certeza de que quando se tem a natureza moldada com humildade a vida só pode ser vista no plano da realidade oposta à dos valores materiais, não permitindo que se pise nela com a vontade de deter as coisas postas no mundo para satisfazer desejos e ambições.    

João Ternura nos faz refletir sobre a humanidade caminhando nas pegadas da distância de uns para com os outros, projetando-se tranquila, aparentemente generosa, na expressão feliz o rosto dá a entender da existência de uma realidade proveitosa. Como portador da brandura, esse personagem intrigante informa sobre o nosso gosto de apertar o nó na garganta, sem variar nosso apetite voraz  persistente de pender para o egoísmo, que vem de longe.

O personagem lírico-vulgar resulta de inegável força criativa de autor experimentado, consistente em sua experiência de vida com bases humanísticas. Sabe valorizar sua mensagem pela atualidade vista nos gestos primitivos dos que se dizem civilizados, vivendo em ritmo tumultuado de hoje, cada vez mais intenso e veloz da cidade grande, “insone, cruel... maravilhosa ao longe, terrível ao perto. O texto que se move para a ingenuidade do personagem distante da realidade exterior, atinge momentos oníricos de rara beleza, de sonho sustentado na gravidade do diálogo difícil de ser formado nas zonas da morte onde tudo se dissolve.  

A economia vocabular, usada como uma constante para suportar o ritmo sugestivo da narrativa, a linguagem descontínua, composta de aforismos, artifícios, inversão de frases, acrobacias conscientes nas palavras, todas essas invenções formais com soluções só encontráveis na melhor ficção brasileira situam João Ternura num fluxo de beleza no qual se integram as fronteiras da poesia e do prosaico.

Como adianta um escritor da época, não é exagero afirmar que em sua construção afetiva encontra-se aqui a síntese do comportamento literário de Aníbal Machado. A mesma síntese cristalizada na escrita de Histórias Reunidas ou Cadernos de João. Nesse livro póstumo do escritor mineiro, o excelente prosador sente-se como que à vontade. O pleno domínio da escrita poética novamente emerge do espírito sensível com sutilezas líricas, no plano de imagens o sonho circula saliente sob o ritmo que prende.  Ora acelerado, ora lento, irrompe nas passagens da prosa depurada com fragmentos, vozes e figuras de um mundo incompreensível que nos impinge viver como estranhos e assustados. Trata-se de texto com técnica renovadora do discurso literário, mostrado como o real transfigurado no literário passa a se identificar com a poesia imbricada na vida.

Mas João Ternura não é apenas um texto com a forma apurada em sua grandeza técnica. Nas páginas de um discurso lírico bem construído, a vida pulsa com sentimentos que se mostram precisos nos momentos em que se desenham como achados felizes. É sentimento esteticamente realizado com sua mensagem forte formulada no diálogo aceso para iluminar o ser perdido na memória primitiva do tempo. O clima que se apreende no mundo singular de João Ternura muito se identifica com o espírito de seu criador. É como se o diálogo do personagem lírico-vulgar com a rotina das coisas não se esgotasse em si mesmo perante o lado incompreensível da vida. E fosse o grito lúcido do espírito tranquilo do próprio Aníbal Machado. Da razão penetrante e sentimento poético que se atraem e se unem para dizerem que o homem quando vive apoiado em padrão frágil de comportamento, imbuído de ternura, desligado da realidade exterior em seu lado cruel, não tem salvação para o pobre coitado, a vida deixa que se vá em sua clausura de alheamento até sucumbir acossado pela sua própria simplicidade.

Ler essa fábula moderna, percorrer o texto rico de significados e significantes, é rever a figura de Aníbal Machado. O homem culto, sensível, atencioso, de bons préstimos. Durante anos influenciou geração de contemporâneos por meio de artigos, conferências, diálogos e sugestões. Como testemunham dois escritores de seu tempo, foi um escritor que compareceu à lide literária dotado de simplicidade, não se preocupando com o poder e a glória, não usando ressentimentos para ferir o talento dos companheiros de militância artística.

Por ser criatura sem vaidades, cada vez mais rara entre os habitantes do país das letras, onde infelizmente circula o duvidoso como se fosse o verdadeiro, já podemos também dizer, como bem lembrou Carlos Drummond de Andrade, ao concluir a leitura do lendário livro, que ficamos sem saber se o criador de “João Ternura morreu efetivamente ou se é apenas uma de suas mágicas.”

 

REFERÊNCIAS

                        MACHADO, Aníbal. João Ternura, romance, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1965.

                      -----------------------------Histórias reunidas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1959.

                      ------------------------Cadernos de João, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro,1957.

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Balada em Prosa de Aníbal Machado, in João Ternura, José Olympio Editora, 1957.

 

* Cyro de Mattos é escritor premiado e publicado no exterior.