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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019


                               


                                  O Apostador
                                    
                                 Cyro de Mattos

            Começou jogando no bicho. Mudou para a loteria federal. Meses depois migrou para  a loteria esportiva. Agora estava de olho gordo na  mega-sena. Só valia ganhar, se fosse o único ganhador, entre milhares de apostadores. Mega-sena acumulada,  ao felizardo marés de milhões. Ele, o apostador incorrigível. 
           A mulher tentou livrá-lo do vício. Brincadeira no início, logo pegou feito  visgo. De tudo tentou. Benzedeira, banho com sal grosso, cartomante. Candomblé, espiritismo. Fez promessa forte a santo Expedito, o santo das causas impossíveis. Não adiantou.
         O pequeno patrimônio, com tanto esforço adquirido, sendo dissolvido. Primeiro o sítio, depois o automóvel, a própria casa. Morador agora de apartamento pequeno, sem luz do sol, vento fresco. Aluguel modesto, conjunto habitacional popular.
         A aposentadoria precária evitava que passasse fome. 
         Não tinha jeito.  Todos os dias fazia o jogo,  bebia sua bebida especial. Mês entrava, mês fugia.  Até as joias da mulher, herança recebida da mãe, que recebera da avó,  foram vendidas. Apostava, apostava. Venderia a alma ao tinhoso, se preciso. Seguia em frente. Um dia acordaria como o grande ganhador. Não conseguia fazer sequer  a quadra, não desistia. Quem não aposta,  nunca ganha, uma máxima que os apostadores não esqueciam, seguiam à risca,  dela não fugiam.
Alardeava. No dia que tirasse a sorte grande com a mega-sena acumulada,  faria  a maior  surpresa a centenas de pessoas de sua cidade natal. A cena diante dos rostos pasmos, na avenida principal, abarrotada de gente.  Distribuiria dinheiro gordo com muita gente, de preferência com os mais desvalidos. Queria ver todo mundo sorridente.     
         Foi comprar o pão na padaria do bairro. Na rua, as fezes do pombo  acertaram sua cabeça. Que nojo! Considerou o fato, podia ter sido um aviso. Entre tantos habitantes da cidade populosa, só ele foi o agraciado, ao ser carimbado com as fezes das aves na cabeça. O imponderável poderia favorecer-lhe em dados positivos lá na frente.  Acertaria na mega-sena,  para isso acontecer continuasse fazendo as apostas seguidas.     
         Fez o jogo, riscou apenas uma sena na cartela.  O dinheiro estava curto,  há tempos não fazia jogo alto. Foi conferir depois, o coração acelerado.   Só alegria,  acertou em cheio na mega-sena. Sozinho. Ganhou o mundo a notícia. Acertador do maior prêmio acumulado pela mega-sena fez apenas um jogo em uma cartela.  
        Cumpriria a promessa. Compartilharia o dinheiro ganho na mega-sena  com muita gente.
         Estavam crentes, pobres, medianos e ricos, que ele ia distribuir muito dinheiro na avenida principal.
        O trânsito  interrompido. O locutor pelo megafone parabenizava o homem da sorte grande. Não cabia de gente a avenida principal naquele trecho.
      Todos ficaram perplexos  com a cena surpreendente. Tirou as roupas do corpo, tacou o facão em cima e tocou  fogo. Ficou gritando: “Dinheiro você diz que me quer bem,  no meu bolso você vem!”
      Foi morar no sanatório Bom Retiro. Lá continuou  a fazer as apostas para acertar de novo na mega-sena. 

*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Publicado  por editoras europeias. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, México, Itália e Portugal.


terça-feira, 22 de janeiro de 2019







                  Minhas Memórias Esportivas do Goleiro Luís Carlos
                                                      
                                          Cyro de Mattos

    


            O goleiro Luís Carlos deixou-nos na véspera do Natal. Foi jogar nas canchas do céu, defender a cidadela de um time divino e maravilhoso,   neste certamente estarão atuando jogadores amadores inesquecíveis,  que se exibiram com a sua classe e empenho, do lado de cá, no Velho Campo da Desportiva, como Leo Briglia, Santinho, Humberto Cesar, Leto, Abiezer, Tombinha, Valdemir Chicão, Zequinha Carmo, Porroló, Zé Davi e o velocista Nenem, entre outros. 
              Luis Carlos Alves Franco, casado, pai de três filhos. Um goleiro elástico e elegante quando agarrava a bola ou mandava para escanteio, em defesas sensacionais. Sabia repor a bola em jogo com habilidade. Jogou em vários times importantes do futebol amador: Grêmio, Janízaros, Flamengo e Fluminense. Foi hexacampeão pela seleção de Itabuna no Intermunicipal. Assim que a seleção amadora tornou-se um time profissional para participar do campeonato baiano, ele foi o goleiro de várias temporadas. Numa delas, em 1967, conquistou o título de vice-campeão pelo Itabuna. Jogou também futebol de salão e basquete.
        Começou no Vasquinho, de Gil Néri, o técnico que dirigiu a seleção amadora de Itabuna e se sagrou campeão em vários anos. O Vasquinho disputava o campeonato no campo do bairro de Fátima. Do Vasquinho, ele foi defender o Grêmio, um dos times grandes do campeonato realizado no Campo da Desportiva. No Grêmio atuou primeiro no segundo quadro, até se firmar como goleiro do time principal. Foi campeão pelo Flamengo, duas vezes  pelo Janizaros e tetra pelo Fluminense. Como não existia televisão naquela época, costumava acompanhar o campeonato carioca nas transmissões pelo rádio. As rádios de Salvador não entravam em Itabuna, pouco se sabia dos times profissionais que disputavam o campeonato baiano na Capital. Era um leitor voraz das revistas  “Mundo Ilustrado” e “Manchete Esportiva”, que traziam lances dos times nas partidas do campeonato carioca e estampava fotos dos goleiros fazendo grandes defesas.
         Jogou ao lado e contra os melhores jogadores do futebol amador de Itabuna. O lateral Albérico, no Grêmio, Zequinha Carmo, Péricles, Tertu, Gagé, Codinho, no Flamengo, para não falar na seleção amadora com Santinho, Pinga, Ronaldo Dantas, Valdemir Chicão, Humberto, Tombinha, Abiezer, Jonga, Leto, Lua, Fernando e Carlos Riela. Ele informou que a seleção amadora de Itabuna fazia a preparação física de madrugada no Campo da Desportiva ou às vezes em alguma praça no centro da cidade. Quando o rio Cachoeira voltava ao curso normal, depois de uma grande cheia, deixava um grande areal perto do poço da Pedra do Gelo. Gostava de jogar pelada no areal. Tombinha, seu companheiro de time no Janízaros, não perdia uma pelada. Santinho era outro que participava das peladas no areal.
      No seu tempo, o clássico local mais disputado era entre o Flamengo e o Fluminense. Em um desses clássicos dos mais disputados, o Flamengo perdia de três a zero no primeiro tempo. O centroavante Caçote virou o jogo no segundo tempo, fazendo quatro gols. Os gols saíram rapidamente. Caçote parecia que estava com um demônio no corpo naquela partida. Fazia um gol atrás do outro. Ele comentou que Seu Astor era um torcedor ferrenho do Fluminense. O filho Fernando Riela estava no Rio de Janeiro e já ia assinar contrato com o Vasco da Gama. O pai mandou chamar o filho para jogar aquele Fla-Flu. Fernando Riela fez misérias nesse jogo, mas o Flamengo teve mais sorte, saiu vencedor e campeão daquela temporada.
      Na época em que passou a jogar futebol como goleiro, Luis Carlos disse que foi beneficiado na posição porque também jogava basquete, o que lhe ajudou na firmeza dos braços. Naquele tempo não existia preparador físico para treinar os jogadores amadores, quem fazia esse trabalho, no fundo do quintal ou em algum jardim, de madrugada, eram os próprios jogadores. Disse Luis Carlos que sempre foi bem recebido em todos os times que jogou, mas no Janizaros conquistou mais títulos. Da seleção amadora de Itabuna lembrava que a de 1966 era um timaço. Foi dela que saiu a base para o Itabuna se tornar um time profissional.
        Quando a seleção vencia fora de casa, informou,  o time era recebido com festa. Tinha até missa na catedral de São José. A festa continuava à noite na sede do Itabuna Social Clube onde hoje funciona o Banco do Brasil. Era ali que acontecia a grande homenagem aos atletas  com discursos de agradecimento, baile com direito à cerveja de graça e muito samba para alegrar a rapaziada. “Era uma verdadeira apoteose, feita de orgulho e felicidade. A nossa seleção transmitia amor a todos”, revelou.  
      Com tristeza, guarda bons momentos desse tempo que não voltam mais. Existem muitas fotos que foram guardadas com carinho pelo goleiro. Olhando algumas delas hoje, podemos visualizar o Campo da Desportiva lotado nos clássicos, os ares felizes de seus torcedores quando a seleção jogava e sempre ganhava. “Não me lembro que ela tenha perdido um jogo na Desportiva”, disse Luís Carlos.
     Para qualquer jogador da região era uma grande conquista pertencer a um dos times grandes que participava do campeonato no Campo da Desportiva. O goleiro Luís Carlos não conseguiu dormir quando vestiu a camisa do Grêmio pela primeira vez. Aquilo que tanto queria deixava de ser um sonho. Relembrou uma velha Desportiva cheia de lama, o piso esburacado, a grama sem qualquer tratamento. Mas ali era o palco em que desfilaram grandes jogadores durante quase meio século. Muitos deles foram atuar em equipes profissionais de Salvador, alguns até do Rio, São Paulo e Belo Horizonte.
        Os meios de comunicação daquela época não eram como hoje. Vivíamos isolados no interior. Ilhéus tinha um aeroporto e navegação marítima, o que facilitava seu contato com o mundo de fora. Se fosse hoje, muitos jogadores amadores do seu tempo fariam carreira em grandes clubes do Brasil, disso não tinha dúvida o goleiro Luís carlos. A torcida de cada time e da seleção era fiel e vibrante. Quando superlotava o pequeno estádio, onde não cabia uma agulha de tanta gente, tinha torcedor que ficava no galho das árvores, no lado de fora, ao redor do campo; no telhado das casas, no terraço do prédio do Hospital Maria Goreti e no morro onde foi erguida a igreja Maria Goretti,  do bairro da Mangabinha.
          Antes de se tornar um jogador da Desportiva, ele assistia belas partidas no estádio local e, numa delas, quando ainda era adolescente, viu de perto a atuação do Botafogo com  Mané Garrincha na velha Desportiva. “Ele deu um show de bola e só jogou um pouco no primeiro tempo. E nesse pouco tempo pagou o ingresso.”
              Falar de alguns companheiros? Pinga era um centroavante arisco, rápido, bom controle de bola, frio na hora de fazer o gol. Zequinha Carmo era o tipo do centroavante rompedor. Deu muitas vitórias ao Flamengo em partidas decisivas. Acreditava em todos os lances, não havia bola perdida para ele. Quando todos pensavam que não ia alcançar a bola, ele a pegava e fazia o gol. Ronaldo Dantas, um zagueiro de estatura pequena, mas com ótima impulsão. Pulava acima dos atacantes altos, parecendo que tinha mola nos pés. Danielzão, por exemplo, não levava uma melhor com ele quando disputavam a bola pelo alto. Tinha uma técnica invejável, saía jogando com calma de dentro da área, depois de driblar o atacante. Abiezer era outra categoria, batia no calcanhar do atacante com toque sutil, sem ninguém perceber. Ele tinha uma técnica de desarmar o atacante que impressionava. Era um atleta magro como uma vara, mas o atacante tinha dificuldade em vencê-lo pelo alto ou com a bola no chão. Era muito eficiente. Fernando Riela, um ponteiro esquerdo que até hoje ele não  viu no Brasil outro igual. Carregava a bola pela linha de fundo, cruzava, pegava o rebote e fazia o gol.
      Para Lúis Carlos, José de Almeida Alcântara foi o prefeito que mais incentivou o futebol amador de Itabuna. Ele apoiava a seleção de Itabuna quando jogava fora de casa. Decretava feriado quando o time retornava com o título de campeão. Como prefeito foi o maior torcedor. Se Luís Carlos fosse formar a melhor seleção com os jogadores de sua geração, escolheria: Plínio, Zé Davi e Ronaldo; Valdemir Chicão, Abiezer e Hamilton; Gajé, Santinho, Jonga, Tombinha e Fernando Riela. “O excesso de bons craques amadores naquele tempo tornava difícil fazer uma escalação com os onze melhores”, observou o goleiro. Ele guarda muitas medalhas conquistadas como campeão dos times que defendeu e pela seleção. Os filhos não se interessam por futebol, mas os netos, quem sabe, poderão se tornar bons atletas, e elas servirem de incentivo para eles. Além das medalhas, o goleiro guarda com carinho e saudade alguns recortes de jornais, trazendo noticias, crônicas e muitas fotos dos tempos áureos do futebol amador de Itabuna na velha Desportiva.
           “A imprensa sempre vivenciou o nosso futebol amador em todos os momentos. Nomes como Lourival Ferreira, Orlando Cardoso, Geraldo Borges, Iedo Nogueira, Lima Galo, Edson Almeida, Raimundo Galvão e Ramiro Aquino souberam muito bem divulgar, valorizar e incentivar o esporte em nossa cidade”,  completou  Luís Carlos.

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019






Poesia de Valdelice Pinheiro
É Publicada na Espanha  com
Tradução de A. P. Alencart



Com o título de “Bautismo y Otros Poemas/Batismo e Outros Poemas ”, o poeta peruano-espanhol Alfredo Perez Alencart  traduziu cinco poemas de Valdelice  Soares Pinheiro, que foram publicados no jornal  “Protestante Digital”, em edição de 10 de janeiro deste ano. Os poemas de Valdelice foram ilustrados com imagens dos pintores Tintoretto,  Nicolás  Maes e Picasso e são os seguintes: “El Bautismo de Cristo/Batismo de Cristo”, “Creación/ Criação”, “Poema para la Natividad/Poema de Natal”, “Paz/Paz” e “Se yo te digo adiós/Se eu te disser adeus”. Além disso, a matéria sobre a autora itabunense   traz na introdução uma foto  grande quando a poeta era jovem.  
O poeta Alfredo Perez Alencart referiu-se a  Valdelice Soares Pinheiro como uma autora excelente, ressaltando que apesar de pouco conhecida no Brasil é possuidora de uma poesia magnífica. “ Com especial prazer, traduzi estes  poemas da brasileira Valdelice Soares Pinheiro (1929-1993), nascida e falecida em Itabuna, Estado da Bahia. Em vida ela apenas publicou dois livros de poemas : “De Dentro de Mim” (1961) e “Pacto” (1977. Além desses poemários publicou   alguns poemas esparsos. Em 2011 apareceu “O Canto Contido”, coletânea organizada pelo poeta e ficcionista Cyro de Mattos, reunindo os dois primeiros livros e textos dispersos, do qual foram extraídos os cinco poemas que verti para o espanhol.”
         Alfredo Perez Alencart é um poeta peruano há anos radicado em Salamanca onde é professor da universidade dessa cidade conhecida como de saber e cultura. É tradutor dos poetas brasileiros Carlos Nejar,  Álvaro Alves de  Faria, Cyro de Mattos, Paulo de Tarso  e da portuguesa Maria do Samero Barroso, entre outros.  Muito premiado, autor de mais de vinte livros,  esse poeta imenso é publicado em mais de vinte países.
          Leia abaixo os poemas de Valdelice Soares Pinheiro publicados na Espanha:

EL BAUTISMO DE CRISTO: .   BAUTISMO   Yo te prometo, hermano, un bautismo cristiano. Haré tu inmersión en las mismas aguas mías, dentro de las mismas oportunidades. Sin caridad, por obligación, te envolveré en la flor del trigo azul, perfumaré tu cuerpo en la realidad del pan y te untaré de leche y miel. Abriré tu sonrisa en una nueva Primavera. CREACIÓN   Dios besó a las abejas y a las cerezas y dibujó los divinos dientes en la pulpa de una guayaba. Después encargó a los niños y a los pajaritos el sabor de la vida. POEMA PARA LA NAVIDAD   En medio de todas las alegrías por el Niño Dios nacido, tanta sangre por los niños que no nacen. En medio de todos los perfumes y hosannas, tanto grito, tanto olor de dolor en la boca de los niños con hambre. En medio de toda la paz de aquella estrella, tanta inquietud en los ojos de mis hermanos, tanto odio en las manos de los generales.   Niño Jesús, cruz y redención, abre de nuevo tu cuerpo sobre nosotros.  PAZ   Plántense los sueños en la alborada de los dedos. Coséchense las espigas en la mañana de las manos. Y, en el descanso de la noche, la mesa puesta, nazca el amor en el calor del pan. SI YO TE DIGO ADIÓS   Yo abriré mis ojos llenos de lágrimas sí, un día, a la orilla de cualquier camino, yo te digo adiós

Para ler a matéria sobre Valdelice no”Protestante Digital” clique no link abaixo:   http://protestantedigital.com/cultural/46180/Bautismo_y_otros_poemas_de_Valdelice_Soares_Pinheiro_traducidos_por_A_P_Alencart


quarta-feira, 2 de janeiro de 2019


            


        Conversa com Luís Carlos

                      Cyro de Mattos

           O goleiro Luís Carlos deixou-nos na véspera do Natal. Foi jogar nas canchas do céu, defender a cidadela de um time divino e maravilhoso,  neste certamente estarão atuando jogadores amadores inesquecíveis,  que se exibiram com a sua classe e empenho, do lado de cá, no Velho Campo da Desportiva, como Leo Briglia, Santinho, Humberto Cesar, Leto, Abiezer, Tombinha, Valdemir Chicão, Zequinha Carmo, Zé Davi, Porroló e o velocista Nenem, entre tantos de qualidades  expressivas.
          Luis Carlos Alves Franco, casado, pai de três filhos. Um goleiro elástico e elegante quando agarrava a bola ou mandava para escanteio, em defesas sensacionais. Sabia repor a bola em jogo com habilidade. Jogou em vários times importantes do futebol amador: Grêmio, Janízaros, Flamengo e Fluminense. Foi hexacampeão pela seleção de Itabuna no Intermunicipal. Assim que a seleção amadora tornou-se um time profissional para participar do campeonato baiano, ele foi o goleiro de várias temporadas. Numa delas, em 1967, conquistou o título de vice-campeão pelo Itabuna. Jogou também futebol de salão e basquete.
     Começou no Vasquinho de Gil Neri, técnico campeão  várias vezes pela seleção de Itabuna no Intermunicipal.  Com tristeza, guardava bons momentos daqueles tempos da Desportiva, que não voltam mais. Existem muitas fotos que foram guardadas com carinho pelo goleiro. Olhando algumas delas hoje, podemos visualizar o Campo da Desportiva lotado nos clássicos, os ares felizes de seus torcedores quando a seleção jogava e sempre ganhava. “Não me lembro que ela tenha perdido um jogo na Desportiva”, disse Luís Carlos.
     Para qualquer jogador do Sul da Bahia era uma grande conquista pertencer a um dos times grandes que participava do campeonato no Campo da Desportiva. O goleiro Luís Carlos não conseguiu dormir quando vestiu a camisa do Grêmio pela primeira vez. Aquilo que tanto queria deixava de ser um sonho. Relembrou uma velha Desportiva cheia de lama, o piso esburacado, a grama sem qualquer tratamento. Mas ali era o palco em que desfilaram grandes jogadores durante quase meio século. Muitos deles foram atuar em equipes profissionais de Salvador, alguns até do Rio, São Paulo e Belo Horizonte.
          Antes de se tornar um jogador da Desportiva, ele assistia belas partidas no estádio local e, numa delas, quando ainda era adolescente, viu de perto a atuação do Botafogo com Mané Garrincha, o demônio de pernas tortas.  “Ele deu um show de bola e só jogou um pouco no primeiro tempo. E nesse pouco tempo pagou o ingresso.”
      Para Luis Carlos, José de Almeida Alcântara foi o prefeito que mais incentivou o futebol amador local.  Ele apoiava a seleção de Itabuna quando jogava fora de casa. Decretava feriado quando o time retornava com o título de campeão. Como prefeito foi um torcedor entusiasta.  Se Luís Carlos fosse formar a melhor seleção de futebol da cidade  com os jogadores de sua geração,  escolheria: Plínio, Zé Davi e Ronaldo; Valdemir Chicão, Abiezer e Hamilton; Gajé, Santinho, Jonga, Tombinha e Fernando Riela. “O excesso de bons craques amadores naquele tempo tornava difícil fazer uma escalação com os onze melhores”, observou o goleiro.
        Fora das canchas esportivas, Luís Carlos foi  exemplar filho, marido, pai, avô e  irmão.  Bancário condigno. Amigo atencioso e franco.  Querido pelos parentes, reverenciado pelos desportistas. Cidadão itabunense dos bons.  Sua jornada que se fez aqui neste planeta deixa marcas positivas, próprias da natureza humana de criaturas emblemáticas.

·        *Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da UESC. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Publicado em Portugal, Itália, Espanha, França, Alemanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Autor de 44 livros de diversos gêneros.  Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. 


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

               










                                     
        Natal
       
         Cyro de Mattos

       Tudo é canto pelos ares, chão e mares.
       Todas as manhãs  acesas, o mundo esplende de paz.
       Luz nunca vista ilumina seres e coisas.
      Põe amor nas vistas, de tão pura.
      Alegra nessa estrada por onde os bichos andam.
       O menino pergunta:
      - Por que tanta luz?
      O pai responde:
      - Em Belém nasceu Jesus.

sábado, 15 de dezembro de 2018








Crença

Cyro de Mattos


Por que os homens
Amam a droga
E não da abelha
Os favos de mel?
Por que os homens
Amam as balas
E não a paz
Sem nenhum fuzil?

                                     Mas eu creio nessa manhã
Anunciada em Belém
Por um menino rei
Em seu berço de palha.

Eu gosto de ouvir
Sua canção na estrada
Falando duma união geral,
Que viver vale a pena
Quando a vida é uma dança
Com os homens como irmãos,
Cantando como passarinho,
Sorrindo como criança.



domingo, 25 de novembro de 2018







PRÊMIO “POESIA E LIBERDADE ALCEU AMOROSO LIMA”
DE 2018 VAI PARA O POETA ÁLVARO ALVES DE FARIA


                O poeta Álvaro Alves de Faria foi distinguido com o Prêmio “POESIA E LIBERDADE Alceu Amoroso Lima”, de 2018, pelo conjunto de sua obra poética. O prêmio será entregue no dia 5 de dezembro, no Centro Alceu Amoroso Lima – o Tristão de Athayde -, da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. O poeta é autor de mais de 50 livros no Brasil, especialmente de poesia. É também autor de peças de teatro. Álvaro Alves de Faria se considera um militante da poesia, desde os tempos de “O Sermão do Viaduto”, nos anos 60, quando realizou 9 recitais no Viaduto do     Chá, em São Paulo, com microfone e quatro alto-falantes.

             Por esse motivo foi detido cinco vezes pelo Dops. O Sermão do Viaduto acabou proibido. No final dos anos 70, também foi proibido pela censura seu livro “4 Cantos de Pavor e alguns Poemas Desesperados”. Sua peça “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo”, que recebeu o Prêmio Anchieta para Teatro, na época um dos mais importantes do país, também foi proibida de encenação nos anos 80 e permaneceu censurada por 8 anos.
             Em 1969, o poeta foi preso por 11 meses, como subversivo e por desenhar os cartazes do então Partido Socialista Brasileiro. Três anos depois, levou um tiro no ouvido e tem até hoje na cabeça a bala calibre 38, como herança da ditadura militar. Ao longo do tempo, dedicou-se por 15 anos à poesia portuguesa. Tem 19 livros de poesia publicados em Portugal e 7 na Espanha, além de participar de mais de 50 antologias de contos e poesia no Brasil e no exterior. O Prêmio POESIA E LIBERDADE é um dos mais importantes e significativos do Brasil no reconhecimento de uma obra poética que sempre foi testemunha de seu tempo, num ato de resistência.
           Antes do poeta Álvaro Alves de Faria receberam o prêmio “POESIA E LIBERDADE Alceu de Amoroso Lima” os poetas João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Adélia Prado, Paulo Henrique Brito, Armando Freitas Filho, Marco Lucchesi, Antonio Cícero e Leonardo Fróes.
 


quinta-feira, 15 de novembro de 2018





                               

                                
    Poemas do Negro

Por  Cyro de Mattos

Abolição

Na zoeira do terreiro
Batucam que batucam
Tambores sem cambão.

Trepidam nesses punhos
O suor, a lágrima, o sangue
Nos rastros do negro fujão.

Todos batem nesse tambor,
Pode até não ser de fato
A tão esperada abolição.

Mas é o começo duma hora
Que se faz tão grandiosa
Como o verde na amplidão.

 África agora é uma só voz
Na esperança das manhãs
Sem o ferro do vilão.

Canga

Não se logra extrair
Os ossos dessa massa,
Os músculos mutilados
No esforço dos anos.
Tuas mãos, escravas,
Alimentadas na turva
Ferida, dor sem cura.

A atrocidade no ferro
Que furou o coração,
 A enchente na vala
Que transbordou de mágoa,
Nuvens não tocadas. 
Nunca será paga a conta
Na mancha que envergonha.

Como herança os rastros
Dessa noite escura na pele
Que te lança nos muros,
Agarra-te  nas  manhãs
Com sua claridade vista
Apenas pelos não pretos.
Até quando barreiras
De tua  cor opaca farão
Da vida  uma coisa qualquer, 
Desigual, desvão sem canto?

Pelourinho

Como suportar?
Treze... trinta... cinqüenta...
Até o último gemido.

Os outros olhando
Cada chibatada. Tristes,
Sem nada fazer.    

Ladeiras gastas.
    E esse vento que recusa  
   Ao largo a desgraça.


sábado, 3 de novembro de 2018






Do trabuco à palavra

Cid Seixas




São duas armas, uma é mortal; a outra vislumbra a imortalidade. A escolha se impõe. Vamos ao texto.
Cyro de Mattos é um dos muitos escritores baianos da região do cacau – e um dos poucos cujo trabalho constante e associado ao necessário talento, é capaz de assegurar-lhe um lugar de destaque no quadro da Literatura Brasileira.
Sua produção remonta aos emblemáticos anos sessenta, quando publicou Berro de Fogo, seu primeiro livro, ainda marcado por imperfeições e outros traços de início de uma aprendizagem. Consciente da falibilidade do artista, Cyro exclui o livro da sua bibliografia para aproveitar o conto-titulo e publicar, já em plena maturidade, em 1997, pela Editus e Fundação Jorge Amado, uma das suas obras clássicas: Berro de Fogo e Outras Histórias.
Alceu Amoroso Lima, crítico e pensador dos mais respeitados, que adotou o pseudônimo de Tristão de Ataíde, deu-nos um testemunho essencial para a inclusão do nome do grapiúna no quadro da literatura brasileira do século vinte:

“Extraordinária capacidade de dar aos aspectos mais típicos da realidade nacional, em estilo profundamente impregnado da nossa fala brasileira, a revelação de um escritor visceralmente nosso... admirável ficcionista”.

Convém lembrar que foi em 1968 que Cyro de Mattos viu seu nome ser incluído entre os bons contistas, quando a narrativa “Inocentes e Selvagens” – selecionada para figurar neste e-book – recebeu o Prêmio Internacional Cervantes, da Casa dos Quixotes, para autores portugueses, africanos e brasileiros de língua comum.
É ele quem revela, em correspondência de outubro de 2018, ao organizador deste volume:

– “Concorri com mais de 100 autores. Como era um concurso  expressivo na época,  lançou-me como autor de ficção curta no circuito nacional. Eu era desconhecido, estava dando os primeiros passos,  hesitantes, em minhas atividades literárias. Havia publicado Berro de Fogo, contos, livro riscado de minha bibliografia; nasceu imaturo, cheio de vícios.”

A atitude consciente do contista, rigoroso a ponto de abandonar um livro que não mais respondia ao rigor da sua obra, nos remete ao escritor português Miguel Torga, cujo primeiro volume das suas obras publicadas no Brasil, pela Nova Fronteira, em 1996, tive a oportunidade de fazer uma introdução crítica, por sugestão da família do autor. Como foi observado, não apenas vários contos, mas alguns livros torguianos, na sua forma original, foram reescritos, repetidamente, em novas e constantes reedições. Nesse particular, o nosso Cyro de Mattos adota o procedimento do autor português da geração de presença, diferentemente do que fez o também grapiúna Jorge Amado, fundador e figura de topo do ciclo do cacau na Literatura Brasileira.
Amado não volta aos seus romances da juventude para reescrevê-los. Ao contrário, deixa essas obras na forma original, mesmo quando revelam uma escrita em processo de amadurecimento ou quando traduzem uma perspectiva ideológica que se modificou ao longo do tempo, especialmente ao descobrir – com traumas e assombro – as incoerências da prática comunista de Stálin, contrárias à sua concepção humanista da socialização dos bens e dos valores.
Voltando ao juízo feito por Cyro de Mattos das suas narrativas, convém transcrever mais um trecho da já referida correspondência:

– “O conto “Os Recuados”, pungente e denso, é a história de uma mãe miserável, coitada, que mata o filho por amor, pois não suportava mais vê-lo chegar em casa bêbado. Ele bebia muito porque se via rejeitado como um índio pelos humanos, na feira. Deixo que isso seja visto nas entrelinhas.”

Em 1983, a Editora Tchê, de Porto Alegre, deu a lume o livro Os Recuados, de onde foi retirado o conto título, para compor este livro digital agora publicado na coleção “Teal” da E-Book.Br. Estes dois contos já citados são fundamentais na obra do autor e, coincidentemente, ouvindo-o sobre suas preferências, ele destacou as duas narrativas que ao lado de outras já tínhamos em vista para integrar este volume.
Surpreendentemente, para mim, Cyro de Matos destacou textos por ele intitulados de “contos de gente jovem”. O primeiro deles é “História do Galo Clarim”, que eu não conhecia e creio continuar ainda inédito, e o segundo é “O Menino e o Boi do Menino”, que completam este volume intitulado Nos Tempos do Trabuco. Esse último texto saiu em 2007 como um pequeno livro para os novos leitores infanto-juvenis, através da editora Biruta, de São Paulo.
Pela qualidade dessa faceta do escritor, a de autor de livros para jovens e crianças, e ainda mais pela natureza das narrativas de múltiplo alcance, isto é, capazes de interessar ao público adulto e a conquistar jovens andarilhos que se aventuram pelos caminhos da leitura, tais inclusões valorizam este e-book..
Embora apenas os contos “Inocentes e Selvagens” e “Os Recuados” integrem explicitamente a sangrenta temática do ciclo do cacau na Literatura Brasileira, o leitor das obras de Cyro de Mattos tende a situar esses singelos acontecimentos da infância no mesmo cenário geográfico das suas outras narrativas ficcionais, plenas de heroísmo e vilania que marcam a saga do cacau.
Convém observar que “Inocentes e Selvagens”, além de ter aberto espaço para esse escritor nascido em 1939, na cidade de Itabuna, veio a integrar o livro Duas Narrativas Rústicas, editado no Rio de Janeiro, em 1985, pela editora Cátedra.
Jorge Amado foi um dos muitos leitores privilegiados da obra desse escritor a deixar patente a admiração pela sua escrita genuinamente brasileira:

“Cyro de Mattos possui uma personalidade vigorosa e original, a condição humana dos personagens que surgem do seu conhecimento e da sua emoção nada tem de artificialismo... O autor de Os Brabos pisa chão verdadeiro, toca a carne e o sangue dos homens, entre sombras e abismos.”

Diplomado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, ele foi atraído pela força e pelo encanto da palavra escrita. Seguindo o caminho da maioria dos escritores brasileiros da região Nordeste, Cyro também se fez retirante, levando seu gibão de couro, cheio de histórias pra contar, até a ex-capital do país, o Rio de Janeiro. Para encontrar audiência, trabalhou como redator do Diário de Notícias, do Jornal do Comércio e de O Jornal, de 1966 a 1971; colaborando ainda com artigos e contos na revista A Cigarra e nos Cadernos Brasileiros e Leitura, além do Suplemento Literário do Jornal do Brasil e d’O Jornal do Escritor.
Como o bom filho quase sempre retorna à casa paterna, o escritor Cyro de Mattos voltou a morar em Itabuna, onde exerceu a advocacia e também encontrou tranquilidade para fazer frondosa a sua obra de mil e uma facetas.


·        Cid Seixas é poeta,  ensaísta e Doutor em Letras pela USP. Editor da Editora Digital Universitária. O texto  “Do Trabuco à palavra” é a apresentação do livro “Nos Tempos do Trabuco”, do baiano Cyro de Mattos, publicado pela e-book Editora Digital Universitária, Salvador, 2018.


terça-feira, 30 de outubro de 2018





Livro de Cyro de Mattos É Publicado Pela
 Editora Universitária do Livro Digital

     
        
           O livro Nos Tempos do Trabuco, do baiano Cyro de Mattos, uma reunião de quatro histórias, comparece agora ao acervo de livros eletrônicos da e-book.br Editora Universitária do Livro Digital (HTTP://literatura.blogspot.com), ficando assim disponibilizado para leitura gratuita. O livro tem organização, apresentação e notas de Cid Seixas, poeta, ensaísta e Doutor em Letras pela USP.
    Nos Tempos do Trabuco reúne as histórias “Inocentes e Selvagens”, Prêmio Internacional Miguel de Cervantes da Casa dos Quixotes do Rio de Janeiro, para autores de língua portuguesa, “Os Recuados”, do livro com o mesmo  nome, Prêmio Nacional Jorge Amado no Centenário de Ilhéus, “O Menino e o Boi do Menino”, conto infantojuvenil, publicado pela Editora Biruta, e o inédito “História do Galo Clarim”, juvenil.
     Eis os links onde o livro pode ser acessado: www.e-book br  www.linguagens.ufba.br  HTTP:// issuu.com/e-book.br . Se quiser ler o livro no celular é só copiar o endereço www.linguagens.ufba.br e enviar para o mesmo. Outros livros de Cyro de Mattos que já estão digitalizados:   Berro de Fogo e Outras Histórias, Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, 2ª. edição, 2013;  (WWW.uesc.br/editora); Histórias do mundo que se foi, Editora Saraiva, São Paulo, 2012; O Menino e O Trio Elétrico, Editora Atual, do Grupo Saraiva, São Paulo, 2012; Natal das Crianças Negra”, FDigital IDP (Independent Direct Publishing), www.fdigitalidp.com, Reino Unido (Londres), 2012;  O Triunfo de Sosígenes Costa, com Aleilton Fonseca, Editus , editora da UESC, Coleção Nordestina, Ilhéus, Bahia, 2004 (WWW.uesc.br/editora);  Poemas escolhidos/Poesie scelte, tradução de Mirella Abriani para o italiano, Segundo Prêmio Internacional  de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, Genova, Itália, Escrituras Editora, São Paulo, 2007; O Conto em Vinte e Cinco  Baianos, Editus, editora da UESC, Coleção Nordestina, Ilhéus, Bahia, 2009 (WWW.uesc.br/editora); Cancioneiro do Cacau, Editus, editora da UESC, 2ª. edição, 2016 (www.uesc.br/editora); “Histórias Dispersas de Adonias Filho, organização, notas e prefácio, Editus, editora da UESC, WWW.uesc.br/editora; A Casa Verde e Outros Poemas, Editus, editora da UESC, WWW.uesc.br/editora