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sexta-feira, 31 de julho de 2020



Fernando Riela: um mito na ponta-esquerda

 

                                                 Cyro de Mattos

             

           Divorciado, pai de três filhas, o ponta-esquerda Fernando Riela tornou-se um mito na história do futebol amador de Itabuna. Foi disparado o melhor ponta-esquerda que jogou no Campo da Desportiva. Para muitos que conheciam o futebol do Rio e de São Paulo, com seus grandes times, Fernando Riela foi o melhor ponta-esquerda do futebol brasileiro. Pode a afirmação soar como exagero, mas é que naquela época os meios de comunicação eram outros, sem as condições de hoje, não havia televisão, os jornais como O Globo e Estado de São Paulo, bem como A Tarde, de Salvador, não chegavam a Itabuna. As rádios da capital não eram ouvidas também na cidade. Escutava-se apenas a rádio Nacional, do Rio, um pouco a Tupi e Tamoio.

            Essa ausência de comunicação, entre uma cidade do interior da Bahia e os centros mais desenvolvidos do país, fazia com que vários craques do futebol de Itabuna fossem desconhecidos pela imprensa do Rio de Janeiro, São Paulo e até certo ponto de Salvador. Se fosse hoje, tempos de globalização do planeta, não há dúvida que Fernando Riela estaria vestindo a camisa de um grande clube do Brasil e até mesmo da Europa. Futebol de craque aquele inesquecível ponta-esquerda tinha de sobra para isso. É sempre lembrado com admiração e carinho pelos companheiros de geração e torcedores.

         Começou muito cedo, aos 14 anos de idade já jogava no time principal do Fluminense. Jogou também  no Flamengo, mas ao retornar para o Fluminense, de onde nunca mais saiu, sagrou-se campeão em várias temporadas, inclusive invicto em 1960. Para Fernando Riela, o melhor jogador de seu tempo foi Santinho. Um jogador completo. Tombinha, Carlos Riela, Santinho e o goleiro Luís Carlos, qualquer um deles poderia fazer carreira no futebol profissional de hoje, em grandes clubes do Rio ou São Paulo, se tivesse sorte, observou o craque. Fernando contou que Santinho, muito mais do que um amigo, era um de seus ídolos. “Foi ele que me ensinou muita coisa, inclusive a ser uma pessoa correta dentro e fora do campo.” Foi também a Santinho que o pai de Fernando confiou quando ele passou a jogar pelo Fluminense, em sua primeira partida, em Ipiaú, aos 14 anos de idade.

O time amador daquele tempo treinava na semana, com um programa que devia ser seguido rigorosamente. Mas sempre tinha um ou outro jogador que não se interessava em seguir as regras para que tivesse bom desempenho no campo. Uma coisa era certa, ninguém bebia na semana que ia ter no jogo de domingo. O próprio Fernando contou que ele mesmo só experimentou cerveja pela primeira vez aos 18 anos de idade. “Um exemplo que o atleta de hoje deveria seguir”, declarou, acrescentando que essa disciplina que o jogador mantinha contribuiu para que a seleção do Itabuna fosse campeã do Intermunicipal por seis anos consecutivos.

Ficou comovido quando se lembrou da seleção de Itabuna e dos bons tempos do futebol amador. Com jogadores como Francisquinho, Zé Maria, Nininho, Santinho e o goleiro Carlito, homens de ouro de um futebol igualmente brilhante, nos anos de 1957 e 1958. Houve um período em que o campeonato amador ficou parado no Campo da Desportiva. Fortes chuvas cortadas por relâmpagos e trovoadas causaram grandes danos no estádio. Derrubaram a parte da arquibancada, o muro e fizeram do campo um grosso lamaçal.

 Durante anos, a cidade ia ficando com ares sombrios pela tarde, sem os jogos de futebol que aconteciam aos domingos no velho Campo da Desportiva. Até que o empresário  Veloso e o pecuarista Rebouças decidiram recuperar o Campo da Desportiva, contando com a ajuda de alguns desportistas, comerciantes e fazendeiros de cacau. A velha Desportiva voltou a funcionar como o palco de grandes partidas de futebol pelo campeonato amador. Para soerguer o interesse pelo futebol, times do Rio eram contratados para jogar na Desportiva contra o Bahia de Salvador. Numa dessas partidas amistosas, o Bahia venceu de dois a um o Flamengo. Veio primeiro o Fluminense, depois o Flamengo,  América,  Bangu,  Vasco e  Botafogo.

         Fernando criticou a construção do Centro de Cultura Adonias Filho no terreno onde existia o Campo da Desportiva. A ideia do prefeito Ubaldo Dantas foi boa quando quis dotar a cidade de um centro cultural, mas que deveria ser construído em outro lugar. E o pior de tudo foi que prometeu construir um novo estádio para times amadores e nunca isso aconteceu.  Fernando ressaltou que o América, um time tradicional de Minas Gerais, tem um estádio no centro de Belo Horizonte, um pouco maior do que era a Desportiva, mas nem por isso foi demolido para dar lugar a um prédio com finalidade cultural ou pública. Continuava até hoje no mesmo lugar, servindo para jogos do campeonato juvenil mineiro, sendo preservado como patrimônio esportivo da cidade.

Em sua época, Itabuna contava com mais de dez campos de várzea. Ele citou, entre eles,  os campos no bairro Banco Raso, Fátima, Fuminho, Borboleta, o de Melquiades e o da Rua de Palha, no distrito de Ferradas. Tinha campo até no cemitério. A garotada fazia suas peladas nos terrenos baldios espalhados pela cidade, na beira do rio e na praça Camacã, antes que se tornasse um jardim com o nome de Otávio Mangabeira. Nessa época, as cidades de Ibicaraí, Buerarema, Camacã, Coaraci, Uruçuca e Itajuípe não tinham o campeonato local. Ubaitaba, Ilhéus e Itabuna eram as praças esportivas onde se praticava o futebol amador mais animado da região cacaueira. Os jogadores que se revelavam como bons naquelas cidades circunvizinhas sonhavam jogar um dia no futebol de Itabuna.

        Fernando também foi um dos fundadores do time profissional do Itabuna. Ele contou que, quando a Federação Baiana de Futebol acabou com o Intermunicipal para descentralizar o campeonato profissional, realizado somente com times de Salvador, o futebol amador ficou meio sem graça. Perdeu o brilho e o espírito competitivo entre os clubes da cidade. Ilhéus decidiu participar do campeonato baiano de futebol profissional com três clubes: Flamengo, Colo-Colo e Vitória. Foi aí que um grupo de desportistas locais reuniu-se na Cooperativa Rural e fundou o Itabuna Esporte Clube como um time profissional,  aproveitando a maioria dos jogadores da seleção amadora.

        Ele participou desse grupo de fundadores, que teve o pecuarista Zelito Fontes como uma figura importante para que a iniciativa se tornasse realidade. Esse dirigente de futebol deu três mil cruzeiros para cobrir as despesas da inscrição do time na federação baiana, em Salvador. Nove amadores da seleção amadora de Itabuna foram jogar no Itabuna profissional A primeira partida foi contra o São Cristóvão, vencida por um a zero. A segunda lotou o Campo da Desportiva. O Itabuna empatou de dois a dois com o Galícia. A renda alcançou doze mil cruzeiros, uma enorme soma de dinheiro na época.

        Muitas pessoas passam na vida e deixam boas lembranças nos outros, que jamais se apagam. Algumas dessas pessoas permanecem em cada um de nós pela sua humildade ou dedicação ao que fazem. Como esquecer Arnaldo, o roupeiro da seleção; Alfredo, o enfermeiro, Gil Néri, o técnico, o médico John Leahy e Gerson Souza, o Marechal da Vitória? – ele perguntou e ficou sem saber como responder sobre a razão de que tudo na vida é uma passagem sem retorno.

             Ele, o craque inesquecível do futebol amador sul baiano, com suas investidas fulminantes, dribles rápidos e desconcertantes, deixou-nos e sua querida Itabuna no último dia 22, quarta-feira,  e foi jogar futebol nos campos do eterno. Quem o viu jogar, sente-se um torcedor privilegiado, nunca é demais lembrar.   


quinta-feira, 23 de julho de 2020


        



           Torcedor na Desportiva    

                                                   Ao amigo Fernando Riela,
                                                               que tantas alegrias nos deu.           

Cyro de Mattos


Penso que um futebol amador de jogadores com boa técnica, que  se exibiam no velho e saudoso Campo da Desportiva, não deveria ficar esquecido. Merece um museu  para que um dos aspectos da nossa memória seja valorizada.  Sirva  para que as novas gerações tomem conhecimento  de que é o homem que faz o lugar e  não o lugar que faz o homem.  Explico melhor.  É imperioso que o futebol amador de uma cidade de interior, que teve fase  áurea,  seja mostrado aos conterrâneos e visitantes, curiosos e estudiosos. Como nasceu e se desenvolveu  com tão boas qualidades técnicas durante  seu longo curso de amadorismo. Avaliado nas razões de como jogadores que não eram profissionais, numa época distante do interior baiano, longe de centros esportivos desenvolvidos, como Rio e São Paulo, ou até Recife,  Belo Horizonte e Porto Alegre, deram espetáculos com um potencial técnico surpreendente, movido com arte e emoção.
Jogadores amadores que podiam vestir a camisa de  grandes clubes brasileiros, se tivessem atuando hoje. Não será exagero afirmar que com sorte alguns desses jogadores poderiam chegar  até mesmo à Seleção Brasileira. Cito três: Léo Briglia, Déri e Fernando Riela. Como aconteceu com o Perivaldo, que surgiu no declínio do Campo da Desportiva, ou com outros de época mais recente, quando então os meios de comunicação fazem ficar conhecidos os atletas que jogam  em lugares distantes desse imenso Brasil. 
                         Sem ufanismo, sabem como eu e os mais antigos desportistas de minha terra natal, vários  deles hoje passando dos setenta anos, que aqueles jogadores amadores escreveram, no piso esburacado de um estádio acanhado, páginas belas de uma das nossas maiores paixões populares. Basta dizer que meio século depois nenhuma cidade do interior da Bahia conseguiu igualar a saga da seleção amadora,  campeã seis vezes seguidas pelo Intermunicipal. Antes de alcançar essa marca, venceu  o Torneio Antonio Balbino, em Salvador, no qual participaram outras boas seleções do interior baiano. 
             Publiquei um livro sobre esse futebol amador  para contribuir um pouco com a preservação dessa memória. Promovi quando gestor cultural da cidade o documentário “Saudosa Desportiva, Gloriosa Seleção”. Sua exibição foi um sucesso. Tocou os corações de muitos,   familiares de jogadores, torcedores daquela época do futebol amador,  curiosos de ontem e hoje. Na tela do palco do Centro de Cultura local,  uma seleção amadora de futebol ressurgiu do fumo do tempo para mostrar  uma das faces da alma do povo brasileiro: o futebol. Jogado com emoção e garra,  classe e algum feitiço no campinho do interior.
           Sempre estou agradecendo àqueles artistas da bola na época de ouro de nosso futebol amador, pelas  alegrias que nos  deram no velho e saudoso Campo da Desportiva. Deles e do velho campo, com os momentos fascinantes, agradáveis e divertidos,  não  devo esquecer. Inspirei-me naquele mundo que se foi e escrevi  o poema  que transcrevo abaixo.

:  
Soneto do campo da Desportiva 

 De zinco era coberta a arquibancada,
A cancha tinha um piso esburacado.
 Nem um pouco essa chuva demorada
Conseguia deixar desanimado

O torcedor, que curtia a jogada
 Do seu ídolo na bola passada.
Dos pés a mágica mostrava ser
 Tudo um sonho para nunca esquecer.

 O gol de placa do atacante quando
 A partida já chegava ao final
 E a marca da seleção que venceu

 Tantas vezes o intermunicipal
 Não se desligaram do torcedor 
De antes pelos estádios do  mundo.   


sábado, 18 de julho de 2020




Tempos da Coronavírus

Cyro de Mattos

Ninguém imaginaria que as cidades fossem interrompidas no seu fluxo de vida com essa guerra da coronavírus. Agora todos andam de máscara quando uma necessidade impõe que vá  comprar algo necessário na farmácia ou supermercado. Cuidado, cuide-se com os demais, lave sempre as mãos, com álcool ou sabão, mas não esqueça o ritual, se viver é perigoso, agora é muito mais. Esse tipo de cautela pode ser providencial, vai  salvar a sua vida.   
Em nossas casas vivemos  recolhidos nessa repetitiva e irritante  quarentena,  que tem como um de seus propósitos fazer com que  nossa roupa fique apertada com os quilinhos  que de repente ganhamos.  A notícia na televisão informa  os estragos que a coronavírus  vem fazendo aos frágeis seres humanos. As cidades estão vazias. Vivemos um clímax de filme de ficção científica. De pesadelo e desalento.
As ruas desertas.  Impiedosa, sorrateira, veloz,  a coronavírus ataca todo o planeta e não se satisfaz com as vítimas fatais que vem fazendo a todo instante.Não bastasse exigir  o nosso confinamento, proibir  abraçar o amigo, impedir que o beijo em carícia de lenço não seja dado ao ente querido e a flor não se entreabra no rosto com a expressão do sorriso. 
Horrível, infame, impiedosa, essa coronavírus. De onde veio essa minúscula criatura que não é vista a olho nu com  sua fábrica da morte no lugar da vida? Para onde quer levar  nossos assustado e triste coração? Por causa dela, os pais ficam sem o filho, o marido sem a esposa, o neto sem a avó, o vizinho sem a vizinha. Ela  não tem limite, até criança é agarrada  por suas pinças venenosas. Quanto aos idosos nem é  bom  falar, são os que  são levados mais depressa na onda dessa assassina,   que mata e não enterra, de tão estúpida com a sua  traiçoeira invenção da morte. 
.  Maneira de forjarmos uma estratégia com vistas a diminuir suas investidas pusilânimes,  é ficarmos de quarentena,  recolhidos em nossas casas, não  formarmos grupos, evitarmos  sair como antes, só mesmo quando necessário.  É preciso  cautela até que se ache o antídoto para mandá-la para as funduras do pior abismo. Lugar que ela merece habitar para todo o sempre,   dormir e se alimentar de nadas, como é de sua predileção. 
Como penso que a linguagem literária é a mais completa  como leitura do mundo e a literatura é  forma de conhecimento da vida  fundamental como o amanhecer, além de ser fonte de prazer, quando se tem em mãos um bom livro, bem escrito, que conte uma história com surpreendentes sentidos,  sugiro que alguns que  vão me ler nessa crônica reserve um pouco de seu tempo de quarentena e tente escrever histórias, crônicas, poemas,  como forma de conversar no seu estar no mundo,  tomando a palavra emprestada do sonho.  Mostre à esposa, ao filho, ao amigo, as histórias, as crônicas  ou  poemas que você escreveu. Qualquer um pode tentar. A beleza e o encantamento da vida estão em tudo. |Com a arte da palavra, você também irá descobrir isso, tenho certeza.     
Afinal, todos nós, de poeta, médico e louco temos um pouco. Por que não de escritor, seja o nosso canto alegre, triste  ou rouco?








domingo, 12 de julho de 2020


                               A Crônica

                           Cyro de Mattos 


O estofo literário na crônica  retira-lhe a condição estrita de texto jornalístico quando então a linguagem objetiva procura informar o fato com precisão e rapidez.  Com  linguagem concisa e útil,   pretende aproximar  do evento os  seres humanos  onde quer que estejam,  para que tomem  conhecimento do que acontece no mundo. A crônica ameniza a notícia ou o episódio levado ao leitor sobre a vida diária, de forma que sua atividade subjacente na escrita o cative ou encante com sutilezas e imprevistos.       
         Na crônica de humor, o autor modifica  com graça  a comédia do cotidiano. Na de ensaio, tece crítica ao que acontece no sistema organizado, detectando falhas nas relações sociais e de poder. Na filosófica logra extrair  reflexões  sábias  a partir de um fato. Na jornalística enfoca aspectos particulares de notícias ou fatos, que podem acontecer na área esportiva, policial e política ou  em outros campos da atuação humana. Na poética toma emprestado a palavra ao sonho  para dizer da vida  com a sua face que ilumina o ser.    
      Segundo o poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade, de notícia e não notícia faz-se a crônica. Daí se pensar que pode ser atemporal, se o  assunto,  extraído da realidade exterior sob bases sentimentais, revestir-se  de arcabouço  literário, servindo para ser lido tempos depois   desgarrado do seu contexto  e ainda assim causando emoção.  Sempre dando  tratamento agradável ao assunto,  que descreve,  a crônica, de argumento ou  digressiva,  aviva  o evento com graça,  tornando-o poético pelo eu lírico que  tudo recorda. Anota com o relógio do coração. Fundamenta a ideia que na poesia da solidão é compartilhada com os que  irão fruir o prazer da leitura, os que não se colocam à distância, em razão da disposição anímica que alimenta a cumplicidade.    
     A crônica no seu arcabouço de escrita híbrida, entre o jornal e o literário, não apresenta limites muito definidos. Usa a oralidade na fala dos personagens e o coloquial na escrita, a sua linguagem é  simples. Alguns querem que seja   como  poesia espontânea  no seu discurso em  forma de prosa, outros acham que deve ter a feição de uma história curta. De uma maneira ou de outra,  não deve desprezar a linguagem amena a possibilitar o  seu  encantamento, nem  o modo que seduz e torna o leitor cúmplice da beleza quando emerge em devaneios ou digressões anímicas.   
Propensa a retirar o assunto do factual,  o espaço que melhor  achou a crônica para morar e se expandir  foi  o jornal. Rápida no que descreve, o jornal foi o lugar que escolheu  para demonstrar  leveza na informação do fato e a um só tempo produzir na escrita ágil aquela sensação que os ingleses chamam de human interest story.
Os entendidos acham que a crônica é um subgênero literário,  não possui expressão  significativa no sistema verbal,  se comparada  à poesia e ao conto.  Nenhuma literatura se faz grande com livros de crônicas, argumentam.  Não possui meios para que a  razão e a  emoção aprofundem a leitura do mundo. Não tem o lugar e o espaço do texto que se serve de olhares oblíquos  para focar a problemática existencial do ser humano e a crise de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. Mas não  se pode deixar de reconhecer é que a crônica quando  escrita por boas mãos contribui para a imaginação e a transcendência do mundo

quinta-feira, 9 de julho de 2020


             

         Nelly Novaes Coelho e os Escritores Brasileiros
                                     
                               Cyro de Mattos

               Em sua contribuição enciclopédica e analítica da literatura, como os iluministas de ontem, Nelly Novaes Coelho, essa intelectual rara, desincumbe-se da jornada literária com erudição, consciência crítica e uma santa paciência de pesquisadora. Ela sempre está surpreendendo. Depois de enriquecer o corpo das letras brasileiras com volumes importantes como Literatura e Linguagem, Literatura Infantil, Dicionário Crítico de Escritoras BrasileirasDicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira, Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil,  na idade em que muitos já aposentaram suas ferramentas, eis que ela comparece com ensaios fecundos para brindar  seu  público leitor com a obra monumental Escritores Brasileiros do Século XX.
          O alentado volume é resultado de 50 anos de pesquisas, leituras e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, congressos, seminários, colóquios, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América.
      São 81 escritores analisados neste precioso e extenso livro. Dos mais conhecidos, como  Jorge Amado, Graciliano Ramos. Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão,  passando por nomes expressivos que ficaram esquecidos pela crítica e do mercado editorial,  como Cornélio Pena, Gustavo Corção, Adonias Filho, Murilo Rubião, Victor Giudice, Campos de Carvalho e   Alcides Pinto.       
         E ainda outros que precisam de divulgação para que melhor sejam conhecidos:  Vicente Cecim, Olavo Pereira, Agripino de Paula, Fausto Antonio, Ricardo Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel Rawet e Alaor Barbosa. Todos esses autores, elencados nessa obra enciclopédica de ensaio, dão voo à razão e à emoção quando abordam a problemática existencial do ser humano e a crise de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. Dão  imaginação e transcendência ao mundo.
         A escritora admirável revela que  foi a “Sorte ou o Acaso” que puseram em seu caminho os 81 escritores reunidos e analisados neste seu último livro. A generosidade, a humildade e a solidariedade são marcas da alma dessa grande  ensaísta.   Os autores aqui analisados tiveram, sim,  a sorte ou o acaso que foi posto  em seus caminhos com uma analista literária da extensão de Nelly. Um autor para ser instituído como cânone precisa de um crítico dotado  de instrumental teórico suficiente, que  chame a atenção para as questões estéticas, seja capaz de revelar os elementos estruturantes que entraram  na composição da  forma e conteúdo da sua obra.
         No meu caso,  de autor baiano insulado em Itabuna,  no sul da Bahia, distante do eixo Rio e São Paulo,  que ainda hoje  funciona como tambor cultural desse país inculto, por mais que o mundo de uns tempos para cá tenha se tornado uma aldeia globalizada, nem sei como agradecer a minha inclusão  na relação desses escritores conceituados, selecionados e reunidos  no testemunho crítico da Nelly.
         Vale a pena repetir o que certa vez  ela disse sobre a literatura: “Sem leitura e escrita a vida não tem emoção.”
       Essa Nelly Coelho Novais, que viveu para amar a literatura e  que, em contrapartida,  tanto demonstrou quanto a amava.

domingo, 5 de julho de 2020






       Analista Literária Maiúscula

                  Cyro de Mattos


A linguagem literária é caminho  importante para a compreensão do outro mais  o mundo.  As obras literárias falam à imaginação e ao sentimento. As científicas, de preferência à razão. A soma da sabedoria humana não está apreendida por nenhuma linguagem. Nenhuma linguagem em particular é capaz de exprimir todas as formas e graus de compreensão humana. De todas as linguagens a que mais se aproxima dessa condição é a literária A literatura é a expressão mais completa do homem, como ente que pensa e sente. A linguagem literária é a mais completa para a leitura do mundo. Todas as outras expressões referem-se ao homem enquanto especialista de uma atividade.
            Só a literatura concebe e apreende o homem enquanto homem. Sem distinção nem qualificação alguma. É a via mais direta para que os povos se entendam e se encontrem como irmãos. Assim, ela devolve ao ser humano, o que de fato lhe  pertence como aptidão e aderência:  a inteligência e a emoção. Essa crença nos sinais visíveis da escrita como expressão do pensamento mágico e do pensamento lógico é o que Nelly Novaes Coelho  veio  transmitindo em  sua prática de docência universitária e exercício da crítica literária durante 50 anos.
          Portadora de uma didática admirável, pesquisadora exemplar, analista  lúcida.  Registra a voz de muitos autores que vêm dando seu testemunho de vida e ideais por meio da Palavra. Seus dicionários de escritoras brasileiras e da literatura infantil e juvenil brasileira são pontos elevados na valorização do corpo literário brasileiro.
          Ao colocar a cultura e a literatura  em tão rico  patamar, contribuindo decisivamente para a construção do patrimônio comum a todos os estudiosos e criadores literários, o seu trabalho de  intelectual maiúscula  é assombroso. A tarefa de pesquisa,  cara às universidades, à reflexão das mutações do mundo, historicidade e atualidade do homem, circunstanciado no ontem e no hoje,  encontra em Nelly Novaes Coelho  a dinâmica perfeita que emerge da vocação voltada para os campos investigativos e interpretativos, culturais e literários.

             

domingo, 28 de junho de 2020


                  

           Outra Perda  Enorme
                                      
                                Cyro de Mattos

Ano de  tristezas. Mal me refaço da grande perda com o escritor e confrade João Carlos Teixeira Gomes, o amigo Joca,   recebo outra notícia que abala quando leio na mídia  que o  professor e escritor Luís Henrique Dias Tavares também nos deixou. Professor emérito da Universidade  Federal da Bahia, ilustre membro da Academia de Letras da Bahia, ficcionista dos bons e um dos mais completos conhecedores de história da Bahia. Há tempos que se comentava  na Academia de Letras da Bahia que seu estado de saúde era delicado. 
 Se  era para continuar a sofrer, sem possibilidades de voltar ao bom convívio  de familiares e amigos, prostrado sem forças em  difícil quadro, pensava comigo ser melhor partir para o descanso na cidade onde se tem  um sono sem sonho. Mas ninguém quer abdicar da esperança nessas horas em que tudo que é feito não reverte o quadro.  Onde há um fio de vida, sempre o  coração é aceso com a  chama da esperança, que nos dá a crença  de que  os dias poderão voltar a ser  como antes.
O confrade Luís Henrique Dias Tavares  foi meu professor de história no Colégio da Bahia (Central), nos idos de 1955. Era querido pelos alunos, que ficavam seduzidos com seus dizeres límpidos na aula de  história. Fazia-nos ver que a vida vertia  conhecimentos históricos com leveza ali na sala de aula. Dominava com simplicidade o assunto,  que transmitia com alma aos alunos. Ninguém naquele momento, sustentado com o saber daquele professor de estatura baixa,  ficava desatento. Seus  ensinamentos chegavam  precisos, acessíveis, dava-nos prazer O professor revelou-se tempo depois como agradável ficcionista, cronista premiado pela Academia  Brasileira de Letras.   
Aquele homem prestimoso  foi o responsável pelo meu ingresso na Academia de Letras da Bahia. Um dia, telefonou-me perguntando se eu não queria fazer parte da entidade,  que precisava de gente  nova para renovar seus quadros. Aconteceu o telefonema no segundo semestre de 2002.  Adiantou-me que eu não  ocuparia um  lugar merecido  de membro efetivo,  porque, na minha condição de escritor residente no interior, os estatutos  não admitiam isso, só permitiam que  apenas me tornasse sócio correspondente da instituição. Respondi que aceitava, era uma honra o convite que recebia dele para exercer  importante mister.
Com a alteração dos estatutos anos mais tarde, um grupo de confrades generosos,  integrados pelos acadêmicos Aramis Ribeiro Costa, Joaci Goes, Gerana Damulakis e  João Carlos Teixeira Gomes,  sustentou a bandeira para que eu  me tornasse membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Tinha a certeza  que,  se o confrade Luís Henrique Dias Tavares estivesse bem de saúde naquela oportunidade,  viria se juntar a esse grupo de acadêmicos,   que abonava dessa vez  minha  candidatura para membro efetivo da instituição.
Foi um homem de notório saber, erudição e sensibilidade andavam com ele   animadas para que a vida fosse beneficiada com novas  riquezas de conhecimento da história,  cores  que fazem bem aos olhos, sons que agradam aos ouvidos. Só poucos conseguem erguer um acervo tão digno como ele  no seu  ser-estar, no seu  pensar o mundo e sentir a vida. 
Ó tempo, ó vida, ó solidão. É assim que fomos feitos para passar a cada dia,  como o vento que  agora esteve aqui e foi embora? É assim mesmo essa  viagem em que  seguimos como passageiros limitados e contraditórios?  Somos náufragos  do barco que singra sem rumo por  mares desconhecidos?
            Sou cristão, também tenho a crença nos orixás, herdada de minha bisavó paterna. Essa condição sincrética de fé sempre me motivou a continuar na jornada. Compele-me que siga adiante   escrevendo  ficções, ensaios e  poemas na tentativa de fazer a leitura do mundo mais completa.  Como nesse agudo instante em  que acabo de concluir um poema para ser dedicado ao meu   atencioso confrade e saudoso mestre.    
          Como pequena homenagem, abaixo transcrevo o  poema.

Ó Tempo

Para Luís Henrique,
em memória.

Quem entende teu gesto?
O passado não tem volta.
Não se esvaem as dores
presas  ao  presente.

O vento que se aloja
em tuas asas  fabrica
o reino das questões
que não se decifram.

Em rigor de atitude
no musgo de teu muro
pões frieza no meu peito
quando cai o inverno.

Até no encanto assustas,
a flor que aparece
é a mesma que breve
no pó desaparece.

Oculto  nessa palavra
que ceifa  a inocência,
a solidão das horas
em  teu enigma me ofertas.

sexta-feira, 19 de junho de 2020


            

            A Perda do Joca
              Cyro de Mattos       

Acordo assustado com a notícia desagradável  de que a Bahia perde o jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes. Jornalista combativo, conhecido como o  pena de aço, sonetista dos melhores, ensaísta exemplar, contista brilhante, torcedor apaixonado do Bahia. Membro da Academia de Letras da Bahia,  efetivo e eficiente. Um bom amigo, nosso  contemporâneo desde os idos de 1955,  no Colégio da Bahia (Central), passando pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da  Bahia, no período compreendido entre 1958 a 1962,   ao longo de militância cultural por mais de sessenta anos.
 A Bahia perde um grande homem, os de sua geração  um enorme companheiro,  inteligente e solidário. Em Agudo Mundo, livro inédito, presto uma modesta  homenagem a esse escritor singular de pluralidades significativas,  talento soberbo,  com o “Poema do Joca”, como assim era  chamado pela voz carinhosa dos amigos.  
Abaixo transcrevo poema, que com prazer lhe dedico, mas que nos seus versos agora me deixa saudoso e triste. 


Poema do Joca

João Carlos Teixeira Gomes,
moço apelidado de Joca,
De tanto afeto que por ele temos,
quem não sabe fique sabendo.

Eis que surge menestrel
no Colégio da Bahia,
na Faculdade às voltas
com o direito e as letras.

Eis o Joca jornalista
arrojado, contundente.
é o ensaísta de Gregório,
boca de fogo como ele.

Eis o Joca poeta grande, 
nesses rincões da Bahia,
de gafanhoto domador,
contemplativo da esfinge. 

De bom gosto sonetista,
entre tesouro e labirinto,
um dos melhores no Brasil.
Até mesmo em terra lusa.

O conhecido Pena de Aço,
não há outro que o iguale,
estremece o  poderoso,
iluminado como sempre.

                 










                    A Perda do Joca
                   
                      Cyro de Mattos 

Acordo assustado com a notícia desagradável  de que a Bahia perde o jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes. Jornalista combativo, conhecido como o  pena de aço, sonetista dos melhores, ensaísta exemplar, contista brilhante, torcedor apaixonado do Bahia. Membro da Academia de Letras da Bahia,  efetivo e eficiente. Um bom amigo, nosso  contemporâneo desde os idos de 1955,  no Colégio da Bahia (Central), passando pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da  Bahia, no período compreendido entre 1958 a 1962,   ao longo de militância cultural por mais de sessenta anos.
 A Bahia perde um grande homem, os de sua geração  um enorme companheiro,  inteligente e solidário. Em Agudo Mundo, livro inédito, presto uma modesta  homenagem a esse escritor singular de pluralidades significativas,  talento soberbo,  com o “Poema do Joca”, como assim era  chamado pela voz carinhosa dos amigos.  
Abaixo transcrevo o poema, que com prazer lhe dedico, mas que nos seus versos agora me deixa saudoso e triste. 


Poema do Joca

João Carlos Teixeira Gomes,
moço apelidado de Joca,
De tanto afeto que por ele temos,
quem não sabe fique sabendo.

Eis que surge menestrel
no Colégio da Bahia,
na Faculdade às voltas
com o direito e as letras.

Eis o Joca jornalista
arrojado, contundente.
é o ensaísta de Gregório,
boca de fogo como ele.

Eis o Joca poeta grande, 
nesses rincões da Bahia,
de gafanhoto domador,
contemplativo da esfinge. 

De bom gosto sonetista,
entre tesouro e labirinto,
um dos melhores no Brasil.
Até mesmo em terra lusa.

O conhecido Pena de Aço,
não há outro que o iguale,
estremece o  poderoso,
iluminado como sempre.