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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

 

                Papo de Caminhoneiro

                              

                                 Cyro de Mattos

                

 

        (... os dois caminhoneiros estão no Restaurante Nego Bom, rodovia 301, em animado papo regado à cerveja.)

 

- você sabe quando vai acabar essa corrupção na Republica Pinapá do Piripicado? – pergunta o primeiro

- não faço ideia – responde o segundo 

- quando morcego doar sangue – responde o primeiro

- boto fé no novo presidente

- o que ele pode fazer com essa praga miserável?

-  com o presidente Louro-Brabo o jogo é outro,  corrupção não                         tem vez

- pode não ser corrupto, mas pra mim não passa de um doido

- o homem é militar, está cercado de ministros militares, com ele ou vai ou racha, só esperar pra ver

- ver o quê?

- o homem está decidido a botar até tanque com canhão nas ruas,  tropa armada de metralhadora e granada,  mas ninguém vai ouvir falar mais  em corrupção na República Pinapá do Piripicado, o dinheiro público é do povo,  com o povo, para o povo, fora do povo  não há salvação, Louro-Brabo falou tá falado!

- ando farto desse engodo, meu caro, sai presidente, entra presidente, com o vírus da corrupção não há vacina que dê jeito, onde está o bicho-homem tem o fedor da mentira e podridão

- oh! que saudades que eu tenho dos anos que não voltam mais

- que saudades? que anos?

- do presidente Militinho com a sua sabedoria

- o que é que ele dizia?

- à paz, ao progresso, à igualdade de oportunidades, à vida sem fome para o pobre, ele dizia sim, à corrupção não!

- isso é bom pra se dizer, quero ver fazer acontecer

- não tiro sua razão

 

*Cyro de Mattos é autor de 80 livros, de diversos gêneros. É também publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

 

CYRO DE MATTOS, POEMAS DE TERREIRO E ORIXÁS*

                        Por Gildeci de Oliveira Leite**

Degusto em uma qualificada barraca “Abará, acarajé/ adum, ajabô/ lelê, amalá/ arroz de hauçá/ caruru, vatapá/ xinxim de galinha/ aberém, acaçá/ bobó de camarão/ e ainda mungunzá.” Para produzir essas e outras especiarias, o chefe de cozinha precisa conhecer Palmares “ritmo da liberdade/ batuque da igualdade, manual de fraternidade”. Comidas assim, feitas de dendê e cereais, alimentam a alma e fazem a juventude saber que “Jesse Owens ganha de Hitler/ nas olimpíadas da Alemanha”, que Lima Barreto, Martin Luther King, Zumbi e Pelé possuem o “gingado, rebolado, a batida, / o canto. O riso escancarado/ na passarela da Sapucaí.” Eu bem sei como a felicidade vinda do axé incomoda!

Quando visitarem essa Barraca de “Poemas de Terreiro e Orixás”, saberão que há dois grandes tabuleiros diversos e coesos: um negro bazar. Lá se enaltece a “Abolição”, denuncia o “Pelourinho” e a “Escravidão”, lembra-se de ícones nossos como “Preto Domingos”, “Mestre Bimba”, “Severina Nigeriana”, “Negrinha Benedita”, “Rainha Menininha”, “Mãe Stella de Oxóssi”, Besouro, Samuel Querido de Deus, Algemiro Olho de Pombo, Feliciano Bigode de Seda, Pedro Porreta, Sete Mortes, Pastinha e Bimba. A leitura é uma delícia, pois os tabuleiros são fartos, de elevado nível, possuem visgo de jaca encantado, grudam de forma agradável desde a primeira palavra, é “Preceito, respeito”, diz de um jeito “Se for de paz, / venha cá, / vamos conversar com os orixás.”

Nos tabuleiros, há diversão e aprendizado, há sorriso e contestação, um chama-se “Poemas de Terreiro” e o outro “Poemas de Orixás”. A respeito do primeiro, passei umas dicas sobre as delícias, que podem ser encontradas. Já no tabuleiro, “Poemas de Orixás”, a poesia bela e didática diz que orixá “Ouve a queixa, / aconselha. Dá remédio, / concede graça. Abre caminhos / desfaz quizila. Rumo que clareia todas as tormentas”. Com Cyro de Mattos é possível ouvir poesia, abrir imagens em nossa cabeças, saber sobre Exu, Ogum, Xangô, Oxóssi, Oxum, Iemanjá, Iansã, Oxalá, Boiadeiro, Vovó Maria Conga, Iroko, Nanã e outros encantados.

Cá entre nós, o grande escritor e vivo ancestral Cyro de Mattos é um bom e agradável matreiro. Em dois grandes tabuleiros de um único livro, o poeta oferece ao leitor um valioso patrimônio poético, trazendo aos mais curiosos e/ou didaticamente comprometidos, um glossário com os ícones citados e com nossas afro-brasilidades. Assim, o livro com seus tabuleiros, se apresenta como obra de arte que é acompanhada de suporte aos que desconhecem aspectos de nossa cultura. Sugiro o livro de Cyro de Mattos para o deleite, a fruição, para compromissos com a diversidade e com a cultura negra, para “cantar o canto negro com todas as notas.”. (Transcrito de “A Tarde”, 5.9.2021)

* “Poemas de Terreiro e Orixás”, Cyro de Mattos, Edições Mazza, Belo Horizonte, 2019.

** Gildeci de Oliveira Leite, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, professor do PPGELS/MPEJA — UNEB.

 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

 

                


                    O Coração Selvagem de Clarice Lispector

                                      Cyro de Mattos

 Quando estreou aos 23 anos com Perto do coração selvagem (1943), Clarice Lispector causou impacto no ambiente literário e na crítica especializada da época. É que o romance vinha com um discurso diferente do que a tradição costumava conceber e executar no texto com bases no psicologismo e nas referências dominantes da realidade social, fosse o contexto da narrativa no meio urbano ou rural.

 O romance abolia o tempo linear e usava o fluxo de consciência para que a personagem no pensamento exprimisse suas incertezas e tormentos. Nas circunstâncias do tempo exterior passava a ser vista por meio de outro discurso, que fazia indagações sobre um coração selvagem, pulsando sem encontrar algo que o fizesse em harmonia com o mundo. 

A ficcionista inovadora chegava para revolucionar na forma de contar a vida de Joana, personagem de caráter impulsivo, destemida, que tentava encontrar a sua verdade na vida. Não gostava de pessoas bondosas e de maneiras agradáveis. Desde pequena sente-se deslocada da vida exterior, adulta se vê tomada pelas incertezas de como aconteciam suas maneiras de ser perante a existência.    

Ao escrever sobre a vida de Joana, que ficou sem a mãe e o pai, a autora, sem o uso do tempo linear, mostrava com a aproximação do leitor às circunstâncias existenciais da personagem como se contraponteavam as relações críticas de uma mulher no contexto familiar. Clarice Lispector não queria mais a fabulação e a linguagem tecidas com a coerência da ordem exterior, mas como fatores mutilados pela desordem inventiva do sistema verbal, a frase construída com a veemência de inconsequências, incoerências formais que preferem dialogar no silêncio, meditar com o vazio, pois é no vazio que se passa o tempo. Como certa vez ela disse em Onde estivestes de noite?  (1974, página 34), “mas quando se trata da vida mesmo – quem nos ampara? – pois cada um é um. E cada vida tem que ser amparada por essa própria vida desse cada-um.”

Tentando pôr em frases a mais oculta e sutil sensação, desobedecendo a necessidade exigente de veracidade, Clarice Lispector permitia-se em seu romance de estreia apenas a transmissão da continuidade do clima narrativo.  Com expressão própria e pioneira elaborava um discurso que conservava a linguagem dizendo o máximo no mínimo da frase, com cortes poéticos de dor pesada. Operava a palavra como lâmina, a causar profundidades na leitura arguta que empreendia sobre os seres vivos e as coisas permanentes, nas relações e nos estados de alma em que o coração selvagem vibra e emerge de desafios e anseios.  

 O romance de estreia de Clarice Lispector não se processa como simples relatório amparado por linguagem sedutora e enredo que prende para o entretenimento. Para a autora, até na lírica do trivial se requer do romance invenção na forma de romper com os meios tradicionais de narrar uma história, oferecer acontecimentos que nem sempre resvalam por caminhos previsíveis, fáceis de apreensão pelo leitor apressado, que não consegue vislumbrar o sonho quando o processo criativo usa de reticências para dizer da existência. Por temperamento, vê-se incapaz de tocar em assuntos como a náusea, por exemplo, com um enfoque provido de introspeção na frase, pois sempre transmite assim  sensação de que a história não tem desfecho lógico decorrente do feito extraordinário.

O desconhecido vicia em Clarice Lispector, o que revela é tão novo, surpreendente, que se tem a impressão de que raros ficcionistas entre nós tenham realizado como ela a proeza de falar do nada para desvendar o tudo. De descobrir pulsações onde existem reflexos da vida no estreitamento do peito, como se os batimentos do coração ocorressem com o seu brilho aceso para iluminar a parte noturna do ser, de tal modo as situações emergem de um espelho humano com suas possíveis refrações.  Para tanto é preciso meditar com o silêncio e dialogar com o vazio para extrair dessa ligação novos sentidos do mundo.

Não se queira em Clarice Lispector de Perto do coração selvagem uma história representativa de vida, que tenha começo na sequência cronológica do tempo, motivada pelos feitos extraordinários desdobrados para um final coerente.  A abstração na lógica do real se dá porque a criatura humana é o ser do tempo. É cíclica a existência, que não tem princípio nem fim.  Com seus personagens atormentados, agora procedem às avessas na órbita objetiva das circunstâncias abstraídas da realidade exterior. 

Vale lembrar que, no novo cenário herdado dos escombros de duas avassaladoras guerras mundiais, o existencialismo era a concepção de mundo que a filosofia oferecia para o ser humano caminhar no que parecia ser o abismo da razão. Dentro dessa nova corrente de pensar o homem na órbita de suas circunstancias existenciais, Heidegger tem a concepção de que a criatura humana é um ser do tempo, para Sartre um ser da morte. A concepção da vida nessas formas existenciais do pensamento iria ser aproveitada por alguns de nossos ficcionistas no plano de suas criações.

 Em Adonias Filho, o homem trágico era transportado da Grécia para viver na infância da selva situada no sul da Bahia, submisso às forças do destino, que o tratavam como um servo da morte em ambiente primitivo. O romancista de Memória de Lázaro reproduzia a concepção de Faulkner quando afirmava que o ser humano construía o seu destino trágico, era ele mesmo o agente da infelicidade e da loucura, das forças que o levam à dor e às paixões. Em Clarice Lispector, as essencialidades humanas permaneciam mergulhadas no silêncio e no vazio das coisas destituídas de datas.  Como ser do tempo, o homem não é divisível porque movimenta-se dentro do tempo, habita um território sem limites, em silêncio, quando e onde apenas ele é.

Como elo de um ciclo que existe entre as coisas vivas e as não vivas, transita ao largo de uma sofrida aprendizagem até se encontrar definitivamente na união sensual do dia para a sua hora mais crepuscular. 

 

terça-feira, 24 de agosto de 2021

 

       Omissão na Cultura 

 

             Cyro de Mattos

 

A quem cabe zelar pela cultura de um povo e não corresponde aos seus apelos comete omissão imperdoável. A cultura alimenta a autoestima e reforça os laços identitários de uma sociedade nas suas relações com a vida.  Se a educação é o corpo da sociedade, que precisa ser bem alimentado, que dizer de sua alma, a cultura? Quem não valoriza a cultura de seu povo, contribui para que não haja resposta quando se pergunta qual é o seu nome, onde você nasceu e para onde você vai. Torna assim o ser humano um caminhante no vazio do estar para viver ou, se quiserem, cadáver ambulante que procria, como diz o poeta Fernando Pessoa.  

        O que vemos por aqui entristece. Ainda hoje viceja esse comportamento atávico para anular o que foi produzido para representar e permanecer como referência do nosso patrimônio cultural. O Museu da Casa Verde, por exemplo, que antes foi o espaço de convivência social da elite, com reuniões importantes de políticos, quando então eram debatidos assuntos relevantes de nossa cidade, encontra-se fechado há tempos. Seu patrimônio valioso, que muito diz sobre a história da burguesia cacaueira no tempo dos coronéis, está encoberto pelas sombras da indiferença do poder público, que assim contribui para que o visitante, o estudante e o habitante dessa terra desconheçam um capítulo importante da civilização do cacau, com seus costumes, valores, linguagens, suas relações políticas e sociais como marcas de uma maneira singular de proceder perante o mundo.  Não recebe o mínimo apoio do poder público, da classe empresarial e de clube de serviço, para que se torne um espaço movimentado com vistas ao conhecimento da história coletiva municipal e regional.

         O quiosque Walter Moreira, na praça Olinto Leoni, obra realizada na gestão do professor Flávio Simões, quando presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, está entregue ao léu da vida e ao sabor da sorte, caindo aos pedaços. Já serviu para exposições de artistas plásticos locais, comércio de artesanato, lançamento de livro e local como parte das comemorações no Dia de Cidade, com exposição de fotos históricas e dos prefeitos. Dá pena a quem vê o estado lamentável do Quiosque Walter Moreira. A memória desse artista da cor, que passou uma vida retratando na tela a paisagem humana e física dessa terra, não merece esse descaso.

           O Monumento da Saga Grapiúna, criado pelo artista Richard Wagner, itabunense de fama mundial, erguido nas proximidades do Supermercado Jequitibá, é uma homenagem aos elementos formadores da civilização grapiúna – o sergipano, o negro, o índio e o árabe, e não está tendo melhor destino. Monumento que remete as gerações de hoje e de amanhã à infância da civilização do cacau, em nossa cidade e na região, encontra-se também no descaso. O gradil protetor ao seu redor está danificado, lá dentro o seu interior serve de depósito de coisas imprestáveis e lixo. Não existe fiscalização nem proteção para preservar uma obra artística e cultural de valor inestimável.  

                         Com sua beleza rica de significados, em que se retrata a história da civilização cacaueira baiana, representada em figuras, símbolos, cenas e paisagens, o painel composto de azulejos, criado pela arte genial de Genaro de Carvalho, instalado no prédio Comendador Firmino Alves, onde funcionava o antigo Banco Econômico, entre a avenida do Cinquentenário e a praça Adami, nos idos de 1953, é indiscutivelmente um dos patrimônios artísticos de incalculável valor do  município onde nasceram o romancista Jorge Amado e o poeta Telmo Padilha.

                            Essa obra de arte magnífica esteve entregue à indiferença de autoridades, ao longo dos anos.   Ficou sem alguns azulejos, na frente serviu para que camelôs fixassem seus produtos à venda no comércio informal. A FICC fez a reconstituição das avarias no painel, mas agora tudo volta como antes. Na frente do painel, camelôs armaram bancas e sombreiros para vender suas coisas. Dentro do gradil protetor jogam lixo. A poluição visual do painel prossegue com a faixa estendida de um poste a outro, na frente, para anunciar a venda de um produto novo chegado ao comércio local.  

                        Perdemos o Castelinho, o Cine Itabuna, o prédio do Ginásio Divina Providência, a casarão do coronel Henrique Alves dos Reis, o Campo da Desportiva, a fachada da residência onde morou o comendador Firmino Alves e sua família na praça Olinto Leoni está desfigurada. Até quando vamos continuar maltratando a nossa memória e o nosso patrimônio arquitetônico portador de rico simbolismo de nossa história?

                         Senhor prefeito, mostre que não concorda com tais atitudes negativas de uma administração municipal que se apresenta como legítima, mande corrigir tais ofensas à cultura. Ainda há tempo, basta boa vontade.

 

*Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Autor de 56 livros pessoais.  Primeiro Doutor Honoris Causa da UESC.  Publicado no Brasil e exterior. Muitas vezes premiado. Da Academia de Letras da Bahia. Foi presidente do Centro de Cultura Adonias Filho e Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.

 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

 

Atualidade de Jorge Amado

Cyro de Mattos

 

Não é preciso esforço para compreender que Capitães da Areia é um romance social que tem uma força surpreendente na prosa que denuncia, comprometida com a vida miserável de certas minorias, que não entram na trama do texto vigoroso com suas particularidades fixadas como se fossem tipos curiosos, estranhos, diferentes. É romance que fere na dura lei da vida, sem cura aos que são vítimas de um sistema que privilegia uns poucos e se fortalece diariamente para esmagar a muitos.

É um romance que nas suas cores doloridas deflagra o tratamento violento que a vida dá a essas minorias de meninos que vivem em bando como imperativo da sobrevivência, maltrapilhos, rejeitados, vistos à luz distante, mas que em Jorge Amado, escritor engajado nos problemas sociais que afligem a vida, pulsam dentro, repercutem na compreensão afetiva que habita a personalidade do autor.  O quadro informativo em certo trecho do amor homossexual entre o negrinho Barandão e Almiro é visto como   atenuante do que é sublimado pela falta de carinho, na vida frequentemente espancada, aviltada, provocada pela sociedade que não se cansa de pisar. 

 Publicado há sessenta e três anos, com incontroversa atualidade, o romance presta-se ao juízo de que a situação do menor de rua continua preocupante, hoje como ontem é um problema difícil de ser resolvido sob vários entornos. Paulo Collen, em Mais que a realidade (Cortez Editora, 1988, página 124), relata sua experiência de menino de rua, que não teve família, procurava uma, e dos que tinham, mas que fugiam de casa por problemas emocionais, causados pelos conflitos insuportáveis dos pais.

 

A FEBEM deveria ser uma escola que educasse, transformasse e preparasse o menor para ser respeitado como qualquer cidadão brasileiro. Dando prioridade para a alimentação, a assistência médica e o lazer, a FEBEM só forma marginais. O que eu via nos olhos de cada criança era revolta, angústia e vontade de sair dali.  Cada cabeça ali dentro só ficava fazendo planos de fuga. Os funcionários só faziam espancar.”

 

Se o quadro não fosse esse, até mesmo com o emprego de uma metodologia pedagógica mais humana, como se insinua hoje, não se pode deixar de considerar que não se transforma uma criança, para que no futuro seja um homem, se não se lhe dá afeto, não a prepara com a ferramenta digna de exercer uma profissão, com meios que a façam confiante mais tarde, segura de si, para enfrentar a vida aqui fora.

O mundo é composto de ruins e bons, coisas uteis e inúteis.  O sol oferece sua luz para todos, os pobres, os famintos, os favelados, os mendigos, os abandonados, os loucos. Se o sistema oferecesse a esses desfavorecidos condições ideais para se erguerem na dureza da vida, não fizesse uso da desigualdade, indiferença, preconceito, perseguições, violências, a vida se movimentaria com a ocorrência de respostas decentes. Nas relações sociais alcançaria a autoestima dos que para render precisam da ferramenta necessária ao trabalho, na sua função, ação e reflexão, cônscios da liberdade preservada como o mais alto dos valores e o amor como o sentimento mais forte.

Em Capitães da areia, temos o exemplo de que nem tudo está perdido quando   o Professor, o intelectual do bando, vai para o Rio de Janeiro estudar pintura. Outras condições de vida são agora oferecidas, distantes daquelas que o negavam quando andava   como ladrão e fugindo da polícia na cidade de mais de trezentas igrejas.  Travavam seus pendores, que soltos agora com ideias e emoções fizeram dele um pintor famoso.

 

 

 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

 

     Carlitos

Cyro de Mattos

 

Chapéu-coco único,

 comove o abraço,

 este que se veste

na roupa do riso.

Pirueta constante,

bigode malandro,

numa só bengalada

 vencedor do gigante.

 

Do perigo fugindo,

ligeiros os passos,      

apesar disso a flor   

oferece ao velhote.   

Andarilho da aurora,

no jardim ou no ringue,

no salto ou na ginga

não há quem o imite.

 

Em busca do tesouro

que o vilão escondeu

no casarão abandonado,

surpreendente, incrível,

nada mais sensacional

 o que no final decide 

quando repõe a ternura

no coração de quem é

alegre quando o assiste.     

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

 

Erudição e Sabedoria em Rui Barbosa

                         Cyro de Mattos

 

Rui Barbosa nasceu em Salvador, aos 5 de novembro de 1849. Filho de Maria Adélia, moça de tempe­ramento calmo e bem educada. Seu pai, João Barbosa, fora um político atuante, jornalista inflamado, homem preocupado com as refor­mas humanas no ensino, um médico que aban­donara a profissão.

       Rui foi membro da Academia de Letras da Bahia e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, tendo sido presidente quando Machado de As­sis faleceu. Era um homem de estatura baixa, franzino, a cabeça grande sustentada por um pescoço fino. Tímido e feio, mas tinha uma voz poderosa quando ocupava a tribuna. Os olhos faiscavam, de cada centelha a oratória incendiava com a argumentação fascinante, baseada na verdade.

Fora incapaz de conceber a vida sem um ideal. Liberal convicto, construtor da Repúbli­ca, deu-lhe o arcabouço jurídico inicial. Não aceitava a escravidão, clamava pela adoção das eleições diretas, reforma do ensino com méto­dos humanos, investia contra o poder papal, como defensor ferrenho da ideia de separação entre o Estado e a Igreja.

            A erudição adquirida ao longo do tempo era aplicada com brilho nas relações sociais, no intuito de construir a vida, só querendo fazer o bem. Gostava de repetir o versículo, “todo o bem que fizeres, receberás do Senhor.” No elogio a José Bonifácio, falecido no fim de 1886, desabafou contra aquele mundo político, que o fizera sofrer várias derrotas e que era considerado por ele como meio louco e míope, espé­cie de divindade gaga, protetora do daltonis­mo e da surdez, uma combinação da esteri­lidade das estepes com a paisagem onde não se canta, supondo-se que assim  fosse inimiga da har­monia, contradição do belo, como tem sido neste país. E, numa intencional advertência ao poder monárquico, reafirmou como encarava a questão da escravatura na célebre fra­se, primeiro a abolição, nada sem a abolição, tudo pela abolição.

Amara de verdade duas profissões: o jor­nalismo e a advocacia. O jornalismo sempre foi a janela de sua alma, por onde se acos­tumou a conversar durante todo o tempo, todas as manhãs, para a rua com os seus compatriotas, como informa Luís Viana, seu melhor e mais completo biógrafo, em A Vida de Rui Barbosa. Advogado do povo, foi o patrono dos professores demitidos de suas funções na Escola Politécnica. Quando o Congresso decretou a anistia, julgando impossíveis de revisão as penas e os processos dos aparen­temente beneficiados, ele bate às portas dos tribunais para se opor à situação que feria a lei e maltratava a justiça.

Ao se dedicar à política, fora eleito De­putado Provincial em 1878 e no período de 1879-1884 exerceu mandato na Câmara dos Deputados do Império. Com o advento da Re­pública, nomeado Ministro da Fazenda, a polí­tica financeira que adotou caracterizou-se pelo abandono do lastro-ouro e a adoção de grandes emissões garantidas por apólices do Governo, visando fomentar o comércio, além da criação do Tribunal de Contas e delegacias fiscais.

       O conferencista falava mais de três horas, sem que houvesse um murmúrio desaprova­dor do auditório repleto de pessoas. Quan­do terminava, no meio das palmas demora­das ouvia-se: “Continue! Continue!” Pessoas riam, choravam, deliravam, indignavam-se, aplaudiam, acompanhavam o orador hipno­tizadas pelas emoções que a sua alma a todos transmitia.

           Designado pelo Senado para examinar o projeto do Código Civil, já revisto pelo filólo­go baiano Carneiro Ribeiro, essa tarefa sem na­tureza política revelaria ao Brasil um gramático conhecedor amiúde e melhor na colocação dos pronomes. Em pouco tempo, o seu parecer apre­sentou mais de mil emendas ao texto revisto por Carneiro Ribeiro, o antigo mestre do Ginásio Baiano, sendo corrigido agora pelo ex-aluno nas regras gramaticais.

         Em Haia, o assunto mais importante da Conferência era a organização do Tribunal Permanente de Arbitragem, com o palco pre­viamente armado para o papel de destaque das potências que governavam o mundo e manda­vam nos povos.

        A voz impetuosa e indignada de Rui apre­senta sua proposta para a Organização do Tri­bunal, onde todos os países terão assento. Fica ao livre arbítrio dos contendores submeterem as suas questões ao plenário do Tribunal. Falou em francês castiço, entre o silêncio geral, perante um auditório que o desconsiderava, mas que ficara espantado. No final fora reconhecido como uma das mais poderosas vozes da assembleia. Aque­le homem pequeno, de voz ritmada na verdade e no direito, derrotara os que representavam os direitos e interesses das grandes potências, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e Itália. Por seu desempenho superior fi­cou conhecido como a Águia de Haia.

O discurso de Rui surpreende pela va­riedade e nas expressões soberbas de suas leituras. Da palavra imantada nas imagens candentes emergem verdades que iluminam a vida, mas sua erudição não é apenas variada, de vocabulário ilimitado, domínio do idio­ma, citações e argumentos que impressiona­vam vivamente. Pode-se dizer desse paladino da liberdade que fora um erudito abraçado com um sábio.

Rui Barbosa, o que conhecia Vieira, lia Castilho, recitava Camões aos dez anos, santo Deus, o erudito e o sábio. Deixou este velho mundo em 1de março de 1923. Fora residir na morada do eterno.

 

Referência

A Vida de Rui Barbosa, Luís Viana Filho, Lelo & Irmãos Editores, Porto, Portugal, 1981. 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

 

Décio Torres sobre o livro As meninas do coronel de Aramis Ribeiro Costa

Passei três semanas na agradável e prazerosa companhia de Ernestina, Ludmila, Fabíola e Milceia, as filhas do coronel Mendonça que vieram me visitar. Com elas, conheci o músico Conrado, o major Silveira, o doutor Lustosa, Bibiana, Didá, seu filho João Rafael, Claudionor, Marcelino, o doutor Ariano Condé, Ziraldo Conceição e algumas outras figuras bastante interessantes. Pessoas simples e comuns que nos levam a refletir sobre nossas visões de mundo, nossos medos, nossos preconceitos, nossas paixões desencontradas, nossos desejos e sonhos postergados, realizados, irrealizados ou por se realizar.

As meninas do Coronel me levaram a cruzar a fronteira do tempo e passear pelas ruas tranquilas de uma Salvador ainda pacata, mas já com ares metropolitanos e suas mazelas. Revivi o tempo em que, ainda estudante de Letras, morei na casa de minha irmã Maria José Freire na Ribeira e andava despreocupadamente pela península itapagipana, já que elas eram minhas vizinhas. Foi um belo retorno ao tempo da delicadeza que tanto nos falta nos dias de hoje. Com elas, viajei mais um pouco para trás, para a década de 50, e fizemos ‘footing’ na elegante rua Chile e suas lojas chic. Com Conrado, andei de bonde da Ribeira à Praça Cayru, tomamos o Elevador Lacerda e saboreamos deliciosos sorvetes na Cubana. Depois seguimos para vê-lo tocar com sua orquestra no Palace Hotel, no Tabaris Night Club (onde hoje se localiza o Teatro Gregório de Matos), no Hotel da Bahia e no Clube Baiano de Tênis.

Todas essas experiências e emoções – com direito a um variado fundo musical, parte de uma trilha sonora que se gestava naquela época em bailes dançantes e emissoras de rádio que lançavam novos ritmos e modas como o rock e a bossa-nova – me foram proporcionadas pelo livro “As meninas do coronel”, terceiro romance do excelente escritor Aramis Ribeiro. Sua narrativa nos puxa pelo braço e ganha nossa atenção do começo ao fim através de uma técnica bastante sedutora que cria um grande suspense em relação ao desenrolar dos fatos e faz com que atravessemos tranquilamente suas mais de seiscentas páginas, sempre com gosto de quero mais. E é esta a sensação que sentimos ao final, uma vontade de continuar em companhia desses personagens demasiado humanos que o autor nos apresenta de forma magistral.

Aramis Ribeiro faz parte do rol de grandes escritores contemporâneos, com 28 livros publicados, e que merece maior divulgação, principalmente aqui na Bahia, sua terra de origem. Depois de ter comentado aqui no FB sobre o impacto que seu livro de contos “Reportagem Urbana” me havia provocado, tive o prazer de ser presenteado pelo próprio autor com este fantástico livro que acabo de ler e recomendo a todos que buscam uma excelente companhia de leitura. Abaixo encontra-se o link da editora para quem deseja encomendar. Tenho certeza de que irão gostar. Boa leitura e bom passeio por esta cápsula do tempo!

Décio Torres

Disponível em: https://viaeditora.com.br/acervo-literario/as-meninas-do-corone

 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

 

                                

                               Como É Ser Escritor?

                                  Cyro de Mattos

                                                  

 É profissão ou apenas uma atividade dos que exercem a arte literária?  Thomas Mann afirma que não é profissão alguma, e, sim, uma maldição. Começa terrivelmente, muito cedo. Quis dizer com isso que o autor carrega todo o peso terrestre dentro dele  quando faz a leitura do mundo com a palavra tomada de empréstimo à ilusão,  impelido pela força do destino.   De onde vêm, para onde vão nessas antenas da raça   tantos sentimentos e tendenciosas explicações? Há quem afirme que a literatura ajuda a viver o sofrimento que todos nós temos na vida. Drummond acha que ela ajuda esse sofrimento ser um jogo divertido.

Não é exagero achar que a literatura é uma profissão. É condição, ato ou efeito de professar, perseguir, proferir crenças e valores. Declarar publicamente ao outro o que somos no mundo. Nela confessamos nossa opinião sobre seres e coisas porque assim é nosso modo de ser-estar no mundo.  Profissão que não dá rendimentos para sobreviver, não devia ser assim, dado que é forma de conhecimento da vida, fundamental como o amanhecer. Exige esforço e labor. Sacrifício, doação. Não se vive de literatura, mas para a literatura, dentro dessa condição em que o autor procura liberar desejos e medos. Essa é minha crença, tem sido minha paixão. A literatura vem demonstrando que gosta de mim, nesse meu jeito de respirar no trânsito da vida.  De fazer o bem, dizer com a palavra que a vida é falha, não basta em razão da sua natureza, que em essência é da própria incompletude.

Ela organiza meus conflitos, oferta-me sonhos, equilibra-me na loucura do mundo.  Nesse espaço vital é que me encontro como se fosse a  flor feita de um homem real. Um pobre homem, contraditório, finito, provisório nesse intervalo entre o primeiro vagido e o último suspiro.  Sem ela, não sou um ente que pensa e tem emoção. Sou, como diz o poeta Pessoa, cadáver ambulante que procria. Com ela tenho motivações de fazer leituras do mundo com as vestes da vida e da morte. Ela põe o tempo dos humanos com possibilidade de aprofundar a vida, dos dias retirar personagens que se queimam com suas dúvidas, choram às escondidas com a sua incandescente ternura.  

Sem essa alquimia do verbo que se faz revelação, não me torno sequer menino, não aceno para as coisas da vida que se foi, como aconteço nesses versos do poema “A Roda do Tempo”: 

 

  Criei vaga-lumes

             Para vê-los à noite

  Brilhando no quarto.

 

 Nadei como um peixe ágil

 Nas águas  mais claras

 Do Rio de Água Doce.  

 

Como um pássaro

Tive cada voo

 Com o vento mais alto.

 

Andei como bicho solto 

Sem ter medo de nada

Pelas ruas do mato. 

 

Mas a infância tem o sabor

           De uma fruta que termina

Na idade dos homens.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

       

      Costumo dizer que o escritor é a única criatura neste planeta que gesta e pare duas vezes o mesmo filho. Gesta com suas motivações e pare quando o seu livro está concluído. Gesta pela segunda vez na fase de produção editorial até que o livro seja publicado.  Não é fácil caminhar nessa estrada das letras, a essa altura, comprida. Há quem diga que sou um homem centralizador, só penso em mim quando tento encontrar-me por entre os rumores de minhas navegações agudas. Quem assim pensa, que tenho fome de fama, não sabe de solidões solidárias   na madrugada de um homem só.  Tenho pena da esposa, a mulher que me ama como sou. Ela sabe o que digo,  durante mais de cinquenta anos em que juntos vivemos, provando alegrias e dores com a arte da palavra

escrita.  

 Jorge Luís Borges declara que escreve para viver.  Gabriel Garcia Márquez afirma que morre se não escrever, mas também morre se escrever. Bem ou mal, escrevo   porque assim devia ser. É  minha maneira de ser um homem  útil ao outro no mundo. Se tudo é  ilusão,  sonhar é sabê-lo, de novo escuto dizer isso   Fernando Pessoa. Fica claro que escrevo não com sede de imortalidade. Sei também do meu tamanho e do lugar onde me ajusto entre os outros.  No fundo de tudo, bom não esquecer, nós somos iguais, entre nascer, viver e morrer. Cada um está aqui para contar a sua história. Como o vento, não ficamos, para isso fomos feitos, passamos, passamos. 

Nada se pode fazer. Ai de mim, ai de mim. Como disse certa vez nos dois últimos versos de um soneto:

 

Da cabeceira para a foz 

Tantas explicações  

Para saber enfim

Que nada sei de mim. 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 18 de julho de 2021

 



                Poetas Revisitam o Poeta Pessoa*

                                  

                          Cyro de Mattos

              

               Luís de Camões cantou um pequeno Portugal de marinheiros com seus feitos maravilhosos por mares nunca dantes navegados. É considerado o poeta mais abrangente e expressivo da lusitanidade, voz poderosa do humanismo renascentista que transformou a obra-prima Os Lusíadas (2003, no Brasil) em monumento de imaginação e arte nas letras mundiais. Fernando Pessoa é um dos fundadores da modernidade literária portuguesa, criador de uma obra poética de dimensões universais como um caso genial, que dá vida a personagens de qualidades poéticas de alto nível. Cada uma delas com a sua biografia própria, ideias próprias, maneira própria de fazer poesia, a simular pensamento e sentimento diante de tudo, ligar o eu ao externo no enigma do existir.

Nascido em Lisboa a 13 de junho de 1888 e falecido a 30 de novembro de 1935, com uma obra poética que superou como nunca se tinha visto em tempos modernos as fronteiras estreitas de Portugal, Fernando Pessoa, em sua feição instigante de poeta singular e plural, tornou-se o mais famoso dos poetas da língua portuguesa. “Minha Pátria é a Língua Portuguesa”, o poeta disse, ganhando dimensões admiráveis cada vez mais toda a extensão desse dizer, como resultado de uma poesia calcada em dois elementos de natureza fortíssima, a imagística de seu lirismo e o visionarismo mítico de seu pensamento.

Poetas revisitam Pessoa (2003) é a antologia que o professor João Alves das Neves organizou para homenagear Fernando Pessoa. Nela reúne cinquenta poetas, entre portugueses e brasileiros, que escreveram poesia inspirada no poeta e em seus famosos heterônimos, Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Entre os poetas de Portugal que participam da antologia foram relacionados Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva, Miguel Torga, Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teresa Rita Lopes e Vasco Graça Moura. Do lado brasileiro foram elencados, dentre outros, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Mário Chamie, Alberto da Costa e Silva, Álvaro Alves de Faria, Ariano Suassuna, Carlos Felipe Moisés, Cyro de Mattos, Eduardo Alves da Costa, Glauco Matoso, Miguel Jorge e Neide Archanjo.

Além da homenagem que é prestada ao imenso poeta, que se sentiu um transeunte inútil, estrangeiro no cotidiano de Lisboa, a “errar em salas de recordações”, essa antologia traz um conjunto harmonioso de notas afetiva e intelectual, nacional e universal, que ressoam como descobertas preciosas no próprio Fernando Pessoa, autor de poemas breves e leves, sonoras canções e versos “ocultistas”.

Da singularidade de uma poesia fingida, produzida por eus fictícios, a antologia sinaliza em Alberto Caeiro, o poeta materialista, esses estados do ver e do conhecer relacionados com a realidade imediata através de sentimentos inocentes. Externa em Ricardo Reis o timbre de uma poesia clássica, que tem como modelo Horácio, antigo poeta romano. Confere em Álvaro de Campos aquele poeta impressionado com o mundo tecnológico, anunciador de ventos velozes, por meio da máquina construtora dos tempos modernos, após a Primeira Guerra Mundial.  

Em Poetas revisitam Pessoa, lendo-se Agostinho da Silva, por exemplo, fica-se sabendo dessas reflexões de Alberto Caeiro: Ser só um elo/ eu ao que é tudo / mas que sem mim / seria mudo (p. 19). Sente-se em Alberto da Costa e Silva que o eterno é agora e em si mesmo morre (p. 21). Em Carlos Drummond de Andrade percebe-se que por mais que se busquem as identidades do poeta essas são difíceis de serem achadas. Afinal, quem é quem na maranha /de fingimento que mal finge / e vai tecendo com fios de astúcia / personas mil na vaga estrutura / de um frágil Pessoa? (p. 40). Nos desejos de saber por entre versos que tocam as cordas íntimas da angústia, solidão no mundo, Carlos Drummond de Andrade prefere ignorar esse enigma com seus diversos eus independentes, expostos, oblíquos em véu de garoa. Encontra-se ainda em Miguel Torga o poeta de Mensagem como o vidente filho universal / dum futuro-presente Portugal,/ outra vez trovador e argonauta (p. 88).

Assim temos uma antologia que diz da singularidade dos sentimentos de Fernando Pessoa e sua multiplicidade pensante de eus fictícios, criados como fingimento pelo poeta para conhecer-se e conhecer   o outro na leitura do mundo. Com os poetas Adolfo Casais Monteiro, Glauco Matoso, Mário Chamie, Murilo Mendes, Natália Correa, Sophia de Mello Breyner Andresen e Vasco Graça Moura, o poeta buscador sem pátria do “outro” que somos e nos habita é tocado de afinidades eletivas, apresentando-se de novo com a necessidade de multiplicar-se para sentir-se.

Para que fosse possível essa multiplicidade tão dele, sabe-se que construiu uma obra poética a partir de relação sensitiva e imediata com o ver, desenvolvida por atividade criadora maiúscula em que precisou refletir tudo, sustentar todo o peso terrestre através de seus males e mistérios. Entre a ilusão do ver e da lúcida consciência do saber, nesse conflito diante do mundo, fez-se um dos maiores fingidores de gente que já apareceu na existência através dos sinais marcantes e simbólicos da poesia. De maneira genial. Foi urdida uma idealização da realidade multifacetada para alcançar o sonho composto de humanidade tão dele, tecida, nas profundezas da alma e labirintos do cérebro, com temas vários questionadores da existência.

          O conhecimento e a compreensão de poetas portugueses e brasileiros nessa antologia para homenagear Fernando Pessoa expressam as mais diversas realidades e situações de um poeta incomum com o seu caso heteronímico. Limita-se o elogio a uma convivência de pensamento nos círculos da boa poesia, de argumentos cúmplices relacionados com o voo altíssimo de sentimento do belo na poesia da vida, retomado agora sob uma ótica própria, bem pessoal.

         Trata-se de antologia que, nas reflexões, lembranças, sonhos, labirintos, amores e dores, resulta em testemunho importante desse poeta que até hoje desafia a crítica, apaixona intelectuais e leitores.

          Ele, o genial poeta português, que com Alberto Caeiro confessou:

        

       Não tenho ambições nem desejos.

       Ser poeta não é uma ambição minha.

       É a minha maneira de estar sozinho.

 

 

·       In “Encontros com Fernando Pessoa”, do livro Kafka, Faulkner, Borges e Outras Solidões Imaginadas”, Cyro de Mattos, EDUEM – Editora da Universidade Estadual de Maringá, Paraná, no prelo. 

Poetas revisitam Pessoa, antologia de poetas portugueses e brasileiros,        organização João Alves das Neves, Universitária Editora, Lisboa, 2003.