Páginas

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016



                                   Carnaval e Literatura Infantil

                                                                    Elias José

           
            Não sei se os leitores já repararam, mas o Carnaval nunca foi tema explorado em literatura para crianças. O futebol aparece, mais raramente do que deveria, mas aparece. Agora me surpreendo com um livro novo do baiano de Itabuna, Cyro de Mattos, que sempre nos surpreende com novidades literárias, feitas com paixão, competência e talento. O menino e o trio elétrico é a história de Chapinha,  que vendia amendoim e adorava carnaval. Ele morria de vontade de ir atrás do trio elétrico, com abadá, quase impossível de ser adquirido pelo pobre,  a animação e alegria que não perguntam por classe social. Sonha sair dançando e cantando com os seus artistas preferidos, divertindo-se com o seu povo. Curiosamente, Chapinha vendia amendoim, e isto é outra surpresa. Na nossa imaculada literatura para crianças é quase proibido, é politicamente incorreto falar do trabalho de crianças, como se isto não fosse problema brasileiro, de norte a sul. Um tema que merece inclusive melhor discussão por parte de nossa sociedade e pede a criação de muitas escolas profissionais. Mas isto é assunto para outro dia. Agora, eu quero é acompanhar Chapinha, menino negro e esperto, em sua luta pela sobrevivência diária e pelo seu sonho de carnavalesco.
            Para dar mais realismo e, ao mesmo tempo, mais fantasia à história de seu herói, Cyro de Mattos levanta o roteiro carnavalesco  dando nomes de ruas  e trios que por elas passam. Coloca na rua, isto é, no seu livro, os mais famosos trios elétricos de Salvador, com os seus ídolos cantores puxando o ritmo, acompanhados pelos muitos músicos competentes e pelo maior coro da terra. O coro dos foliões de todo o país e até do exterior. Se o ritmo contagiante e a alegria chegam até o leitor, acompanhados das cores alegres da festa mais popular da Bahia, imaginem como acontece no imaginário e nos sonhos daquele menino louco por carnaval. Daquele menino dono de todas aquelas ruas. Como um menino pode ficar indiferente diante de uma festa popular e tão nossa, que está dentro de nós através de tantas heranças culturais? Como não torcermos para que esse menino Chapinha consiga realizar os seus sonhos, tornando-se mais um no bloco, ou melhor, no trio elétrico? Se ele conseguirá ou não, o autor em depoimento  não quis revelar na última capa do livro. E não serei eu que vou quebrar o prazer da descoberta pelo leitor, seja ela alegre ou triste. Se o final for triste, deveremos perdoar o autor, pois nem tudo tem  que dar certo, assim a vida nos ensina no dia-a-dia. Se o final for um carnaval daqueles de não se esquecer nunca, a melhor saída do leitor é fechar o livro após o final e, imaginariamente, entrar também num trio elétrico, com toda euforia, energia  e alegria exigidas.
            Para concluir, devo dizer que o tema carnaval, em literatura infantil, pode e deve dar samba. Todo mundo sabe que o samba da Bahia é mais axé, feito para pular, curtir,  e não para ouvir em casa.Todo mundo sabe que os sambas de enredo do Rio de Janeiro são todos iguais e quase sempre chatos, válidos apenas enquanto belas escolas desfilam. Axés e sambas de enredo duram aqueles poucos dias de carnaval, nem têm qualidade de música e letra para sobrevivência eterna a não ser as raras exceções, como aconteceram com centenas de sambas e centenas de marchinhas em nosso cancioneiro popular. Mas ninguém pensa nisto na hora da folia, o assunto é bem outro. Cyro de Mattos não pretende discutir raízes culturais e carnaval, arte e massificação na história contagiante e deliciosa de Chapinha.
O que Cyro de Mattos mostra nessa história de um menino  que tem dificuldades para levar a vida, vive numa casa acanhada com a mãe e vó Pequena,  é a festa que move e comove, envolve e faz a gente acreditar na alegria. Alegria que pode ser de velhos, adultos, jovens, adolescentes e crianças. Em qualquer parte do Brasil, acontece a alegria do carnaval, mas não adianta discutir, em Salvador, Recife, Olinda e no Rio de Janeiro a vibração é diferente. Por ser uma festa tão cara à cultura brasileira, por que o carnaval ficar distante das obras de arte voltadas para o público infantil?  


* Elias José é mineiro de Guaxupé onde lecionou na Faculdade de Letras. Contista, romancista e autor de mais de 50 livros para meninos e jovens. Ganhou inúmeros prêmios, como o Jabuti, Fundação  Educacional do Estado do Paraná (FUNDEPAR) e o Odylo Costa Filho, da Fundação de Literatura Infantil e Juvenil. Publicou, entre outros, “Viagem ao Fundo do poço”, contos, “Inventário do Inútil”, romance,  “Lua no Brejo”, juvenil, e “Um Pouco de Tudo”, infantil. 





Nenhum comentário:

Postar um comentário