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sexta-feira, 6 de setembro de 2019





  ABISMO DA RAZÃO
                     
                          Cyro de Mattos

Do lado de lá, nas terras longes, o homem irascível, bigodinho nervoso. Acabava de instalar  o império do medo. Desejava ser o dono do mundo, montado na crença da supremacia da raça branca. Dos mais sofisticados, em alta escala, os armamentos bélicos. Milhões de criaturas indefesas reduzidas  a cinzas nos fornos crematórios.
           Anos de fogo, sombras, pesadelos. O mal sem limites.  Corpos usados para expe­riências absurdas. Mães separadas dos filhos, maridos das mulheres. A terra virada no inferno. Milhões de inocentes eliminados sem dó, na enchente a morte. A liberdade recuada para os subterrâneos mais  indignos.
         Sirenes, bombas, torpedos. Explosões, cra­teras, escombros.  A fera ressurgia da antiga caverna, assoberbada galopava nas trevas. Não concedia  a trégua, bania a razão para os confins inimagináveis do abismo mais profundo.  A vida nutrida de fúria galopava  na engrenagem monstruosa do absurdo, o elogio de nadas,  tudo sem sentido. Orgulhoso o hominho irascível,  inundado de prazer, sorrindo de contente com o  holocausto, rostos de penúria, estilhaços de gente por todos os cantos.
         No final,  o triunfo do amor. Solda­dos uníssonos no campo da vitória. Retirada do estúpido  abismo,  de forças dementes   a razão açoitada no gesto vil, a pobre coitada ainda resistia.  Encerrada com os corpos de  pessoas fuziladas, o tenebroso acúmulo de ossatura, o teatro fétido  nos  odores da morte, empilhada nos canais enormes.  
         Grande passeata  pelas ruas do lado de cá, gente grande e  pequena  dando vivas à liberdade.  O sorriso que alarga o rosto apareceu na rua de barro batido,  os habitantes da cidade pequena em euforia incontrolável.  Bombas inimigas caladas para sempre. Já não existem mais as horas do mundo cheio de grito e agonia. Os sinos tocando sem parar a canção constante da paz, antiga, belíssima, irradiando bondade e alegria.  
       Acreditava-se nos dias promissores. O homem redimido agora, renascido da razão,   nervos fraternos, sentimentos do amor. Cânticos emanavam do peito o bem supremo da felicidade. Não mais o coração esmagado sob as patas impassíveis de manadas enfurecidas. Nos ares libertos da opressão, bemóis da  cantiga geral  da união como verdade.
     A praça,  um bloco extenso de gente, comoventes olhos brilhavam na direção do homem fardado no palanque. De volta da guerra, o rosto do herói numa máscara feita de tecidos sólidos. O locutor chamou  o  guardador dos ramos da vitória.  Entregou-lhe o microfone. “ Comece, por favor,  estão ansiosos para ouvir seu relato sobre o horror.”  O homem disse para o locutor, tinha o   olhar imóvel  diante da multidão,  soltando murmúrios, o vozear confuso,  “não posso”.   “Faça um esforço”, retornou  o locutor, animando-o.  “Não tenho palavras para descrever o terror. ” Acrescentou, mastigando as palavras, “é impossível”.   O locutor ainda perguntou, “não tem palavras?”  O herói fez um esgar medonho,  deixou todos com a expressão no assombro diante do silêncio impassível.  Com dificuldade,  confirmou,  “perdi as palavras nos anos de fogo e bombardeio.”  
           A multidão frustrada, gente triste rumo às suas casas, passos pesados, arrastados, em silêncio, rostos para o chão. Uma procissão de almas penadas,  visagens de outro mundo.  O herói  havia ajudado esmagar uma mulher diabólica, que arrasa os sonhos, bombardeia projetos, dizima a maravilha, mata a esperança, tritura a ternura, no lugar põe o abismo, que engole a razão sem remorso.  Com sua corrida desembestada, pisoteia tudo que nasce do amor.  Era importante ouvi-lo. Inútil sua palavra congelada. Imprestável para relatar o terror.  Sua razão não tinha sã consciência para descrever a imensa desgraça que viveu no pior abismo.      


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