Sonetos Inspirados em Fernando Pessoa
Cyro de Mattos
I
Daqui este mar inunda-me de ilhas
Dos que quiseram o sonho, cansaço
A subir das espumas e sabê-lo.
Daqui este mar define-me anseios
Da caravela de onde venho e vou.
Daqui este mar um lugar remoto,
De tanto estar nele o fado a querer
Que eu navegasse atento, sem tremor,
E lambesse o sal de meus sentimentos
Esperançosos de pisar na terra
Que me acenava com as suas riquezas.
Daqui este mar fado vazando veia,
De repente a Pátria na onda do mito
O azul mais vasto a terra inteira visse.
II
Um doido que estranhou sua própria
alma,
Fingidor que, na hora abissal ou
pasma,
Como verdade chegou a fingir
Ser dor o que dentro sente; a urdir
Que tudo vale a pena se a alma não
é
Pequena, grande ergue-se no poema,
Que o serve de metafísica extrema.
Traduz na frase grave como é
Ser genial, fruto de heterônimos
Em diversos enredos de nós mesmos,
Nas vozes todas em que sonhos
pomos.
Triste passageiro, que insone
chora,
Esse Apolo no som de sua lira,
Apegado à noite final que o
espera.
III
Lá na minha aldeia
Tem um rio só
De sonho, melhor
Que o Tejo, maior
Que o Nilo. Meu rio,
Que comigo traça
Castelos de amor,
O de minha aldeia.
Brilha volta e meia
Nos cachos do sol,
No leito do eterno
Onde sempre leva
Nas águas correntes
Meus versos com flor.
IV
Tocador de lira. Cordas sentem
Sustos e surpresas na passagem
Do infante, no íntimo do homem, na
vida
Fadada nos desvãos da alma sentida.
É belo o som que vem dessa música,
Fala do tecido duma túnica
Que se mede nas imagens das dores,
Paredes de tristezas e clamores
Misturados do que é, foi e
será.
Círculo de tormentos no mundo
Enquanto vê e deste quer
falar.
As cartas de amor pulsam em
degredo,
Mostram falhas da vida assim
disposta,
Dos que vivem sozinhos sem
resposta.
V
Amargura, desgraça, solidão.
Os deuses também moram no meu
ermo,
Sabem do meu fado nesse desterro,
De onde procedo na velha ilusão
De que tudo emerge dos sentimentos,
Da esperança de fortes movimentos.
Parecem deter-se nessa poeira
Do tempo, rumo à névoa derradeira.
Nunca me querem como um cadáver
Ambulante que procria,
incumbem-me
Ser tudo no verbo, como refém,
Dessa hora difícil pra achar a
chave
Da vida que por aí vai na asa
dessas
Emoções conhecidas como
intensas.
VI
Sou um ser interior, demiurgo
E profeta, de lira no meu burgo
O enigma em pessoa, um e vário,
Amarrado nesses nós do mistério.
Criei as odes de Ricardo Reis,
O Álvaro de Campos, também Caieiro,
No tempo sonhos do mundo
gravei,
Falei de solidões de amargo travo.
Fiz, como simulador de emoções,
Que gente enxergasse da identidade
Novas cenas, da existência verdade.
Culminei no legado, que, por razões
Do fado, pôs nas zonas da cegueira
Esses ritos de minha canção
rara.
VII
Digo, nunca fui campeão de
nada.
Sou um fraco, sempre tomei
porrada.
Ninguém me salva, está na colisão
Do viver com os outros meu coração.
Vejo muitos amigos senhores de
tudo,
Ao largo vão como gente sem falha
Enquanto eu, o mais imperfeito, na
malha
Da ilusão persigo o mundo que
espalha
Minhas almas nessa hora do café.
No quarto tenho o meu pai, o poema.
Meu jeito de ser só, mas nunca a
fama
Quero. Cartas de amor, leais, até
Que me esforço para escrevê-las
puras,
Isentas de dor nas pancadas
duras.