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sábado, 16 de agosto de 2025

 

As Questões da Inteligência Artificial

            Cyro de Mattos

 

Tudo está no começo, as questões surgem, possíveis soluções, expectantes afirmações quanto às derrotas e incertezas na rotina do mundo.  Algumas profissões deixarão de existir, já sabemos. Os mais eufóricos aplaudem sem hesitar essa invenção no campo da ciência e tecnologia. Certamente fará com que a humanidade adquira mais conhecimento com muitos ganhos. Já começa a provar isso no uso de nossas atividades, gerando boas expectativas em setores diversos.

Com o abrigo dessa senhora que vem para solucionar questões, desamarrar nós, a humanidade caminhará por outros rumos, não há dúvida. Obstáculos intransponíveis serão superados na passagem da existência. Viveremos melhor com a sua chegada, ela não veio para fazer a maldade, alguns observam.  Celebram a portentosa aparição da deusa com atuação incrível para melhorar o nível de vida em nosso estar no mundo.

Mas preocupa o seu uso por esse agente dotado de razão e emoção, o que se desvia da ternura com facilidade, se contradiz na essência porque ainda não conseguiu se libertar da fera que habita em si mesmo. Convive com ela entre incômodos, numa fome sem precedentes, desde o tempo das cavernas. Sanha que muitas vezes se apresenta com as manadas alucinadas e faz horrores em nosso planeta. Na busca do poder, incorrigível, gosta de inventar o extermínio de inocentes, milhões foram levados para o matadouro e reduzidos a cinzas. Como ele gosta de ser o dono de um poder absoluto no império da tragicidade. Às vezes, mata com prazer o semelhante e não enterra

          Esse agente ativo, animal político e social, sempre foi a fera de si mesmo. Em sua caminhada famosa dominou o gigante Polifemo, desencantou medusas, descobriu novos mundos de gente remota habitado. Construiu arranha-céus, foi à lua e pretende instalar sua maneira de civilizar o mundo em outros planetas. Busca uma saída para sobreviver no aceno das galáxias ante as previsões temerárias. E, nessa chegada agora com uma inteligência metálica como outro suporte, anunciando que melhor será a vida, compreendida, dominada, usada para se obter benesses, faz pensar enquanto as estações passam indiferentes ao que nós somos em nossa mãe terra.

Outros momentos históricos foram marcados na humanidade como importantes por suas descobertas científicas, que impulsionaram a vida para o bem, e também para o mal. Recordemos o caso de Madame Curie, a primeira mulher que recebeu o Prêmio Nobel duas vezes, em áreas diferentes da ciência.  A primeira que ingressou na Academia de Ciências da França. A primeira vítima do machismo cerrado em nações poderosas da Europa, como a França, mas que superou todas as adversidades que se colocaram na sua frente para que não fosse reconhecida a sua dignidade como uma genial cientista.   

Pioneira nos estudos da radioatividade, descobriu os elementos rádio e polônio, foi fantástico como sua inteligência impactante abalou a Europa do século XX. Lançou as bases para a física nuclear. Suas pesquisas sobre a natureza da radiação, mesmo em condições precárias, que afetaram a sua saúde, forneceram a base teórica para o desenvolvimento da energia nuclear, que é a base da bomba atômica. 

Encontramos na radioatividade descoberta por Curie resultados positivos e negativos. Se as suas descobertas revolucionárias têm aplicações na radioterapia para tratamento do câncer, por exemplo, foram utilizadas infelizmente na guerra com a bomba atômica. Foi então que se cometeu pelo mau uso da descoberta com amor à ciência e à humanidade as tragédias de Hiroshima e Nagasaki.

        O que pode advir de negativo com a chegada da Inteligência Artificial?  Eu me pergunto se eliminará os escritores de ficção e poesia. Na torcida para que isso nunca aconteça, seja o melhor para a humanidade, resolvi escrever o poema que transcrevo abaixo. 

 

A Canção Reconquistada

 

O que me diz Hiroshima

negras vastidões desoladas,

o que me diz Nagasaki

ares roxos do sombrio cortejo,

o que me diz o ditador

galope insano do medo,

o que me diz a fera branca

fome louca de réu negro.

 

Sem esquecer a razão,

sem esquecer o coração,

sem esquecer a oração,

reconquista-se a canção,

é o que me diz a lição.

E sobre ti, vasta emoção

de rosa branca em floração,

cantares de amor choverão.

 

 

 

 

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

 

À Margem da História Grapiúna

Cyro de Mattos*

 

Na história da civilização no sul baiano há uma tendência lamentável para relegar ao esquecimento o papel importante que executou na sua formação uma gente proveniente das camadas populares.  Faz-se o elogio do herói, daquele que desbravou e conquistou a terra numa saga de cobiça e morte, enquanto o perdedor, o anti-herói, aquele que lavrou a vida com mãos calosas, suor e lágrima, é deixado de fora, ao sabor dos fados.

A desmistificação dessa injustiça é realizada pela presença vigorosa de ficcionistas e poetas que escreveram sobre o tema. Escritores pujantes que em suas criações dão voz aos humilhados e ofendidos. Jorge Amado, com seus grandes romances que espantam, Florisvaldo Mattos, com sua poesia solidária e cativante, para citarmos dois, são nomes que abordaram a questão de uma humanidade que ficou banida na história oficial contada pela elite dominante.

Para aludir ao tema desses anti-heróis, que pagaram um preço alto nas pegadas deixadas no contexto de um Brasil arcaico, escuto agora a manifestação de Clóvis Góis, um pesquisador sério da história grapiúna.  Sua voz chega junto às daqueles dois escritores referidos e de outros nomes importantes, que registraram em sua escrita essa gritante omissão, que não faz sentido, pois a história social de um povo se escreve com o esforço de todas as classes na luta pela sobrevivência e afirmação de sua identidade.

Essa voz solidária do pesquisador grapiúna tem sua emoção, seu alento, sua postura fraterna, seu gesto cheio de sentimento, que dá esperança às estações estáveis. Permanência e grandeza aos que se opõem à conveniência pessoal dos que impõem que a vitória na vida pertence tão somente a uma minoria. É produzida por aquele herói tornado com exclusividade como o autor ímpar dos feitos na rotina do mundo.  

Como sempre soube, em nossa experiência de vida, ao longo de décadas, por mais que persista a mentira com as vestes da verdade, apresente-se com o invólucro de personagem intocável, há sempre o vento que galopa nos prados do bem. Um dia, no encontro inevitável, vem soprar no jeito da farsa e assim   devolver ao homem o que é dele próprio, a razão e a emoção sintonizadas com  a verdade e a liberdade. Chega com seu hálito benfazejo e desfaz a abominável omissão indicativa de vontade, repondo no cenário da história o que é certo, prazeroso, como efeito natural do reconhecimento justo.

 O próprio tempo na voz dos oponentes ao desrespeito, aos mistificadores incorrigíveis, narcisistas egoístas, encarrega-se de colocar no plano do eterno o melhor exemplo de aferir o que é bom, certo, realmente aconteceu, gravando como deve ser a saga completa do que o homem escreveu em seus procedimentos difíceis nos rumos da existência.

  E assim, felizes e dignos, os que como maioria atuaram na jornada de áspero amanhecer, comendo o pão forjado pela dura lei da vida, recebam no julgado perfeito, de lídima transparência, valorosa transcendência, os beijos merecidos da verdade.