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segunda-feira, 4 de agosto de 2025

 

À Margem da História Grapiúna

Cyro de Mattos*

 

Na história da civilização no sul baiano há uma tendência lamentável para relegar ao esquecimento o papel importante que executou na sua formação uma gente proveniente das camadas populares.  Faz-se o elogio do herói, daquele que desbravou e conquistou a terra numa saga de cobiça e morte, enquanto o perdedor, o anti-herói, aquele que lavrou a vida com mãos calosas, suor e lágrima, é deixado de fora, ao sabor dos fados.

A desmistificação dessa injustiça é realizada pela presença vigorosa de ficcionistas e poetas que escreveram sobre o tema. Escritores pujantes que em suas criações dão voz aos humilhados e ofendidos. Jorge Amado, com seus grandes romances que espantam, Florisvaldo Mattos, com sua poesia solidária e cativante, para citarmos dois, são nomes que abordaram a questão de uma humanidade que ficou banida na história oficial contada pela elite dominante.

Para aludir ao tema desses anti-heróis, que pagaram um preço alto nas pegadas deixadas no contexto de um Brasil arcaico, escuto agora a manifestação de Clóvis Góis, um pesquisador sério da história grapiúna.  Sua voz chega junto às daqueles dois escritores referidos e de outros nomes importantes, que registraram em sua escrita essa gritante omissão, que não faz sentido, pois a história social de um povo se escreve com o esforço de todas as classes na luta pela sobrevivência e afirmação de sua identidade.

Essa voz solidária do pesquisador grapiúna tem sua emoção, seu alento, sua postura fraterna, seu gesto cheio de sentimento, que dá esperança às estações estáveis. Permanência e grandeza aos que se opõem à conveniência pessoal dos que impõem que a vitória na vida pertence tão somente a uma minoria. É produzida por aquele herói tornado com exclusividade como o autor ímpar dos feitos na rotina do mundo.  

Como sempre soube, em nossa experiência de vida, ao longo de décadas, por mais que persista a mentira com as vestes da verdade, apresente-se com o invólucro de personagem intocável, há sempre o vento que galopa nos prados do bem. Um dia, no encontro inevitável, vem soprar no jeito da farsa e assim   devolver ao homem o que é dele próprio, a razão e a emoção sintonizadas com  a verdade e a liberdade. Chega com seu hálito benfazejo e desfaz a abominável omissão indicativa de vontade, repondo no cenário da história o que é certo, prazeroso, como efeito natural do reconhecimento justo.

 O próprio tempo na voz dos oponentes ao desrespeito, aos mistificadores incorrigíveis, narcisistas egoístas, encarrega-se de colocar no plano do eterno o melhor exemplo de aferir o que é bom, certo, realmente aconteceu, gravando como deve ser a saga completa do que o homem escreveu em seus procedimentos difíceis nos rumos da existência.

  E assim, felizes e dignos, os que como maioria atuaram na jornada de áspero amanhecer, comendo o pão forjado pela dura lei da vida, recebam no julgado perfeito, de lídima transparência, valorosa transcendência, os beijos merecidos da verdade. 

 

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