À Margem da História
Grapiúna
Cyro de Mattos*
A desmistificação dessa injustiça é
realizada pela presença vigorosa de ficcionistas e poetas que escreveram sobre
o tema. Escritores pujantes que em suas criações dão voz aos humilhados e
ofendidos. Jorge Amado, com seus grandes romances que espantam, Florisvaldo
Mattos, com sua poesia solidária e cativante, para citarmos dois, são nomes que
abordaram a questão de uma humanidade que ficou banida na história oficial
contada pela elite dominante.
Para aludir ao tema desses anti-heróis,
que pagaram um preço alto nas pegadas deixadas no contexto de um Brasil
arcaico, escuto agora a manifestação de Clóvis Góis, um pesquisador sério da
história grapiúna. Sua voz chega junto
às daqueles dois escritores referidos e de outros nomes importantes, que
registraram em sua escrita essa gritante omissão, que não faz sentido, pois a
história social de um povo se escreve com o esforço de todas as classes na luta
pela sobrevivência e afirmação de sua identidade.
Essa voz solidária do pesquisador
grapiúna tem sua emoção, seu alento, sua postura fraterna, seu gesto cheio de
sentimento, que dá esperança às estações estáveis. Permanência e grandeza aos
que se opõem à conveniência pessoal dos que impõem que a vitória na vida
pertence tão somente a uma minoria. É produzida por aquele herói tornado com
exclusividade como o autor ímpar dos feitos na rotina do mundo.
Como sempre soube, em nossa experiência
de vida, ao longo de décadas, por mais que persista a mentira com as vestes da
verdade, apresente-se com o invólucro de personagem intocável, há sempre o
vento que galopa nos prados do bem. Um dia, no encontro inevitável, vem soprar
no jeito da farsa e assim devolver ao
homem o que é dele próprio, a razão e a emoção sintonizadas com a verdade e a liberdade. Chega com seu hálito
benfazejo e desfaz a abominável omissão indicativa de vontade, repondo no
cenário da história o que é certo, prazeroso, como efeito natural do
reconhecimento justo.
O
próprio tempo na voz dos oponentes ao desrespeito, aos mistificadores
incorrigíveis, narcisistas egoístas, encarrega-se de colocar no plano do eterno
o melhor exemplo de aferir o que é bom, certo, realmente aconteceu, gravando
como deve ser a saga completa do que o homem escreveu em seus procedimentos
difíceis nos rumos da existência.
E assim, felizes e dignos, os que como maioria atuaram na jornada de
áspero amanhecer, comendo o pão forjado pela dura lei da vida, recebam no
julgado perfeito, de lídima transparência, valorosa transcendência, os beijos
merecidos da verdade.
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