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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Viagem pela Escravidão



                                   
                                                           Cyro de Mattos                                                       
           O Sul da Bahia vem se prestando ultimamente a estudos de historiadores, geógrafos, sociólogos e escritores conceituados, já se notando, nessa altura, uma bibliografia significativa, que preenche lacunas e amplia o conhecimento sobre a história da Bahia. A historiografia baiana sempre privilegiou Salvador e o Recôncavo com estudos históricos, sociais, de antropologia e culturais, não dando a importância merecida aos acontecimentos, fatos, episódios, capítulos e manifestações que marcaram o desenvolvimento de uma região rica com suas  características próprias.  
            Entre os estudos que abordam fatos históricos, sociais e culturais, contextualizados no sul da Bahia, cito aqui Os coronéis do cacau, de Gustavo Falcón, Bahia cacaueira: um estudo de história recente, de Angelina Rolim Garcez e Antonio Fernando Guerreiro de Freitas, Um lugar na história: a capitania e comarca de  Ilhéus antes   do cacau, de  Marcelo Henrique Dias e  Ângelo Alves Carrrara (organizadores),  A memória do feminino no candomblé,  Da porteira para fora: mundo de preto em terra de branco, Mexigã e o contexto da escravidão, de Ruy Póvoas.  Antes  da  publicação das obras mencionadas,  devemos considerar, como livros necessários aos que se interessam pelos assuntos da história regional,  Mato Virgem, do Príncipe Ferdinand Maximiliano von Habsburg,  tradução de Moema Augel, Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, de Silva Campos, Sul da Bahia: chão de cacau, de Adonias Filho, e a antologia Memória de Ilhéus, organizada por Fernando Sales, reunindo textos históricos.
            Como estudo da Geografia Humana inserida na memória citadina, ressalte-se O centro da cidade de Itabuna: trajetória, signos e significados, de Lurdes Bertol Rocha. Esta autora, em A Região Cacaueira da Bahia – dos coronéis à vassoura-de-bruxa,  contribui para a  compreensão ampla de uma civilização  com sua maneira singular de vida, ocupando vasta área do território baiano.  A reflexão sobre as desigualdades sociais e culturais, o autoritarismo político, a capacidade e persistência dos que estão na parte inferior da sociedade, a impulsionar com dificuldades sua história, servem de argumento nos escritos de história social no sul da Bahia, reunidos  no livro Entre o fruto e o ouro, organizado por Philipe Murillo Santana de Carvalho e Erahsto Felício de Sousa.   
            O livro Viagem ao engenho de Santana (1), de Teresinha Marcis, é outro  estudo importante da história regional situada no sul da Bahia, resultando essa incursão, juntamente com um filme, de projeto elaborado pelo laboratório de História e Geografia da Universidade Estadual de Santa Cruz para as comemorações dos 500 Anos de Descobrimento do Brasil. Centrado no Engenho de Santana, localizado  no povoado do Rio de Engenho, sítio remanescente  dos mais importantes no  Brasil Colônia,  o estudo revela aspectos e eventos poucos conhecidos da formação histórica da Região Cacaueira. Reconstitui um passado que permaneceu ao longo dos anos numa nebulosa, em razão da carência de material e pesquisas sobre o assunto. 
            A estrutura de Viagem ao engenho de Santana obedece ao desenvolvimento cronológico dos acontecimentos, ligados direta ou indiretamente ao engenho. O estudo faz a abordagem da chegada dos colonizadores com  a ocupação das terras, o modelo de colonização adotado. Revela a relação entre colonos e nativos, a estratégia imposta para a dominação. Detecta a presença do elemento indígena, a descaracterização cultural, resistência, fugas e levantes. Destaca a transcrição de Mem de Sá sobre a Batalha dos Nadadores, na qual foi dizimada no mar uma grande quantidade de nativos.
            Prosseguindo na viagem em torno de um engenho de grande porte, pertencente a Mem de Sá, terceiro Governador Geral do Brasil, que o implantou na capitania de São Jorge dos Ilhéus, em 1537, o estudo alcança o período em que  o referido sítio  foi propriedade dos padres jesuítas. Descreve a sua reconstituição no dia-a-dia com a presença dos escravos, sua histórica rebelião quando ocupavam  o engenho em 1789 e escreveram uma carta de reivindicação para negociar o retorno ao trabalho. O escravo apresenta-se neste documento como agente de resistência e transformador da história,  querendo ser menos objeto, buscando melhores condições de vida, não aceitando a exploração na prestação desumana de serviços. Vale lembrar que de mil escravos um sabia escrever  na época da escravatura como forma de propriedade e produção no Brasil.                            
            Movido a energia hidráulica, servindo de modelo aos fazendeiros regionais, que utilizavam extensa mão-de-obra escrava, a produção do Engenho de Santana chegava a 10 mil arrobas de açúcar anuais, comprovando-se dessa maneira um período de boa fase do produto na Capitania. O engenho representava uma verdadeira povoação. O local onde funcionou todo o complexo do engenho, com a casa de purgar e das moendas, a roda d’água, senzalas e outras instalações, constitui atualmente um pequeno povoado, habitado por famílias de gente humilde, trabalhadores rurais, pescadores, lavadeiras e aposentados. Permanece em bom estado de conservação a Igreja de Santana, uma das mais antigas do Brasil e que foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Bahia. Ruínas, histórias e lendas perduram no imaginário dos moradores, principalmente no que dizem respeito à existência da escravidão.
            Baseado em documentação criteriosa, com imagens que contribuem para ilustrar e enriquecer o texto, Viagem ao Engenho de Santana, de Teresinha Marcis, demonstra mais uma vez como Ilhéus tem a ver com o Brasil nascendo como nação. Frisa  a autora que a conclusão desse estudo apresenta-se como desafio a novas investigações, capazes de  aprofundar com outro olhar a leitura crítica dos acontecimentos ali registrados.


            1 – Viagem ao engenho de Santana, Teresinha Marcis, Editus, editora da UESC, Ilhéus, 86 páginas, 2000.


CARTA DE MEM DE SÁ AO REI DE PORTUGAL RELATANDO OS ACONTECIMENTOS QUE CULMINARAM COM A BATALHA DOS NADADORES

“Neste tempo veio recado ao governador como o gentio Tupiniquim da Capitania de Ilhéus se alevantava e tinha morto muitos cristãos e destruído e queimado todos os engenhos dos lugares e os moradores estão cercados e não comiam já senão laranjas e logo o pus em conselhos e posto que muitos eram que não fosse por ter poder para lhes resistir nem o poder do Imperador fui com pouco gente que me seguiu e na noite que entrei em Ilhéus fui a pé dar em uma aldeia que estava a sete léguas da vila em alto pequeno toda cercada de água ao redor de lagoas e as passamos com muito trabalho e antes da manhã de duas horas dei na aldeia e a destruí e matei todos os que quiseram resistir e a vinda vim queimando e destruindo todas as aldeias que ficaram atrás e porque o gentio se ajuntou e me veio seguindo ao longo da praia lhes fiz algumas ciladas e onde os cerquei e lhes foi forçado deitarem a nado no mar da costa brava. Mandei outros índios atrás deles e gente solta que os seguiram perto de duas léguas e lá no mar pelejaram de maneira que nenhum Tupiniquim ficou vivo, e todos trouxeram e os puseram ao longo da praia por ordem que tomavam os corpos perto de meia légua... ¨ (No livro ¨Viagem ao Engenho de Santana¨, transcrito de Varnhagen, 1956, Tomo I, p.315).

CARTA ESCRITA PELOS ESCRAVOS DO ENGENHO DE SANTANA

“Meu senhor, nós queremos paz e não queremos guerra; se meu senhor quiser paz, há de ser nessa conformidade, se quiser estar pelo que nós quisermos a saber.
Em cada semana nos há de dar os dias de sexta-feira e de Sábado para trabalharmos para nós não tirando um destes dias por causa de dia santo.
Para podermos viver nos há de dar rede, tarrafa e canoas.
Não nos há de obrigar a fazer camboas, nem a mariscar, e quando quiser fazer camboas e mariscar mandes os seus pretos Minas.
Para o seu sustento tenha lancha de pescaria ou canoas do alto, e quando quiser comer mariscos Mandes os seus pretos Minas.
Faça uma barca grande para quando for para a Bahia nós metermos as nossas cargas para não pagarmos frete.
Na planta da mandioca, os homens queremos que só tenham tarefa de duas mãos e meia e as mulheres de duas mãos.
A farinha há de ser de cinco alqueires rasos, pondo arrancadores bastantes para estes servirem de pendurarem os tapetes. A madeira que serrar com serra de mão, embaixo hão de serrar três, e um em cima. A medida de lenha há de ser como aqui se praticava, para cada medida um cortador, e uma mulher para carregadeira.
A tarefa de cana há de ser de cinco mãos e não de seis, e a dez canas em cada freixe.
No barco há de por quatro varas, e um para o leme, e um no leme puxa muito por nós.
Os marinheiros que andam na lancha além de camisa de baeta que se lhe dá, hão de ter gibão de baeta, e todo vestuário necessário.
Os atuais feitores não os queremos, faça eleição de outros com a nossa aprovação.
Nas moendas há de de por quatro moedeiras, e duas guindas e carcanha.
Em cada caldeira há de haver botador de fogo, e em cada terno de faixas o mesmo, e no dia d e Sábado há de haver remediavelmente peija no Engenho.
O Canavial do Jabirú o iremos aproveitar por esta vez, e depois há de ficar para pasto porque não podemos andar tirando canas por entre mangues.
Poderemos plantar nosso arroz onde quisermos e em qualquer brejo sem que para isso peçamos licença, e poderemos cada um tirar jacarandás ou qualquer pau sem darmos parte para isso.
A estar por todos os artigos acima, e conceder-se estar sempre de posse da ferramenta, estamos prontos para o servimos com dantes, porque não queremos seguir os maus costumes dos mais Engenhos.
Poderemos brincar, folgar, e cantar em todos os tempos que quisermos sem que nos empeça e nem seja preciso licença.” ( No livro “Viagem ao Engenho de Santana”, transcrição do texto original in: REIS, João José e SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito: A resistência negra no Brasil escravista, 1989).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Esses Autores Já Foram Recusados por Editoras






Uma lista curiosíssima publicada na edição 130 da revista Aventuras na História, de maio deste ano, mostra escritores famosos que já deram com a cara, melhor dizendo, com a caneta (teclado do computador ou teclas da Olivetti) na porta das editoras e tiveram obras recusadas, algumas delas verdadeiros clássicos da literatura universal. Destaco para vocês os mais importantes nãos da literatura mundial:
1 – James Joyce - seu primeiro livro Dublinenses foi recusado porque os editores acharam os contos “irlandeses” demais;
2 – J.K.Rowling - Harry Potter e a pedra filosofal foi oferecido no Brasil, em primeira mão, para a Companhia das Letras, que avaliou a obra com tendo um “fraco” potencial.. Ah, se arrependimento matasse!
3 – Marcel Proust - Em busca do tempo perdido recebeu um não sonoro porque, em 1910, os avaliadores acharam a prosa de Proust “cansativa”;
4 – Vladimir Nobokov - Nem todos os editores foram seduzidos por Lolita. Houve quem achasse a história “nauseante”;
5 – George Orwell - A revolução dos bichos foi recusada nos EUA porque segundo os editores do país, “o público norte-americano não estava interessado em uma obra sobre animais”. Oi??!!
6 – William Golding - O senhor das moscas amargou mais de duas dezenas de nãos sob alegação de que a história era uma “absurda e desinteressante fantasia”.
Eu me pergunto se esse povo que avaliou os livros citados realmente sabia ler ou só juntava sílabas. Felizmente, e para a nossa sorte, apareceram vozes dissonantes e esses livros foram publicados e provaram o valor de seus autores.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Eu Creio Nessa Canção





               Cyro de Mattos


Por que os homens
Amam a droga
E não da abelha
Os favos de mel?

Por que os homens
Amam as balas
E não a paz
Sem nenhum fuzil?

                Por que os homens
Só enxergam o chão
E não a estrela
Em seus caminhos?

Por que os homens
Perfuram a rosa
Com a ponta aguda
E mais dura do espinho?

Viver amargos,
Viver sozinhos,
Viver nos escombros,
Viver na vida desigual,
Viver dos horrores
Repetidos no holocausto
É do que os homens gostam?

Mas eu creio nessa manhã
Anunciada agora nas espumas
Dessas águas que passam.
                       Nos balões sobe e em flores
                       Puxa o dia pela cauda.
                       Quando chega a noite,
                       Espalha o amor no céu.

Eu gosto de ouvir nesta hora
Essa canção que me afaga
Falando duma união geral,
Que viver vale a pena
Quando a vida é uma dança
Com os homens como irmãos
No doce fruto da ternura,
No doce fruto da alegria
Sorrindo como criança.




          

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Lançamento de Os Ventos Gemedores em São Paulo

Lançamento do primeiro romance de Cyro de Mattos pela Letra Selvagem ocorreu no dia 12 de novembro, na Casa das Rosas, em São Paulo.  Além de Os ventos gemedores, foram lançados também os livros Uma garça no asfalto, de Clauder Arcanjo (crônica) e Rainhas da antiguidade: sedução e majestade, de Dirce Lorimier Fernandes (biografia).

Abrindo o evento, o escritor, jornalista e professor Joaquim Maria Botelho, presidente da União Brasileira de Escritores (SP),apresentou os três autores ao público presente. Com Os ventos gemedores, o escritor Cyro de Mattos alcança a marca de 51 livros publicados, durante quase cinqüenta anos dedicados à vida literária.

 Romance e Seu Autor

Nesse romance de ritmo ágil, o leitor irá escutar a fúria de ventos compulsivos, que assim abalam e deixam-nos perplexos, de tal sorte os gestos de criaturas primitivas, de anseios tão densos e chocantes, em meio a situações de desespero.

Nos episódios de Os Ventos Gemedores latejam brutalidades dum homem sedento e faminto pelos domínios da terra, que avilta outros homens indefesos com seu egoísmo impiedoso. Na mensagem que se expressa no texto vigoroso, revestido de brasilidade e humanismo, emerge uma fabulação interior que confere vida psíquica aos personagens, não apenas como tipos interessantes, agentes populares desempenhando seu papel no cenário dos conflitos sociais. Nesses personagens primitivos, sabe o autor imprimir, como poucos, uma dimensão interior enraizada na explosão dos dramas e das misérias coletivas. No que toca a este jogo psíquico e o drama, como observa o crítico Cid Seixas, doutor em Letras pela USP (Universidade de São Paulo), em comentário ao livro Berro de Fogo e outras histórias: “Quando um destes personagens se deixa surpreender na intimidade da vida é que se percebem os desvãos da sua alma”.

Cyro de Mattos nasceu em Itabuna, cidade do sul da Bahia, em 31 de janeiro de 1939. Diplomado em advocacia pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, em 1962. Advogado e jornalista com passagem na imprensa do Rio de Janeiro, onde foi redator do “Diário de Notícias”, “Jornal do Comércio” e “O Jornal”.


Contista, poeta, cronista, novelista, ensaísta, autor de livros infantis, organizador de antologia, Cyro de Mattospossui inúmeros prêmios literários, entre eles, o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, concedido pela Academia Brasileira de Letras para o livro Os Brabos; Prêmio Jabuti (menção honrosa) para Os Recuados; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) para O Menino Camelô, poesia infantil, e com o Cancioneiro do Cacau, conquistou o Prêmio Nacional Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, e o Segundo Prêmio Internacional de Poesia MaestraleMarengo d’Oro, Gênova, Itália. O nome de Cyro de Mattos figura em obras como Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Dicionário Literário Brasileiro, de Raimundo de Menezes, Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho, Literatura e Linguagem, de Nelly Novaes Coelho, Navegação de Cabotagem, de Jorge Amado, Bibliografia Crítica do Conto Brasileiro, de Celuta Moreira Gomes e Theresa da Silva Aguiar, e Enciclopédia Barsa. Sua obra vem recebendo estudos nas universidades. Participou como convidado do III Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra, Portugal, em 1998. Da Feira Internacional do Livro de Frankfurt em 2010 quando autografou a antologia poética Zwanzigvon Rio undandereGedichte, publicada pela Projekte-Verlag, de Halle, com tradução de  Curt Meyer Clason. E do XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Cultural de Salamanca, Espanha, em 2013. Possui livros pessoais publicados em Portugal, França, Alemanha e Itália. Seus contos e poemas participam de mais de 50 antologias, no Brasil e exterior. Pertence à Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de ilhéus e Academia de letras de Itabuna. É Membro Titular do Pen Clube do Brasil.