Páginas

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

LETRASELVAGEM e CASA DAS ROSAS: Convite


Edições LETRASELVAGEM e CASA DAS ROSAS convidam para o lançamento
dos seguintes livros:

1) “Poeira e Escuridão”, de João Batista de Andrade (contos)
2) “O Tribunal”, de Álvaro Alves de Faria (romance)
3) “Os Vira-Latas da Madrugada”, de Adelto Gonçalves (romance)

   Local: CASA DAS ROSAS (Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura),
Av. Paulista, 37 (Metrô Brigadeiro) - São Paulo / SP / Brasil.
Data: 18 de agosto de 2015 (terça-feira), às 19h30. Entrada Franca.

* Precedendo à sessão de autógrafos, os três autores (que ambientaram as suas narrativas no sombrio e asfixiante período
da Ditadura Militar de 1964) serão apresentados ao público pelo crítico FÁBIO LUCAS, o qual também fará breve escorço
a respeito do tema “Literatura e Liberdade”.


SOBRE OS AUTORES/OBRAS:

1º) João Batista de Andrade / "Poeira e Escuridão" (contos):


João Batista de Andrade nasceu na cidade mineira de Ituiutaba, em 1939, e vivenciou complexos momentos da recente história do Brasil, como o período da Ditadura Militar (1964-1985).
Leitor inveterado desde a adolescência, quando escreve os seus primeiros contos, torna-se conhecido nacional e internacionalmente, entretanto, ao desenvolver notável carreira de cineasta, tendo realizado filmes de ficção e documentários que impactaram a crítica e o público, como, por exemplo, “Doramundo” (Vencedor do Festival de Gramado /1978), “O homem que virou suco” (Medalha de Ouro de Melhor Filme no Festival de Moscou/1981), “O Tronco” (Prêmio de Melhor Filme pela Comissão das Comemorações dos 500 anos de Brasil, no Festival de Brasília/1999) e “Vlado, 30 anos depois” (2005).
Premiado e aclamado como cineasta, sempre alimentou entranhada relação com a literatura, que se manifesta em sua filmografia, quer na urdidura dos roteiros, quer na transposição para as telas de obras literárias, como os romances Doramundo (Geraldo Ferraz), Veias e Vinhos (Miguel Jorge) e O Tronco (Bernardo Élis). Enquanto colhe louros como cineasta, vai publicando os seus livros, sete até este momento (o último intitula-se Confinados: memórias de um tempo sem saídas).
Militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro) nos chamados “anos de chumbo” da Ditadura Militar implantada no Brasil em 1964, João Batista de Andrade — cineasta, jornalista ou escritor — apresenta um olhar crítico sobre os (des)caminhos trilhados pela sociedade brasileira. Conforme escreveu Rodrigo Francisco Dias, mestre em História pela UFU (Uni­versidade Federal de Uberlândia): “Andrade explora os com­plexos aspectos psicológicos de seus personagens e nos apresenta a sua visão acerca do Brasil contemporâneo.”
Ao misturar realidade e ficção, é possível perceber pontos de contato entre a história de vida do autor e as histórias de seus personagens, como a do velho arquiteto Júlio, um homem em crise que sofre com sua solidão (Confinados).
A sensação de solidão, aliás, é elemento importante em toda a arte de João Batista de Andrade. Em Poeira e Escuridão, ora publicado pela LetraSelvagem, os personagens também aparecem “confinados” pela cruel realidade de um mundo onde as pessoas não conseguem encontrar no tempo presente a realização de projetos e sonhos do passado, resultando dessa situação um sentimento de impotência — o mesmo sentimento que o autor deve ter experimentado em 1989, quando, desiludido com a situação do país sob o famigerado Plano Collor, interrompe sua carreira de forma drástica e se auto-exila no interior brasileiro, só retornando ao set de filmagens oito anos depois, com o épico “O Tronco”. João Batista de Andrade nos mostra como podemos, ao mesmo tempo, identificar-nos com a realidade e não nos prendermos a ela. Seus romances e contos cheiram a terra, sangue, lágrimas e suor, numa perfeita assimilação do mundo que o rodeia, e não obstante rompem os limites desse mundo para elevar-nos à universalidade da poesia humana, inespacial e atemporal. A memória e a ternura são os dois elementos fundamentais dessa alquimia psíquica, os elementos de captação e transfiguração do real, de que João Batista de Andrade se serviu em toda a sua obra, como ficcionista ou não.
Sempre ligado às lutas em prol da cultura brasileira, criou, como Secretário Estadual de Cultura de São Paulo, a Lei da Cultura (PROAC). Eleito Intelectual do Ano em 2014, recebeu o tradicionalíssimo Troféu Juca Pato, oferecido anualmente pela UBE (União Brasileira de Escritores) a uma personalidade do universo cultural cuja obra tenha promovido relevante reflexão, característica marcante da atuação de João Batista de Andrade, quer no cinema, quer na Literatura. Atualmente, preside em São Paulo o Memorial da América Latina.

2º) Álvaro Alves de Faria / "O Tribunal" (romance):

Já em 1971, ano da primeira edição de O tribunal, Álvaro Alves de Faria, com apenas 31 anos de idade (nasceu em São Paulo em 09.02.1942), era considerado “um dos escritores jovens mais conceituados” do Brasil, como informa Durval Monteiro nas orelhas do livro.
Iniciou, em 1965, o movimento de recitais públicos nas ruas e praças de São Paulo, quando lançou o livro O sermão do viaduto, um comício poético em pleno Viaduto do Chá, então o cartão-postal da cidade. Com um microfone e quatro alto-falantes realizou nove recitais no local e essa atividade evidentemente desagradou aos militares que haviam usurpado o poder em 1964.
Em 1966, os recitais poéticos foram proibidos, mas Álvaro Alves de Faria já fora preso cinco vezes como “subversivo” pelo DOPS (Departamento de Ordem Pública e Social). Voltou a ser preso em 1969, por desenhar os cartazes do então clandestino PSB (Partido Socialista Brasileiro).
Nesse período, firma-se como poeta, ao publicar os seguintes livros: Nocturno maior (1963), Tempo final (1964) e Sermão do viaduto (1965).
Com o fim dos recitais públicos, Álvaro Alves de Faria concentra-se numa intensa atividade poética — que também era essencialmente política — por meio de recitais de poemas em colégios, ginásios e faculdades, e, ao mesmo tempo, vai ruminando novos livros. É dessa época O tribunal, sua primeira incursão pela prosa de ficção. Nas orelhas da 1ª edição, Durval Monteiro, colega de jornalismo e amigo de infância do escritor, informa como se gestou o livro:
“Está aí O tribunal, depois de sete anos de isolamento. (...) Eu vi o livro nascer, crescer dia a dia, palavra por palavra, silêncio por silêncio. Acompanhei todo o trabalho de estruturação deste livro e senti a preocupação terrível de um poeta, de um escritor diante de sua obra, de seu depoimento. E sei que o Álvaro, como homem, como seu próprio personagem, está presente em todos os momentos deste livro. Com seus cabelos compridos (isso é importante?), sua angústia, sua visão profundamente caótica do mundo. Na verdade, eu sei, O tribunal é a opção de Álvaro em relação à própria literatura. É uma palavra de coerência do começo ao fim do livro.”
E o amigo de infância continua: “Ele se propõe (e isso não é novo nele) a ser um escritor marginalizado. Consegue. Ele, tenho certeza, continuará falando das coisas que vivem dentro de si, marginalizado ante o caos do século, numa difícil e jovem linguagem que não ficará perdida na confusão dos nossos dias: ele não está falando sozinho. Estas coisas todas, não é absurdo dizer, serão analisadas mais tarde, à luz da História.”
Álvaro Alves de Faria é um daqueles autores cada vez mais raros, que têm um compromisso com a Literatura. Tem uma “verdade” a dizer. Uma verdade quase toda vivenciada. A tortura e morte são duas personagens que rondaram a sua existência, deixando amargas lembranças, que o artista, com a sua “alma gentil”, procura afastar do caminho. E, para dizer essa verdade, lança mão de todos os recursos e todos os gêneros literários, com o mesmo zelo e profundidade.
O tribunal não é propriamente o que se poderia chamar de “um livro brasileiro”. Poderia ter sido escrito em São Paulo (como o foi), Paris, Tóquio, Nova York ou em qualquer cidade do mundo. Uma coisa universal. É isso que está interessando, conforme disse o próprio escritor ao seu amigo de infância.
Em 1973, lança Quatro cantos de pavor e Alguns poemas desesperados. Também em 1973: Augusto dos Anjos, poeta e cidadão brasileiro (teatro, com Rofran Fernandes, encenada em várias capitais brasileiras).
Em 1976, aparece outra novela, O defunto — uma história brasileira (Ed. Símbolo), mais um texto contundente e visceral, que mostra um tempo de violência e desencanto, de mortes, angústia e desespero, em que o homem é massacrado em cada gesto, sem nenhuma perspectiva diante do clima que então se apresentava no Brasil e no mundo.
Também em 1976 surge a 2ª edição de O tribunal, trazendo o consagrador prefácio de Geraldo Galvão Ferraz, onde este afirma:
“O Tribunal mostra um personagem que avança pelos meandros de uma selva escura, através de barbáries e miséria, lutando pela consolação desse sentimento positivo — o amor. Mas esse internar-se pelo labirinto é elaborado por um espírito penetrante e talentoso, resultando daí esse livro, representativo da melhor literatura que se faz no Brasil. E, mais do que nada, um livro que provoca, perturba e faz pensar. O que pode haver de mais importante numa obra de arte?”
Seguem-se novos livros, em diversos gêneros: Em legítima defesa (poesia/1978), A faca no ventre, (romance/1979), A noiva da avenida Brasil (crônicas/1981), Motivos alheios (poesia/1983),   
Em 1986, com a mesma força de expressão e contundência estilística, retorna ao romance, com Autopsia, editado pela Traço Editora e avalizado com a participação de José Louzeiro, autor do texto de orelhas, onde afirma:
“Mas, afinal, o tema central desta obra do poeta Álvaro Alves de Faria é o homem e suas contradições, angústias e perplexidades, diante de um mundo sem alternativas, de ideias doentes e ferimentos abertos. Esse tempo talvez seja passado, mas é inegável que ainda estão entre nós seus vestígios e essas marcas de muitas feridas abertas na violência, no esmagamento dos direitos fundamentais da vida humana.
O romance nos passa diante dos olhos como um filme sinistro, feito de fatos que, muitas vezes, ultrapassam a própria realidade, para desabar pesadamente onde a vida se torna totalmente impotente diante dos massacres, a impotência ainda lúcida de não se saber o que é a loucura ou a angústia de enlouquecer.
Autópsia é um livro dramático retratando um tempo brasileiro de desespero, com uma linguagem sempre caminhando lado a lado com a poesia. Depois de dez anos, Autópsia salta da gaveta como um dilacerante grito de dor.”
Com efeito, num período da História brasileira em que tanto se precisava ouvir as vozes dos encarcerados e emparedados pela truculência militar, Autópsia, inexplicavelmente (seria mesmo inexplicável?),  permaneceu engavetado por dez anos até que veio a lume, em 1986. E o escritor e jornalista Renato Pompeu (1941-2014), que assinou o prefacio, se pergunta: “Por que o romance de Faria — autor bem conhecido, de vários outros livros — teve dificuldade para ser editado? Seria por ser crítico em face das autoridades? Seria por ser crítico em face dos militantes?” 
 Autópsia é uma poderosa narrativa-documento de um tempo de sombras e de morte, em que insidiosos e cruéis “insetos” se alimentam de carne humana. Os insetos odeiam a luz. A tarde está cheia de insetos e aracnídeos. Mas essa novela de Álvaro Alves de Faria também joga luz sobre o ambiente abafado das redações dos grandes jornais brasileiros, numa época de censura. A morte, com seus múltiplos tentáculos, aniquila corpos e mentes.
A resposta à pergunta de Renato Pompeu salta com força e clareza: Autópsia — “esse romance a um tempo belo e militante” — foi longe demais ao revelar as entranhas de um sistema apodrecido e degenerado e, ao mesmo tempo, manter-se crítico em relação aos que, na sociedade civil manietada, quedaram-se omissos ou rastejantes diante do poder.
Depois disso, publicou os seguintes livros de poesia: Lindas mulheres mortas (1990), O azul irremediável (1992), Pequena antologia poética (1996), Gesto nulo (1998), Agrário (1998), Terminal (1999), 20 poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra (1999). Volta ao romance em 1994: Dias perversos.
Descendente de portugueses e com sua “alma estrangeira”, há quinze anos que se dedica à poesia de Portugal, país onde tem 11 livros publicados: Vinte poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra (1999), Poemas portugueses (2002), Sete anos de pastor (2005), A memória do pai (2006), Inês (2007), Livro de Sophia (2008), Este gosto de sal — mar português (2010), Cartas de abril para Júlia (2010), Três sentimentos em Idanha e outros poemas portugueses (2011), O tocador de flauta (2012), Almaflita (2013).
Em 2012, volta a publicar um livro no Brasil (Domitila — poema-romance para a Marquesa de Santos, Ed. Nova Alexandria, SP).
Como jornalista, dedicou-se à área cultural, em especial na crítica literária em jornais, revistas, rádio e televisão. Por seu trabalho recebeu, em 1976 e 1983, o Prêmio Jabuti de Literatura da CBL (Câmara Brasileira do Livro).

3º) Adelto Gonçalves / "Os Vira-Latas da Madrugada" (romance):

Adelto Gonçalves Nasceu a 16.10.1951 em Santos, cidade portuária do Estado de São Paulo, Brasil. Filho de pais de modesta condição, fez os estudos primários na escola mantida pelo Sindicato dos Operários Portuários de Santos. Com a morte do pai, para continuar os estudos, exerceu pequenos ofícios. Em 1972, quando cursava o segundo ano da Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Santos, iniciou, na mesma cidade, bem-sucedida carreira no jornalismo no jornal “Cidade de Santos” e, em seguida, em “A Tribuna”. Em 1975, vai para São Paulo, onde exerce a função de redator na Editoria de Política & Diplomacia em “O Estado de S. Paulo”. Em 1980, retorna a “A Tribuna”, de Santos. Voltou a trabalhar em “O Estado de S. Paulo”, de 1988 a 1992, depois de uma passagem pela “Revista Placar”, da Editora Abril, em 1987, e pela “Folha da Tarde” (SP), em 1988.
Estreou na literatura em 1977, com Mariela morta (contos).
Os vira-latas da madrugada foi escrito quando Adelto Gonçalves tinha 18/19 anos e ficou um bom tempo no fundo da gaveta, até ser reescrito em 1977/78. Em 1980, o romance ganhou Menção Honrosa no Prêmio Nacional José Lins do Rego, da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, e, como resultado da premiação, foi publicado no ano seguinte.
Jornalista, escritor, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa e mestre na área de Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de São Paulo (USP), professor em estabelecimentos do ensino superior e crítico literário, Adelto Gonçalves é, também, autor de vários livros, que vão do ensaio à literatura de ficção. Os vira-latas da madrugada é um capítulo especial em sua bibliografia.
A história se passa às margens do cais santista com personagens que fazem rememorações da época do tenentismo da Coluna Prestes, passam pela Época Vargas e chegam até o período pré-golpe de 1964, onde efetivamente se passa a narração, e tem como pano de fundo a vida sindical. Em primeiro plano, personagens que vivem entre o bairro Paquetá e a zona central da cidade, região decadente, como decadente é a vida dos personagens que por ali deambulam: ex-sindicalistas, punguistas, jornaleiros, vendedores de jogo do bicho, catadores de restos que caem no transporte antes de chegar aos navios, mendigos, engraxates, cafetinas, cafetões, prostitutas e jovens aprendizes de todo tipo de expediente. Um dos aspectos surpreendentes do romance é a maneira detida, detalhada e verossímil com que o autor tece o enredo, demonstrando total segurança e grande afinidade com o universo existencial e psicológico dos personagens, isso com apenas 18/19 anos de idade, o que leva o leitor a se perguntar sobre o que teria permitido esse prodígio?
Em artigo publicado pelo semanário “Jornal Opção”, de Goiânia, nº 2021, de 30.03.2014 a 5.04.2014, e no site do jor­nal russo “Pravda” (Verdade), em 25.03.2014, intitulado “O golpe visto da janela de minha casa”, Adelto Gonçalves rememora a tenebrosa época em que escreveu o romance e oferece informações sobre a sua vida que, pelo menos em parte, respondem a essa interrogação.
O escritor diz, nesse artigo, que, com 12 anos de idade, assistiu ao golpe militar de 1964 da janela de sua casa. A morada de seus pais era no Largo Teresa Cristina, 27, defronte para o prédio do Sindicato dos Operários Portuários de Santos, localizado à Rua General Câmara, cuja lateral direita dava para a praça. Foi por ali que chegaram os soldados da Polícia Marítima, do comandante Seco, ostensivamente armados. Da janela, o menino Adelto viu como alguns daqueles homens de uniforme azul com metralhadoras em punho e longos bastões — que no cais eram mais conhecidos como “pés de mesa” — escalaram o muro dos fundos do sindicato, assumindo posições estratégicas.
Depois, ouviu o estilhaçar de uma vidraça do edifício do sindicato, talvez rompida por uma granada de efeito moral ou uma pedra. E, então, percebeu algumas poucas cabeças que se desenhavam nas vidraças: eram os dirigentes do sindicato acuados, provavelmente à espera de notícias que pudessem vir de Brasília sobre um eventual esquema de resistência ao golpe.
Mais tarde, ainda da janela, o menino percebeu uma aglomeração na Rua General Câmara com o Largo. Então, tomou coragem e desceu à rua e viu quando alguns daqueles homens que estavam acuados na parte de cima do sindicato desceram as escadarias, sob a mira de metralhadoras, e entraram numa espécie de “corredor polonês” aos tapas e pescoções em direção a um caminhão coberto. Entre eles, lembra-se de ter visto Manoel de Almeida, que era o presidente do sindicato, e Rafael Babunovitch, diretor. Com outros diretores e alguns associados solidários, seriam conduzidos para o navio-prisão, que por muitos dias ficaria ancorado em frente ao porto de Santos com sua presença ameaçadora, tal como uma forca na praça principal de uma pequena cidade.
Adelto diz, ainda, não saber por que aqueles acontecimentos se davam, mas a sua solidariedade era para com aqueles que eram agredidos a caminho do caminhão. Em 1961, havia se formado na escola primária do Sindicato dos Operários Portuários, com 10 anos de idade. Ingressara na escola não porque seu pai trabalhasse na Companhia Docas, mas porque ela ficava perto de casa e um amigo da família, portuário, havia se proposto a apresentá-lo como seu sobrinho, de modo que houve um arranjo para superar as normas, já que a escola, a princípio, só poderia ser cursada por filhos de portuários. E o pai de Adelto era dono de um pequeno armazém de conserto de sacaria de café na Rua Tuiuti, 34, na beira do cais do Valongo.
Adelto saiu daquela escola como um de seus melhores alu­nos. Ao final de 1961, o então presidente da República, João Goulart (1919-1976), fez uma visita ao sindicato e, na ocasião, cumprimentou uns três ou quatro daqueles alunos que haviam recebido medalha de aplicação ou de honra ao mérito. Adelto foi um deles. Diz lembrar-se, até hoje, do cumprimento dado pela mão suarenta do presidente.
Naquele ano de 1964, Adelto Gonçalves cursava o segundo ano ginasial no Colégio Comercial Coelho Neto e assistira, indiferente, à pregação de uma professora que costumava angariar adeptos para as manifestações que a União Cívica Feminina organizava contra o governo Goulart. Até porque não nutria nenhuma simpatia por aquela gente.
Por acaso, também sem sair de casa, o menino Adelto conhecera o prefeito de Santos, José Gomes (1920-1974), que teria o seu mandato cassado depois do golpe: via-o frequentemente cruzar o Largo Teresa Cristina em direção à Rua General Câmara a caminho de seu trabalho na Rádio Cacique, onde apresentava um programa. Certa vez, o prefeito, com seu cabelo ruivo e voz tonitruante, parou à janela do porão da casa de Adelto encantado com a vitalidade de seu cachorro, o Rick, e fez-lhe algumas perguntas a respeito do cão.
Era natural que, anos mais tarde, quando Adelto tinha 17 ou 18 anos de idade e sentou-se para escrever num caderno escolar os primeiros apontamentos para o romance Os vira-latas da madrugada, ainda no porão daquela casa do Largo Teresa Cristina, se sentisse impulsionado por muitas dessas lembranças. Tanto Almeida como Babunovitch, “o homem de bochechas vermelhas” e que “parecia ter uma batata quente na boca quando falava”, são personagens que aparecem disfarçados, ao lado de tantos outros, naquele romance que reescreveu, dez anos mais tarde, à época em que era subeditor de Política na redação do jornal “O Estado de S. Paulo”.
O trabalho, a um tempo de memória e pesquisa, presente em Os vira-latas da madrugada, fez com que o jornalista e escritor Marcos Faerman (1943-1999), professor na tradicional Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, apaixonado pelo “jornalismo literário” e estudioso da relação entre o texto jornalístico e as técnicas narrativas, enquadrasse a obra na categoria “romance-reportagem” e indicasse-a numa lista de cem livros de leitura obrigatória a alunos de jornalismo ou postulantes ao ambicionado mas difícil ofício de “escritor”.
A lista de Marcos Faerman é encabeçada por A sangue frio (Truman Capote) e contempla outras obras-primas da litera­tura universal, como, por exemplo, Honrados mafiosos (Gay Talese, 2º da lista), Décadas púrpuras (Tom Wolfe, 5º), México rebelde (John Reed, 7º), Casa de loucos (João Antonio, 9º).
Os vira-latas da madrugada aparece em 10º lugar nessa lista, antes de clássicos como Moby Dick (Herman Melville, 11º), A ilha do tesouro (Robert Louis Stevenson, 12º), O lobo do mar (Jack London, 13º), Recordação da casa dos mortos (Dostoiévski, 22º), Tempo de morrer (Ernest Hemingway, 27º), Nada de novo no front (Erich Marie Remarch, 28º), A peste (Albert Camus, 29º), As vinhas da ira (John Steinbeck, 34º) e David Corpperfield (Charles Dickens, 37º).
Ainda no texto do “Jornal Opção” e do “Pravda”, Adelto relembra um fato que marcou a publicação da 1ª edição de Os vira-latas da madrugada e que só agora, trinta e quatro anos depois, o público tomará conhecimento do mesmo por inteiro, ganhando esta 2ª edição um significado novo, de verdadeiro ato insurrecto contra a castração das liberdades promovida pelos regimes totalitários — pois, como se verá, o Os vira-latas da madrugada foi uma das tantas vítimas da ditadura militar que à época infelicitava o nosso país.
Vamos ao fato:
Lançado na sede da editora no dia 30 de abril de 1981, juntamente com outras obras premiadas pela comissão julgadora, o livro trazia um prefácio no qual o jornalista Marcos Faerman dizia que aquele “romance de sons delicados e histórias tristes” não agradaria “àqueles que venceram em 1964”. Àquele lançamento coletivo estiveram presentes os ex-ministros Darci Ribeiro (1922-1997) e Eduardo Portela, o compositor Tom Jobim (1927-1994), cuja irmã Helena ganhara o prêmio principal do concurso, e ninguém menos que Luís Carlos Prestes (1898-1990), o Cavaleiro da Esperança, por sinal, também personagem ocasional de Os vira-latas da madrugada.
Adelto relembra que, naquela noite, “houve uma bomba que explodiu no RioCentro antes da hora e fez gorar uma tragédia que poderia ter provocado muitas vítimas.”
Esse episódio, provavelmente, somado às dificuldades financeiras que puseram a editora sob intervenção do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), foi a causa de a edição ter sido recolhida à gráfica e o livro distribuído sem o prefácio.
Trechos do prefácio de Marcos Faerman foram publicados no semanário “Movimento” (São Paulo, edição de 1 a 7 de junho de 1981, página 15), com o título “Horror na beira do cais” e a seguinte linha final: “Trechos de um prefácio censurado, sobre tempos nublosos...”. Na abertura, em texto que se pode atribuir à redação, lê-se: “O porto de Santos foi palco de grandes manifestações de massa nos anos que precederam a deposição do presidente João Goulart, em 1964, por isso mesmo, assistiu à violenta repressão depois do golpe militar de abril. Essa história constitui o pano de fundo do romance Os vira-latas da madrugada, do jornalista Adelto Gonçalves, recentemente publicado pela Livraria José Olympio Editora. Tudo indica que os acontecimentos posteriores ao golpe militar ainda incomodam aqueles que, de uma forma ou de outra, foram responsáveis por eles. Assim, Os vira-latas da madrugada, publicado por uma editora que está sob intervenção do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), acabou saindo sem o prefácio que fora preparado pelo jornalista Marcos Faerman, embora tenha sido impresso e encadernado normalmente. Ele teria sido proibido por ordem direta do interventor militar na editora, e foi arrancado de todos os exemplares. O prefácio foi vetado por problemas técnicos. Essa foi a explicação do editor Ivan Cavalcanti Proença, que prometeu uma nova edição, em alguns meses, incluindo o prefácio. En­tretanto, apesar de desmentir qualquer conotação política no veto, Proença faz questão de frisar que a José Olympio é uma editora em situação peculiar, insinuando que a intervenção do BNDE não lhe permite total autonomia operacional.”
Como prova da auto-censura, um exemplar com o prefácio “subversivo” foi guardado por Adelto Gonçalves.
Seguindo o ideário ético filosófico de Fernando Pessoa, para quem “a função da arte é revelar o oculto e elevar a alma acima de tudo que é mesquinho”, a LetraSelvagem resolveu reeditar Os vira-latas da madrugada, cuja 1ª edição encontra-se há décadas esgotada, dando às novas gerações de leitores a oportunidade de acesso a essa narrativa realizada com técnica e alma, recolocando em seu merecido lugar o censurado prefácio de Marcos Faerman, o qual, da gaveta onde os inquisidores o sepultaram, clamou para vir à luz, não como explosão de pólvora e chumbo a amedrontar cidadãos indefesos, como fazem as ditaduras, mas como um potente raio, descarga de luz, irretorquível libelo capaz de ferir insensibilidades e despertar consciências.
Adelto Gonçalves é autor, entre outros, de Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Editora da Universidade Santa Cecília, 1997, ensaios e artigos), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999, romance; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage — o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003, ensaio biográfico) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012, ensaio biográfico), entre outros. Em 1986, obteve o Prê­mio Fernando Pessoa da Fundação Cultural Brasil-Portugal, do Rio de Janeiro, participando do livro Ensaios sobre Fernando Pessoa com o trabalho “O ideal político de Fernando Pessoa”, publicado também em Fernando Pessoa: a voz de Deus. Conquistou os prêmios Assis Chateaubriand de 1987 e Aníbal Freire de 1994, ambos da Academia Brasileira de Letras. Seu traba­lho de doutorado Gonzaga, um poeta do Iluminismo, sobre Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), publicado em 2000 pela Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, ganhou o Prêmio Ivan Lins de Ensaios da União Brasileira de Escritores e da Academia Carioca de Letras.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Um Construtor de Pontes Literárias



                             
                                                          Cyro de Mattos
           
Curt  Meyer-Clason nasceu em 19 de setembro de 1910, em Ludwigsburg, cidade próxima a Stuttgart, no sudoeste da  Alemanha.  Contista, romancista, autor de diários, ensaísta,  conferencista, editor   e tradutor. Como autor publicou quinze livros  e, entre eles,  Equador, romance biográfico no qual narra a ausência de identidade pessoal em uma  juventude sem rumo,  em razão do período sombrio que passara a Alemanha no fim do século 19 e princípio do século 20. Sua correspondência com autores que traduziu forma um legado precioso, que dará grossos volumes quando publicada e ajudará a compreensão de sua obra.  
           A orquestração do destino quis que Curt Meyer-Clason  ficasse notabilizado como tradutor. Ele foi  o maior divulgador da literatura brasileira, portuguesa e latino-americana na Europa, tendo começado suas atividades de tradutor logo após a  Segunda Guerra Mundial. A lista completa de autores consagrados que traduziu  ultrapassa mais de 150 títulos. Esse construtor de pontes literárias traduziu para o alemão obras seminais e, entre elas,  “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez.
Seus ancestrais pertenciam à nobreza. O pai era oficial no exército prussiano. Depois de completar o ginásio em Stuttgart,  Curt   Meyer-Clason  matriculou-se numa escola de co­mércio. Focado no desejo de exercer a vida no comércio,  seguiu para o norte da Alemanha. Em Bremen encontrou trabalho numa firma americana que atuava no ramo de importação de algodão e tinha filial em Le Havre. O jovem empregado havia aprendido  a “classificar algodão” e nessa época  já do­minava o inglês e o francês. Isso lhe deu  condições de se tornar   o  encarregado  da correspondência da empresa. Nesse  tipo de trabalho teve a oportunidade  de viajar   com frequência entre Bremen e Le Havre.  A empresa enviou-o ao Brasil onde passou a  trabalhar em São Paulo como “controlador de algodão”. Nesta função conheceu os mais importantes portos brasileiros, além de passar longos períodos na Argentina.

  Radicou-se em Porto Alegre onde  dirigiu uma empresa fabricante de móveis. Em pouco tempo se tornou  pessoa conhecida  na sociedade local. Desfrutava os prazeres que seu novo ambiente oferecia. Era jovem e atraente.  Possuía um automóvel conversível, o que era raro em sua idade e  uma prova de seu reconhecido status. Mais tarde, em uma de suas entrevistas, Meyer-Clason, referiu-se àquela época, dizendo: “Naqueles tempos eu era um dandy. Adorava três coisas: moças bonitas, gravatas e tênis”.

            Do lado de lá,   a Segun­da Guerra expandia-se, o bem e o mal coexistiam  numa vizinhança das mais imprevisíveis quanto mais niilista. O mal não tinha  limite.  Corpos de pessoas eram  usados para experiências absurdas. Almas  sem clamor e pequenos corações  viviam  aterrorizados sob a expectativa de que só iriam  sair dos campos de extermínio  pela chaminé reduzidos a cinzas. Sirenes, bombas, torpedos. Explosões, crateras, escombros. Na  enchente a morte. Tudo acontecia  de maneira imperturbável. A fera ressurgia da antiga caverna para galopar nas trevas. Não concedia a trégua com suas manadas  do terror.  A vida não tinha qualquer possibilidade numa condenação sem sentido. Muita gente morta, pessoas enforcadas, mutiladas,  queimadas.
         Do lado de cá,  Getúlio Var­gas procurava se situar   entre os blocos inimigos, que mantinham acesa a guerra em seus passos devastadores.  Curt Meyer-Clason foi acusado de espionagem a serviço do governo nazista de Hitler.  Foi preso pelos algozes do Estado Novo e  condenado a 20 anos de prisão . Passou cinco anos no presídio de Ilha  Grande, no Rio de Janeiro. Foi quando  o tempo parou para ele enquanto na Europa  mi­lhões de ho­mens da mesma ida­­­de se matavam, mutuamente, sem qualquer tipo de  remorso, numa incrível capacidade de resistência.
       Um companheiro de prisão, o barão Gerhard von Klein, alemão poliglota e muito culto,  despertou  em Curt Meyer-Clason o interesse pela leitura. Assim tinha início sua  grande viagem pelo universo dos livros.  Lia tudo que caía em suas mãos para entender melhor o mundo.  Rilke, Thomas Mann, Friedell,  Mon­taigne, Pascal, Pro­ust, Bernanos, Berdjiajew, Bu­­ber, os grandes romancistas  russos e autores brasileiros. Na medida em que viajava  em companhia de grandes autores, ia pulsando dentro dele outro homem.
        Posto em liberdade estabeleceu-se no Rio de Janeiro. Foi trabalhar no comércio de compensação alimentícia. Exportava madeira de pinho e importava  uísque escocês.   Em 1954, de­pois de 17 anos no Bra­sil, regressava  à Alemanha, fixando residência em Munique. E lá, em seu chão de origem,  começou a  trabalhar como revisor para várias editoras. Nessa época, como visitante, passou a freqüentar o  Consulado Geral do Brasil,  para onde se dirigia constantemente. Com  certeza para matar a saudade que sentia do nosso país. Como deveria acontecer,  não demorou e   foi sendo solicitado para trabalhos de tradução. Assim foi que nasceu a idéia  e tomou corpo  seu desejo de levar para a  Europa através da literatura a forma de vida latino-americana .  Começava então seu longo e firme  processo existencial de traduzir para o alemão obras do espanhol, português,além de francês  e inglês.
           Curt Meyer-Clason permaneceu em Munique até 1969. Nessa parte do tempo,  já havia traduzido Gabriel García Márquez, João Guimarães Rosa, Juan Carlos Onetti, César Vallejo, Augusto Roa Bastos, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e outros autores importantes da literatura latino-americana. Tornara-se figura respeitada nos círculos editoriais e culturais da Alemanha.  Paralelamente ao seu trabalho de tradutor,  mantinha estreito contato com quase todos os autores da América Latina vivos.  
           Em 1969  recebeu o convite para assumir o cargo de  diretor do Instituto Goethe de Lisboa. Permaneceu nessa  função até ocorrer sua aposentadoria em 1976. Nesse tempo,  Portugal ainda vivia sob a influência dos anos da ditadura de  Salazar, que deixara o governo por questões de saúde, em 1968. Seu sucessor, Marcelo Caetano, seguiria  a mes­ma linha política de repressão salazarista.  Os meios de comunicação eram controlados pela maquina opressiva estatal   de um  governo ditatorial. À maneira própria de um  intelectual idealista,  sem se intimidar com o patrulhamento ideológico e repressivo do governo português, Curt Meyer-Clason transformou o Instituto Goethe de Lisboa “nu­ma porta aberta para a Eu­ropa”. A sede do Instituto servia como um oásis e  ponto de encontro para escritores, representantes da intelectualidade portuguesa e dissidentes de todas as correntes políticas.
Convidava autores e intelectuais alemães para encontros com autores portugueses.  Wer­ner Herzog, Peter Weiss, Walter Jens, Martin Walser, Gün­ther Grass, Heinrich Böll, Hans-Mag­nus Enzensberger e o austríaco Tho­mas Ber­nhard são apenas alguns dos ícones  da cultura alemã que visitaram  Lisboa naquela época. Com uma companhia teatral de Lisboa, Meyer-Clason produziu apresentações do dramaturgo alemão Bertholt Bre­­cht na capital lusa.  Sempre  ajudava  au­­tores portugueses, como Miguel Torga, José Sara­mago e António Lo­bo Antunes,  a encontrar editoras para lançamento de  suas obras na Alemanha.
 Curt Meyer-Clason tornou-se personalidade  cultural de primeira linha  em Portugal, uma pessoa muito estimada nos meios intelectuais locais.  Quando circulou a notícia de que deixaria a direção do Instituto Goethe houve de pronto uma reação contrária entre os intelectuais locais. Foi iniciada uma campanha na mídia portuguesa, liderada pelo romancista António Lobo Antunes, com vistas à permanência dele. Ressalte-se que na relação dos  autores portugueses que traduziu  para o alemão figuram  Eça de Queirós, Camilo Castelo Bran­co, Miguel Torga, Fernando Na­mora,  Al­meida Faria, Urbano Tavares Ro­drigues, Jorge de Sena, Eugenio de An­drade e Sofia de Mello Brey­ner-Andresen. Editou também antologia  de contos e poemas.

      Em 1976, mais  uma vez regressava a Munique. Dessa vez para se dedicar, em tempo integral, ao trabalho de tradutor e à escrita de seus  textos e ensaios. 

 Além dos autores portugueses e brasileiros, já citados,   outros ficcionistas e poetas brasileiros e latino-americanos  foram  traduzidos por Curt  Meyer-Clason:  Adonias Filho,  Mário de Andrade, Jorge Luis Borges, Ignácio de Loyola Bran­dão, José Cândido de Carvalho, Rubén Darío, Autran Dourado, Ferreira Gullar, Clarice Lispector, Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Gerardo Mello Mourão, Pablo Neruda, Darcy Ribeiro, João U­baldo Ri­bei­ro, Augusto Roas Bastos,  Fernando Sabino,  José Sarney, César Vallejo,  Octávio Paz e Cyro de Mattos.

Causa  espanto como ele, já tradutor de inúmeros escritores da literatura, brasileira, portuguesa e latino-americana,  ainda conseguiu traduzir   autores de outras nacionalidades, do porte de   Louis Baudin, Brendan Behan, Isaiah Berlin, Erich Blau, Alphonse Boudard, Geoffrey H.S. Bushnell, Alfred Chester, Antonio Di Benedetto, Jean Descola, José Gorostiza, Bernard Gorsky, Ronald Hardy, Alan Harrington, Sean Hignett, Martin Buber, Alberto Moravia, Luc Stang,  Vladímir Nabókov e Henry Rothe Em alguns casos  traduziu mais de  um livro de cada autor.

        Certa vez perguntaram-lhe se ele teve muita dificuldade para  traduzir Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Respondeu que tra­duzir o Grande sertão: Veredas  para o alemão é mais ou menos como traduzir o Ulisses, de James Joyce.  O que ajudou no  êxito do projeto  é que Curt Meyer-Clason  era amigo de João Guimarães Rosa. Durante  anos manteve  correspondência com o escritor mineiro.  Foi-lhe  possível assim resolver as partes mais difíceis da tradução  com o auxílio do próprio autor. Trocaram   mais de 500 cartas. Ele  apresentava as questões, formulava as perguntas e o  romancista  respondia apontando as soluções cabíveis.
Nessa condição,  Guimarães Rosa foi  a Munique várias vezes para  discutir com ele  os termos e as passagens mais complicadas da obra. Chegava a permanecer  de três a quatro semanas. Regressava ao Brasil para retornar algum tempo depois.  Às vezes, tradutor e autor traduzido  discutiam  dias, com vistas a  encontrar a expressão  certa ou adequada de um só vocábulo, que, muitas vezes, nem estava registrado no dicionário. Muito  facilitou no  trabalho árduo  o fato de João Guimarães Rosa ter sido poliglota. Falava fluentemente vários idiomas, inclusive o  alemão, que aprendera durante o período de 1938 a 1942, quando  fora cônsul-geral do Brasil, em Hamburgo. Esse mesmo método de trabalho João Gui­marães Rosa manteria posteriormente com os seus tradutores italiano e americano.
Este articulista teve a honra  de ser   traduzido por Kurt Meyer- Clason. Enviei primeiro para ele  o  livro Vinte poemas do rio e recebi de volta   vários poemas traduzidos e na sua carta a seguinte opinião: Li e reli seus poemas com os sentidos encantados e admiração pelo seu talento mágico. Nunca pensei que um pequeno livro de um poeta do interior baiano fosse sensibilizar o consagrado tradutor de João Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Márquez.  Animado, enviei  depois o Cancioneiro do cacau, livro  que havia recebido   o Prêmio de Poesia Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores (Rio), o Segundo Prêmio Internacional Maestrale Marengo  d’Oro,  em Genova, Itália, o  Terceiro Prêmio de Poesia Emílio Moura, da Academia Mineira de Letras, e foi finalista do Prêmio Jabuti. Com muita alegria  recebi  dele outra carta fazendo elogio ao livro e ainda  vários poemas traduzidos.
 Foi assim que mantive correspondência com o  notável tradutor alemão  por mais de seis anos.   E tive o privilégio de ter dois livros meus traduzidos por ele: Canto a Nossa senhora das Matas, (Gesang Auf Unsere Liebe Frau von Den Wälden), editado pela Fundação Casa de Jorge Amado,  Salvador, e  Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte (Vinte Poemas do rio e outros poemas),  publicado na Alemanha, pela Projekte-Verlag,  de Halle.   Guardo como um tesouro raro a correspondência que mantive com Curt Meyer-Clason . Pretendo publicar um dia.
        Curt Meyer-Clason, este alemão carismático,  que seduzia a plateia  de professores universitários, escritores, jornalistas, estudantes e leitores quando discorria,  durante horas,  acerca de autores e temas da literatura brasileira, portuguesa e latino-americana,  é incomparável como construtor de pontes literárias entre vários países. No século vinte nenhum outro divulgou tanto e com tamanha eficiência a literatura brasileira na Europa. No Brasil ele recebeu algumas merecidas e altas distinções:  Medalha de Ouro Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, Membro-Correspondente da Academia Brasileira de Letras,  a Ordem Cruzeiro do Sul e o Prêmio  Biblioteca Nacional.  Na Europa foi agraciado com o Prêmio de Tradutor da Academia Alemã, para Poesia e Língua,  e com a Grã-Cruz de Mérito da República Federal  da Alemanha. Em Portugal  foi integrante da Associação dos Es­critores Portugueses.
          Foi um entusiasmado defensor  do Brasil. Não se tornou rancoroso nem guardou  ressentimento pelos anos  difíceis que teve no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Esse tradutor admirável, conhecedor profundo e  intenso  da literatura brasileira  faleceu em janeiro deste ano, de 2012, em Munique, aos 101 anos de idade.


                                    Referências Bibliográficas

MATTOS, Cyro de. Canto a Nossa senhora das Matas (Gesang Auf Unsere Liebe  Frau Von Den Wäldern), tradução Curt Meyer-Clason,, Fundação Casa de Jorge Amado, Casa de Palavras, Salvador, 2004.
-------- Zwanzig Gedichte  von Rio und andere Gedichte (Vinte poemas do rio e outros poemas),tradução Curt Meyer-Clason, Projekte-Verlag, Halle, Alemanha, 2010.