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terça-feira, 9 de maio de 2017

                 
                  Eduardo Portella: Pensador da Cultura
                                                      
                                       Cyro de Mattos
  
          Eduardo Portella  era um desses intelectuais atuantes que argumentava com lucidez sobre assuntos de nossas letras e cultura. Graduado pela Faculdade de Ciências Sociais e Jurídicas da Universidade Federal de Pernambuco. Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro,  lecionou até os últimos dias de vida. Ministro da Educação no  governo do Presidente João Figueiredo, lutou pela anistia, foi demitido por ter  dado apoio à greve dos professores  universitários.
 Seu discurso de vida dirigiu-se para os parâmetros de um humanismo solidário com base na ordem da verdade. Foi interditado por aqueles que pensam ser suficiente para valer na dotação humana   o poder que você exerce com o cargo. Dele é a célebre frase: “Não sou ministro, estou ministro”, para afirmar com isso, no tácito entendimento da palavra enunciada, que tudo é transitório ante o eterno que fica.
.    Crítico, pesquisador, conferencista, editor, advogado e político brasileiro. Ocupou a presidência da Conferência Mundial da UNESCO. Foi   diretor das  Edições Tempo Brasileiro, divulgando Heidegger no Brasil e o Formalismo Russo de Yuri Tynianov. Membro titular da Academia Brasileira de Letras, recebido por Afrânio Coutinho.  Naquela instituição recebeu João Ubaldo Ribeiro, Lígia Fagundes Telles e  Zélia Gattai.
          Propôs um método crítico de base hermenêutica, teórica e filosófica. Sem inclinações para a interpretação da obra literária com base na inserção de autor e obra nos  períodos históricos, nem decorrente de gratuitas impressões sobre a massa do que foi escrito,   mas em função do estilo em que o autor se funda e marca sua obra  na expressividade da escrita, tanto na forma  como no conteúdo.  Esteve  à frente dos níveis usuais,  sendo o responsável pela introdução da análise estilística nas letras brasileiras. Filtrou os pressupostos, métodos  e ferramentas dos espanhóis Carlos Bousoño  e Dámaso Alonso, propondo  o julgamento como ato final na análise  literária   após a captura do fundamento  que transita  entre linguagem e uso da língua, responsável pela literariedade. Este fundamento é a visualização do entretexto.  Sua tese de doutorado foi  publicada sob o título Fundamento da Investigação Literária (1973), refundida em 1974. 
        Deixou um legado constituído de 23 obras e, entre elas, Dimensões I (1958), Dimensões II (1959), África colonos e cúmplices (1961), Literatura e realidade nacional (1963), Dimensões III (1965),  Teoria da comunicação literária (1970), Vanguarda e cultura de massa (1978) e A Sabedoria da Fábula (2011). Recebeu prêmios literários  e títulos honoríficos de muito prestígio, como Gran Cruz de la Orden del Mérito Civil, Madri (2001), Doutor Honoris-Causa, Universidade Federal da Bahia (1983), Gran-Cruz de la Orden Civil de Alfonso X, el Sabio, Madri (1980), Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco, Brasília (1979).   
     Aprendi muito com ele.  Acompanhou  minha carreira literária desde o nascimento, há cinqüenta anos. Prestigiava-me. Prefaciou meu livro Cancioneiro do Cacau, que me deu  quando inédito o Prêmio Nacional  de Poesia Ribeiro Couto da União  Brasileira de Escritores (Rio) e, quando   publicado,  o Segundo Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália,  o Terceiro Prêmio Nacional de Poesia Emílio Moura da Academia Mineira de Letras e foi finalista do Jabuti.
      É dele essa observação sobre o livro:
         “ Mas o seu poema  não irrompe de qualquer abalo sísmico, ou de qualquer intempérie facilmente previsível. Ele eclode da história revigorada, nasce do fundo do homem  e das coisas, da sua raiz em curso, da origem protegida  do menor sedentarismo... Cyro de Mattos se compraz em revalorizar a raiz, e reverenciar a origem, em reconhecer  o fundamento   radicalmente imune  ao fundamentalismo. O poeta enraizado e, no caso, porque enraizado, generoso, recorda para a frente.  Como quem retira dos filtros do passado,  e dos detectores de metais do presente, lições,  mesmo que enviesadas, para a construção do amanhã.” 
         Que melhor prêmio poderia receber autor e obra do que essa opinião do enorme ensaísta? Humanista, leal, elegante, sóbrio, companheiro, intelectual de primeira grandeza. A última vez que estive com ele, na Academia Brasileira de Letras, quando fui proferir  palestra sobre os mares trágicos de Adonias Filho, disse-me que estava escrevendo um livro sobre Adonias Filho e outro sobre Jorge Amado.                
         Baiano de Salvador,  nascido em 8 de outubro de 1932, Eduardo Portella passou desse plano terrestre para outra dimensão no  dia 2 de maio deste ano.


segunda-feira, 1 de maio de 2017



II FESTIVAL LITERÁRIO DE ILHÉUS (26.04.2017)

Palestra de Florisvaldo Mattos


Nesta navegação de longo curso para uns e curto para outros, que é o ato de publicar livros, acabo de lançar o meu oitavo livro de poesia, portando 97 inéditas elocuções de fundo lírico e outras tinturas que namoram afoitamente o épico. Embora a idade não me justifique, sou de publicar livros minimamente, quase esporádicos. Depois de Poesia Reunida e Inéditos, em 2011, e Sonetos elementais, em 2012, resolvi invocar novamente a paciência dos meus raros leitores com novo volume de versos, intitulado Estuário dos dias e outros poemas, fruto dessa longa, porém magra aventura editorial.

Há poucos meses, postando eu alguns inéditos na internet, o poeta Antônio Brasileiro, um dos astros da geração posterior à minha, externando a cordialidade e a generosidade que lhe favorece o recanto bucólico onde vive, em Feira de Santana, sua pátria sertaneja, dizia-se surpreso de meu desígnio em não me afastar por completo da poesia.

        - “Oitentão que é, isso é mais que admirável” - espantava-se ele.

Perdoando-lhe o excesso, curvei-me, sensibilizado, diante da bem-humorada gentileza, ao ver ali quase repetir-se atitude benigna de Jorge Amado, 61 anos antes, quando publiquei Reverdor, meu primeiro livro, ao confessar, em comentário lido durante sessão da Academia Brasileira de Letras, quão contente se sentira com a descoberta, segundo ele, de um poeta e uma poesia, num tempo “de tanta facilidade e tamanho engano de rapazes tão sem verdade e sem força de criar”.

Não sei se o futuro absolveu a opinião do grande romancista, para muita honra meu conterrâneo grapiúna. A sorte fora lançada.
Ao longo da vida, tenho sido mesmo um tanto avaro em publicar, tanto quanto em escrever literatura. Se cuidadoso na poesia, ainda mais o fui em relação a outros gêneros literários, pois, em prosa, só escrevi e publiquei um conto e uma peça de teatro, esta levada em 1974, no Teatro Vila Velha, em Salvador, pelo saudoso diretor Sóstrates Gentil, versando um tema alojado justamente na remota atmosfera de lutas de coronéis e jagunços em terras do cacau. Abri uma exceção, assim mesmo parca, apenas para a ensaística em literatura, arte e questões sociais.

Ultimamente, tenho me fixado mais na poesia, e em leituras e releituras do que me agrada. Ao longo do tempo, fui para com ela um tanto adúltero, escudado e insuflado por duas razões básicas: a primeira teve como marca indevassável o grau de autocrítica de que desde jovem me tomei, diante da ânsia de escrever o que pensava e sentia. Repetindo o argentino Jorge Luís Borges, creio que a poesia e o poema se apresentam ao poeta e ao mundo como uma forma de magia. Como ambos dependem da linguagem, casam-se pensamento e imagem por meio da palavra para alcançar a emoção, que é, por fim, o que aguarda o leitor, sem que com isso se despreze a forma.

Dizia Ezra Pound que a técnica é a prova da sinceridade de um poeta. Concordando com ele, tenho para mim que sinceridade e qualidade se completam no fazer poético.

A outra razão que me pôs a poesia em plano secundário foi o absorvente mergulho de 53 anos no exercício cônscio e fiel do jornalismo profissional, desde que, no mesmo dia da solene formatura em Direito, frustrando os sonhos de meu saudoso pai, um denodado comerciante que exercia seu oficio no fundo de matas e roças de Itacaré, eu já compunha a redação de um novo jornal, que surgira em Salvador, o Jornal da Bahia, optando por ser jornalista, como uma fatalidade, para toda a vida.

Por fidelidade a uma profissão, optei por ser, assim, durante anos, em matéria de poesia e literatura, embora persistente leitor, um quase criador secreto, desses que levam a vida esmerando-se em guardar o que escrevem, elegendo uma gaveta como o seu mais paciente e fidedigno leitor, ou como outros que se conformam, resignadamente, em publicar um único livro em vida, como foi o caso de um de nossos maiores poetas, nascido em Belmonte, mas por muitas décadas vivendo em Ilhéus, o saudoso Sosígenes Costa. Pronuncio esse nome e me vejo compelido a abrir um parêntese, para evocar e registrar quão proveitosa foi para mim, ainda jovem, a relação de admiração, aprendizagem e amizade que travei com Sosígenes Costa, nesta cidade, que, para ele, brilhava “qual grande búfalo fosfóreo”.

Completado o curso de ginásio, vinha eu de Itabuna, para atender a duas imposições do momento: prosseguir nos estudos e cumprir o serviço militar obrigatório. Foi quando, já escrevendo e publicando poemas, em jornais, mas de fundamento romântico e rabiscos parnasianos, colegas e amigos me advertiram da existência em Ilhéus de um dos maiores poetas da Bahia e, logo, me emprestaram uma antologia de poesia baiana, editada no bojo das comemorações do quarto centenário de fundação da Cidade da Bahia, que trazia poemas dele. Lendo-o, fiquei curioso e empolgado e, logo, também, ansioso por conhecê-lo.

Quero aqui apenas relembrar o que foram essas amenas tardes de frequência na plácida sala de trabalho de Sosígenes Costa, como secretário da Associação Comercial de Ilhéus, abrindo-me os horizontes não só para outras esferas da poesia nacional, especialmente o modernismo, como para a poesia em si, e quanto disso dependeram as minhas opções futuras, dele auferindo um rico e vasto cabedal de experiência e saber que me chegava por meio de lúcidas palavras.

Esses momentos de tranquila conversação com o bardo de Belmonte foram resumidos em um capítulo de meu livro Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, publicado em 2004. A título de reminiscência, aqui transcrevo parte dessa convivência, mostrando fielmente o que significou para mim dialogar com um grande poeta em carne e osso.

“Tímido, penetrava eu naquele edifício de sóbria arquitetura e arremedos neoclássicos da veneranda Praça Eustáquio Bastos, para visita-lo, e lá permanecia seguidas horas. Mostrava-lhe poemas que escrevera ou publicara no Diário da Tarde, onde me acolhia a generosidade quase paternal do jornalista Octávio Moura, então diretor do órgão que ajudou a construir e propagar o prestígio da região do cacau. Ouvia seus comentários, suas ponderações, transmitindo-me conhecimento da arte da poesia e, principalmente, fazendo-me perceber maneiras de como melhor trabalhar com o verso.”

“Alto, aprumado e hígido, sempre de terno e gravata, em sua poltrona, tranquilo e reservado, nessas ocasiões, Sosígenes mais parecia um sacerdote em trajes profanos, a discorrer pausadamente sobre literatura e poesia. Por uma janela, à minha esquerda, o frescor da brisa que vinha do mar em direção à praça invadia a sala, com os perfumes de um pequeno jardim, onde eu supunha cultivasse ele as rosas, os crótons e os antúrios que minha vista alcançava.”

"De quando em vez, animado pelo clima da conversa, meu interlocutor abaixava-se, abria uma gaveta à direita de sua escrivaninha e de lá arrancava maços de papel amarelecido e gasta datilografia, alguns em manuscrito, e lia belos sonetos, todos àquela altura inteiramente inéditos em livro, embora andasse o poeta beirando, em 1951, já então os 50 anos. E, com alento, completava a leitura, levantando-se e dirigindo-se à biblioteca que organizara para a entidade, mas, no fundo, sempre supus, para si próprio, e de lá vinha sobraçando dois ou três livros de arte ou história da arte, em cujas páginas se detinha, comentando reproduções de obras de artistas de diferentes estilos, escolas e épocas.”

“Perplexo e enlevado, com os poemas que ouvia e lia, em manuscritos ou datilografados, auferindo sua linguagem e força imagética, e, também, com os livros de arte, cujo conteúdo e aparência eram para mim novidade. Apreciava e dali saía convencido dos rumos que deveria seguir doravante, em matéria de poesia e literatura, bem diversos das oportunidades de leitura e estudo, que, até bem pouco tempo antes, tivera, a apenas trinta quilômetros de distância, na cidade de Itabuna, de prósperos comércio e vida rural, porém de quase nenhuma ilustração estética. Afora o esporte, presidindo ao princípio domens sana in corpore sano, a arte deveria ser algo estranho àquelas plagas de hábitos e costumes ainda rústicos.”

Aproveito para ler aqui um dos poemas dele, que constavam da antologia, justamente um dos emblemas de sua lavra poética, com a reiteração de versos, que é uma das marcas de sua criatividade, sem em nada prejudicar a expressão lírica, segundo o crítico José Paulo Paes, que editou sua obra completa, postumamente.

CREPÚSCULO DE MIRRA

Sosígenes Costa (1901-1968)

A tarde fecha a cintilante umbela.
Vêm os aromas como uma grinalda
ornar a sombra arroxeada e bela
e ungir os nossos sonhos de esmeralda.

Nuvens de mirra e oriental canela
formam na sombra a singular grinalda.
A tarde fecha a cintilante umbela
e o vento as asas do dragão desfralda.

A própria lua vem lançando aroma.
Nasce vermelha como a flor de um cardo
e sobre a mirra dos vergéis assoma.

E a noite chega no seu grifo pardo,
cheirando a incenso como o rei de Roma
e como Herodes recendendo a nardo.

(1927)

Após as obrigações de estudo e serviço militar, parti para Salvador com a mente prenhe de novas ideias e aspirações, e o corpo tomado de ânimos. E foi quando, após algum tempo, já na universidade, me engajei nas aspirações estéticas e vivenciais do grupo que iria depois chamar-se Geração Mapa, publicando poemas inicialmente na então aclamada revista Ângulos, produto das lucubrações estéticas do que restava do movimento Caderno da Bahia (1948-1955), que vigorara na década anterior, e também em jornais.

Esse movimento, cujo nome advinha da revista intitulada Mapa, que passou a editar, tinha como proposta básica consolidar o que não conseguira a geração anterior, que era, além de romper com a inércia cultural, cevada na renitência do conservadorismo, varrer, de uma vez por todas, o bolodório e o preconceito vigente contra a arte moderna, tendo como baliza a nova realidade nacional e internacional, defrontada com o esmaecimento dos reflexos do pós-guerra mundial e surgimento de um novo patamar na condução dos conflitos entre países. O mundo se pautava agora pela Guerra Fria, no confronto entre Estados Unidos e União Soviética.

Diferentemente de movimentos anteriores, o grupo de Mapa se abria também, sob a liderança de Glauber Rocha, para outras amplitudes, pois, além de poesia, literatura, artes plásticas e jornalismo, cultivava outras linguagens artísticas, como cinema, teatro, dança, editoração e arquitetura, e com esse fôlego firmou-se no cenário cultural baiano, mergulhando, com ações, criações e posturas, na caudal impelida pelas reformas que a administração do reitor Edgar Santos, então, fins dos anos 50, inícios dos 60, imprimia na Universidade da Bahia, possuindo contornos de uma verdadeira revolução cultural.

Atuando em várias frentes, além da revista Mapa, o grupo criou seu próprio selo editorial, as Edições Macunaíma, que publicava livros, álbuns e plaquetas;  fundou uma companhia cinematográfica, a Iemanjá Filmes, que abriria caminho ao movimento do Cinema Novo, projetando-o nacionalmente, em ousado e fecundo processo que desaguaria na realização de filmes paradigmáticos, como Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha, já antes autor do longa Barravento e do curta O Pátio; assim como outras realizações de destaque neste segmento cultural, entre as quais o documentário Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares, que escreveu também uma peça de teatro, Evangelho de Couro, versando sobre a tragédia de Canudos, marco e exemplo do apoio e incentivo do grupo ao pioneirismo vitorioso da Escola de Teatro da Universidade da Bahia. No campo das artes plásticas, organizou exposições de pintura, escultura e gravura, não só de seus próprios artistas, como de outros, contribuindo para o incremento não só do mercado de arte como para o surgimento de várias galerias de arte em Salvador.

Hoje, confesso sentir imenso orgulho por pertencer a esta geração, cujo início de atividades dentro da cena cultural baiana completa redondos sessenta anos, neste 2017, com os espetáculos de poesia teatralizada levados no auditório do Colégio da Bahia, as chamadas Jogralescas, que açularam os ânimos, tanto de progressistas, como também os de espíritos ainda presos a um passado, que desejavam jamais devesse passar.

Direi algumas palavras sobre esta minha magra trajetória editorial.
Meu primeiro livro, Reverdor, publicado em 1965, por incentivo e empenho de companheiros de geração compreendia uma coletânea de poemas em que eu advertia de entrada que tinham sido reunidos para publicação, “tendo em vista uma unidade temática de base agrária”, querendo com isso transmitir a ideia de que a poesia deveria se distanciar das angústias, tormentos e atribulações urbanas, buscando purificar-se com o que emanava da vida rural e atividades agrárias. Estava imbuído da ideia de que a vida urbana começava então a ser fonte de perturbações mentais, mais apropriadas ao tratamento psicanalítico. As palavras deveriam transmitir um estado de pureza na formulação do poema. Com isso, deixei de fora poemas de produção anterior, que só iriam aparecer como parte de um terceiro livro, sob o título de Noticiário da aurora.
Leio um poema deste primeiro livro.

A CABRA

Talvez um lírio. Máquina de alvura
sonora ao sopro neutro dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és já me tortura
guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.

Máquina e jarro. Luar contraditório
sobre lajedo o casco azul polindo,
dominas suave clima em promontório;
cabra: o capim ao sonho preferindo.

Sulca-me perdurando nos ouvidos,
laborado em marfim – luz e presença
de reinos pastoris antes servidos –

teu pelo residência da ternura
onde fulguras na manhã suspensa:
flor animal, sonora arquitetura.

(1965)

No segundo livro, Fábula civil, de 1975, opera-se um salto, impulsionado pelo cenário de trevas e opressão que se estabelecera no país, sob o guante da ditadura, instalada em 1964. Não havia então outra saída. Espelho de uma realidade pulsante, mas embebida no martírio, a poesia irá refletir o que a censura permitiria perceber-se, pela voz da mídia e pelo trânsito dos assombros, projetado eficazmente no espaço urbano, prevalecendo uma entonação entre o dramático e o épico, mas sem perder de vista a pulsão lírica, em versos medidos e formas fixas. E, como em todos esses casos, a construção poética se funda mais no alusivo do que no descritivo, num jogo de equivalências intuitivas, por se tornar o poeta uma soma das contingências em que se misturam o tempo, a terra e as gentes.
Leio o poema que inicia Fábula civil.

CLARO
           
Pelas tardes de fogo homens
pedras movem com capacetes
de sombra mergulhados
em ruas de verão e sal.

Nada me diz que as coisas
se passam como me dizem
além
da parede de vidro que nos divide
aquém
das algemas de sono que nos unem.

Sou como posso fiel
a meu projeto mesmo
que de pronto não o achem
meus olhos – anônimos
minhas mãos – rachadas
meus lábios – rebeldes

nos espaços burocráticos
nas relações de amizade
nos desertos duros da fome.

Liberdade é meu ser
e tempo. É o meu nome.
Razão – o meu sobrenome.

(1975)


O terceiro livro, A caligrafia do soluço e poesia anterior, só aparecerá quase 20 anos depois, em 1996, sem perder de vista a memória de tempos sombrios e as experiências amargas, mas com a inclusão de poemas publicados anteriormente que lhe conferiam uma atmosfera de animação e esperança.

Mares anoitecidos, meu quarto livro de versos, cuja publicação em 2000 integrou a série de iniciativas editoriais voltadas para os 500 anos do Descobrimento, reúne poemas de conotação dramática e histórica, centrados no princípio de inspiração clássica de que há mais poesia na história dos vencidos, isto é, na tessitura de um malogro, do que nas alegrias e fosforescências dos vencedores. Então, preferi ver o episódio que marcou dramaticamente a história da Bahia, nos anos 1624 e 1625, mais pelos olhos dos derrotados e expulsos holandeses que dos vitoriosos portugueses, situação que, a meu ver, na época, não apresentava diferença, desde que os portugueses, antes, tinham sido também invasores da chamada Terra Brazilis.
Leio um poema de Mares Anoitecidos.

ROCHEDOS

Meu coração agora te pertence
lua que vaga sobre esses rochedos,
eles mesmos reflexos de longínquos
muros, agora esfinges a espreitar
distâncias, a arrimar arquitetura
nostálgica de cercos, a exumar
brasão latino ou artifício mouro.
Meu coração agora vos pertence,
graves rochedos, arsenal de fúrias,
que são artes do tempo, vosso algoz:
em quieta hora da tarde ou noite morna,
decreto imemorial que a espuma lavra,
a ruína e morte, e a solidão, alude
o som da água que ruge a vossos pés.

(2000)

Em 2001, publiquei uma antologia intitulada Galope amarelo e novos poemas, para em 2011 dar a público Poesia Reunida e Inéditos, em volume de quase 400 páginas, a que se seguiu o de Sonetos elementais – Uma antologia, em 2012, e, por fim, agora, Estuário dos dias e outros poemas.

Creio que devo referir-me um pouco a esses meus exercícios de magia verbal. Sempre escrevi poesia, além das cogitações que me são próprias, à luz de grandiosos exemplos, na presunção de que, manejando com palavras, o poeta não pode dispensar o som e o ritmo, que lhes são próprios; e por isso ainda vejo como não superada a recomendação de Ezra Pound de que o poeta, além da obrigação de ir direto ao objeto cogitado, deve inundar seu enunciado de palavras carregadas de significado, eliminando todo e qualquer elemento supérfluo, sem descuidar-se da cadência musical. Isto é, para mim, a ressonância de advertência contida em verso famoso do francês Verlaine, - “de la musique avant toute chose” (“a música antes de tudo”). Dentro dessa moldura, ouso defender que a elocução em poesia é basicamente rítmica, com uma inclinação para o musical, no encadeamento e na entonação das palavras.

Em relação a meu último livro, Estuário dos dias e outros poemas, constituído em grande parte de poemas lavrados em versos decassílabos, gostaria de transcrever palavras da apresentação, que lhe fiz, em muito justificadoras de meu processo criativo, que consiste em escrever versos sempre levando em conta o som e o ritmo das palavras.

“Embora possa a muitos parecer uma excentricidade ou, talvez, uma nostalgia de abominado rastro parnasiano-simbolista, considero-o uma espécie de tributo à forma, pois alimento intimamente a convicção de que, originário da Itália, foi o verso decassílabo que civilizou a poesia, não apenas a portuguesa ou a hispânica, mas ocidental. Dentro do universo lusófono, este verso possui extraordinária longevidade, desde o momento em que Sá de Miranda, numa época de sagas cavalheirescas, voltando de uma temporada na Itália (1521-1526), introduziu a forma do soneto em Portugal e trouxe o decassílabo como seu leal escudeiro.”

A esse respeito, subscrevo o que diz o excelente jornalista e ensaísta João Carlos Teixeira Gomes, meu companheiro de geração e confrade na Academia de Letras de Bahia, por sinal, também poeta e exemplar sonetista, que classifica, em recente livro, este consagrado verso como “um operador poético poderoso”, pelo tanto que possui de “harmonioso e melódico”. E assim o justifica: “No restrito espaço das dez sílabas, o decassílabo se expande na direção de um universo de modulações rítmicas e melódicas que parecem infindáveis”.

No encerramento desta minha fala, quero ler um poema ainda inédito, que, no fundo, é o modo com que procuro me redimir de, tendo escrito poemas de fundo memorialístico em homenagem a Uruçuca e a Itabuna, jamais ter escrito um que reverenciasse a cidade de Ilhéus, onde vivi e tive momentos de alegria e felicidade juvenil. Pode parecer um chiste, mas o fato é que, lendo eu um poema de Ruy Espinheira Filho, deparei-me com uma estrofe em que ele invocava a sua memória juvenil, lamentando nunca ter ido à praia, nem tampouco visto o mar. Tão íntima confissão me tocou e, então, escrevi um poema celebrando o momento em que Ilhéus me proporcionou ver pela primeira vez o mar, aos 12 anos de idade.
Ei-lo, construído em sétimas e versos de sete sílabas.

A DESCOBERTA DO MAR

                                     Não, não íamos à praia.
                                    (...)
                                    Pois é, também não víamos o mar
                                    E as lagoas não compensavam.
                                                           (Ruy Espinheira Filho)

Eu também não via o mar.
Via o ribeirão e o brejo.
Vi depois um manso rio,
Onde aprendi a nadar.
Sonhava noites a fio.
No fundo havia o desejo
De sair e ver o mar.

Foi graças ao trem-de-ferro,
Que um dia parou na praça,
Com intenção de me lançar
Por um caminho sem erro,
E me levou para o mar.
Até me dava de graça
O contrário de um desterro.

Falam mais alto o meu sonho
E toda a minha alegria,
Com gosto de navegar.
Levei um susto medonho,
Tamanho mesmo do mar;
Com cores de epifania,
Era maior que o meu sonho.

Meu pai levou-me a um bar,
Que não comporta miçanga
(Ardente nome: Vesúvio!),
Um éden diante do mar.
Corre pelo ar um eflúvio,
Traço um sorvete de manga,
Satisfaz-me o bom-mirar.

Vastidão de azul e verde,
A se perder no horizonte,
No rastro de branca espuma!
Quanta alegria em se ver
De longe o quanto se esfuma,
Qual doce correr de fonte!
Na vida quanto se perde...

Um dia escrevi louronda,
Palavra de amor concreto,
Em folha depois sumida,
Na esteira de doida onda.
Uma lição para a vida:
Hoje sei em que dialeto
Um dia escrevi louronda.

Água, terra, fogo e ar,
Trouxe ao menino a ciência,
E muito mais. Quando busco
Uma rima para mar,
Seja aurora ou lusco-fusco,
Cá me diz a experiência:
Não há melhor do que bar.

                    

domingo, 16 de abril de 2017

                    



                         Páscoa
                       
Cyro de Mattos
      
Pai salvador,
Misericordioso,
Toca no meu peito
O sofrimento teu.
               
 Fadiga, sede, fome.
 Cuspe, espinho, sangue,
Chicotada, prego, 
Madeira feita cruz.

Meu Pai,  perdoai
Os pecados meus. 
Não sei o que faço
Com tanta rejeição.

Vinde clarear  
Meus cegos passos
 Amarrados sempre
Nesses ímpios nós. 

Sei que não mereço
Um grão dessa luz
Que ilumina o perdão
Do filho de Deus.

Ainda assim dizei
Apenas  uma palavra
Que serei um pássaro
Solto da garganta.

 O bico desfiando
A divina experiência
Sem os cravos da dor

Que Te  ofendeu.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

                          


                         Semana Santa

                     Cyro de Mattos


Todos os santos na igreja eram cobertos com um pano roxo na Semana Santa, menos Jesus Cristo. Era proibido comer carne vermelha e beber leite. A refeição matinal era com café e pão. À noite,  a refeição era a mesma. Ainda bem que tinha um pouco de arroz e peixe no almoço. Achava sempre um jeito de chupar uma manga, um pedaço de melancia ou laranja para tapear a barriga e não sucumbir à fome. Fazia isso com cuidado, sem que minha mãe  soubesse. Ela dizia que as  pessoas   deviam jejuar na Semana Santa, em sinal de amor e respeito à morte do Cristo. O jejum era só naquela semana,  passava logo, ninguém ia morrer por isso.
            O comércio cerrava as portas na quinta e sexta-feira. Ninguém trabalhava nesses dias. A mãe  falou que um homem entendeu de tirar leite da vaca  na Sexta-Feira Santa para tomar no café da manhã. Quando ele começou a puxar as tetas da vaca, só saía sangue em vez de leite. Aquilo era um sinal do céu para que o homem respeitasse o dia em que Jesus Cristo, o bem-amado salvador da humanidade, foi crucificado sem piedade pelos homens.
            Parecia que toda a cidade amanhecia vestida de roxo na Semana Santa, principalmente na Sexta-Feira. Assistia ao filme sobre a vida, paixão e morte de Jesus Cristo  na matinê da Quinta-Feira Santa do Cine Itabuna. As pessoas saíam cabisbaixas  do cinema quando o filme acabava. Ninguém se conformava com o que fizeram com Jesus, que foi coroado com uma coroa de espinho, depois de ser cuspido e chicoteado. Para não se falar na cruz pesada que o pobre coitado carregara  pelas ruas. Não satisfeitos com tanta judiação ainda pregaram o filho de Deus  na cruz  de maneira cruel. Em vez de água, quando Ele pediu, deram vinagre e, por último, enfiaram uma lança no coração.  Era demais o sofrimento de Jesus,  muita gente chorava.
            E tudo por causa do Judas, que traiu Jesus por um saquinho de dinheiro em moedas. O Judas passava como um dos apóstolos de Jesus, mas se rendeu à tentação do dinheiro. Deu um beijo na face  para entregar o filho de Deus aos soldados romanos. Todo mundo se vingava do Judas quando no filme ele aparecia enforcado, o corpo do traidor balançando numa corda amarrada ao galho da árvore seca. Nessa hora o  cinema quase vinha abaixo com as vaias da plateia.
           Tinha uma sensação na procissão da Sexta-Feira Santa que tudo era pecado, dor e lamento pelo que fizeram a Jesus. A imagem de Nosso Senhor Morto era levada no andor pelas ruas  principais da cidade sob os cantos que falavam de pesares  e perdão:

                             Perdoai,  Senhor, por piedade,
                             Perdoai,  senhor, tanta maldade,
                             Antes morrer, antes morrer
                             Do que  Vos ofender...

            A tristeza estava nos ares por onde a procissão andava com o Senhor Morto,  as pessoas sofrendo pelas pedras do caminho. Gente acompanhava a procissão descalça para pagar alguma promessa em razão da  graça alcançada através da bondade do Cristo salvador. Dona Olívia, a mulher do dono do Hotel Itabuna, vestida num comprido vestido  roxo,  que tocava  os pés, os cabelos compridos caindo nas costas, fazia o papel de Maria Madalena. A matraca tocava, a procissão parava enquanto ela exibia  o rosto do Cristo no sudário..
            Numa voz doída, ela arrancava suspiros e lágrimas dos fiéis, calados, rostos contritos,  naquele trecho de rua em que a procissão parava.
                             
                           
                          Pai salvador,
                          Misericordioso,
                         Toca no meu peito
                        O sofrimento Teu.                  
                        Fadiga, sede,  fome.
                       Cuspe, espinho, sangue,.                   
                       Chicotada,  prego,
                       Madeira feita cruz,
                       Meu  Pai, perdoai
                       Os pecados meus.


.Naquele ano em que caiu uma chuva rala durante a procissão, usava as botinas novas que minha mãe presenteou-me no aniversário. A procissão voltava pela avenida do comércio depois de percorrer algumas ruas. A imagem de Nosso Senhor Morto já ia entrar na igreja para ser colocada no altar  quando a beata Detinha teve uma crise de nervos, chegando a desmaiar. O padre passou um pouco de água benta na testa da beata, rezou  e pediu  que os fiéis cantassem com fervor. Os cantos entoados na pequena praça repleta de gente acordaram a beata, que começou a chorar alto e ao mesmo tempo agradecer ao Jesus Salvador por ter ali mesmo perdoado seus pecados.
No dia de procissão havia tanta gente na igreja e na praça que uma agulha não cabia lá dentro nem no lado de fora.  As  botinas novas apertavam  os meus  pés. Então pedi à minha mãe que me deixasse ir embora para casa, não queria ficar para ouvir a fala do padre encerrando a procissão. “ Os calos estão doendo muito, não agüento mais”,  disse  aporrinhado, ameaçando chorar. Ela ordenou baixinho no meu ouvido que ficasse comportado, acrescentando que a procissão já estava chegando ao fim.
Preferi não obedecer minha mãe. Esperei que ela se ajoelhasse  com os demais fiéis na igreja para fazer a oração do creio-em-deus-pai, de olhos fechados, para apressado tirar  dos meus pés as botinas. Em casa disse à minha mãe que tinha resolvido agir daquela maneira para evitar que acontecesse comigo uma situação pior do que a da beata Detinha. Como ela, desmaiaria ali mesmo na igreja. Mas a água benta que o padre passaria na minha testa, as orações  e os cantos entoados com fervor pouco iriam adiantar para que eu não ficasse desmaiado durante muito tempo.
Claro que minha mãe compreendeu. Em vez de sermão, da sua voz bondosa escutei que eu não me preocupasse. Não ia calçar mais aquelas botinas apertadas. Mas muita gente reparou e achou que menino mimado daquele jeito não daria certo no futuro.  



sábado, 8 de abril de 2017

  



Descoberta de Castro Alves

                      Cyro de Mattos


Saltou do bonde na parada próxima ao Restaurante Cacique e Cine Guarani, com o firme propósito de conhecer aquele monumento de mais de dez metros, um homem lá no alto encimando o pedestal. Aquele homem de cabeleira negra e basta devia ser muito importante para que fosse homenageado em monumento tão grandioso.
 Atravessou a rua e se aproximou do monumento. O olhar curioso viu que em um dos lados estava um livro aberto  com um sabre atravessado, tendo em letras douradas os versos:  “Não cora o sabre do ombrear com o livro”. Em placa de mármore,  numa das faces da base, lia-se:  “A Bahia a Castro Alves.”
Aquela estátua de bronze  assentada no alto representava  um poeta, muito querido pelo povo baiano, estava ali na atitude de fala, de quem declamava, tendo a cabeça descoberta, fronte erguida, olhar perdido no infinito, chapéu mole de estudante à mão esquerda, braço direito estendido. De um lado da coluna, viu um grupo em bronze, representando um anjo em posição de voo, a levantar uma mulher escrava pelo braço, erguendo-a ao alto.  Viu também um casal de escravos.
Quem era esse poeta que a Bahia dedicava imenso amor? Lembrou da biblioteca da agremiação estudantil no Colégio dos Irmãos Maristas. E foi lá,  durante a semana, na hora do recreio, folheando o livro ABC de Castro Alves, de Jorge Amado, que ficou conhecendo a vida e a obra daquele grande poeta.
        Era um rapaz esbelto, que vivera pouco. Nasceu na fazenda Cabaceiras, próxima a Curralinhos, na  Bahia, em  14 de março de 1847. Tinha grandes olhos vivos, maneiras que impressionavam a quem o assistisse declamando versos de amor, às flores e em solidariedade aos escravos. Causava admiração aos homens e arrebatava paixões às mulheres. Seu estilo contestador contra a situação da escravidão dos negros na Bahia o tornou conhecido como O Poeta dos Escravos. Além de abolicionista exaltado,  foi um liberal atuante, que clamava  pela instalação da República no Brasil. Teve como colega Rui Barbosa no Colégio Abílio Borges, em Salvador, e na Faculdade de Direito do Recife. Faleceu aos 6 de julho de 1847, aos 24 anos, em Salvador, vítima de tuberculose.
          Depois de conhecer um pouco  a vida do poeta romântico, interessou-se por sua poesia. Foi ler, um a um, os livros desse poeta cantor do amor, da água, das pétalas, dos negros escravos e da liberdade. Publicara em vida apenas um livro: Espumas Flutuantes, em 1870. Seus outros livros,  A Cachoeira de Paulo Afonso, 1876 ,  Os Escravos, 1883,  Hinos do Equador, 1921, tiveram edição póstuma. 
     Na medida em que fazia a leitura duma  poesia cativante e libertária, ia anotando alguns versos no caderno, que lhe enriqueciam a sensibilidade.  
      Como esses:    
                              
Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ...
          Ou esses:
                    
                       Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n'alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

       Ou ainda esses, escritos com graça e leveza:

                         Prendi meus afetos, formosa Pepita...
mas, onde?
No tempo? No espaço? Nas névoas?
Não rias...
Prendi-me num laço de fita!

       Perguntava-se como era que no coração de um poeta tão jovem como Castro Alves  cabia tanta afetividade e solidariedade aos excluídos.  Com a leitura de cada livro, sua alma foi-se impregnando da beleza e da verdade postas pelo poeta maior  em versos comoventes, escorridos com amor e talento raro, que só os gênios possuem.

      Castro Alves tornou-se em pouco tempo  um ídolo para o jovem do interior,  desses em que  a marca de uma época ou de um tema brilha com a individualidade manifestada numa espécie de criador que permanece sempre ante a vida que passa.