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terça-feira, 17 de julho de 2018





Solidões de Sonia Coutinho  


               Por Cyro de Mattos

Sabemos que a morte é o que temos de mais certo na vida. Nunca nos  acostumamos com o quadro irreversível dessa senhora que não sabe o que é remorso.  Pensei nisso quando tomei  conhecimento  da notícia chocante de que a escritora  Sonia Coutinho foi encontrada morta pela filha em seu apartamento, no Rio de Janeiro.   Aos 74 anos de idade, a escritora baiana morava sozinha.  Comentou-se que havia  comunicado à filha pouco antes um mal-estar.
     .   A visita dessa senhora  cor de luto é amarga.  Em alguns  casos,  quando se vive muito, preenche-se a vida com ganhos, formando-se uma biografia bem-sucedida no plano familiar, econômico e profissional, ocorre o consolo entre os parentes, amigos e conhecidos do falecido. O trauma é atenuado com  o fato  de que não se podia querer mais do morto. A dura lei da  vida foi para ele  recheada de trunfos. Assim, o falecido, de saudosa memória, deixa boas marcas e lembranças.
Com Sonia Coutinho, a traiçoeira invenção da vida não permitiu sob vários aspectos que os fatos acontecessem no lado azul da canção. Mas  não é o momento agora para se falar das amargas que perseguiram essa admirável  escritora baiana.  Se Virgínia Woolf disse que viver é perigoso, verdade que alcança todos nós,  em nossa condição de solitários no mundo,  com Sonia Coutinho, autora de uma obra na moderna literatura brasileira ao nível de Clarice Lispector, foi para lá de lastimável.
Ela nasceu em Itabuna, em 1939, filha do promotor Natan  Coutinho, homem culto, poeta parnasiano, inteligência brilhante, que chegou a ser  deputado estadual na Bahia. Com a família, ainda menina,  mudou-se para Salvador. Na capital baiana graduou-se em Letras pela Universidade Federal da Bahia.  Depois que estreou com Do Herói Inútil, em 1966, contos, pequeno grande livro, que já prenunciava uma ficcionista de boas qualidades na sondagem e exposição contraditória da alma humana, ela foi morar no Rio onde exerceu o jornalismo. Viveu para sobreviver no Sul do Brasil  também como tradutora de grandes romancistas e  deu prosseguimento à sua carreira literária.
Publicou, entre outros,  Nascimento de Uma Mulher, 1971, Uma Certa Felicidade,1976, O Último Verão de Copacabana, 1985, livros de contos. E os  romances: O Jogo de Ifá,  1980, Atire em Sofia, 1989,  O Caso Alice, 1991,  e Os Seios de Pandora, 1999. Era  também ensaísta. Seus textos participam   de importantes  antologias do conto, no Brasil e exterior. Conquistou prêmios literários expressivos, com destaque para o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (SP), duas vezes, o da Revista Status, para literatura erótica, e o da Fundação Biblioteca Nacional.
Sua ficção une arte e documento para situar o real como vínculo de gravidade nas limitações da condição humana. Desenganos,  desencontros, problemas existenciais e psicológicos de natureza aguda na cidade grande, informam o herói em crise, que a autora logra questionar através de cortes e monólogos interiores,  em suas narrativas curtas e longas, de densidade existencial surpreendente.
Sonia Coutinho pertenceu  à geração desse escriba interiorano.  Dizia-se entre os de sua geração  que tinha temperamento difícil no trato com os companheiros de letras na Bahia. Comigo não foi bem assim. Gostava de privacidade. Cultivava o pensamento livre e se  mostrava contrária à atitude postiça da família burguesa em sua maneira de conceber as pessoas no mundo. Sempre quis ser uma escritora com circulação nacional. Em Salvador foi casada com o poeta Florisvaldo Mattos. Quando foi morar no Rio, viveu  aventura amorosa com o romancista Marcos Santarrita e, por último,  Hélio Pólvora, autor de qualidades expressivas  na arte da criação literária, também nascido em Itabuna.  
A  solidão e sua vocação legítima para escrever o bom texto deram-lhe o convívio íntimo e pessoal para erguer  uma  leitura crítica da vida como poucos.  Um ritual doloroso de intensa celebração dos escombros e ruínas humanas ante a  indiferença da existência.  Seu  grande ponto de gravidade para construir uma obra literária de dimensão maior, com uma  estrutura criativa coesa,   encontrou eco numa dura  solidão, que abraçou como maneira de vida e nunca se afastou dela. Criatura incompreendida por companheiros de geração, foi  autêntica na sua maneira particular de sentir os seres humanos em trânsito no mundo. 
Como ícone da moderna literatura brasileira no século XX, há anos ela já é reconhecida,  nos meios avançados  e da melhor crítica.    

  

domingo, 15 de julho de 2018




ESTÁ DECIDIDO: MINHA TELEVISÃO FICARÁ
 DESLIGADA NA FINAL DA COPA DO MUNDO

Por Marcos Caldeira




(Torcer para a França: mas e as obras pilhadas do Louvre?
Querer bem à Croácia: mas e a apologia ao nazismo?)

A França tem Paris, Rodin e Michel de Montaigne e ainda quer triunfar no futebol. Nem pensar, torcerei para a Croácia, firmei assim que os quadriculados alvirrubros dos Balcãs derrotaram a Inglaterra e se garantiram na final da Copa do Mundo.

No dia seguinte li no “Estadão” que torcedores croatas fizeram a saudação nazista no estádio, durante a semifinal, e virei a folha, com um grito na janela: allez les bleus.

“Pergunte aos argelinos se a França é assim tão libertária, ouvirá casos de perseguições e torturas”, ouvi um professor de história franco-argelina na televisão e voltei a torcer para a seleção do goleiro Danijel Subasic, apesar do segundo esse de seu nome ostentar em cima um acento circunflexo de ponta-cabeça, estranheza para a qual meu teclado nem está preparado.

Abri meu Yahoo e recebi de jornalista italiano, correspondente no Irã, “link” para um site de Oslo, na Noruega, informando que o meio-campista Luka Modric foi acusado de cometer perjúrio num acordo financeiro entre ele e Zdravko Mamic, ex-diretor do clube Dínamo Zagreb investigado por fraude fiscal. Irritei-me e, por 48 minutos, voltei a virar francês desde criancinha, condição que descartei logo porque entrou no meu Whats’App, mandada por membro da tribo K’llooo ga kri, no sul da Etiópia, notícia de que o mesmo Modric acusado de mentir à Justiça de seu país doa parte do salário que recebe no Real Madrid para comprar pernas mecânicas doadas a crianças mutiladas em guerra. Depois dessa, só posso ser Croácia, pus fé.

Amigo meu radicado na holandesa Bourtange, porém, me mandou seis vídeos mostrando croatas gozando o Brasil pela desclassificação nas quartas de final. Parodiavam “Garota de Ipanema” e rolavam no chão, mencionando jocosamente nosso camisa 10, com tamanha arrogância que jurei a partir daquele instante empreender grande empenho espiritual para Kyllian Mbappé enfiar quatros gols na final e comemorá-los com dancinha irritante, ao lado de Paul Pogba e Samuel Umtiti. Fui dormir muito francês.

Bateu insônia, liguei o “tablet” para distrair e li texto publicado no Facebook por um monge no alto da montanha Pico de Adão, no Sri Lanka: “A presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarović, viajou para a Rússia com dinheiro do próprio bolso”. Gente da política viajando sem atolar a mão na grana do contribuinte? Dado tão impressionante para um brasileiro que só me restou querer bem a esse povo no último jogo do mundial. Agora é sério, não viro mais a casaca, chega, tudo tem limite.

Pensei que seria assim, mas voltei a gritar “avante, azuis” após me emocionar ao ver o Jornal Nacional contar que o volante N’Golo Kanté, quando menino, recolhia lixo nas ruas de Paris. Reiterei o incentivo sonoro ao me lembrar de dois franceses que empreenderam em Itabira: Raoul de Caux, que veio, viu e fez vinho; e Sarah Pauline Charlotte Marie Gayetti, que mudou o nome para Madre Maria de Jesus e fundou o Colégio Nossa Senhora das Dores, educandário que até outro dia tinha o colonizado hábito de tocar a Marselhesa – escutava do meu quintal, quando morei na Penha: "Allons enfants de la Patrie / Le jour de gloire est arrivé!"

“Torcerá para a França mesmo sabendo que o Louvre tem em seu acervo peças originárias de pilhagens da época de Napoleão Bonaparte?”, gritou um anjinho em meu ombro, trajando camisa assemelhada a tabuleiro de damas. “Mas após o cujo se lascar na batalha ali perto de Waterloo, parte das obras foi devolvida aos países”, argumentei, e ouvi: “Você disse bem: parte, não toda. O Egito, por exemplo, nada recuperou. Você, Marcos, como jornalista, tem obrigação de saber que os nazistas se inspiraram nesse militar francês para também saquear obras de arte em países dominados”. Quando abri a boca para novamente confrontá-lo, o diabo do anjinho apelou e me convenceu a canalizar toda energia à seleção dele. “Esqueceu, Marcos, que há galos azuis na camisa da França?” Heréticos galos azuis, nem Francisco de Goya imaginou tamanho horror. Galos azuis, a maior tragédia depois do dilúvio. Fui dormir muito croata.

Situação alterada radicalmente depois que vi, pelo Instagram, na hora do café da manhã, fotografia postada em Kobe, no Japão, de um muro de prédio público pichado em Zagrebe: “Proteja a Floresta Amazônica: queime um brasileiro”. Aí, já sabe, né? Não que eu seja muito influenciável…

Lyon aumentou o preço do pão – viva a Croácia. Em Zadar taxista foi espancado por jovens ultranacionalistas – avante, França. O treinador Zlatko Dalic não quis salário para comandar a seleção – vamos, Croácia. Em Rijeka, berço do lateral-direito Sime Vrsaljko, tremulam bandeiras de cunho racista – dá-lhe, França. Casa em Montpellier, vi pelo Google Earth, exibe faixa fazendo pilhéria com a matriz africana da seleção de Didier Deschamps – vai, Croácia. Telão em Sibenik mostrou jogadores croatas cantando Bojná Cavoglave, música da banda Thompson, acusada de fazer apologia à organização paramilitar fascista Ustasha, atuante na Segunda Guerra Mundial...

Vai pra lá, volta pra cá, comuniquei à família que nossa televisão será desligada na hora de Croácia x França. Assim, ficarei em paz com minha consciência cívica. Foi aí que Aninha surgiu na sala, vinda do quarto dela, onde penteava sua nova boneca: “O mais repulsivo dos covardes é a quele que, em tempos sombrios, opta pela neutralidade”. Essa santinha do pau oco oculta textos de filosofia e de ciência política na barriga da Barbie, só pode.

Desconectei todos os plugues, tirei o relógio e fui caminhar, começando a sentir arrependimento por ter torcido para Neymar Júnior, Philippe Coutinho e Gabriel Jesus. Brasil, um dos últimos países que aboliram a escravidão.

·        Marcos Caldeira é editor do jornal O Trem Itabirano, de Itabira, Minas Gerais.



quarta-feira, 4 de julho de 2018







O Cronista  Cyro de Mattos
       
         Henrique Frendich


É preciso ter vivido muitos anos para saber que a recordação de certos fatos e coisas nada mais é do que saudade da vida que passa com os dias, semanas e meses. As pessoas, bichos, casas e ruas fogem como nuvens, ninguém pode retê-los. Infelizmente. Nesse tempo de mim procuro juntar fragmentos para me suavizar um pouco com essa saudade permeada de fatos, seres e coisas. De longe retorno agora no que houve para latejar sentimentos para mais eu em mim. (Cyro de Mattos)
A introdução da crônica “Esse tempo de mim” bem pode servir como argumento para as outras que compõem “Um Grapiúna em Frankfurt” (Dobra Literatura, 2013), coletânea de Cyro de Mattos, também cronista da RUBEM. Suas crônicas são, justamente, fragmentos em que o escritor, impossibilitado de reter o tempo, suaviza-se através das recordações de histórias e pessoas que lhe marcaram a vida.
Assim é que o cronista revive episódios de uma infância no sul da Bahia, onde os desbravadores e, por extensão, os seus descendentes são chamados de grapiúna (o nome, de origem indígena, pode se referir a uma pequena ave preta que vive às margens do rio ou a um riacho preto, encontrado nas fazendas de cacau da região).
Nesta infância, sem jogos eletrônicos e com ruas pouco movimentadas, quando o trem ainda fazia parte da vida da cidade, Cyro de Mattos se lembra de antigos Natais, dos doces de sua avó Ana, do seu encantamento por Monteiro Lobato, de sua prima Gringa, de um singelo episódio de dor de dente. Mais crescido, o escritor se lembra da Boate ID e, através de uma fotografia amarelecida, recorda-se dos colegas da faculdade de Direito.
Estas são memórias mais pessoais, mas o livro também está recheado de pequenas biografias que contam episódios com personagens locais – às vezes célebres, como o amigo Jorge Amado, às vezes tipos locais, como o doido manso de apelido Jipe. Cyro de Mattos ressalta virtudes e aprendizados que encontrou através dessas convivências, através dessas amizades – e ele tem boas amizades que vêm desde a juventude e outras que nasceram graças ao milagre operado pela literatura.
Nem sempre, é claro, o cronista tem a felicidade de encontrar tipos tão admiráveis. Exemplo disso são os personagens de “Quatro mosqueteiros do mal”, todos tocando forte a clave da vaidade, conforme a metáfora usada pelo escritor em um dos textos mais significativos do livro, a crônica “A negação do outro”.
Embora reconheça que não é um político militante, Cyro de Mattos se diz alguém que teima em dar palavras aos sonhos, como faz em “Utopia dos Palmares”. É também com indignação que comenta a morte do rio de sua cidade enquanto os vereadores não mostram a menor preocupação com o dinheiro público. Em “A cereja do bolo”, faz uma importante defesa da cultura, normalmente vista com miopia pela classe política.
E, não fosse a natureza, é possível que Cyro de Mattos desanimasse de tanto desgosto que encontra o mundo. Mas ele ainda ouve o clarim da garrincha anunciando que a noite chegou ao fim, admira o canto mavioso do sabiá, pergunta-se o que seria de nós se não existissem os passarinhos soltos no embalo festivo da natureza. São pequenos seres que, certamente, também latejam sentimentos para mais Cyro em Cyro.



*Henrique Frendich é jornalista e cronista. Editor da Revista virtual RUBEM, criada para homenagear o escritor  Rubem Braga. Tem como marca publicar  somente crônicas. Reside em Brasília.

segunda-feira, 25 de junho de 2018


            



           Torcedor na Desportiva    

                                                             
Cyro de Mattos

Penso que um futebol amador de jogadores com boa técnica, que  se exibiam no velho e saudoso Campo da Desportiva, não deveria ficar esquecido. Merece um museu  para que um dos aspectos da nossa memória seja valorizada.  Sirva  para que as novas gerações tomem conhecimento  de que é o homem que faz o lugar e  não o lugar que faz o homem.  Faz-se necessário  que o teor do que acabei de dizer seja explicado melhor. É imperioso que o futebol amador de nossa cidade, na fase áurea,  seja mostrado aos conterrâneos e visitantes, curiosos e estudiosos. Como nasceu e se desenvolveu  com tão boas qualidades técnicas, em seu longo curso de amadorismo. Avaliado nas razões de como jogadores que não eram profissionais, numa época distante do interior baiano, longe de centros esportivos desenvolvidos, como Rio e São Paulo, ou até Recife,  Belo Horizonte e Porto Alegre, deram espetáculos com um potencial técnico surpreendente, movido com arte e emoção.
Jogadores amadores que podiam vestir a camisa de  grandes clubes brasileiros, se tivessem atuando hoje. Não será exagero afirmar que com sorte alguns desses jogadores poderiam chegar  até mesmo à Seleção Brasileira. Cito três: Léo Briglia, Déri e Fernando Riela. Como aconteceu com Perivaldo, que surgiu no declínio do Campo da Desportiva, ou com outros de época mais recente, quando então os meios de comunicação fazem ficar conhecidos os atletas que jogam  em lugares distantes desse imenso Brasil. 
                         Sem ufanismo, sabem como eu os mais antigos desportistas de minha terra natal, vários  deles hoje passando dos setenta anos, que aqueles jogadores amadores escreveram, no piso esburacado de um estádio acanhado, páginas belas de uma das nossas maiores paixões populares. Basta dizer que meio século depois nenhuma cidade do interior da Bahia conseguiu igualar a saga da seleção amadora,  campeã seis vezes seguidas pelo Intermunicipal. Antes de alcançar essa marca, venceu  o Torneio Antonio Balbino, em Salvador, no qual participaram outras boas seleções do interior baiano. .
             Publiquei um livro sobre esse futebol amador  para contribuir um pouco com a preservação dessa memória. Promovi quando gestor cultural da cidade o documentário “Saudosa Desportiva, Gloriosa Seleção”. Sua exibição foi um sucesso. Tocou os corações de muitos,   familiares de jogadores, torcedores daquela época do futebol amador,  curiosos de ontem e hoje. Na tela do palco do Centro de Cultura Adonias Filho,  uma seleção amadora de futebol ressurgiu do fumo do tempo para mostrar  uma das faces da alma do povo brasileiro: o futebol. Jogado com emoção e garra,  classe e algum feitiço no campinho do interior.
           Sempre estou agradecendo àqueles artistas da bola na época de ouro de nosso futebol amador, pelas  alegrias que  deram no velho e saudoso Campo da Desportiva. Deles e do velho campo, com os momentos fascinantes, agradáveis e divertidos,  não  devo esquecer.  Como neste poema que escrevi:
Soneto do Campo da Desportiva - De zinco era coberta a arquibancada /A cancha tinha um piso esburacado./ Nem um pouco essa chuva demorada/Conseguia deixar desanimado/ O torcedor, que curtia a jogada / Do seu ídolo na bola passada./Dos pés a mágica mostrava ser / Tudo um sonho para nunca esquecer./ O gol de placa do atacante quando/ A partida já chegava ao final/E a marca da seleção que venceu/ Tantas vezes o intermunicipal/ Seguiram-me na torcida de meu/ Time pelos estádios do  mundo.   








segunda-feira, 11 de junho de 2018


                  


                   O Futebol Nosso de Cada Cronista

                    Cyro de Mattos      


Disputado por dois times, o  futebol tem como objetivo fazer entrar a bola  no gol defendido pelo adversário. Como arte nascida do pé na bola descreve  linhas e curvas incríveis no decorrer da partida. Nos dois tempos com intervalo, ora faz parte do jogo a ginga e o toque sutil, ora o passe preciso e o tiro certeiro. As cenas que causam espanto aos que estão no estádio resultam do empenho e suor gasto no esforço de cada lance. A bola rola macia no tapete verde ou salta na grama maltratada do campo de várzea. Uma das proezas do futebol consiste em impulsionar o coração para as zonas em que uma gente apaixonada transpira pulsações alegres e dramáticas.
               Provoca uma febre que lateja em sua brasa verdejante e se expande por toda a extensão dos meses no ano. Como gosta de criar apreensões, ritmos frenéticos quando se trata  de uma Copa do Mundo, até mesmo se for uma disputa de dimensão  nacional, estadual ou municipal. Tremores,  clamores, rancores. Vaias da galera formada de todas as gradações sociais.
Surpreende quando  irrompe das gargantas no grito de gol,  pura curtição da felicidade. Tamanha é uma flor nesse grito ferindo e atordoando que ela se torna mais bela quanto mais sonora. O grito de gol irrompido com tanta força tremula nas bandeiras com o escudo do clube ou a cara do ídolo. Ele é carregado até as nuvens com gritos e ovações.  De repente, lá do alto, derrama uma água que  molha de amor o mundo fero e solitário aqui embaixo.  Esse mesmo mundo que nós os humanos teimamos  em forjar com lances de tristeza, rasteiras e carrinhos impiedosos, todos os dias, no duro embate  dos dias. Assim levado pelas nuvens,  lá vai o futebol em seu percurso de paixão do qual faz descer uma chuva  que alaga de emoção a vida, cheia de explicações duvidosas, mas feita também de poesia, inexplicável, tão dela. 
Nos textos  de alguns de nossos  craques das letras,  aqui vestindo as cores de um timaço das letras, vemos como o futebol  seduz com suas artimanhas, feitiços e sustos esplêndidos. O quanto é amoroso e imprevisível. Cria situações inusitadas, tornando as coisas relativas, escreve Luís Fernando Veríssimo. Maltrata  com a mesma mão que afaga. Renuncia às necessidades materiais do cotidiano. Fica radiante de beleza no  lado onde se alojou a vitória,  faça sol ou chuva. No lado dos pesares, a turma deixa o estádio inconformada,  não querendo acreditar no que viu e sentiu. Nessa romaria de frustrações lá vai o futebol em silêncio,  mastigando as amarguras da derrota.
Nesse jogo que tantas vezes imita a vida,  cheia de calor e pressentimentos,   é que o futebol imprime em todos nós suas marcas de encantamento,  entre o alegre e o triste.  Assim o vemos agora,  de crônica em crônica. Com Armando Nogueira, por exemplo,  um pouco da história de nosso futebol sai dos bastidores para que se conheça  o heroísmo de Vavá, o Leão da Copa de 58, nos gramados da Suécia. Em Carlos Drummond de Andrade,  de repente o ódio faz-se alegria, o futebol afugenta mazelas, não quer saber da morte. O coração do poeta  está feliz no México e com o dele o de milhões de brasileiros, que sente do lado de cá  como é bom chover papéis picados pelas ruas e explodir fogos de artifício  loucos no céu  quando se ganha uma copa do mundo. Melhor ainda se o feito  é creditado a uma seleção inigualável  de craques,  comandados por Pelé, o “sempre rei republicano”.
O futebol chega a ter sabor de obra-prima quando  é descrito  por  Fernando Sabino em Iniciada a Peleja. Se impõe nesse momento  de reunião importante dos executivos para tratar de assunto sério. Fala mais alto  em cada lance vibrante,  chegando ao ouvido do torcedor atento e nervoso, através de um pequeno rádio de pilha. Já Carlos Heitor Cony mostra  como o  futebol é muito perigoso. Tem dessas coisas que ultrapassam o óbvio ululante de qualquer criatura sensata quando se trata de salvar a pele.  Abala uma nação inteira que quer ver o diabo em sua frente do que o bandeirinha brasileiro que marcou um impedimento dos mais graves e tirou o título de campeão sul-americano  dos nossos “hermanos”, em território argentino, favorecendo  os arquirrivais uruguaios, no último minuto.
Na trama que prende do princípio ao fim, aqui está, nestas referências  de  alguns cronistas bons de bola,  nossa maior paixão popular. Esses craques das letras brasileiras mostram, em breves passagens,  como o futebol  é tão íntimo da vida. Se possui seus imprevistos sob os instantes do sol ou da chuva,  depende do carinho para sobreviver naquele espaço verde que encanta.  Com freqüência está a dizer que vencer torna a vida leve. Quando se perde, meu Deus, como machuca. 
De qualquer maneira, com sorte ou azar, seu refrão diz que vale como paixão e diversão.     

terça-feira, 29 de maio de 2018








        Antônio Torres e Seu   Querido Canibal 
                           
                                      Cyro de Mattos

Antes da chegada do branco europeu  por aqui, os nativos eram os donos desse  Brasil imenso.  Exerciam  um ritual próprio de vida, que aprenderam dos antepassados. Viviam na tribo, cercados pela natureza intacta.   Viviam em liberdade na Baía de Guanabara ou em qualquer praia do Rio de Janeiro, no século XVI, como de resto no vasto  território brasileiro. Na paisagem natural da Baía de Guanabara, as mulheres banhavam-se no rio Carioca,  preparavam uma bebida com o milho ou a mandioca,  o cauim, que a tribo apreciava.  Como os donos  da terra e das águas,  caçavam e pescavam.  Viviam em comunhão com a  natureza, daí serem vistos  no início pelo branco invasor como o modelo do bom homem em seu estado selvagem.
 Em outro momento foram observados como objeto de dupla finalidade da colonização europeia. O europeu colonizador queria tirar proveito econômico do estado selvagem do índio,  aproveitando-o como mão de obra gratuita e necessária, enquanto a catequese desejava  fazê-lo como o novo habitante do  reino cristão, libertando-o do paganismo. O índio servia assim como elemento de observação por gente que vinha de mares nunca antes navegados  e  de crítica no campo literário.
Na sua famosa Carta de Achamento, o escrivão Pero Vaz  Caminha  inicia toda a série de crônicas e de literatura descritiva, tendo como abordagem um  Brasil nascente em estado primitivo.  Esse primeiro encontro através do  escrivão luso e os nativos   informa sobre uma gente de boa aparência, mansa e atraente  na sua pureza para a conversão.  Ao escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral, seguiram-se outros cronistas tratando do assunto com  material mais amplo,    e,  entre eles, Gabriel Soares de Sousa, Pero de Magalhães Gandavo,  Pero Lopes de Sousa e Hans Staden.
      O tema do índio em  Meu querido canibal (2000), de Antonio Torres, tem novo significado  e representatividade romanesca  na  literatura brasileira. Se bem que em outro contexto, o texto que resulta deste  romancista consagrado, moderno, de técnica  modelar,  pende para o herói derrotado, e, nessa constatação, em que impera a linguagem acessível  para delinear   a crônica no espaço do descaso histórico com o drama e a   tragédia dos nativos,  mostra o índio como uma criatura  sem saída  em sua heróica atitude guerreira,  transformadora de  sua comunhão com a natureza.  Opera  como  um dos elementos de uma nova concepção de civilização, que resiste ao conquistador, mas que termina por ser exterminado. 
        Em José de Alencar, as qualidades do nosso primeiro habitante são  idealizadas e executadas como compensação. Elege-se a exaltação romântica  das virtudes individuais e sociais, os sentimentos de orgulho,  lealdade,  amor à liberdade,   valentia, que o transformam no herói nacional, moldado assim com caracteres próprios, distantes das adaptações europeias. 
          Com Adonias Filho, o assunto lembra até certo ponto o índio de José de Alencar no  que diz respeito ao tratamento digno que lhe é conferido, embora  as visões sobre o mesmo tema  se afastem no plano da elaboração e execução ficcionais do mundo porque nascidas em épocas diferentes, contextos distantes, ajustando-se  cada uma delas às suas peculiaridades e metas. No indianismo adoniano,   o herói trágico mostra-se na trama vinculada à selva,  na infância da região cacaueira baiana,  penetrada por forças obsessivas do destino, como elemento da ação ou que impulsiona o episódio. As determinantes coincidentes do  naturalismo situam esse herói à maneira de um percurso imutável, em que o trágico fixa suas garras de horror e infortúnio, tendo como proposta final a catarse, que chega impregnada do alívio. Ou encontra saída na ressurreição, naquela dimensão que não é desta vida.
           Em Antonio Torres,  a personalidade do índio Cunhambepe se faz conhecer através de  própria conduta marcada  no gesto primitivo, entre a naturalidade da existência e a oposição ante o invasor europeu.  Os nativos são vistos pelo autor  através de observações sensatas,  pesquisa ampla   nos estudiosos do assunto, em documentos, revistas e jornais.  A essência dessa personalidade do nativo chega de  zonas críticas,  que se vai formando nas  lembranças do rito,  rastros da desgraça,  nas vozes do embuste e da farsa histórica,  na repercussão  do som e da fúria, que, vinda do passado, está  como vestígios no presente.
Desde a estreia em 1972,  com o romance  Um cão uivando para a Lua, o  baiano  Antônio Tores chamou a atenção da crítica e leitores do melhor ambiente  literário como um romancista  que chegava para ficar com destaque no corpo das letras brasileiras contemporâneas.  O  consagrado romancista, que nasceu no povoado do Junco, atual município de Sátiro Dias, na Bahia, no início foi jornalista  em São Paulo. Ao longo de sua carreira literária, produziu, entre outros,   os romances Os homens  dos pés redondos ( 1973), Essa Terra (1976), Balada da infância perdida ( 1986), Um táxi para Viena d’Áustria (1991),   O cachorro e o lobo (1997) e Meu querido canibal ((2000).
      Seus livros têm freqüentes reedições.  Um deles, Meu querido canibal ,  já alcança a décima segunda edição. Nestes tempos velozes da tecnologia,  apetência constante  dos  meios eletrônicos, primazia da imagem visual, em que se propala que o romance impresso tem seus dias contados, o caso de Antonio Torres desdiz  a afirmativa das posições unilaterais, precipitadas.   É o testemunho de que não é bem assim. Muda-se o suporte do livro, mas o romance impresso, de boas qualidades literárias,  visibilidade, densidade, rapidez, como quer Italo Calvino, precisão no que pretende dizer,  linguagem acessível, sem ser vulgar, conteúdo rico, imaginário esplêndido,  continua vivo.
      Em Meu querido canibal, numa sacada inteligente,  Antonio Torres reinventa-se em escritor-cronista moderno para, de peito aberto, como um neorromântico, mostrar-se indignado com a memória de um herói verdadeiro,  perdido no tempo, “mesmo tendo demarcado um território e inscrito nele a sua legenda”.   No capítulo 2, alerta que esse herói, de nome Cunhambepe, que quer dizer  homem de fala mansa, era  um guerreiro. Situado no tempo da pedra polida, viveu numa região paradisíaca batizada de Rio de Janeiro. Pertencia à nação tupinambá, que significa Filho do Pai Supremo, povo de Deus,  oriunda do grande tronco tupi-guarani.
       A leitura desse romance em que, desprovido do tom panfletário, gratuito e irresponsável,    denuncia o extermínio do índio brasileiro, eram cerca de seis milhões quando por aqui aportou o português aventureiro, ávido de riquezas, tendo como abono os jesuítas, melhor dizendo, a espada numa mão e a cruz na outra, permite, sem esforço, considerar que Cunhambepe é o primeiro herói de um país cujos rastros terríveis vieram das pegadas truculentas de aventureiros,  degredados, traficantes, corsários,  contrabandistas e corruptos.
     Fácil perceber que a história de Cunhambepe não é do edênico bom selvagem, dono das selvas e das águas,  dos sonhos advindos da natureza em estado puro, vivendo nu como quando se vem ao mundo, na era da pedra lascada,  contemplando-a e tentando adivinhá-la nos seus profundos e assombrosos  mistérios.  Não é a do herói dos brancos e traidor dos índios. É a de quem estava do lado de seu povo, levando-o a lutar  até o último gemido, porque era melhor sucumbir  do que ser submisso ao invasor escravagista. Nisso residia o sentido de quem estava numa guerra estupidamente desigual, entre o canhão avassalador do branco europeu e  a flecha banida  da taba para rolar na mancha das  águas, que  envergonha. .
         Com sua biografia restrita a referências mínimas,  sua história reduzida a poucas linhas, mesmo assim entregue ao sabor das traças,  esse querido canibal herói encontra em Antonio Torres uma reconstituição brava e eficaz  resultante da motivação digna do imaginário e da transpiração eficiente na escrita comprometida com  a verdade. Colhida e corrigida  esta em estudiosos do assunto, tantas vezes equivocados, quando dotados    de preconceito e superficialidade   omitem  a figura nativa na galeria dos heróis autênticos da história desse país, porque   em   conluio com  o embuste no tratamento oficial do tema.
         Adorável canibal, esse guerreiro, herói verdadeiro,  encontrado por Antonio Torres para o bem da literatura brasileira,  retirado da nebulosa de nossa história com   traços firmes na escrita ágil e atraente.       

REFERÊNCIAS

TORRES, Antônio. Meu querido canibal, Editora Record, Rio, 2016.
ALMEIDA, José Maurício de. A tradição regionalista no romance brasileiro. Editora Achiamé, Rio de janeiro, 1981.
CÂNDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1964, segundo volume.
MATTOS, Cyro de. As criações de Adonias Filho, Publicações da Academia Brasileira de Letras, Rio, 2017.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira.  José Olympio Editora, Rio,  1960.

*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, ensaísta, romancista, organizador de antologia,  autor de livros para crianças e jovens. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, o  Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras,   Associação Paulista de Críticos de Arte   e o Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil. 



quarta-feira, 23 de maio de 2018





           O Pior Time do Mundo
         
                   Cyro de Mattos 
             

Cafuringa Futebol Clube. Da cidade de Pilão Danado. Só interessava perder. Perder, perder, perder. Ganhar nem pensar. O pior time do mundo. Encontrasse um time pior, estivesse ganhando o jogo por um a zero, os defensores dessem um jeito, antes que o juiz trilasse o apito final. Fizesse logo dois pênaltis, um atrás do outro, a derrota não escapasse ao apagar das luzes. Torcedores iam ao delírio. Foguetes pipocavam. Gritos e gritos e gritos. Ê-Ô, Ê-Ô,  Cafuringa  é Perdedor! Ê-Ô, Cafuringa é perdedor.
O grito de guerra ecoava no estádio.
Costumava perder de goleada. Dez a zero a última, o auge da emoção, torcedores choravam, abraçavam-se.  Noticiário com manchete empolgante na mídia. Plantão de notícia.  A TV estampava. Mais Uma Derrota do Pior Time do Mundo.  De goleada: treze  a zero. O Cafuringa Futebol Clube não deu trégua ao Arempepe Esporte Clube, um que gostava também de perder, mas nem tanto como o rival. 
O pior em campo: Gol-Contra.  Zagueiro especializado em fazer gol contra. Na goleada última fez três.  Um de cabeça, outro de bicicleta, o terceiro de bicuda, furou a rede.
Era a glória. Não cansava das derrotas. Não tinha jeito.  Nasceu para perder, até a última gota de  sangue.
 Pergunta do repórter ao atacante Zé Velho: 
- Vai acabar hoje  a série centenária de derrotas contra o Pedrada Futebol Clube?
Sem hesitar,  resposta contundente:
- Perder,  perder, perder, uma vez perder, perder até morrer.
Bandeiras desfraldadas.  Retrato dos ídolos tremulando. De arrepiar. Furão, Perna de Pau, Pereba, Azavesso, Frangueiro, Bola Murcha, Chulé. Os mais ovacionados. Ídolos sem igual.  A foto na camisa do torcedor,  rosto sorridente do craque Azavesso, desdentado, cabeludo. No álbum de figurinhas, disputado a peso de ouro pelos colecionadores.
Novos jogadores. O time rejuvenescido. Ganhou de repente por um a zero, a zebra aconteceu contra o Bagunça Futebol e Regatas. Ganhou outra, a terceira seguida. Não era possível! Meu Deus, tem pena da gente,  o presidente suplicou, as  mãos rogando  para o céu.  Demitido o técnico. 
Os torcedores inflamados, sonoro protesto,  passeata aos gritos.  Desaprovação  geral no estádio. De-Canela, ex-astro do time, hoje chefe da torcida organizada, chegou a queimar a camisa do time.
O time entrando no gramado, apupos, xingamentos, ameaças. UM HORROR! Segundo turno, ocupava o primeiro lugar. Podia ser campeão. Aberração, Calamidade. Tragédia.
Até que retomou o rumo certo. Melhor dizendo, o errado, o costumeiro.  Voltou a perder,  uma partida atrás da outra, engordando o famoso vicio. E o refrão voltou a ecoar no estádio: “Eê! Ê! Ê! Perder Pra valer!  Quem quiser venha ver!” Abraços, choro incontido. Fogos de artifício, foguetes, berros, histerismo.
O pior time do mundo na manchete. Com o seu trio de atacantes inesquecível: Mudo,  Zoinho e Surdo.  Ovação geral do torcedor empolgado. Convicto.  Eternamente.

segunda-feira, 14 de maio de 2018


              Dois Craques Grapiúnas  na Elite do Futebol Brasileiro
                        
                                 Cyro de Mattos


Refiro-me a Nandinho e Tuta, dois jogadores grapiúnas que brilharam   na elite do futebol brasileiro,  na  época do pré-estádio do Maracanã. Os jogos mais importantes no Rio eram realizados  até então em São Januário, o maior estádio de futebol carioca. O futebol nacional vivia a transição do amadorismo  para o profissional.  
O jogador Nandinho atuou  no Flamengo, formando com Zizinho e Pirilo o célebre  trio do primeiro  tricampeonato do rubro-negro carioca. No entanto, deu   seus primeiros passos no caminho do futebol jogando pelada no campo das pastagens de Berilo Guimarães, em Itabuna.  Foi para Salvador e ingressou no time juvenil do Bahia onde mais tarde faria parte da equipe profissional. Sagrou-se campeão no time profissional do tricolor baiano em 1940. Quando retornava a Itabuna, treinava para manter a forma no Campo da Desportiva.  Do Bahia transferiu-se para o Flamengo. Depois de passagem destacada no rubro-negro carioca foi jogar no América mineiro onde se sagrou campeão e  se tornou ídolo em  várias temporadas.
O jogador Tuta veio de Uruçuca, antiga Água Preta.  Atuou  no futebol de Ilhéus e  de Itabuna, onde vestiu a camisa da Associação, poderoso time que dominou o futebol amador do  Sul da Bahia na década de  40.  Foi jogar em Salvador no Bahia e, no tricolor baiano,  sagrou-se  também campeão. De lá chegou ao Vasco da Gama, na época em que o   esquadrão de  São Januário   formou  um dos times mais importante de sua história, conhecido como  Expresso da Vitória.  Nessa equipe lendária,   jogavam  Barbosa, Augusto, Ely, Danilo, Friaça,  Ademir Menezes e Chico, que foram servir à Seleção Brasileira de 1950, vice-campeã mundial. 
Importa lembrar que o  grande derby do futebol mineiro era América  e Atlético até meados de 1960. O Cruzeiro ainda não havia surgido como uma potência do futebol brasileiro, com aquele famoso time integrado pelo goleiro  Raul,  os craques Tostão e  Dirceu Lopes, Natal, Zé Carlos e  Euvaldo. O América chegou a se sagrar  dez vezes campeão na época que o seu grande rival  era o Atlético.
Para comemorar a reinauguração do Estádio da Alameda, modernizado e ampliado em março de 1948, de cinco mil para 15 mil espectadores, o América  promoveu um torneio quadrangular, que ficou conhecido como o  Torneio dos Campeões. A disputa reuniu os campeões estaduais de Rio de Janeiro (Vasco), de São Paulo, representado pelo São Paulo, Minas Gerais pelo Atlético, campeão dois anos antes, além do anfitrião América, que se sagrou campeão do torneio e de  Minas Gerais, no final daquele ano. 
Nandinho fez parte do esquadrão do América,  campeão mineiro em 1948, que tinha como técnico o polêmico Yustrich. Já  Tuta jogou no  Vasco da Gama, que tinha como técnico Flávio Costa,  no Torneio dos Campeões , realizado  naquele mesmo ano em Belo Horizonte.
          Enquanto isso,  em 1949 o time  do Arsenal, o mais popular da Inglaterra,   fez uma excursão ao Brasil onde em São Paulo enfrentou o  Corinthians, derrotando-o,  e o Palmeira, que conseguiu um empate a duras penas. Restava enfrentar o Vasco e o Flamengo no São Januário, o gigante da colina.   Na noite de 25 de maio de 1949, uma quarta-feira, São Januário recebeu o maior público de sua história, no amistoso entre o Vasco e o Arsenal.
          A excursão do time britânico era cercada de grande expectativa.  Havia uma mística, que corria no tempo,   alardeando  que o time britânico era o melhor do mundo, e os próprios ingleses julgavam-se  os donos do futebol, pois foram eles os inventores desse esporte.  Por tudo isso, a partida entre Vasco e Arsenal foi cercada de um interesse  enorme, adquirindo até um sabor de decisão de mundial de clubes,  uma vez que,  no ano anterior, o Vasco havia conquistado o título de campeão sul-americano  invicto, no torneio realizado no Chile. Para enfrentar o time da Inglaterra, o  Vasco (foto abaixo) entrou em campo com uma das formações mais fortes da sua história, saindo vencedor da partida  por um a zero, gol de Nestor aos 33 minutos do segundo tempo.
           E o baiano grapiúna  Tuta participou desse time lendário do gigante da colina.
           




*Grapiúna é aquele que nasceu  no Sul da Bahia, na época da conquista da terra e do povoamento. E o que se identifica com uma civilização singular forjada pela lavoura do cacau, ao longo dos anos. 
** Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Membro efetivo  do Pen Clube do Brasil e Academia de Letras da Bahia. Premiado no Brasil,  Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália,  França, Alemanha e Espanha. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia)