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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019






Poesia de Valdelice Pinheiro
É Publicada na Espanha  com
Tradução de A. P. Alencart



Com o título de “Bautismo y Otros Poemas/Batismo e Outros Poemas ”, o poeta peruano-espanhol Alfredo Perez Alencart  traduziu cinco poemas de Valdelice  Soares Pinheiro, que foram publicados no jornal  “Protestante Digital”, em edição de 10 de janeiro deste ano. Os poemas de Valdelice foram ilustrados com imagens dos pintores Tintoretto,  Nicolás  Maes e Picasso e são os seguintes: “El Bautismo de Cristo/Batismo de Cristo”, “Creación/ Criação”, “Poema para la Natividad/Poema de Natal”, “Paz/Paz” e “Se yo te digo adiós/Se eu te disser adeus”. Além disso, a matéria sobre a autora itabunense   traz na introdução uma foto  grande quando a poeta era jovem.  
O poeta Alfredo Perez Alencart referiu-se a  Valdelice Soares Pinheiro como uma autora excelente, ressaltando que apesar de pouco conhecida no Brasil é possuidora de uma poesia magnífica. “ Com especial prazer, traduzi estes  poemas da brasileira Valdelice Soares Pinheiro (1929-1993), nascida e falecida em Itabuna, Estado da Bahia. Em vida ela apenas publicou dois livros de poemas : “De Dentro de Mim” (1961) e “Pacto” (1977. Além desses poemários publicou   alguns poemas esparsos. Em 2011 apareceu “O Canto Contido”, coletânea organizada pelo poeta e ficcionista Cyro de Mattos, reunindo os dois primeiros livros e textos dispersos, do qual foram extraídos os cinco poemas que verti para o espanhol.”
         Alfredo Perez Alencart é um poeta peruano há anos radicado em Salamanca onde é professor da universidade dessa cidade conhecida como de saber e cultura. É tradutor dos poetas brasileiros Carlos Nejar,  Álvaro Alves de  Faria, Cyro de Mattos, Paulo de Tarso  e da portuguesa Maria do Samero Barroso, entre outros.  Muito premiado, autor de mais de vinte livros,  esse poeta imenso é publicado em mais de vinte países.
          Leia abaixo os poemas de Valdelice Soares Pinheiro publicados na Espanha:

EL BAUTISMO DE CRISTO: .   BAUTISMO   Yo te prometo, hermano, un bautismo cristiano. Haré tu inmersión en las mismas aguas mías, dentro de las mismas oportunidades. Sin caridad, por obligación, te envolveré en la flor del trigo azul, perfumaré tu cuerpo en la realidad del pan y te untaré de leche y miel. Abriré tu sonrisa en una nueva Primavera. CREACIÓN   Dios besó a las abejas y a las cerezas y dibujó los divinos dientes en la pulpa de una guayaba. Después encargó a los niños y a los pajaritos el sabor de la vida. POEMA PARA LA NAVIDAD   En medio de todas las alegrías por el Niño Dios nacido, tanta sangre por los niños que no nacen. En medio de todos los perfumes y hosannas, tanto grito, tanto olor de dolor en la boca de los niños con hambre. En medio de toda la paz de aquella estrella, tanta inquietud en los ojos de mis hermanos, tanto odio en las manos de los generales.   Niño Jesús, cruz y redención, abre de nuevo tu cuerpo sobre nosotros.  PAZ   Plántense los sueños en la alborada de los dedos. Coséchense las espigas en la mañana de las manos. Y, en el descanso de la noche, la mesa puesta, nazca el amor en el calor del pan. SI YO TE DIGO ADIÓS   Yo abriré mis ojos llenos de lágrimas sí, un día, a la orilla de cualquier camino, yo te digo adiós

Para ler a matéria sobre Valdelice no”Protestante Digital” clique no link abaixo:   http://protestantedigital.com/cultural/46180/Bautismo_y_otros_poemas_de_Valdelice_Soares_Pinheiro_traducidos_por_A_P_Alencart


quarta-feira, 2 de janeiro de 2019


            


        Conversa com Luís Carlos

                      Cyro de Mattos

           O goleiro Luís Carlos deixou-nos na véspera do Natal. Foi jogar nas canchas do céu, defender a cidadela de um time divino e maravilhoso,  neste certamente estarão atuando jogadores amadores inesquecíveis,  que se exibiram com a sua classe e empenho, do lado de cá, no Velho Campo da Desportiva, como Leo Briglia, Santinho, Humberto Cesar, Leto, Abiezer, Tombinha, Valdemir Chicão, Zequinha Carmo, Zé Davi, Porroló e o velocista Nenem, entre tantos de qualidades  expressivas.
          Luis Carlos Alves Franco, casado, pai de três filhos. Um goleiro elástico e elegante quando agarrava a bola ou mandava para escanteio, em defesas sensacionais. Sabia repor a bola em jogo com habilidade. Jogou em vários times importantes do futebol amador: Grêmio, Janízaros, Flamengo e Fluminense. Foi hexacampeão pela seleção de Itabuna no Intermunicipal. Assim que a seleção amadora tornou-se um time profissional para participar do campeonato baiano, ele foi o goleiro de várias temporadas. Numa delas, em 1967, conquistou o título de vice-campeão pelo Itabuna. Jogou também futebol de salão e basquete.
     Começou no Vasquinho de Gil Neri, técnico campeão  várias vezes pela seleção de Itabuna no Intermunicipal.  Com tristeza, guardava bons momentos daqueles tempos da Desportiva, que não voltam mais. Existem muitas fotos que foram guardadas com carinho pelo goleiro. Olhando algumas delas hoje, podemos visualizar o Campo da Desportiva lotado nos clássicos, os ares felizes de seus torcedores quando a seleção jogava e sempre ganhava. “Não me lembro que ela tenha perdido um jogo na Desportiva”, disse Luís Carlos.
     Para qualquer jogador do Sul da Bahia era uma grande conquista pertencer a um dos times grandes que participava do campeonato no Campo da Desportiva. O goleiro Luís Carlos não conseguiu dormir quando vestiu a camisa do Grêmio pela primeira vez. Aquilo que tanto queria deixava de ser um sonho. Relembrou uma velha Desportiva cheia de lama, o piso esburacado, a grama sem qualquer tratamento. Mas ali era o palco em que desfilaram grandes jogadores durante quase meio século. Muitos deles foram atuar em equipes profissionais de Salvador, alguns até do Rio, São Paulo e Belo Horizonte.
          Antes de se tornar um jogador da Desportiva, ele assistia belas partidas no estádio local e, numa delas, quando ainda era adolescente, viu de perto a atuação do Botafogo com Mané Garrincha, o demônio de pernas tortas.  “Ele deu um show de bola e só jogou um pouco no primeiro tempo. E nesse pouco tempo pagou o ingresso.”
      Para Luis Carlos, José de Almeida Alcântara foi o prefeito que mais incentivou o futebol amador local.  Ele apoiava a seleção de Itabuna quando jogava fora de casa. Decretava feriado quando o time retornava com o título de campeão. Como prefeito foi um torcedor entusiasta.  Se Luís Carlos fosse formar a melhor seleção de futebol da cidade  com os jogadores de sua geração,  escolheria: Plínio, Zé Davi e Ronaldo; Valdemir Chicão, Abiezer e Hamilton; Gajé, Santinho, Jonga, Tombinha e Fernando Riela. “O excesso de bons craques amadores naquele tempo tornava difícil fazer uma escalação com os onze melhores”, observou o goleiro.
        Fora das canchas esportivas, Luís Carlos foi  exemplar filho, marido, pai, avô e  irmão.  Bancário condigno. Amigo atencioso e franco.  Querido pelos parentes, reverenciado pelos desportistas. Cidadão itabunense dos bons.  Sua jornada que se fez aqui neste planeta deixa marcas positivas, próprias da natureza humana de criaturas emblemáticas.

·        *Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da UESC. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Publicado em Portugal, Itália, Espanha, França, Alemanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Autor de 44 livros de diversos gêneros.  Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. 


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

               










                                     
        Natal
       
         Cyro de Mattos

       Tudo é canto pelos ares, chão e mares.
       Todas as manhãs  acesas, o mundo esplende de paz.
       Luz nunca vista ilumina seres e coisas.
      Põe amor nas vistas, de tão pura.
      Alegra nessa estrada por onde os bichos andam.
       O menino pergunta:
      - Por que tanta luz?
      O pai responde:
      - Em Belém nasceu Jesus.

sábado, 15 de dezembro de 2018








Crença

Cyro de Mattos


Por que os homens
Amam a droga
E não da abelha
Os favos de mel?
Por que os homens
Amam as balas
E não a paz
Sem nenhum fuzil?

                                     Mas eu creio nessa manhã
Anunciada em Belém
Por um menino rei
Em seu berço de palha.

Eu gosto de ouvir
Sua canção na estrada
Falando duma união geral,
Que viver vale a pena
Quando a vida é uma dança
Com os homens como irmãos,
Cantando como passarinho,
Sorrindo como criança.



domingo, 25 de novembro de 2018







PRÊMIO “POESIA E LIBERDADE ALCEU AMOROSO LIMA”
DE 2018 VAI PARA O POETA ÁLVARO ALVES DE FARIA


                O poeta Álvaro Alves de Faria foi distinguido com o Prêmio “POESIA E LIBERDADE Alceu Amoroso Lima”, de 2018, pelo conjunto de sua obra poética. O prêmio será entregue no dia 5 de dezembro, no Centro Alceu Amoroso Lima – o Tristão de Athayde -, da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. O poeta é autor de mais de 50 livros no Brasil, especialmente de poesia. É também autor de peças de teatro. Álvaro Alves de Faria se considera um militante da poesia, desde os tempos de “O Sermão do Viaduto”, nos anos 60, quando realizou 9 recitais no Viaduto do     Chá, em São Paulo, com microfone e quatro alto-falantes.

             Por esse motivo foi detido cinco vezes pelo Dops. O Sermão do Viaduto acabou proibido. No final dos anos 70, também foi proibido pela censura seu livro “4 Cantos de Pavor e alguns Poemas Desesperados”. Sua peça “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo”, que recebeu o Prêmio Anchieta para Teatro, na época um dos mais importantes do país, também foi proibida de encenação nos anos 80 e permaneceu censurada por 8 anos.
             Em 1969, o poeta foi preso por 11 meses, como subversivo e por desenhar os cartazes do então Partido Socialista Brasileiro. Três anos depois, levou um tiro no ouvido e tem até hoje na cabeça a bala calibre 38, como herança da ditadura militar. Ao longo do tempo, dedicou-se por 15 anos à poesia portuguesa. Tem 19 livros de poesia publicados em Portugal e 7 na Espanha, além de participar de mais de 50 antologias de contos e poesia no Brasil e no exterior. O Prêmio POESIA E LIBERDADE é um dos mais importantes e significativos do Brasil no reconhecimento de uma obra poética que sempre foi testemunha de seu tempo, num ato de resistência.
           Antes do poeta Álvaro Alves de Faria receberam o prêmio “POESIA E LIBERDADE Alceu de Amoroso Lima” os poetas João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Adélia Prado, Paulo Henrique Brito, Armando Freitas Filho, Marco Lucchesi, Antonio Cícero e Leonardo Fróes.
 


quinta-feira, 15 de novembro de 2018





                               

                                
    Poemas do Negro

Por  Cyro de Mattos

Abolição

Na zoeira do terreiro
Batucam que batucam
Tambores sem cambão.

Trepidam nesses punhos
O suor, a lágrima, o sangue
Nos rastros do negro fujão.

Todos batem nesse tambor,
Pode até não ser de fato
A tão esperada abolição.

Mas é o começo duma hora
Que se faz tão grandiosa
Como o verde na amplidão.

 África agora é uma só voz
Na esperança das manhãs
Sem o ferro do vilão.

Canga

Não se logra extrair
Os ossos dessa massa,
Os músculos mutilados
No esforço dos anos.
Tuas mãos, escravas,
Alimentadas na turva
Ferida, dor sem cura.

A atrocidade no ferro
Que furou o coração,
 A enchente na vala
Que transbordou de mágoa,
Nuvens não tocadas. 
Nunca será paga a conta
Na mancha que envergonha.

Como herança os rastros
Dessa noite escura na pele
Que te lança nos muros,
Agarra-te  nas  manhãs
Com sua claridade vista
Apenas pelos não pretos.
Até quando barreiras
De tua  cor opaca farão
Da vida  uma coisa qualquer, 
Desigual, desvão sem canto?

Pelourinho

Como suportar?
Treze... trinta... cinqüenta...
Até o último gemido.

Os outros olhando
Cada chibatada. Tristes,
Sem nada fazer.    

Ladeiras gastas.
    E esse vento que recusa  
   Ao largo a desgraça.


sábado, 3 de novembro de 2018






Do trabuco à palavra

Cid Seixas




São duas armas, uma é mortal; a outra vislumbra a imortalidade. A escolha se impõe. Vamos ao texto.
Cyro de Mattos é um dos muitos escritores baianos da região do cacau – e um dos poucos cujo trabalho constante e associado ao necessário talento, é capaz de assegurar-lhe um lugar de destaque no quadro da Literatura Brasileira.
Sua produção remonta aos emblemáticos anos sessenta, quando publicou Berro de Fogo, seu primeiro livro, ainda marcado por imperfeições e outros traços de início de uma aprendizagem. Consciente da falibilidade do artista, Cyro exclui o livro da sua bibliografia para aproveitar o conto-titulo e publicar, já em plena maturidade, em 1997, pela Editus e Fundação Jorge Amado, uma das suas obras clássicas: Berro de Fogo e Outras Histórias.
Alceu Amoroso Lima, crítico e pensador dos mais respeitados, que adotou o pseudônimo de Tristão de Ataíde, deu-nos um testemunho essencial para a inclusão do nome do grapiúna no quadro da literatura brasileira do século vinte:

“Extraordinária capacidade de dar aos aspectos mais típicos da realidade nacional, em estilo profundamente impregnado da nossa fala brasileira, a revelação de um escritor visceralmente nosso... admirável ficcionista”.

Convém lembrar que foi em 1968 que Cyro de Mattos viu seu nome ser incluído entre os bons contistas, quando a narrativa “Inocentes e Selvagens” – selecionada para figurar neste e-book – recebeu o Prêmio Internacional Cervantes, da Casa dos Quixotes, para autores portugueses, africanos e brasileiros de língua comum.
É ele quem revela, em correspondência de outubro de 2018, ao organizador deste volume:

– “Concorri com mais de 100 autores. Como era um concurso  expressivo na época,  lançou-me como autor de ficção curta no circuito nacional. Eu era desconhecido, estava dando os primeiros passos,  hesitantes, em minhas atividades literárias. Havia publicado Berro de Fogo, contos, livro riscado de minha bibliografia; nasceu imaturo, cheio de vícios.”

A atitude consciente do contista, rigoroso a ponto de abandonar um livro que não mais respondia ao rigor da sua obra, nos remete ao escritor português Miguel Torga, cujo primeiro volume das suas obras publicadas no Brasil, pela Nova Fronteira, em 1996, tive a oportunidade de fazer uma introdução crítica, por sugestão da família do autor. Como foi observado, não apenas vários contos, mas alguns livros torguianos, na sua forma original, foram reescritos, repetidamente, em novas e constantes reedições. Nesse particular, o nosso Cyro de Mattos adota o procedimento do autor português da geração de presença, diferentemente do que fez o também grapiúna Jorge Amado, fundador e figura de topo do ciclo do cacau na Literatura Brasileira.
Amado não volta aos seus romances da juventude para reescrevê-los. Ao contrário, deixa essas obras na forma original, mesmo quando revelam uma escrita em processo de amadurecimento ou quando traduzem uma perspectiva ideológica que se modificou ao longo do tempo, especialmente ao descobrir – com traumas e assombro – as incoerências da prática comunista de Stálin, contrárias à sua concepção humanista da socialização dos bens e dos valores.
Voltando ao juízo feito por Cyro de Mattos das suas narrativas, convém transcrever mais um trecho da já referida correspondência:

– “O conto “Os Recuados”, pungente e denso, é a história de uma mãe miserável, coitada, que mata o filho por amor, pois não suportava mais vê-lo chegar em casa bêbado. Ele bebia muito porque se via rejeitado como um índio pelos humanos, na feira. Deixo que isso seja visto nas entrelinhas.”

Em 1983, a Editora Tchê, de Porto Alegre, deu a lume o livro Os Recuados, de onde foi retirado o conto título, para compor este livro digital agora publicado na coleção “Teal” da E-Book.Br. Estes dois contos já citados são fundamentais na obra do autor e, coincidentemente, ouvindo-o sobre suas preferências, ele destacou as duas narrativas que ao lado de outras já tínhamos em vista para integrar este volume.
Surpreendentemente, para mim, Cyro de Matos destacou textos por ele intitulados de “contos de gente jovem”. O primeiro deles é “História do Galo Clarim”, que eu não conhecia e creio continuar ainda inédito, e o segundo é “O Menino e o Boi do Menino”, que completam este volume intitulado Nos Tempos do Trabuco. Esse último texto saiu em 2007 como um pequeno livro para os novos leitores infanto-juvenis, através da editora Biruta, de São Paulo.
Pela qualidade dessa faceta do escritor, a de autor de livros para jovens e crianças, e ainda mais pela natureza das narrativas de múltiplo alcance, isto é, capazes de interessar ao público adulto e a conquistar jovens andarilhos que se aventuram pelos caminhos da leitura, tais inclusões valorizam este e-book..
Embora apenas os contos “Inocentes e Selvagens” e “Os Recuados” integrem explicitamente a sangrenta temática do ciclo do cacau na Literatura Brasileira, o leitor das obras de Cyro de Mattos tende a situar esses singelos acontecimentos da infância no mesmo cenário geográfico das suas outras narrativas ficcionais, plenas de heroísmo e vilania que marcam a saga do cacau.
Convém observar que “Inocentes e Selvagens”, além de ter aberto espaço para esse escritor nascido em 1939, na cidade de Itabuna, veio a integrar o livro Duas Narrativas Rústicas, editado no Rio de Janeiro, em 1985, pela editora Cátedra.
Jorge Amado foi um dos muitos leitores privilegiados da obra desse escritor a deixar patente a admiração pela sua escrita genuinamente brasileira:

“Cyro de Mattos possui uma personalidade vigorosa e original, a condição humana dos personagens que surgem do seu conhecimento e da sua emoção nada tem de artificialismo... O autor de Os Brabos pisa chão verdadeiro, toca a carne e o sangue dos homens, entre sombras e abismos.”

Diplomado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, ele foi atraído pela força e pelo encanto da palavra escrita. Seguindo o caminho da maioria dos escritores brasileiros da região Nordeste, Cyro também se fez retirante, levando seu gibão de couro, cheio de histórias pra contar, até a ex-capital do país, o Rio de Janeiro. Para encontrar audiência, trabalhou como redator do Diário de Notícias, do Jornal do Comércio e de O Jornal, de 1966 a 1971; colaborando ainda com artigos e contos na revista A Cigarra e nos Cadernos Brasileiros e Leitura, além do Suplemento Literário do Jornal do Brasil e d’O Jornal do Escritor.
Como o bom filho quase sempre retorna à casa paterna, o escritor Cyro de Mattos voltou a morar em Itabuna, onde exerceu a advocacia e também encontrou tranquilidade para fazer frondosa a sua obra de mil e uma facetas.


·        Cid Seixas é poeta,  ensaísta e Doutor em Letras pela USP. Editor da Editora Digital Universitária. O texto  “Do Trabuco à palavra” é a apresentação do livro “Nos Tempos do Trabuco”, do baiano Cyro de Mattos, publicado pela e-book Editora Digital Universitária, Salvador, 2018.


terça-feira, 30 de outubro de 2018





Livro de Cyro de Mattos É Publicado Pela
 Editora Universitária do Livro Digital

     
        
           O livro Nos Tempos do Trabuco, do baiano Cyro de Mattos, uma reunião de quatro histórias, comparece agora ao acervo de livros eletrônicos da e-book.br Editora Universitária do Livro Digital (HTTP://literatura.blogspot.com), ficando assim disponibilizado para leitura gratuita. O livro tem organização, apresentação e notas de Cid Seixas, poeta, ensaísta e Doutor em Letras pela USP.
    Nos Tempos do Trabuco reúne as histórias “Inocentes e Selvagens”, Prêmio Internacional Miguel de Cervantes da Casa dos Quixotes do Rio de Janeiro, para autores de língua portuguesa, “Os Recuados”, do livro com o mesmo  nome, Prêmio Nacional Jorge Amado no Centenário de Ilhéus, “O Menino e o Boi do Menino”, conto infantojuvenil, publicado pela Editora Biruta, e o inédito “História do Galo Clarim”, juvenil.
     Eis os links onde o livro pode ser acessado: www.e-book br  www.linguagens.ufba.br  HTTP:// issuu.com/e-book.br . Se quiser ler o livro no celular é só copiar o endereço www.linguagens.ufba.br e enviar para o mesmo. Outros livros de Cyro de Mattos que já estão digitalizados:   Berro de Fogo e Outras Histórias, Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz, 2ª. edição, 2013;  (WWW.uesc.br/editora); Histórias do mundo que se foi, Editora Saraiva, São Paulo, 2012; O Menino e O Trio Elétrico, Editora Atual, do Grupo Saraiva, São Paulo, 2012; Natal das Crianças Negra”, FDigital IDP (Independent Direct Publishing), www.fdigitalidp.com, Reino Unido (Londres), 2012;  O Triunfo de Sosígenes Costa, com Aleilton Fonseca, Editus , editora da UESC, Coleção Nordestina, Ilhéus, Bahia, 2004 (WWW.uesc.br/editora);  Poemas escolhidos/Poesie scelte, tradução de Mirella Abriani para o italiano, Segundo Prêmio Internacional  de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, Genova, Itália, Escrituras Editora, São Paulo, 2007; O Conto em Vinte e Cinco  Baianos, Editus, editora da UESC, Coleção Nordestina, Ilhéus, Bahia, 2009 (WWW.uesc.br/editora); Cancioneiro do Cacau, Editus, editora da UESC, 2ª. edição, 2016 (www.uesc.br/editora); “Histórias Dispersas de Adonias Filho, organização, notas e prefácio, Editus, editora da UESC, WWW.uesc.br/editora; A Casa Verde e Outros Poemas, Editus, editora da UESC, WWW.uesc.br/editora

sábado, 20 de outubro de 2018




Cyro de Mattos em Antologia
Poética que Homenageia
Universidade na Espanha


Lançada neste mês de outubro, durante o XXI Encontro de Poetas Iberoamericanos, em Salamanca, Espanha,  a antologia poética “Por ochos centurias”, organizada pelo poeta e tradutor Alfredo Pérez Alencart, incluiu o poema inédito  “A Uma Casa de Saber” , do poeta baiano Cyro de Mattos,  dedicado à Universidade de Salamanca.  Figuram também na obra, no elenco dos brasileiros,  os poetas Carlos Nejar, Reynaldo Valinho Alvarez, Astrid  Cabral, Álvaro Alves de Faria, Davi de Medeiros Leite, Paulo de Tarso Correia de Melo e Alíce Spindola.
A antologia, alentado volume de 600 páginas,  é uma publicação da EDIFSA, Editora da  Fundação Salamanca, Cidade de Saber e Cultura, e tem como objetivo homenagear as universidades de Salamanca e São Marcos de Lima, por seus oito séculos de atuação universitária. O livro tem capa do pintor espanhol Miguel Elias, reúne poetas de todos os países iberoamericanos, além de outros, como Israel, Itália, Romênía, Estados Unidos, Croácia, República Checa, Iraque, Alemanha e  Bulgaria, entre outros
Leia, a seguir, o poema de Cyro de Mattos,  dedicado à Universidade de Salamanca, aqui transcrito. -  A Uma Casa de Saber -    Há belezas e sonhos na morada/ Desse sol, que como o fogo arde/ Na palavra cheia de razões.// Safras do saber produzem/ As estações às esperanças./ O que pretendem dizer?// Espelho que me estende a aurora,/ O espírito do homem no elogio/ Dessa vontade em decifrar o ser.// Veste-me com os perfis desse jardim./ As nuvens ensinam-me que a chuva/ É o foi, o é e o será. //Tudo que é labor, / Coisa e forma entre o tempo e o vento./ / Juntamos as lições,/ ouvimos os anos /Com a sua paixão de linguagens.// Converso comigo e os outros/ Nos campos que guardam questões./ Podemos reconhecer um enigma,// A causa de como acontecemos,/ Na penosa mutação das vozes/ À previsão eterna de um hábito.// A exata música com que um dia/  Fray Luís de León ofertou-me/ A flor que se espraia a todo instante.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018





O Goleador Tindola e O Goleiro Asclepíades

Crônica de Cyro de Mattos



O Janízaros era um dos times grandes do campeonato da Liga.  Um dos seus ídolos era o centroavante Tindola, apelidado de “Cabecinha de Ouro”, pelo cabeceio forte que sempre terminava em gol. Era um preto baixo, troncudo e musculoso. Fora responsável por vitórias maiúsculas do esquadrão azul e branco quando tudo parecia que estava perdido
Quando o Janízaros jogava contra o Flamengo, os desportistas na semana não falavam em outra coisa pela cidade que não fosse o duelo entre os dois grandes times do futebol amador da Liga.  Surgiam comentários sobre o duelo à parte entre o centroavante Tindola, o implacável goleador no cabeceio, e o arrojado goleiro Asclepíades, o que tinha punhos de ferro e peito de aço.
Asclepíades era um preto forte, de estatura baixa para jogar no gol, mas saltava como uma fera esfomeada  para com as mãos fechadas  socar a bola. Saía  muito bem do gol, nas bolas cruzadas da intermediária  ou nas que vinham do escanteio. Havia sido um dos heróis da seleção amadora da cidade, que se sagrou campeã  no Torneio Intermunicipal Governador Antonio Balbino, disputado no Estádio da Fonte Nova, em Salvador. Fechou o gol na última partida contra s seleção de Alagoinhas.
O centroavante Tindola não resistiu ao soco que lhe desferiu o furioso goleiro Asclepíades no final da partida, em disputa pelo título do campeonato.  Ali mesmo na pequena área caiu estrebuchando. Foi levado às pressas para o hospital da Santa Casa de Misericórdia. E lá por vários dias permaneceu em observação pelos médicos de plantão, até que acordou no oitavo, a custo de muitas injeções e massagens no peito.
Um enfermeiro comentou mais tarde  com um dos torcedores do Janízaros que o centroavante Tindola,  também exímio cabeleireiro, em sua tenda instalada no Beco do Fuxico,  teve febre alta, suando muito quando deu entrada no hospital.  O quadro era  muito preocupante. Foi levado para a unidade de terapia intensiva, sem perda de tempo.
Quando retornou de lá para o apartamento, depois de alguns dias conseguiu com dificuldade pronunciar as primeiras palavras.  No delírio dizia com a voz trêmula:
          - Eu te perdoo, Asclepíades, meu caro amigo... mas não faça mais isso comigo... ainda quero criar meus filhos...
  Quando perguntaram ao Asclepíades, se não estava preocupado com a situação do Tindola, que dera para falar bobagens com os clientes, depois que saiu do hospital e retomou seu ofício de  cabeleireiro caprichoso  e barbeiro de navalha hábil,  na tenda “Gol  Cabeça de Ouro”,   ele respondeu que não via nada de mais no que tinha acontecido.
Afirmou com o rosto sério:
- Futebol é pra homem!” -  acrescentando:  -  Atacante que se cuide. Cara feia do Tindola ou de outro jogador atrevido, metido a goleador no cabeceio, nunca me meteu medo.   
E, dando uma cusparada para o lado, com aquela cara feia que fazia quando partia para esmurrar a bola,  vinda na direção do atacante, em atenta posição para o cabeceio, finalizou:  
- Na pequena área, atacante saia da frente, a bola é minha!


segunda-feira, 1 de outubro de 2018




Academia de Letras da Bahia
promove seminário sobre obra
de João Carlos Teixeira Gomes




A Academia de Letras da Bahia promove nos dias 3 e 4 de outubro, em sua sede, na Avenida Joana Angélica, 198, Nazaré, em Salvador, o seminário “Entre Labirintos e Tesouros – a poética de João Carlos Teixeira Gomes”. Os debates versarão sobre a trajetória e a obra desse importante intelectual baiano, conhecido por sua atuação como jornalista, professor universitário e escritor. Gomes é também membro da Academia de Letras da Bahia  onde ocupa a cadeira número 15.
No primeiro dia do evento, a professora universitária  Antonia Herrera abordará o tema “ Na Encruzilhada do Fazer Poético – o Labirinto de Orpheu”. O tema “Joao Carlos Teixeira Gomes – O Mago dos Ventos” ficará por conta da escritora  Cassia Costa Lopes, enquanto o ensaísta Sandro Ornellas destacará “Aspectos da Critica de João Carlos Teixeira Gomes”. A mediação estará a cargo da Professora Doutora em Letras  Edilene Matos.
O segundo dia do seminário terá como tema “ A Geração Mapa – depoimentos e diálogos” e contará com a participação dos poetas Fernando da Rocha Peres, Florisvaldo Mattos e Kátia Borges como debatedores. A mediação será feita pela crítica e acadêmica Gerana Damulakis.
         Associando-se ao evento, patrocinado em boa hora pela Academia de Letras da Bahia, o poeta e escritor  Cyro de Mattos, em afetuosa homenagem, manifesta sua admiração pelo homenageado, ao escrever os versos singelos do  “Poemeto do Joca”,  que transcrevemos abaixo:

  Poemeto do Joca

João Carlos Teixeira Gomes,
Moço apelidado de Joca,
De tanto afeto que por ele temos,
Quem não sabe fique sabendo.

Eis que surge menestrel
No Colégio da Bahia,
Na Faculdade às voltas
Com o direito e as letras.

Eis o Joca jornalista
Arrojado, contundente.
É o ensaísta de Gregório,
Boca de fogo como ele.

Eis o Joca poeta grande, 
Nesses rincões da Bahia,
De gafanhoto domador,
Contemplativo da esfinge. 

De bom gosto sonetista,
Entre tesouro e labirinto,
Um dos melhores no Brasil.
Até mesmo em terra lusa.

Iluminado como sempre.