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sábado, 25 de abril de 2020





              A Musa Mansa de Conceição Nunes Brook  
                                    
                                     Cyro de Mattos

                Filha do pecuarista Isaac Nunes e Dona Rosalva, Conceição Nunes Brook         
 (1943-1990)   nasceu em Ibicaraí onde  viveu a infância, preenchida de brincadeiras e coisas naturais na música da inocência.   Mudou-se para Salvador onde  a moça de beleza radiante foi eleita Miss Glamour Girl.  Quando  morou no Rio mais tarde foi  estudante da PUC.  Casada com um norte-americano,  de quem teve três filhos , mudou-se para os Estados Unidos.
           Sempre se sentiu estranha nos Estados Unidos, a  alma com seus bemóis líricos em compasso brasileiro  não aceitava os sons  de uma paisagem  humana  distante, permeada de cenas diferentes. Pouco lhe dizia no íntimo,  que pulsava no Brasil.  Era ave presa na solidão dos vazios,   sem plumagem ,  nem  bondoso canto   nos caminhos da indiferença.   Tornou-se uma criatura estranha, sem ajuste no cenário que não lhe dizia respeito,  sem conexão da alma,  a   motivar  o disfarce onde não havia tempo para renascer.  Era natural que o tempo fosse parado, “todo o ser disperso com medo do amanhã.”
            Avistava Nova York sem as substâncias que correm nas veias, vindas da infância e das lembranças fraternas,    que viravam agora a mulher sozinha  na difícil arte de camuflar. Via  Nova York como serpente traiçoeira, de bote armado na esquina,  a que fere, queima e cega,  tritura  e devora “inocentes e deslumbrados mortais.”  Separada do marido, voltou ao Brasil, vindo a falecer  anos  depois,  vítima de doença cancerígena.
          Publicou dois livros de poesia, Teu rosto de bem-me-quer, pela Editora Itapuã, Salvador, 1978,  e Me basta uma janela,  Editora Record, Rio de Janeiro, 1984, com o desenho da capa e ilustrações internas do  consagrado Carlos Bastos.  Chama  a atenção   que poeta desconhecido, jovem,  sem convívio  na ambiência literária da época, em Salvador e no Rio, tenha conseguido a proeza  de ter publicado seu segundo livro de poesia  por uma editora importante,  de circulação nacional, sediada na metrópole carioca. Naquela época Rio e São Paulo funcionavam como tambores culturais do Brasil. E até hoje com um lirismo valioso,  em forma de carícia,  embora de legado pequeno, continue sua poesia nem sequer referenciada com o   seu nome  no dicionário de autores baianos, nem em antologias da poesia na região sul baiana.
       Há poetas que fazem da vida uma canção de versos mansos, na qual  a inspiração reveste-se de ternura,  pulsa na transpiração leve  até nos  momentos difíceis. A poesia de Conceição Nunes Brook é  dessa natureza  doce, de tristeza bondosa, tecida com os fios do sonho que se abriga na palavra terna para falar da vida com suas falhas.  Risca  o instante no eterno  tocado de partituras  sentimentais,  que pulsam  antigas e batem no agora ferido. 
       Um dos poemas  belos do livro, “Lamento da Esposa Esquecida”, versos que soam como gemidos do vento,  que fere e não tem volta,  a poeta diz do  marido ausente, a quem gostaria de falar , como o ar que entra pela fresta. Lembrar “do ritmo manso da respiração do nosso filho a dormir” e mais, que ele visse “as duas borboletas tênues  que há pouco pousaram  em minha janela  e voaram juntas num amor  fugaz e eterno, pois são curtas as suas vidas”.
        Longe de ser uma poesia hermética,  mas figurativa em sua estética definida  com clareza,  apoiada em unidades  rítmicas leves,   Conceição Nunes Brook faz  de cada poema uma música, um leve sentido, tocado pela vida transformada no mais belo sonho. No encanto envolve com  seus  dizeres reveladores de segredos,  angústia,   confissões tristes,   impressões alimentadas de esperança,  como se fosse seu propósito final  guardar  esse transe transmitido pela musa mansa  no coração como um manual de delicadeza perfeito.  Até quando  aparece em momento grave , a vida sobreposta na areia dos caminhos  passageiros,  emerge de uma luz,   que leve e distante  esquecerá de quem se foi, mas apesar disso se conserva como suave nesta distância da alma.
        Ante a certeza que a vida é falha,  limitada, contraditória, a gerar o medo e o amor,  ruídos comuns da solidão,  imperfeições das   ausências que não se explicam, essa poesia se basta quando enxerga  a vida através de uma janela. É desta janela que  reparte os sentimentos,  captura temas e momentos de  acordes graves.  Para ler o que  enxerga com o coração, em  suas circunstâncias, basta essa janela aberta no imaginário,   que aflora de dentro de si como densa e pungente fantasia.
       Dessa janela é que avista a vida a galopar em ágeis montarias no jóquei, o vermelho das flores nos galhos de esplêndido dia,  o Cristo  de braços abertos para os espantos filtrados em máquinas fotográficas, a lembrança das vacas mansas e brancas a ruminar o tempo em    mansidão nos  campos verdes  da fazenda paterna. Ali, nesta janela, sabe a sonho  e choro como momentos essenciais da existência,  ternuras e decepções inevitáveis,  que deixam no final a harmonia perfeita do poema merecido.
       Leitora constante de Manuel Bandeira,  Cecília Meireles,  Cesário Verde, Shakespeare e Walt Whitman, mostra-se em algumas epígrafes no poema  nessa boa companhia. Cônscia de que, como Ann M. Lindberg,  somos todos ilhas em um mar comum, essa baiana de Ibicaraí diz no verso  as coisas mais simples e menos intencionais, pois nela  o frágil é forte, alimenta-se da verde esperança.
          Sua poesia é necessidade vital, como  dormir, comer, sonhar, habita o tempo intervalar  entre viver e morrer.  Sempre mirando essa flor com desvelo,  impressa no chão de bondade triste, a poeta diz no poema “Inevitável” sobre  sua crença:

Uns morrem de amor
Eu faço poesia
Uns marcham em protesto
Meu lema é a poesia
Uns se suicidam
Ou são homicidas
Meu ópio é a poesia
Uns se desesperam
Meu grito é a poesia
Uns morrem no exílio
Meu país é a poesia
Uns dão volta ao mundo
Meu barco é a poesia
Uns trancam-se mudos
Meu silêncio é a poesia
Uns,   danças e festas
Meu canto é a poesia
Uns ganham medalhas
Meu prêmio é a poesia
Ou são condenados
Minha pena é a poesia
Uns pedem socorro
Meu amparo é a poesia,
Uns querem resposta
Quanto a mim:
Me basta a poesia.

             Sobre o  livro Teu rosto de bem-me-quer, Jorge Amado opinou:
                     “Li seus poemas, poesia sensível  e dramática, com duas vertentes que aparentemente se chocam; em realidade completam-se dando-nos a verdade inteira do poeta.
                 “De um lado o verso simples, comunicativo, uma alegria de infância, uma cantiga de amigo; do outro lado,  num ritmo mais torturado, o abafado soluço de quem busca encontrar-se, mas não se entrega, não faz da poesia confissão pública, grito, pedido de socorro... apenas como interrogação dolorosa. Das duas vertentes, surge a poesia de densa emoção e de real beleza.”
          Conceição Nunes  Brook faleceu em 14 de dezembro de 1990.



segunda-feira, 20 de abril de 2020




ISOLADA NESTA CASA
                   Raquel Naveira

Estou isolada nesta casa, no centro do mundo. Escriba, copio textos rituais. Tomo atitude e posição em relação a forças que caminham lá fora: pragas, pestes, epidemias, chuvas malignas, gotículas virulentas, que insistem em entrar pelas portas, pelas frinchas, pelos vãos do telhado e da consciência. A Terra, li nesta página, não disfarça mais seu drama, não encobre mais seus mortos, que se empilham nas calçadas, nas valas, nos caminhões, nos frigoríficos.
Movimento-me dentro da casa como um fantasma pela sala. Abro e fecho as cortinas de veludo roxo. Desço até o porão, subo ao sótão, removo poeiras e recordações, cozinho bolotas de carne, busco refúgio num travesseiro, como se fosse o seio da minha mãe. Mas o sono é pouco, o sangue arde, a sede nunca é mitigada. Batidas do relógio se sucedem numa cadência de opressão.
Quando criança, eu me sentia, ao mesmo tempo, uma menina solitária e uma velha, muito sábia, conhecedora de sortilégios, de coisas humanas e divinas. Agora, nesta casa cheia de quartos, vive aquela velha que fui. Uma mulher arquivelha, que consultou inúmeros livros, testemunhou tantas histórias, que nem tem vontade de contá-las a ninguém. Relatos que pertencem a um passado onde acender lampiões no fim da tarde, para admirar o voo das mariposas em torno da chama, era uma experiência das mais trágicas e estonteantes.
Nesta casa, quase um casulo, aceitei as condições da existência e elas são poucas: nascer, viver e morrer. Da janela, posso tecer fios de seda em direção ao infinito. Permanecer em silêncio por horas, sentindo o ar apocalíptico que paira na rua vazia.
Não posso reclamar, é uma casa resistente, capaz de suportar os blocos gigantes que desabaram em avalanche sobre o teto. Blocos que se espalharam por aldeias e metrópoles, em formas alternadas de coroas e tempestades.
Sou eu mesma nesta casa: com meus cabelos grisalhos, meu cérebro e tripas. Potência de alto risco nas entranhas. Não importa que tudo aqui seja antigo: da cristaleira aos valores que todos desprezam. Continuo fiel ao espírito que me habita e ao qual, um dia, cedi a palavra poética. Uma fidelidade cada vez mais muda e canina.
Este cômodo, apesar de pequeno, na minha mente é palco para um banquete: logo virá o rei, montado em seu cavalo branco e se assentará ao meu lado, com seus servos e o meu povo, minha família distante. Entre taças de vinho, brindarei àquele que ouviu meu chamado na angústia e veio para me livrar de tudo o que me aconteceu: torturas, espadas, dores, coração partido, ingratidões, essa fome de justiça, esse confronto constante com emissários da Pérsia e de outras nações, cobrando seu jugo e seus impostos.
Estou extenuada nesse isolamento. Mal posso me mover na cama. Mas esta casa tem atmosfera de prece. É de uma mulher arquivelha, edificada nas rochas e nas nuvens, pronta para virar lembrança.

* Raquel Naveira é escritora.Do Pen Clube do Brasil.  

quinta-feira, 16 de abril de 2020


                         
                       
                       O NECESSÁRIO PESAR DO PEN CLUBE

O Pen Clube Internacional - Brasil chora a morte no dia de hoje de Rubem Fonseca .

As razões, muitíssimas e todas elas fundamentais, sequer carecem de explicitação, tal a altura e dimensão de sua obra. Não apenas por ter sido um dos mais relevantes e originais escritores do Brasil nestes séculos XX e XXI. Senão também por seu caráter pessoal e discrição de vida em todos as inúmeras décadas em que vicejou na literatura, subtraindo-se de entrevistas, da curiosidade pública e de vaidades vãs.  Monasticamente, eu diria. Rubem Fonseca, contudo, exercia inestimável fascínio pela gentileza de trato e delicadeza pessoal com seus interlocutores, quase sempre escritores e artistas.
Portanto, há que se registrar esse procedimento para, de pronto, eximi-lo da fama de turrão, de não receber ninguém, de useiro e vezeiro em grosserias. O que configuraria grave e insolente injustiça. Por certo que ele só recebia quem lhe aprazia, de quem ele gostava, quem pudesse compartilhar com ele os jogos da inteligência e da literatura. Não a toa sua obra seria galardoada por dezenas de premiações e honrarias, as principais das quais incluem o Prêmio Machado de Assis e o Prêmio Camões.
 Não me furto aqui de registrar uma memória saudosa, que nos uniria, embora por pouco tempo. Quando o conheci, apresentado por Otto Lara Resende na Procuradoria do Estado da Guanabara, lá pelos anos 60, Rubem ficou muito interessado [e curioso] pelos depoimentos para a posteridade que eu levava a cabo, com fúria e paixão, a cada semana, ou quase no Museu da Imagem e do Som. Ele assistiu a muitos, inclusive, ao que lembro, os de Jorge Amado, Marques Rebello e Pixinguinha, bem como o de Chico Buarque aos 20 anos. Um detalhe que agora me acode com clareza singular: já naquela altura, ainda jovem, Rubem mantinha afastamento e discrição frente aos jornalistas que acompanhavam os depoimentos.
Quando certa vez o convidei para integrar a mesa de entrevistadores, creio que no depoimento de Marques Rebelo, ele respondeu com um muxoxo – “Tá doido, sô. Quero distância dos repórteres”. Minutos antes de terminar a entrevista, Rubem Fonseca saiu de fininho. Sem sequer ser visto.

*Ricardo Cravo Albin
 Presidente do Pen Clube Internacional- Brasil

quarta-feira, 15 de abril de 2020


             
                                      Crônica Quase de Amor

                                        Cyro de Mattos 

          
               Casou-se com a moça que ensinava Canto no educandário feminino. Tinha muita crença em Deus, fazia parte do coro na Catedral de São José, era filha de Maria. Pianista admirada,  compôs o hino da cidade, além disso escreveu  a letra.  Havia fundado a escola de música “Som do Sol” para meninos e jovens carentes,  necessitados de desenvolverem seu pendor para a vida tocada por sons e pelas cordas.  Marília havia sido a sua primeira namorada quando cursava o segundo  ano no ginásio local. E ele havia sido também o primeiro namorado dela.
      Uma moça recatada, filha do maestro da Filarmônica da Euterpe e da diretora do educandário feminino. No seu retorno à terra natal, encontrou-se com Marília no salão nobre da sede da Prefeitura Municipal.  A cidade  comemorava mais um ano de emancipação política.  À noite dançou a valsa na festa que o clube social dava  para homenagear o  aniversário da cidade.  Reataram o sentimento de amor  que ficara adormecido no tempo desde  que tiveram o primeiro namoro naqueles idos adolescentes,  quando eram estudantes do ginásio local. 
          Havia três anos que vinha exercendo a profissão de advogado com zelo e dedicação na sua terra natal. Pensou que já era hora de se casar e constituir uma família. Marília foi a  moça eleita para assumir a condição de esposa, tornar-se  mãe de seus filhos.  Não entendia como uma  moça da beleza dela,  de boas maneiras, recatada, comportamento irretocável,  não tinha encontrado  um parceiro ideal  para levá-la ao altar e com a bênção de Deus fosse selada uma união definitiva.  
        - É verdade, Marília, que  fui o seu primeiro  namorado?
       - O primeiro e único.
      - Por que ficou tanto tempo sem  namorar  algum rapaz da cidade ou de fora?
     - Isso não me incomodava.
     - Creio que pretendente não faltou.
    -  Não,  mas recusei as propostas, preferia esperar por você.
    Assim era o destino que em certos momentos somente ele sabe como engendrar situações no curso do amor. Tantos anos  em Salvador, estudando para se tornar um advogado e, quando pensou no último ano do curso  que era chegado o momento de pensar em se casar  com uma moça digna,   não  passou pela cabeça em se lembrar de Marília,  a primeira namorada que teve na sua vida,  filha da mesma cidade, como ele.  Ela tinha sido apenas um breve momento de sua vida, como foi  a primeira gravata usada no baile para comemorar a coroação da rainha da primavera no clube social, e que, pasmem os céus, a  eleita entre os estudantes  fora a adolescente Marilia,  sua colega de turma. 
    Ah, a vida, a vida, ia passando com as suas pegadas ocultas na trama do amor. Ali estava na sua cidade a moça que  esperava sem pressa  para  se casar com ele.  Tudo estava marcado para acontecer porque assim é que devia ser.






sexta-feira, 10 de abril de 2020






Poemas Cristãos

        Cyro de Mattos




Jesus

Deus é o crivo   da
Dor no  coração.  Pétala
 Que da chaga exsurge.


Calvário

Na opressão
na perseguição
na aflição
na traição
na depressão
na escuridão
na solidão
na sensação
do cuspe
e do cravo
no coração
Senhor meu
dá-me tua mão

 Este Cristo

É maior que o mundo
este andor feito na dor
dos grandes rumores.
É maior que o mundo
esta luz feita na cruz
dos grandes tremores.
É maior que o mundo
este amor feito no ardor
dos grandes clamores.
Ó peso da terra
cuspe, chicotada, crivo.
E das chagas flores.


  Canto de Amor

E todo este peso
terrestre perfurou
a flor da comunhão,
de braços abertos
clamas como cacto.
E dignos não somos
de olhar este rosto
que pende no amor
do sangue derramado.
E solitários caminhos
da ternura os desviados
na voz de tudo que é perdão.
O canto de amor prossegue
pelos que têm fome e sede
e carregam o dilema do pacto.


Santa Cruz


Todo o peso da terra
com ofensa e lenho
aqui deste desterro.

      Pedras cor de vinho,
      setas de veneno
      dos que ladram.

      Lábios de sede,
      botão que se abre
      na flor do perdão.

      Até hoje a oferta.
      A ternura como meta
      jogada na sarjeta.

Sexta-Feira Maior

O sol morre.
Turva onda
o mundo em aflição
molha-me de roxo.
Nada valho.
Nada sou de fato.
Prefiro Barrabás,
crucifico o amor,
sem dó e lágrima
até o último silêncio.

 Soneto da Paixão

Ao pé do Cristo todas as infâmias,
ao pé do Cristo todas as insônias,
ao pé do Cristo todas as intrigas,
ao pé do Cristo todas as refregas.

Ao pé do Cristo todos os sedentos,
ao pé do Cristo todos os famintos,
ao pé do Cristo todos os horrores,
ao pé do Cristo todos os clamores.

Ao pé do Cristo todos os insultos,
ao pé do Cristo todos os corruptos,
ao pé do Cristo todos os ladrões,

ao pé do Cristo todas as prisões.
Nessa onda que nos leva como cães,
cura-me, ó Deus de todas as paixões.

             Louvemos Baixinho

                                 Para Manuel Bandeira,
                                em memória

 Nasceu numas palhas
o nosso reizinho,
os matos cheiravam,
o vento embalava.

A Virgem Maria
sentia como doía
o destino humano
do filho de Deus.

Quando for um homem
com o nome de Jesus
de tanto nos amar
irá morrer na cruz.

Louvemos no Natal
o nosso reizinho
enquanto ele dorme
como um cordeirinho.
                                                         

*Cyro de Mattos escreve crônica, conto, poesia, romance, ensaio e literatura infantojuvenil. Já publicou mais de 50 livros. Doutor Honoris causa da UESC. Tem no prelo da Editus, editora da UESC, Nada Era Melhor, romance da infância, Pequenos Corações, contos, e O Discurso do Rio, poesia. Membro  da Academia de Letras da Bahia.










sábado, 28 de março de 2020


                                  




                              RIO CACHOEIRA

                                 Cyro de Mattos        

               
           Cada cidade ou região tem o seu rio, com sua gente, águas, bichos e lendas. Escorrendo sentimentos líquidos, cada pessoa carrega no coração o rio de sua cidade. Cachoeira é como se chama o rio que atravessa a minha cidade. Divide-a em duas partes. Já teve lavadeiras, aguadeiros, pescadores  e tiradores de areia  quando ainda não existia a represa próxima à Ponte Velha. Baronesas não ficavam entulhadas entre as pedras pretas, espalhadas em vários trechos do rio. A Ilha do Jegue era comprida e nela nunca se viu uma garça. Bocas de vômito não despejavam detritos nas águas claras.
              Lavadeiras estendiam roupas que coloriam as inúmeras pedras pretas. O rio lavava suas águas com o canto das lavadeiras. Cores e cantos davam um belo visual ao velho rio. Pequenas correntezas conversavam entre as pedras. O leito era límpido, dava para se ver a areia com pedrinhas lisas e redondas.  Borboletas pousavam nas margaridas silvestres que cobriam os barrancos. Andorinhas trissavam acima do rio quando acontecia o entardecer.
           O rio Cachoeira perdeu muito de seu encanto, sem as lavadeiras, os pescadores, os aguadeiros e os tiradores de areia. De sol a sol, homens e meninos buscavam com suas pás  no fundo do rio a areia, que servia para as construções na cidade. Os jumentos transportavam em latas as cargas de areia. Tempo bom para o areeiro retirar a areia do fundo do rio era nos meses de verão. A cidade toda sabia, pelas mãos do areeiro, que o rio era uma dádiva e a argamassa da casa feita de fibra específica: calo, suor e areia. O homem passava  pelas ruas, tangendo com a taca os jumentos carregados de areia nas latas. As casas cochichavam. Areia sem a pá não seria dádiva. Nada seria a pá sem a areia. Ajoelhando as fachadas, as casas tomavam a velha bênção ao rio. Ao tirador de areia agradeciam comovidas.        
          Para quem não sabe, o velho  Cachoeira já forneceu à cidade água boa no bebedouro da vida. Esse tempo já vai longe, muito longe. Um  tempo de fontes puríssimas do nosso rio. Foi na infância da cidade quando ela tinha poucas ruas calçadas, três ou quatro bairros. Tropeçava nas pernas quando era chegado o inverno. Caminhava alegre batida pelos raios de sol quando era tempo de estio, o verão temperado de ardências por entre verdes e azuis das safras.  Tempo melhor  não havia para tomar banho com os querido amigos nas águas do nosso rio.
         O nosso rio Cachoeira ficava brabo nas cheias, descia  feito um réptil sem tamanho, espumando e invadindo as ruas ribeirinhas, até mesmo a avenida do comércio, a principal da cidade. Descia feito um bicho do outro mundo, levando no lombo toro de pau, bicho morto, porta e janela. Algumas dessas enchentes ficaram na memória do povo de minha cidade. Um poeta popular chegou a fotografar em versos a zanga do pequeno rio. Leia um trecho do que o poeta popular dizia.                                           
                                  
As casas comerciais,                                                                                                  
Assim que o dono chegava,                                                       
A que tinha ainda porta,                                                                                 
Quando ele a destrancava,                                                                     
A sua mercadoria                                                  
Coberta de lama achava.
           
           Tinha gente que acordava                                                                                                        Naquele grande alvoroço,                                                                                 
         A água levando tudo,                                                                                                                Fazendo o maior destroço,                                                                                                       O  pobre salvava a vida                                                                                                             Com água pelo pescoço.











quinta-feira, 26 de março de 2020


        


         Câmara Municipal de Salvador
         Faz Homenagem  a Cyro de Mattos
        Com  Medalha Zumbi dos Palmares
        
O projeto de Resolução N* 16/2020, da Câmara Municipal de Salvador, publicado no Diário Oficial,  em 20 de março de 2020, concedeu ao escritor baiano Cyro de Mattos a Medalha Zumbi dos Palmares, uma das mais altas honrarias daquela instituição legislativa.  Foi criada para homenagear  a pessoas atuantes no combate ao racismo, discriminação e intolerância na cidade de Salvador e Bahia, bem como na valorização da cultura do negro afrodescendente baiano. .
O projeto  é de autoria do professor e vereador Edvaldo Brito, que salienta em sua justificativa a ênfase  que o autor baiano vem dando na sua vasta obra para a valorização do  negro,   através de publicação de  contos, crônicas,  poemas e artigos, em especial com os seus livros O Menino e o Trio Elétrico, Prêmio  da União Brasileira de Escritores (Rio), também editado na Itália, Natal das Crianças Negras, em seis idiomas, e Poemas de Terreiro e Orixás, das Edições Mazza (BH).
        Em Natal das Crianças Negras, Cyro de Mattos conta  o encontro pela primeira vez de duas crianças negras e pobres com   Papai  Noel na véspera de Natal. Na loja de brinquedos, o  velhinho aparece na telinha da televisão, de rosto alegre,  com suas promessas de presentear as crianças naquele dia cheio de inocência e esperança.  As crianças  Bel e Nel colocam os chinelos na janela. No outro dia, nada encontram neles. E então souberam que o Natal era a lágrima  que pelo rosto descia. Já em O Menino e o Trio Elétrico,  narra a história de Chapinha, um menino pobre e negro, que vende amendoim  no ônibus para ajudar  a mãe viúva e a vó Pequena no sustento  da vida.  Ele sonha  em ter  o seu abadá  para  sair atrás de um trio elétrico de arromba,   puxado por um astro da música popular baiana, mas em face de suas condições  pobres não vê como esse sonho possa ser realizado.  Cyro toca aqui  nas contradições do carnaval baiano, bom para turista se divertir e quem tem condições econômicas de viver  a festa   Em Poemas de Terreiro e Orixás, comparece com o seu modo solidário e encantatório de pensar o negro. Sentimentos refletem um jeito comovente de ser negro, ritmado no canto vindo da África, que transforma a alma em crença e magia.  Imagens dizem de coisas tristes,  que não se apagam no rastro das distâncias, na sucessão infeliz dos momentos e gritantes  situações adversas.   

















Prefeitura de  Recife Adquire 12 Mil Exemplares de Livro Infantil de Cyro de Mattos

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A Prefeitura Municipal de Recife acaba de adquirir doze mil exemplares de “Lorotas, Caretas e Piruetas”, de  Cyro de Mattos, livro de poesia infantil   publicado pela Editora  RHJ, de Belo Horizonte, com ilustrações de Luís Sartori do Vale.  O livro foi selecionado  e aprovado no Projeto –  Programa de Desenvolvimento  da  Educação e da Gestão Pública da Prefeitura Recifense, entre dezenas de autores brasileiros do gênero.  A Prefeitura de Recife destinará os exemplares  à rede escolar pública e privada, bibliotecas e instituições culturais.
“ Lorotas, Caretas e Piruetas”  recebeu  o Prêmio Alice Maria da Silva, da União  Brasileira de Escritores, RJ, em 2012. Reúne poemas em torno do mundo encantado e divertido do circo. Os personagens e cenas circenses compõem esta divertida coletânea de poesias. Os extraordinários versos com as peripécias  dos  palhaços brincam com o ritmo e os  sons das palavras, em poemas que garantem  a leitura ainda em processo e  alfabetização. Na Bienal Internacional do Livro de Minas, em 2012, escolas  de Belo Horizonte fizeram teatrinho dos poemas enquanto o autor recitou vários deles, como o Palhaço Sansão, Palhaço  Bom de Briga e o Palhaço Perguntador.
Ficcionista e poeta, Cyro de Mattos é membro das Academias de Letras da Bahia e de Ilhéus, Doutor Honoris  Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020




AINDA FACULDADE DE DIREITO

Cyro de Mattos



Ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia quando era localizada na Praça da Piedade, nas imediações do Gabinete Português de Leitura, terminando o curso no prédio novo  construído no Vale do Canela.
Informo que na minha turma da Faculdade,  idos de 1958 a 1962, havia o deputado federal Raul Ferraz, o deputado estadual Arquimedes Pedreira e a Desembargadora Lucy Lopes Moreira. O pensador social João Berbert, o que se foi tão cedo na viagem sem regresso. O padre Jair e o pianista Mário Boavista. Havia também uma juíza da Justiça do Trabalho, Marietinha, a pequena notável. Um juiz da Justiça Comum, Artur Caria, que usava óculos de lentes fortes, e o jurista Dylson Dórea, a causar espanto com o brilho de sua memória. O casal João Pedro e Célia, os noivos Eduardo Adami e Lícia. A estonteante Ynessa. O empresário Marcelo Gomes, alegre baterista do conjunto que tocava na faculdade, à noite, aos sábados. O nigeriano Edvaldo Brito, tributarista admirável, ‘’croner’’ do conjunto e o orador da turma. O civilista Antônio Luís Calmon Teixeira, de fino trato e jeito manso, campeão imbatível de pesca submarina nas águas do Rio Vermelho. O sinfônico Afrânio, tocador de oboé e outros instrumentos de música erudita. Os craques Adalberto, Jair, Marcelo Santos e Cadilaque. O filósofo Álvaro Peres, o poeta maior Ildásio Tavares, o magnífico romancista João Ubaldo Ribeiro e o arguto crítico literário Davi Sales.
Ressalta o cronista as molequeiras do delegado Dermeval Pó-Secante. As aventuras do Mascate Edvaldo Bispo, consagrado por tribos comedoras de gente como “O Grande Cacique Turgulês”, quando das suas negociações de terras devolutas no Baixo, Médio e Alto Amazonas. O faro incorrigível do promotor Cícero de Magalhães para descobrir as batidas mais gostosas nos botecos escondidos da Cidade Baixa. Os estudos abalizados do recatado Vilaboim, sempre recolhido à elaboração do vigésimo e último volume da primeira parte de seu Tratado Puro de Direito Internacional decorrente do comportamento atávico do urubu nas correntes aéreas.
Se lembrar é maneira de conhecer a vida, amá-la no vertical aceno das distâncias, como é bom saber que tive dentro daquela faculdade uma juventude marcante, a inscrever no tempo um calendário feito de sensações ricas, gestos discordantes e atos solidários. Discussões acaloradas aconteciam num ambiente de companheirismo, as opiniões se fazendo livres em seus ritmos de passagem. O pensamento ideológico conflitava-se e terminava muitas vezes em amizade permanente, o ideal dava lugar às relações cotidianas fora das dimensões críticas.
De anel no dedo e diploma na mão, regressaria ao Sul                                                                                 da Bahia com muitas lembranças agradáveis de meus idos acadêmicos na gloriosa Faculdade de Direito. Depois de muitos anos de militância profissional, questionando o percurso do moço do interior que se fez advogado, proclamaria dentro de mim a certeza dos que não se agacharam neste chão verbal  da lei com suas ervas daninhas nestes versos:
           
         “O sinete cônscio sempre
            para deslindar os cipós
            na terra a se fazer limpa
            refrescada pela chuva
            fecundada por um sol
com seus raios quentes
na pauta e julgamento,
o mundo desses crimes
nos porões e sonhos
de minha própria lei”.

                                 



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020






Prefeitura de  Recife Adquire
12 Mil Exemplares de  Livro
Infantil de Cyro de Mattos



        A Prefeitura Municipal de Recife acaba de adquirir doze mil exemplares de “Lorotas, Caretas e Piruetas”, de  Cyro de Mattos, livro de poesia infantil   publicado pela Editora  RHJ, de Belo Horizonte, com ilustrações de Luís Sartori do Vale, correspondendo ao valor de 120 mil reais. O livro foi selecionado  e aprovado no Projeto -  Programa de Desenvolvimento  da  Educação e da Gestão Pública da Prefeitura Recifense, entre dezenas de autores brasileiros do gênero.  A Prefeitura de Recife destinará os exemplares  à rede escolar pública e privada, bibliotecas e instituições culturais.
        “ Lorotas, Caretas e Piruetas”  recebeu  o Prêmio Alice Maria da Silva, da União  Brasileira de Escritores, RJ, em 2012. Reúne poemas em torno do mundo encantado e divertido do circo. Os personagens e cenas circenses compõem esta divertida coletânea de poesias. Os extraordinários versos com as peripécias  dos  palhaços brincam com o ritmo e os  sons das
palavras, em poemas que garantem  a leitura ainda em processo e  alfabetização. Na Bienal Internacional do Livro de Minas, em 2012, escolas  de Belo Horizonte fizeram teatrinho dos poemas enquanto o autor recitou vários deles, como o Palhaço Sansão, Palhaço  Bom de Briga e o Palhaço Perguntador.
         Ficcionista e poeta, Cyro de Mattos é membro das Academias de Letras da Bahia e de Ilhéus, Doutor Honoris  Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.