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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

 

Discurso do Herói de Palmares

      Por   Cyro de Mattos

 

Ao receber a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara de Vereadores de Salvador, em sessão solene, online, às 20 horas, no dia 3 de novembro de 2020.

 

Boa noite a todos.

           Ilustre jurista, vereador e confrade Edvaldo Brito.

Primeiro  quero agradecer esse momento a Deus, depois à  minha esposa Mariza, que tem sido minha base durante 52 anos de casados, aos meus três filhos André Luís, Josefina e Adriano, que tanto me  motivam para que eu seja um cidadão digno, e aos meus seis netos, Rafael, Pedro Henrique, Gabriel, Luís Fernando, Marizinha e Murilo, que me dão alegria e certeza de que quando eu estiver em outra dimensão continuarei ainda aqui, neste velho mundo, em cada um deles.

Faço um agradecimento especial ao professor emérito e jurista consagrado, vereador Edvaldo Brito, o autor do projeto para que esta Casa me concedesse a distinção. Muito me honra ter sido colega daquele estudante pobre na turma de 62 da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Aquele rapaz de corpo comprido, que foi o orador da turma. Esse homem de cor, cidadão digno, um símbolo vitorioso da negritude na Bahia e no Brasil. Essa criatura rara, de cultura adquirida com esforço nos livros, brilho de sua inteligência, crença na força dos antepassados, e que se sabe herdeiro da fraternidade e compromissado com a verdade, portador do axé, que, como se diz no candomblé, é “a luz do dia”. É por sua iniciativa generosa que estou aqui sendo homenageado, apesar de surpreso até agora ao receber essa láurea, e comovido.  

Certa vez minha tetravó materna contou à minha trisavó que contou à minha bisavó que contou à minha avó que uma gente que vivia nas suas aldeias foi retirada da África como bicho, pior do que bicho, para a escravidão no Brasil Colonial.  Filho foi retirado da mãe, marido da mulher, irmão do irmão, acorrentados foram trazidos com os rostos tristes, até que se viram jogados para o embarque como um fardo deplorável no porão fétido do navio negreiro.  Longe, tão longe, foi ficando atrás na savana a lágrima de Deus.  No rumo desconhecido, seguia aquela gente na carga desgraçada, feita com vozes sofridas na cena lastimada. Uma pobre gente solitária vagando pela imensidão das ondas salgadas. Viajava marcada sem perdão, o corpo amassado, a fome e a sede nas horas de aflição, menos para o traficante branco, que conduzia o navio por entre as águas de cobiça e perversidade.

No poema “Navio Negreiro”, de meu livro Poemas de Terreiro e Orixás, dou minha versão dessa sinistra embarcação com sua carga sofrida numa rota dos infernos.  Eis o poema:  

 

Navio Negreiro

 

não adiantava

gemer

não adiantava

mugir

não adiantava

 viver

muito melhor

morrer

 

funda a ferida

amargo o ferrão

ardido o sal

aguda a solidão

negro negro negro

o mugido anuncia

a sede e a fome

 de boi em agonia

 

todo esse mar

é a desgraça

não branca

que até hoje

das entranhas

rola nas ondas

o seu mal-estar

 

o despejo na praia

diz de um tesouro

alimentado do pai

alimentado da mãe

do filho e do irmão

como ofensas no amor

do suor fabricado 

para a saborosa canção

do constante senhor

 

 Na rota da desgraça foi submetida essa gente ao trabalho servil do Brasil colonial. Alguns negros inconformados fugiam da senzala em busca da liberdade na mata fechada. Não conseguiam reter o suor e a amargura que derramavam todos os dias para irrigar o canavial do senhor de engenho.  A fome do Brasil açucareiro era insaciável, nunca se satisfazia com o trabalho de graça dado pelo braço escravo. O feitor com os cachorros logo ia atrás do negro fujão, que terminava castigado com a sua afronta no pelourinho. Treze, trinta, cinquenta chibatadas. Muitos não suportavam o castigo, morriam esfacelados.  Tristes, os outros olhavam, não podiam fazer nada. Calados, lambiam o vento, que soprava no peito a sina feita de atrocidades, assim guardadas como ruínas dos dias nos gemidos mudos.  

Quem de novo fugisse e fosse apanhado, o remédio agora era cortar um pé, para que o exemplo fosse melhor disseminado.  Minha avó contava que em outros casos de insubmissão a língua era cortada daquele negro falador, inflamando os outros para fazer a revolta. Contou mais que minha tetravó tinha o seio farto, foi lambido, bebido como gostosura o seu leite puro para o anjinho do senhor não sucumbir. Senhores bigodudos, sisudos doutores provaram do leite morno e doce, saindo ilesos das sombras da morte.  A paga daquele ofício era na roupa lavada, engomada, no fogão aceso e abanado, no asseio de inúmeros cômodos, no carrego de feixes de cana, em tudo que tinha o gosto amargo para que a vida continuasse no seu ritmo invariável de dor e solidão.

O mel da cabaça da negrinha era para servir a seu dono, que deixava o fel nas entranhas. Matava a sede do que batia os dentes, montava nela com todas as forças que pudesse reunir e perfurava, sem remorso, umas carnes tenras. Arrancava os tampos com sua flor guardada entre as pernas, olhe lá, não tens que gritar, é pra ficar abafada nos lamentos, entorpecida pelo som e a fúria dos meus punhos, o querer é só meu, ninguém se atreva a interromper.  Passava o inverno, passava o verão, o tempo e as dores essa gente desgraçada ia moendo, remoendo. Como devia ser, os céus ordenavam. As horas se resumiam na fome e na sede de animal em passividade e agonia. O final todos sabiam, uma coisa, que teve a vida toda em luto perpétuo, era enterrada na cova rasa, mais nada.   

E dizer que o Brasil foi carregado nos ombros dessa gente vítima de mazelas, violência e injustiça. De toda sorte de vilanias, preconceitos, desigualdades. Essa gente da qual também procedo, que deu o suor de sol a sol ao jugo do senhor branco e de volta recebeu a canga. O Brasil tem uma dívida com o negro que é impagável. Esquecido dessa dívida, ainda se vê hoje, em pleno século vinte e um, atos pusilânimes que alimentam a mancha que envergonha, essa chaga que subtrai e faz da vida um horror com fendas acumuladas de aversão, feridas que não curam.  

Ontem na televisão, diante do rosto da humanidade pasma, a notícia veio com a cena do negro que teve a vida esmagada pelo policial branco.  Tiros foram desfechados nas costas de outro, que, indefeso, tentou fugir da perseguição como fúria canina. É comum a rejeição ao negro, considerado ao longo dos séculos como um ser inferior, de gradações baixas, daí não ser nada de mais ser visto até hoje no semblante inocente dele o ladrão ou o assassino. 

Diante de tantas atitudes para alimentar o império do mal, destruir o espírito universal do bem, mais que nunca é preciso resistir, denunciar, lutar para desfazer a mentira e ao invés disso gritar a todos pulmões que a liberdade é o valor maior, a igualdade não é privilégio de ninguém, Deus fez todos nós com a mesma alma, o amor é o sentimento mais forte.

Devo lembrar que o Quilombo dos Palmares era formado por três aldeias. Aí por volta de 1640 viveram cerca de dez mil quilombolas. Eram fortes e contentes, plantavam de tudo e não se serviam da terra como fonte única de riqueza, através do açúcar. Cada família em Palmares ocupava um lote de terra, o que tirava dela era para o seu sustento. Em 1670, já inúmeros povoados cobriam muitos quilômetros de terra na serra do Barriga, em Alagoas.  Palmares havia se transformado em um Estado, situado na borda do litoral do mundo canavieiro. Tornava-se por isso mesmo em grave ameaça ao império do açúcar, com seu sistema fixo calcado no braço escravo, em benefício exclusivo do senhor de engenho.

         Tinha uma população de trinta mil almas quando sob o comando de Zumbi sucumbiu às investidas de Domingos Jorge Velho, chefe de um exército armado de canhões, constituído de nove mil homens. Sucessor do trono de Ganga Zumba, Zumbi mostrara ser um guerreiro implacável antes mesmo de ser derrotado por Domingos Jorge Velho. Há quem diga que ele se pareceu aos heróis de guerra Aníbal, Alexandre, Ciro e Napoleão. Diferente deles porque não combateu para conquistar territórios e glórias, mas para fazer de Palmares uma flecha a ser atirada para o coração da liberdade.

Muitos historiadores esconderam dos compêndios oficiais a grandeza do caráter de Zumbi dos Palmares, mas a verdade prevaleceu. Ele se tornou um verdadeiro herói do Brasil, símbolo da resistência negra perante o ferro do colono usurpador. De maneira que a essa altura só me resta dizer nesse momento de especial reconhecimento o quanto me dignifica receber da Câmara de Vereadores de Salvador, a mais antiga do Brasil, uma honraria com o nome desse herói negro. E assim terminar minha fala com um poema inspirado nessa figura, que por sua coragem, amor à liberdade, lealdade ao seu povo, tornou-se um marco elevado da tão esperada abolição.

 

Zumbi

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

ritmo da liberdade.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

batuque da igualdade.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

manual da fraternidade.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares

sem o açúcar insaciável.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

gente em grito indignada.

 

Falo Zumbi,

digo Palmares,

no abismo a África salta. 

 

Luzes da Manhã,

força do amor

pelo chão e nos ares.

 

Espero que minha voz como um grão nos ventos da resistência venha se juntar ao movimento que vem lutando nos anos pela sanidade da razão, expandindo-se para a valorização e conscientização do universo do negro.

A todos, o meu muito obrigado por esse momento gratificante em minha jornada de vida.

 

 

 

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

 

Poemas do Negro

   Cyro de Mattos

 

 

Negrinha Benedita 

 

Por causa

dum frasco

de cheiro

apanhou

de chibata.

Os outros

assombrados

não puderam

fazer nada.

 

Sem andar

dias ficava.

Quando sarou,

falou ao vento

que ia embora.

Pelo mato

foi voando,

escapou

da cachorrada.

Teve sede,

teve fome,

levou espinho

pela cara.

 

Para trás

não olhava.

Com uma

espada afiada

que lhe deu

uma mão oculta

um dia viu

no quilombo

que ali era

a sua morada.

 

Aconteceu

que depois

a cabeça

da sinhá

amanheceu

decepada.

Ninguém viu

como se deu

na escuridão

daquela noite

a revanche

assim marcada.

Por causa

dum frasco

de cheiro

que ela pegou

pra ser cheirada.

 

Nação

 

Gritos como sinais

ecoam na planície,

saltam centelhas

das vozes ligadas

na corrente frenética

embarcada na África

para a Bahia negra

caindo no transe.

Nenhum outro batuque

trepidando na alma

tem mais grandeza

do que esse que faz

as distâncias perto,

joga raios do céu,

bate envolto em magia.

Canta, trepida, embala,

precipita ventos, falas

nesse tum-tum febril

que o coração arrebata.

 

Voz do Negro

 

Saltava do peito o céu

pela savana infinda,

célere alcançava

a terra, a água e o ar.

 

Arrancada do ventre,

açoite e tormento,

no ferro do porão

carregava lamentos.

 

Presa pelo açúcar,

lenta, entorpecida.

Não jogava raios,

sem asas o vento.

 

Para onde fosse

os ossos doendo,

em rigor oprimida

pelo açúcar sedento.

 

Virgindade

 

Da cabaça o mel

para servir a seu dono,

que deixava o fel.

 

Pra matar a sede

do que batia nos dentes

e arrancava a flor.

 

No mês mais um tanto

comido pelo senhor

calmo por enquanto.    

 

Ama de Leite

 

Seio puro e farto

lambido, bebido

para que o anjinho

não sucumbisse.

 

Cantiga baixinha,

monótona, serena,

dava soninho bom, 

o sonho aquecendo.    

 

Senhores bigodudos,

sisudos doutores,

quantos provaram

e saíram ilesos?

 

A paga na roupa

lavada, engomada.

No fogão, no asseio

a vida continuava.

 

O tempo as dores

moendo, remoendo.

Como devia ser,

o céu ordenava.

 

Banzo

 

O que é, sei não.

Difícil de dizer

dessa coisa triste, 

difícil de saber.

 

Bebida que desce

pra esmorecer,

dentro de mim

sem compadecer.

 

Não desgarra

quando agarra

meus passos, sós,

sem esperança.

 

Dá pena quando ouço

essa voz de África

com brilho forte do sol,

o que ficou pra trás.

 

Dá vontade de sumir.

 

·       Estes poemas ora publicados pertencem ao livro Poemas de Terreiro e Orixás, das Edições Mazza, BH, 2019.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

 

DESCAMINHOS. E DESRESPEITO A JOÃO CABRAL

 

                                     Ricardo Cravo Albin

 

“O essencial é saber ver. Saber sem estar a pensar. Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida), isso exige um estudo profundo. Uma aprendizagem de desaprender” (J. Cabral de Mello Neto).

Não, não pretendo abrir meus espantos de hoje para exibir, mais uma vez, os descaminhos que a política externa do chanceler Ernesto Araújo percorre. Todos os eleitores que amamos do Brasil nos condoemos com a barafunda em que o folclórico Ministro projetou a Casa de Rio Branco.

Não, não quero me alongar sobre os disparatados jargões ideológicos (“globalismo”, “ocidentalismo”, etc., que ninguém compreende o que seja). Ou mesmo gírias das redes sociais (isentões???..., ninguém sabe o que é).

Não, sequer me animo a repudiar a pregação doutrinária que absorve a antes credibilizada Fundação Alexandre de Gusmão, agora cenário de delírios ideológicos de youtubers e twiteiros, instrumentos hoje de bajulações incabidas do Chanceler ao Presidente.

Não, tampouco me atrevo a imaginar fazer retornar o agora insepulto Barão do Rio Branco à austeridade de definidor das fronteiras do Brasil, o que pude comprovar na Escola Superior de Guerra, quando o aclamamos há poucos anos como um dos cinco inventores do Brasil.

Nossa possível sorte é que, acredito, tenha o Chefe da Nação um possível núcleo pensante para o Brasil: uma elite de generais bem formados em academias e até política externa (essa elite existe sim). Que poderá ajudar a tirar este país dos gravíssimos erros diplomáticos do Itamaraty, uma arapuca, somente admissíveis por gestões erráticas de Banana Republics, bem antiguinhas e caricaturais dos anos 40.

O bisonho Chanceler parece não se dar conta de que o jogo internacional praticado por adultos exige confidencialidade e artimanhas, sutilezas e discrição. Até silêncios.

Finalmente não tenho sequer coragem de abordar a última (e repelente) declaração pública do Chanceler – que parece usar fraldas e nunca ter ouvido falar do que seja a solenidade de um fraque – de que não vê problema em o Brasil se tornar pária internacional. Uma consequência imediata dos descaminhos sofridos por suas maluquices contra os interesses nacionais nesses últimos tempos. Embora ele será um pária sim. Mas a consagrada diplomacia brasileira hoje em declínio, jamais.

Fico a refletir como meus antigos colegas da Escola Superior de Guerra, inclusive intelectuais de procedências as mais diversas, estarão “a se por escarlates de vergonha”, como apregoava Eça de Queiroz ao se referir à asneiras cavalares de politiqueiros do século XIX.

Não, nada disso tudo esboçado acima, apenas esboçado, me movimenta a desabafar aqui. O que me estimula a bramir indignação agora é o desrespeito que Ernesto Araújo desferiu contra o poeta e diplomata João Cabral de Mello Neto, ao discursar na formatura dos novos integrantes da diplomacia pelo Instituto Rio Branco, que escolheram um dos mais altos brasileiros do século XX como seu patrono, exatamente João Cabral, acusado de militante comunista e inimigo do seu próprio país. Logo ele, a mais refinada flor de Pernambuco e de seus sertões profundos. Até de climatista (?) e de iluminista (?) Cabral foi batizado. Para incompreensão geral.

O insulto a um dos mais universais poetas do Brasil, tal como seu colega e amigo Vinicius de Moraes, agora consagrado pela nova encíclica do Papa Francisco, tirou os pés do meu chão. E me nocauteou, como a todos os escritores do país. Porque, se Vinicius foi citado pelo “Samba da Benção”, João Cabral poderia ser citado na mesma encíclica por “Morte e Vida Severina”, cujo poema musicado por um Chico Buarque de 20 anos exala solidariedade e aflição aos brasileiros despossuídos e com fome, em busca de um palmo de terra ao menos para enterrar seus restos mortais.

O insulto, na verdade, atinge à toda nossa literatura mais credenciada, estende-se a todas as gerações de diplomatas que se formaram pelo Instituto Rio Branco, e culmina na grosseria aos jovens diplomatas que o escolheram patrono da turma de 2020. Realço, contudo, que o exótico Chanceler de Fraldas perpetrou supremo insulto ao se autointitular poeta, apenas para desrespeitar João Cabral. Tudo, menos isso.

Eu fiquei amigo do escritor desde seu histórico depoimento para o Museu da Imagem e do Som em 1967. E pude comprovar quando hóspede dele no Consulado em Barcelona que Cabral andou a dois passos de ser Prêmio Nobel de Literatura. Indicado que foi também pelo fortíssimo prestígio da Espanha de Cervantes nos meios literários. Mas, em especial, por seus amigos-irmãos, os pintores Juan Miró, Tápies, Juan Ponç, bem como seu grupo Avant-Garde Dau Al Set, além do celebrado escritor catalão Juan Brossa.

“O amor comeu meu nome, meu retrato / O amor comeu meus cartões de visita... / O amor comeu meus remédios, meu inverno, meu verão / Comeu meus silêncios, minha dor de cabeça / O meu medo da morte...”. (J. Cabral de Mello Neto).

 

Ricardo Cravo Albin é presidente do Pen Clube do Brasil, crítico de música e cronista.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 

                   Carnaval e Literatura Infantil

 

                                                     Elias José

 

            Não sei se os leitores já repararam, mas o Carnaval nunca foi tema explorado em literatura para crianças. O futebol aparece, mais raramente do que deveria, mas aparece. Agora me surpreendo com um livro novo do baiano de Itabuna, Cyro de Mattos, que sempre nos surpreende com novidades literárias, feitas com paixão, competência e talento. O Menino e O Trio Elétrico é a história de Chapinha, que vendia amendoim e adorava carnaval. Ele morria de vontade de ir atrás do trio elétrico, com abadá, quase impossível de ser adquirido pelo pobre, a animação e alegria que não perguntam por classe social. Sonha sair dançando e cantando com os seus artistas preferidos, divertindo-se com o seu povo. Curiosamente, Chapinha vendia amendoim, e isto é outra surpresa. Na nossa imaculada literatura para crianças é quase proibido, é politicamente incorreto falar do trabalho de crianças, como se isto não fosse problema brasileiro, de norte a sul. Um tema que merece inclusive melhor discussão por parte de nossa sociedade e pede a criação de muitas escolas profissionais. Mas isto é assunto para outro dia. Agora, eu quero é acompanhar Chapinha, menino negro e esperto, em sua luta pela sobrevivência diária e pelo seu sonho de carnavalesco.

            Para dar mais realismo e, ao mesmo tempo, mais fantasia à história de seu herói, Cyro de Mattos levanta o roteiro carnavalesco dando nomes de ruas e trios que por elas passam. Coloca na rua, isto é, no seu livro, os mais famosos trios elétricos de Salvador, com os seus ídolos cantores puxando o ritmo, acompanhados pelos muitos músicos competentes e pelo maior coro da terra. O coro dos foliões de todo o país e até do exterior. Se o ritmo contagiante e a alegria chegam até o leitor, acompanhados das cores alegres da festa mais popular da Bahia, imaginem como acontece no imaginário e nos sonhos daquele menino louco por carnaval. Daquele menino dono de todas aquelas ruas. Como um menino pode ficar indiferente diante de uma festa popular e tão nossa, que está dentro de nós através de tantas heranças culturais? Como não torcermos para que esse menino Chapinha consiga realizar os seus sonhos, tornando-se mais um no bloco, ou melhor, no trio elétrico? Se ele conseguirá ou não, o autor em depoimento não quis revelar na última capa do livro. E não serei eu que vou quebrar o prazer da descoberta pelo leitor, seja ela alegre ou triste. Se o final for triste, deveremos perdoar o autor, pois nem tudo tem que dar certo, assim a vida nos ensina no dia-a-dia. Se o final for um carnaval daqueles de não se esquecer nunca, a melhor saída do leitor é fechar o livro após o final e, imaginariamente, entrar também num trio elétrico, com toda euforia, energia e alegria exigidas.

            Para concluir, devo dizer que o tema carnaval, em literatura infantil, pode e deve dar samba. Todo mundo sabe que o samba da Bahia é mais axé, feito para pular, curtir, e não para ouvir em casa.  Todo mundo sabe que os sambas de enredo do Rio de Janeiro são todos iguais e quase sempre chatos, válidos apenas enquanto belas escolas desfilam. Axés e sambas de enredo duram aqueles poucos dias de carnaval, nem têm qualidade de música e letra para sobrevivência eterna, a não ser as raras exceções, como aconteceram com centenas de sambas e centenas de marchinhas em nosso cancioneiro popular. Mas ninguém pensa nisto na hora da folia, o assunto é bem outro. Cyro de Mattos não pretende discutir raízes culturais e carnaval, arte e massificação na história contagiante e deliciosa de Chapinha.

O que Cyro de Mattos mostra nessa história de um menino que tem dificuldades para levar a vida, vive numa casa acanhada com a mãe e vó Pequena, é a festa que move e comove, envolve e faz a gente acreditar na alegria. Alegria que pode ser de velhos, adultos, jovens, adolescentes e crianças. Em qualquer parte do Brasil, acontece a alegria do carnaval, mas não adianta discutir, em Salvador, Recife, Olinda e no Rio de Janeiro a vibração é diferente. Por ser uma festa tão cara à cultura brasileira, por que o carnaval ficar distante das obras de arte voltadas para o público infantil?  

 

 

* Elias José é mineiro de Guaxupé. Contista, romancista e autor de mais de 50 livros para meninos e jovens. Ganhou inúmeros prêmios, como o Jabuti, Fundação Educacional do Estado do Paraná (FUNDEPAR) e o Odylo Costa Filho, da Fundação de Literatura Infantil e Juvenil. Publicou, entre outros, “Viagem ao Fundo do poço”, contos, “Inventário do Inútil”, romance, “Lua no Brejo”, juvenil, e “Um Pouco de Tudo”, infantil. 

 

** O menino e o trio elétrico, Cyro de Mattos, Prêmio da União Brasileira de Escritores (Rio de Janeiro), Atual Editora, São Paulo, 2007.

 

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

 

                 Cyro de Mattos Vai Receber

                 Medalha Zumbi dos Palmares

 

          O escritor e poeta Cyro de Mattos vai ser distinguido pela Câmara de Vereadores de Salvador com a Medalha Zumbi dos Palmares, em sessão virtual que será realizada no próximo dia 3 de outubro, às 19 horas. O projeto de outorga da Medalha Zumbi dos Palmares ao escritor baiano é de autoria do jurista e vereador Edvaldo Brito, que é membro da Academia de Letras da Bahia.  

       Autor premiado, Cyro de Mattos pertence a instituições culturais importantes, e, entre elas, a Academia de Letras da Bahia e o Pen Clube do Brasil. Tem no seu currículo um enorme acervo literário, com cerca de 50 livros publicados, de vários gêneros, além de ser também editado em Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha. Um dos temas de seus livros é a da valorização do negro com a sua cultura e valores, suas tradições e modos de ser na vida, os quais até hoje vêm sendo alvo da injustiça, preconceito e violência.

        Além de contos, poemas e crônicas que tratam das questões do negro em vários de seus livros, de sua obra destacam-se a narrativa Natal das Crianças Negras, em seis idiomas, editada também na Itália pela Editora Aracne, a história infantojuvenil O Menino e o Trio Elétrico, Prêmio da União Brasileira de Escritores (RJ), também publicada em Milão pela Editora Romar, na tradução da poeta Mirella Abriani, assistente cultural da Casa de Verdi, e Poemas de Terreiro e Orixás, das Edições Mazza, casa especializada na publicação de livros com assuntos do negro.

 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

 

                                 Nada Era Pior

                                      Cyro de Mattos 

 

 Não existia nada pior no mundo do que tomar remédio de óleo de rícino. Como outros meninos lá da rua, todos os anos tinha de beber um copo com aquela droga de remédio, que dava enjoo quando descia na garganta. O cheiro do remédio  no copo cheio provocava um frio no corpo todo, de tal forma era o medo quando pensava que tinha de beber outra vez aquele purgante pior do que o pior dos castigos. Não havia menino lá da rua que tivesse tomado aquela coisa pastosa e dissesse  ser aquilo algo que se podia enfrentar sem fazer cara feia. A melhor coisa que se fazia quando fosse tomar aquele troço era fechar os olhos e pedir que  ele descesse rápido pela garganta.

Disse  que daquela vez não tomaria o remédio. Arranjasse minha mãe outro tipo de remédio para combater as lombrigas na barriga. Ela advertiu que a vida era feita também de momentos nem sempre bons. O remédio ia matar todas as lombrigas da barriga. Se tomasse o purgante de óleo de rícino, ao invés  daquela palidez no rosto, eu ia ficar corado. Meu apetite voltaria. Bem alimentado iria crescer como um menino sadio. Afastaria assim minha indiferença para fazer os deveres da escola. Para não falar no fôlego que ia ter no jogo de bola ou em qualquer brincadeira que exigisse esforço. Ia ser o mais veloz nadador no rio Cachoeira, entre todos os meninos lá da rua.

Não adiantava minha mãe argumentar para encorajar-me a beber o purgante terrível, que deixava qualquer menino assustado só em ouvir falar nele. Preferia ficar pálido, magro com pele e osso. Sem o fôlego e vontade de correr no jogo de bola quando a partida fosse disputada, o placar desfavorável para a minha equipe, já em boa parte do segundo tempo. Era melhor passar como jogador desinteressado do resultado sendo desfavorável ao meu time do que beber aquela droga com gosto de óleo, cheiro horrível, que dava tontura no corpo, fazendo as vistas ficarem turvas quando chegava a hora de bebê-la. Gritei, esperneei, esmurrei a porta. Derrubei a cadeira, chutei o travesseiro, quis rasgar o lençol da cama. Chorei forte para que o mundo todo ouvisse., cerrei os dentes para que não entrasse uma gota daquela droga em minha boca.

Meu pai foi chamado para interferir e convencer-me de que o remédio era para fazer bem à minha saúde. Ele não era homem de muita conversa nessas horas. Com o cinturão grosso preso na mão, advertia que me dava cinco minutos para beber o purgante  de óleo de rícino para matar os vermes na barriga, se não quisesse provar de outro remédio ali mesmo. Uma boa surra com o cinturão grosso. E ainda ficar sem ir à matinê do Cine Itabuna no domingo para assistir ao filme “O Pirata dos Sete Mares”, estrelado por Paul Henreid, um dos meus ídolos. O jeito foi chamar por Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, minha madrinha, para que me encorajasse para beber aquela porqueira. Livrasse-me daquele castigo e fizesse com que eu não sentisse nada quando o remédio entrasse na boca, descesse lento na garganta como um bolo de pasta repelente e fosse se alojar lá dentro na barriga.

Costumava beber o remédio de madrugada, em jejum, O efeito já era visto durante o dia.  Expelidas da barriga, as lombrigas iam descendo mortas pelo vaso sanitário. Não sabia como era que aquelas iscas grandes nasciam e se criavam dentro de minha barriga. Minha mãe não deixava de ter suas razões quando insistia para que eu bebesse o purgante com óleo de rícino, se não quisesse que acontecesse comigo o que se passou com o filho do dono da venda.

Carlito Caburé nunca quis tomar a droga daquele remédio para combater os vermes que estavam engordando dentro da barriga dele. Ele já estava com a cor tão pálida que parecia não ter sangue no rosto. Os braços e as pernas pareciam que não tinham carne, de tão murcha. Não morreu por um triz. O pai teve de amarrar os braços dele .na cabeceira da cama enquanto a mãe enfiava de vez na boca dele o gargalo da garrafa de guaraná com o óleo de rícino. Quando ele acabou de beber o remédio, esbravejou, xingava  a Deus e o mundo.

Meu resguardo demorava três dias após tomar o remédio de óleo de rícino. A comida agora era leve.  Nada de comida oleosa, com fritura, ensopado de carne ou galinha. Nem peixe com dendê. Era somente chá com torradas na refeição matinal.  Canja de galinha no almoço. De novo chá com torradas na refeição do jantar. Sobremesa com doce nem implorasse., minha mãe tinha todo o cuidado em minha alimentação especial, para que assim o remédio tivesse um efeito rápido. Minha refeição devia ser leve para que o purgante fizesse uma lavagem rigorosa em minhas tripas. Qualquer comida gordurosa poderia alimentar e fortalecer algumas lombrigas, que tivessem resistido ao purgante. Se isso acontecesse, o remédio de óleo de rícino teria um efeito fraco e, fatalmente, devia ser repetido.

Da última vez que bebi aquela nojeira, com a cara feia de sempre, minha mãe presenteou-me com um ioiô. Enquanto durava o resguardo, ficava agora o tempo todo em pé, na beira da cama, jogando o ioiô  para lá e para cá. Exercitava-me fazendo malabarismos com o ioiô no quarto. Treinava de manhã, à tarde e antes de dormir. Preparava-me assim para enfrentar Ney Gaguinho, o filho do vizinho, que morava no sobrado ao lado, Naquela brincadeira de jogar o ioiô, ele fazia malabarismos inacreditáveis. Quando lançava o ioiô, puxando-o rápido pelo cordão, deixava de boca aberta quem estivesse assistindo.

Depois que eu recebi alta, comecei aos poucos a me alimentar com as comidas que mais gostava: ensopado com carne de carneiro, galinha ao molho pardo, carne-de-sol fritada, doce de batata-doce na sobremesa. Aí um dia chamei o Ney Gaguinho para jogar ioiô comigo, para ver quem era melhor para fazer malabarismos com o brinquedo. Dessa vez foi ele quem ficou espantado com os malabarismos que eu fazia. Deixava que o ioiô fosse para qualquer direção, puxando-o em seguida pelo cordão com habilidade e ligeireza. A facilidade que demonstrava em fazer os mais incríveis malabarismos com o ioiô arrancava agora aplausos demorados dos amigos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

 

            Poema “Ilhéus” de Cyro de Mattos

            Participa de Livro Didático da Ática 

 

          A Editora Ática incluiu na obra didática Linguagens e Suas Tecnologias- Meio Ambiente o poema “Ilhéus”, de Cyro de Mattos, soneto que faz parte  do livro  Cancioneiro do Cacau, segunda edição, Editus, editora da UESC, que deu ao autor o Prêmio Nacional de Poesia Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores – Rio e  Segundo Lugar no Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, Genova, Itália.

    A obra Linguagens e Suas Tecnologias – Meio Ambiente tem a tiragem de dez mil exemplares e foi elaborada por uma equipe de professores especializados e, entre eles, os pedagogos Alexandre Faccioli e Bruna Denise  Garófalo de Souza.  Autor de vasta obra, de diversos gêneros, os contos e poemas de Cyro de Mattos estão inclusos em dezenas de antologia, no Brasil e exterior.

      Leiam o soneto inspirado em Ilhéus: Chegando de surpresas pela praia, / Navegava meu barco nos teus mares,/ Ao vento triunfavam jubas brancas, / De peixes multicores a enseada // Ofertava-me prata pelas ondas, / Cantigas de sereia no meu peito,/ Nos meus olhos raras águas-marinhas, / Soltos meus cabelos em verde brisa. // Ao teu porto, hoje, capitão retorno, / Entre naufrágios e quilhas suicidas, / De vagas sei com tigres ressentidos. // Nas dunas não me importam os encalhes, /Busco-te arquipélago nas espumas/ Na força do amor todo azul navego.

 

 

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

 

           

              Encontro na Alemanha

  Cyro de Mattos

 

 

O falecimento do professor, historiador e cientista político Luiz Alberto de Viana Moniz Bandeira, ocorrido em 10 de novembro,  na Alemanha, é uma perda imensa para a cultura brasileira. Abalou a Academia de Letras da Bahia, da qual era membro correspondente e mantinha relações de amizade intensa com alguns de seus filiados. Foi um pioneiro no estudo das Relações Internacionais.

Radicado na cidade alemã de Heidelberg,  era cônsul honorário do Brasil. Em 2015, foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores (UBE/SP), em reconhecimento pelo seu trabalho como intelectualdedicado a repensar o Brasil. Em 2016, foi homenageado na UBE com o seminário "80 anos de Moniz Bandeira", ocasião em que sua obra foi destacada por importantes personalidades do meio acadêmico, político e diplomático.

 Além de influente intelectual, Moniz Bandeira teve uma importante trajetória de militância política, como filiado ao Partido Socialista Brasileiro. Conheci essa criatura rara  na Alemanha,  quando fui participar da Feira  Internacional do Livro de Frankfurt em 2010, como convidado. Meu livro Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas foi traduzido para  o alemão por  Curt Meyer-Clason. A editora reservou-me espaço para em seu stand participar de uma tarde de autógrafos.  O país  que seria homenageado nessa oportunidade da Feira do Livro era a Argentina. Confiando em meu inglês, que dava para o gasto corriqueiro, permitindo que eu não passasse fome, tomei ânimo e fui participar desse evento internacional do livro, considerado como o maior encontro mundial no setor editorial.

         Quando desembarquei em Frankfurt, logo fiquei assustado com o tamanho do aeroporto e o grande movimento de pessoas, vindas de muitos países deste planeta. Tudo ali era grande e incalculável.  Não podia imaginar que fosse tão imenso e nele uma babel sem limites ressoasse como uma colmeia humana inacreditável.   

Na casa do cônsul brasileiro Cézar Amaral, em Frankfurt, onde autores que participavam da Feira Internacional do Livro foram recepcionado, tive o especial prazer de conhecer Moniz Bandeira. Autor de muitos livros, na área da política mundial, tão prestigiado na Europa. Falou-me de sua alegria em ser membro da Academia de Letras da Bahia, dos seus ancestrais em terras da Bahia e de outras saudades que acenderam seu coração durante nossa conversa, temperada com casos, nomes e eventos ocorridos em terras da sua querida Bahia. De um desses acontecimentos relatados pelo ilustre patrício,  tomei conhecimento  que na sua linhagem genealógica estava  presente a relação de parentesco  com Diogo Álvares Correia, um náufrago português por volta de 1510,  apelidado de Caramuru,  que fora bem acolhido pelos índios tupinambás. Casou com a índia Paraguaçu, foi o fundador do município baiano de Cachoeira e se tornou um dos inventores do Brasil.

Dessa maneira foi que fiquei sabendo que, de Caramuru ao cientista político Moniz Bandeira, o tempo, que sabe todos os caminhos, atava as pontas do destino para caminhar como brasileiro em terras da Alemanha e do mundo. (Do livro Gabriel García Márquez e Outras Crônicas, no prelo da Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz) 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

 

Dois Escritores Resgatam

Memória do Cronista

Fernando Leite Mendes

   

       A editora baiana Via Litterarum acaba de publicar a antologia O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas, de Fernando Leite Mendes, baiano de Ilhéus, com prefácio, notas e organização dos escritores Cyro de Mattos e Ivo Korystowski. Para o escritor e poeta Cyro de Mattos,  Fernando Leite Mendes, que nos deixou aos 48 anos,  nada deve aos cronistas melhores de sua época, década de 50 no Rio de Janeiro, como Carlinhos Oliveira, Paulo Mendes  Campos, Rubem Braga, Drummond, Carlos Heitor Cony, Stanislaw Ponte Preta, Fernando  Sabino e Rachel de Queiroz,  dentre outros.

     A antologia O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas é acrescida de prefácio, depoimentos e pesquisa iconográfica realizada pelos organizadores.   A ilustração da capa é da desenhista ilheense Jane Hilda Badaró. Cyro de Mattos é autor de vasta obra, de vários gêneros, membro das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna, Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, também editado no exterior, além de detentor de prêmios importantes. Publica quinzenalmente uma crônica na revista da crônica RUBEM, de Brasília.

Ivo Korytowski é jornalista, tradutor e romancista premiado pela União Brasileira de Escritores (Rio). Reside em São Paulo. É o editor dos conceituados blogs Literatura & Rio de Janeiro & São Paulo e Sopa no Mel. Para selecionar as crônicas que compõem esse livro póstumo, seus organizadores fizeram ampla pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.  

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 

                        Encontro na Alemanha

                Cyro de Mattos

 

 O falecimento do professor, historiador e cientista político Luiz Alberto de Viana Moniz Bandeira, ocorrido em 10 de novembro,  na Alemanha, é uma perda imensa para a cultura brasileira. Abalou a Academia de Letras da Bahia, da qual era membro correspondente e mantinha relações de amizade intensa com alguns de seus filiados. Foi um pioneiro no estudo das Relações Internacionais.

Radicado na cidade alemã de Heidelberg,  era cônsul honorário do Brasil. Em 2015, foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores (UBE/SP), em reconhecimento pelo seu trabalho como intelectualdedicado a repensar o Brasil. Em 2016, foi homenageado na UBE com o seminário "80 anos de Moniz Bandeira", ocasião em que sua obra foi destacada por importantes personalidades do meio acadêmico, político e diplomático.

 Além de influente intelectual, Moniz Bandeira teve uma importante trajetória de militância política, como filiado ao Partido Socialista Brasileiro. Conheci essa criatura rara  na Alemanha,  quando fui participar da Feira  Internacional do Livro de Frankfurt em 2010, como convidado. Meu livro Vinte Poemas do Rio e Outros Poemas foi traduzido para  o alemão por  Curt Meyer-Clason. A editora reservou-me espaço para em seu stand participar de uma tarde de autógrafos.  O país  que seria homenageado nessa oportunidade da Feira do Livro era a Argentina. Confiando em meu inglês, que dava para o gasto corriqueiro, permitindo que eu não passasse fome, tomei ânimo e fui participar desse evento internacional do livro, considerado como o maior encontro mundial no setor editorial.

         Quando desembarquei em Frankfurt, logo fiquei assustado com o tamanho do aeroporto e o grande movimento de pessoas, vindas de muitos países deste planeta. Tudo ali era grande e incalculável.  Não podia imaginar que fosse tão imenso e nele uma babel sem limites ressoasse como uma colmeia humana inacreditável.   

Na casa do cônsul brasileiro Cézar Amaral, em Frankfurt, onde autores que participavam da Feira Internacional do Livro foram recepcionado, tive o especial prazer de conhecer Moniz Bandeira. Autor de muitos livros, na área da política mundial, tão prestigiado na Europa. Falou-me de sua alegria em ser membro da Academia de Letras da Bahia, dos seus ancestrais em terras da Bahia e de outras saudades que acenderam seu coração durante nossa conversa, temperada com casos, nomes e eventos ocorridos em terras da sua querida Bahia. De um desses acontecimentos relatados pelo ilustre patrício,  tomei conhecimento  que na sua linhagem genealógica estava  presente a relação de parentesco  com Diogo Álvares Correia, um náufrago português por volta de 1510,  apelidado de Caramuru,  que fora bem acolhido pelos índios tupinambás. Casou com a índia Paraguaçu, foi o fundador do município baiano de Cachoeira e se tornou um dos inventores do Brasil.

Dessa maneira foi que fiquei sabendo que, de Caramuru ao cientista político Moniz Bandeira, o tempo, que sabe todos os caminhos, atava as pontas do destino para caminhar como brasileiro em terras da Alemanha e do mundo. (Do livro Gabriel García Márquez e Outras Crônicas, no prelo da Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz) 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

 

Academia de Letras de Itabuna

Publica Sua Revista Guriatã/ 3

 

Com o selo da Libri Editorial, de Brasília, a Academia de Letras de Itabuna acaba de publicar o número 3 da sua revista Guriatã na qual traz artigos e ensaios, poesia, ficção, textos diversos, discursos e registros, assinados  pelos acadêmicos integrantes do corpo de associados e por escritores convidados, além de  divulgar uma série de atividades literárias e culturais dos membros da instituição.

Segundo o editor da revista, escritor  e poeta Cyro de Mattos, que também é membro efetivo da Academia de Letras da Bahia,  no editorial “Revista como pássaro das letras e da cultura”,   como cidadela de resistência, arquitetada na palavra escrita, Guriatã vem pela terceira vez   com o seu canto para repercutir  em espaço de construção de conhecimento, permuta de experiências literárias, em especial  as que são produzidas  na região Sul da Bahia.

Segundo ele, “Guriatã comporta o pensamento e o sentimento como crença de que o veículo dessa natureza impresso ainda funciona no contexto dos tempos atuais, em que prevalece a imagem visual e/ou a linguagem internética movida pela rapidez e globalização do que transmite.”

A Academia de Letras de Itabuna (ALITA) é presidida atualmente pela professora  Silmara Oliveira. A revista apresenta dessa vez textos de Reheniglei Rehem, Heloísa Prazeres e Marcus Mota, doutores em Letras;  ensaio de Cyro de Mattos sobre romance de estreia de Dostoiewski;   poemas de Telmo Padilha, Valdelice Pinheiro, Walker Luna, Ruy Póvoas, Renato Prata e Ceres Marylise; contos de Aramis Ribeiro Costa, Lilia Gramacho e Gerana Damulakis;    crônicas de Raquel Rocha, João Otávio e  Ruy Espinheira Filho;   discursos de Sônia Maron e Silmara Oliveira, além de ampla  divulgação das atividades literárias e culturais dos membros da instituição. 

 

Academia de Letras de Itabuna Publica Sua revista Guriatã 3

 

Academia de Letras de Itabuna

Publica Sua Revista Guriatã/ 3

 

Com o selo da Libri Editorial, de Brasília, a Academia de Letras de Itabuna acaba de publicar o número 3 da sua revista Guriatã na qual traz artigos e ensaios, poesia, ficção, textos diversos, discursos e registros, assinados  pelos acadêmicos integrantes do corpo de associados e por escritores convidados, além de  divulgar uma série de atividades literárias e culturais dos membros da instituição.

Segundo o editor da revista, escritor  e poeta Cyro de Mattos, que também é membro efetivo da Academia de Letras da Bahia,  no editorial “Revista como pássaro das letras e da cultura”,   como cidadela de resistência, arquitetada na palavra escrita, Guriatã vem pela terceira vez   com o seu canto para repercutir  em espaço de construção de conhecimento, permuta de experiências literárias, em especial  as que são produzidas  na região Sul da Bahia.

Segundo ele, “Guriatã comporta o pensamento e o sentimento como crença de que o veículo dessa natureza impresso ainda funciona no contexto dos tempos atuais, em que prevalece a imagem visual e/ou a linguagem internética movida pela rapidez e globalização do que transmite.”

A Academia de Letras de Itabuna (ALITA) é presidida atualmente pela professora  Silmara Oliveira. A revista apresenta dessa vez textos de Reheniglei Rehem, Heloísa Prazeres e Marcus Mota, doutores em Letras;  ensaio de Cyro de Mattos sobre romance de estreia de Dostoiewski;   poemas de Telmo Padilha, Valdelice Pinheiro, Walker Luna, Ruy Póvoas, Renato Prata e Ceres Marylise; contos de Aramis Ribeiro Costa, Lilia Gramacho e Gerana Damulakis;    crônicas de Raquel Rocha, João Otávio e  Ruy Espinheira Filho;   discursos de Sônia Maron e Silmara Oliveira, além de ampla  divulgação das atividades literárias e culturais dos membros da instituição.