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sábado, 15 de julho de 2023


 

Gostaria de informar que meu livro Infância com Bicho e Pesadelo & Outras Histórias foi concluído a com êxito pela editora Almedina, que tem matriz no Brasil e em Portugal. No momento, ele está na gráfica e deve chegar até o fim do mês, sendo disponibilizada no site da editora  e distribuída nas principais livrarias do ramo a partir de agosto. A pré-venda está disponível no https://www.almedina.com.br/produto/infancia-com-bicho-e-pesadelo-11803.

 Prêmio Literário Casa das Américas de 2023, em Havana, Cuba, 'Infância com Bicho e Pesadelo & Outras Histórias', segundo o editorial da Almedina, “é um livro de contos fascinantes, que vão do fantástico ao realista. A prosa de Cyro de Mattos encanta, comove e faz com que o leitor reflita sobre as sutilezas de mundos que mudam mais lentamente ou mais rapidamente do que os habitantes desejariam, e nem sempre para melhor.”

As narrativas que compõem Infância com Bicho e Pesadelo & Outras Histórias são estas: Infância com Bicho e Pesadelo, Ladainha nas Pedras, Inocentes e Selvagens, Coronel, Cacaueiro e Travessia, O Cavaleiro Vingador contra o Mandão da Crueldade, Restos da Mata, Pelas Águas, Pai, Filha, Os Recuados, Berro de Fogo, As Ligações do Padre com a Vizinha e Todo o Peso Terrestre.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

 

           A CIDADE NA MEMÓRIA

               Cyro de Mattos

 

Para

Augusto Mário Ferreira

- em memória         

 

 

Cidade adolescente, dos anos 50, de poucas ruas calçadas, o trem como uma coisa viva partia e chegava, trazia cargas de peixe, cordas de caju e caranguejo, coco, beiju de Água Branca; do circo pequeno com a lona furada, o maior espetáculo da terra era anunciado pelo palhaço nas pernas de pau, tinha o nariz de limão e, em pouco tempo, a garotada no coração; da lua derramando prata no areal deixado pela cheia do rio Cachoeira, onde a turma da rua de cima jogava com a da rua de baixo a partida mais disputada, dos tiradores de areia que passavam com os jumentos carregando latas de areia, as casas ribeirinhas nessa hora como que tomavam a  bênção ao velho rio, ajoelhando suas fachadas; cidade ingênua, com pobreza mas sem misérias, com os dias alegres da filarmônica que no encanto do som convidava o povo na praça para voar na valsa; cidade que tropeçava na lama com as tropas que passavam suadas, os sacos de cacau no lombo, a cadência e os guizos de uma música sonante nos dias de verão, o tropeiro com o lenço na testa, o chicote  silvando o ar pelas ruas esburacadas; cidade com a delícia sempre renovada dos roletes de cana do Campo da Desportiva e dos sorvetes do gringo Sussa, cuja fórmula, se dizia, vinha do Líbano e era guardada como segredo de família sob sete capas; cidade namoradeira com os casais que passavam de mãos dadas no jardim da prefeitura e, na pracinha de Santo Antônio, na Missa do Galo, trocavam bilhetes e olhares ingênuos.

Cidade que, na estrada de barro, lá se ia aos solavancos com as marinetes cheias de roceiros, fazendeiros, comerciantes, quando chegavam de  Ilhéus causavam grande tumulto na pequena estação, os carregadores disputavam as bagagens que saiam pelas janelas, o “13” era preto, o “21” aleijado e o “16” cobrava um cruzado; na procissão da Sexta Feira Santa, gente rica e pobre caminhava descalça, os rostos cabisbaixos, o peito contrito, os passos arrastados  com suas marcas doídas nas pedras cor de vinho, mas no sábado a Aleluia como num coro de milhões de passarinhos anunciava que Jesus  renasceu, tudo era alegria, já não havia mais ofensa nem espinho; cidade sapeca quando era tempo de São João, o céu aceso com balões, bombas e fogos por todos os cantos, em  qualquer casa qualquer um aparecia para rimar licor com canjica, ao pé da fogueira a emoção crepitava afoita e quente em cada peito; cidade deixando que eu acontecesse no sonho acordado com o beijo dado na primeira namorada, como torcedor do Itabuna Futebol Clube, o primeiro time profissional no interior, com meus craques inesquecíveis, Delicado, Ranulfo, Louro, Carrapeta e Bacurau.

Dessa cidade aconchegante convivem em mim todos os cheiros da vida. De manhã fresca e de mata escura. Cheiro de suor, de burro, de cacau, de fêmea, de chuva. Cheiro que me faz viver um pouco no seu imaginário, contando suas histórias, escutando suas vozes e sombras na roda do tempo, seu perfume suavizando meu ser no movimento dos dias.

Não sei, minha cidade, de imagens mais claras, belas, do que aquelas que a minha mente grava de ti, quanto mais os dias passam, faça sol ou chuva.

 

domingo, 9 de julho de 2023

       Meu Bahia na mocidade  

       Cyro de Mattos 

        Depois que vi o Bahia jogar em minha cidade natal, no velho Campo da Desportiva, passei a ter duas paixões como fiel torcedor de um time grande de futebol. Agora era torcedor do Vasco da Gama do Rio e do Bahia de Salvador. Já crescido, esse mesmo menino dentro do rapaz, que fora estudar em Salvador, saberia das gloriosas conquistas de seu novo time de futebol com as cores azul, vermelho e branco.  Procediam do querido Bahia, famoso tricolor de aço, um time sem igual, o que nasceu para vencer na boca do torcedor. O moço do interior apegara-se tanto ao famoso esquadrão tricolor que não parava de torcer na arquibancada de cimento do estádio da Fonte Nova durante o desenrolar da partida. Tinha certeza da batalha vencida quando a partida jogada era válida pelo campeonato. Vibrava inquieto com as jogadas magistrais dos craques de seu time do coração, ídolos para ver e não esquecer. No meio da torcida desfraldava a bandeira de seu amado tricolor baiano, não perdia um jogo, soltava da garganta o grito de gol com todas as forças que pudesse retirar do coração de adolescente.    
         As vitórias desse Bahia vitorioso empolgavam, atravessam agora a memória do torcedor idoso e se aninham no fundo do gol como se o ontem fosse o hoje. Emerge do fumo do tempo com a sua maneira afetiva e festiva de se manifestar no teatro da bola. Tem o hábito de fazer com que o torcedor seja capaz de se reinventar diante do sol partindo-se na gargalhada da vitória. É o autor de proezas como poucos times conseguem realizar quando então a torcida entra em delírio, justamente no momento em que a bola foi morrer no fundo do gol quando a derrota parecia ser inevitável. Bahia! Bahia! Bahia! O grito sonoro de mais um Bahia, repetido seguidas vezes, de repente faz com que o pobre fique rico, o gago aprenda a falar, qualquer um  se torne herói ante os maiores desafios da vida.
           O grito do torcedor entusiasmado propaga-se com os sons da alegria derramados ao toque do hino eletrizante do time, a invadir as ruas e os becos da cidade de santos e orixás.  Em pouco instante a maior felicidade cabe em vários cantos da cidade com a sua beleza antiga; por onde o trio elétrico segue tocando o hino tricolor a festa da vitória irrompe e não cessa com as vozes do amor impregnadas de fé pelo time mais popular da Bahia.  
           Há muito tempo soube que a vida tem algo diferente para o torcedor do Bahia. Principalmente quando a bola balança a rede do gol adversário com o chute desferido pelo craque Léo Briglia.
           Num pacto da emoção com a paixão, selado com a conquista de outro campeonato, há então um torcedor veemente que proclama:
            - Deus me livre não ser torcedor do Bahia!  
           Ah, meu Bahia, de uns anos para cá, vejo-te tropeçando nas pernas, sem aquela garra e técnica admiráveis, que o faziam brilhar com as vitórias nos gramados baianos e de fora. Ando meio sem graça com sua performance, rolando nos últimos lugares do campeonato brasileiro de futebol, lutando para não ser rebaixado para a segunda divisão. Como dói. Tenho saudades de mim.       

quinta-feira, 6 de julho de 2023

 

Um Embaixador Mexicano no Rio

        Cyro de Mattos

 


                Graças à literatura tenho feito bons amigos. O último deles foi há poucos anos. É um americano, erudito, sensível, atencioso, qualidades inconfundíveis de seu caráter. Professor Emérito da Universidade de Austin, Texas, 
Fred Ellison tem um amor forte pelo Brasil. O abraço rico que vem dando há anos ao nosso País manifesta-se no ensino de língua e literatura brasileira nos Estados Unidos, passa pelo ensaísmo lúcido e alcança traduções admiráveis de autores importantes de nossas letras, como Rachel de Queiroz, Helena Parente Cunha, Adonias Filho e Affonso Romano de Sant´Anna. Para minha sorte, alguns poemas de minha lavra levam a marca da tradução exemplar do caro amigo.

“Brasilianista” dos melhores, Fred Ellison proporciona agora em “Alfonso Reyes e o Brasil” (Editora Topbooks, Rio, 2002) estudo substancioso sobre a temporada que o embaixador-poeta mexicano passou entre nós, morando no Rio, cidade que tanto o encantou desde que aqui chegou. O assunto encontra no americano o ensaísta maior. A pesquisa criteriosa do espírito sensível, que caminha de mãos dadas com o discernimento para erguer na escrita agradável uma vida intelectual plena de reflexões, projeções, esperanças e realizações em chão brasileiro.

Desse livro emerge todo o clima intelectual e emotivo que o embaixador-poeta mexicano teve pelo Brasil durante os sete anos em que aqui esteve. Abordam-se como nenhum intelectual brasileiro tentou fazer até hoje, o que não deixa de ser omissão lamentável, as múltiplas atividades e relações culturais que Alfonso Reys empreendeu em prol do Brasil. Foram anos em que ele, morador do Rio, dedicou-se de modo afetuoso às relações diplomáticas e à cultura brasileira, em namoro intenso, de quem escreveu contos, poemas e ensaios tendo como ponto de referência nossas coisas e gente.

              O livro de Fred Ellison é leitura obrigatória para quem quiser saber sobre a vida cultural do Brasil nos anos 30. Reconhecer intelectuais do círculo de relações de Alfonso Reyes, bem como suas atuações culturais em nossas artes e letras. Cecília Meireles, Oswald de Andrade, Renato Almeida, Di Cavalcanti, Portinari, Cícero Dias, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Alceu Amoroso Lima, estes foram alguns de nossos homens de letras e artes que se tornaram amigos desse embaixador e escritor de extração renascentista. Manuel Bandeira fala do mexicano com afeto em “Rondó dos Cavalinhos”, no almoço de despedida oferecido por diplomatas e entidades brasileiras no Jóquei Clube do Rio, e no outro poema “Rondó do Palace Hotel”, no qual os dois últimos versos, “Por alguém que não está presente/ No hall do Palace”, dizem respeito a Alfonso Reyes.


         


             O diplomata mexicano teve ânsias de entrar em contato com os intelectuais brasileiros assim que aqui chegou. No início, nossos homens de letras não foram tocados pelos acenos do mexicano, que nunca escondeu nas intenções e atitudes a 
inquieta admiração pelos brasileiros e sua paisagem. Momentos de amizade foram se fazendo com nitidez pouco depois, e, dos encontros que continuavam, a oportunidade era dada ao intercâmbio de ideias, informações e juízos críticos consistentes.

          Até hoje pouco se sabia da atuação e amor desse notável embaixador-poeta- mexicano pelo nosso País. Acredito que o mesmo se deu com a minha geração nos anos 60. No livro de Fred Ellison, através de entrevista concedida a Aurélio Buarque de Holanda, posso sentir como esse embaixador mexicano teve no Brasil uma temporada das mais felizes de sua vida, contribuindo para isso dois elementos essenciais: o homem e a natureza. “Tudo do melhor em minha existência”, ele assinalou, em momento de puro encantamento. E, nessa admiração contagiante pelo Brasil, de um estrangeiro enamorado do Rio, cada vez mais, tantos foram os elogios que todos os mexicanos quiseram vir ao Brasil como embaixador e desse modo lhe tomaram o posto.

Río de olvido

Alfonso Reyes

Río de EneroRío de Enero:

fuiste río y eres mar:

lo que recibes con ímpetu

lo devuelves devagar.

 

Madura en tu seno al día

con calmas de eternidad:

cada hora que descuelgas

se vuelve una hora y más.

 

Filtran las nubes tus montes,

esponjas de claridad,

y hasta el plumón enrareces

que arrastra la tempestad.

 

¿Qué enojo se te resiste

si a cada sabor de sal

tiene azúcares el aire

y la luz tiene piedad?

 

La tierra en el agua juega

y el campo con la ciudad,

y entra la noche en la tarde

abierta de par en par.

 

Junto al rumor de la casa

anda el canto del sabiá,

y la mujer y la fruta

dan su emanación igual.

 

El que una vez te conoce

tiene de ti soledad,

y el que en ti descansa tiene

olvido de lo demás.

 

Busque el desorden del alma

tu clara ley de cristal,

sopor llueva el cabeceo

de tu palmera real.

 

Que yo como los viajeros

llevo en el saco mi hogar,

y soy capitán de barco

sin carta de marear.

 

Y no quiero, Río de Enero,

más providencia en mi mal

que el rodar sobre tus playas

al tiempo de naufragar.

 

—La mano acudió a la frente

queriéndola sosegar—.

No era la mano, era el viento.

No era el viento, era tu paz..

 

 

*Do livro Romances del Río de Enero, 1932.

terça-feira, 4 de julho de 2023

 

Meus dizeres dos outros

Cyro de Mattos

 

“Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males.” (Voltaire)

“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” (Platão)

“Os covardes morrem muitas vezes antes de sua verdadeira morte; os valentes provam a morte só uma vez.” (Shakespeare)

“O esforço é grande e o homem é pequeno.”  (Fernando Pessoa)

“Está morto. Podemos elogiá-lo à vontade.” (Machado de Assis)

“O poeta municipal discute com o poeta estadual para saber qual deles é capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz.” (Carlos Drummond de Andrade)

"As paixões são os ventos que enfunam as velas dos navios; elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas não se pode navegar." (Montesquieu)

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” (Guimarães Rosa)

“Se alguém me provasse que Cristo está fora da verdade, e se realmente ficasse estabelecido que a verdade está fora de Cristo, eu preferiria Cristo à verdade.” (Dostoievski)

Pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males: os quais, enquanto alguns cobiçaram, eles se desviaram da fé e se traspassaram com muitas dores.” (Paulo)

“Um escritor é alguém congenitamente incapaz de dizer a verdade. Por isso, o que ele escreve chama-se ficção.” (William Faulkner)

“Os bons vi sempre passar no mundo graves tormentos. E mais para me espantar os maus vi sempre nadar em mar de contentamento.” (Luís de Camões)

“E desde então sou porque tu és. E desde então és, sou e somos. E por sermos serei... serás... seremos...” (Pablo Neruda)

“A solução dos problemas humanos terá que contar com a literatura, a música, a pintura, enfim com as artes. O homem necessita de beleza como necessita de pão e liberdade. As artes existirão enquanto o homem existir sobre a face da terra. A literatura será sempre uma arma do homem em sua caminhada pela terra, em sua busca de felicidade.” (Jorge Amado)

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem, ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar. “(Nelson Mandela)

 

“As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo?” (Mahatma Gandhi)

 

“Não preciso me drogar para ser um gênio. Não preciso ser um gênio para ser humano.  Mas preciso do seu sorriso para ser feliz” (Charles Chaplin) 

 

Cada um no seu canto escreve o seu tanto. Cada um no seu olho com a lágrima do pranto.” (Vó Ana)

“As obras de arte são de uma solidão sem fim tomada emprestada ao sonho. Nada pior do que a leitura superficial dos críticos de plantão ou a omissão dos que lhes viram a cara, não têm humildade para abordá-las.  Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas.” (Autor Desconhecido)

sábado, 1 de julho de 2023

 

          Anotações sobre o Dois de Julho

                  Cyro de Mattos

 

Eu era aluno do curso clássico no colégio da Bahia (Central) quando escutei de meu professor Luís Henrique Dias Tavares que a Bahia e o Brasil são inseparáveis. Meu professor era um homem de estatura pequena, mas que carregava no coração um forte amor e na razão um grande saber pelos caminhos históricos da Bahia. Observara em sala de aula, naqueles idos de 1956, que essa união insuperável procedia do fato de que o Brasil exerceu sua verdadeira independência em solo baiano.  Os mares da Bahia de Todos os Santos por sua vez deram seu abraço no entorno deste solo para que os baianos se libertassem do jugo do império português.

O movimento social e militar, iniciado em 19 de fevereiro de 1822, teve seu desfecho vitorioso em 2 de julho de 1823. O Dois de Julho tornou-se data importante para o povo baiano, que a festeja todos os anos com alma, força e vida.  Celebra um movimento desejoso de incorporar a então província na unidade nacional brasileira. Um movimento assim veemente com o qual o sentimento federalista latejava verdades no espírito emancipador do povo baiano. 

A independência do Brasil na Bahia não foi feita em gabinetes e salões, aconteceu nas ruas, nos campos de batalhas, com mortos e feridos. Contou com a participação decisiva do povo como protagonista. Indígenas, escravos libertos, gente humilde das classes baixas. Figuras de comando tiveram performance significativa no desenrolar da pugna. Sobressai o general Labatut como comandante de nossas forças militares no seco, enquanto Lord Cochrane foi o responsável pela guarda da Baía de Todos os Santos.

É imperioso mencionar a figura da mártir Joana Angélica, morta ao impedir que os portugueses tomassem o convento da Lapa.  E a de Maria Quitéria, valorosa mulher que combateu os adversários portugueses no Recôncavo.  Vestida numa farda de soldado, com a arma na mão, lutou com coragem incomum contra os portugueses na barra do Paraguaçu, em Santa Amaro e Cachoeira. Houve também Maria Felipa, uma negra catadeira de marisco, a mulher que comandou mulheres negras para seduzir os portugueses enquanto outras queimavam suas embarcações. 

            Fala-se que, na batalha final, João das Botas, um marinheiro português que aderiu à autoridade do príncipe Pedro, com o seu conhecimento instruiu Cachoeira, Santo Amaro e São Francisco do Conde na armação e comando dos barcos para combater a frota portuguesa. Foi singular sua atuação como trunfo na guerra.

Noutros falares, de como exatamente o corneteiro Luís Lopes tenha ficado no coração dos baianos ninguém sabe ao certo. Se a versão da história contada é verídica ou não, tudo se torna mais intrigante e ao mesmo tempo nebuloso. Sobre o assunto o que se sabe é que ele participou do conflito conhecido como a Batalha de Pirajá. Propaga-se no imaginário popular que em vez do toque de “recuar”, deu o sinal de “cavalaria avançar” e, em seguida, o de “degolar”. E quem acabou partindo em retirada foram as tropas lusitanas, imaginando que os brasileiros tinham recebido reforços.

O movimento que deflagrou a independência do Brasil na Bahia motivou a Castro Alves, o poeta mais amado dos baianos, a escrever um poema de versos magníficos. O poema “Ode ao Dois de Julho” vem expresso com o discurso eloquente, versos nas imagens candentes da esperança e da liberdade, aparecendo juntas numa só voz que evoca a peleja da treva e do clarão.  O libertário construtor de uma poética solidária sobre a escravidão dos negros africanos, agora com versos incandescentes de esperança, canta a liberdade como o sentimento mais valoroso que envolve os baianos no palco do confronto.  Como noiva do sol a liberdade, essa peregrina esposa do porvir, faz-se motivo de inspiração ao estro do poeta de alta voz condoreira.    

Transcrevemos abaixo, como o final dessas anotações sobre O Dois de Julho, o poema do genial poeta baiano.

 

                                      Ode ao Dois de Julho

 

Era no Dois de julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?!..."

Debruçados do céu... a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era a tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dois povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!

Não! Não eram dois povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensanguentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A Liberdade — em frente à Escravidão,
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão!...

No entanto a luta recrescia indômita...
As bandeiras — como águias eriçadas —
Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha,
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis...
............................................................................................
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina:
Eras tu
— Liberdade peregrina!
Esposa do porvir — noiva do sol!...


Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide,
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — n'amplidão!...




 

terça-feira, 20 de junho de 2023

 

Crônica da Natureza Ferida

Cyro de Mattos

Meu avô dizia que toda árvore devia ser respeitada. A natureza demorava anos para formar uma árvore, que se expandia por léguas de mata fechada, enquanto o homem com repetidas machadadas não demorava muitas horas para derrubá-la. A mata tinha uma enorme cabeleira verde, dormia um sono milenar até o homem chegar para desfazer o que somente a ela pertencia.

O vento rangia na parte alta da árvore, tremia sua canção antiga nas folhas, os macacos pulavam nos galhos. Os pássaros cantavam quando a mata acordava, na festa da natureza a lei para sobreviver era matar ou morrer, mas com ordem. A mata havia com sua cabeleira milenar, o corpo volumoso onde os raios do sol não penetravam, de tão fechado. O dia era como a noite nos confins da terra coberta de árvores. O gavião cedo amanhecia e sobrevoava as partes mais altas.

Meu avô também dizia que a árvore chamava a nuvem, umas às outras se uniam numa cortina compacta, fazendo cair a chuva na terra centenária. A água que caía dos céus fertilizava os campos, amolecia a terra, os frutos despontavam. Somente o homem, que se dizia civilizado, não quis que a mata permanecesse nessas bandas de cá com os índios, seus habitantes nativos, e os bichos que nela moravam, sem fazer mal  aos que matam pelo prazer.

Os caçadores, os plantadores de lavoura, os madeireiros, todos eles desde que apareceram numa sanha incontrolável foram dizimando tudo que encontrava pela frente na mata fechada.  As árvores de lei foram tombando nos estirões enormes, os troncos serrados, vendidos para que fossem transformados em esteios, estacas, tábuas, peças para a casa, como ripa, cumeeira, porta, janela, mesa, cadeira e diversos utensílios domésticos.

Os caçadores não davam trégua aos bichos. Não descansavam enquanto soubessem que um bicho estivesse vivendo na mata. A caça era moqueada e vendida na feira do lugarejo e da cidade. Os plantadores queimavam os pedaços de mata derrubada, o chão reduzido a cinzas servia para implantar as lavouras perenes ou de pouca duração.

A paisagem que antes era ocupada pelo verde da mata foi dando lugar às pastagens.  Meu avô dizia que a natureza ofendida se vinga cedo ou tarde. Verdade, de uns anos para cá as chuvas escassearam, a cada verão a estiagem se torna mais prolongada, a vegetação morre, o capim seca, as lagoas viram lama. Gado morre de sede e fome, a rês com pele e osso, alquebrada, sem forças para levantar do chão, os olhos semimortos, o mudo mugido apertado na garganta. Os urubus alvoroçados bicam a pobre coitada, disputam seus pedaços na festa que fazem com a comida ainda com uns restos de vida.

Diante do cenário pintado com tintas de luto nos seres e nas coisas, não esqueço do que meu avô dizia que cedo ou tarde a natureza quando ofendida se vinga e traz para o algoz ao invés de benesses o funeral das horas.

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terça-feira, 23 de maio de 2023

A Leitura e o Dilema

Cyro de Mattos 

 

             Muito se fala sobre a questão do número “modesto” de leitores, em contraponto à volumosa quantidade de livros lançados a cada ano. Certa vez o repórter perguntou se há uma relação de causa e consequência. Como eu via essa questão.  Verdade, escreve-se mais para o menos. Uma enxurrada de livros me é enviada para que eu dê uma opinião. Dá medo. De boa qualidade poucos vão ficar, a maioria o tempo leva para a poeira do vento. 

           Bom lembrar que a literatura não tinha antes a concorrência de outros meios, como o teatro, o cinema e a tecnologia de hoje, com a linguagem visual, abrangente e instantânea. O autor tinha mais prestígio. Nem por isso parece que o livro vá desaparecer em seu formato físico, onde existe o ser humano está o sonho, a questão e a incerteza, que a palavra escrita gera. Mudou o suporte. A ferramenta visual da internet, que tem lá seus vícios e virtudes, agora possibilita nova leitura da vida, às vezes a narrativa ganha muito mais leitores, não se pode negar isso, às vezes o que produz é deficiente, celebra besteiras, não vinga. Deixando fora esse tipo de competição massificada, vê-se que a linguagem da arte é sempre específica e exige um leitor íntimo dos problemas estéticos, que têm a ver com a criatividade em si e a recepção do assunto.    

          Como solucionar o grande enigma, o nó górdio da leitura no Brasil? É um problema do País, de educação, econômico e político. É preciso que haja uma postura séria que ataque as causas do problema. Cabe aos governantes, dirigentes e administradores fornecer os meios para o enfrentamento dessas causas, de natureza complexa. Não é impossível de ser pelo menos atenuado. Basta boa vontade e seriedade. Somos um país de iletrados, sem hábito de leitura, com um poder aquisitivo baixo pelas classes menos favorecidas.  Nesse conjunto de omissões falta uma política institucional pública eficiente para fornecer instrumentos com os quais a editora que está nascendo tenha assim algum suporte, estímulo para sobreviver e crescer.

É preciso também uma legislação que obrigue as universidades e colégios estudarem o autor no vestibular e na sala de aula. É preciso criar novas estratégias nos programas de apoio ao livro e de sua circulação nos espaços de leitura. Como está vamos continuar na mesmice. Pior ainda com a concorrência do fácil proposto pela tevê e o vídeo.

Uma questão central da contemporaneidade é a literatura em tempos de Inteligência Artificial, quando máquinas “pensam” e produzem textos cada vez mais subjetivos. Qual seria o desafio dos escritores hoje?

 A Inteligência Artificial não cria significado, só os humanos. É digital, desconhece as questões interiores e incertezas. O que sabe do amor? Do inexorável? De Deus?  Vê nascer e vê morrer sem nada poder fazer?  Se não tem a razão e a emoção como pretende enfrentar os atritos do enigma com o seu peso?  Tem seus ganhos, utilidade, mas por enquanto vou ficando no meu canto, escrevendo o meu tanto, com espanto e encanto.

         


sábado, 20 de maio de 2023

 

O Rio

   Cyro de Mattos

 

 

Nasce de um olho que pulsa na terra. Desce a montanha num fio e encontra o leito, que o espera dormindo no sono milenar da terra. Bebe nuvem, come terra e segue no passo de cobra. Às vezes cai em outro rio, vira réptil enorme com o volume de água que lhe dá mais força. Atravessa a floresta, o deserto e a várzea com seus pastos verdes à margem, povoados de reses.

 Passa a ponte, contorna a vila, avista a cidade. Desce ao largo, sereno, bonito de ser visto. Despede-se das últimas casas na curva. Leva as cores que as borboletas tecem nos barrancos. Os sons das manhãs e tardes na linguagem formada pelos pássaros. Desde não sei quando acontece no seu destino de rio, rumo à sua morada última, onde rapidamente esquece o que era doce. O peixe, o espelho, o murmúrio entre as pedras polidas em carícia de água. Conversas com a lua, cantigas de lavadeira, casos de pescador. Os modos do areeiro com a pá, retirando a areia nos trechos rasos, do aguadeiro que traz a água boa e pura. Quando encontra o mar, o rio esquece bichos como a lontra e o jacaré, que abocanham o peixe, apurando a fome num estilo irado. Esquece até mesmo a pancada formosa. O vento, o sol, a chuva, seus eternos companheiros de viagem.

 Areia, pedra, peixe: tão água. Rio-mar de tão grande. Falo do rio Amazonas, como não poderia deixar de ser. Se for de águas negras o ano inteiro, refiro-me ao rio Negro. Se deixar a terra fresca nas margens, depois da enchente, certamente é o Nilo no milagre que faz surgir tantas lavouras para as populações ribeirinhas. Se for pequeno, transborda nas cheias, traz árvore, bicho grande morto, submerge casas. E assusta.

Os seres humanos sempre tiveram atração pela água, que é fundamental à sobrevivência. As grandes civilizações surgiram às margens de rios, citando-se aqui o Tigre e Eufrates, o Nilo, o Yangtse-Kiang. Cidades importantes brasileiras ficam às margens de rios: São Paulo, Porto Alegre, Recife, Aracaju, Belém e Manaus. Itabuna, chão de meu nascimento, também nasceu às margens do rio Cachoeira, que divide a cidade em duas partes.

Rio que inspira poetas e prosadores. Os sinais visíveis da escrita escorrem por caminhos de água e aos poucos vão erguendo um mundo. Não tem rio que se compare com aquele que banha nossa infância. Veja o que nos diz Fernando Pessoa, o genial poeta português, nesses versos: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia...” Quer dizer assim o poeta que o Tejo desce da Espanha, entra no mar de Portugal, “toda a gente sabe isso”, mas ninguém tem conhecimento do rio que passa na aldeia do poeta. Porque menos conhecido, pertencendo a menos gente, “é mais livre e maior o rio de minha aldeia”, observa. O rio de Fernando Pessoa, como o Cachoeira, “não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele.”, a navegar com gentes, coisas, num calendário que emerge de sentimento e pensamento. Soletra manhãs e noites por meio da palavra chamada saudade, essa janela íntima que as criaturas humanas gostam de abrir em seu estar no mundo.

 O homem cumpre cuidar o mundo em que vive, mas não é isso o que se vê há muito tempo. Não se toca com o que desfaz em pouco instante, ceifando aquilo que a natureza demorou anos para fazer com saber e arte. Uma lástima. É comum ver agora o rio agonizando, morrendo de sede, como a dizer: viver assim não vale a pena, ao invés do amor que dou, tanta morte me trazem. E dizer que qualquer rio só quer viver saudável, em perfeito entendimento com a natureza. Não como o rio de minha terra, que há anos chora água em sua descida triste. Nem de longe parece o rio de minha infância. De tão viscoso agora, com os detritos despejados por bocas de vômitos, de dia e de noite.

A mãe natureza dá poderes ao homem, fazendo da vida uma aliança proveitosa, que se renova nas estações, entre o despontar dos verdes e a colheita dos maduros. Na minha infância lembro das canoas que os pescadores traziam carregadas de peixe. Mas a natureza cobra um preço alto quando é maltratada. Não perdoa aquele que a fere sem hesitar um minuto.

 O homem vem desprezando a terra com nascentes puríssimas, afugentando as nuvens derramadeiras de chuva com a derrubada das matas. Na sua aptidão de disseminar a escuridão das coisas, prefere apertar com as mãos neutras a goela das águas. No cortejo que ofende a muitos, como se nada de mais estivesse acontecendo, continua fora do rio que brilha no raso e guarda tesouros no fundo.

 Numa capacidade incrível de persistir dentro da bruma.