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quinta-feira, 2 de novembro de 2023

 

Um Sonetista Primoroso

Cyro de Mattos

 

Na língua portuguesa, o soneto tem sido cultivado por poetas que se tornaram referência obrigatória na arte difícil e delicada de armar a boa poesia, para celebrar a vida e a morte. Em Portugal são exemplos:  Camões, Bocage, Antero de Quental, Fernando Pessoa e Florbela Espanca. No Brasil: Gregório de Matos, Cláudio Manoel da Costa, Bilac, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima, Sosígenes Costa, Carlos Pena Filho e Vinicius de Moraes. Entre nós baianos ressalvem Ruy Espinheira Filho, Afonso Manta, Florisvaldo Mattos e João Carlos Teixeira Gomes, um sonetista primoroso.  

 

Em ensaio percuciente, que antecede aos não menos excelentes sonetos do livro O labirinto de Orfeu (2014), o ensaísta e poeta João Carlos Teixeira Gomes refere-se aos dois epítetos “sonetoso” e “sonetífero” criados como galhofa contra os autores de soneto. Registra uma série de expressões em desfavor das andanças do rejeitado poema de quatorze versos: “refúgio da decadência”, “gaiola da inspiração”, “bestialógico acadêmico”, “muleta da má poesia”, “cabresto da criatividade”, “onanismo poético”, “barbitúrico para insônia”, “sucedâneo de palavras cruzadas”, “museu do bolor formalista”, “chavão de segunda ordem”, “formalismo oco e vazio”, “museu de velharias passadistas” .

 

Não obstante o comportamento contundente dos que desfazem dessa imbatível criatura nanica, sua garra permite que continue de pé, ínfimo caminhante do sol e da chuva nos seus modestos passos de quatorze versos, buscando em sua peripécia métrica e feitiço do imaginário atingir o ponto máximo do prazer na alma. Segue indiferente às acusações e atropelos da legião de fanáticos, que não o aceitam, sob qualquer hipótese. Teima em habitar com seus lampejos líricos a floresta dos poemas maiores, de poetas célebres com suas criações em versos longos, eloquente quantidade de estrofes.

 

É dado a formar uma sequência quando vários poemas são ligados entre si por uma concepção e execução magistrais do tema, como se deu com os cento e cinquenta e quatro sonetos de Shakespeare. Outra de suas proezas quando escrito em sequência é formar a coroa de sonetos, uma forma poética composta por 15 sonetos, que têm ligação entre si por um tema. Os primeiros e últimos versos são versos de um outro (décimo quinto) soneto, denominado soneto-base, ou soneto-síntese.

 

Em O labirinto de Orfeu, João Carlos Teixeira Gomes reafirma as qualidades de poeta expressivo, com maiúscula, que sabe a proeza da inspiração como manifestação da ‘outridade’ do homem. O soneto em suas mãos, até certo ponto divinas, é instrumento legítimo que se torna poema indelével de quem sabe arrebatar delírios, construir paixões, cultivar ilusões, carregar fardos, cair em desterros, colher perdas, erguer perjuros, elencar encantos, vestir-se na náusea dos vazios. De maneira impressionante, o soneto aqui abre-se à participação de um acontecimento festivo, raro, rico, exuberante. A recepção poética possibilita ao leitor a recriação do instante original. Transmuda-se o soneto em uma festa de imagens opulentas, uma comunhão do saber aliado à beleza para ser um objeto estético primoroso, espraiar na vida as zonas encantatórias do poder ser através das mãos de um mestre. É visível que o seu procedimento fulgurante faz pensar no homem como resultado de outro ser, pleno de brilho na dimensão forjada de transcendência com assento em apetites e desejos. Municiado dessa voz estranha, em cuja inspiração tira o homem de si mesmo para ser tudo o que é, percebemos que o desejo posto na festa lustrada com ritmos de versos esplêndidos é de um legítimo poeta recriador de arquétipos, modelos, mitos. De algo que se confunde com cada um de nós, sendo evocação, recriação de uma experiência que ressurge de uma senda que está dentro do lado noturno de nós mesmos.

 

Muitos desses sonetos de O labirinto de Orfeu são joias raras. Usado nos moldes clássicos do decassílabo, o soneto do excelente poeta baiano opera com os hábitos do delírio, sonho, cantares de uma lira sempre tocada com as notas de unidades rítmicas com vistas ao alcance da imagem, a qual lateja a sensação de que poetizar é criar com as palavras, fazer poema com significação, mesmo que essa imagem do mundo transmitida pelo poeta custe a ele a indiferença aos seus sonhos constrangidos, abafados no clamor de seus gemidos.

 

Sonoridade que serve como vínculo do verso para salientar a significação, unidade rítmica que sustenta a ideia fluindo na estrofe como música, ardência que soa na rima com vibrações da palavra tradutora de inventiva rumorosa, que emana com luzeiros e fulgores, procedidos como hábitos e atitudes do poeta eficaz. São algumas marcas recorrentes do discurso desse notável sonetista, que não se intimida em adjetivar a substância constitutiva do conteúdo em cada verso.  Na sua experiência de sonetista competente, tudo isso acontece como um fato natural, de facilidade constitutiva, caracteres que por serem hábitos antigos instauram uma técnica que não exerce funções de iludir com o efeito ao leitor desprevenido. Não é adorno nem arranjo. Trata-se de atitude essencial na maneira de expor os movimentos da estrofação, assentada na cadência das unidades rítmicas, que não se desenvolvem como artimanha, no pior sentido. O sonetista sabe converter o artefato em sedução de lances primorosos.  Nas artes de iludir com a lira, o exímio domador de frase na estrofe de dez versos toca a alma com ventos que se confundem com os seus próprios laços, recorrências constituídas de dons propícios. 

 

Navegador de agudas águas, timoneiro nas ondas como sonho, a festa do soneto nesse poeta baiano não é fuga vulgar, maneirismo, pelo contrário, evento que se irradia festivo, como “incenso da vida, no real atormentada.” E porque faz de uns belíssimos momentos do sonhar a sua enxada, “à glória de colher está propenso quem mais souber lavrar a terra alada.” Penitente que se impõe ao sacrifício, nesta saga doida e perdida, o poeta encarna-se nas batalhas do amor, submete-se aos tormentos do mistério. Como escravo da fiandeira do caos tem o peito levado aos desaprumos. Com a amada impune, tem a consciência de que essa astuta tecelã das doces malhas “vem da força do amor que prende e une”, o feitiço que espalha.

 

Prisioneiro de ânsias rumorosas, servo dessa mulher com finos dedos na tessitura de suas malhas, qual musa floral da rosa apetecida, o poeta, guardador de segredos que seduzem, sabe a beleza que ergue da vida o autêntico poema, com o instante luminoso riscado no eterno. Consegue grandes feitos com versos que são puras fantasias, falam da emoção no tempo que se repete, nunca para, nunca cansa, enche os silêncios reconhecidos no enigma, no obscurecimento do mundo. O sonetista modelar tem a dignidade de cantar e pensar com a ideia, pois está convencido de que a razão e a emoção são como os troncos vizinhos do poetar. 

 

Inspiração e transpiração na dor presenteiam ao sonetista o seu vigor, plasmam com sabedoria o labirinto que esse Orfeu baiano caminha por entre tormentosa lida, sabedor que é como poucos do viver que está no logro da paixão, nesse amor que foi o sonho compartido pelo qual se tornou o duplo do amado por Eurídice.

 

Por castigo do fado que o faz cantor prisioneiro, o sonetista surpreendente em rimas e imagens comove o coração de quem o recita. Os seus cantos mais que perfeitos, que espantam com as tragédias, dramas e comédias, são como as chamas da paixão que o sujeitam, funcionam como frutos amadurecidos nas estações da vida e morte, de tudo que sobreleva à flama do viver que não perdura.

 

Há nesse labirinto de Orfeu, que João Carlos Teixeira Gomes ergue com mãos de mestre, o reconhecimento de que o soneto não é uma camisa de força, mas harmonia plena que a beleza atinge com uma rica combinação de signos, símbolos, mitos, arquétipos, unidades rítmicas, rimas, sentidos. Um milagre do poema que é erguido com arte, engenho, alma e vigor perante a existência. Talento que se apresenta com uma eficiência espantosa. No resultado final da imagem presta-se ao fogo do amor, que cresce como luz na treva. 

 

Referência

GOMES, João Carlos Teixeira. O Labirinto de Orfeu, Topbooks Editora, Rio de Janeiro, 2014.

 

 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

 

 

Alma Cantante de Stella Leonardos

Cyro de Mattos

 

Autora muito premiada, com destaque para nove láureas concedidas pela Academia Brasileira de Letras, Stella Leonardos publicou mais de uma centena de livros, entre romances, poema, literatura infantil e dramaturgia. Formada em Letras Neolatinas, tradutora do inglês, francês, italiano, espanhol, catalão e provençal, sua estreia aconteceu com Passos na areia, em 1941. Os críticos costumam situar a vasta obra poética de Stella Leonardos na terceira geração do Modernismo, relacionando nessa condição os livros Geolírica (1966), Cantabile (1967), Amanhecência (1974) e Romanceiro da Abolição (1986).

 

Nome dos mais festejados pela crítica, Stella Leonardos vem entregando há muito tempo sua vocação poética ao projeto de recriação de um Brasil bem brasileiro. Da sua alma cancioneira e romanceira salta um Brasil de sentimentos românticos, epicidades, ideais, relatos e saberes populares. Brasil iluminado de estados líricos, formado por elementos míticos, que irrompe do lugar onde nasce a história feita de passagens marcantes, ações, tantas razões e casos.

 

O épico apresenta, o lírico lembra, o dramático articula mundos interiores    dos seres humanos conflitantes na criação da vida. No palco da duração crítica e contínua dos acontecimentos expande-se a poesia de Stella Leonardos. Conota essa maneira íntima do lírico, calcada em permanente mergulho na memória, feita de emotividade, cena histórica e pesquisa. Gentis seus versos, em Memorial da Casa da Torre (2010) recordam vivências nas arcadas, aludem a finíssimos lavores nos salões e aposentos. Abrem-se nos portões com senhores de terras na época de conquista e domínio. Tocam no berço territorial da Pátria, no músculo dos negros, no primitivismo resistente dos indígenas. Restauram o homem através de intenções, ímpetos, sonhos e idealismo. Retiram-no do passado para ser lembrado no desassombro dos sertões vencidos, entoados na música rústica das boiadas.

Poesia é emoção condensada em linguagem mítica, rica, tensa e ambígua. Reflexão em suas formas geométricas calcadas na imagem, sob o pretexto da escrita para revelar uma ideia. Em Stella Leonardos mostra um discurso significante pontuado pelo som, no ritmo que ela imprime em sua maneira particular de sustentar a ideologia. Sua palavra cantante escorre musicalmente com interferência de vozes, tornadas dinâmicas, apropriadas nas lembranças e cenas descritas.

 

O registro que é feito do fato bom ou triste é mais endereçado aos ouvidos do que aos olhos. Sua dicção musical enceta versos que dialogam com a história, ecoam procedentes de alguém que permaneceu no tempo.  Em seus cancioneiros e romanceiros tão brasileiros, Stella Leonardos canta e conta. Revive o Brasil com maestria de poeta que encanta, consciente de que no rememorar tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo, como falou Fernando Pessoa.

 

Assinalada a terra por armas e brasões de uma gente remota, que aqui chegou por mares nunca dantes navegados, o governo português teve que enfrentar situações desfavoráveis para fazer a colonização. Um desses obstáculos consistia na imensidão da terra descoberta, com a sua mata de sono milenar, jamais incomodada. Foi necessário dividir a terra rica em capitanias, glebas de muitas léguas, e doá-las àqueles que tivessem condições de fixar o homem no solo.

 

Por quase três séculos, a Casa da Torre distendeu suas cordas e acordes de inúmeros serviços prestados ao Brasil, começando pelas guerras aos piratas, aos holandeses e da Independência. Dali partiram os primeiros desbravadores do Norte brasiliense, as intrépidas bandeiras, as principais entradas dos sertanistas do Nordeste.

 

Em Memorial da Casa da Torre, um dos episódios mais significativos da história do Brasil Colônia, oriundo da influência da prole mameluca de Garcia D’Ávila, que levou domínio e ambição às regiões desconhecidas, Stella Leonardos, com idade avançada, demonstra que ainda domina bem o verso e faz uma poesia cativante, bebendo na tradição do poema de todos os tempos. Usa o arcaísmo e o neologismo para narrar os acontecimentos da pátria nascendo a passo de marcha. Na decorrência de versos que se alteiam com vozes em coro, de viva gesta, acende sinais luminosos de labareda que haveria de contribuir como ideal de heroísmo, cultura e civilização.

 

É da tradição da poesia ibérica vazar o amor e a saudade como figurantes que convergem para o lirismo e o épico. O registro de vultos e fatos heroicos são recorrências manejadas por rapsodos com inspiração no populário e saberes anônimos. No caso de Stella Leonardos, o relato poético se municia de pesquisa e de saberes locais do populário. Atenta, a poeta não se descuida de rimar memória e fatos que melhor repercutam ao fazer modelar do nosso cancioneiro e romanceiro. Seus livros aí estão espalhados para que sejam lidos como resultado da aproximação mágica de uma alma sensitiva à nossa memória, arrebatada de sentimentos românticos, valendo-se do histórico por quem ama a beleza e o valor exercido pela estima da Pátria.

 

No poema “In Memoriam”, introdutório ao assunto deste Memorial da Casa da Torre, Stella Leonardos abre seu verso terno para o que vai contar e cantar, com leveza deixa ser conduzida pela inspiração que lhe é particular:

 

                         No barro desses tijolos

                        Por mãos índias acalcado

       Quanta voz índia não dorme?

                                                       Na alvenaria da pedra

Por mãos afras carregada

   Quanta voz negra não pesa?

                                                       Na torre desse Castelo

Por brancos rostos vigiada

    Quanta saudade não se ergue?

 

A autora desses versos torna suficiente a imagem que interpela e, ao mesmo tempo, contempla a passagem do tempo guardada na memória. Apoiada na sensação do que se refaz triste, sob um ritmo que atrai, nos embala e envolve até o final da cantiga. Como estratégia usual de seus cancioneiros e romanceiros, ela sabe tirar efeito na linguagem quando emprega o neologismo através dos vocábulos que inventa: saudadeado, largoandante, longivozes, multivária, plurilínguas, existenciar, surpresada, passilargo, fugileve, impulsada, noviterra, ensonho, sonoite, novihorizontes, azulando.

 

A Casa da Torre é a primeira grande fortificação portuguesa do Brasil. As pegadas dos valentes que a povoaram com desassombro inigualável dos tempos de Garcia Dávila renascem neste memorial poético de Stella Leonardos. Da cidadela em ruína, muralhas cobertas de musgo, gestos que resvalam por entre sombras, das fendas e rastros do poder extinto, reencontramo-nos na poesia de versos generosos. Das paisagens com passagens cheias de histórias marchamos, somos levados com o mesmo brilho das gerações que fundaram nossa nacionalidade.

                              

Referência

LEONARDOS, StellaMemorial da Casa da Torre, Gráfica Santa Marta, João Pessoa, Paraíba, 2010.

domingo, 29 de outubro de 2023

 

Meu Ginásio Inesquecível

Cyro de Mattos

 

O grande sonho dos estudantes de meu tempo era concluir o curso primário e, submetidos ao exame de admissão, ingressar no ginásio. Ser aluno do Ginásio Divina Providência era a maior glória. Significava pertencer a uma classe privilegiada de estudantes, motivo de orgulho dos pais e ser admirado por pessoas importantes.

 

Ginásio de meninos e meninas como nuvens. Aquelas mesmas nuvens que acompanham a criatura humana em seus primeiros passos. Juntos queriam construir o futuro. Queriam melhorar de nível, atingir metas e entender o mundo. Buscavam arma e bagagem para um dia tornar a vida rica de significados. Por isso suportavam o massacre diário, com exercícios aritméticos, lições de português, ciências naturais, geografia e história.

 

Era um tempo de desafio constante povoado de sombras. Tempo que ia passando com uma pesada carga de estudos. Noites de expectativa, alegria e susto quando chegava ao fim do ano. Havia em nosso ginásio professores com a sua maneira de ser rigorosa, como Nivaldo Rebouças, que ensinava inglês, e Odete Midlej, português. Havia também os de coração de açúcar, como Helena Borborema, Padre Nestor, Lode Hage e “Seu” Queirós. Professores responsáveis que não faltavam aula durante o ano, deixando nas lições sem disfarce a palavra fluir com dedicação e competência. Professores que, na voz tolerante, rigorosa ou paciente, faziam que os alunos amassem ou respeitassem o ginásio.  

 

Ginásio dos meus verdes anos. Dos meninos Roland, Rafael e Nilton Gago. Das meninas Yeda, Ritinha e Mary Kalid. Dos advogados Joel, Eraldo, Gervásio e Rui Fontes. Do engenheiro Dagô. Dos médicos Moacir Oliveira, Euvaldo Mattos, José Rebouças, Antônio Menezes, João Otávio e José Orlando. Do escrivão Ronald Cravo, delegado Péricles e juíza Sônia Carvalho Maron. Do deputado Jorginho Hage e prefeito Ubaldo Dantas. Do gringo Marcel Midlej. Das piadas inesquecíveis de Nilton Jega Preta. Dos namorados Carlos Euvaldo e Clotildes, Neviton e Marilene. Do goleiro Edsel e Chico, o craque. Do odontólogo Cleres Franco. Dos Irmãos Ildo, Eudes, Uraci e Ovaci. Dos artistas plásticos Bebeto e Renart. Dos que já não estão mais na sala, se foram cedo na viagem sem volta. João Berbert, Alberto Simões, Valter Delmondes, Vadinho. Valter Delmondes saltou da pequena ponte para as profundezas de águas escuras. Aquela sombra que infunde medo instalou-se nas salas do ginásio. Pela primeira vez, solitário, eu indagava sobre a escuridão daquelas águas traiçoeiras.

 

Setembro tinha sentido com a cor do desfile no ar verde e amarelo. Tambores uníssonos, compenetrados do toque, rufavam a pátria amada. Marcha cívica ou efervescente música na pele de adolescentes com a alma de girassóis flamantes? Nem o aguaceiro que despencou de repente conseguiu tirar o brilho de um escudo glorioso sob os passos encharcados de sonho.    

 

 Ginásio de velhas brincadeiras em vozes tão novas. Dona Lindaura, a diretora, certa vez me disse que o Colégio Divina Providência foi fundado pela Sociedade São Vicente de Paulo, em 1924. Anos depois, o ginásio começou a ser administrado pelas irmãs de caridade. Criatura de estatura pequena, cabelos brancos e ralos, a diretora do ginásio seguia nos passos firmes todos os dias rumo ao antigo sobrado da Rua São Vicente de Paulo. Da primeira lição que ela me ensinou, nunca esqueci. Disse que para alguém ser gente na vida precisava conviver com o hábito do estudo. Ser gente era munir de saber a ideia.

 

Nesse tempo a cidade pequena escorregava na lama do inverno. Os alunos passavam a conhecer que as sementes boas do estudo para munir a ideia estavam no primeiro ginásio da cidade. Colheitas desse saber foram realizadas em pouco tempo. Com o passar dos anos, para orgulho dos pais, tornaram-se constantes. Produziriam rimas ricas.

domingo, 22 de outubro de 2023

 

                                 O Autor e o Leitor

                                    Cyro de Mattos

 

Primeiro foi o leitor, tempos depois veio o autor, ambos os dois persistem até hoje, o segundo com mais intensidade, em diversos gêneros, a estrada a essa altura comprida. Adotado na escola e universidade. Com reconhecimento e distinções relevantes.  Primeiras leituras da infância foram em almanaque de farmácia e revistas em quadrinhos, ler era então simples passatempo. Vício entre o trivial e a aventura com os meus heróis imbatíveis: Homem Submarino, Batman, Mandrake, Fantasma, Capitão Marvel, Tocha Humana e Durango Kid. A galeria de heróis ampliava-se aos domingos, na matinê do único cinema da cidade. Na tela do Cine Teatro Itabuna: Tarzan, Falcão do Deserto, Roy Rogers, Flash Gordon e Robin Hood, dentre outros.

          Descobri Monteiro Lobato graças a seu Zeca Freire, o dono da farmácia. Ele me emprestou dois livros de Monteiro Lobato, As Caçadas de Pedrinho e A menina do nariz arrebitado. Logo percebi que aquele autor vinha para ficar no coração da garotada, com novas vozes do mundo, novas cores do sonho.

Ao retornar das aulas do ginásio na pequena cidade, passava na livraria e papelaria A Agenciadora, que ficava na rua do comércio. Lá fui encontrando, aos poucos, Júlio Verne, Edgard Allan Poe e Charles Dickens. A leitura iniciante do menino do interior ia se enriquecer na Capital, para onde o pai o enviara sob a expectativa de ver mais tarde o filho se tornar um advogado. Lá costumava visitar a biblioteca pública do Estado e a do Colégio da Bahia (Central) e, quase todos os dias, passava na Livraria Civilização Brasileira, na Rua Chile. O estudante buscava nas bibliotecas, livrarias e “sebos” aquele espaço onírico que o prazer da leitura proporciona entre descobertas e sustos, carícia e emoção. O vício da leitura vindo da infância passava a ser um hábito, introduzindo no momento jovial uma prática social do indivíduo que é impelido a usufruir um objeto tecido com os sinais visíveis da escrita.

          O ato de ler me faz pensar numa série de observações e sensações, gradações e variações próprias da natureza humana. Ninguém escreve um livro para ficar no fundo da gaveta, por mero diletantismo, razão pela qual não se separa os dois termos da equação livro e leitor. O que pode acontecer é que o autor de livros não passa de um incompetente usuário da palavra mítica e frustrado inventor de poemas ou peças de ficção. Por isso mesmo não fica, nasce morto, não conquista prêmios literários condignos, não possui leitores, seus textos em livro não recebe a atenção da crítica especializada. Evidente que esse tipo de autor não conta.

 O livro como um objeto tecido de elementos que buscam alcançar o leitor não é uma abstração teórica para ocupar tão somente a experiência pessoal do autor numa aventura intelectual. Inventada a história ou produzido o poema, cujo texto materializa-se no objeto escrito, o autor não mais exerce domínio sobre a sua ilusão em forma de linguagem, de um código cifrado no qual entram signos e símbolos. No ato de criar buscou a si e o outro, o apelo do pensamento não pode ficar indiferente. Há que pulsar em sentimentos e gestos, armadilhas e descobertas. Porejar nesse pacto íntimo em que se manifestam situações coincidentes, lembranças, afinidades, recusas, enfim, um relacionamento forte a circular em muitos casos como paixão, ao mesmo tempo que oscila  em seu vaivém intervalar  entre o amor e o ódio.

O que se espera dos que escrevem um texto literário? Domínio da língua e facilidade em organizá-la ou reinventá-la como linguagem de expressão pessoal. Habilidade no uso dos meios para a criação de uma obra de arte, no caso a obra literária. E, ponto essencial, capacidade para repercutir no outro o que é dele próprio, pensamento e emoção. O conteúdo fica por conta do interesse suscitado pela história inventada ou sentimento de mundo sugerido na ideia fixada através de uma forma eficaz.

Por uma necessidade obsessiva de manifestar pulsões vitais profundas, para conhecer a vida e transmitir o saber inconsciente, dizer o mundo além da superfície, fundá-lo, transformá-lo, escreve-se nesse gesto de solidão solidária, de sacrifício, mas que também dá prazer.  O parto se faz sofrido, entre sombras e ânsias, numa profissão de fé e amanhecer fundamental. O fluxo criativo emerge da tensão no drama, também aflora  da escrita  com  ternura, graça, ludismo, ritmo fácil para fazer alegrias, trazer risos, tão necessários.

 Ler é colher no texto tudo o que foi escrito. É gostar, ver e sentir. Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê. É se deixar invadir pelo espetáculo da vida posto de maneira atuante através da palavra sensível no texto cheio de significados. Há vários tipos desse personagem que sem a sua participação o livro é coisa morta. Sem circular com o leitor, o livro fica impedido de ampliar suas potencialidades de ver o mundo.

Para o leitor desavisado, comum, sem hábito e intimidade com questões estéticas, de linguagem e técnica, evidente que lhe interessa o livro  com um conteúdo de captura fácil. Este tipo de leitor é também importante, apenas difere daquele que busca os pontos essenciais da vida postos no texto.  Difere apenas no lugar que ocupa no ato da leitura. Para o outro tipo de leitor, o ato da leitura não é simples passatempo e prazer. Decorre da própria dinâmica da vida, dado que texto e homem estão sempre rompendo os limites no prodígio do existir. Para esse tipo de leitor, agora o ato de leitura é uma maneira de escolher a finitude e a grandeza da nossa condição humana. Já não há apenas passatempo e prazer, mas percepção do mundo de forma aguda, modo de revelar-se e impor-se através de uma abertura, sondagem e direção entre infinitas possibilidades vitais, encontro com os sentidos ampliadores de sua dimensão existencial. A leitura para ele pertence a três objetivos básicos do conhecimento: a amplitude, a profundidade e a utilidade. É aliada do autor numa cumplicidade mútua, o privilégio da fruição é substituído pelo da recepção em níveis mais largos. A obra literária não é uma companhia silenciosa, mas acontecimento que repercute a seu lado. Ela abre a sua alma, fala enquanto ele se fala, lê e se lê. Sentidos imaginados e ideias compreendidas num pacto íntimo, emoção e pensamento em vários graus de intensidade, coincidentes ou não.

Um terceiro tipo de leitor percebe-se naquele que escolhe elementos e ideias para uma operação crítica do texto. Separa, descobre, aprofunda, revela caminhos e prodígios que o leitor comum, e até mesmo o consciente de certos sentidos estéticos, não percebe na obra. Refiro-me aos críticos e aos professores de literatura. Necessários, em seus estudos e comentários, critérios explicativos e análises qualitativas, à compreensão do texto literário, através dos elementos que expressam a vida por meios de palavras polivalentes com sua feição mítica.

A leitura de um texto literário requer uma radical modificação em nossa maneira de ver e sentir o mundo. Costuma-se dizer que o gosto pela leitura se adquire pelo hábito de ler. Lento é o aprendizado que vai capacitando a romper com limitados conceitos de vida e predispondo a aceitar outras formas de manifestar o pensamento, dizer o mundo sem ser superficial. Penso que a mais profunda finalidade da arte literária seja a de colocar o ser humano em permanente reintegração e participação com a sua humanidade.

O ato de escrever que se completa com o de ler, enquanto concordância de verdade e beleza, vínculo de gravidade e jogo, equilibra a vida. Torna o viver suportável, essencial, útil, solidário e cativante. Digam que o fato político comanda o mundo. O econômico determina o indivíduo no seu dilema de ser animal faminto e sedento. Dado ser impossível a apreensão total da vida por qualquer forma de conhecimento, só restando captar a sua realidade por via indireta, impõe-se que para representá-la de modo mais abrangente o fato de usar as palavras polivalentes como meios de expressão. Depreende–se então que só a palavra tem o poder de construir verdades essenciais com metáforas, símbolos, alegorias e parábolas. Ou desfazer mentiras com impressões, emoções, sentimentos, que o autor logra extrair da vida. Nessa perspectiva, das rupturas em aceno como possibilidade do amor, em diálogo consciente com o mundo, só a palavra no texto literário, como expressão do eu consciente mais o outro mais o mundo, enriquece e não toma. Com suas mentiras verdadeiras produzidas na mente do autor, na alquimia do espírito, ao leitor oferta as mais amplas possibilidades de conhecer o eu e suas circunstâncias críticas.  

Vale a pena repetir quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê. Pouco sabe dos múltiplos significados que, sob a superfície dos seres e objetos, desvendam os lados escuros no mistério da vida.

 

 *Resumo da palestra proferida no Projeto “Encontro com o Leitor”, no “Encontro Estadual do Programa Nacional de Incentivo à Leitura Pró-Ler”, promovido pela Fundação da Biblioteca Nacional, Casa da Leitura-MINC e Rede de Leitura da Bahia, realizada no auditório da Faculdade de Direito da UFBA., em Salvador, 1997.                                                                                                                  

 

                           

sábado, 21 de outubro de 2023

 

Lugar e Circunstância do Escritor

Cyro de Mattos

 

Ser escritor é profissão ou apenas uma atividade dos que exercem a arte literária?  Thomas Mann afirma que não é profissão alguma, e, sim, uma maldição. Começa terrivelmente, muito cedo. O criador de A Montanha Mágica (Editora Globo, 1953) quis dizer com isso que o autor ao ser impelido pela força do destino para se manifestar sobre a vida carrega todo o peso terrestre dentro de si, suportando assim inúmeras situações conflitantes do existir nos ermos de seu calvário. Quando faz a leitura crítica do mundo, toma de empréstimo ao sonho a palavra com a sua natureza mítica. De onde vêm, para onde vão nessas antenas da raça tantos sentimentos e tendenciosas explicações?

 Há quem afirme que a literatura ajuda a viver o sofrimento que todos nós temos na vida. Carlos Drummond de Andrade acha que ela ajuda esse sofrimento ser um jogo divertido. O trivial lírico de Itabira afirmou que é escritor porque escreve. Ele nunca quis ser membro da Academia Brasileira de Letras, apesar das insistências, mas nunca abdicou da sua função de escritor, de alguém simples que gostava de falar como pássaro do cotidiano nos eventos da vida. Nunca lhe agradou essa maneira solene de ser diferente, não dava sentido à nossa incompletude, que gera incertezas e dramas diante das questões profundas.  

Não é exagero achar que a literatura é uma profissão. É condição, ato ou efeito de professar, perseguir, proferir crenças e valores. Declarar publicamente ao outro o que somos no mundo. Nela confessamos nossa opinião sobre seres e coisas porque assim é nosso modo de ser-estar na existência. Profissão que não dá rendimentos para sobreviver, não devia ser assim, dado que é forma de conhecimento da vida, transmite ensinamentos fundamentais como o amanhecer. Exige esforço e labor. Sacrifício, doação.

Não se vive de literatura, mas para a literatura, dentro dessa condição em que o autor procura liberar desejos e medos das zonas da razão e emoção. Essa é minha crença, tem sido minha paixão. A literatura vem demonstrando que gosta de mim, nesse meu jeito de respirar no trânsito da vida, assumir as afirmações e suportar as negações. É minha maneira de me sentir útil na vida quando simulo a realidade através da metamorfose da palavra e levo minha experiência do mundo aos outros. 

 A literatura organiza meus conflitos, oferta-me sonhos, equilibra-me no difícil gesto de viver, que, segundo Guimarães Rosa, é muito perigoso.  Nesse espaço vital da criação literária é que me encontro com as mentiras de verdade fornecidas na solidão solidária, deixo de ser um cadáver ambulante que procria. Convenço-me de que sou apenas esse pobre homem, contraditório, finito, provisório, andante e errante com suas ingenuidades e dramas, nesse momento intervalar entre o primeiro vagido e o último suspiro. Sem fazer a prosa de ficção ou o poema não sou um ente que pensa e tem emoção. Não tenho motivações para fazer leituras do mundo com as vestes da vida e da morte. Não consigo retirar dos dias personagens que se queimam com suas dúvidas, choram às escondidas, revelam suas incandescentes ternuras na parte noturna do ser.   

                A certa altura da entrevista que dava para alguns jornalistas, o romancista William Faulkner comentou sobre a alegria que tinha no ato de escrever. Ele disse: “Porém criar! Qual dentre vós, não tendo em si este fogo, pode conhecer esta alegria, por mais fugaz que ela seja?” Para o autor de O Som e a Fúria (Editora Portugália, Lisboa, 1969), o legítimo escritor é capaz de saber o que é esse fogo fugaz da ilusão. Sem essa alquimia do verbo no romance ou no conto não há o beijo, a lágrima, o riso, o epitáfio, a busca do sentido da tragédia que somos no mundo como seres imperfeitos.  

É com esse fogo da ilusão, a que se referiu William Faulkner, que aceno para as coisas da vida que se foi, justamente me aconteço nesses versos do poema “A Roda do Tempo”: 

 

  Criei vaga-lumes

             Para vê-los à noite

  Brilhando no quarto.

 Nadei como um peixe ágil

 Nas águas mais claras

 Do Rio de Água Doce.  

Como um pássaro

Tive cada voo

 Com o vento mais alto.

Andei como bicho solto 

Sem ter medo de nada

Pelas ruas do mato. 

 

 

 

 

Mas a infância tem o sabor

           De uma fruta doce que termina

Quando vem a idade dos homens.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

                 

        Não é fácil caminhar nessa estrada das letras, a essa altura comprida. Há os que dizem que o escritor tem fome de fama quando escreve, quer permanecer para sempre nos outros com os seus sentimentos e com isso alcançar a imortalidade. São argumentos pueris de quem não tem humildade para reconhecer a obra valorosa que o autor conseguiu durante décadas. Não sabe que o autor legítimo no ato de exercer a palavra escrita tenta encontrar-se por entre os rumores de navegações agudas.  Não sabe de solidões pessoais e imaginadas na madrugada de um homem entre alegre e triste.  

 Jorge Luís Borges declara que escreve para viver.  Gabriel Garcia Márquez afirma que morre se não escrever, mas também morre se escrever. Escreve-se porque assim devia ser. Fica claro que escrevo não com sede de imortalidade. E que sei do meu tamanho e do lugar que ocupo no meio dos outros.  No fundo de tudo, bom não esquecer, nós somos iguais, entre nascer, viver e morrer. Cada um está aqui para contar a sua história. Como o vento, não ficamos, para isso fomos feitos, sonhamos e passamos. 

Nada se pode fazer diante do inexorável fixado pelo tempo, esse senhor categórico, que tudo dá e toma, não muda, nós é que mudamos.  Ai de mim, ai de mim. Então lembro, no instante em que termino esse texto sobre o fazer literário, o que eu disse certa vez nos dois últimos versos de um soneto:

 

Da cabeceira para a foz 

Tantas explicações  

Para saber enfim

Que nada sei de mim. 

 

Por isso escrevo para ser testemunho de meu tempo, sabendo que não vou mudar o mundo.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

 

A vitória do menino

Cyro de Mattos

 

A mãe dizia que aqui na vida tudo tem sua hora para acontecer e seu lugar para ser ocupado pelos seres e as coisas. Estava perto de receber o resultado do exame de admissão quando saberia então se seria aprovado. A expressão de confiança no rosto do menino denunciava uma esperança inabalável, motivada por tudo que veio sendo construído durante o ano inteiro, com os seus pensamentos direcionando-se para a realização da conquista tão desejada.  Chegava a sorrir de contente, da certeza que tinha agora da vitória prestes a acontecer, só pensando em chegar logo à sua casa para dividir a expectativa da vitória com os pais. A autoconfiança tomava conta da expressão do rosto, os contornos nítidos formando um desenho vibrante da vida, na medida em que apressava os passos, o corpo como se fosse de um passarinho, voando no chão. Sentia-se leve, imune a qualquer tipo de dúvida ou preocupação que pudesse surgir entre as noites tranquilas, horas de entrega na preparação. Tudo o que era desafio, incentivando-o sempre, parecia prestes a ser superado, enquanto esperava o resultado do exame de admissão.

Mas à medida que o dia avançava na manhã clara, um sentimento desconhecido começou a se infiltrar em sua alma. A sombra da dúvida começou a se espalhar, confundindo aquela certeza inicial. O sorriso que antes brilhava em seu rosto agora se contorcia em uma expressão de insegurança. A lembrança da exigência de seu pai e o medo de decepcioná-lo começaram a pesar em seus ombros, transformando a alegria da manhã em uma tarde sombria. 

Nunca o domingo fora tão ambíguo para ele como no começo desse mês de dezembro. O brilho do sol, que antes envolvia as coisas com um toque de magia, leveza e graça, agora lançava sombras que se confundiam com seus sentimentos conflitantes. E, nesse momento conflituoso, que o fazia oscilar nas ondas da dúvida, a vida se mostrava complicada e imprevisível, fazendo-o temer ante ao que antes considerava inquestionável.  A reação do pai, uma vez pilar de apoio que o fazia seguro, agora se transformava em um espectro amedrontador, e o medo da reprovação tornava o desejo de saber o resultado um grande tormento.

Da pequena balaustrada de onde se via o pátio do colégio, a diretora   tocou o pequeno sino várias vezes, chamando os meninos e as meninas para tomar conhecimento do resultado no exame de admissão. Observara que só ia chamar o nome do candidato que tivesse sido aprovado.  Os candidatos eram muitos, vários vieram das roças onde moravam com os pais, de vilarejos perto ou de cidades vizinhas, menores do que a sua, dividida em duas partes pelo rio manso na descida quando era tempo de estio.

Meninos e meninas aglomeravam-se no pátio do colégio, alguns estavam acompanhados da mãe. Todos em silêncio, aguardando, ansiosos, o resultado do exame de admissão, vários com aquela cor de medo no rosto, presos ao que daqui a instante seria anunciado pela voz da diretora do ginásio.  

          Fez um esforço para que as pernas não tremessem, mas não conseguia dominar o friozinho que dava na barriga.  De repente, o que era uma nebulosa dentro dele, num lance feito de emoção indescritível, transformou-se numa luz forte que clareou tudo dentro, repercutiu na alma como uma vibrante canção salpicada de notas alegres. E notas dessa canção, que chegava em boa hora, cheia de felicidade, envolveram o peito de menino franzino, abalando, em sua mensagem venturosa, seu pequeno coração. A diretora havia chamado o seu nome como um dos aprovados no exame de admissão.

(Capítulo do romance inédito Do menino se faz o homem)                                        

 

 

sábado, 9 de setembro de 2023

 

Sete de Setembro  

Cyro de Mattos

 

 

Atento assistia na televisão o desfile de Sete de Setembro, acontecendo na avenida Cinquentenário. Vieram de repente de dentro do homem com acumuladas juventudes duas lembranças longínquas, dizendo-me no coração coisas desse dia revestido de civismo e evocação da pátria. Na primeira delas, o moço compenetrado desfilava em sua terra natal vestido na farda gloriosa do único ginásio da cidade.

Ginásio Divina Providência. Setembro tinha sentido com a cor do desfile no ar verde e amarelo. Tambores uníssonos, compenetrados do toque, rufavam a pátria amada. Marcha cívica ou efervescente música na pele de adolescentes com a alma de girassóis flamantes? Nem o aguaceiro que despencou de súbito conseguiu tirar o brilho de um escudo glorioso na marcha, sob os passos encharcados de sonho.

A outra lembrança chegava-me do desfile em que participei duas vezes em Salvador como aluno do Centro de Preparação de Oficiais de Reserva do Exército Brasileiro.  Desfilei com um fuzil pesado no ombro, vestido na farda verde oliva, de tecido grosso, do Campo Grande até a Praça da Sé.  Antes do desfile começar, recorria aos goles de água ardente levada no cantil, para que assim os sentimentos cívicos sustentassem meus passos na impassível performance ditada pela marcha, retumbante e solene.  

  Naqueles idos perdidos na nebulosa do tempo, cursei o Serviço de Intendência durante dois anos no quartel do Forte de São Joaquim da VI Região Militar, situado em Águas de Menino, em Salvador de Bahia.  A Sexta Região Militar abrangia o território formado pela Bahia e Sergipe.  No início do curso, tudo era desafio, o aprendizado sobre a vida militar decorria das aulas teóricas constantes, com exames em cada mês, exercícios no pátio do quartel, marchas e acampamentos no terreno árido, despovoado, onde não se ouvia o canto de um passarinho.

 Lá, naqueles ermos distantes de uma cidade do interior, aprendíamos movimentos de guerra com treinamento de tiros ao alvo, simulação de ataque e defesa, tomada de assalto das posições estratégicas do inimigo. O tempo podia estar chuvoso, a água invadindo a barraca no mato ou com um calor abrasador, de queimar a pele, o corpo com o suor pegajoso, os exercícios prosseguiam na crueza do dia estafante.  Sem hesitar, sérios, sempre os alunos mais velhos diziam para os novos: “Acostumem depressa, não esperem moleza, pior é na guerra!”

Tudo aconteceu como devia ser. Fui diplomado pelo Exército Brasileiro da VI Região Militar como Tenente da Reserva, no Serviço de Intendência.  Ufa! O “266”, como assim o moço do interior era identificado no curso, sorriu em definitivo com a conquista briosa e patriótica em fase importante de sua juventude, cheia de momentos impossíveis de esquecer. Dava graças a Deus ao encerrar meu serviço militar, fundamentado na disciplina, obrigação e fidelidade aos momentos adversos quando fosse chamado para lutar com coragem em defesa da pátria.

Tempos depois, tudo me pareceu normal durante aqueles momentos ásperos na prestação do serviço militar.  A princípio, o moço do interior não se conformava de terem sido interrompidos os momentos bons que correspondiam a uma fase psíquica de sua vida. Houve cenas na juventude como desafios marcados de prazer nas descobertas. Justamente naquela paisagem em que entravam namoros nos bailes estudantis, aventuras no domingo azul do mar. Jornadas que rolavam nas ondas acaloradas do tempo, ao balanço da cidade de santos e orixás, porejando de magia e crença na sua beleza antiga.

Se a vida passa, muda, menos o tempo, que é irreversível em sua categórica condição de ser hoje como ontem, dando e tomando, alegrou-me agora reviver momentos daquele tempo quando então participei no desfile de Sete de Setembro.  

Pensando bem, desfilar durante o Sete de Setembro com um fuzil pesado no ombro, em percurso longo, não era nada, o pior só mesmo na guerra, como observavam os alunos mais antigos no quartel ou acampamento.