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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

 

A Mais Difícil Prova

Cyro de Mattos

 

Montado no jumentinho. Barba ruiva por fazer, cabelos crescidos entrando pelos ouvidos. Corpo magro, camisolão esfarrapado. Lábios feridos, sedentos na travessia do deserto. Olhos pálidos na cavidade das órbitas fundas. Pediu água ao homem, que estava enchendo o pote na fonte.  O homem achou estranho, alguém querendo ter alguma coisa de graça na aldeia, tudo ali era pago.

            Foi a uma hospedaria, lá pediu um pouco dos restos de comida deixada pelos hóspedes. Só havia comido gafanhoto no deserto, assim mesmo quando com sorte encontrava. O dono da hospedaria achou absurdo o que pedia. De graça não ia conseguir nada. Trabalhasse como os outros. Tinha que pagar para comer as sobras da comida, eram aproveitadas pelos porcos.

           De volta à montanha. Vários dias em jejum. Apareceu na feira num sábado. A feira cheia de gente como sempre. Curiosos formaram grande multidão em torno dele.

Disse numa voz clara e vagarosa:

- O dinheiro não é o mandamento de tudo, a força do mundo. Não compra o amor, a amizade, a paz, tantas coisas maravilhosas.

Alguns chegaram com as tabuletas. Mostraram à multidão de curiosos diante dele. Diziam: 

 

 Dinheiro eu te quero bem,

 Por isso o meu bolso sempre tem.         

         

           Se o dinheiro não traz felicidade,

         Me dê o seu e seja feliz.

Dinheiro estocado,

Pensamento comprado

 

           Quem disser que tem amigo

          Tem de si pouca ciência.

          Amigo só existe aquele,

          O da própria conveniência

 

             Braços dele clamando aos céus:

             - É mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que o rico entrar no reino do céu. 

     Pronunciou as palavras com o peito contrito, certo de que estava alertando os incautos com uma frase de sabedoria milenar. 

     Recebeu estrondosa vaia. Os mais irados pegaram pedras. Começaram a atirar nele.

Pisotearam, cuspiram no cadáver. Acharam que devia ser enterrado ali mesmo, evitando-se que as carnes dele, com um cheiro horroroso, propagassem a peste.

           Jogada a última pá de terra no buraco, o céu escureceu, trovões ribombaram no lado do crepúsculo. Chuva de fogo caiu de repente, túmulos abriram-se, vento uivou sem cessar.  Terremoto começou a partir a terra em pedaços.

      Tempos depois, o Conselho dos Aldeões Velhos mandou erguer o monumento junto ao túmulo para homenagear a sua memória. No pedestal da estátua do homem desconhecido, colocaram esta inscrição:

 

A MAIS DIFÍCIL PROVA É A DA INOCÊNCIA

 

*A mais difícil prova é a da inocência, verso do poeta Cassiano Ricardo.

 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

 

Meus saberes dos outros

Cyro de Mattos

 

 

Viver como cadáver ambulante que procria não é necessário; necessário é criar com alma, força e vida.

Existe homem mau inteligente, quando vence não convence.

Espera-se bondade do vitorioso, cospe demônios o invejoso.   

Até o arroto do gigante é um golpe individualista e marginal, esmaga o pequeno sem lhe dar chance.  

Tudo pode acontecer, só não acredito em Deus pecar.

Se ficar pensando no inimigo não vive nem nada.

Vira herói o orador diante da covardia do morto.

Atirar com a pólvora do outro é o melhor esporte, nada custa.  

Dar palpite de plantão é gostoso, tirar uma de sabichão sem esforço.

Primeira a obrigação depois a diversão.

Uma mãe é para cem filhos, cem filhos não são para uma mãe.

Boa romaria faz quem em sua casa está em paz.

Depois da caça morta aparece é caçador.

Antes só do que má acompanhado.

Duro com duro não dá bom muro.

Só atiram pedras em árvore que dá bons frutos.

Depois de uma viagem longa e fria melhor é tomar um banho na fonte da poesia.  

Quem quiser fazer o bem sempre olhe para trás porque o mal aí vem.

O bom sempre é odiado, é do que mais gosta o invejoso.  

Viver pior do que um bicho o homem gosta, quem quiser veja o noticiário na tevê.

Com o rio cheio de sujeira, a lua já não tem lugar para derramar sua prata.

Um abraço dado de bom coração é como uma bênção depois da oração.

O mundo de Deus é grande, trago na mão fechada, o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada.

O sino de Belém quando toca é por te querer mais bem.

Falar sem dar a prova pode dar o maior desconforto.

O tempo não socorre os que dormem.

Na mesma árvore que nasce a preguiça come, cresce e morre.

A poesia é o melhor incentivo para atravessar o rio escuro.

 Com mãos nas mãos a vida fica viável.

Não fosse o tolo, não existia o sabido, infelizmente.

Dinheiro é chave de portas, deflorar a inocência é do que gosta.

O amor consiste em dar e não em receber, mas o homem faz do egoísmo uma religião acima de todos os valores. 

O pior do cego é pensar que enxerga.    

 Nas marés do amor só vale a enchente.

Sem o passarinho o homem é triste por estar sozinho.

Quando se desgarrou da natureza, o homem tornou-se um bicho estranho.

 Não adianta gritar, melhor rezar, nesse vale de dores só os anjos escutam.

Romance bonito tem sofrimento, podendo alcançar o eterno.

Tudo a vida aguenta, a marreta da morte não aguenta.      

A vida só é dura pra quem gosta de moleza.  

Pingo d’água em pedra dura tanto bate até que fura.  

O amor é o sentimento mais forte, a liberdade o de maior valor.

Quem cedo não morre de velho não escapa.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

 

Revanche de Osvaldo Gigante,

Providência do Delegado Sepúlveda

Por Cyro de Mattos

 

Foi no tempo do velho Campo da Desportiva. Mereceu destaque na semana o desentendimento envolvendo o desportista Osvaldo Gigante e o adolescente Sílvio Sepúlveda, filho de delegado Reinaldo Sepúlveda. Osvaldo Gigante era veemente torcedor da Associação. Sílvio Sepúlveda não dormia quando seu Itabuna perdia. Foi barrado na entrada da Desportiva pelo Osvaldo Gigante, que não admitia que ninguém entrasse de graça no estádio. Nem se fosse o filho do delegado. Armou-se forte discussão entre os dois contendores. Pessoas importantes da cidade interferiram para acalmar os ânimos entre os dois torcedores rivais. Terminou com o Sílvio Sepúlveda entrando na Desportiva, uns dizem que de graça, outros que ele teve de pagar o ingresso. Pelo sim, pelo não, no auge da discussão, o Sílvio Sepúlveda disse para o Osvaldo Gigante que o timeco da Associação era de racistas e infiltrado de integralistas.

 

A Associação era um time muito superior ao Itabuna. Ganhou o jogo para o Itabuna com uma estrondosa goleada, lavando a alma do Osvaldo Gigante, que saiu do estádio rindo pelos cotovelos e mangando do Sílvio Sepúlveda.

 

De mansinho, sem que ninguém visse, o derrotado torcedor do Itabuna saiu da Desportiva muito antes do término da partida. Torcedores mais velhos do Itabuna, alguns deles hoje em outras dimensões cósmicas, comentam que a Associação praticava naquele tempo um profissionalismo disfarçado, pagando um pequeno salário mensal aos jogadores e prêmio quando venciam uma partida importante.

 

Com relação à discussão entre os dois torcedores rivais, o delegado Reinaldo Sepúlveda encontrou um jeito para acabar com aquela desavença entre o filho e o torcedor extremado da Associação. Se continuasse, a situação poderia se agravar e não trazer boas consequências. Osvaldo Gigante andava se vangloriando com a goleada aplicada pela Associação no Itabuna. O delegado conseguiu que o Osvaldo Gigante fosse transferido da firma compradora de cacau Correia Ribeiro para trabalhar numa filial da empresa em Palestina, atual Ibicaraí. A cidadezinha de Palestina ficava a cerca de quarenta e cinco quilômetros de Itabuna, com seus dias calmos e longe do mundo. O ônibus que ia de Itabuna para Ibicaraí percorria uma estrada de barro esburacada. No verão a poeira sobrava, no inverno era a vez da lama. O motorista botava fogo pelas narinas com os solavancos que o ônibus dava por causa dos buracos. Os passageiros cuspiam cobras e lagartos durante a viagem. O percurso entre as duas cidades durava mais de três horas.

 

Osvaldo Gigante nunca esqueceu aquela punição, arranjada pelo delegado Sepúlveda para resolver o duelo entre os dois torcedores apaixonados por seus times. Passava agora as tardes em Ibicaraí, mansas de dar sono em qualquer forasteiro que por ali chegasse. Ficava assim sem assistir as partidas de futebol no Campo da Desportiva, principalmente aquelas em que a Associação participava. Isso era o que mais lhe doía. Tempos depois foi morar em Pirangi, atual Itajuípe, cidadezinha que ficava mais perto de Itabuna. E lá fundou o Bahia, que fez algumas partidas amistosas com o Itabuna do Silvio Sepúlveda, ganhando todas, lá em Itajuípe e cá na Desportiva.

 

Para a felicidade e a algazarra que o Osvaldo Gigante fazia em cada vitória quando saía do estádio. Para a amargura e a humilhação que o Sílvio Sepúlveda passava em cada derrota de seu não menos querido Itabuna.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

 

      Dezembro

        Cyro de Mattos

 

       Tudo é canto pelos ares, chão, mares.

       Todas as manhãs acesas, o mundo esplende de paz.

       Luz nunca vista ilumina seres e coisas.

      Põe amor nas vistas, de tão pura.

      Alegra nessa estrada por onde os bichos andam.

        Pés no chão.  Um deles pergunta:

      - Por que tanta luz?

       O mais velho responde:

      - Em Belém nasceu Jesus.

sábado, 2 de dezembro de 2023

 

Bilhete do Menino

Cyro de Mattos

 

Vou escrever

a Jesuscristinho

no pedaço  

deste papelão

que achei

lá na rua  

onde cato

só espinho,

pego cisco

no olho

e apanho

vento

na cara.

 

Quanta noite

sem sono,

quanta pedra

na capanga,

quanta poeira

e topada.

 

Nessa estrada

tão comprida

que eu não sei

onde começa

 nem tampouco

onde acaba,

vá desculpando

os garranchos,

a mão que treme,

a letra torta,

a lenga-lenga

por não ter

uma bola

de borracha

ou até mesmo

de gude

umas duas.

 

Não esqueça

 de lembrar

à minha madrinha

Nossa Senhora

que nunca

tive uma

caneta,

um caderno,

uma borracha

e nunca fui

a uma escola.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

 

Crônicas Prazerosas de Agenor Gasparetto

Por Cyro de Mattos

 

ÊXTASE, de Birra com Jorge Amado e Outras Crônicas Grapiúnas é um pequeno livro prazeroso, de Agenor Gasparetto, que acaba de ser publicado pela Via Litterarum, editora que pertence ao autor. Uma editora independente que tem como saldo positivo um catálogo rico de autores conhecidos e emergentes. A façanha foi obtida ao longo dos anos com sacrifício e heroísmo, tornando a iniciativa pioneira no interior baiano. 

 O livro reúne no seu elenco oito crônicas, algumas estão mais para o pequeno ensaio, de natureza técnica na escrita, correspondendo assim ao trato específico que o assunto escolhido exige para a abordagem, a análise sem devaneios. O pensamento usa linguagem objetiva, desdobra o tema com segurança, informa com argumentos inteligentes alguns importantes aspectos da vida. Na prosa precisa incursiona nas questões sociais e históricas do contexto.   

Neste pequeno livro de escrita leve, Agenor Gasparetto mostra que sabe compor quadros belos com a crônica. Em “Êxtase”, que abre o livro, minha preferida, o autor comove ao flagrar com fina sensibilidade o momento de um homem pobre que gosta de alimentar os passarinhos com uns dois punhados de milho moído. O diálogo que se estabelece entre os passarinhos e o homem que os alimenta passa diante do leitor a emoção pura de um instante em que as relações da existência se dão bem quando conectadas com a surpresa de ser no êxtase revestido de puro contentamento.

Em “Cachoeira, o Rio de Minha Vida”, o cronista com uma lírica prosa trivial que prende reinventa o cenário do cotidiano ligado na natureza, conduzindo como personagem central o rio Cachoeira e sua coreografia, exibida assim com beleza pelo entardecer com a chegada dos pássaros. Um espetáculo singular faz com que o cronista revele, como Pessoa, o genial poeta português, que o rio do coração está no pé de uma aldeia, dessa vez chamada Itabuna.

Outra amostra de texto bem-sucedido está visível na crônica “Do Culpado e dos Tempos de Antigamente”, que guarda para o leitor a boa surpresa do final, um feliz achado de quem sabe fazer a análise lúcida do viver com o paralelo do que foi o ontem e o que acontece no hoje, em que crianças vidradas nos tempos eletrônicos não mais sobem nas árvores para colher frutas ou pela sensação da aventura.

O cronista é verdadeiro, contundente quando alude à vulgarização e à banalização que se impõem com um novo referente. Em “Tempos Estranhos”, crônica dos dias temerários do hoje, vemos que a alguns a Internet fornece os meios fáceis para que se apresentem na mídia como donos do saber, mas que em verdade não passam de patrulheiros de plantão, vestindo o ego com a roupagem da simulação para a performance enganosa de intelectual talentoso e culto.     

É sensato quando expõe certa mentalidade mesquinha da inteligência local, se pondo contrária à homenagem justa que se deve prestar ao romancista Jorge Amado. A postura é lamentável, a omissão se faz imperdoável por parte de conterrâneos e lideranças locais. A mentalidade estreita, de baixa aferição humana, faz eco ao dizer popular de que santo de casa não faz milagre, teimando em recusar que a avenida Cinquentenário receba o nome de Jorge Amado. Finalmente aconteça a homenagem justa ao romancista que nasceu na fazenda Auricídia, em Ferradas, e das terras do sem fim quis o destino que seus livros andassem por todas as partes do mundo com as gentes e histórias grapiúnas.

As crônicas de Agenor Gasparetto também sabem tocar nas feridas sociais e políticas. Exemplos disso temos em “O Trabalhador Rural na Crise da Lavoura Cacaueira”, “Belas e Tristes Fazendas de Cacau do Sul da Bahia” e “Desenvolvimento e o Paradoxo Canavieiras”. Em geral, todas elas se apresentam com a marca de quem conhece o ofício. Sente, reflete, transmite visões de que a vida não é rodeada de concepções extremamente falsas, inúteis para o nosso bem-estar, mas acontece com proveitosas crônicas retiradas do ninho da beleza.  

 

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

 

Memorial da Casa da Torre

Cyro de Mattos

 

Autora muito premiada, com destaque para nove láureas concedidas pela Academia Brasileira de Letras, Stella Leonardos publicou mais de uma centena de livros, entre romances, poema, literatura infantil e dramaturgia. Formada em Letras Neolatinas, tradutora do inglês, francês, italiano, espanhol, catalão e provençal, sua estreia aconteceu com Passos na areia, em 1941. Os críticos costumam situar a vasta obra poética de Stella Leonardos na terceira geração do Modernismo, relacionando nessa condição os livros Geolírica (1966), Cantabile (1967), Amanhecência (1974) e Romanceiro da Abolição (1986).

Nome dos mais festejados pela crítica, Stella Leonardos vem entregando há muito tempo sua vocação poética ao projeto de recriação de um Brasil bem brasileiro. Da sua alma cancioneira e romanceira salta um Brasil de sentimentos românticos, epicidades, ideais, relatos e saberes populares. Brasil iluminado de estados líricos, formado por elementos míticos, que irrompe do lugar onde nasce a história feita de passagens marcantes, ações, tantas razões e casos.

O épico apresenta, o lírico lembra, o dramático articula mundos interiores    dos seres humanos conflitantes na criação e movimentos da vida. No palco da duração crítica e contínua dos acontecimentos expande-se a poesia de Stella Leonardos. Conota essa maneira íntima do lírico, calcada em permanente mergulho na memória, feita de emotividade, cena histórica e pesquisa. Gentis seus versos, em Memorial da Casa da Torre (2010) recordam vivências nas arcadas, aludem a finíssimos lavores nos salões e aposentos. Abrem-se nos portões com senhores de terras na época de conquista e domínio. Tocam no berço territorial da Pátria, no músculo dos negros, no primitivismo resistente dos indígenas. Restauram o homem através de intenções, ímpetos, sonhos e idealismo. Retiram-no do passado para ser lembrado no desassombro dos sertões vencidos, entoados na música rústica das boiadas.

Poesia é emoção condensada em linguagem mítica, rica, tensa e ambígua. Reflexão em suas formas geométricas calcadas na imagem, sob o pretexto da escrita para revelar uma ideia. Em Stella Leonardos mostra um discurso significante pontuado pelo som, no ritmo que ela imprime em sua maneira particular de sustentar a ideologia. Sua palavra cantante escorre musicalmente com interferência de vozes, tornadas dinâmicas, apropriadas nas lembranças e cenas descritas.

 O registro que é feito do fato bom ou triste é mais endereçado aos ouvidos do que aos olhos. Sua dicção musical enceta versos que dialogam com a história, ecoam procedentes de alguém que permaneceu no tempo.  Em seus cancioneiros e romanceiros tão brasileiros, Stella Leonardos canta e conta. Revive o Brasil com maestria de poeta que encanta, consciente de que no rememorar tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo, como falou Fernando Pessoa.

Assinalada a terra por armas e brasões de uma gente remota, que aqui chegou por mares nunca dantes navegados, o governo português teve que enfrentar situações desfavoráveis para fazer a colonização. Um desses obstáculos consistia na imensidão da terra descoberta, com a sua mata de sono milenar, jamais incomodada. Foi necessário dividir a terra rica em capitanias, glebas de muitas léguas, e doá-las àqueles que tivessem condições de fixar o homem no solo.

Por quase três séculos, a Casa da Torre distendeu suas cordas e acordes de inúmeros serviços prestados ao Brasil, começando pelas guerras aos piratas, aos holandeses e da Independência. Dali partiram os primeiros desbravadores do Norte brasiliense, as intrépidas bandeiras, as principais entradas dos sertanistas do Nordeste.

Em Memorial da Casa da Torre, um dos episódios mais significativos da história do Brasil Colônia, oriundo da influência da prole mameluca de Garcia D’Ávila, que levou domínio e ambição às regiões desconhecidas, Stella Leonardos, com idade avançada, demonstra que ainda domina bem o verso e faz uma poesia cativante, bebendo na tradição do poema de todos os tempos. Usa o arcaísmo e o neologismo para narrar os acontecimentos da pátria nascendo a passo de marcha. Na decorrência de versos que se alteiam com vozes em coro, de viva gesta, acende sinais luminosos como brasa viva que haveria de contribuir como ideal de heroísmo, cultura e civilização.

É da tradição da poesia ibérica vazar o amor e a saudade como figurantes que convergem para o lirismo e o épico. O registro de vultos e fatos heroicos são recorrências manejadas por rapsodos com inspiração no populário e saberes anônimos. No caso de Stella Leonardos, o relato poético se municia de pesquisa e de saberes locais do populário. Atenta, a poeta não se descuida de rimar memória e fatos que melhor repercutam ao fazer modelar do nosso cancioneiro e romanceiro. Seus livros aí estão espalhados para que sejam lidos como resultado da aproximação mágica de uma alma sensitiva à nossa memória, arrebatada de sentimentos românticos, valendo-se do histórico por quem ama a beleza e o valor exercido pela estima da Pátria.

No poema “In Memoriam”, introdutório ao assunto deste Memorial da Casa da Torre, Stella Leonardos abre seu verso terno para o que vai contar e cantar, com leveza deixa ser conduzida pela inspiração que lhe é particular:

 

                            No barro desses tijolos

                           Por mãos índias acalcado

       Quanta voz índia não dorme?

                                                              Na alvenaria da pedra

Por mãos afras carregada

   Quanta voz negra não pesa?

                                                             Na torre desse Castelo

Por brancos rostos vigiada

    Quanta saudade não se ergue?

 

A autora desses versos torna suficiente a imagem que interpela e, ao mesmo tempo, contempla a passagem do tempo guardada na memória. Apoiada na sensação do que se refaz triste, sob um ritmo que atrai, nos embala e envolve até o final da cantiga. Como estratégia usual de seus cancioneiros e romanceiros, ela sabe tirar efeito na linguagem quando emprega o neologismo através dos vocábulos que inventa: saudadeado, largoandante, longivozes, multivária, plurilínguas, existenciar, surpresada, passilargo, fugileve, impulsada, noviterra, ensonho, sonoite, novihorizontes, azulando.

A Casa da Torre é a primeira grande fortificação portuguesa do Brasil. As pegadas dos valentes que a povoaram com desassombro inigualável dos tempos de Garcia Dávila renascem neste memorial poético de Stella Leonardos. Da cidadela em ruína, muralhas cobertas de musgo, gestos que resvalam por entre sombras, das fendas e rastros do poder extinto, reencontramo-nos na poesia de versos generosos. Das paisagens com passagens cheias de histórias marchamos, somos levados com o mesmo brilho das gerações que fundaram nossa nacionalidade.

Referência

LEONARDOS, StellaMemorial da Casa da Torre, Gráfica Santa Marta, João Pessoa, Paraíba, 2010.

 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

 

A Utopia dos Palmares

                              Cyro de Mattos                                              

 

Conforme a Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, o Dia Nacional da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro,  pois foi nesse dia, em 1695, que morreu Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares. Ele representou a luta do negro contra a escravidão no período do Brasil Colonial. Na trama implacável dos destinos, marcada de sangue pelos feitos  do feroz aventureiro europeu, estava reservado ao Quilombo dos Palmares na serra da Barriga, em Alagoas,  com o seu líder   Zumbi,  o lugar onde se deu um caso extremo de resistência ao sistema.

O Brasil Colonial procurou roubar a alma do negro africano para transformá-lo  em coisa, fazendo com que ele sustentasse o mundo do açúcar.  Durante dois séculos o Brasil foi o açúcar, para ele vivíamos, esquecidos da madeira de lei encarnada que nos batizou. Para produzi-lo era preciso que fosse plantado na “terra que em se plantando tudo dá”, como já havia informado o escrivão Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal sobre chão dadivoso quando fomos descobertos por Pedro Álvares Cabral.

O açúcar  tinha uma voraz fome de terras, precisava de trabalhadores resistentes para as grandes plantações. Exigia que esses trabalhadores vindos da África fossem escravos. A ideologia dominante é que isso era bom porque bom era o senhor branco, o dono do canavial imenso, criatura que, dessa maneira,  tinha sido privilegiada pela natureza. Nessa visão estática de mundo, o negro africano era colocado  fora do círculo da família patriarcal. Como objeto deveria servir ao senhor branco, sem oferecer qualquer resistência. Na sociedade colonial escravista, os lugares estavam fixados de antemão. Pretos eram escravos, índios eram servos e brancos eram livres.

Nessas condições, o negro africano não tinha chance de ser alguém. Daí que certa vez houve a fuga de quarenta deles na Zona da Mata quando queimaram e abandonaram uma fazenda de açúcar. Enfrentaram tudo que era hostil pelo mato e foram dar na serra da Barriga onde fundaram o Quilombo dos Palmares. Ali a ideologia do senhor branco seria afugentada pela utopia do escravo africano, que queria ser livre, ao plantar na serra da Barriga um pedaço da África, que lhe havia sido roubada pelo Brasil açucareiro.

Em 1635, o Quilombo dos Palmares era formado por três aldeias. Aí por volta de 1640 viveriam cerca de dez mil quilombolas. Eram fortes e contentes, plantavam de tudo e não se serviam da  terra como fonte única de riqueza, através do açúcar. Cada família em Palmares  ocupava um lote de terra, o que tirava dela era para o seu sustento. Em 1670, já dezenas de povoados cobriam mais de seis quilômetros quadrados. Palmares havia se transformado em um Estado, situado na borda do litoral do mundo canavieiro. Tornava-se por isso mesmo em grave ameaça ao  império do açúcar, com seu sistema fixo calcado no braço escravo, em benefício exclusivo do senhor de engenho.

Tinha uma população de trinta mil almas quando sob o comando de Zumbi sucumbiu às investidas de Domingos Jorge Velho, chefe de um exército armado de canhões, constituído de nove mil homens. Sucessor do trono de  Ganga Zumba, Zumbi mostrara  ser um guerreiro implacável antes mesmo  de ser derrotado por Domingos Jorge Velho. Há quem diga que ele se pareceu aos heróis  de guerra Aníbal, Alexandre, Ciro e Napoleão. Diferentes deles porque não lutou para conquistar glórias, mas para fazer de Palmares uma África livre no chão açucareiro do Brasil Colônia.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               

O Brasil tem uma dívida impagável para com o negro. Não se pode esquecer Zumbi, não se deve esquecer Palmares. Até fiz uns versos para que isso não aconteça comigo e outros.  Leia meu poema.

 Abolição - Na zoeira do terreiro/ Batucam que batucam/Tambores sem cambão.// Trepidam nesses punhos/ O suor, a lágrima, o sangue/ Nos rastros do negro fujão.// Todos batem nesse tambor,/ Pode até não ser de fato / A tão esperada abolição.// Mas é o começo duma hora/ Que se faz tão grandiosa/ Como o verde na amplidão.// África agora é uma só voz/ Na esperança das manhãs/ Sem o ferro do vilão.

 

·       Texto publicado na Revista África e Africanidades, edição 9

 

*Cyro de Mattos é escritor, da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara Municipal de Salvador.

 

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

 

Com oitenta e quatro anos e nove meses, o escritor e poeta Cyro de Mattos acaba de publicar pelas Edições Mazza, de Belo Horizonte, Histórias Brasileiras, livro que reúne doze contos inspirados no universo do negro (6) e do indígena (6). O prefácio é da professora, doutora em Letras, e tradutora Meritxel Hernando Marsal, da Universidade Federal de Santa Catarina.  O autor na dedicatória ressalta: “Dedico a essa gente sofrida, o negro e o indígena, este massacrado na fuga em grito com a flecha, quebrada até o último gemido, aquele outro arrancado da África pelo ferro do vilão impiedoso para transbordar na vala uma mancha soberba que envergonha as terras brasileiras.”

  Com mais de quarenta anos de atividades, símbolo de resistência e compromisso, a Mazza Edições reflete em seu vasto catálogo o empenho de escritores e leitores, que acreditam na construção de uma sociedade baseada na ética, na justiça e na liberdade. É reconhecida como a editora aquilombada das letras brasileiras. No tocante a essa temática, a Editora se tornou referência nacional e internacional, na medida em que contribui para os debates acerca da diversidade sociocultural de nosso país.

Cyro de Mattos com este Histórias Brasileiras alcança a marca de 66 livros numa   produção ao longo de 60 anos, e seu legado é constituído de diversos gêneros, entre o romance, novela, conto, crônica, ensaio, literatura infantojuvenil e poesia. Muito premiado em certames literários relevantes, seus livros são adotados na escola e estudados na universidade. Editado e publicado em Portugal, França, Itália, Alemanha, Espanha, Cuba, Rússia, Estados Unidos e Dinamarca. Dividido em duas partes, Histórias Brasileiras reúne os contos seguintes: I - Histórias do Negro – O Negro e Sua Negra, História da Vovó, Modos de Damiana, Caçador Guinó, Noites Turvas e Tratado de Paz; II - Histórias Indígenas – A Velha Indígena, A Mãe e Seu Filho, O Último Camacã, Inocência sem Flor, Longe da Taba e Mar de Sangue. Este é o segundo livro que o autor publica pela Mazza, o primeiro foi Poemas de Terreiro e Orixás.

 

 

                                                       

domingo, 12 de novembro de 2023

 

Marinete Era o Nome

Cyro de Mattos

 

Ilhéus. Banco da Vitória. Fazenda Cordilheira. Primavera. Rio Cachoeira. Itabuna. Pela janela você via bando de periquitos seguindo no domingo azul em direção às serras, no outro lado do rio Cachoeira.

Cacaueiros passando. Apinhados de fruto maduro nos galhos.  Seguia perto de uma das margens do rio. Perigo à vista, curva fechada. Jaqueiras. Mangueiras. Eucaliptos. Marinete era o nome. Viagem demorada. Rotineira. Fazia barulho. Rangia, meu Deus, aos solavancos…

Pirangi. Banco Central. Pedrinhas. Dois Irmãos. Mundo Novo. Serras azuis. A mata escura com as árvores nativas, muita madeira de lei.  Maçaranduba. Jacarandá. Vinhático. Putumuju. Claraiba. Jequitibá. Cedro.  Pequi. Louro. Baraúna. Bicho nas copas. Bicho no oco do pau. Bicho de carreira. Anos atrás esturro de onça.

Casas de fazenda. Gente no terreiro. Barcaça aberta secando o cacau. Água de córrego. Animais pastando. Ribeirão forte. Pancada formosa. Praga no buraco, raiva cuspida. Rostos suados. Os passageiros com a língua de fora.

Ferradas. Itapé.  Barro Preto. Palestina. Ponto de Astério. Ibicuí. Iguaí. Nova Canaã. Mundo de pastagens. Marinete era o nome. Rota importante. Fazendeiros. Gente do mato. Comerciantes. Sacolejando. Parecia que ia partir em pedaços.

Na Curva-do-Boi não escapou um só cristão…

Bonito quando chegava, buzinando na entrada. Casinhas sujas. Espiando assustadas. Triunfo de chegada.

O correio. A bagagem. O jornal. A mala. Carregadores no tumulto. O “13” era o preto Domingos, alto, tinha um vozeirão.  O “12” era o Felizardo. O “15” um capenga. O “16”, branquelo e desdentado. O “2” cobrava um cruzado. Meninos mercando. Rolete. Cocada. Cordas de caju. Cordas de caranguejo. Beiju de Água Branca. A preta velha vendia mugunzá e mingau de tapioca em dois caldeirões.

O céu de teto preto. Depressão. Atoleiro. Mais curva. Despenhadeiro. Ladeira escorregando.

Macuco. São José. Pratas. Rio Branco. Panelinha. Camacã. Santa Luzia. Canavieiras. O motorista botava fogo pelas narinas. Passageiro enfezado. Passageiro rezando. Condutor equilibrista aguentando os tombos. Marinete era o nome.

Pontilhão. Ponte. Descendo a serra. Cruzando o vale. Subindo o verde. Alegria dos lugarejos. Modo de acontecer o dia na alma das cidadezinhas.

Religiosamente.

A estrada sinuosa. Com poeira ou lama.

A marinete era um velho ônibus de cadeira dura. Percorria várias linhas na estrada de barro esburacada, sem sinalização, estreita, que interligavam as cidades próximas e distantes no Sul da Bahia. O nome marinete está associado ao poeta italiano futurista Marinetti. Foi uma novidade quando os ônibus foram lançados em Salvador como meio de transporte urbano. Os transportes usados à época pela população eram os bondes, que corriam sobre trilhos. O poeta italiano Marinetti passou em Salvador e fez palestra sobre a poesia futurista, que se expressava com uma linguagem livre, nova, veloz, correspondendo aos novos tempos alimentados pela indústria, energia elétrica e novas descobertas. Como os ônibus eram uma novidade que tinha a ver com o futuro, o progresso, o povo associou esse novo meio de transporte ao poeta italiano futurista.

As marinetes pertenciam à empresa Companhia Viação Sul Baiano cuja sigla era SULBA. Circularam no Sul da Bahia durante o apogeu da lavoura cacaueira. Um dia, um gaiato dirigiu-se a um homem que estava prestes a embarcar na marinete e, fazendo alusão à sigla da empresa, disse com a voz firme:

 “SUBA!”

Finalizou com o rosto sério e os olhos arregalados:

“Se vai descer, só Deus sabe.”

 

A palavra é...Marinete | Ancelmo - O Globo

 

 

 


quinta-feira, 9 de novembro de 2023

 

 

Jorge Amado e Seu Elogio da Vida

Cyro de Mattos

 

Da saga de cobiça e sangue, do curso da violência na terra primitiva, com suas léguas férteis que acenavam como um eldorado, nasceria uma literatura original, que por vários aspectos tem lugar destacado na novelística brasileira. Cabe a Jorge Amado o lugar indisputável de quem como romancista de denúncia social deflagrou importante corrente temática na ficção regionalista do Brasil. É o escritor compromissado em recriar a realidade objetiva, que faz prevalecer o documental sobre o subjacente, a linguagem coloquial no texto sem maior preocupação em auscultar o herói problemático na temática local, em sua tensão crítica diante do mundo.

 

Diferente de Adonias Filho, um inventor de formas, com seus romances trágicos que se desenvolvem no espaço da infância da região cacaueira baiana, percebe-se no autor de Terras do Sem Fim que o mais importante no fundo de tudo e sempre é a essência mesma da narração, a história e a emoção que dela decorrem, interagindo no outro feito cúmplice do mundo.  A narrativa linear obedece aos momentos do princípio, meio e fim para apresentar o modo e o tempo sequenciado dos acontecimentos destacados da realidade objetiva. A cadência dramática da vida escorre-se nesses três momentos, configurando como na novelística tradicional a estrutura romanesca do que o autor pretende representar.

 

Romancista da memória, fecundo criador de personagens, ímpeto impressionante na narrativa desenvolta, apresenta-se na escritura que prende como um escritor que participa e julga o mundo. Dá seu testemunho sobre o que viveu e sentiu. Expõe cenas e situações dentro de geografia humana típica. Com apelos dramáticos e líricos, suas histórias acontecem na região cacaueira baiana e Salvador.

 

 A galeria de personagens femininas do romance brasileiro é ocupada com relevo pela enigmática Capitu, de Machado de Assis, a suburbana carioca e sofrida Leniza Maier, de Marques Rebelo, a de feição ambígua e rústica Diadorim, de Guimarães Rosa, a humilde roceira Biela, de Autran Dourado, e a guerreira incansável Maria Moura, de Rachel de Queiroz.  Com cheiro de cravo e cor de canela, Gabriela, de Jorge Amado, vem se juntar a todas elas, vestida com sua graça feita beleza, tecida de flor colhida nos prados da vida ingênua e simples. Na galeria dos grandes personagens do nosso romance, não se pode deixar de considerar que Jorge Amado é o criador de personagens que têm carne e sangue, riso e tristeza, sonho e desejo, vivendo como gente: Tieta do Agreste, Dona Flor, Pedro Bala, Pedro Archanjo, Mundinho Falcão, Ramiro Bastos, Vasco Moscoso de Aragão e Quincas Berro d’Água.

 

Nos livros de ficção desse escritor de dicção popular percebe-se sem dificuldade   que o narrador de linguagem sedutora dá voz aos humilhados e ofendidos, ao povo do candomblé, gente do cais, prostitutas, seresteiros, pescadores, operários, poetas populares, meninos de rua. Fica nítido que para ele é mais importante o conteúdo, muitas vezes interligado com humor no enredo, do que a palavra com a qual a vida é recriada.

Íntimo dos ficcionistas norte-americanos comprometidos com a realidade social do século vinte, dos romancistas russos de inspiração proletária, poetas populares, assim é este romancista com sua mensagem de liberdade e esperança na escrita irreverente, ora fascinante, ora sensual, mesclada com suas ondas de indignação.

 

Aqueles que o conheceram sabem que ele tinha a amizade como uma coisa nata. Dava-se conta por isso que existia ainda o homem simples como o artista, embora fosse comum encontrar na vida   o artista vaidoso como o homem.  O compromisso que sempre teve com as letras foi o da verdade, honestidade, promoção do reconhecimento do valor no outro e a defesa da liberdade de expressão. Jorge Amado é reconhecido por justiça como um legítimo romancista, um poeta da prosa que encanta.

 

Detentor das mais belas páginas de nossas letras. De O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1976), retiro essa passagem, com sabor e saber que resultam de um criador que sabe simbolizar o amor como o sentimento mais forte e a liberdade o mais poderoso.



O mundo só vai prestar
Para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e Dona Andorinha.

 

  Qual o escritor que não gostaria de assinar uma joia como essa, simbolizando o amor que a vida deve ter sem preconceitos e dominações? Uma joia singela com brilho de verdade.  O amor como armadura sustentável na leveza do ser, dotado de ração igual e água clara para todos.

 

Nasceu Jorge Amado em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, um povoado do jovem município de Itabuna, que aparece em Terras de Sem Fim como um dos domínios do coronel Horácio. Faleceu aos 6 de agosto de 2001, em Salvador.