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segunda-feira, 24 de junho de 2024

 

             Tempo de São João

              Cyro de Mattos

 

          Meu pai tinha renda modesta. Havia acabado de adquirir uma avenida de casas populares, lá no último quarteirão da Rua do Quartel Velho. Segundo ele, a avenida era constituída de trinta casinhas, cada uma delas possuindo uma sala, um quarto, cozinha e banheiro. As casinhas estavam alugadas a sapateiro, lavadeira, mecânico, cozinheira, vendedor ambulante e outras pessoas de baixa renda na sua profissão.

O dinheiro que meu pai passou a ganhar com as casinhas alugadas da avenida veio aumentar razoavelmente a sua renda, que  provinha até então do que ele vendia em seu quiosque num dos bairros da cidade: bebida, cigarro, charuto, manteiga e balas de jenipapo, que minha mãe fazia.

Minha mãe era costureira e bordadeira de mão cheia. Costurava e bordava enxoval de noiva que fosse filha de família rica. Era também uma doceira fina. Dava ao meu pai não só o dinheiro que ganhava com os doces que fazia  mas também o que recebia com os enxovais que costurava e bordava para as noivas. Ajudava assim a meu pai nas despesas diárias que ele tinha para sustentar a família.

Meu pai chegava lá em casa de cara fechada. Só pensava em ficar rico. Sofria muito para sustentar a família.

Um dia, escutei ele dizer à minha mãe:

- Ser pobre e a pior desgraça da vida. É comer mal, vestir mal, dormir mal, não ter casa para morar nem dinheiro para comprar remédio quando a pessoa fica doente.

- O que é isso, homem de Deus – disse minha mãe. – Temos vida humilde, mas nunca passamos privações com muita gente nesta vida.

Ora essa! Nada disso que meu pai dizia sobre o pobre interessava-me. O que me importava mesmo era ter um amigo para brincar, fosse pobre ou rico, branco ou preto, gordo ou magro.

Estou contando essas coisas agora de meu pai para que saibam de que não adiantava esperar por ele, achando que naquele ano ia comprar fogos para eu soltar no São João. Ele estava sempre dizendo que comprar fogos para soltar no São João era mesmo que queimar dinheiro num abrir e fechar de olho.

Não queria ficar olhando os outros meninos soltando fogos no São João, lá em nossa rua ou em qualquer canto da cidade. Por isso mesmo teria que arranjar uma maneira de ganhar algum dinheiro para comprar os fogos de São João.

Pensei em vender revistas e jornais velhos aos donos de armazém na Rua da Lama. Sabia que jornal velho servia para enrolar certas coisas que os donos de armazém vendiam. Tinha observado um dia seu Júlio Sergipano enrolando sabão no balcão do armazém com uma folha de jornal velho. Pensei também em vender garrafas ao dono de uma pequena fábrica de vinagre perto da nossa casa.

Ia de casa em casa, procurando por revistas e jornais velhos, garrafas grandes e pequenas. Dona Creusa, a mulher de Seu Miranda, o funcionário do banco, era quem mais me dava revistas e jornais velhos.  Dona Jô, a esposa do dono da casa de ferragens, uma mulher gorda, de pernas arqueadas, era quem mais tinha garrafas arrumadas em caixotes.  Às vezes chegava a encher um saco grande com tanta garrafa que ela me dava.

Com o dinheiro que ganhava, vendendo garrafa, revistas e jornais velhos, ia comprando os fogos para soltar no São João. Guardava-os numa caixa de sapato, que escondia debaixo da cama para que meu pai não os descobrisse.  Se ele descobrisse que eu estava comprando fogos para soltar no São João, certamente ia argumentar zangado: “Do menino se faz o homem, tenha juízo. Guarde seu dinheiro para usar com as coisas sérias e não para queimá-lo com fogos no São João. É uma grande besteira o que você quer fazer, muitas vezes já lhe disse isso”.

Esperava meu pai dormir no quarto ao lado e, quando percebia que ele estava ferrado no sono, apanhava debaixo da cama a caixa de sapato com os fogos que vinha juntando para soltar no São João. Ficava examinando pacientemente os fogos que tinha comprado com dificuldade. Passava e repassava-os diante de meus olhos deslumbrados, mesmo sabendo que ainda eram poucos: chuva de prata, chuva de ouro, cobrinha, estrelinha, fósforo de cor, traques de menino e vulcão.

Os dias demoravam de passar até chegar o mês de São João, embora desejasse que voassem o mais rápido possível. De vez em quando ia olhar na folhinha quantos dias faltavam para chegar o São João. Fazia as contas e via que faltavam quase três meses para a chegada da festa do santo que tinha um carneirinho, como uma vez tinha visto a imagem num quadro emoldurado, pendurado na parede da Vidraçaria Santo Antonio, numa das esquinas da rua do comércio.

Quando percebi no mês de maio que não estava mais conseguindo garrafas para vender, nem revistas e jornais velhos, eu tive então aquela ideia de vender minhas revistas em quadrinhos, além dos dois álbuns de figurinhas, um com os jogadores de futebol dos times do Rio e o outro com os artistas do cinema americano.

Não seria difícil vender meus álbuns de figurinhas entre os meninos lá da rua. Tanto o álbum de jogadores de futebol como o de artistas de cinema eram cobiçados por muitos meninos da cidade. Ambos estavam completos,

  tinha conseguido preenchê-los com todas as figurinhas de jogador de futebol ou de artista americano. Mas as revistas em quadrinhos? Tinha minhas dúvidas se ia conseguir vender algumas delas, qualquer menino lá da rua já havia lido todas elas.

Depois de resistir uns dias, vendi os dois álbuns de figurinhas ao filho do juiz por um bom preço. E, sem esperança, fui vender depois minhas revistas em quadrinhos no passeio do Cine Itabuna. Para a minha satisfação, vendi todas elas nos quatro domingos do mês de maio. Espalhados no passeio do cinema, sempre vendia meus gibis e guris velhos aos outros meninos antes de começar a primeira sessão da matinê.

Tive então um susto esplêndido quando chegou o mês de junho e percebi que possuía agora seis caixas de sapato cheias de fogos, podendo naquele ano de inverno frio soltá-los não só nos dias de São João mas também no São Pedro.

Enquanto fui menino nunca deixei de soltar fogos nas festas de São João e São Pedro. Sempre dava um jeito para arranjar o dinheiro para comprar os fogos. Soltava-os e queria soltar mais. Nunca estava satisfeito. Lá pras nove horas da noite, lembrava de ir com a turma de amigos soltar balõezinhos na beira do rio. Era uma sensação de vitória fascinante no exato momento em   que acendíamos o balão e víamos o vento levá-lo vagaroso acima do rio. Tínhamos certeza que os balõezinhos que subiam, às vezes oscilando, conquistavam as estrelas e a lua, lá no alto do céu.

Ah, aquelas noites de junho, o coração tanto queria. Crepitavam dentro de mim antes que chegassem com as fogueiras acesas nas ruas. Pipocavam com bombas e foguetes. Esbanjavam-se com licor e canjica.

 

 

 

 

                   

 

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quinta-feira, 20 de junho de 2024

 

As meninas do coronel

              Cyro de Mattos

 

Ficcionista, poeta, autor de livros para crianças, memorialista, orador primoroso, presidente por dois mandatos da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa é figura das mais representativas no ambiente literário e cultural da Bahia. É autor de 23 livros, de diversos gêneros.  Com As Meninas do Coronel (2023) publica o seu terceiro romance, que a exemplo dos outros dois, Uma Varanda para o Jardim (1993) e Um Corpo Caído no Chão (2018), tem como cenário Salvador no tempo que essa boa terra era chamada de Bahia.

Desse terceiro romance, de fluência espantosa, narrativa que seduz ao longo de 653 páginas, o autor de novo se apresenta com a sua impressão digital procedente de um ficcionista seguro, senhor de imaginário fecundo, estilo elegante, que não se separa da trama envolvente um minuto sequer em cada página escrita.  Em As Meninas do Coronel, o cenário dessa Bahia reconstituída de beleza antiga, ambiente agradável, os costumes eram impostos por preconceitos e padrões regrados pelo modelo social organizado.

 Sobre a situação material e de tristeza das quatro moças, que não possuem parentes, não tem amigos, não recebem visitas, Lustosa, personagem coadjuvante, que não se acha médico nem capitão da polícia militar, apenas um jardineiro, observa:

 

“As moças não ficarão mal. Ficarão mal de tristeza, porque eram muito apegadas ao pai e só tinham ele.  Mas, são moças. Tem a vida pela frente. E tudo passa, até as maiores dores. Desde que nascemos, ao longo de toda a nossa vida, o tempo nos mata e nos devolve, nos mata e nos devolve, até que, um dia, apenas nos mata. Mas ainda não é o caso delas. O senhor não concorda comigo?” (pg. 41)

 

 São quatro moças lindas, de traços formosos, que chamam atenção, a mais velha é a Ernestina, herdou o temperamento duro do pai, Ludmila gosta de ler romances, contos e poesias, Fabiola é a mais bonita de todas, passa o tempo ouvindo no grande rádio de madeira cantores famosos da Rádio Mayrink Veiga e da Nacional, e a mais nova, Milceia, não se separa da ideia de ser médica. São conhecidas como as meninas do Coronel Honório Mendonça, homem admirado por suas atitudes rígidas no comando da Polícia Militar. Quatro flores, como se dizia, que habitam o casarão da Rua Lellis Piedade, quando então no bairro de Itapagipe se levava os dias com a vida repetida pelas ondas da tranquilidade. Uma época em que a cidade se movimentava com o bonde, a lotação e a marinete, ônibus de cadeira dura, desconfortável.

Há passagens nesse romance imenso que se conectam com o trágico e o dramático, contribuindo na junção dos atritos e sentimentos tristes para a formação de amálgama harmonioso com suas notas tocantes, marcadas de anseios, incertezas, impossibilidades.  Esta música esplêndida numa espécie de simbologia traumática, a exigir na trama desafiadora a presença avassaladora de um ficcionista de habilidade singular, que se expresse diante das ocorrências com naturalidade e grandeza criativa. É o caso de Aramis Ribeiro Costa, com a sua maneira de projetar o literário como forma de conhecimento da existência, com os seus mistérios produzidos por lances do destino. Dessa vez nesse romance de sentimentos sofridos, mas também de algumas vivências alegres, como sempre acontece na vida em sua rotação cotidiana. Estes tons, estes gestos, estes movimentos que parecem simples à primeira vista, mas que formam uma melodia necessária, harmoniosa e aguda, de intensa vitalidade, na construção incrível de uma estética refinada, pontilhada de desencontros, caminhos insólitos que procuram achar o seu rumo. De tal sorte que o leitor cúmplice na leitura posta sob o enlace criativo da beleza, usada com a utilidade e o bem-estar inerentes à palavra mítica, sempre com uma peculiar maestria, se encontre sob a sensação nunca sentida e que se reconheça nela a origem de seus próprios sentimentos.

O certo é que Aramis Ribeiro Costa, escritor versátil, acostumado a viajar pelos prados do sonho, produziu uma obra prima de romance contemporâneo brasileiro, inserindo no seu panorama a presença da Bahia dos anos 50, uma cidade com ares aprazíveis, mas que tem ritmo largo e intensidade de alma em quatro moças solteiras, vivendo seus anseios num casarão do bairro de Itapagipe. Isso lhe dá um lugar assegurado entre ficcionistas de escrita robusta, vasto ritmo, como Cornélio Pena, Jorge Amado, Josué Montelo, João Ubaldo Ribeiro, Érico Veríssimo e Herberto Sales, entre tantos que com competência indiscutível souberam imaginar o mundo com suas simulações verdadeiras diante do efêmero que passa. Dotado de beleza que nos faz criaturas duradouras, enquanto existamos como seres racionais, emotivos, caminhando numa estrada perigosa, de natureza enigmática, de perdas e incertezas, nesta velha e nova canção.

 

COSTA, Aramis Ribeiro. As meninas do coronel, editora Via litterarum, Itabuna-Bahia, 2022.

 

terça-feira, 18 de junho de 2024

 As classes sociais

Murilo Mattos



Na cidade há o alto, o médio e o baixo,

Em trilhos distintos, percorrem seu espaço.

O alto, no topo, vive de esplendor,

Riquezas sem fim, poder e fervor.


No meio, há luta, constante labor,

Sonhos de grandeza, esperança e amor.

A classe média equilibra o viver,

Desejando subir, mas sem poder descer.


E o baixo, no chão, trabalha com dor,

Sustenta o sistema com suor e ardor.

Em bairros sombrios, a vida é mais dura,

Luta todo dia contra a amargura.


Mas quem vai julgar essa imensa divisão,

Se o ouro dos homens não mede o coração?

No fim, todos buscam um pouco de paz,

Pois a verdadeira riqueza, só o amor nos traz.

O sabiá

Murilo Mattos


Na árvore ele canta, o belo sabiá,

Seu canto é doce, um som especial.

Voa pelo céu, tão leve e feliz,

No jardim, na praça, por onde ele diz.


Com penas marrons, de olhar atento,

Traz ao mundo um belo momento.

Sabiá mensageiro, de paz e beleza,

Encanta a todos com sua leveza.

sábado, 8 de junho de 2024

 Santa Casa de Misericórdia

Cyro de Mattos

 

A Santa Casa de Misericórdia de Itabuna nasceu quando a cidade estava prestes a completar seu sexto ano de emancipação política, com vistas a atender às precárias e muitas necessidades da população no setor da saúde, em especial para prestar atendimento às pessoas carentes. Veio para curar ou aliviar o estado enfermo de todos nós e assim proteger a vida. Esse bem maior que Deus nos deu, a nós, os humanos, dotados de razão e emoção, em nossa caminhada na Terra, cumprindo   nosso destino imposto pelo tempo, que tudo dá e toma: em nossa travessia do ser-estar de natureza complexa, vulnerável e de curta duração. 

 

Naqueles idos de 1900, a cidade estava em plena expansão econômica e social decorrente de sua pujante economia com bases na lavra cacaueira, que começava a se impor como uma forte fonte de divisas para o Brasil.  Itabuna, que no início havia sido um burgo de penetração, na época da conquista da terra, com o seu povo vocacionado para o trabalho necessitava de uma casa hospitalar digna. As precárias condições de saneamento favoreciam a eclosão de epidemias e a manutenção de endemias, que ensejavam, nos dias e anos, altas taxas de doenças e mortalidade.

 

Em boa e abençoada hora, na noite de 4 de julho de 1916, na residência do Monsenhor Moysés Gonçalves do Couto, reuniram-se 30 senhores da comunidade com a finalidade de fundar a Santa Casa de Misericórdia, que a princípio se incumbiria de criar um hospital e um cemitério, paralelamente à sua atuação se prestaria em atender às obras de caridade.

 

Segundo pesquisadores locais, em 28 de janeiro de 1917, tomam posse nessa humanitária instituição, de grandeza ímpar, os Irmãos eleitos para o seu corpo associativo, tendo como seu primeiro provedor o Monsenhor Moysés Gonçalves do Couto. Fixada a data de 07/09/1922 como a de seu marco inicial, nesta foi inaugurado o Hospital Santa Cruz, hoje Calixto Midlej Filho; logo após veio o Cemitério Campo Santo, em 07/09/1925, e, em 29/06/1953, era a vez do Hospital Manoel Novaes acontecer e se incorporar ao seu patrimônio. Por último, em 1993, criou-se o Plano Próprio de Saúde, como forma de agregação de receita, e já em 2009 o Hospital São Lucas.

 

Ao longo de sua saga de natureza humaníssima, a Santa Casa de Misericórdia tem sido um espaço valoroso para o exercício da Medicina, em suas diversas manifestações de sacerdócio e sacrifício.  Tornou-se com a passagem das estações um centro de atuação médica exemplar, por isso mesmo com profissionais e equipes competentes fez-se referência maior no ofício de salvar e curar a vida, nessa atividade em que homens e mulheres de branco não se intimidam em lutar contra a morte.

 

Capítulo de rico significado na história de Itabuna, a Santa Casa de Misericórdia motivou-me a escrever um poema, que está incluído em nosso livro Cancioneiro do Cacau, uma epopeia da saga grapiúna, evocativa de seus mistérios e da caminhada do homem na selva hostil e impenetrável, rumo à construção de uma civilização com caracteres próprios, desde os tempos primitivos aos da vassoura de bruxa.  Transcrevo abaixo o poema:

 

 Santa Casa de Misericórdia

Cyro de Mattos

Era preciso um leito

que abrigasse a agonia.

Para aliviar, curar

era preciso um leito.

Monsenhor Moysés Couto

sem hesitar dizia.

A esperança plantou-se

lá no alto da colina.

Canto de um dia novo

soube a cidadezinha.

Santa Casa que aclara,

Santa Casa das dores.

No leito esse duelo

da noite contra o dia.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

 

Fátima

  Cyro de Mattos

   

                        Para Naumin Aizen

                         e Stella Leonardos

 

 

Fui a Portugal pela primeira vez em 1997 para participar como convidado  do Terceiro Encontro Internacional de Poetas organizado pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.  No saguão do aeroporto de Lisboa vi o meu nome na tabuleta erguida pelo homem. Era o motorista que ia me conduzir até Coimbra. Ele me disse que dois poetas tinham chegado meia hora antes de mim. Estavam na camionete, aguardando-me.

Soube depois com o meu inglês sofrível que o poeta americano era Próspero Saiz, aparentava uns 45 anos de idade, falava muito e ligeiro. A pele do rosto e os cabelos compridos mostravam sinais de suas raízes indígenas. A mulher de cabelos grisalhos e com uma voz rouca era Diana Belessi, poeta da Argentina.

A certa altura da viagem para Coimbra, o motorista da Kombi perguntou se não queríamos conhecer Fátima.  Não hesitamos em fazer aquela parada para conhecer o lugar onde a Virgem Maria apareceu aos três pastorinhos no dia 13 de maio. Surpreendi-me no Santuário com o tamanho grande do local para abrigar os peregrinos a céu aberto, no dia de louvor à Virgem santa.  E não foi difícil imaginar vozes que subiam ao céu naquele dia especial e entoavam o cântico que falava da aparição da Senhora santa. A procissão com velas acesas por centenas de fiéis, que vinham de países perto de Portugal e de outros pontos longínquos.

Houve uma história de luz ali na cova da Iria. Começava com o anjo que veio por virginal caminho de margaridas e anunciou aos três pastorinhos a aparição breve da Virgem Maria. Ela vinha ensinar aos meninos Lúcia, Francisco e Jacinta orações e sacrifícios pelos pecadores. Vinha trazer o amor de um sol sem crepúsculo para iluminar a humanidade. Houve quem não acreditasse na Virgem Maria Aparecida porque não acreditava em Deus, tudo aquilo não passava de maluquice dos meninos, dizia-se.

Depois de algumas aparições da Virgem Maria, os meninos Francisco, Lúcia e Jacinta foram sequestrados por um prefeito. Se não contassem o segredo confiado por Nossa Senhora, iam ser jogados num caldeirão de água quente, ele ameaçou. Não revelaram o segredo na prisão. Penduraram uma medalha de Nossa Senhora na parede e rezaram. Comoveram os presos, que também rezaram. Foram recebidos como heróis quando retornaram para suas casas.

Naquelas aparições de Nossa Senhora houve um grande dia. Uma multidão de setenta mil pessoas acompanhou os pastorinhos, rumo mais uma vez à Cova da Iria onde costumavam brincar e rezar. A Vigem Maria apareceu e disse que era Nossa Senhora do Rosário, a mãe de Deus. Os meninos pediram que ela fizesse um milagre. E de repente todos viram o sol virar uma bola de fogo e dançar no céu. Enquanto todos viam a bola de fogo, os três pastorinhos puderam ver a Sagrada Família: São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus. E também viram aparecendo nas nuvens Nossa Senhora das Dores. E Jesus com a cruz. Abençoavam a multidão.

Certa vez achei uma imagem de Nossa Senhora de Fátima deixada na casa que eu tinha alugado a um médico. Pertencia à mulher dele, que por sinal era portuguesa. Ela estava se separando do marido, tinha poucos anos de casada com o médico. Como ela não quis mais a imagem da santa, entreguei à minha esposa Mariza para que a colocasse no oratório.

De vez em quando rogo à Nossa Senhora de Fátima que me ensine a escrever crônicas inspiradas no amor pela vida para que possa enriquecer os outros com uma prosa generosa. Talvez como esta que está terminando, mas sem deixar o cronista de revelar antes um fato que considera importante em sua trajetória dedicada à poesia. Poucos meses depois que levei a imagem de Nossa Senhora de Fátima para meu apartamento, chegou uma correspondência pelo correio, na qual a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra convidava-me para participar do Terceiro Encontro Internacional de Poetas. Tinha grande vontade de conhecer Portugal, mas nunca me passou pela cabeça que isso fosse acontecer um dia pelas mãos de Nossa Senhora de Fátima.

sábado, 11 de maio de 2024

 


                  Mãe Josefina

                 Cyro de Mattos

 

 

            A mãe era o afeto, a dedicação e os bons conselhos. Apressada recomendava: “Menino, já para dentro, que vem o vento ventoso   levado, levando cisco!   Menino, já para dentro!” Alertava: “Boa romaria faz quem em sua casa está em paz.” Gostava de fazer adivinhas.  Sobre o sol: “O que é, o que é, o ano todo no deserto o mais quente é?”  Para estimular na resposta, antes de cada adivinha, ela observava: “Responda certo como um menino esperto.” De pura carícia era a adivinha que soltava sobre uma mãe generosa.  “O que é, o que é, o beijo da noite, de dia a melhor sombra é?” Para facilitar na resposta dizia que todos os dias essa pessoa acompanhava de coração o filho caçula onde ele estivesse precisando de proteção.  

           A casa era pequena, mas os dias tinham sempre as mãos zelosas da mãe. Colocavam nos vasos aquelas rosas, colhidas na roseira que ela mesma plantara, e que agora como sonho enfeitado de pétalas deixavam a manhã rosada e perfumada. Esbanjavam pelos ares só ternura.

          Davam vida à máquina de costura as suas pernas ativas. Os bordados, como beleza tecida por mãos até certo ponto divinas, ganhavam admiração de quem fizesse a encomenda e fosse recebê-la quando estava pronta.  Como o mundo de Deus era grandão. Os doces que a mãe fazia cativavam com açúcar.

        Uma mãe é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe, certo dia ela disse, mas só depois como homem crescido o filho saberia o sentido justo do que a mãe quis dizer com isso. Conheceria então nos dias ásperos quanta falta suas mãos faziam, pois já não mais cuidavam, não limpavam os caminhos na lei da vida para que ele estivesse seguro para fazer a travessia.  Teria de ser um dia com o filho sozinho os caminhos a percorrer na jornada da vida.

          Da balaustrada no jardim gostava de olhar as nuvens acima do rio levando castelos, gente e carga. Antes que a noite chegasse, desenhavam gigantes, às vezes velhos barbudos, um deles apareceu em pé no tapete. De calção, peito nu, lá no pátio da casa, ficava vendo a passagem das nuvens no azul do céu. Como elas que voltavam naquele pedaço de céu, ele voltaria um dia para brincar com os amigos de infância quando já fosse um homem? Só havia um jeito de regressar ao passado, rindo, a mãe disse, sonhando acordado. Um homem com o menino conversando.  

      -  Você quer ser peixe ou ser gente? – preocupada, a mãe perguntou. -  Primeiro a obrigação, depois a diversão, só anda agora com o bando de amigos nadando e pescando no rio. Finalizou séria e se dirigiu calada   para a cozinha.

       A mãe alimentava com o marido a ideia de que o filho deveria estudar para se tornar um dia um homem formado, um cidadão de bem, exercendo na sociedade uma profissão importante como a de advogado, médico ou engenheiro civil. 

       O filho queria ser escritor para investigar os mistérios e os sentidos da vida.  

 

                  Mãe Josefina

                 Cyro de Mattos

 

 

            A mãe era o afeto, a dedicação e os bons conselhos. Apressada recomendava: “Menino, já para dentro, que vem o vento ventoso   levado, levando cisco!   Menino, já para dentro!” Alertava: “Boa romaria faz quem em sua casa está em paz.” Gostava de fazer adivinhas.  Sobre o sol: “O que é, o que é, o ano todo no deserto o mais quente é?”  Para estimular na resposta, antes de cada adivinha, ela observava: “Responda certo como um menino esperto.” De pura carícia era a adivinha que soltava sobre uma mãe generosa.  “O que é, o que é, o beijo da noite, de dia a melhor sombra é?” Para facilitar na resposta dizia que todos os dias essa pessoa acompanhava de coração o filho caçula onde ele estivesse precisando de proteção.  

           A casa era pequena, mas os dias tinham sempre as mãos zelosas da mãe. Colocavam nos vasos aquelas rosas, colhidas na roseira que ela mesma plantara, e que agora como sonho enfeitado de pétalas deixavam a manhã rosada e perfumada. Esbanjavam pelos ares só ternura.

          Davam vida à máquina de costura as suas pernas ativas. Os bordados, como beleza tecida por mãos até certo ponto divinas, ganhavam admiração de quem fizesse a encomenda e fosse recebê-la quando estava pronta.  Como o mundo de Deus era grandão. Os doces que a mãe fazia cativavam com açúcar.

        Uma mãe é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe, certo dia ela disse, mas só depois como homem crescido o filho saberia o sentido justo do que a mãe quis dizer com isso. Conheceria então nos dias ásperos quanta falta suas mãos faziam, pois já não mais cuidavam, não limpavam os caminhos na lei da vida para que ele estivesse seguro para fazer a travessia.  Teria de ser um dia com o filho sozinho os caminhos a percorrer na jornada da vida.

          Da balaustrada no jardim gostava de olhar as nuvens acima do rio levando castelos, gente e carga. Antes que a noite chegasse, desenhavam gigantes, às vezes velhos barbudos, um deles apareceu em pé no tapete. De calção, peito nu, lá no pátio da casa, ficava vendo a passagem das nuvens no azul do céu. Como elas que voltavam naquele pedaço de céu, ele voltaria um dia para brincar com os amigos de infância quando já fosse um homem? Só havia um jeito de regressar ao passado, rindo, a mãe disse, sonhando acordado. Um homem com o menino conversando.  

      -  Você quer ser peixe ou ser gente? – preocupada, a mãe perguntou. -  Primeiro a obrigação, depois a diversão, só anda agora com o bando de amigos nadando e pescando no rio. Finalizou séria e se dirigiu calada   para a cozinha.

       A mãe alimentava com o marido a ideia de que o filho deveria estudar para se tornar um dia um homem formado, um cidadão de bem, exercendo na sociedade uma profissão importante como a de advogado, médico ou engenheiro civil. 

       Os caminhos que o filho iria trilhar iriam ser diferentes. Seria escritor para investigar os mistérios e os sentidos da vida.  

 

 

quinta-feira, 9 de maio de 2024

 

Uma mãe com mais de cem filhos

 Cyro de Mattos 


Naqueles tempos da conquista e povoamento da terra, antes da emancipação política, a cidade era um ajuntamento de gente vinda da seca do nordeste e de regiões pobres de Minas Gerais. Servia   como burgo de penetração aos forasteiros que chegavam em busca de riqueza. A terra era fértil, o que se plantava tudo dava, corria a fama de que uma lavoura de duração permanente estava sendo implantada naqueles longes, fazia circular notícias promissoras nas estações temperadas de sol e chuva.

A mata estava intacta, era a morada dos indígenas, bichos de voo e carreira. Abrigava o perigo, que ficava de emboscada, a picada do mosquito provocava a peste do impaludismo.  A onça espreitava para o bote preciso, a cobra ficava escondida debaixo das folhas úmidas para de repente desferir a picada letal.

Os lenhadores começaram a derrubar as árvores de lei, fazendo surgir o comércio do extrativismo, a mata, antes hostil e impenetrável, ia recuando com a invasão daqueles homens de mãos calosas, natureza rústica, a barba grossa por fazer. Barracões eram armados nos acampamentos dos derrubadores de árvore, alguns formaram ajuntamentos de gente de vária procedência e se transformaram com o tempo em vilas e, mais para frente, em cidades pequenas. 

Na parte que a mata era recuada, ficando a terra nua, plantava-se então   uma lavoura que produzia um fruto cujas amêndoas valiam como ouro, por isso mesmo ao longo dos anos viria forjar uma saga de cobiça e morte. O cacau foi como ficou conhecido esse fruto, fez surgir com o tempo vilas e cidades, formando uma civilização pujante, que se movimentava com os seus caracteres próprios.

Foi no tempo do apogeu da lavoura cacaueira que ela apareceu na região. O que se dizia e causava pasmo era que aquela mulher baixinha era mãe de mais de cem filhos. Como era isso possível? Minha avó Ana dizia que uma mãe é para cem filhos e cem filhos não são para uma mãe. Minha mãe repetiu isso para mim quando eu já estava ficando rapaz, a sombra do bigode no lábio superior. Pensando hoje no que disseram minha vó e minha mãe, vejo que o amor é o sentimento mais forte que temos, nada se compara ao de uma mãe, que é formado com afeto, conselho, zelo e proteção. Ora, o que dizer então de uma mãe que teve mais de cem e filhos e um número incalculável de netos? E quem seria mesmo a criatura autora dessa proeza de dar à luz a uma prole tão numerosa?

Chamava-se Otaciana, muito cedo pôs os pés na estrada deste mundo de Deus. Mas foi em Itabuna, cidade progressista na região de plantações de cacau, no Sul da Bahia, que iria passar toda a sua vida. Vida bem vivida, como gostava de dizer aquela criatura baixinha, enrugadinha, incansável, de bons préstimos e muito estimada. Na cidade do Sul da Bahia, a professora nascida em Arraial do Galeão,  em Sergipe, iria seguir uma vocação diferente, a de “pegar menino”, numa época em que parto em maternidade não era constante. 

A mulher de família abastada recorria ao médico do hospital de Santa Casa de Misericórdia quando chegava a hora do parto ser realizado. Mas a de origem humilde, na hora decisiva, se valia das mãos de Mãe Otaciana, abençoadas por Nossa Senhora do Bom Parto, como o povo gostava de se referir quando o assunto era pegar menino por aquela criatura com as maneiras de uma pessoa santa.  

De tão querida pelas gentes da cidade, quando se candidatava ao cargo de vereadora, era eleita por votação expressiva, em geral ocupava o primeiro lugar da lista dos vencedores afixada na parede da entrada da Câmara de Vereadores. Não gostava de política, os amigos eram que insistiam e terminavam por convencê-la para se candidatar como vereadora do Partido dos Trabalhadores Brasileiros.

A cidade cometeu omissão imperdoável por não ter erguido em uma de suas praças uma estátua como homenagem aos seus préstimos. No dia que se comemorava a emancipação política da cidade, o padre Pedro, que foi do tempo em que Mãe Otaciana atuava como parteira, rezava na missa a oração dedicada aos que estavam nos céus, os que foram virtuosos aqui na terra, doaram sua vida dedicando-se ao bem do próximo. Mãe Otaciana era o primeiro nome a ser lembrado na relação do sacerdote.  

Por suas mãos, até certo ponto divinas, nasceram homens e mulheres que construíram o progresso da cidade. Pelas mãos pacientes de uma criatura que tinha olhos como duas contas azuis, passos miúdos, Deus anunciou o milagre da vida.  Mostrou a flor gerada com ansiedade e, no desenlace feliz, sendo levada para o calor do seio.

Um dia, com aqueles olhinhos vivos, que pareciam sorridentes quando ela falava, contou-me como ocorreu o primeiro parto que fez. Fora chamada à noite, o tempo estava escuro e chuvoso. Bem moça, coração confiante, chegava à casa da parturiente, que passava mal. Terminados aqueles minutos sempre lentos, de apreensão para os de casa, escutou-se dentro da noite o choro da criança. O pai limpou a turvação ardida nos olhos com a manga da camisa. Ela observou: “Foi esse calanguinho aí que deu todo esse trabalho!” A partir daquele parto, a professora que veio do sertão deixaria de ensinar, mãos cuidadosas jamais deixariam de “pegar menino” enquanto ela vivesse.

Da última vez que encontrei Mãe Otaciana, saindo de sua residência modesta, perguntei-lhe se começaria tudo de novo no seu ofício de parteira. Ela, sem hesitar um minuto, irradiando candidez no rosto vívido, alegria numa voz baixinha quase não se ouvindo, respondeu que sim. Era muito apegada com Deus. Nunca teve problemas na arte de “pegar menino”. Sempre que um parto era difícil recorria a um médico, que dava todo o apoio e ajuda, acrescentava que essa mão amiga a fazia feliz. Encerrou a conversa com uma observação que, em seu significado puro e verdadeiro, muita gente na cidade conhecia: “Na vida trabalhei muito, meu filho”.

Forte, abnegada, sábia. Com aquele saber simples e profundo recolhido das águas do tempo. Só consigo vê-la nesse instante como uma criatura aparentemente frágil, mãos pequenas, cabeça alva, rumo à casa da parturiente. Encurvadinha, acalentando luas, recolhendo a vida, que, enrolada nas lãs do mistério, chegava dos longes para dar nesse beijo esperado o primeiro vagido.

Revejo-a com os olhinhos sorridentes, rosto lúcido, aparando o susto esplêndido dentro da noite caprichosa. Noite túmida que, adormecida no seio, ainda nem sonha.

No Dia das Mães sempre acendo uma vela nos pés de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, rogo no oratório pelo bem estar da alma dessa mãe que me pegou no parto e com mais uma vitória sobre a indesejada das gentes me trouxe ao mundo. Agradeço minha chegada aqui graças às suas mãos bondosas, que me pegaram na hora certa quando acordei para a vida, aonde cheguei para viver uma experiência, adquirir conhecimento dos dias entre o alegre e o triste. 

Aconteceu que chegou a pegar até quatro meninos numa só vez. Aquela pobre mãe tinha contrações seguidas, encontrando resistência em cada menino que não queria nascer. Nessa hora de esforço, a parturiente encontrava coragem para prosseguir nas contrações com a presença dela.  A mãe que teve quatro meninos era lavadeira, vivia de lavar roupa de ganho, o marido tinha um rosto amarelecido de quem pouco se alimentava nas refeições de cada dia. Era carvoeiro. Moravam no bairro do ribeirão Lava-pés, o mais pobre da cidade.

A mulher, uma negra magra, não tinha recursos para fazer o enxoval decente para um menino quanto mais para quatro. A cidade ficou comovida com a campanha que Mãe Otaciana estava realizando  com a finalidade de arrecadar dinheiro que desse para comprar os panos de enxoval para quatro rebentos.

 Era sempre vista na feira, aos sábados. Cedo recolhia com a pequena cesta donativos para a mulher pobre que ia parir quatro meninos. De porta em porta, na semana, pedia ajuda para fazer o enxoval dos quatro meninos. 

Dormia pouco, o tempo disponível era dedicado àquela causa, para lá das mais dignas, inspirada no bem que ia ser dado a uma parturiente pobre em momento difícil. Dor é vida, sofremos porque estamos neste mundo com suas surpresas nem sempre esperadas, muita gente pensava nisso quando comentava as dificuldades que aquela mulher pobre estava enfrentando para parir e teria para criar quatro meninos. A mulher de estatura pequena, corpo frágil, gestos humildes, não desanimava, não se sabe de onde tirava força para prosseguir na campanha de angariar donativos e doar à parturiente pobre. Ensinava por entre os gestos difíceis da vida que essa se torna viável quando habitada com amor.

Há milênios que as religiões estão tentando mostrar ao ser humano que só o amor constrói. Braço ao abraço a rota fica mais fácil. Há milênios nós os humanos estamos construindo a história de nossa condição com intolerâncias, violência, egoísmo. Com uma escrita às avessas, desviada da ternura.  O que sabe hoje o nosso pobre coração humano de Deus? Do enigma da dor no final, do amor, nosso sentimento mais forte?

Essa lição fácil, pegar menino de mulheres tristes, aflitas no calendário das privações, acompanhadas de dor, sem ter renda para fazer um enxoval decente para o filho, daquela vez foram quatro, ela  demonstrava com prazer que a vida vale a pena, pois Deus existe. Podemos senti-lo na flor do coração. Basta amar o outro, fazendo o bem sem saber a quem.  A flor do coração sente-se em outros que ao nosso se juntam.

        Ensinava que a vida tem sentido com excesso de pobreza. Forçava assim que eu me fizesse a pergunta: Como pode uma mulher frágil ser mãe de mais de cem filhos sob o vento áspero do difícil gesto de viver? Plantar a alegria, a resignação de dezenas de vozes sem leveza nos dias de cada estação? Na sua humildade, mostrava que a morada em nossa mãe terra poder saudável, desde que o tempo aconteça com a solidariedade de todas as mãos numa só mesa.  

Em linguagem simples mostrava que todos nós somos missionários. Consistia a prática em doar-se ao outro, semear o amor entre os excluídos de uma vida digna, muitos deles sem saber a razão da fome e sede que tinham na vida diária, da nudez que faz penar quando se enfrenta o vento gelado do inverno.

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 6 de maio de 2024

 

       Omissão na Cultura 

       Cyro de Mattos

 

A quem cabe zelar pela cultura de um povo e não corresponde aos seus apelos comete omissão imperdoável. A cultura alimenta a autoestima e reforça os laços identitários de uma sociedade nas suas relações com a vida.  Se a educação é o corpo da sociedade, que precisa ser bem alimentado, que dizer de sua alma, a cultura? Quem não valoriza a cultura de seu povo, contribui para que não haja resposta quando se pergunta qual é o seu nome, onde você nasceu e para onde você vai. Torna assim o ser humano um caminhante no vazio do estar para viver ou, se quiserem, cadáver ambulante que procria, como diz o poeta Fernando Pessoa.  

        O que vemos por aqui entristece. Ainda hoje viceja esse comportamento atávico para anular o que foi produzido para representar e permanecer como referência do nosso patrimônio cultural. O Museu da Casa Verde, por exemplo, que antes foi o espaço de convivência social da elite, com reuniões importantes de políticos, quando então eram debatidos assuntos relevantes de nossa cidade, encontra-se fechado há tempos. Seu patrimônio valioso, que muito diz sobre a história da burguesia cacaueira no tempo dos coronéis, está encoberto pelas sombras da indiferença do poder público. Assim contribui para que o visitante, o estudante e o habitante dessa terra desconheçam um capítulo importante da civilização do cacau, com seus costumes, valores, linguagens, suas relações políticas e sociais como marcas de uma maneira singular de proceder perante o mundo.  Não recebe o mínimo apoio do poder público, da classe empresarial e de clube de serviço, para que se torne um espaço movimentado com vistas ao conhecimento da história coletiva municipal e regional.

         O quiosque Walter Moreira, na praça Olinto Leoni, obra realizada na gestão do professor Flávio Simões, quando presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, foi demolido. Já serviu para exposições de artistas plásticos locais, comércio de artesanato, lançamento de livro e local como parte das comemorações no Dia de Cidade, com exposição de fotos históricas e dos prefeitos. Dá pena saber o destino que impuseram ao Quiosque Walter Moreira no jardim da Praça Olinto Leoni. A memória desse artista da cor, que passou uma vida retratando na tela a paisagem humana e física dessa terra, não merece essa pancada.

           O Monumento da Saga Grapiúna, criado pelo artista Richard Wagner, itabunense de fama mundial, erguido nas proximidades do Supermercado Jequitibá, é uma homenagem aos elementos formadores da civilização grapiúna – o sergipano, o negro, o índio e o árabe, e não está tendo melhor destino. Monumento que remete as gerações de hoje e de amanhã à infância da civilização do cacau, em nossa cidade e na região, encontra-se também no descaso. O gradil protetor ao seu redor está danificado, lá dentro o seu interior serve de depósito de coisas imprestáveis e lixo. Não existe fiscalização nem proteção para preservar uma obra artística e cultural de valor inestimável.  Árvores cresceram ao seu redor, tirando-lhe a visibilidade.

                         Com sua beleza rica de significados, em que se retrata a história da civilização cacaueira baiana, representada em figuras, símbolos, cenas e paisagens, o painel composto de azulejos, criado pela arte genial de Genaro de Carvalho, instalado no prédio Comendador Firmino Alves, onde funcionava o antigo Banco Econômico, entre a avenida do Cinquentenário e a praça Adami, nos idos de 1953, é indiscutivelmente um dos patrimônios artísticos de incalculável valor dessa terra  onde nasceram o romancista Jorge Amado e o poeta  Telmo Padilha. 

                            Essa obra de arte magnífica esteve entregue à indiferença de autoridades, ao longo dos anos.   Ficou sem alguns azulejos, na frente serviu para que camelôs fixassem seus produtos à venda no comércio informal. A FICC fez a reconstituição das avarias no painel, mas até hoje a valiosa obra de Genaro de Carvalho não teve a preservação merecida para que seu estado não volte como antes. Na frente dele, camelôs improvisam o gradil como expositor para vender seus produtos. Dentro do gradil protetor guardam a bicicleta.  A poluição visual do painel às vezes prossegue com a faixa estendida de um poste a outro, na frente, para anunciar a venda de um produto novo chegado ao comércio local.  

.                      O prédio do Colégio Divina Providência e o do Cine Itabuna tomaram uma destinação comercial, nem parece que ali a vida saudável fez morada, através de gerações que aprendiam com mestres do ensino em um e se divertiam com Oscarito e Grande Otelo, o Gordo e o Magro, no outro.   

                       Perdemos o Castelinho, o Cine Itabuna, o prédio do Ginásio Divina Providência, o casarão do coronel Henrique Alves dos Reis, o Campo da Desportiva, o Teatrinho ABC na Praça Camacã, a fachada da residência onde morou o comendador Firmino Alves e sua família na praça Olinto Leoni está desfigurada. Até quando vamos continuar maltratando a nossa memória e o nosso patrimônio arquitetônico, portador de rico simbolismo em nossa história?

                      E o rio Cachoeira, que tanto contribuiu para a progressão da cidade, alimentou os pobres, forneceu ganho às gentes do povo, teve peixe em abundância quando as águas eram claras? Há tempos vem chorando água, virou um esgoto a céu aberto.

                      Estamos perto das eleições municipais. Será que com o prefeito que vai chegar, ou mesmo que o atual se reeleja, ocorrerá mudança nessa mentalidade tacanha? Tomara!  Ainda há tempo para amparar a nossa cultura, que é rica de conteúdo e história, e salvar o que resta. Basta boa vontade.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

 

Livro de Cyro de Mattos Vencedor do

Prêmio Literário Casa das Américas

 Teve Leitura e Análise em Havana

 

Havana,  (Prensa Latina) - A Casa das Américas promoveu no dia 25 de abril passado, no Salão Manuel Galich da instituição cultural da capital, a apresentação com análises e leituras dos livros vencedores em 2023 do Prêmio Literário Casa das Américas e, entre eles, na categoria Literatura Brasileira, Infancia com Animal y Pesailla y otras historias (Infância com Bicho e Pesadelo e Outras histórias), do baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos, na tradução para o espanhol da professora doutora em Letras Esther Pérez, fundadora e presidente da Fundação Martin Luther King em Havana. No evento, o escritor grapiúna divulgou  um vídeo no qual ressalta a importância do Prêmio Literário Casa de las Américas no Continente Hispânico e sua valorização no Brasil e por isso a sua obra  terá mais visibilidade agora  no nacio nal e internacional.

 

 

 

 A instituição apresentou os outros livros vencedores em 2023: Todos somos islas, de Felipe Núñez (Colômbia, conto); e Después del incendio (Papeles de guerra: Venezuela 2013-2021), de Eduardo Ernesto Viloria (Venezuela, literatura testemunhal); La orilla de Caliban. El rastro de la filosofía afrocaribe en el siglo xx, de Roberto Almanza (Colômbia, Prêmio de estudos sobre a presença negra na América contemporânea e no Caribe) e Diario de las revelaciones, de Gustavo Pereira (Venezuela, vencedor do Prêmio de Poesia José Lezama Lima).

No próprio Salão Manuel Galich foi realizado depois o painel El sencillo arte de narrar (una provocación), com o jornalista e contador de histórias mexicano Fabrizio Mejía, o escritor e sociólogo argentino Hernán Ronsino e a dramaturga cubana Lourdes de Armas, membros do júri do Novel. A Casa de las Américas celebrou seu 65º aniversário em 28 de abril passado, e o prêmio é um dos principais protagonistas de sua história. Criado em 1959 e realizado pela primeira vez em janeiro de 1960, o Prêmio Literário Casa de las Américas é o concurso cultural mais antigo do país e o mais antigo do gênero no continente.