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domingo, 29 de março de 2015

Academia de Letras de Itabuna lançou livro com coletânea de poesias de Valdelice Pinheiro





O lançamento festivo aconteceu na  quinta-feira (26),  no auditório da FTC (Faculdade de Tecnologia e Ciências) de Itabuna)

Por Celina Santos

Uma poetisa que bailava com as palavras de maneira doce e, ao mesmo tempo, forte. Ela deixou apenas dois livros publicados, mas permanece eternamente como referência entre os grandes nomes da literatura regional. Estamos falando da saudosa Valdelice Soares Pinheiro, cuja obra foi reunida na coletânea O canto contido. O livro, organizado pelo escritor Cyro de Mattos, foi patrocinado pela Academia de Letras de Itabuna (ALITA) e pela  empresa LIDI, do empresário e biomédico José Neto. Foi lançado na quinta-feira (26),  no auditório da FTC (Faculdade de Tecnologia e Ciências).
A publicação, que tem a marca da Editora Giostri, São Paulo,  reúne 60 poemas publicados em vida pela autora, por meio de dois livros – De dentro de mim e Pacto – e de outros incluídos em antologias e em um CD.
Foi uma noite festiva  – com direito a diversas manifestações culturais em louvor a Valdelice. Teve começo com o depoimento da presidente da ALITA, Sônia Maron, que destacou a  importância de Valdelice Soares Pinheiro para a cultura de Itabuna. Dando sequência,  o escritor Cyro de Mattos, o professor Ruy Póvoas, o diretor da FTC, Lindomar Coutinho, Heloísa Pinheiro, representando a família da homenageada, e a Reitora da Uesc Adélia Pinheiro destacaram as qualidades de Valdelice Soares Pinheiro não só como poetisa mas também como  professora universitária e  cativante figura humana, de jeito sereno e simples.    
O auditório da FTC ficou lotado, durante o tempo em que houve  a homenagem  e reconhecimento pela contribuição poética e cultural deixada pela poetisa à região. Das 20, 30, quando tiveram  início as manifestações, até as 11,30, todos os que lá compareceram  permaneceram no recinto.   O público ouviu poemas com música e vozes, apreciou  um vídeo organizado por Raquel Rocha, com poemas declamados por Nevolanda Amorim Pinheiro, bem como um recital de poesias de Valdelice Pinheiro, com a participação dos atores Jorge Batista, Tereza Sá, Lucas Oliveira, Silvia Smith, Aldenor Garcia e Telma Sá.

Vale lembrar que houve, ainda, uma distribuição gratuita de mais de 100 exemplares de  “O Canto Contido” para as  pessoas presentes ao local do evento.





O organizador do livro O canto contido, o escritor Cyro de Mattos, , menciona a importância de uma divulgação merecida do legado deixado por Valdelice Soares Pinheiro. Afinal, para ele, se trata de “um dos mitos da poesia grapiúna”. A seguir, uma entrevista concedida pelo autor, sobre a obra e seu objetivo.

Como o senhor teve acesso aos poemas reunidos no livro “O canto contido”?
Tive o prazer de pesquisar, anotar, organizar e prefaciar a coletânea. É constituída dos livros De dentro de mim (1966) e Pacto (1977), além de poemas esparsos publicados em antologias regionais e no CD Crônicas e poesias grapiúnas. Não foi um trabalho exaustivo trabalhar na fatura dessa coletânea porque a produção não é extensa, mas que precisava ser feita para divulgar e proporcionar  maior alcance  à primeira fase da poesia de Valdelice, conhecida apenas por uns pouquíssimos  leitores. Penso que essa primeira fase é importante como a segunda, constituída de 63 poemas inéditos, os quais foram reunidos no livro A expressão poética de Valdelice Soares Pinheiro (2002), coordenado por Maria de Lourdes Netto Simões e publicado pela Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz.

Qual o principal objetivo de fazer um “apanhado” dos escritos de Valdelice?

O objetivo é dar oportunidade para que se conheça a parte primeira que foi produzida pela autora em vida. Essa primeira fase é também importante, levando-se em consideração que o discurso poético não fica distante dos poemas inéditos escritos muitos anos depois e que foram publicados em livro pela Editus, tanto na forma como no conteúdo. Além disso, tem o objetivo de contribuir para que a poesia de uma verdadeira poetisa  entre no circuito nacional, seja estudada e reconhecida pela crítica como merece. E isso já começa a dar os primeiros frutos. Enviei “O canto contido” para alguns poetas consagrados e professores universitários. Impressionados com o discurso de Valdelice, lamentaram o desconhecimento de uma poesia carregada de sabedoria, tecida com fina sensibilidade, versos formando pequenos grandes poemas, autênticas joias.  A Doutora em Letras, professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Helena Parente Cunha, romancista   consagrada, disse: “Amigo Cyro, recebi na semana passada o livro de Valdelice Soares Pinheiro, que você prefaciou com o gosto e o saber  de quem anuncia uma voz poética detentora da mais refinada sensibilidade. A leitura dos poemas de O canto contido me encantou com a descoberta dessa poetisa que não  precisa de muitas palavras para revelar a delicadeza de seu ser e a sabedoria, às vezes triste, com que ela vê o mundo e a vida individual e coletiva. O incomparável "Pacto ou como SãoFrancisco" é um emocionante hino ao amor”. O poeta peruano Alfredo Pérez Alencart, professor da Universidade de Salamanca, elogiou a poesia dessa desconhecida poetisa grapiúna, de versos enxutos,  delicada  no dizer e saber, autora de poemas que são verdadeiras jóias. Ele divulgou na TV e Rádio Al Dia, de Salamanca,   a importância dessa poetisa ter sido resgatada na coletânea O canto contido.

Como surgiu a ideia para a elaboração do livro?
Tinha desejo de fazer uma coletânea reunindo os poemas publicados em vida por Valdelice para que sua poesia nessa primeira fase não ficasse relegada ao exílio e esquecimento, pois se trata de boa poesia. Certa vez, ouvi da presidente da Academia de Letras de Itabuna, a Juíza de Direito  Sônia Maron,  seu desejo de publicar uma nova edição do livro De dentro de mim, o primeiro de Valdelice, publicado há 49 anos, hoje uma raridade bibliográfica. Revelei a ela que meu desejo era mais amplo, consistia na edição de um livro contendo todos os poemas publicados em vida por Valdelice.  Foi assim que nasceu a idéia da coletânea O canto contido, que  conseguiu sair do desejo  para se tornar realidade.  

Como situa a Academia de Letras de Itabuna (ALITA) no contexto de elaboração/lançamento do livro? É a instituição quem promove ou entra como apoio?

Cumprindo seu papel institucional, que é o de servir às letras e de preservar a liberdade de expressão, a Academia de Letras de Itabuna (ALITA) patrocinou a edição do livro, que contou também com a parceria do empresário e biomédico José Neto, proprietário do laboratório LIDI. Eu consegui a Editora Giostri, de São Paulo, que tem mais de 600 títulos no catálogo, e breve vai publicar a segunda edição de meu  livro Os recuados, contos. Fiz a revisão das provas e sugeri até a capa de  cores suaves,  com um passarinho  pousado em ramos leves, dando a idéia de que seu canto é  fundamental como o amanhecer.  Como assim me parece ser  o canto contido da poesia de Valdelice Pinheiro. O título do livro eu tirei de um verso da poeta. 




sexta-feira, 27 de março de 2015

A Partida de Hélio Pólvora


A Academia de Letras de Itabuna  comunica o falecimento, na madrugada desta quinta-feira, 26 de março, do eminente escritor e crítico literário Hélio Pólvora, ocupante da Cadeira nº 17, que tem como patrono Machado de Assis.

Natural de Itabuna, sul da Bahia, onde nasceu em 1928,  Hélio é autor de 26 títulos de obras de ficção e crítica literária, além de uma atividade jornalística intensa. É considerado um dos mais importantes contistas brasileiros do século 20, com destaque para obras consagradas pela crítica e pelo público, a exemplo dos livros Os galos da aurora (1958), Estranhos e assustados (1966) e Mar de Azov (1986).

Doutor honoris causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz, atuou como editor (Edições Antares, Rio de Janeiro), crítico literário do Jornal do Brasil, Veja e Correio Braziliense, cronista e crítico de cinema do Jornal do Brasil, Shopping News e outros jornais e revistas. Fundador e editor dos jornais A Região e Cacau-Letras, foi também cronista do jornal A Tarde onde publicava um artigo semanal, na página Opinião e aos domingos.

Conquistou prêmios literários de nomeada, entre os quais os da Bienal Nestlé de Literatura, anos 1982 e 1986, para contos (1.º lugar), e mais os prêmios da Fundação Castro Maya, para o livro Estranhos e Assustados, e Jornal do Comércio, para Os Galos da Aurora. Assina cerca de oitenta traduções de livros de ficção (romances e contos) e ensaios. Como crítico literário é considerado um dos melhores analistas da obra de Machado de Assis. Pertenceu à geração dos escritores itabunenses  Telmo Padilha, Cyro de Mattos, Sonia Coutinho, Walker Luna, Firmino Rocha  e Valdelice Soares Pinheiro.

Sônia Carvalho de Almeida Maron
Presidente da Academia de Letras de Itabuna

sexta-feira, 20 de março de 2015

História de Laura Palmer

Por Cyro de Mattos
              

           Ela nunca soubera o tempo de escutar a própria voz e se sentir em disponibilidade de si mesma. Pouco a pouco, uma realidade foi sendo constatada em seus ângulos desconhecidos. Respirava entre pessoas que se encontravam para manter um ritmo sem qualquer  atrativo humano especial, apenas para alimentar certo rótulo social e econômico, exibido com enorme satisfação como um trunfo que poucos na vida conseguem. Perfis da vitória  nos seus acentos circunflexos, gestos redondos que se intumesciam de prazer, na mesa a prata castiça, iguarias e bebidas raras. Os dias desfilavam sob o peso de uma mentira constante. Por acaso existirá no mundo algo mais triste do que a solidão em família com as palavras encobrindo verdades e ferindo como faca? Ela tinha tudo em suas mãos, mas o sonho de viver livre era um passo que parecia impossível de ser dado. Um pássaro que não voava,  com o seu canto prisioneiro guardado numa gaiola de ouro era mesmo uma coisa sem sentido. E o dissabor da realidade desse pássaro artificial atingiu o ponto máximo quando ela percebeu que os filhos não precisavam mais dela, e o marido, o banqueiro  mais famoso da cidade, fechado no mundo dos negócios, era uma pedra que se lançara para o fundo de um poço.
            Um grito então aconteceu. Como algo especial que se aqueceu em segredo e apareceu na paisagem para se propagar com os dias plenos de ardor. Laura Palmer, senhora de alta sociedade, mãe de três filhos, todos casados, em romance com Clarindo Mali, compositor negro, cantor do bloco Olodum, que neste ano vai apresentar durante o carnaval o tema “Dogons, o povo das estrelas”, e mostrará como se deu a criação, a origem da vida, do nosso planeta e do universo. O bloco  irá mostrar no desfile dessa temporada  a importância do respeito às águas, o amor às estrelas, de onde viemos e para onde vamos voltar um dia. Milionária divorciada grava o seu primeiro CD e entra com surpreendente sucesso no mundo  apaixonante da música popular. E fofocas e comentários e  disse  me disse. Ela assim conheceu que aquele grito deveria ter sido dado muito antes. Aos dezessete anos talvez. Na plena força da idade quando o coração pulsa com o fulgor  maravilhoso de um sol, a irradiar luz por todos os recantos. É bom caminhar assim e sorrir e chorar. Esta a vida do ar, do amar e do sonhar, pensou.
          Na medida em que se via penetrada das cores da realidade nova, ela se sentia levada por ondas que iam deixando para trás cenas de uma alma saturada de coisas insignificantes. Havia circulado naquele tempo habitado por rostos sem brilho, beijos sem afeto, dedos sem entrelaço. Que droga, aquela havia sido a sua estrada? Quanta insinceridade, meu Deus, as pessoas haviam colocado nisso tudo, nessa estrada horrível, a essa altura comprida. Pessoas de seu círculo formaram logo opiniões. Quiseram tomar detalhes, reincidiram nas visitas, mostraram-se inconformadas com aquela mudança súbita. No fundo mesmo ficaram  revoltadas com a altivez acentuada que surgiu dos traços harmoniosos de seu rosto. Alguns parentes, não conseguindo ferir os encobertos objetivos, utilizaram-se das armas do desprezo, coação e  censura.
         A propósito, há poucos dias sua mãe fez a seguinte observação: Depois de velha, você entendeu de ser artista... E ela, agora eu sou livre, l-i-v-r-e. E seu ex-marido, o banqueiro Carlos, deixou um pouco de lado o mundo dos sucessos econômicos e resolveu também interferir. É essa a maneira de você  retribuir aos filhos  o amor  que eles sempre dedicaram a você? E ela: Na  minha maneira de ser nada mudou para eles, apenas agora eu estou vivendo. E os filhos por sua vez disseram que não acreditavam no que estava sendo publicado nas colunas sociais dos jornais e revistas. Esses comentários chocam muito. E ela, não vendo qualquer motivo que justificasse esconder a verdade,  procurou deixá-los a par de tudo.  Vocês não devem sofrer por isso, gostaria de dizer a vocês o inverso do que eu ouvi dos meus pais, o oposto de tudo o que eu aprendi com eles. Concluindo: Sinto-me na vida. E mil coisas agradáveis, marcantes, ela passou a conhecer.
         Aconteceu ela cruzar inúmeros caminhos, descobrir-se com uma infinidade de pessoas, cuja beleza consistia em fazer da vida uma realidade simples, espontânea, habitada nos seus movimentos cotidianos à vontade por ondas de calor e brilho forte.. E recentemente lhe tocou uma emoção grande quando aquele rosto tão jovem aproximou-se dela e perguntou qual seria o título do seu livro de memórias e ela, irradiando serenidade e alegria, sem hesitar um minuto sequer, respondeu: Viver.                                    

quarta-feira, 18 de março de 2015

Caminhos da Fúria

     

                   Cyro de Mattos
           
Matou os pássaros. Nem ligou para a mancha que envergonha, afogando o canto e a plumagem. Renovou a sua sede, estúpido na fome de novo se impeliu. Envenenou os peixes. Uivou, como um bicho, para o sol, que fechou as pálpebras quando viu aquelas águas oleosas.
Ondas no peito dos outros ressoaram, em dó e lágrima, batendo, voltando, batendo. De ira excedeu-se, desamor era o que  o coração mais queria. Botou fogo no verde. Da relva a lágrima correu por entre vastidões desoladas. Da flor carbonizada resultaram borboletas ausentes de odores e fragrâncias. Sem finas saliências o verde hesitante de tremor. A teia ficou sem tecer da natureza minúsculos dramas. Para matar os bichos de carreira restantes, sorveu a sanha de todas as forças que pode reunir, pulsando veias e nervos num ritmo frenético. Sob o  calor abrasador, buscou ativar-se com o cheiro enfurecido das manadas.
Aconteceu o som das  patas nas têmporas, na fronte do animal compulsivo, babando e bufando. Nas rugas do tempo teve só amargas lembranças. Achou pensando que no antigamente havia nele  o semeador no campo de centeio. Fez uma cara de nojo ao se lembrar disso.
Decididamente se desviou da rota alegre dos dias. Preferiu ser  o que se acha nos gestos impuros. Com  rudes mãos impassíveis, o passo  dentro da bruma,  quem  tudo deflora, desfaz, prolifera o não, perdura. De tal assombro, clamor que perfura a inocência da mais difícil prova,  irromperam vozes débeis. Emanavam dos peitos esvaídos miasmas e contaminações, aparecendo no cenário deserto estas mãos abertas em súplicas sopradas por vento de amanhecer sem o sol.
Alardearam verdades os que eram vítimas do insano animal andarilho:
-  NÃO NOS MATE MAIS. SOMOS A INFÃNCIA QUE VIVE NAS COLMEIAS DO METRÕ.  DORME EM ESCADARIA DE IGREJA E ROLA NAS RUAS SOLITÁRIAS. ADOLESCENTES PUTAS NO CALABOUÇO DA CARNE E DA CAMA. NEGROS E POBRES AÇOITADOS NOS PORÕES DA MEMÓRIA INVERSA. NATIVOS SOBREVIVENTES EM GRITO E FUGA TRESPASSADOS NOS RASTROS DA DESGRAÇA.
Fuzilava com o sorriso, aplaudia com os dentes de metralha. Assim  habitava no velho mundo o inventor prazeroso de fornos crematórios, opressor  da inocência triturada, amontoada nos vagões como boi para o matadouro. De tão frágeis sequer adeus podiam   dar aos que  ficavam sonâmbulos nos campos aramados,   regados de  angústia pelas trilhas do horror.  As mãos dele tinham agora um volume inconcebível. Tão pesadas  davam para amassar o mar. “Minha voz exclui o ar, cores, sadios saberes e bem-vindos sabores de frutas doces.‘’ Cuspia cobras e lagartos numa  incrível capacidade de armazenar e crepitar só labaredas. Gritava no ápice do transe: QUERO QUE O POBRE EXPLODA. MENINO DE RUA SE FODA. PRETO  QUE SE LASQUE. PUTA QUE VÁ PRA PUTA QUE  PARIU. ÍNDIO MATO AGORA É  COM GRANADA.
         Optou para disseminar pétalas atômicas por milhas sem fim.  Chamejar inclemente com cheiro queimado de gente, flora, fauna. Do seu olho atento no céu nenhuma lágrima escorreu. Recheou a aurora de drogas e tráficos, urdiu  o cerco da agonia com seqüestros hediondos.  O caçador das cavernas, o viajante das estrelas, corruptor e corrompido, estampava-se no mundo não mundo como o matador  incansável  dos que cantam no verdor o vento da  união geral feito de amor e  verdade. Na bomba o elogio dos escombros. Entre tudo que deixou soterrado, exilado nas próprias sombras dos anos consumidos, desejou então morrer, embora sabendo que havia banido a morte para as profundezas mais escuras dos eternos abismos. Sem poder encará-lo, aí foi que a morte passou distante dele,  evitando olhar para trás. Na carreira tão veloz que o vento mais rápido jamais ia conseguir alcançá-la.

quinta-feira, 12 de março de 2015

COMUNICADO DE CYRO DE MATTOS


  
O escritor e poeta Cyro de Mattos comunica que foi cancelado o lançamento de seu livro A Casa Verde e Outros Poemas, programado para o dia 19, a partir das 19 horas, na Livraria Nobel, em Itabuna. Agradece a compreensão dos leitores e amigos, comunicando, também, que o evento será agendado para outra data.
 
Atenciosamente,
 
Cyro de Mattos  
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O Poeta Maior Francisco Carvalho


   O Poeta Maior Francisco Carvalho
  
                           Por Cyro de Mattos


O poeta Francisco Carvalho, cearense de Russas, despediu-se deste velho mundo aos 86 anos.  Autor de vasta obra, ganhador do Prêmio Bienal Nestlé de Literatura com o livro Quadrante solar (1982), deixa uma herança lírica de altitude incomum na poesia brasileira contemporânea, mesmo que desconhecido pelos dispositivos midiáticos e pela indiferença do circuito editorial dos grandes centros econômicos do país. Dono de uma obra poética de qualidades inquestionáveis, tanto no plano formal como no conteúdo, no poema de lastro clássico ou moderno, de verso extenso ou curto, esse poeta insulado em  Fortaleza mais seria estudado na universidade, reconhecido pela crítica e conhecido do leitor se publicado por editora de circulação nacional, de São Paulo e Rio, centros dinâmicos de um eixo  que  até hoje funciona  como tambor cultural do Brasil.
 
Há quem diga que a melhor poesia produzida  hoje no Brasil está no Nordeste. A afirmação pode soar exagerada, mas deve ser considerada como procedente  com relação a alguns nomes que revelam em sua fatura poética modelar uma produção  da melhor qualidade. Nesse patamar figuram o cearense Francisco Carvalho, em Fortaleza, os baianos Florisvaldo Mattos, Ruy Espinheira Filho e Myriam Fraga em Salvador, Telmo Padilha, Valdelice Soares Pinheiro no Sul da Bahia,  e o pernambucano Marcus Accioly no Recife. Todos eles, sem esforço,   são nomes  que se inserem na pertinência da observação.
 
 O poeta  Francisco Carvalho estreou com Dimensão das Coisas em 1966 e de lá para cá publicou mais de vinte livros de poesia, demonstrando assim sua fidelidade   à “arte de excitar a alma com uma visão do mundo através das melhores palavras em sua melhor ordem”, conforme definição de Geir Campos, calcada na fusão que o crítico fez das concepções  de Novalis, Eliot e Coleridge sobre a obra literária escrita em verso.
 
            Na antologia Memórias do Espantalho, organizada pelo autor, publicada em 2004, o poeta cearense reuniu em alentado volume poemas escolhidos dos livros Os Mortos Azuis (1971), Pastoral dos Dias Maduros (1977), As Verdes Léguas (1979), Rosa dos Eventos (1982), Quadrante Solar (1983), Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, As Visões do Corpo (1984), Barca dos Sentidos (1989), Rosa Geométrica (1990), Crônica das Raízes (1992), O Tecedor e Sua Trama (1992), Sonata dos Punhais (1994), Artefatos de Areia (1995), Galope de Pégaso (1995), Raízes da Voz (1996), Romance da Nuvem Pássaro (1998), A Concha e o Rumor (2000), O Silêncio é uma Figura Geométrica  (2002) e Centauros Urbanos (2003).
 
        Digo que mantive correspondência saudável durante anos com esse poeta maior, que me ajudava a viver o mundo e transmitia o bem com seus versos. Certamente suas cartas irão enriquecer o volume que pretendo organizar e publicar de  minha correspondência com poetas, escritores e tradutores, e que tem o título provisório de “Barraca de Cartas”. Eu prestei pequena homenagem a esse  poeta maior, dedicando-lhe uma  cantiga de agrado no meu livro Os Enganos cativantes.
 
      Transcrevo a seguir o poema “Meu Verão com Francisco Carvalho”: O sonho sobreviverá/ Enquanto houver um bico/Que cate o alpiste/ Do tácito entendimento,/Leve para outros ares/O som aceso do azul./ Um bico que semeie o amor/ De graça dando a messe justa / Na fazenda livre do ar./ O sonho sobreviverá/ No verso que inventa cores, /Pássaro que resume dores,/ Canto por onde me iludo, /Triste eu me canso de tudo, /Faço-me rouco quadrante solar. Rima do poço da morte, /Vertente da vida sem data / Sendo ilha e desvario,/ Súbito prodígio de luz/ No verão que esparrama/ Pendões debaixo de nuvens/ Como o espírito de Deus./ E sopra sobre as águas/ O eterno de um instante./ O sonho sobreviverá.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Romance "Os Ventos Gemedores" no Pravda de Moscou



Romance “Os Ventos Gemedores” no Pravda de Moscou




Depois de ser publicado em vários sites importantes brasileiros, como Boqnews.com e Campograndenews, o  artigo “Os Ventos Gemedores: Saga  do Brasil Arcaico”, do escritor Adelto Gonçalves, Doutor em Letras pela USP,  sobre o romance “Os Ventos Gemedores”, de  nossa autoria,  foi divulgado  no Pravda de Moscou, na edição em português,  (Port.pravda.ru).

De ritmo ágil, com uma narrativa labiríntica, o romance  “Os Ventos Gemedores” conta a história das dominações de Vulcano Brás, dono de muitas terras no território do Japará, um condado imaginado pelo autor, e a busca da vida livre e justa, representada pelo vaqueiro Genaro. Sobressaem ainda  no conflito, que acontece em ambiente bárbaro, forjado pela  terra hostil,  personagens como Almirinha, Amadeu, Abelardo Pança-Farta, Edivirgem, os irmãos Olindo e Olívio.

O professor e Doutor em Letras pela USP, Adelto Gonçalves, debruça-se sobre o romance e empreende uma análise de natureza  histórico-social, concluindo que “o final deste livro conta a batalha corpo a corpo entre os jagunços de Vulcano Brás e os homens de vaqueiro Genaro e – ao contrário do que normalmente se dá na vida real – a vitória dos explorados, apesar das baixas de lado a lado. A vitória maior, porém, que se registra é da Literatura Brasileira que sai desse romance mais enriquecida.”

Abaixo transcrevemos o artigo “Os Ventos Gemedores:  Saga do Brasil Arcaico”, de Adelto Gonçalves, publicado no Pravda  de Moscou:


'Os ventos gemedores': saga do Brasil arcaico
08.02.2015

'Os ventos gemedores': saga do Brasil arcaico. 21595.jpegAdelto Gonçalves
I
No Brasil, sempre foi assim: a luta pela terra invariavelmente produziu heróis falsos e mártires verdadeiros. E o Estado sempre esteve ao lado dos mais fortes, aqueles que conseguiam pela força subjugar os demais. Para aqueles que venciam, nunca faltou a falsa pena dos escribas para legalizar suas conquistas nos papéis dos cartórios e incensá-los na História. Ainda hoje é assim: os mandões do sertão ganham placas e viram nome de fundações ou de ruas, avenidas ou rodovias. Já para os derrotados sobram - quando muito - uma vala sem lápide e o esquecimento eterno.
Sempre foi assim, desde os tempos dos chamados bandeirantes, homens mestiços, filhos de mães indígenas ou miscigenadas, que largavam tudo na cidade de São Paulo ou em vilas como Santana do Parnaíba e Taubaté para, a partir de Araritaguaba (hoje Porto Feliz), seguirem em canoas à frente de uma legião de índios carijós, mulatos e negros em busca de indígenas que pudessem ser escravizados, de ouro e pedras preciosas e mais terras. Como arrastaram as fronteiras do Brasil para além do Tratado de Tordesilhas, hoje, alguns desses régulos são homenageados com estátuas e monumentos em que aparecem como homens de feições brancas, bem trajados. Provavelmente, seguiam para os sertões descalços e quase semi-nus, como os indígenas  e africanos que comandavam.
  Ainda hoje é assim. Volta e meia, algum parlamentar é acusado de manter trabalhadores sob regime escravo em suas fazendas. De outros dizem que, em suas terras, ninguém entra sem autorização: se alguém entrar, ainda que involuntariamente, será recebido à bala por modernos jagunços bem armados, enquanto o mandão desfila sua onipotência em Brasília ou mesmo em congressos lusófonos em Lisboa. Os mandões modernos já não são grosseiros como os de outros tempos: afáveis, conquistam o interlocutor com muita simpatia e salamaleques.
E, assim, o mundo arcaico convive com o Brasil moderno sem maiores sobressaltos. É esse Brasil arcaico que o leitor vai encontrar no romance Os ventos gemedores, de Cyro de Mattos (1939), que acaba de ser lançado pela editora LetraSelvagem, de Taubaté-SP, em sua coleção Gente Pobre (narrativas). Ambientada nas terras do Sul da Bahia em época que se supõe que seja a de meados do século 20, a trama se dá no condado imaginário de Japará, à la WilliamFaulkner (1897-1962), região onde a mata até então impenetrável começa a dar lugar às primeiras roças de cacau e pastos para bois e vacas. É o cenário de Terras do Sem Fim (1943), clássico romance de Jorge Amado (1912-2001), que, a rigor, inaugura a saga cacaueira do Sul da Bahia.
 

                                               II
Aqui, a luta pela terra coloca, de um lado, Vulcano Brás, um régulo do sertão acostumado a mandar bater e até matar; de outro, o vaqueiro Genaro, escolhido como líder pelos explorados, gente envelhecida precocemente que traz a pele engelhada pelo trabalho de sol a sol. Como Almira, moradora de um casebre, que procura entender, numa espécie de monólogo interior, como o vaqueiro Genaro encontrou coragem para chefiar os homens no levante:
"(...) Ele havia dito que os homens estavam dispostos a enfrentar o despotismo de Vulcano Brás, "não tenha medo, dessa vez, a gente vai tirar o freio da boca, a argola da venta, o chicote das costas e a espora da barriga". Deu-lhe em seguida a notícia de que os homens queriam ele como chefe do levante, ela então teve medo, pensou na morte a espreitar pelos cantos todos eles, de dia e de noite".
Depois, Almira questiona: "Que adianta fazer esta revolta, Genaro? O lado de Vulcano Brás sempre foi mais forte". Mas ele responde "A pior derrota é daquele que não luta", acrescentando que "onde ninguém faz nada contra Vulcano Brás só a vontade dele é a única que impera, e os que se agacham permanecem assim mesmo o tempo inteiro, trabalhando, trabalhando, sem nunca ter nada na vida".
Ainda hoje é assim não só Sul da Bahia, mas em todo o Brasil: aqueles que trabalham na terra só costumam se aposentar aos 65 anos de idade, isso quando conseguem apresentar papelada reconhecida pelos sindicatos rurais que comprove o tempo de trabalho na roça. Para ganhar salário mínimo.
O final deste livro conta a batalha corpo a corpo entre os jagunços de Vulcano Brás e os homens de vaqueiro Genaro e - ao contrário do que normalmente se dá na vida real - a vitória dos explorados, apesar das baixas de lado a lado. A vitória maior, porém, que se registra é da Literatura Brasileira que sai desse romance mais enriquecida.
                                  
                                               III

Nascido em Itabuna, ao Sul da Bahia, Cyro de Mattos conhece bem a região que retratou em seu romance. Foi ali que fez os primeiros estudos, concluindo o curso ginasial no Colégio dos Maristas, em Salvador. Depois, fez o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, concluindo-o em 1962. Hoje, é advogado aposentado, depois de militar durante mais de quatro décadas nas comarcas da região cacaueira na Bahia. Antes, atuou como jornalista no Rio de Janeiro, passando pelas redações do Diário de NotíciasJornal do Comércio e O Jornal.
Contista, ensaísta, cronista e poeta, é autor também de livros de literatura infanto-juvenil e organizador de várias antologias. Já publicou mais de 50 livros e obteve numerosos prêmios literários. O principal foi o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, para o livro Os Brabos (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979), romance elogiado por Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Alceu Amoroso Lima (1893-1983).  
Sua estréia, porém, ocorreu em 1966 com o livro Berro de fogo e outras histórias, em que já se anuncia a sua preocupação em denunciar "a decadente engrenagem econômica cacaueira dominada pelo coronelismo", como observa Nelly Novaes Coelho, professora titular de Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP), autora do posfácio que constitui um texto-homenagem aos 40 anos (1966-2006) da carreira literária do autor. Para a professora, "a obra de Cyro de Mattos já conquistou seu lugar nos quadros da Literatura Brasileira contemporânea".
Cyro de Mattos está incluído na antologia Narradores da América Latina, publicada na Rússia, ao lado do argentino Julio Cortázar (194-1984) e do uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), entre outros. Seus poemas foram incluídos na antologia Poesia do Mundo 3, organizada por Maria Irene Ramalho de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, publicada em Portugal, que teve tradução para o inglês.
Em 2010, participou da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, quando autografou a antologia poética Zwanzig von Rio und andere Gedichte, publicada pela Projekte-Verlag, de Halle, com tradução de Curt Meyer-Clason, tradutor de Guimarães Rosa (1908-1967). E em 2013, esteve presente ao XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Cultural de Salamanca, na Espanha. Tem livros publicados em Portugal, França, Alemanha e Itália.
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Os ventos gemedores, de Cyro de Mattos. Taubaté-SP: Editora LetraSelvagem, 208 págs., R$ 30,00, 2014. Site:www.letraselvagem.com.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail:marilizadelto@uol.com.br


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015



                                              O Irmão

                                      Por  Cyro de Mattos
                               
De meu pai e minha mãe só tive um  irmão. Nasceu  primeiro.  Mais velho do que eu quase quatro anos. Ninguém melhor do que ele no estilingue. Tinha uma pontaria certeira. Um craque no jogo de futebol. Zé Orlando atuava como lateral esquerdo,  tinha uma perna esquerda de fazer inveja. Sabia como marcar o ponta-direita, anulando-o na partida. Chutava  a bola com precisão  para o gol levando perigo à defesa adversária. 
 Era o meu ídolo. E mais:  o meu protetor. Tirava  satisfação ao menino maior do que eu que me desafiava para brigar no sério. Ele dizia para o menino maior do que eu: “Você não gosta de brigar com um menor do que você e se gabar de porreta, venha enfrentar agora um de seu topete e vamos ver quem ganha.” O menino saia dali no mesmo instante envergonhado, amedrontado. No dia seguinte, deixava de me chamar para brigar no sério quando perdia uma partida de bola de gude e não se conformava com a derrota. De agora em diante, respeitava minhas vitórias em qualquer brincadeira. Não ficava se vingando por ser o derrotado,   mangando naquela cantigazinha,  que me dava raiva:  Ciro, ciroca, nariz de taboca, vendeu a namorada por dez reis de pipoca!”
Gostava de pentear o cabelo com esmero, depois de repartido  com o pente.  O  lado direito ficava maior que o esquerdo.  Alisava o cabelo com brilhantina. Sempre  me pedia que fosse  entregar o bilhete no qual  declarava seu amor para a menina que havia sido a escolhida para ser sua  namorada. Cumpria a missão com gosto, entre compenetrado e alegre.  Quando trazia a resposta por escrito,  a eleita dando  o sinal verde, marcando o primeiro encontro no Cine Itabuna, na matinê de domingo, eu ficava sorrindo de contente. Via na expressão do rosto que o irmão estava satisfeito com a conquista.  
Dizia que não queria outro mensageiro, o mano Cyro  dava-lhe sorte. Eu  me sentia recompensado com as suas palavras de agradecimento. Nem precisava que ele agradecesse.  Prazer eu tinha mesmo era de  levar o bilhete para a eleita e  retornar depois com a resposta dela, afirmando  que o pedido do  irmão para namorar com ela havia sido aceito. 
Tinha acabado de ingressar no primeiro ano do curso ginasial. Na pequena cidade só havia um ginásio. Por isso estudar  no único ginásio da cidade era ser olhado pela  gente importante como um estudante de categoria  especial. Significava que o adolescente conseguia atingir o grau mais avançado como estudante na cidade. O estudante local só  levava desvantagem com relação ao adolescente  que fosse estudar interno em  algum colégio na Capital. As meninas preferiam namorar o adolescente que estava estudando em algum colégio de Salvador.       
Desfilava na cidade exibindo com orgulho o blusão caqui, engomado e bem-passado  pelas cuidadosas mãos maternais.  Bordadas de  azul,  as letras maiúsculas no bolso superior direito do blusão chamavam atenção, pareciam que tinham um brilho diferente. O momento triunfal no desfile  acontecia na matinê do Cine Itabuna antes de começar o filme.
Havia adolescentes  que estudavam no Colégio dos Irmãos  Maristas, outros no Padre Antonio Vieira ou  Salesiano, em Salvador. O irmão fazia parte agora do grupo seleto de estudantes  que estudava na Capital. Não demorou muito que fosse juntar-me a ele no internato do colégio Irmãos Maristas. Anos depois, o pai alugou um apartamento no bairro dos Aflitos. A mãe veio morar nesse apartamento para cuidar dos filhos, que agora cursavam a faculdade. O  irmão formou-se em medicina, diplomei-me em  advocacia.
 De retorno à cidade natal como médico, o irmão tornou-se em pouco tempo um profissional  conceituado.  Eu exercia nessa época, idos de 1963,  a advocacia com boa  clientela. De repente decidi fechar o escritório  e fui morar no Rio. Estava determinado a trabalhar em jornal, no Rio, e, paralelamente, dedicar-me à literatura. Voltei à região apenas para casar  com a moça que conheci numa festa,  em Ibicaraí. Fazia anos que estávamos noivos.
Casado com Mariza, continuei  a exercer  o jornalismo no Rio. Só retornei à cidade natal anos mais tarde para resolver problemas familiares, depois que minha  mãe faleceu. E aqui fiquei em definitivo. Foi então que soube   como  a vida estava  se encarregando de me separar do  irmão. Ah, a vida,  com suas invenções,  difíceis de serem sentidas e compreendidas.