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segunda-feira, 25 de junho de 2018


            



           Torcedor na Desportiva    

                                                             
Cyro de Mattos

Penso que um futebol amador de jogadores com boa técnica, que  se exibiam no velho e saudoso Campo da Desportiva, não deveria ficar esquecido. Merece um museu  para que um dos aspectos da nossa memória seja valorizada.  Sirva  para que as novas gerações tomem conhecimento  de que é o homem que faz o lugar e  não o lugar que faz o homem.  Faz-se necessário  que o teor do que acabei de dizer seja explicado melhor. É imperioso que o futebol amador de nossa cidade, na fase áurea,  seja mostrado aos conterrâneos e visitantes, curiosos e estudiosos. Como nasceu e se desenvolveu  com tão boas qualidades técnicas, em seu longo curso de amadorismo. Avaliado nas razões de como jogadores que não eram profissionais, numa época distante do interior baiano, longe de centros esportivos desenvolvidos, como Rio e São Paulo, ou até Recife,  Belo Horizonte e Porto Alegre, deram espetáculos com um potencial técnico surpreendente, movido com arte e emoção.
Jogadores amadores que podiam vestir a camisa de  grandes clubes brasileiros, se tivessem atuando hoje. Não será exagero afirmar que com sorte alguns desses jogadores poderiam chegar  até mesmo à Seleção Brasileira. Cito três: Léo Briglia, Déri e Fernando Riela. Como aconteceu com Perivaldo, que surgiu no declínio do Campo da Desportiva, ou com outros de época mais recente, quando então os meios de comunicação fazem ficar conhecidos os atletas que jogam  em lugares distantes desse imenso Brasil. 
                         Sem ufanismo, sabem como eu os mais antigos desportistas de minha terra natal, vários  deles hoje passando dos setenta anos, que aqueles jogadores amadores escreveram, no piso esburacado de um estádio acanhado, páginas belas de uma das nossas maiores paixões populares. Basta dizer que meio século depois nenhuma cidade do interior da Bahia conseguiu igualar a saga da seleção amadora,  campeã seis vezes seguidas pelo Intermunicipal. Antes de alcançar essa marca, venceu  o Torneio Antonio Balbino, em Salvador, no qual participaram outras boas seleções do interior baiano. .
             Publiquei um livro sobre esse futebol amador  para contribuir um pouco com a preservação dessa memória. Promovi quando gestor cultural da cidade o documentário “Saudosa Desportiva, Gloriosa Seleção”. Sua exibição foi um sucesso. Tocou os corações de muitos,   familiares de jogadores, torcedores daquela época do futebol amador,  curiosos de ontem e hoje. Na tela do palco do Centro de Cultura Adonias Filho,  uma seleção amadora de futebol ressurgiu do fumo do tempo para mostrar  uma das faces da alma do povo brasileiro: o futebol. Jogado com emoção e garra,  classe e algum feitiço no campinho do interior.
           Sempre estou agradecendo àqueles artistas da bola na época de ouro de nosso futebol amador, pelas  alegrias que  deram no velho e saudoso Campo da Desportiva. Deles e do velho campo, com os momentos fascinantes, agradáveis e divertidos,  não  devo esquecer.  Como neste poema que escrevi:
Soneto do Campo da Desportiva - De zinco era coberta a arquibancada /A cancha tinha um piso esburacado./ Nem um pouco essa chuva demorada/Conseguia deixar desanimado/ O torcedor, que curtia a jogada / Do seu ídolo na bola passada./Dos pés a mágica mostrava ser / Tudo um sonho para nunca esquecer./ O gol de placa do atacante quando/ A partida já chegava ao final/E a marca da seleção que venceu/ Tantas vezes o intermunicipal/ Seguiram-me na torcida de meu/ Time pelos estádios do  mundo.   








segunda-feira, 11 de junho de 2018


                  


                   O Futebol Nosso de Cada Cronista

                    Cyro de Mattos      


Disputado por dois times, o  futebol tem como objetivo fazer entrar a bola  no gol defendido pelo adversário. Como arte nascida do pé na bola descreve  linhas e curvas incríveis no decorrer da partida. Nos dois tempos com intervalo, ora faz parte do jogo a ginga e o toque sutil, ora o passe preciso e o tiro certeiro. As cenas que causam espanto aos que estão no estádio resultam do empenho e suor gasto no esforço de cada lance. A bola rola macia no tapete verde ou salta na grama maltratada do campo de várzea. Uma das proezas do futebol consiste em impulsionar o coração para as zonas em que uma gente apaixonada transpira pulsações alegres e dramáticas.
               Provoca uma febre que lateja em sua brasa verdejante e se expande por toda a extensão dos meses no ano. Como gosta de criar apreensões, ritmos frenéticos quando se trata  de uma Copa do Mundo, até mesmo se for uma disputa de dimensão  nacional, estadual ou municipal. Tremores,  clamores, rancores. Vaias da galera formada de todas as gradações sociais.
Surpreende quando  irrompe das gargantas no grito de gol,  pura curtição da felicidade. Tamanha é uma flor nesse grito ferindo e atordoando que ela se torna mais bela quanto mais sonora. O grito de gol irrompido com tanta força tremula nas bandeiras com o escudo do clube ou a cara do ídolo. Ele é carregado até as nuvens com gritos e ovações.  De repente, lá do alto, derrama uma água que  molha de amor o mundo fero e solitário aqui embaixo.  Esse mesmo mundo que nós os humanos teimamos  em forjar com lances de tristeza, rasteiras e carrinhos impiedosos, todos os dias, no duro embate  dos dias. Assim levado pelas nuvens,  lá vai o futebol em seu percurso de paixão do qual faz descer uma chuva  que alaga de emoção a vida, cheia de explicações duvidosas, mas feita também de poesia, inexplicável, tão dela. 
Nos textos  de alguns de nossos  craques das letras,  aqui vestindo as cores de um timaço das letras, vemos como o futebol  seduz com suas artimanhas, feitiços e sustos esplêndidos. O quanto é amoroso e imprevisível. Cria situações inusitadas, tornando as coisas relativas, escreve Luís Fernando Veríssimo. Maltrata  com a mesma mão que afaga. Renuncia às necessidades materiais do cotidiano. Fica radiante de beleza no  lado onde se alojou a vitória,  faça sol ou chuva. No lado dos pesares, a turma deixa o estádio inconformada,  não querendo acreditar no que viu e sentiu. Nessa romaria de frustrações lá vai o futebol em silêncio,  mastigando as amarguras da derrota.
Nesse jogo que tantas vezes imita a vida,  cheia de calor e pressentimentos,   é que o futebol imprime em todos nós suas marcas de encantamento,  entre o alegre e o triste.  Assim o vemos agora,  de crônica em crônica. Com Armando Nogueira, por exemplo,  um pouco da história de nosso futebol sai dos bastidores para que se conheça  o heroísmo de Vavá, o Leão da Copa de 58, nos gramados da Suécia. Em Carlos Drummond de Andrade,  de repente o ódio faz-se alegria, o futebol afugenta mazelas, não quer saber da morte. O coração do poeta  está feliz no México e com o dele o de milhões de brasileiros, que sente do lado de cá  como é bom chover papéis picados pelas ruas e explodir fogos de artifício  loucos no céu  quando se ganha uma copa do mundo. Melhor ainda se o feito  é creditado a uma seleção inigualável  de craques,  comandados por Pelé, o “sempre rei republicano”.
O futebol chega a ter sabor de obra-prima quando  é descrito  por  Fernando Sabino em Iniciada a Peleja. Se impõe nesse momento  de reunião importante dos executivos para tratar de assunto sério. Fala mais alto  em cada lance vibrante,  chegando ao ouvido do torcedor atento e nervoso, através de um pequeno rádio de pilha. Já Carlos Heitor Cony mostra  como o  futebol é muito perigoso. Tem dessas coisas que ultrapassam o óbvio ululante de qualquer criatura sensata quando se trata de salvar a pele.  Abala uma nação inteira que quer ver o diabo em sua frente do que o bandeirinha brasileiro que marcou um impedimento dos mais graves e tirou o título de campeão sul-americano  dos nossos “hermanos”, em território argentino, favorecendo  os arquirrivais uruguaios, no último minuto.
Na trama que prende do princípio ao fim, aqui está, nestas referências  de  alguns cronistas bons de bola,  nossa maior paixão popular. Esses craques das letras brasileiras mostram, em breves passagens,  como o futebol  é tão íntimo da vida. Se possui seus imprevistos sob os instantes do sol ou da chuva,  depende do carinho para sobreviver naquele espaço verde que encanta.  Com freqüência está a dizer que vencer torna a vida leve. Quando se perde, meu Deus, como machuca. 
De qualquer maneira, com sorte ou azar, seu refrão diz que vale como paixão e diversão.     

terça-feira, 29 de maio de 2018








        Antônio Torres e Seu   Querido Canibal 
                           
                                      Cyro de Mattos

Antes da chegada do branco europeu  por aqui, os nativos eram os donos desse  Brasil imenso.  Exerciam  um ritual próprio de vida, que aprenderam dos antepassados. Viviam na tribo, cercados pela natureza intacta.   Viviam em liberdade na Baía de Guanabara ou em qualquer praia do Rio de Janeiro, no século XVI, como de resto no vasto  território brasileiro. Na paisagem natural da Baía de Guanabara, as mulheres banhavam-se no rio Carioca,  preparavam uma bebida com o milho ou a mandioca,  o cauim, que a tribo apreciava.  Como os donos  da terra e das águas,  caçavam e pescavam.  Viviam em comunhão com a  natureza, daí serem vistos  no início pelo branco invasor como o modelo do bom homem em seu estado selvagem.
 Em outro momento foram observados como objeto de dupla finalidade da colonização europeia. O europeu colonizador queria tirar proveito econômico do estado selvagem do índio,  aproveitando-o como mão de obra gratuita e necessária, enquanto a catequese desejava  fazê-lo como o novo habitante do  reino cristão, libertando-o do paganismo. O índio servia assim como elemento de observação por gente que vinha de mares nunca antes navegados  e  de crítica no campo literário.
Na sua famosa Carta de Achamento, o escrivão Pero Vaz  Caminha  inicia toda a série de crônicas e de literatura descritiva, tendo como abordagem um  Brasil nascente em estado primitivo.  Esse primeiro encontro através do  escrivão luso e os nativos   informa sobre uma gente de boa aparência, mansa e atraente  na sua pureza para a conversão.  Ao escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral, seguiram-se outros cronistas tratando do assunto com  material mais amplo,    e,  entre eles, Gabriel Soares de Sousa, Pero de Magalhães Gandavo,  Pero Lopes de Sousa e Hans Staden.
      O tema do índio em  Meu querido canibal (2000), de Antonio Torres, tem novo significado  e representatividade romanesca  na  literatura brasileira. Se bem que em outro contexto, o texto que resulta deste  romancista consagrado, moderno, de técnica  modelar,  pende para o herói derrotado, e, nessa constatação, em que impera a linguagem acessível  para delinear   a crônica no espaço do descaso histórico com o drama e a   tragédia dos nativos,  mostra o índio como uma criatura  sem saída  em sua heróica atitude guerreira,  transformadora de  sua comunhão com a natureza.  Opera  como  um dos elementos de uma nova concepção de civilização, que resiste ao conquistador, mas que termina por ser exterminado. 
        Em José de Alencar, as qualidades do nosso primeiro habitante são  idealizadas e executadas como compensação. Elege-se a exaltação romântica  das virtudes individuais e sociais, os sentimentos de orgulho,  lealdade,  amor à liberdade,   valentia, que o transformam no herói nacional, moldado assim com caracteres próprios, distantes das adaptações europeias. 
          Com Adonias Filho, o assunto lembra até certo ponto o índio de José de Alencar no  que diz respeito ao tratamento digno que lhe é conferido, embora  as visões sobre o mesmo tema  se afastem no plano da elaboração e execução ficcionais do mundo porque nascidas em épocas diferentes, contextos distantes, ajustando-se  cada uma delas às suas peculiaridades e metas. No indianismo adoniano,   o herói trágico mostra-se na trama vinculada à selva,  na infância da região cacaueira baiana,  penetrada por forças obsessivas do destino, como elemento da ação ou que impulsiona o episódio. As determinantes coincidentes do  naturalismo situam esse herói à maneira de um percurso imutável, em que o trágico fixa suas garras de horror e infortúnio, tendo como proposta final a catarse, que chega impregnada do alívio. Ou encontra saída na ressurreição, naquela dimensão que não é desta vida.
           Em Antonio Torres,  a personalidade do índio Cunhambepe se faz conhecer através de  própria conduta marcada  no gesto primitivo, entre a naturalidade da existência e a oposição ante o invasor europeu.  Os nativos são vistos pelo autor  através de observações sensatas,  pesquisa ampla   nos estudiosos do assunto, em documentos, revistas e jornais.  A essência dessa personalidade do nativo chega de  zonas críticas,  que se vai formando nas  lembranças do rito,  rastros da desgraça,  nas vozes do embuste e da farsa histórica,  na repercussão  do som e da fúria, que, vinda do passado, está  como vestígios no presente.
Desde a estreia em 1972,  com o romance  Um cão uivando para a Lua, o  baiano  Antônio Tores chamou a atenção da crítica e leitores do melhor ambiente  literário como um romancista  que chegava para ficar com destaque no corpo das letras brasileiras contemporâneas.  O  consagrado romancista, que nasceu no povoado do Junco, atual município de Sátiro Dias, na Bahia, no início foi jornalista  em São Paulo. Ao longo de sua carreira literária, produziu, entre outros,   os romances Os homens  dos pés redondos ( 1973), Essa Terra (1976), Balada da infância perdida ( 1986), Um táxi para Viena d’Áustria (1991),   O cachorro e o lobo (1997) e Meu querido canibal ((2000).
      Seus livros têm freqüentes reedições.  Um deles, Meu querido canibal ,  já alcança a décima segunda edição. Nestes tempos velozes da tecnologia,  apetência constante  dos  meios eletrônicos, primazia da imagem visual, em que se propala que o romance impresso tem seus dias contados, o caso de Antonio Torres desdiz  a afirmativa das posições unilaterais, precipitadas.   É o testemunho de que não é bem assim. Muda-se o suporte do livro, mas o romance impresso, de boas qualidades literárias,  visibilidade, densidade, rapidez, como quer Italo Calvino, precisão no que pretende dizer,  linguagem acessível, sem ser vulgar, conteúdo rico, imaginário esplêndido,  continua vivo.
      Em Meu querido canibal, numa sacada inteligente,  Antonio Torres reinventa-se em escritor-cronista moderno para, de peito aberto, como um neorromântico, mostrar-se indignado com a memória de um herói verdadeiro,  perdido no tempo, “mesmo tendo demarcado um território e inscrito nele a sua legenda”.   No capítulo 2, alerta que esse herói, de nome Cunhambepe, que quer dizer  homem de fala mansa, era  um guerreiro. Situado no tempo da pedra polida, viveu numa região paradisíaca batizada de Rio de Janeiro. Pertencia à nação tupinambá, que significa Filho do Pai Supremo, povo de Deus,  oriunda do grande tronco tupi-guarani.
       A leitura desse romance em que, desprovido do tom panfletário, gratuito e irresponsável,    denuncia o extermínio do índio brasileiro, eram cerca de seis milhões quando por aqui aportou o português aventureiro, ávido de riquezas, tendo como abono os jesuítas, melhor dizendo, a espada numa mão e a cruz na outra, permite, sem esforço, considerar que Cunhambepe é o primeiro herói de um país cujos rastros terríveis vieram das pegadas truculentas de aventureiros,  degredados, traficantes, corsários,  contrabandistas e corruptos.
     Fácil perceber que a história de Cunhambepe não é do edênico bom selvagem, dono das selvas e das águas,  dos sonhos advindos da natureza em estado puro, vivendo nu como quando se vem ao mundo, na era da pedra lascada,  contemplando-a e tentando adivinhá-la nos seus profundos e assombrosos  mistérios.  Não é a do herói dos brancos e traidor dos índios. É a de quem estava do lado de seu povo, levando-o a lutar  até o último gemido, porque era melhor sucumbir  do que ser submisso ao invasor escravagista. Nisso residia o sentido de quem estava numa guerra estupidamente desigual, entre o canhão avassalador do branco europeu e  a flecha banida  da taba para rolar na mancha das  águas, que  envergonha. .
         Com sua biografia restrita a referências mínimas,  sua história reduzida a poucas linhas, mesmo assim entregue ao sabor das traças,  esse querido canibal herói encontra em Antonio Torres uma reconstituição brava e eficaz  resultante da motivação digna do imaginário e da transpiração eficiente na escrita comprometida com  a verdade. Colhida e corrigida  esta em estudiosos do assunto, tantas vezes equivocados, quando dotados    de preconceito e superficialidade   omitem  a figura nativa na galeria dos heróis autênticos da história desse país, porque   em   conluio com  o embuste no tratamento oficial do tema.
         Adorável canibal, esse guerreiro, herói verdadeiro,  encontrado por Antonio Torres para o bem da literatura brasileira,  retirado da nebulosa de nossa história com   traços firmes na escrita ágil e atraente.       

REFERÊNCIAS

TORRES, Antônio. Meu querido canibal, Editora Record, Rio, 2016.
ALMEIDA, José Maurício de. A tradição regionalista no romance brasileiro. Editora Achiamé, Rio de janeiro, 1981.
CÂNDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1964, segundo volume.
MATTOS, Cyro de. As criações de Adonias Filho, Publicações da Academia Brasileira de Letras, Rio, 2017.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira.  José Olympio Editora, Rio,  1960.

*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, ensaísta, romancista, organizador de antologia,  autor de livros para crianças e jovens. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, o  Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras,   Associação Paulista de Críticos de Arte   e o Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil. 



quarta-feira, 23 de maio de 2018





           O Pior Time do Mundo
         
                   Cyro de Mattos 
             

Cafuringa Futebol Clube. Da cidade de Pilão Danado. Só interessava perder. Perder, perder, perder. Ganhar nem pensar. O pior time do mundo. Encontrasse um time pior, estivesse ganhando o jogo por um a zero, os defensores dessem um jeito, antes que o juiz trilasse o apito final. Fizesse logo dois pênaltis, um atrás do outro, a derrota não escapasse ao apagar das luzes. Torcedores iam ao delírio. Foguetes pipocavam. Gritos e gritos e gritos. Ê-Ô, Ê-Ô,  Cafuringa  é Perdedor! Ê-Ô, Cafuringa é perdedor.
O grito de guerra ecoava no estádio.
Costumava perder de goleada. Dez a zero a última, o auge da emoção, torcedores choravam, abraçavam-se.  Noticiário com manchete empolgante na mídia. Plantão de notícia.  A TV estampava. Mais Uma Derrota do Pior Time do Mundo.  De goleada: treze  a zero. O Cafuringa Futebol Clube não deu trégua ao Arempepe Esporte Clube, um que gostava também de perder, mas nem tanto como o rival. 
O pior em campo: Gol-Contra.  Zagueiro especializado em fazer gol contra. Na goleada última fez três.  Um de cabeça, outro de bicicleta, o terceiro de bicuda, furou a rede.
Era a glória. Não cansava das derrotas. Não tinha jeito.  Nasceu para perder, até a última gota de  sangue.
 Pergunta do repórter ao atacante Zé Velho: 
- Vai acabar hoje  a série centenária de derrotas contra o Pedrada Futebol Clube?
Sem hesitar,  resposta contundente:
- Perder,  perder, perder, uma vez perder, perder até morrer.
Bandeiras desfraldadas.  Retrato dos ídolos tremulando. De arrepiar. Furão, Perna de Pau, Pereba, Azavesso, Frangueiro, Bola Murcha, Chulé. Os mais ovacionados. Ídolos sem igual.  A foto na camisa do torcedor,  rosto sorridente do craque Azavesso, desdentado, cabeludo. No álbum de figurinhas, disputado a peso de ouro pelos colecionadores.
Novos jogadores. O time rejuvenescido. Ganhou de repente por um a zero, a zebra aconteceu contra o Bagunça Futebol e Regatas. Ganhou outra, a terceira seguida. Não era possível! Meu Deus, tem pena da gente,  o presidente suplicou, as  mãos rogando  para o céu.  Demitido o técnico. 
Os torcedores inflamados, sonoro protesto,  passeata aos gritos.  Desaprovação  geral no estádio. De-Canela, ex-astro do time, hoje chefe da torcida organizada, chegou a queimar a camisa do time.
O time entrando no gramado, apupos, xingamentos, ameaças. UM HORROR! Segundo turno, ocupava o primeiro lugar. Podia ser campeão. Aberração, Calamidade. Tragédia.
Até que retomou o rumo certo. Melhor dizendo, o errado, o costumeiro.  Voltou a perder,  uma partida atrás da outra, engordando o famoso vicio. E o refrão voltou a ecoar no estádio: “Eê! Ê! Ê! Perder Pra valer!  Quem quiser venha ver!” Abraços, choro incontido. Fogos de artifício, foguetes, berros, histerismo.
O pior time do mundo na manchete. Com o seu trio de atacantes inesquecível: Mudo,  Zoinho e Surdo.  Ovação geral do torcedor empolgado. Convicto.  Eternamente.

segunda-feira, 14 de maio de 2018


              Dois Craques Grapiúnas  na Elite do Futebol Brasileiro
                        
                                 Cyro de Mattos


Refiro-me a Nandinho e Tuta, dois jogadores grapiúnas que brilharam   na elite do futebol brasileiro,  na  época do pré-estádio do Maracanã. Os jogos mais importantes no Rio eram realizados  até então em São Januário, o maior estádio de futebol carioca. O futebol nacional vivia a transição do amadorismo  para o profissional.  
O jogador Nandinho atuou  no Flamengo, formando com Zizinho e Pirilo o célebre  trio do primeiro  tricampeonato do rubro-negro carioca. No entanto, deu   seus primeiros passos no caminho do futebol jogando pelada no campo das pastagens de Berilo Guimarães, em Itabuna.  Foi para Salvador e ingressou no time juvenil do Bahia onde mais tarde faria parte da equipe profissional. Sagrou-se campeão no time profissional do tricolor baiano em 1940. Quando retornava a Itabuna, treinava para manter a forma no Campo da Desportiva.  Do Bahia transferiu-se para o Flamengo. Depois de passagem destacada no rubro-negro carioca foi jogar no América mineiro onde se sagrou campeão e  se tornou ídolo em  várias temporadas.
O jogador Tuta veio de Uruçuca, antiga Água Preta.  Atuou  no futebol de Ilhéus e  de Itabuna, onde vestiu a camisa da Associação, poderoso time que dominou o futebol amador do  Sul da Bahia na década de  40.  Foi jogar em Salvador no Bahia e, no tricolor baiano,  sagrou-se  também campeão. De lá chegou ao Vasco da Gama, na época em que o   esquadrão de  São Januário   formou  um dos times mais importante de sua história, conhecido como  Expresso da Vitória.  Nessa equipe lendária,   jogavam  Barbosa, Augusto, Ely, Danilo, Friaça,  Ademir Menezes e Chico, que foram servir à Seleção Brasileira de 1950, vice-campeã mundial. 
Importa lembrar que o  grande derby do futebol mineiro era América  e Atlético até meados de 1960. O Cruzeiro ainda não havia surgido como uma potência do futebol brasileiro, com aquele famoso time integrado pelo goleiro  Raul,  os craques Tostão e  Dirceu Lopes, Natal, Zé Carlos e  Euvaldo. O América chegou a se sagrar  dez vezes campeão na época que o seu grande rival  era o Atlético.
Para comemorar a reinauguração do Estádio da Alameda, modernizado e ampliado em março de 1948, de cinco mil para 15 mil espectadores, o América  promoveu um torneio quadrangular, que ficou conhecido como o  Torneio dos Campeões. A disputa reuniu os campeões estaduais de Rio de Janeiro (Vasco), de São Paulo, representado pelo São Paulo, Minas Gerais pelo Atlético, campeão dois anos antes, além do anfitrião América, que se sagrou campeão do torneio e de  Minas Gerais, no final daquele ano. 
Nandinho fez parte do esquadrão do América,  campeão mineiro em 1948, que tinha como técnico o polêmico Yustrich. Já  Tuta jogou no  Vasco da Gama, que tinha como técnico Flávio Costa,  no Torneio dos Campeões , realizado  naquele mesmo ano em Belo Horizonte.
          Enquanto isso,  em 1949 o time  do Arsenal, o mais popular da Inglaterra,   fez uma excursão ao Brasil onde em São Paulo enfrentou o  Corinthians, derrotando-o,  e o Palmeira, que conseguiu um empate a duras penas. Restava enfrentar o Vasco e o Flamengo no São Januário, o gigante da colina.   Na noite de 25 de maio de 1949, uma quarta-feira, São Januário recebeu o maior público de sua história, no amistoso entre o Vasco e o Arsenal.
          A excursão do time britânico era cercada de grande expectativa.  Havia uma mística, que corria no tempo,   alardeando  que o time britânico era o melhor do mundo, e os próprios ingleses julgavam-se  os donos do futebol, pois foram eles os inventores desse esporte.  Por tudo isso, a partida entre Vasco e Arsenal foi cercada de um interesse  enorme, adquirindo até um sabor de decisão de mundial de clubes,  uma vez que,  no ano anterior, o Vasco havia conquistado o título de campeão sul-americano  invicto, no torneio realizado no Chile. Para enfrentar o time da Inglaterra, o  Vasco (foto abaixo) entrou em campo com uma das formações mais fortes da sua história, saindo vencedor da partida  por um a zero, gol de Nestor aos 33 minutos do segundo tempo.
           E o baiano grapiúna  Tuta participou desse time lendário do gigante da colina.
           




*Grapiúna é aquele que nasceu  no Sul da Bahia, na época da conquista da terra e do povoamento. E o que se identifica com uma civilização singular forjada pela lavoura do cacau, ao longo dos anos. 
** Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Membro efetivo  do Pen Clube do Brasil e Academia de Letras da Bahia. Premiado no Brasil,  Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália,  França, Alemanha e Espanha. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia)


sábado, 28 de abril de 2018


          



            Lira de Francisco Carvalho 

            Cyro de Mattos


Há quem diga que a melhor poesia produzida  hoje no Brasil está no Nordeste. A afirmação pode soar exagerada, mas deve ser considerada como procedente  com relação a alguns nomes que revelam em sua fatura poética uma produção  da melhor qualidade. O cearense Francisco Carvalho em Fortaleza, o baiano Telmo Padilha em Itabuna e o pernambucano Marcus Accioly no Recife  são nomes  que se inserem na pertinência da observação. E mais: Ruy Espinheira Filho, Florisvaldo Mattos, João Carlos Teixeira Gomes, Antonio Brasileiro e Miryan Fraga, em Salvador.
 O poeta  Francisco Carvalho estreou com Dimensão das Coisas em 1966 e de lá para cá publicou mais de vinte livros de poesia, demonstrando assim sua fidelidade   à “arte de excitar a alma com uma visão do mundo através das melhores palavras em sua melhor ordem”, conforme definição de Geir Campos, calcada na fusão que fez das concepções  de Novalis, Eliot e Coleridge sobre a obra literária escrita em verso.
            Na antologia Memórias do Espantalho, organizada pelo autor, publicada em 2004, o poeta cearense reuniu em alentado volume poemas escolhidos dos livros Os Mortos Azuis (1971), Pastoral dos Dias Maduros (1977), As Verdes Léguas (1979), Rosa dos Eventos (1982), Quadrante Solar (1983), Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, As Visões do Corpo (1984), Barca dos Sentidos (1989), Rosa Geométrica (1990), Crônica das Raízes (1992), O Tecedor e Sua Trama (1992), Sonata dos Punhais (1994), Artefatos de Areia (1995), Galope de Pégaso (1995), Raízes da Voz (1996), Romance da Nuvem Pássaro (1998), A Concha e o Rumor (2000), O Silêncio é uma Figura Geométrica  (2002) e Centauros Urbanos (2003).
Dono de uma obra poética de qualidades inquestionáveis, tanto no plano formal como no conteúdo, no poema de lastro clássico ou moderno, de verso extenso ou curto, esse poeta insulado em  Fortaleza mais seria estudado na universidade, reconhecido pela crítica e conhecido do leitor se publicado por editora de circulação nacional, de São Paulo e Rio, centros dinâmicos de um eixo  que  até hoje funciona  como tambor cultural do Brasil.
A dicção  desse cearense, que sabe o poema como “ uma teia de sombra e sol” (pág. 299),  manifesta-se com uma  linguagem condensada, e sua  palavra é  rica no ritmo, som, técnica de repetição com bastante carga de significados. O mito, a metáfora, a imagem, elementos da poética tradicional e universal, inserem-se na sua expressão com muita facilidade e riqueza criativa.  A usual técnica reiterativa como recurso de estilo para formular o poema não se torna enfadonha na dicção desse poeta,  não fosse ele possuidor de expressivos dons poéticos, operário hábil do verso, que no encadeamento de idéias descobre o sentido de coisas grandes e pequenas. .
A técnica  reiterativa de imagens que articula  para conseguir a metáfora  não implica aqui na tensão de palavras-coisas no espaço-tempo, retirando da estrutura do poema a unidade  rítmica e seu subjetivismo sentimental. Nesse poeta de lira soberba tal recurso está longe de simples justaposição de conteúdos objetivos, catalogados para uma  formulação sensorial e visual das coisas. Sua técnica de repetição como recurso estilístico no discurso bem-sucedido de imagens implica na percepção intuitiva da similitude em coisas aparentemente dessemelhantes. Na transposição eficiente de impressões e visões suscetíveis de viver,  iluminar cada verso, sua mensagem  flui numa  condensação harmoniosa de razões e sentimentos. Alcança uma carga plena de sentidos no fluxo de uma onda  salpicada das coisas que alimentam o homem na sua relação com o mundo. Ausculta nossos exílios, interpela nosso destino, transcende bichos.   
Em Memórias do Espantalho, o poeta inclui esta “Canção do Irmão”:

 Alguém tem de celebrar a paz/ pelos que pelejam/ Alguém tem de assumir a infância/ pelos que não sonham/ Alguém tem de rezar um salmo/ pelos que morreram/ Alguém tem de gritar ao vento/  pelos que se calam/  Alguém tem de velar o morto/ pelos que trabalham/  Alguém tem de produzir orvalho/   para os que semeiam/ Alguém tem de tanger o sino/ pelos que adormecem/ Alguém tem de se vestir de negro/  pelos que não voltam/  Alguém tem de apascentar o gado/ pelos que desertam/ Alguém tem  de contemplar  a estrela/ pelos que rastejam/ Alguém tem de estender a mão/ pelos que se humilham/ Alguém tem de acender a vela/ pelos que agonizam/ Alguém tem de escrever um verso/ pelos que não amam. (pág. 58)
             
Na elaboração do poema com essa espécie de técnica,  Francisco Carvalho faz com que as  imagens tornem-se incandescentes e ressonantes em cada verso. A mensagem que repercute da metáfora baseia-se na magia poética a conservar os elementos imaginários, afetivos e mentais como um conjunto desperto para a canção da vida. E, na articulação desses elementos através dessa espécie de recurso,  pode-se dizer que Francisco Carvalho é um mago com suas artes intuitivas bem concatenadas  na criação do poema. Das imagens nos versos encadeando um elenco de conceitos, impressões, visões, sentimentos, emoções,  o poema confere uma iluminação que não precisa resolver problemas e símbolos para mostrar a paisagem subjacente, porque todo ele se banha de uma atmosfera transparente.
             Em “Ciranda”, poema incluído em Rosa dos Eventos, a metáfora torna-se tão clara e visual que envolve todo o estado espiritual do poema impregnado de música. Sente-se então nos versos a emoção de uma paisagem humana marcada pelo ritmo do amor e das formas solidárias:

 Vou fazer uma ciranda/ para os meninos de Uganda/ uma ciranda de espigas/ para os meninos de Uganda.// Vou fazer uma grinalda/ para os meninos de Uganda/ grinalda de trigo e arroz/ para os meninos de Uganda.// Vou roubar um vaga-lume/ para os meninos de Uganda/ vou pastorar as ovelhas/ pelos meninos de Uganda.// Vou repartir a esperança/ entre os meninos de Uganda/ vou buscar conchas do mar/ para os meninos de Uganda.// Eu vou brincar de ciranda/ com os meninos de Uganda/ vou aradar as aldeias/ para os meninos de Uganda.// Vou tirar leite das cabras/ para os meninos de Uganda./ Mas não vou tanger o sino/ pelos meninos de Uganda. (pág. 115, Edições UFC, Fortaleza, 1982)

Na poesia desse poeta  que diz não ser nem clássico nem moderno, mas que tem no poema a fala soberba do seu coração, cabem todos os assuntos: essenciais, existenciais, metafísicos, míticos, cotidianos, do destino do homem e da humanidade, da vida com seu peso e da morte com seus vazios, de Deus e seus mistérios.  E as rimas que o poeta  manipula para conjugar timbres e tonalidades fonéticas existem não como elementos sonoros desprezíveis no discurso. Têm sua função para salientar a ideia ou a periodicidade da imagem em cada verso. 
A rima com simplicidade manifesta-se em diversos poemas dessa  vasta obra com elevados níveis poéticos. A propósito, em  “Jogo de Palavras “ o poeta fala naturalmente sobre

o que é do homem/ o bicho come.// o que é da moça// fica mais doce.// o que é da mulher// quem é que não quer?// o que é da solteira// arde na fogueira.// o que é da loura// são seios da moura.// o que é da donzela// recende a canela.// o que é da morena// recende a verbena.// o que é da fidalga// se dissolve na água.// o que é  da beleza// foge na correnteza.  ( Memórias do Espantalho, pág. 136)

Poeta que faz poesia sob prismas inovadores,  delatando na linguagem  as coisas  como as  coisas não são, em sua pessoal cosmovisão do mundo, cultiva também o soneto, embora sabendo que  sonetista é uma das muitas palavras obscenas na língua portuguesa.  Em Memórias do Espantalho, o poeta desce às raízes do mito, como se estivesse em conflito com os gestos da existência neste “Soneto da Fúria”:

Nossas vidas não passam de utopias/ volúveis como as roupas no varal../  De espera e adeus são feitos nossos dias./ Cada qual é seu próprio canibal.// Vivemos de epigramas e elegias./ Até  o amor é anseio pendular/ (crispação de tristezas e alegrias)./ Somos adubo e exílio do avatar.// Nosso nome é exilado numa pedra./ Nossa  glória é a vertigem dum momento./ vogal de sangue escrita em lousa espúria.// A dinastia da morte nos celebra/ com seus penachos de algodão e vento./ Só Deus aplaca a sede e nossa fúria. (pág. 221, idem)

Rapidez e exatidão na lira de Francisco carvalho decorrem dos versos em que a técnica da repetição participa das imagens para o efeito da metáfora. Mas feições outras desse discurso poético  poderoso, remoídos e tecidos sentimentos com a  dialética do silêncio, mesclam–se à beleza verbal da linguagem, assumindo certo grau de ambigüidade e mistério que evoca a intimidade da poesia com o claro-escuro do mundo. Este  “Soneto dos Ruminantes”, por exemplo, transpira nos passos de uma  sensualidade cósmica, ao mesmo tempo fatal, com seu conteúdo formado de substratos rurais:

 Este sol é uma febre que se alastra/ sobre os bichos. A luz é um anjo preto/ que passeia a cavalo no esqueleto/ de um sonho. A solidão é uma pilastra// que sustenta o universo destas cabras./ O vento esbarra nas estrelas magras,/ que se apagam no céu, logo depois.// A aranha deste sol trabalha e fia./ Tece o algodão das nuvens ambulantes./  No sabre desta luz canta a agonia.// de um bandolim do tempo dos infantes./ O sol, bruxo das tardes, sangra o dia./ E a morte pastoreia os ruminantes. (pág.47, idem)

Na lira do poeta que assume a metáfora como extensão e compreensão do mundo podem ser vistos  remanescentes da poesia trovadoresca medieval através de aculturações ao longo dos anos na poesia popular do Nordeste. Canto, cantilena, cantigas ou  canções são maneiras da lira que versam sobre o tema encadeado na memória. Os espaços vazios também dizem da mulher como brisa suave nesta “Cantata” modulada  na ciranda  do eterno.

Vento
                     mulher
        maresia
vento
         mulher
                    maresia

vento
         mulher
                    maresia

vento
          mulher
                      maresia

vento
          mulher
                     maresia

todas
         as horas
                      da noite

todas
          as horas
                       do dia.


                                    (pág. 222, idem)

Em Memórias do Espantalho, o bom poema não se confunde com o uso  das palavras no discurso hermético,  de tal modo codificado que é impossível atuar no outro. Com rima ou sem rima, o verso chama-se o amor de gestos repetidos que valem  tanto como o calor  do pão e a luz dos legumes. Com esse poeta sabemos  que “o sonho é alguma lavoura, que produz as espigas do sarcasmo que nos doura”( pág. 235), no qual pousamos  com as rugas do tempo.

Referências Bibliográficas


CARVALHO, Francisco. Memórias do espantalho, Imprensa Universitária, Fortaleza, 2004.
 -----------------“Ciranda”,  poema  in Rosa dos eventos, Edições UFC, Fortaleza, 1982.
CAMPOS, Geir. Pequeno dicionário de arte poética,  Cultrix, São Paulo, 1978.

domingo, 8 de abril de 2018




                   Os Irmãos Riela
                  
                             Cyro de Mattos

                    O futebol de Itabuna,  digno de seu passado amador brilhante,  quando era vencedor, dava orgulho à cidade. Agora se tornara em  grande frustração, abatia  o torcedor que  gostaria de comparecer ao estádio para torcer com entusiasmo pelo seu time do coração.  A frustração  que esse torcedor carrega dentro dele hoje   força que  acenda o coração no sentimento da saudade. Lembre-se do tempo em  que esse futebol amador  foi pródigo em oferecer partidas  memoráveis,   portadoras da verdade  como reflexo da vida, dizendo que nesta  existe a alegria dos que vencem, a tristeza dos que perdem, conformismo ou  não dos que empatam em cada batalha. 
              Os quatro irmãos Riela formaram um capítulo à parte nas partidas disputadas no Campo da Desportiva. Eram conhecidos como  os quatro mosqueteiros do rei, pois constante era o   sentimento de união  entre eles no relacionamento com a vida.  Fernando, Carlos, Leto e Lua eram inseparáveis. A vida só conseguia separá-los quando eles se enfrentavam no campo de jogo, cada um defendendo o seu time.  Carlos e Fernando jogaram no Fluminense, Leto no Flamengo e Lua no Janízaros. Cada um dava o  melhor de si para defender o seu  time. Os quatro eram jogadores dotados de  recursos técnicos invejáveis.  Cada um possuía  a sua característica na intimidade  com a bola.
         Como observei,  fizeram história no Campo da  Desportiva.  Fernando como um ponta-esquerda que driblava numa  velocidade  espantosa, deixava o marcador para trás, batido pelo chão, e o torcedor incrédulo ante a investida impetuosa, fundamental na conclusão da jogada perfeita pela beirada do campo.  O  meia-direita Carlos  tinha boa  visão de jogo, não  olhava para a bola, de cabeça erguida via o companheiro, antevia o lance   e o campo para o lançamento preciso.  Leto jogou no Flamengo  e se sagrou campeão pela seleção de Itabuna, médio-esquerdo implacável na marcação,  com uma  eficiência exemplar anulava o ponta-direita, que pouco pegava  na bola durante os lances acirrados da  partida.
          Lua, o mais novo, era dos quatro  o que mais encantava, ora parecia flutuar em campo na condução da bola, um pássaro que se desvencilhava  do obstáculo e no chão  voava?  Gingava, driblava, enganava, aquele jogador franzino  transvestido  em um artista que desenhava a jogada como num sonho. Fazia a tabelinha com o companheiro, deslizava com a bola, sem tomar conhecimento do adversário,   bailarino ou  vento esperto, ligeiro, que fazia o espetáculo pontilhado de riso e gozo?     
           Os admiradores de Lua não cansavam de dizer que dos irmãos Riela ele era o melhor, o que tinha mais recursos técnicos,  o pequeno maior. Jogou no Janízaros e na seleção de Itabuna quando esta começou o declínio para não mais conquistar o Intermunicipal. O seu  futebol era de tão boa qualidade que foi aproveitado no time profissional do Itabuna. 

*Cyro de Mattos é membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em vários países europeus, Estados Unidos e México.   Contista, cronista, poeta, romancista, ensaísta e autor de livros para crianças  e jovens. Pertence às Academias de Letras de Ilhéus e de Itabuna.