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quinta-feira, 26 de maio de 2022

 

                                    Meu tio Raimundo 

                                          Cyro de Mattos

 

            Meu tio Raimundo tinha uma fazenda grande de criatório de gado. Às vezes ele pedia a meu pai para deixar eu ir passar com ele alguns dias na sua fazenda chamada Bela Paisagem. Lá o capim era verde e parecia que não tinha fim, se perdia nos pastos até onde as vistas pudessem alcançar.  Meu tio era muito sorridente, mostrava que estava de bem com a vida, apesar de não ter um filho, ele dizia que isso tia Edite não podia lhe dar. Ele dizia que eu era o sobrinho que ele mais gostava, o filho que ele queria ter.

         Gostava de pegar na minha cabeça e ficar repetindo Mundeco, meu sobrinho esperto, corra bem depressa, que é evem o boi brabo, maior que um boneco. Gostava de fazer adivinha comigo. Se eu acertasse uma adivinha, ele me dava sorvete, saco de pipoca, cocada ou um copo grande com caldo de cana. Eu escolhesse. Se eu não acertasse, ele dizia que não tinha importância. Era uma adivinha com a reposta difícil. Guardasse comigo, fosse apostar guloseima com os amigos para ver quem acertava a resposta da adivinha difícil, que somente ele e eu sabíamos.  

         Guardei várias adivinhas que ele me passou. Como essa:   O que é, o que é? Bolota voadora, Tem um zumbido Que não para, Entrando e saindo De uma casa Com cem portas? Ou essa outra: O que é, o que é?  Tem cabeça, Não tem rosto, Fura e segura, Marca o caminho Para a agulha Andar na costura? Olhe, se você não for um menino esperto, não vai responder certo. Eu lhe ajudo com a resposta certa. A primeira é abelha, a segunda só pode ser alfinete.

     Meu tio presenteou-me no aniversário com um carneirinho. Pai e mãe não aprovaram o presente, ia dar preocupação e trabalho até que ficasse crescido. A ovelha, mãe do carneiro, morreu de uma picada de cobra, o carneirinho ficou órfão, berrando sem parar, de causar pena, segundo meu tio informou. Agora eu ia ter que cuidar dele dando leite na mamadeira. Fiz a dormida dele no quintal, na casa onde guardava meus brinquedos, como bicicleta, skate, bola de futebol, bambolê e patim.

      Quando chegava da escola, ele ficava no quintal berrando até que eu chegasse com a mamadeira grande de leite. Saía comigo pela rua puxado pelo cabresto. Gente adulta parava, ficava olhando admirada o menino e seu carneiro, fazendo seu passeio pela rua do comércio. Ao passar a mão nele para fazer agrado, os dedos pareciam que estavam pegando em algodão. Ele tinha uma pelagem fofa. Daí eu passar a lhe chamar de Lanzudo. Quando deixou de beber leite e começou a comer capim, que meu pai mandava trazer na carroça, a mãe dizia que ele devia voltar para a fazenda do tio, era melhor ele viver no meio dos outros carneiros. Lugar de carneiro era no campo, finalizava, meu pai concordava com ela, sem pestanejar.  

      De fato, isso aconteceu, não que me conformasse com a ausência dele.  Era meu bicho de estimação, com quem me exibia com os amigos lá da rua. Cada um tinha seu bicho de estimação, cada um achava que o seu era melhor, mais bonito e esperto do que o do outro menino.

          Quando meu tio Raimundo faleceu, meu pai ficou muito triste, minha mãe chorou bastante, era o único irmão que ela ainda tinha. Eu, nem é bom falar do quanto chorei, até hoje fico saudoso quando lembro dele.  Não escondo, choro porque tenho saudades de mim.

 

terça-feira, 3 de maio de 2022

 

                   Romance em tempo de ternura  

                            

                                Cyro de Mattos

              

 

            Aníbal Machado estreou em 1944 com Vila Feliz, contos que seriam acrescidos de mais sete histórias inéditas, formando o volume de Histórias Reunidas (1959). Compendiado como autor de obras-primas com os contos “A Morte da Porta-Estandarte”, “O Iniciado do Vento” e “Viagem aos Seios de Duílio”, publicou ainda a coletânea Cadernos de João (1957), em que reúne breves meditações lírico-filosóficas e poemas em prosa. João Ternura (1965, rapsódia romanesca, teve publicação póstuma, após lendária gestação durante o período de quarenta anos.

Na longa gestação do romance, cujo personagem tem uma alma impregnada de visões do mundo numa paisagem que não lhe é vulnerável, considera-se que o clima em que se cumpre viver pelo personagem conota no real coerência e naturalidade. Daí ser compreendido por particularidades pessoais onde pulsa a ternura. Na peregrinação para escrever o livro, contemporâneos que viveram no ambiente íntimo do criador de João Ternura   informaram que Aníbal Machado passou por momentos difíceis de sua jornada criativa, na iminência da conclusão ou engavetamento dos escritos.

Aníbal Machado ressalta na introdução de João Ternura:

 

É possível que alguns leitores, de tanto ouvirem falar neste livro,

o recebam de pedras na mão. Especialmente os da geração mais

antiga. Tal seria a minha reação, se, em vez do autor, fosse aqui

            o leitor (pág. 3).

 

Valeu a pena a espera, tantas são as lições carregadas de humanismo que o herói terno-lírico transmite nas cenas fomentadas na rotina obediente ao seu próprio ritmo de contradições. Porque é simples, nascido cercado de desvelos, inquietações e expectativas, esse personagem solto na realidade aparentemente generosa constitui um grito lúcido contra a miséria da existência humana. Na pauta de egoísmo corriqueiro, em que   funciona a vida competitiva, o que ele vê não é um cenário desalentador, mas a necessidade que tem a natureza humana de seguir em frente, dentro de uma normalidade, que gera movimento e comportamento entranhados na rotina de expectativas e repressões.     

Através de gestos ingênuos, o personagem torna-se uma reflexão profunda da vida. Sem qualquer espécie de partidarismo ou pieguice, é cativante no itinerário das ocorrências que preenchem a biografia lírica cercada de intenções pequenas. Não se dá à reflexão em face de gestos desconcertantes, porque as contradições e dúvidas vêm desde os primeiros passos na infância quando o mundo adulto da incompreensão e insolência começa a existir até os momentos desagregadores das qualidades humanas.  Na cidade grande que esmaga, a vida mostra-se tal qual ela é, pulsa tendo como o principal os dias constituídos de indiferenças, incoerências que não fazem sentido diante do racional.  

Esse passageiro tranquilo, símbolo do vulgar ligado na ternura, “esse pobre João ternura que nas nuvens melhor ficaria, uma vez que sua simplicidade e inocência nem sempre encontravam resposta num mundo em que não conseguiu (e nem suportava) atingir a chamada idade da razão e das conveniências sociais que tão tristemente já alcançamos” (pág. 5). Ele não mede a vida com seus despropósitos porque a simplicidade é a tônica da sua mentira verdadeira, da qual emerge a vulgaridade das ideias, que nos sabem seres estranhos formados com a natureza das próprias conveniências. Até mesmo nas reações ingênuas diante da morte quando tinha a ilusão que poderia depois continuar de olhos abertos. Alguns anos em silêncio, sem direito à vida, a espiar com prazer a sucessão das novas gerações no Brasil progressista, com o seu crescimento material, a grandeza humana de seu povo, enfim, com os homens vivendo com simplicidade, cordiais nas atitudes para longe da exploração e do medo.

Frágil e forte, o personagem do romancista mineiro acredita na inocência como uma coisa útil e, por ser terno, não se corrige com as decepções que a vida oferece.

Aníbal Machado explica:

 

E você pensa que ele vai se corrigir? Duvido. É possível que um dia

ainda abra os olhos. Isso a poder de muita cabeçada. Precisa primeiro

 sofrer na pele, levar trancos. Mas esse diabinho parece que não sofre,

 nem toma conhecimento da realidade. Não analisa os fatos. Nem

raciocina. Falta-lhe espírito objetivo... (pág.125). 

 

Em sua maneira de contar com o mundo sem merecer inconformismos, vê-se que João Ternura acha tudo natural, a cegueira de lidar com a vida sem ver nela o sofrimento o absorve de tal maneira que suas relações com o cotidiano chegam a dar pena. Ele está sempre consciente de que entrou na vida inconsciente como qualquer um de nós. Não entrou nesta briga pensando em Dom Quixote, mas apenas trazendo como arma e bagagem uma maneira ingênua para sentir os seres humanos como agentes naturais das coisas que precisam ser alcançadas. Nessa visão desprevenida de que viver é rolar na vida com simplicidade, sem se importar com as agruras, manter com ele qualquer tipo de conversa que analise a realidade tal qual ela é não será proveitoso. Ele não pode entender, por exemplo, que há em cada esquina pelo menos meia dúzia de desgraçados precisando de socorro. Não consegue conceber o mundo como um nunca acabar de murros, com os fortes, em geral estúpidos, pisando nos fracos.

Na escrita reveladora de candura, contradições e desconcertos, a fabulação sincopada em cada episódio sugere o ambiente necessário para revelar o conflito contado em determinadas passagens. Com isso quer traduzir a criatura humana em seus becos sem saída, prisões e medos.  Mostrá-la com a certeza de que quando se tem a natureza moldada com humildade a vida só pode ser vista no plano da realidade oposta à dos valores materiais, não permitindo que se pise nela com a vontade de deter as coisas postas no mundo para satisfazer desejos e ambições.    

João Ternura nos faz refletir sobre a humanidade caminhando nas pegadas da distância de uns para com os outros, projetando-se tranquila, aparentemente generosa, na expressão feliz o rosto dá a entender da existência de uma realidade proveitosa. Como portador da brandura, esse personagem intrigante informa sobre o nosso gosto de apertar o nó na garganta, sem variar nosso apetite voraz  persistente de pender para o egoísmo, que vem de longe.

O personagem lírico-vulgar resulta de inegável força criativa de autor experimentado, consistente em sua experiência de vida com bases humanísticas. Sabe valorizar sua mensagem pela atualidade vista nos gestos primitivos dos que se dizem civilizados, vivendo em ritmo tumultuado de hoje, cada vez mais intenso e veloz da cidade grande, “insone, cruel... maravilhosa ao longe, terrível ao perto. O texto que se move para a ingenuidade do personagem distante da realidade exterior, atinge momentos oníricos de rara beleza, de sonho sustentado na gravidade do diálogo difícil de ser formado nas zonas da morte onde tudo se dissolve.  

A economia vocabular, usada como uma constante para suportar o ritmo sugestivo da narrativa, a linguagem descontínua, composta de aforismos, artifícios, inversão de frases, acrobacias conscientes nas palavras, todas essas invenções formais com soluções só encontráveis na melhor ficção brasileira situam João Ternura num fluxo de beleza no qual se integram as fronteiras da poesia e do prosaico.

Como adianta um escritor da época, não é exagero afirmar que em sua construção afetiva encontra-se aqui a síntese do comportamento literário de Aníbal Machado. A mesma síntese cristalizada na escrita de Histórias Reunidas ou Cadernos de João. Nesse livro póstumo do escritor mineiro, o excelente prosador sente-se como que à vontade. O pleno domínio da escrita poética novamente emerge do espírito sensível com sutilezas líricas, no plano de imagens o sonho circula saliente sob o ritmo que prende.  Ora acelerado, ora lento, irrompe nas passagens da prosa depurada com fragmentos, vozes e figuras de um mundo incompreensível que nos impinge viver como estranhos e assustados. Trata-se de texto com técnica renovadora do discurso literário, mostrado como o real transfigurado no literário passa a se identificar com a poesia imbricada na vida.

Mas João Ternura não é apenas um texto com a forma apurada em sua grandeza técnica. Nas páginas de um discurso lírico bem construído, a vida pulsa com sentimentos que se mostram precisos nos momentos em que se desenham como achados felizes. É sentimento esteticamente realizado com sua mensagem forte formulada no diálogo aceso para iluminar o ser perdido na memória primitiva do tempo. O clima que se apreende no mundo singular de João Ternura muito se identifica com o espírito de seu criador. É como se o diálogo do personagem lírico-vulgar com a rotina das coisas não se esgotasse em si mesmo perante o lado incompreensível da vida. E fosse o grito lúcido do espírito tranquilo do próprio Aníbal Machado. Da razão penetrante e sentimento poético que se atraem e se unem para dizerem que o homem quando vive apoiado em padrão frágil de comportamento, imbuído de ternura, desligado da realidade exterior em seu lado cruel, não tem salvação para o pobre coitado, a vida deixa que se vá em sua clausura de alheamento até sucumbir acossado pela sua própria simplicidade.

Ler essa fábula moderna, percorrer o texto rico de significados e significantes, é rever a figura de Aníbal Machado. O homem culto, sensível, atencioso, de bons préstimos. Durante anos influenciou geração de contemporâneos por meio de artigos, conferências, diálogos e sugestões. Como testemunham dois escritores de seu tempo, foi um escritor que compareceu à lide literária dotado de simplicidade, não se preocupando com o poder e a glória, não usando ressentimentos para ferir o talento dos companheiros de militância artística.

Por ser criatura sem vaidades, cada vez mais rara entre os habitantes do país das letras, onde infelizmente circula o duvidoso como se fosse o verdadeiro, já podemos também dizer, como bem lembrou Carlos Drummond de Andrade, ao concluir a leitura do lendário livro, que ficamos sem saber se o criador de “João Ternura morreu efetivamente ou se é apenas uma de suas mágicas.”

 

REFERÊNCIAS

                        MACHADO, Aníbal. João Ternura, romance, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1965.

                      -----------------------------Histórias reunidas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1959.

                      ------------------------Cadernos de João, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro,1957.

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Balada em Prosa de Aníbal Machado, in João Ternura, José Olympio Editora, 1957.

 

* Cyro de Mattos é escritor premiado e publicado no exterior.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

 

Conhecimento de Candomblé

Cyro de Mattos

Tinha ouvido falar em corpo fechado pelo pai de santo, figa de guiné, em forma de mão fechada, preservativo para afastar doença e malefício, em ebó de Exu na encruzilhada, serve para fechar os caminhos de um desafeto. Sempre fica curioso quando ouve falar nas crendices, saberes e sabores que dizem respeito à religião que os negros trouxeram de África e implantaram em Salvador de Bahia com seus orixás, cantos e danças.

Axé é uma força espiritual. Valor. O fundamento, pilar de sustentação do candomblé. Abará e acarajé são iguarias que só de falar dão água na boca, fazem parte da comida do santo. Não há baiano que não deguste com prazer essas iguarias, sempre querendo mais. Em 2 de fevereiro acontece a festa consagrada a Iemanjá, se oferta presentes à Dona do Mar pela graça alcançada. Sempre está presente por lá.

No sincretismo religioso, Ogum é o Senhor do Tempo, não perde uma demanda, corresponde a Santo Antônio. Oxóssi é o orixá da caça, dizem ser mesmo que São Jorge dos cristãos. Ibejes, conhecidos como erês, referem-se a Cosme e Damião, os santos meninos, mabaços. Oxalá, o santo da paz, pai de todos os orixás, é associado a Nosso Senhor do Bonfim, o padroeiro de Salvador. Oguniê, saudação a Ogum, se você disser Oia iê ô reverencia Oxum.

Gravado está no pensamento tudo que ouvira falar entre os baianos sobre candomblé. Sua curiosidade quer saber mais, sentindo-se frustrado porque não conhece de perto uma casa que cultive como crença o candomblé. Justamente é quando aparece o moço Nigeriano, colega no jogo de capoeira na escola de Mestre Bimba, comprometendo-se levá-lo para conhecer uma casa de candomblé em dia de festa consagrada a um santo.

O candomblé de Mãe Pretinha fica no Garcia, Ogum é o dono do terreiro, vai ser homenageado na festa marcada para esse domingo. O salão enfeita-se de bandeirolas, atabaques chamam os orixás para descer nos cavalos, os filhos e filhas do santo. Não demora, entre vozes e risos, fica sabendo que o candomblé é constituído de preceitos como respeito e obediência à hierarquia. Sob o enleio de vozes orantes, com música e sons de tambor trazidos de África, o coração emerge no ritmo feito de contritos cantares.

E, quando termina a festa, permanecem dentro do peito os saberes abençoados do povo do candomblé, como estes: se for de paz,  pode chegar,  venha  pra cá, vamos conversar com os orixás, que de longe vêm, de lá, bem de lá, sem nunca cansar, vamos agradecer a paz de Oxalá, vamos cantar, vamos dançar, vamos rodar, no transe vamos cair, nos ligar a cada santo no seu galopar, com fervor promessa fazer, obrigação pagar, vamos comer, comida boa, beber aluá, conhecer de África coisas, caminhos, fonte doce, flores, da cachoeira perfumes, cachos de cores, quem é do axé, nesse batuque, nesse cachimbo, nesse cafuné, da terra, água e ar, não nega que é, Ogum ê, nosso pai, santo guerreiro, deus do candomblé, abre caminhos, vence demanda, quando pisa na pedra, o mundo balança, pra lá, pra cá, fica torto, pra endireitar Jesus é preciso chamar, com pai Ogum ninguém pode, só Deus, eterno criador de tudo que há, saravá ê, saravá…

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sábado, 16 de abril de 2022

 

Poema na Semana Santa  

 

Cyro de Mattos

 

Tudo é roxo e ofensa e perdão.

A tristeza está nos ares,

já anda pelas veredas

e no perfume dos caminhos.

No ocaso da saudade ao longe,

na flor do cacau que é espinho.

E chega à igreja a procissão.

Tudo é clamor e cruz e paixão

porque uma coroa sensitiva

instalou-se em Itabuna

com fadiga e sede e fome

e escorre suas dores

pelas pedras cor de vinho.

Mas no sábado tudo é verde

e claro sem o roxo e o espinho.

Os sinos repicam na cidade

e um dia novo está nas galhas,

no coro de milhões de passarinhos.

 

 

segunda-feira, 4 de abril de 2022

 

Romance do acadêmico Jorge Amado

 

                            Cyro de Mattos

 

             

 

             Roman à clef, ou roman a cle, expressão francesa cuja tradução aproximada é "romance com chave", designa a forma narrativa na qual o autor trata de pessoas reais por meio de nomes fictícios. Roman à clef na literatura brasileira é Montanha (1956), do mineiro Ciro dos Anjos, O espelho partido, de Marques Rebelo, projetado para sete volumes, iniciado em 1959 com O trapicheiro, e A conquista (1899), de Coelho Neto, que retrata a vida boêmia e intelectual do Rio de Janeiro no final do século dezenove.               

        No romance de Coelho Neto informa-se sobre a paisagem urbana em mudança do Rio de Janeiro, os costumes importados de Paris, os padrões de comportamento ditados pelo espírito da belle époque, a visão que se tem da literatura como o sorriso da sociedade. Nesse Rio de Janeiro de estilo literário eclético, na qual se cruzam e entrecruzam a estética do parnasianismo, simbolismo e impressionismo, circulam personagens reais com os nomes fictícios. Alguns pseudônimos são evidentes no romance, como Octávio Bivar representando Olavo Bilac, e outros não menos fácil na identificação, como é o caso de Anselmo Ribas, que é identificado como se fosse o próprio Coelho Neto. 

         Na literatura estrangeira, um roman à clef clássico é a fábula de A revolução dos bichos, de George Orwell, na qual não é difícil identificar no bestiário como personagens fictícias pessoas da revolução soviética, que derrubou os padrões de um sistema aristocrático e se tornou responsável pela implantação do regime comunista na sociedade russa. Esse tipo de romance encontramos em Portugal com A correspondência de Fradique Mendes (1900), de Eça de Queiroz, enquanto na Alemanha A montanha mágica (1924), de Thomas Mann, é outro exemplo de romance à clef. 

          Em Farda, fardão, camisola de dormir, Jorge Amado recorre ao romance à clef para abordar as disputas entre candidatos à vaga deixadas por falecimento de ilustre membro da Academia brasileira de Letras e além

disso recriar o Estado Novo com seus padrões ditatoriais. Sabe-se que no Estado Novo Jorge Amado foi perseguido e preso, teve seus livros queimados em praça pública. Tempos depois, nos idos de 1961, ingressava na Academia Brasileira de Letras, confessando no seu discurso de posse:

 

     Chego à vossa ilustre companhia com a tranquila

     satisfação de ter sido intransigente adversário desta

     instituição naquela fase de vida em que devemos ser,

     necessária e obrigatoriamente, contra o assentado e

    o definitivo, quando a nossa ânsia de construir encontra

    a sua melhor aplicação na tentativa de liquidar, sem dó

   nem piedade, o que as gerações anteriores conceberam

    e construíram. (p. 9, Discursos, 1993)

 

            Perguntado certa vez porque como um escritor irreverente, vivendo a vida do povo, havia ingressado na Academia Brasileira de Letras, uma instituição de elite, que preserva os valore tradicionais e o ritual da solenidade com pompa, respondeu por duas razões: “O ocupante da cadeira, Otávio Mangabeira, às vésperas de morrer, no hospital, disse a Wilson Lins que gostaria de ser sucedido por mim... E pela pressão de meus amigos acadêmicos.” (p. 32, Literatura comentada, 1981)

         Esclareceu que já tinha sido convidado pelos amigos, tendo recusado. Quando voltaram a fazer pressão, aceitou. Frisou que só usou o fardão da Academia em poucas oportunidades, a primeira foi quando tomou posse, depois ao receber o romancista Adonias Filho na Casa e por último o dramaturgo Dias Gomes.

         Jorge Amado ocupou na Academia a cadeira 23 de que é patrono O José de Alencar e o fundador o Machado de Assis. Ao escrever o romance Farda, fardão, camisola de dormir, compreende-se que razões sobraram para que escolhesse o formato do romance à clef para contar uma história que tem ressonâncias políticas e que se desenvolve em torno da luta entre o coronel Agnaldo Sampaio Pereira e o general Waldomiro Moreira. O primeiro representa a força nazifascista do Estado Novo enquanto o segundo, embora militar, as forças mais liberais. O livro descreve o emprego dos meios na luta pelo voto na Academia quando tudo é válido, usa-se uma ofensiva que esmague a pretensão do inimigo. Pressões, manutenção no emprego, presentes, agrados, tudo que seja favorável à conquista da vaga.

          Os compêndios apontam os vários motivos que o escritor recorre para exercitar o romance à clef.  É motivado pela natureza desse tipo de prosa de ficção por ser o gênero sujeito à controvérsia do assunto recriado, à necessidade de informar os fatos com certa discrição, munir-se da cautela para fornecer informações privilegiadas sobre o que se passa nos bastidores, preservar a vida íntima ou escândalos de terceiros, que assim escapam de acusações caluniosas ou difamação. E ainda a escolha reveste-se como vetor de realização pessoal no desejo de dar à história com sabedoria o desfecho que gostaria que ela tivesse tido. Acresce a isso a intenção de retratar eventos ou experiências autobiográficas sem se tornar vulnerável. 

A sabedoria de Jorge Amado é visível neste romance à clef, que recria a face oculta da Academia, de maneira irreverente, com marchas e contramarchas no correr das eleições de candidatos vaidosos, na disputa ferrenha no caso pela vaga deixada com o falecimento de Antônio Bruno, ilustre membro da entidade, para alguns um senhor poeta, mas doido por mulher. O disfarce, usado nos nomes fictícios de personagens reais, para que assim camuflados possam atuar no desenvolvimento do tema vai além do conflito, e, num lance de competência usual de quem sabe inventar uma história, projeta-se sem retoques um retrato fiel do Brasil durante o Estado Novo. Emerge da escrita que fere e aponta mazelas um contexto político  cheio de opressões e vilanias ditatoriais, não respeitando os direitos mais primários  do cidadão.

 

Referências

 

AMADO, Jorge. Farda, fardão, camisola de dormir, editora Record,   

                          Rio de Janeiro, 1979.

------------------- Literatura comparada, entrevista, seleção por Álvaro

                          Cardoso Gomes, Abril Educação, São Paulo, 1981.

------------------- Discursos, Casa de Palavras, Fundação Casa de Jorge  

                         Amado, Salvador, 1993

sábado, 12 de março de 2022

 

agudo mundo ou do solitário caminhante nos campos insanos 

 

 

                      Cyro de Mattos

 

 

 

    ...matador de pássaro terra água a mancha que envergonha.   aguda fome vil de novo impelindo-te.  fecha as pálpebras o sol quando vê tuas águas oleosas ondas dum peito sem dó e lágrima a comemorar de ira excedido o que o coração mais lateja desamor a queimar no verde a cobrir com cinzas os tocos das vastidões desoladas. em flor carbonizada borboletas ausentes de odores fragrâncias sem finas saliências a relva em hesitante tremor. sem tecer da natureza minúsculos dramas a vida.  sanha sorves de todas as forças reunidas pulsando veias nervos num calor para matar os sobreviventes. te ativa o cheiro enfurecido das manadas som das patas nas têmporas tua fronte do animal transformador babando bufando nas rugas do tempo o detentor só de fissuras o mundo te pergunta se no antigamente havia o semeador no campo de centeio decididamente desviado da rota alegre dos dias preferindo ser o que se acha nos gestos impuros mãos impassíveis dentro da bruma.  o litoral tu fizeste de tal assombro clamor que perfura a inocência irrompendo das gargantas sedentas do abraço. que adiantam soluçantes vozes emanando miasmas contaminações dos peitos esvaídos a cidade em grito? o deserto o deserto tua marcha algemando estas mãos abertas em súplicas sopradas por vento de amanhecer sofrido. de assaltos atropelos dizem os que são vítimas dum surpreendente audaz animal andarilho bicho insano poliglota suicida 

 

 

NÃO NOS MATE MAIS SOMOS A INFÃNCIA QUE VIVE NAS COLMEIAS DO METRÕ DORME EM ESCADARIA DE IGREJA ROLA NAS RUAS SOLITÁRIAS PUTAS NO CALABOUÇO DA CARNE NEGROS AÇOITADOS NOS PORÕES DA MEMÓRIA ESCRAVA POUCOS NATIVOS SOBREVIVENTES EM GRITO DA FUGA TRESPASSADA NOS RASTROS DA DESGRAÇA

 

        fuzilas com o sorriso aplaudes com os dentes de metralha habitas nesta inconcebível fundura dos mais vastos ais abismo feito invenção de fornos crematórios no espetáculo de amontoados nos vagões como boi pro matadouro tão pele osso os que sequer adeus podiam dar aos que ficavam sonâmbulos penetrados de angústia pelas trilhas do horror. tua máscara o sabor dos holocaustos tuas veias até hoje inflamadas no letreiro de ódio:

 

MINHA VOZ CONFUNDE ATÉ O AR AS AMARGAS SIM AO INVÉS DE SADIOS SABERES BEM-VINDOS NO AMOR SABORES DAS FRUTAS DOCES NO VERSO DO TEMPO ME MASCARO DE IDEOLOGIA NEGATIVA NADA DE UTOPIA COMO CANÇÃO DO AMOR

 

             de crimes hediondos executor numa incrível capacidade de proliferar  tudo que não se cobre com a folhagem da vida 

 

QUERO QUE O POBRE EXPLODA MENINO DE RUA SE FODA PRETO QUE SE LASQUE PUTA QUE VÁ PRA PUTA QUE PARIU ÍNDIO MATO AGORA É COM GRANADA

 

                    à vontade instauras teus ares disseminando pétalas atômicas. gente flora fauna alimentando teu ópio com ventos gemedores urdidos de agonia nos sequestros diabólicos. o viajante das estrelas corruptor corrompido estampado no mundo não mundo como o matador incansável dos que cantam a poesia da pomba em veias puras da manhã carícia feita mansidão verdadeira. na bomba teu maior elogio dos escombros no sal destas águas que despojam as cores do arco-íris nada de choro com a menina morta a bala perdida encravada na cabeça remorso não habita teus becos insones bem conheces tua música de eficiente terror no ar a explodir a maravilha estilhaçada de gritos entre tudo que soterras quem te fez exilado nas próprias sombras dos anos desalmados? não mais  pressentes sementes da terra amputada dos rumores  do vento nos ramos trescalando chuva de flores nem o encontro  dos amantes com seus anéis brilhando nos jardins do amor já não existe  mais choro mais grito mais dor mais nada conseguiste secar  todas as lágrimas de seres provisórios neste estar no mundo ambíguo. não conseguem encarar-te as trevas há muito tempo a morte evita encontrar teu olhar medonho numa carreira tão veloz sumiu para que o vento mais rápido nessa fuga de assombros nunca consiga alcançá-la

 

 

apesar de tudo creio.  sabe o tempo caminhos de mim mais os outros mais o mundo. duma flauta mágica da qual escorre uma música de tranças que se faz no seu expectante amanhecer. enleio de canção que acena com luzes na parte obscura do ser

 

 

 

 

 

sábado, 5 de março de 2022

 

                As Proezas do Soneto

              Cyro de Mattos

 

A poesia permite ao homem realizar-se como um ser mágico, que consegue retirar a beleza da cegueira da matéria no palco da vida. A poesia está em tudo. Procure bem, você a encontra.  Não esqueça que só o poeta a ergue no poema como testemunho de sua experiência verbal em diálogo com a existência. Nessa corrente energética que emana da natureza humana, o soneto acontece como uma festa prazerosa de poucas estrofes.  Trata-se de uma forma fixa de poema com quatorze versos, dispostos em dois quartetos e dois tercetos. O último verso é tido como “chave de ouro”, devendo surpreender e encantar com a sua revelação no desfecho. 

Combatido pelos vanguardistas, os protagonistas da Semana da Arte Moderna de 22 não lhe pouparam depreciações, alardeando naquele movimento sua indignação contra o indefeso poema breve, como “fora a gaiola”, além de outras referências depreciativas. A febre do soneto fez com que esse diminuto poema atravessasse séculos, permanecesse até hoje, reverenciado com fidelidade por poetas modernos, com vistas a atingir o nível superior da alma. Esse breve espaço de criatividade no verso como desafio e atração vem sustentando o eu lírico em estado súbito da comoção.

A língua portuguesa ganhou em beleza e modulações rítmicas com o verso decassílabo. Considerado como o mais melodioso e harmonioso é usado no soneto.  Apesar disso, é dado ao poeta que cultiva o soneto a alcunha de soneteiro, sonetoso e sonetífero. O exímio sonetista baiano João Carlos Teixeira Gomes registra uma série de expressões em desfavor das andanças do rejeitado poema de quatorze versos: “refúgio da decadência”, “gaiola da inspiração”, “bestialógico acadêmico”, “muleta da má poesia”, “cabresto da criatividade”, “onanismo poético”, “barbitúrico para insônia”, “sucedâneo de palavras cruzadas”, “museu do bolor formalista”, “chavão de segunda ordem”, “formalismo oco e vazio”, “museu de velharias passadistas”.

Não obstante o comportamento contundente dos que desfazem de imbatível criatura nanica, a garra de que é portador permite que continue de pé, ínfimo caminhante do sol e da chuva com os seus constantes passos de quatorze versos, buscando em sua peripécia métrica alcançar a magia do imaginário, atingir o ponto máximo do encanto na alma do receptor. Segue indiferente às acusações e atropelos da legião de fanáticos, que não o aceitam, sob qualquer hipótese. Teima em habitar com seus lampejos líricos a floresta dos poemas maiores, preservada por poetas célebres com suas criações em versos longos, a eloquente poética formada de quantidade de estrofes.

O soneto é dado a formar uma sequência quando   vários poemas estão ligados entre si por uma concepção e execução magistrais do tema, como se deu com os cento e cinquenta e quatro sonetos de Shakespeare. Outra de suas proezas quando escrito em sequência é formar a coroa de sonetos, uma forma poética composta por 15 sonetos, que têm ligação entre si por um tema. Os primeiros e últimos versos são versos de um outro (décimo quinto) soneto, denominado soneto-base, ou soneto-síntese.

O soneto em mãos seguras de mestres arrebata delírios, alimenta paixões, cultiva ilusões, carrega fardos, cai em desterros, colhe perdas, ergue perjuros, dissemina encantos, enfeitiça nos vazios da solidão. Incrível, abre-se à participação de um acontecimento raro, rico, exuberante. Transmuda-se em uma festa de imagens opulentas, faz-se comunhão do saber aliado à beleza, espalha na vida as suas sementes nas zonas encantatórias do admirável com síntese.

É visível que o seu procedimento fulgurante faz pensar no homem como resultado de outro ser, pleno de brilho na dimensão forjada de transcendência com base em desejos e enleios. Dotado dessa voz estranha, em cuja inspiração tira o homem de si mesmo para ser tudo o que é, percebemos que o desejo posto na festa lustrada com ritmos de versos esplêndidos é de algo que se confunde com cada um de nós. Visto como evocação, recriação de uma experiência, eis que ressurge de uma senda que está dentro do lado noturno de nós mesmos. Convém lembrar que essa imagem do mundo transmitida em poema com o formato breve, rígido, pode causar ao poeta a indiferença aos seus sonhos constrangidos, abafados no clamor de seus gemidos.

Sonoridade que serve como vínculo do verso para salientar a significação da vida, unidade rítmica que sustenta a ideia fluindo no texto como música, ardência que soa na rima com vibrações da palavra tradutora de inventiva rumorosa, da qual emana com luzeiros e fulgores, procedidos como hábitos e atitudes, o poeta eficaz aceita no soneto o desafio de exibir-se com indumentária repetitiva de inclinações breves e agudas. 

 No resultado final da imagem, o soneto, esse feitiço que perdura além do tempo, presta-se à natureza diversa dos humanos, ao fogo do amor, que cresce como luz na treva. 

Nesta capanga de 161 sonetos há os de formato tradicional e os de forma reduzida, todos eles com vários conteúdos, pois decorrem de natureza diversa da compreensão humana, mas no conjunto atuam no seu autor como vícios da beleza, sentimentos que querem sustar o tempo, riscando-o em instante breve do eterno.  Num sopro da extração verbal ínfima, a alma precipita-se para ordenar a existência. Como estímulos que se abrigaram no homem em movimento criativo da beleza, um dia retornam para se encontrar em outro resultado, na tentativa de iluminar a parte noturna do ser, de que nos fala em observação lúcida Otávio Paz, como imagem comovida da vida. 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

 



                   

Ô Vladimir Putin

Cyro de Mattos

 

Não escutas o passarinho em dia

De bemóis, ao contrário das fronteiras?

Nessa terra que é nossa casa, abrigo  

De lágrima na passagem dos anos?

 

No prazer de estar nela, onde moramos.

Nesse mistério dos que vêm e vão 

Com os saberes da grande mãe que dá

Seus filhos à luz, deitando-os no berço

 

Uterino, após a morte. Decerto

 De paz o final perfeito. Assim fomos

 Feitos, enfim juntos, adormecemos.

 

Deixe que nos leve a trama da vida, 

Revele-se no esplendor da mãe terra.

No lado azul de versos com sentido.  

 

 

·       Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Estados Unidos, Rússia, Suíça e Dinamarca.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

 

BICHOS

Cyro de Mattos

 

Isca

 

Quando vem à tona

como se arrisca.

 

Gambá

 

Com o seu spray

fedorento

afugenta o inimigo.

 

Leão

 

O e l é t r i c o n o a r

até o vento corre.

 

Hiena

 

Gargalhada da fome

amedronta até a morte.

 

Procurado

 

Procura-se cão pequinês,

é algo fenomenal,

nunca fez pipi

na cama do casal.

 

Papagaio

 

De cadeia ao pé

Humanamente bêbado.

 

Paixão

 

Com tanta saudade

da bailarina foca,

o solitário camelo

foi morar no gelo.

 

Caranguejo

 

Falou tano dos outros

que perdeu o pescoço

e caiu dentro do poço.

 

 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

 

                          Chuva de janeiro  

                                 Cyro de Mattos

 

Depois que o marido faleceu perdeu o interesse pela vida. Vivera com ele trinta anos de casada e soubera que o calor do corpo aquece o amor. Quando se é idosa, a experiência de vida diz que esse calor do corpo some, ainda mais quando o seu homem já não está mais ao seu lado para consumar o ato mais prazeroso da vida.

Os dois filhos estavam casados, viviam no exterior. Ela morava em um apartamento de quarto e sala. Passava com a aposentadoria de professora estadual. Todos os dias seguia para a pensão onde fazia a refeição do almoço. Sentava em uma mesa reservada para ela no canto da sala.  Lá viu pela primeira vez o homem de cabelos brancos que olhava para ela. Tinha um brilho diferente nos olhos.  O olhar dele se repetiu nos outros dias, deixando-a sem jeito. Ficou assustada quando ele se levantou de sua mesa e pediu permissão para fazer-lhe companhia durante a refeição.

          Disse que era um viúvo aposentado, fora funcionário do Banco do Brasil. Um dia convidou-a para passear no parque. A princípio relutou, mas diante da insistência dele outras vezes, resolveu aceitar o convite.  Conversaram sobre a vida, seus momentos entre o alegre e o triste, foram se tornando íntimos.  Num ponto concordaram, viver sozinho, sem ter ninguém como companhia, era ruim. Deram uma volta no jardim, sentaram no banco embaixo da árvore frondosa. Jogaram migalhas para os pombos e para os peixes na lagoa.

Na tarde fresca, um vento morno passava no rosto dela em finura de  lenço e leveza de carícia. Um casal de namorados, em cada beijo que sorvia nas bocas ávidas, revelava que a vida era boa e bela, assim no calor que se estendia por toda a extensão da pele só podia ser dado valor a ela. Ele fez questão de levá-la até o prédio onde ficava o apartamento dela. Na entrada do pequeno edifício olharam-se em silêncio antes de cada um querer dizer algo ao outro, que eles mesmos já sabiam o que era e que pulsava como uma chama que lampeja dentro. Talvez um convite para conhecer o apartamento de perto por ele. Convite dessa natureza seria impossível, embora houvesse no rosto de cada um deles o olhar cintilante de brilho.

          Ele disse:

- Muito obrigado.

Ela disse:

- Obrigada digo eu.

Despediram-se com leve aperto de mão.

Era janeiro e ainda não havia caído a chuva de verão.

Daquela vez quando terminaram de fazer o passeio pelo parque, ele a convidou para conhecer o apartamento dele. Era também um quarto e sala. Ela perguntou quem fazia a arrumação e o asseio. Respondeu que havia contratado uma faxineira. Vinha duas vezes na semana fazer a faxina. Notou que certas coisas não estavam no lugar devido. Fez a arrumação com esmero.  Limpou a poeira na mesa e nas duas cadeiras. Deu brilho em alguns objetos domésticos. Um pouco cansada foi tomar um banho no chuveiro de água quente. Vestiu o roupão que pertenceu a ex-mulher dele. 

Ela sorriu quando ouviu o convite para ir se deitar com ele.

           Então vieram os primeiros beijos. O ato para que alcançasse o auge exigia concentração e esforço. E aconteceu o máximo quando o prazer de ambos ao mesmo tempo precipitou a vertigem. Souberam que ainda restavam um pouco neles daquilo que motiva a vida. Era preciso de agora em diante aproveitar bem antes que não restasse mais nada. Foram alguns anos de convívio harmonioso, decorrente da união sem atrito entre o espírito e o corpo, que acordava rejuvenescido, embora no estado de fuga repentina em cada vez que o ato se consumava dentro algo precioso ia ficando longe nos seus contornos definidos. 

   Quando ocorreu aquela primeira vez em que dormiram juntos, ela lembrava agora, acordou no final da tarde. Movimentou-se no quarto com cuidado, não queria interromper o sono tranquilo dele. Foi até a janela.

 E, cheia de vida, ficou olhando cair pelo vidro a chuva de verão. 

 

 

domingo, 30 de janeiro de 2022

 

Aníbal Machado estreou em 1944 com Vila Feliz, contos que seriam acrescidos de mais sete histórias inéditas, formando o volume de Histórias Reunidas (1959). Compendiado como autor de obras-primas com os contos “A Morte da Porta-Estandarte”, “O Iniciado do Vento” e “Viagem aos Seios de Duílio”, publicou ainda a coletânea Cadernos de João (1957), em que reúne breves meditações lírico-filosóficas e poemas em prosa. João Ternura (1965, rapsódia romanesca, teve publicação póstuma, após lendária gestação durante o período de quarenta anos.

Na longa gestação do romance, cujo personagem tem uma alma impregnada de visões do mundo numa paisagem que não lhe é vulnerável, considera-se que o clima em que se cumpre viver pelo personagem conota no real coerência e naturalidade. Daí ser compreendido por particularidades pessoais onde pulsa a ternura. Na peregrinação para escrever o livro, contemporâneos que viveram no ambiente íntimo do criador de João Ternura   informaram que Aníbal Machado passou por momentos difíceis de sua jornada criativa, na iminência da conclusão ou engavetamento dos escritos.

Aníbal Machado ressalta na introdução de João Ternura:

 

É possível que alguns leitores, de tanto ouvirem falar neste livro,

o recebam de pedras na mão. Especialmente os da geração mais

antiga. Tal seria a minha reação, se, em vez do autor, fosse aqui

            o leitor (pág. 3).

 

Valeu a pena a espera, tantas são as lições carregadas de humanismo que o herói terno-lírico transmite nas cenas fomentadas na rotina obediente ao seu próprio ritmo de contradições. Porque é simples, nascido cercado de desvelos, inquietações e expectativas, esse personagem solto na realidade aparentemente generosa constitui um grito lúcido contra a miséria da existência humana. Na pauta de egoísmo corriqueiro, em que   funciona a vida competitiva, o que ele vê não é um cenário desalentador, mas a necessidade que tem a natureza humana de seguir em frente, dentro de uma normalidade, que gera movimento e comportamento entranhados na rotina de expectativas e repressões.     

Através de gestos ingênuos, o personagem torna-se uma reflexão profunda da vida. Sem qualquer espécie de partidarismo ou pieguice, é cativante no itinerário das ocorrências que preenchem a biografia lírica cercada de intenções pequenas. Não se dá à reflexão em face de gestos desconcertantes, porque as contradições e dúvidas vêm desde os primeiros passos na infância quando o mundo adulto da incompreensão e insolência começa a existir até os momentos desagregadores das qualidades humanas.  Na cidade grande que esmaga, a vida mostra-se tal qual ela é, pulsa tendo como o principal os dias constituídos de indiferenças, incoerências que não fazem sentido diante do racional.  

Esse passageiro tranquilo, símbolo do vulgar ligado na ternura, “esse pobre João ternura que nas nuvens melhor ficaria, uma vez que sua simplicidade e inocência nem sempre encontravam resposta num mundo em que não conseguiu (e nem suportava) atingir a chamada idade da razão e das conveniências sociais que tão tristemente já alcançamos” (pág. 5). Ele não mede a vida com seus despropósitos porque a simplicidade é a tônica da sua mentira verdadeira, da qual emerge a vulgaridade das ideias, que nos sabem seres estranhos formados com a natureza das próprias conveniências. Até mesmo nas reações ingênuas diante da morte quando tinha a ilusão que poderia depois continuar de olhos abertos. Alguns anos em silêncio, sem direito à vida, a espiar com prazer a sucessão das novas gerações no Brasil progressista, com o seu crescimento material, a grandeza humana de seu povo, enfim, com os homens vivendo com simplicidade, cordiais nas atitudes para longe da exploração e do medo.

Frágil e forte, o personagem do romancista mineiro acredita na inocência como uma coisa útil e, por ser terno, não se corrige com as decepções que a vida oferece.

Aníbal Machado explica:

 

E você pensa que ele vai se corrigir? Duvido. É possível que um dia

ainda abra os olhos. Isso a poder de muita cabeçada. Precisa primeiro

 sofrer na pele, levar trancos. Mas esse diabinho parece que não sofre,

 nem toma conhecimento da realidade. Não analisa os fatos. Nem

raciocina. Falta-lhe espírito objetivo... (pág.125). 

 

Em sua maneira de contar com o mundo sem merecer inconformismos, vê-se que João Ternura acha tudo natural, a cegueira de lidar com a vida sem ver nela o sofrimento o absorve de tal maneira que suas relações com o cotidiano chegam a dar pena. Ele está sempre consciente de que entrou na vida inconsciente como qualquer um de nós. Não entrou nesta briga pensando em Dom Quixote, mas apenas trazendo como arma e bagagem uma maneira ingênua para sentir os seres humanos como agentes naturais das coisas que precisam ser alcançadas. Nessa visão desprevenida de que viver é rolar na vida com simplicidade, sem se importar com as agruras, manter com ele qualquer tipo de conversa que analise a realidade tal qual ela é não será proveitoso. Ele não pode entender, por exemplo, que há em cada esquina pelo menos meia dúzia de desgraçados precisando de socorro. Não consegue conceber o mundo como um nunca acabar de murros, com os fortes, em geral estúpidos, pisando nos fracos.

Na escrita reveladora de candura, contradições e desconcertos, a fabulação sincopada em cada episódio sugere o ambiente necessário para revelar o conflito contado em determinadas passagens. Com isso quer traduzir a criatura humana em seus becos sem saída, prisões e medos.  Mostrá-la com a certeza de que quando se tem a natureza moldada com humildade a vida só pode ser vista no plano da realidade oposta à dos valores materiais, não permitindo que se pise nela com a vontade de deter as coisas postas no mundo para satisfazer desejos e ambições.    

João Ternura nos faz refletir sobre a humanidade caminhando nas pegadas da distância de uns para com os outros, projetando-se tranquila, aparentemente generosa, na expressão feliz o rosto dá a entender da existência de uma realidade proveitosa. Como portador da brandura, esse personagem intrigante informa sobre o nosso gosto de apertar o nó na garganta, sem variar nosso apetite voraz  persistente de pender para o egoísmo, que vem de longe.

O personagem lírico-vulgar resulta de inegável força criativa de autor experimentado, consistente em sua experiência de vida com bases humanísticas. Sabe valorizar sua mensagem pela atualidade vista nos gestos primitivos dos que se dizem civilizados, vivendo em ritmo tumultuado de hoje, cada vez mais intenso e veloz da cidade grande, “insone, cruel... maravilhosa ao longe, terrível ao perto. O texto que se move para a ingenuidade do personagem distante da realidade exterior, atinge momentos oníricos de rara beleza, de sonho sustentado na gravidade do diálogo difícil de ser formado nas zonas da morte onde tudo se dissolve.  

A economia vocabular, usada como uma constante para suportar o ritmo sugestivo da narrativa, a linguagem descontínua, composta de aforismos, artifícios, inversão de frases, acrobacias conscientes nas palavras, todas essas invenções formais com soluções só encontráveis na melhor ficção brasileira situam João Ternura num fluxo de beleza no qual se integram as fronteiras da poesia e do prosaico.

Como adianta um escritor da época, não é exagero afirmar que em sua construção afetiva encontra-se aqui a síntese do comportamento literário de Aníbal Machado. A mesma síntese cristalizada na escrita de Histórias Reunidas ou Cadernos de João. Nesse livro póstumo do escritor mineiro, o excelente prosador sente-se como que à vontade. O pleno domínio da escrita poética novamente emerge do espírito sensível com sutilezas líricas, no plano de imagens o sonho circula saliente sob o ritmo que prende.  Ora acelerado, ora lento, irrompe nas passagens da prosa depurada com fragmentos, vozes e figuras de um mundo incompreensível que nos impinge viver como estranhos e assustados. Trata-se de texto com técnica renovadora do discurso literário, mostrado como o real transfigurado no literário passa a se identificar com a poesia imbricada na vida.

Mas João Ternura não é apenas um texto com a forma apurada em sua grandeza técnica. Nas páginas de um discurso lírico bem construído, a vida pulsa com sentimentos que se mostram precisos nos momentos em que se desenham como achados felizes. É sentimento esteticamente realizado com sua mensagem forte formulada no diálogo aceso para iluminar o ser perdido na memória primitiva do tempo. O clima que se apreende no mundo singular de João Ternura muito se identifica com o espírito de seu criador. É como se o diálogo do personagem lírico-vulgar com a rotina das coisas não se esgotasse em si mesmo perante o lado incompreensível da vida. E fosse o grito lúcido do espírito tranquilo do próprio Aníbal Machado. Da razão penetrante e sentimento poético que se atraem e se unem para dizerem que o homem quando vive apoiado em padrão frágil de comportamento, imbuído de ternura, desligado da realidade exterior em seu lado cruel, não tem salvação para o pobre coitado, a vida deixa que se vá em sua clausura de alheamento até sucumbir acossado pela sua própria simplicidade.

Ler essa fábula moderna, percorrer o texto rico de significados e significantes, é rever a figura de Aníbal Machado. O homem culto, sensível, atencioso, de bons préstimos. Durante anos influenciou geração de contemporâneos por meio de artigos, conferências, diálogos e sugestões. Como testemunham dois escritores de seu tempo, foi um escritor que compareceu à lide literária dotado de simplicidade, não se preocupando com o poder e a glória, não usando ressentimentos para ferir o talento dos companheiros de militância artística.

Por ser criatura sem vaidades, cada vez mais rara entre os habitantes do país das letras, onde infelizmente circula o duvidoso como se fosse o verdadeiro, já podemos também dizer, como bem lembrou Carlos Drummond de Andrade, ao concluir a leitura do lendário livro, que ficamos sem saber se o criador de “João Ternura morreu efetivamente ou se é apenas uma de suas mágicas.”

 

REFERÊNCIAS

                        MACHADO, Aníbal. João Ternura, romance, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1965.

                      -----------------------------Histórias reunidas, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1959.

                      ------------------------Cadernos de João, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro,1957.

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Balada em Prosa de Aníbal Machadoin João Ternura, José Olympio Editora, 1957.

 

*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia)