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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

 

                    Academia de Letras de Itabuna

dá a Cyro de Mattos o título 

nobre de presidente de honra

 

         O presidente Wilson Caitano divulgou, na sessão virtual ocorrida no dia 10 deste mês, que a diretoria da Academia de Letras de Itabuna conferiu a Cyro de Mattos o título de Presidente de Honra da instituição.  O diploma da distinção nobre será entregue ao escritor e acadêmico em sessão solene, a ser realizada no dia 17 de dezembro deste ano.  Cyro de Mattos é um dos fundadores da Academia de Letras de Itabuna, para a qual vem contribuindo com atitudes e projetos, que se tornaram importantes no correr dos anos para a evolução e consolidação da entidade.

A concessão do título nobre ao acadêmico foi ideia da vice-diretora, acadêmica Janete Ruiz Macedo, que contou com o entusiasmado apoio do presidente Wilson Caitano e da acadêmica Raquel Rocha. A notícia foi recebida com alegria por integrantes da entidade, presentes à sessão virtual para tratamento do assunto e de outros. Cyro de Mattos foi presidente do Centro de Cultura Adonias Filho e Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.

 É autor de 62 livros pessoais, entre o romance, conto, crônica, ensaio, poesia e literatura infantojuvenil. Jornalista com passagem na imprensa do Rio, advogado aposentado, pertence também às Academias de Letras da Bahia e de Ilhéus, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. A crítica especializada destaca seu legado como de grande valor na literatura contemporânea.

Ele é premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado também em Portugal, Itália, França, Espanha, Dinamarca, Alemanha e Rússia. Seus textos de ficção e poemas estão inclusos em dezenas de antologias, no Brasil e no estrangeiro. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Foi distinguido no ano passado com a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara de Vereadores de Salvador.


Fonte: Blog VCosta do Cacau, Itabuna, ontem.

 

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

 

O mascate libanês

    Cyro de Mattos

 

O gringo Mansur desembarcou na estação do trem numa tarde de sol claro. Ao entrar na primeira rua de chão batido, depois de uma praça, sentiu no ar o odor denso de umas amêndoas secas que enchiam os armazéns de portas largas. Era o cheiro de resina do cacau. Encheu-lhe o peito o mesmo anseio dos que chegavam à região para realizar o sonho de ficar rico numa terra que oferecia a qualquer vivente muita benesse, graças à boa lavra das árvores dos frutos cor de ouro. Ele não chegava ali como outros com as mãos pobres. Trazia algum dinheiro, joias e uns caixotes contendo tecidos, tapetes, perfumes, sabonetes, talcos, carretéis de linha, tesouras, panelas, talheres, coisas miúdas e até vidrinhos com purgantes e óleo de rícino.

 De primeiro foi mascatear nos povoados, onde era aguardado com ansiedade e recebido com alegria por gente curiosa. Causava espanto aos tabaréus as novidades que trazia em mercadoria para ser vendida na porta das casas ou na pracinha pouco acostumada a visitas como aquela. Às vezes não se entendia o que ele falava naquela língua estranha, misturando as palavras e arranhando a voz, que saía engraçada. Ficava em cada povoado pouco tempo, resolvia penetrar a mata hostil, com a mercadoria nos baús em lombo de mula. Ia abrindo trilhas e atalhos, que serviam para interligar gente, que de tão distante na tapera e na roça de cereal plantada pelos fundos, na clareira aberta por machado e facão, não sabia um do outro.

Hoje aqui perto, amanhã nas lonjuras, sem os pais, irmãos, amigos, doce amor da bela amada, tangendo os burros com a mercadoria nos baús grandes. Nessas idas e vindas, ia formando caminhos que ligavam os povoados aos fundos da mata.

Tecedor de sol e chuva, peito armazenado de solidões pela mata bruta. Respingava de suor no rosto, pulsando com o sangue dos ancestrais nas veias da madrugada. Picado por carrapato e mosquito, sedento, faminto, resmungando por trilhas e atalhos no mato grosso. Seda rara, tapete, broche, anel, perfume, linho, porcelana, revólver, rebenque, espora, lâmpada mágica. Tudo sacolejava nos baús que os burros levavam, já formando uma tropa pequena e nova.

Alimentava-se nas veredas com o sonho de se tornar um dia fazendeiro de vastas roças de cacau, nas horas de maior solidão ajoelhava-se. Inclinava o peito para frente várias vezes seguidas. Apoiando-se com as mãos no chão coberto de folhas secas, contrito, sob o silêncio imenso da mata trevosa, beijava o chão e emitia cânticos orantes:

         

           Ilumina-me, Alá

Com o teu espírito,

Ilumina-me,

Ilumina-me,

Deixa-me sentir

Aqui no coração

Todo o teu calor,

Todo o teu amor

Para sempre,

Para sempre.  

 

Ilumina-me, Alá,

Com o teu espírito,

Ilumina-me,

         Ilumina-me,

Deixa-me sentir

Aqui na minha mente

O brilho bem forte

De todo o teu amor

Para sempre,

Para sempre.

 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

                           Picada de Carrapato

                                 Cyro de Mattos

 

 

             Sergei Turgenief, conhecido como o general bebedor de sangue, foi nomeado pelo presidente de Jurapov, Ivan Putinik, para comandar os novos ataques à Ucranzineia, agora centrados na infraestrutura civil do país. Conhecido por ser brutal e linha-dura, o comandante se especializou em infantaria e ataques aéreos.  É reconhecido justamente por não poupar infraestrutura civil em ataques aéreos, que atingiram casas, escolas, instalações de saúde e mercados onde as pessoas vivem, trabalham e estudam.

            Ele mal chegou ao novo posto e já ordenou o ataque a alvos civis em toda a Ucranzineia, incluindo um entroncamento rodoviário próximo a uma universidade e a um parque infantil. Uma de suas ofensivas brutais, do que mais se orgulha, destruiu grande parte da cidade de Sureppo.

           Turguenief é absolutamente implacável, com pouca consideração pela vida humana. Por mais de 30 anos, a carreira militar foi marcada por alegações de corrupção e brutalidade.

          Sempre gozou de vida saudável.

         Recentemente apareceram-lhe dores de cabeça, vômitos e tonturas. Foi ficando pálido, transtornado, magro como se alguma coisa invisível estivesse chupando o sangue e minando suas carnes. Foi se depauperando aos poucos, ficou sem o brilho dos olhos pequenos, falava com dificuldade. Passava noites sem conseguir pegar no sono. Um suplício. Uma junta médica, do mais alto nível no combate às doenças raras, foi convocada às pressas para lhe dar assistência, na tentativa de encontrar a causa e debelar a doença.  

          Ele foi enterrado com honras militares. Qual foi a causa de sua morte?  A picada de um carrapato. A princípio era uma ferida, não parecia nada grave.  Por caminhos ocultos, a inflamação foi se expandindo, ocupou as zonas de perigo dos nervos e vasos sanguíneos até que chegou ao ponto final do campo de batalha.

            O implacável comandante perdia a guerra por uma aparente e imprestável picada de carrapato. 

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

 

Arte como esperança: Cyro de Mattos

                                Oscar D’Ambrosio*

 

Prêmio Jorge Portugal de Literatura da Secretaria de Cultura da Bahia (SECULTBA) de 2020, “Canto até hoje” é uma Edição Comemorativa dos Sessenta Anos de Atividades Literárias de Cyro de Mattos. O conjunto de obras, já publicadas e inéditas, constitui um painel da criação de um artista a favor da liberdade e contra qualquer tipo de suplício.

Explico melhor lembrando de três sofrimentos célebres impostos pelas divindades gregas. Tântalo, por exemplo, sofreu eternamente sem poder comer ou beber. Mesmo rodeado de água até o pescoço, ele não podia alcançá-la, pois, quando tentava beber, ela baixava o nível e, ao tentar pegar frutos, os galhos das árvores estendiam-se para além dos seus braços.

Íxion, por sua vez, foi amarrado a uma roda em chamas. Em lugar de cordas, foram utilizadas serpentes; e ele recebeu como punição girar no calor do inferno. Assim como no Tântalo, a dor é eterna e sem possibilidade aparente de escapatória, pois as punições divinas são justamente assim: terríveis e permanentes.

E temos ainda Sísifo, que recebeu como castigo empurrar uma pedra até o topo de uma montanha. Toda vez que estava chegando ao alto, a rocha rolava novamente ao ponto de partida, tornando, assim, a atividade um labor eterno, que se torna uma metáfora, do mesmo modo que os casos anteriores, da estagnação do ser humano.

A poesia de Cyro de Mattos é uma resposta aos suplícios. Contra a dor de Tântalo, que não consegue atingir o que deseja, melhor ler o poema abaixo:

Árvore dos Frutos Dourados
O cacaueiro
é sedução
da aurora
ao crepúsculo.
Cílios,
impressões
de folhas,
a fio e prumo
segredo.

Os versos apresentam aquilo que o universal artista da palavra baiano tem de melhor: a observação poética do cotidiano para construir um lirismo em que as árvores de Tântalo se tornam objeto de sutil sedução e de esperança, pois “da aurora ao crepúsculo” existem as “impressões de folhas” nunca iguais, sempre repletas de segredos.

Os “frutos dourados” da árvore da arte também auxiliam Íxion. Para enfrentar o seu eterno rodar marcado pelas víboras e pelo calor do mundo subterrâneo, aponto o dístico “O Jabuti” e o haicai “Varal”, de Cyro de Mattos:

 

O Jabuti
Geológicas passadas
quem tem pressa tropeça

Varal
Manhã colorida.
Voz desse mundo sem mancha.
Sonhar é preciso
. 

A sabedoria simbolizada pelo animal, que administra o tempo de sua maneira toda especial, caracterizada por um vagar sem desespero pela existência, encontra um paralelo na manutenção do sonho, que se renova a cada manhã por mais improvável que isso possa parecer nas mais variadas situações.

Acreditar em algum tipo de futuro também é mentalmente saudável para Sísifo. Saber que seu esforço aparentemente inútil não é só dele, mas é de toda a humanidade, pode ser um consolo, uma pílula de realismo, como aponta o poema...

A Relva e a Foice
Aventura solitária
humano destino ter
entre estar e ir
basta vir para sair
renascer sem fim
como um talo de capim?
Ai de mim na relva,
ais que doem na lâmina, 
eu que vislumbro estrelas,
indiferentes perscrutam-me.

A aventura solitária de todo ser humano é, no fundo, a de todo e qualquer ser vivo. Nascer é morrer em um ciclo interno, no qual o trabalho é uma das facetas de uma caminhada existencial que muitas vezes pode parecer não ter sentido algum, pois as estrelas indiferentes tudo olham, mas sem se manifestar, ao menos aparentemente.

As palavras de Carlos Drummond de Andrade a Cyro de Mattos, escritas no Rio de Janeiro, em 1980, parecem resumir bem como o poeta combate, com suas criações, o suplício da vida:

Drummond a Cyro
Uma notícia irrompe desta árvore
e ganha o mundo: verde anúncio eterno
Certo invisível pássaro presente
murmura uma esperança a teu ouvido.

As visões (“notícias”) que surgem da existência (“árvore”), na voz poética de Cyro de Mattos, se espalham permeadas pela natureza e pela esperança anunciada pelos célebres olhos verdes de Pandora, a primeira mulher do mito grego que, como o próprio nome indica, tinha todos os dons, mas também carregava em sua célebre caixinha todos os males que nos preenchem internamente e nos rodeiam para sempre.

O pássaro a murmurar esperanças é o poeta. O canto que Cyro de Mattos faz até hoje é o seu dizer individual que se conecta com a sociedade e o mundo. A obra reunida do artista da palavra é um delicado grito de crença e de esperança no futuro que serve como bálsamo para as dores internas e externas de Tântalo, Íxion e Sísifo, cujas agruras, em última análise, são as de todos nós.

*Oscar D'Ambrosio é jornalista, graduado em Letras (Português/Inglês), com especialização em Literatura Dramática (ECA-USP), mestrado em Artes Visuais (Unesp) e doutorado e pós-doutorado no Programa de Educação Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

domingo, 2 de outubro de 2022

 

 

 

 

 

 

          Nunca mais discussão 

Cyro de Mattos

 

Aconteceu que Zé Inácio, motorista de ônibus em Buraquinho da Felicidade, ao chegar em sua residência, na rua da frente, do bairro Pau Miúdo, encontrou a mulher Belinha no sofá com um desconhecido. Revoltado, ele que é mais velho do que ela uns trinta anos, esperou que o rival saísse e partiu para tomar satisfações à mulher infiel.

          Xingando alto, sem ligar para os vizinhos que vieram até o passeio, Belinha revidava às agressões verbais do marido, chegando ao ponto de dizer que carinhoso era o amante, ninguém no mundo era mais quente do que ele. Olhar de ódio, lábio inferior mordido, mãos trêmulas, o Zé Inácio resolveu dar uma dúzia de tapas na mulher. Ela se defendeu armada de um velho facão, não tendo medo de enfrentar o marido traído. Vendo-se em desvantagem, ele pegou uma garrafa quebrada e atirou contra a mulher adúltera. Ela se livrou do projétil ao se abaixar rápido, indo se proteger por trás de uma pequena mesa. A garrafa atingiu o filho caçula do casal, que  teve um ferimento grave na cabeça.

          Chamados pelos vizinhos, os mesmos policiais prenderam Zé Inácio em flagrante. Já mais calmo, não esboçou qualquer reação quando recebeu a ordem de prisão e foi algemado. Ele admitiu na delegacia que não tinha sido essa a primeira vez que encontra a mulher com algum desconhecido em sua residência. “A vida é assim mesmo, nada se pode fazer, cada um já entra nela pra cumprir sua sina”. Logo que saísse da cadeia, ia pedir perdão à mulher e tentar a reconciliação.

          Comentou que ainda não sabia o que tinha se passado com ele para cometer cenas vexatórias como aquelas diante dos vizinhos, mesmo sabendo que ela o trai, gostava muito dela. A briga que ele teve com a mulher já era coisa do passado, a paz voltaria a reinar no lar, “amanhã será outro dia”. Com rosas no jarro posto por Belinha em cima da mesinha.

          A pequena mesa com a toalha branca de linho, tendo no centro o coração grande bordado de vermelho, atravessado pela flecha dourada de Cupido. Só era usada em ocasião especial, presente de Belinha no aniversário dele. Era a toalha que ele mais gostava, embora a razão nunca conseguisse explicar ao coração os motivos desse querer tanto. Também pudera! - como na musiquinha que gostava tanto de cantarolar, o coração tem razões que a própria razão desconhece. 

          Além do mais, quando morrer, não queria choro nem vela, somente uma fita amarela gravada com o nome dela.

           De agora em diante prometia se comportar direitinho e nunca mais  vai ter discussão  com a Belinha.    

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

 

O Profeta

Cyro de Mattos

 

Os pássaros cantavam nas árvores frondosas, macacos faziam acrobacias costumeiras nos galhos, soltavam gritos de alegria quando achavam as árvores carregadas de frutas maduras. 

Com a voz pausada, cabelos sedosos enrolados pelos ombros, barba até o peito, apoiado no cajado velho, disse sem hesitar:

- Vamos transformar daqui pra frente em uma realidade justa o que até agora existiu fora da rota certa entre vocês nas glebas de terra das quais vocês são os posseiros. Haveremos de ter por aqui nestas vastas léguas um lugar em que a preocupação de uns com os outros é de fazer o bem de todos, produzir a felicidade coletiva. Liberdade, ordem, trabalho. Organização na produção, sem propriedade privada, nem dinheiro, ambição pelo ouro e a prata. Um lugar onde cultivemos nossas crenças religiosas sem imposições de que uma é melhor e mais verdadeira do que outra. Um lugar de paz, sem males e ambições.  

Com essas palavras, que saíram sob a inspiração daquele que em vida foi o seu pai, uma criatura de voz mansa, que pregava a liberdade como o sentimento mais valoroso  e o amor como o mais forte, estava nascendo um lugar com bases no bem-estar de todos cuja magia ninguém sabia. A ideia foi aceita por um grupo que ouviu atento aquela decisão surpreendente para mudar o que existia entre eles nas relações cotidianas. Os velhos concordaram com ele. Os que ficaram indecisos, os mais jovens, quiseram mais explicação, não desejavam trocar o certo da vida onde trabalhavam a terra com o intuito de ficarem ricos, pisavam caminhos conhecidos onde pretendiam criar a família, por uma realidade da qual não faziam ideia, não sabiam se seriam beneficiados com esse lugar fundado em bases da união coletiva inspirada no amor, entre os que iriam conviver sem ambições e desejos egoísticos. Podia dar errado a mudança para novos movimentos e rumos. Ele intercedeu, afirmando que, entre poder e não poder executar um\a tarefa, que pode parecer impossível, tudo se realiza quando há a razão e a boa vontade.

Acrescentou o que ouviu do pai certa vez: “Deus quando quer e o homem sonha, a obra nasce’’.

O lugarejo tinha muita ave canora e assim ficou sendo chamado de Cantapássaro. Como as terras eram férteis e se estendiam por um vale extenso coberto de grama seria o lugar ideal escolhido para que vivessem na paz, onde as gentes de qualquer origem iriam habitar sem os males das disputas pessoais, que geram as guerras e as perdas irrecuperáveis na memória dolorida.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

 

                                            A Disputa

                                                Cyro de Mattos 

 

A terra era fértil, o que se plantava vingava com sobras.  Quando havia disputa por um estirão de terra, a contenda era feroz. “É meu!”, um dizia, “eu descobri primeiro!”, outro alardeava. Os demais não aceitavam, todos se achavam o protagonista da façanha.  A refrega começava, os ventos ficavam irascíveis, provocavam assombros, escombros, feridos e mortos.

Os mais velhos diziam, somente um vai tirar a caça da mata, quando encontra, abate-a, nem pode comemorar. Aparece muitos como o verdadeiro caçador. A discussão começa, tomava o formato de disputa ferrenha.

Era sempre assim, depois de morta a caça aparecia era caçador. O combate se fazia feroz, enquanto a caça apodrecia, e as garras do ocaso a levavam para fazer reinar o entendimento entre eles.

 E as trevas fossem banidas do coração de cada um deles, em batimentos que levavam para a destruição de todos os contendores na disputa feia.   

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

 

                           O POETA MENELAU

                                 Cyro de Mattos

            Ainda não conhecia o fundador da Confraria dos Poetas de Zurubundanga. Exercia o mandato de presidente pela décima vez, sempre eleito por aclamação. Também com ele a regra era seguida à risca, só era poeta quem pertencesse ao ilustre quadro de membros efetivos da confraria.  Quem não tivesse o salvo-conduto, não se imaginasse como um verdadeiro poeta.

Era de estatura pequena, pescoço grosso, cabeça com os cabelos ralos. Dentuço e nervoso. Tinha o sestro de sacudir a cabeça várias vezes quando estava dizendo um poema. Era amigo do prefeito, para quem dedicava sempre dois ou três poemas no dia de seu aniversário. Assinava uma coluna semanal no Diário de Zurubundanga, ali no recanto das letras comentava livros de poesia, apenas os volumes dos ilustres confrades. Ficava contente, ali era um espaço ideal para publicar seus comentários literários ou poesia de dez a vinte estrofes. O recanto não deixava de lhe oferecer uma boa oportunidade para disseminar sua glória, quase dizia vaidade, o que não calhava com seus brios de poeta talentoso, como gostava de dizer para ele mesmo.

 Com ele só os poemas longos, curtos como o haicai nem pensar.  Detestava essa coisinha insignificante, de poeta minimalista, sem inspiração, habilidade no estro, alienado, cultor de fórmulas orientais para compor o verso nanico. De outras gentes, que nada tinha a ver com a magnífica poesia cultivada por ele e os poucos leitores, que eram os mesmos integrantes da confraria.
        Quando se dirigisse a ele, só admitia que fosse chamado de poetão Menelau. Vá lá, poetastro, nada de poeta ou poetinha, isso não condizia com a grandeza de seu estro, que tinha como marca supimpa as rimas mais instigantes. Por exemplo, coração com mamão, tesouro com besouro, presepada com batucada, cachoeira com besteira, facão com anunciação, porrete com macete, camaradagem com garagem, alegria com pirataria, chulé com bicho do pé.

Num dia de calor do verão, estava abastecendo o carro com gasolina no posto. De súbito apareceu aquela cabeça inquieta na janela do motorista, os olhos rutilantes como se quisessem saltar do rosto ossudo.

Disse com entusiasmo:

-  Soube que você publicou um livro de poesia na França.

- Sim – eu disse.

Emendou sem pestanejar:

- Mas isso não é a glória. Não é trunfo nem motivo plausível para que você se ache um verdadeiro poeta.

Meio assustado, disse que a glória não me preocupava. A imortalidade era uma fórmula usada pelos membros de uma academia, como maneira de querer superar a indesejada, o que não é possível.  Ela é a coisa que temos de mais certa.            

- Você precisa aparecer lá na confraria dos poetas da terra, retornou e insistiu na lembrança. - Precisa se filiar ao grupo. Se não tiver em nosso meio formado por imortais, nem se considere poeta.

E recitou o que ele chamava do mais recente poema de sua imbatível inspiração. Uma zorra com versos que rimavam coração com cheiro de manjericão, maneira apurada com vida galharda, embriaguez serena na pele morena, e por aí seguia aferrado à sonoridade das rimas.  Informou que os versos candentes desse poema ou o que fosse lá o que fosse tinham inspiração na sua bela Aurora, mulher incrível, companheira e eterna musa.

        -  Quer ouvir outro poema?

        Comecei a suar, apressando-me em ligar o carro para me livrar das investidas poéticas do Menelau.  Para sorte minha, ouvi o frentista dizer, no outro lado, para que ele tirasse seu carro, que o tanque já estava cheio. Ele não deu ouvido. Começou a dizer outro poema, apesar de meu conselho para que fosse tirar o seu carro, o frentista já estava irritado de tanto pedir isso, tinha gente na fila querendo abastecer o veículo.  Foi o que me salvou. O poeta Menelau, o grande, antes que me esqueça, saiu chateado com aquela inconveniente interrupção à sua elevada dicção para soltar a verve que emergia decidida, naquele instante, de um encontro não marcado por ele com um simples fazedor de versos.

         Ainda lembrou antes de sair:

          - Apareça lá na confraria dos poetas da terra.

          E arrematou com o peito cheio e o rosto contente: 

          - Junte-se a nós e vá em frente como um verdadeiro poeta.        

 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

 

Versículos

Cyro de Mattos

 

Reparem

O beija-flor,

De Deus

Aviãozinho,

Frescurinha

De ventilador.

No corrupio,

No frufru,

Alegrinho

Quando vê

A suave flor.

Amar e beijar

Essa a vida do ar.

 

Do espírito

Maligno,

Impiedoso,

Invejoso,   

Esfacelador,

Deus vos livre

Desse bicho

Horrendo

Com seu jeito

Pervertido

De machucar 

O que é belo.

 

Cruz-credo! 

Da cegueira

Do espiritado,

Do espinho

Que fura

E não cura

Deus vos livre.

 

Da empáfia

Do indigno

E seu veneno 

Estejam atentos.

 

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

 

Prezado Cyro de Mattos.

EUCLIDES NETO PARA CYRO DE MATTOS

Ipiaú - Ba - 1984

 

 

 

Meu afetuoso abraço.

 

Ando escabriado com você. É que recebi o Cantiga Grapiúna e só agora reposto, passadas algumas safras. No destempo. Debite o atraso à excelência do livro. Deixei-o sobre a mesa do escritório: alguém chegou, abriu, amarrou-se, foi saindo, sempre lendo, grudado ao texto. Achei o troço curioso e, confesso, não tive coragem de “estrovar” o motivo de tanto enlevo da moça – sim, era uma moça! (salvo seja!) – que se prendia aos versos . A leitora viajou. E, confesso ainda, o tempo enxugou a lembrança do fato. Muitos meses depois pensava eu sobre a poesia na região do cacau quando me recordei dos poucos versos lidos no ato do recebimento. Procurei o livro. Diabo! Escritório de advocacia, você sabe, é o que se chama em linguagem de Frei Luís de Sousa: cu de mãe Chica. Cadê o livro? Cadê o livro? Vem logo o palavrão de quem procura e não acha. Ah! Aquela moça levou. Menino, vai atrás dela, traz a prenda. O positivo saiu na busca e apreensão da tua obra. Nada. Voltou. A ladrona de versos (ah! se todos o fossem) viajou. Procura a mãe da moça, pergunta se ela sabe... Com certeza a filha levara... Sabia porque pedira a ela que deixasse o livro, começado a ler, e também andava no apreceio. Volta a moça. Dei-lhe nos tampos. Cadê o livro, menina? Ah! Uma amiga de Salvador viu e levou pra ler. Quero o livro, menina. Vou mandar buscar. Manda, infeliz, preciso dar conta ao autor da gentileza. Repare que a coisa ficou meio comprida e, só agora, meio machucado de tanta leitura e agrado, volta o precioso “Cantiga Grapiúna”. Ainda bem que o li de um gole, gustativando o que nele se contém, estalando a língua de contentamento.

 

                A coisa se cola naquilo que eu idealizava como poesia da querida nação cacaueira. Enfezo quanto tentam tirar do regionalismo a densa qualidade artística que ele possui. Como que os pernósticos da crítica julgam tratar-se de um troço inferior, assim como desprezível música caipira, curiosa, bem verdade, mas indigna dos salões da corte. Espécie de comida exótica para dias de piquenique, mas que não cabe no banquete do rei. Talvez, complexo do eito da cana-de-açúcar. Acho que toda grande obra é regionalista, pois todos os temas humanos pertencem à generalidade dos moradores desse terráqueo nosso. Afinal, amor, “O Cavalo”, “Boi São Bernardo”, “Ao Rio”, “Tropas” existem aqui ou em Katmandu.

 

 

 

“A servos e donos do orvalho diga

O vento sobre aroma em terra amarga”

 

“Lábios de sol e de chuva,

amaro travo nas vigas do tempo”

 

“Veias de sabre

viazul no píncaro

 

destro disparo”

 

Teria que copiar o livro...

 

                Por coincidência leio, também agora, vindo de São Paulo, o jornal “O Escritor” com o “Aníbal Machado e A Metáfora da Ternura.”

                Mais uma faceta sua: romancista, contista, poeta, crítico. Pena a advocacia enxugar nos insossos arrazoados parte do suco do seu talento. Paciência.

Outro abraço

 Euclides Neto

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

 

                     Mamão Doce

                      Cyro de Mattos

 

Comer mamão doce como sobremesa depois da refeição do almoço.

Nada era igual. Doçura pura. Mastigava com prazer os pedaços adocicados da fruta.

Colocava com gosto na gaiola o pedaço do mamão para o passarinho. Não podia deixar de fazer isso, o bichinho merecia fazer o deguste prazeroso da fruta. Deu até para imitar o canto de vários pássaros depois que bicava o pedaço de mamão maduro. Sinal que se sentia bem com a vida que levava, embora seu canto fosse de um prisioneiro, sem voo, som e pluma pelos ares das estações estáveis. Um canto inútil nos dias contrários da gaiola. Sem beber dos ritmos da natureza, livres.      

 Passavam as estações sem ter a graça de viver lá fora.

Virou rotina para o dono ter que limpar a gaiola, depois que ele comia o mamão e cantava vários cantos, todos os dias.

 Se sacudia alegre no espaço pequeno da gaiola, enquanto bicava e comia o mamão.

Limpar todos os dias a gaiola. Que coisa chata. Começou a se indignar com o passarinho. Comia o mamão, mostrava-se alegre, deixava a gaiola suja, aquele passarinho nojento.  

Contrariado, imaginando como se sair daquela obrigação de limpar o que o passarinho sujava na gaiola.

                “Deixe estar, seu dia vai chegar, não vai mais sujar.”

               Dessa vez deixou o pedaço de mamão com um tantinho de coisa líquida dentro. O passarinho só deu um bicada no pedaço do mamão.  Caiu nervosinho, sem canto, qualquer movimento que indicasse que ali na gaiola existia um bichinho que ficava alegre imitando o canto de outros quando acabava de comer seu pedaço de mamão.

                   O veneno fizera o efeito que esperava.

                  “Agora passarinho arreliento vá cagar e sujar na cidade dos nadas, lá não há mamão doce pra você comer prazeroso. Acabou qualquer tipo de canto, bicho imundo, teimoso.”

           Assoviou, aliviado, como se tivesse se livrado de uma coisa que lhe dava desconforto, transtornava.

        “Triluli, trilulá, bem que disse que seu dia ia chegar.”

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

 

                                                    O Comilão

                                          Cyro de Mattos

 

Era um comilão incorrigível. Não passava um dia em que não comesse por quatro vezes um prato fundo com uma comida apetitosa. Insaciável, constante. Quando não tinha dinheiro para fazer uma merenda no restaurante, que constava de um prato fundo com a iguaria farta, vestia a roupa maltrapilha, de pés descalços, saía para a rua, pedindo, clamando aos transeuntes por um dinheirinho para comprar alguma coisa, estava se esvaindo de tanto passar fome.

- Um dinheirinho, moço, ainda não comi hoje.

Apertou a barriga com uma cinta de compressão para não dar na vista que estava com a pança estufada, armazenada de comidas várias.

O bigodudo homem sisudo respondeu:

- Dou-lhe dinheiro grande pra comprar um prato fundo de comida, se você morder essa pedra e mostrar que está de fato faminto.

Arregalou os olhos, a proposta vinha em boa hora da fome impiedosa.  Prontamente mordeu a pedra como se fosse um pedaço de carne, bem temperado, refogado no arroz gostoso. Voou da boca dentes para todos os lados. Cuspiu sangue, deu um grito lancinante. Ficou chorando, ui, ui, quebrei meus dentes, meu Deus, me socorre, que vou dar um troço!

De agora em diante passou a ser um comilão mais comedido, sem farsa nem artimanha.

Fazia apenas duas refeições modestas, diariamente. Não queria correr o risco de perder a dentadura nova, paga em dez prestações, com sacrifício do que recebia da aposentadoria modesta.   

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

 

Vejam abaixo uma porção de beleza nos versos que só um mago produz. (Cyro de Mattos)

 

Infância

  

Bernardo Linhares

 

“Não tenho certeza se vivi além da infância” 

Saint-Exupéry 

 

INFÂNCIA 

 

(ao sublime e inspirador Carl Gustav Jung) 

 

Ilha que brilha 

num mar de alegria, 

ciranda de cores, 

maré cheia. 

Soprando a vela, 

o verde é ternura, 

o branco no céu 

compõe o carrossel. 

Pintando a criança 

- peixinho dentro d’água - 

o azul silencioso. 

E esse sol que escorre 

em minha lágrima. 

 

*

CANÇAO DE NINAR

 

(ao inspirador e sublime Sigmund Freuf)

 

Adormecendo,

diz o neném:

Papai me ama,

mamãe também.

 

Azul de amor,

sonha a criança.

No berço meirgo,

que é o seu pódio,

 

ela boceja,

abrindo os olhos:

Ô revoltado,

 

 

quem te pariu

 foi a inveja,

a mãe do ódio.

 

*  

O IDIOTA ÚTIL

 

( a Lacan e seus discípulos)

 

Cara emburrada de anjo sem asas,

sem jardins, sem quintais.

O cão fareja:

“Ou não teve infância,

ou não teve pai”

 

 

*       

 

 

Se você nega a infância, nega a vida 

Audrey Hepburn 

 

 

 

A BELEZA É A PRISÃO QUE NOS LIBERTA 

 

  

(ao mais do que sublime e inspirador Sir Roger Scruton) 

 

 

  

 

Mimo do céu, infância alada: 

lua, rosa e borboleta. 

Azul, azul-celeste, 

igual ao girassol, gira o planeta. 

Conto de fada, encanto: 

lua, crisálida; sol, pirilampo. 

Entre os astros da flora recende o amor-perfeito, 

floresce a sensitiva, voam pavões, 

canta a cigarra, a lua se deita. 

Enquanto a borboleta beija a flor da correnteza, 

As Três-Marias, 

pétalas de um trevo na haste de um cipreste, 

refletem à luz do dia: 

- Pequenino bem-te-vi, desenvolvendo tua pena, 

não perca o sentido da vida, 

não menospreze a Beleza, 

bondade e consolação 

que nos afirma na alegria 

e nos conforta na tristeza. 

 

 

 

BL, o decano da Geração Prefácio, Verba Pública e Privada, autor de Flores de Ocaso, o único livro publicado sem nenhuma nota em todos os jornais de Salvador, agradece a leitura.