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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

 

                


                    O Coração Selvagem de Clarice Lispector

                                      Cyro de Mattos

 Quando estreou aos 23 anos com Perto do coração selvagem (1943), Clarice Lispector causou impacto no ambiente literário e na crítica especializada da época. É que o romance vinha com um discurso diferente do que a tradição costumava conceber e executar no texto com bases no psicologismo e nas referências dominantes da realidade social, fosse o contexto da narrativa no meio urbano ou rural.

 O romance abolia o tempo linear e usava o fluxo de consciência para que a personagem no pensamento exprimisse suas incertezas e tormentos. Nas circunstâncias do tempo exterior passava a ser vista por meio de outro discurso, que fazia indagações sobre um coração selvagem, pulsando sem encontrar algo que o fizesse em harmonia com o mundo. 

A ficcionista inovadora chegava para revolucionar na forma de contar a vida de Joana, personagem de caráter impulsivo, destemida, que tentava encontrar a sua verdade na vida. Não gostava de pessoas bondosas e de maneiras agradáveis. Desde pequena sente-se deslocada da vida exterior, adulta se vê tomada pelas incertezas de como aconteciam suas maneiras de ser perante a existência.    

Ao escrever sobre a vida de Joana, que ficou sem a mãe e o pai, a autora, sem o uso do tempo linear, mostrava com a aproximação do leitor às circunstâncias existenciais da personagem como se contraponteavam as relações críticas de uma mulher no contexto familiar. Clarice Lispector não queria mais a fabulação e a linguagem tecidas com a coerência da ordem exterior, mas como fatores mutilados pela desordem inventiva do sistema verbal, a frase construída com a veemência de inconsequências, incoerências formais que preferem dialogar no silêncio, meditar com o vazio, pois é no vazio que se passa o tempo. Como certa vez ela disse em Onde estivestes de noite?  (1974, página 34), “mas quando se trata da vida mesmo – quem nos ampara? – pois cada um é um. E cada vida tem que ser amparada por essa própria vida desse cada-um.”

Tentando pôr em frases a mais oculta e sutil sensação, desobedecendo a necessidade exigente de veracidade, Clarice Lispector permitia-se em seu romance de estreia apenas a transmissão da continuidade do clima narrativo.  Com expressão própria e pioneira elaborava um discurso que conservava a linguagem dizendo o máximo no mínimo da frase, com cortes poéticos de dor pesada. Operava a palavra como lâmina, a causar profundidades na leitura arguta que empreendia sobre os seres vivos e as coisas permanentes, nas relações e nos estados de alma em que o coração selvagem vibra e emerge de desafios e anseios.  

 O romance de estreia de Clarice Lispector não se processa como simples relatório amparado por linguagem sedutora e enredo que prende para o entretenimento. Para a autora, até na lírica do trivial se requer do romance invenção na forma de romper com os meios tradicionais de narrar uma história, oferecer acontecimentos que nem sempre resvalam por caminhos previsíveis, fáceis de apreensão pelo leitor apressado, que não consegue vislumbrar o sonho quando o processo criativo usa de reticências para dizer da existência. Por temperamento, vê-se incapaz de tocar em assuntos como a náusea, por exemplo, com um enfoque provido de introspeção na frase, pois sempre transmite assim  sensação de que a história não tem desfecho lógico decorrente do feito extraordinário.

O desconhecido vicia em Clarice Lispector, o que revela é tão novo, surpreendente, que se tem a impressão de que raros ficcionistas entre nós tenham realizado como ela a proeza de falar do nada para desvendar o tudo. De descobrir pulsações onde existem reflexos da vida no estreitamento do peito, como se os batimentos do coração ocorressem com o seu brilho aceso para iluminar a parte noturna do ser, de tal modo as situações emergem de um espelho humano com suas possíveis refrações.  Para tanto é preciso meditar com o silêncio e dialogar com o vazio para extrair dessa ligação novos sentidos do mundo.

Não se queira em Clarice Lispector de Perto do coração selvagem uma história representativa de vida, que tenha começo na sequência cronológica do tempo, motivada pelos feitos extraordinários desdobrados para um final coerente.  A abstração na lógica do real se dá porque a criatura humana é o ser do tempo. É cíclica a existência, que não tem princípio nem fim.  Com seus personagens atormentados, agora procedem às avessas na órbita objetiva das circunstâncias abstraídas da realidade exterior. 

Vale lembrar que, no novo cenário herdado dos escombros de duas avassaladoras guerras mundiais, o existencialismo era a concepção de mundo que a filosofia oferecia para o ser humano caminhar no que parecia ser o abismo da razão. Dentro dessa nova corrente de pensar o homem na órbita de suas circunstancias existenciais, Heidegger tem a concepção de que a criatura humana é um ser do tempo, para Sartre um ser da morte. A concepção da vida nessas formas existenciais do pensamento iria ser aproveitada por alguns de nossos ficcionistas no plano de suas criações.

 Em Adonias Filho, o homem trágico era transportado da Grécia para viver na infância da selva situada no sul da Bahia, submisso às forças do destino, que o tratavam como um servo da morte em ambiente primitivo. O romancista de Memória de Lázaro reproduzia a concepção de Faulkner quando afirmava que o ser humano construía o seu destino trágico, era ele mesmo o agente da infelicidade e da loucura, das forças que o levam à dor e às paixões. Em Clarice Lispector, as essencialidades humanas permaneciam mergulhadas no silêncio e no vazio das coisas destituídas de datas.  Como ser do tempo, o homem não é divisível porque movimenta-se dentro do tempo, habita um território sem limites, em silêncio, quando e onde apenas ele é.

Como elo de um ciclo que existe entre as coisas vivas e as não vivas, transita ao largo de uma sofrida aprendizagem até se encontrar definitivamente na união sensual do dia para a sua hora mais crepuscular. 

 

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