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sábado, 9 de julho de 2022

 

Cento e doze anos

 

Cyro de Mattos

 

 


Ultrapassou a barreira comum de nosso saco de tripas, superando a linha de chegada que Deus programou para nossa sobrevivência neste planeta. Ele fez cento e doze anos de idade. Seu nome: Benevenuto Jesus dos Santos.

No aniversário do patriarca, festa que começou a ser programada há dez meses, compareceu gente da prole que se espalhou por todos os cantos do Brasil. Filhos, netos, bisnetos e tetranetos. Gente que vive do Oiapoque ao arroio Chuí. Saibam os poucos que lerem essa crônica que ele tem vinte e cinco filhos, oitenta e seis netos, cento e dezoito bisnetos e, de quebra, dezesseis tetranetos. Sem dúvida, trata-se de um fato incomum, feito de vitalidade, otimismo e alegria. Serve como exemplo aos seus mais jovens descendentes e também para os jovens dos atribulados dias de hoje. Um homem viver tanto tempo e manter sua crença na vida.

Como eu disse, veio gente dos confins para o aniversário do patriarca. Gente de toda cor. Branca, preta, mulata, loura, sarará, cafuza, parda. E o que também impressiona nessa prole imensa e vária é ela se encontrar aí pelo mundo bem viva. Confiantes, alguns dos filhos do patriarca observaram que irão superar a marca do pai, um deles adiantou que essa proeza de fazer que a vida seja longa não vem só do lado paterno. A mulher do patriarca, Dona Filomena, perfumada, ruge no rosto, boca pintada de batom, o cabelo amarrado com uma fita azul, vestido com peixinhos no tecido rosa, não fica por menos, esse ano apagou noventa e cinco velinhas.

O que deve passar na cabeça de um homem com mais de cem anos de idade e que atravessou um dos períodos mais conturbados da humanidade? Foram duas grandes guerras mundiais, dezenas de guerras localizadas, muitas revoluções, inúmeras práticas de genocídio a povos e grupos discriminados, apogeu e desaparecimento de estadistas que a história conheceu como heróis.

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O patriarca nunca fumou, só veio tomar alguns goles de cerveja quando se aproximava dos cem anos. Devoto de Santo Antônio, sempre acordou às quatro da madrugada, logo indo abrir as janelas para evitar que os filhos ficassem perdendo tempo na cama.

Mais de trezentas pessoas transformaram a cidade onde o patriarca nasceu numa festa como nunca houve igual. Uma missa foi concelebrada ao ar livre pelo padre da cidade e dos municípios vizinhos.

Lá estava toda a prole em ritmo de alegria, vestindo camisetas com a foto do patriarca. Desde o filho caçula, com cinquenta e nove anos de idade, até o mais velho, com oitenta e seis anos. O padre da cidade mostrou-se feliz por ver uma família conseguir manter-se em unidade sob princípios cristãos. Destacou a fibra do patriarca, que, não sendo rico, educou os filhos numa vida de trabalho, sacrifício, honradez e sabedoria.

Os instrumentos de trabalho do patriarca, os arreios de sela, a capa contra chuva e o chapéu de couro foram doados durante o ofertório na missa. O largo da igreja estava lotado de pessoas entre felizes e curiosas. Terminada a missa, um churrasco para quatrocentas pessoas foi servido em outro local, ao ar livre. O velho Benevenuto Jesus dos Santos teve dificuldade em soprar as cento e doze velinhas.

Sabem do que o patriarca mais gosta atualmente? De dormir e comer, mas nada de alimentos enlatados. Sua alimentação é natural. Entre as poucas atividades que exerce, ensina aos mais jovens como melhor cultivar a terra, mostrando-lhes o tempo certo para arar e plantar. Ele disse que dormir cedo e acordar de madrugada todos os dias, comer sem exagero o alimento natural, não fumar, não beber, trabalhar a terra com a enxada, andar sempre e nunca se enervar nos momentos difíceis tem sido a fórmula que usou para chegar tão longe.

 

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