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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Justiça autoriza LGE/Ler Editora a distribuir nas livrarias a primeira biografia de Guimarães Rosa e manda Vilma Guimarães e a Editora Nova Fronteira pagarem as custas da ação contra o biógrafo Alaor Barbosa e a LGE




BRASÍLIA, 16 DE AGOSTO DE 2013 – O jornalista Euler de França Belém, editor do Jornal Opção, dá conta, na edição de 11 a 17 de agosto de 2013, de que a Justiça concluiu que a biografia Sinfonia Minas Gerais: A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa (LGE/Ler Editora, 2007, Brasília, 388 páginas), do romancista e ensaísta goiano Alaor Barbosa, não é plágio de Relembramentos: João Guimarães, Meu Pai (Editora Nova Fronteira), de Vilma Guimarães, filha do gênio mineiro, e pode voltar às livrarias, de onde foi arrancado pela Justiça, em 2008, gerando prejuízo para a LGE, hoje, Ler, pequena editora de Brasília. Na época, Vilma Guimarães e a Nova Fronteira processaram a LGE; Vilma e a editora foram condenadas a pagar as custas processuais.

Vilma alegou, na ação, que Sinfonia Minas Gerais “causa graves danos morais à imagem” de Guimarães Rosa (1908-1967), e “viola direitos autorais” dela e de “terceiros”. Diz o despacho da Justiça: “Não se verifica em Sinfonia de Minas Gerais a utilização de mais de 10% da obra de Vilma Guimarães Rosa, Relembramentos. O percentual não chega a 9,5%”; “A obra de Alaor Barbosa, Sinfonia Minas Gerais, se sustenta e é útil ao conhecimento da vida do biografado e também como obra literária mesmo sem as referências à obra de Vilma Guimarães Rosa, Relembramentos, ou seja, ainda que os trechos concernentes ao livro da autora do processo sejam suprimidos, o livro Sinfonia Minas Gerais tem função e interesse histórico e literário”. E afirma que ao citar Vilma Guimarães Rosa e outros autores Alaor Barbosa os identifica com precisão, não omitindo, hora alguma, suas fontes.

No Brasil, há uma enxurrada de ações judiciais contra editoras e autores de biografias, por parentes de biografados pedindo dinheiro por dano moral e a retirada do livro de circulação. Por exemplo: em 2007, o cantor Roberto Carlos conseguiu que a Justiça mandasse retirar das livrarias um livro escrito por um admirador, que relatava a vida familiar do artista e sua trajetória. Em 2008, o jornalista Ruy Castro, ao lançar a biografia de Garrincha, foi processado duas vezes: pelas filhas de Garrincha e por uma ex companheira do astro do futebol. Ruy ganhou um dos processos, mas foi condenado no outro pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que estipulou indenização de 5% sobre o total de vendas do livro, com juros de 6% ao ano, contados a partir da citação das partes. Em 2009, depois que a imprensa divulgou que Ruy Castro estava escrevendo a biografia de Raul Seixas, o autor foi advertido por uma das cinco ex-mulheres do cantor baiano de que entraria na Justiça caso o livro fosse publicado. E em 2008, a Justiça mandou retirar do mercado a primeira biografia completa de João Guimarães Rosa, o autor da catedral literária Grande Sertão: Veredas.

Vilma Guimarães Rosa entrou com ação na Vigésima Quarta Vara Cívil do Foro do Rio de Janeiro, em 10 de julho de 2008, contra Alaor Barbosa, autor da primeira biografia de Guimarães Rosa publicada no Brasil, Sinfonia Minas Gerais. Vilma alegou que Alaor Barbosa utilizou citações do livro dela, Relembramentos: João Guimarães Rosa, Meu Pai, de 1983, que ela chama de biografia, mas que se trata de livro epistolar; e também que Alaor Barbosa afirma que Guimarães Rosa era místico. Em setembro de 2008, o juiz Marcelo Almeida de Moraes Marinho mandou a LGE retirar das livrarias, em 24 horas, o livro em questão, acatando o pedido da filha de Guimarães Rosa e da Nova Fronteira, editora que publica Rosa.

A ação era uma peça absurda e causou sérios danos à LGE, que teve de recolher o livro das livrarias em todo o território nacional. Recolher livros num país continental como o Brasil e nos tempos de hoje, com vendedores eletrônicos em cada esquina da internet, é outro absurdo. Além disso, o custo editorial é elevado e a retirada de um livro do mercado é brutal para uma editora pequena. 

Alaor Barbosa afirmou, na sua defesa, que as autoras da ação pretendiam garantir reserva de mercado para faturar em cima de Guimarães Rosa: "A Editora Nova Fronteira acaba de relançar obra de autoria de Vilma Guimarães Rosa, intitulada Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai; livro publicado em 1983, com pouco sucesso comercial e que não se configura tecnicamente uma biografia, mas sim um livro que procura mostrar, em sua visão de filha de Guimarães Rosa, quem seria o seu pai, principalmente por meio da transcrição de cartas escritas e recebidas por Rosa ao longo de sua vida. Evidente que as autoras da ação se aproveitam do ano de centenário de morte de Guimarães Rosa para, absurdamente, tentarem obter vantagens econômicas; sendo certo que buscam o Poder Judiciário visando a uma espécie de exclusividade em relação à história de um dos maiores escritores brasileiros; história esta cuja importância em muito transcende os laços de parentesco. Trata-se, como restará demonstrado, de uma evidente pretensão de apropriação da figura, da vida e da obra de João Guimarães Rosa por parte de uma sociedade editorial de grande porte, que, repita-se, tenta se utilizar do Poder Judiciário para potencializar o seu já notável poderio econômico; buscando, absurdamente, vedar a concorrência”.

E quem é esse Guimarães Rosa que não pode ter sua vida revelada por uma biografia, bem documentada, diga-se? Quem foi João Guimarães Rosa? “Sou um sertanejo” – disse, durante uma das raríssimas entrevista que concedeu – a Günter W. Lorenz, em Gênova, em janeiro de 1965. Essa entrevista, uma conversa longa e esclarecedora, foi publicada em Arte em Revista, do Centro de Estudos de Arte contemporânea, em maio de 1979.

Entre os monstros brasileiros da ficção, Guimarães Rosa foi um dos que mais fundo mergulhou na língua brasileira. “Nosso português-brasileiro é uma língua mais rica, inclusive metafisicamente, que o português falado na Europa. E, além de tudo, tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve; ainda não está saturada. Ainda é uma língua jenseits Von Gut und Bose (Além do Bem e do Mal, título de um livro de Nietzsche), e, apesar disso, já é incalculável o enriquecimento do português no Brasil, por razões etnológicas e antropológicas” – disse Guimarães Rosa a Günter W. Lorenz. “Pelo processo de mistura com elementos indígenas e negroides com os quais se fundiu no Brasil...” - disse Lorenz, a que Guimarães Rosa replicou: “Exato, este foi um enriquecimento imenso e já pode ser notado no exterior pela quantidade de diferentes dicionários europeus e americanos do mesmo idioma. Naturalmente, tudo isso está à nossa disposição, mas não à disposição dos portugueses. Eu, como brasileiro, tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses, obrigados a pensar utilizando uma língua já saturada”.

Com efeito, como num iceberg, língua é a parte emersa e, cultura, os restantes sete oitavos sob a superfície da água. Guimarães Rosa, que compreendia mais de uma dezena de idiomas, foi um artífice único do mundo singular do sertanejo mineiro. Daí porque é um dos escritores brasileiros mais estudados e traduzidos na Europa, na tentativa, malograda, de os europeus compreenderem o trópico. Nesse mister, nem os lusitanos compreenderam o trópico; portanto, ficaram sem entender o Brasil.

Assim, compreender o mundo de Rosa é enxergar um ângulo da pedra angular da cultura brasileira. É isso que Alaor Barbosa faz, lança luzes sobre a vida e a obra do gênio mineiro. “Creio que minha biografia não é muito rica em acontecimentos. Uma vida complemente normal” – disse o monstro das Alterosas a Lorenz, em 1965, dois anos antes de morrer. É fato. Guimarães Rosa foi sertanejo e funcionário público; um sujeito tão discreto que parecia se esconder, e isso Alaor Barbosa resgata.

A biografia escrita por Alaor Barbosa é adiposa. Vilma se queixou, na Justiça, de que o escritor goiano fez inúmeras citações do seu livro epistolar Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai. Alaor pode extirpar todas essas citações que, ainda assim, a biografia do monstro sagrado continuará inchada como os pés de um pinguço. Alaor produziu um bom material: reconstruiu a geografia de Rosa, psicanalisou-o e resgatou o dia-a-dia do criador de Grande Sertão: Veredas, desde seus antepassado até o caixão.

O centenário de nascimento de Guimarães Rosa (1908-1967) foi comemorado, em 2008, com enfoque inusitado na crítica brasileira pelo Núcleo de Estudos sobre Homocultura (Nehom) da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), em Minas Gerais, em evento cultural, O Segredo de Grande Sertão: Veredas, na Biblioteca Central Professor Antônio Jorge, da Unimontes. No evento, analisou-se o que há de homoerótico e homofóbico em um dos maiores clássicos da literatura brasileira, a sutil relação de amor entre os personagens Riobaldo e Diadorim (Reinaldo).

Foram analisados dois artigos. Em Confessando a carne em Grande Sertão: Veredas, Denise Carrascosa esclarece que “não há, na crítica literária brasileira – “autorizada” – sobre a obra de Guimarães Rosa, a não ser por alguns acenos, referência à relação de desejo carnal, homoerótica em alguns momentos, homofóbica em outros, que se pinta nas zonas de sombra na narrativa”. O outro texto analisado foi Riobaldo/Diadorim e o tema da homossexualidade, de Walnice Matos Vilalva.

O objetivo do estudo foi o de jogar luz sobre a homossexualidade na obra de Rosa, implícita na ideia do próprio autor, de que “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar”. Diz Riobaldo: “Nego que gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo!... Assaz mesmo me disse. De por diante, acostumei a me dizer isso sempre vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo acreditei. Ah, meu senhor! Como se o obedecer do amor não fosse sempre o contrário...” (Fonte: Mix Brasil)

Em Berlim, encontro internacional de três dias, também em 2008, debateu a dificuldade de se traduzir João Guimarães Rosa. Ligia Chiappini, professora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, disse que a principal motivação do simpósio foi perceber que João Guimarães Rosa não é reeditado na Alemanha e que há um desconhecimento cada vez maior da obra do gênio no país, onde seus livros acabam chegando somente ao gueto dos brasilianistas.

Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa é a primeira biografia do extraordinário escritor brasileiro João Guimarães Rosa. Primeira, mas completa. Feita com competência e calma, nasce já clássica e portanto indispensável a quantos, no Brasil e fora do Brasil, queiram conhecer a vida do poderoso contista e romancista mineiro que já se tornou o mais estudado dos escritores brasileiros” – diz a quarta capa do livro de Alaor Barbosa.

E a orelha: “João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908 e morreu em 19 de novembro de 1967. Neste ano de 2007, comemoram-se, portanto, quarenta anos da sua morte e se está na véspera do ano do centenário do seu nascimento.

“Era preciso que alguém lhe escrevesse a necessária e indispensável biografia. Apesar de já ser talvez o escritor brasileiro sobre quem mais se tem escrito no Brasil, ainda faltava um livro que contasse a história da sua vida exemplar. Pois João Guimarães Rosa foi um raro exemplo de dedicação de um homem à sua arte literária. Essa lacuna foi felizmente preenchida, em boa hora, pela iniciativa, providência e admirável operosidade de um consagrado ficcionista brasileiro.

“Alaor Barbosa escreveu a biografia de João Guimarães Rosa movido pelo sentido e convicção de que cumpria um múltiplo dever: para com o biografado, a quem conheceu pessoalmente, de quem foi amigo e a quem tributa profunda admiração pessoal; para com a literatura brasileira, cujos criadores devem ser mostrados, difundidos, cultuados; para com a língua portuguesa, que necessita e merece ser defendida; e para com a nacionalidade brasileira, que deve ser preservada principalmente mediante a valorização da sua cultura.

“Observe-se que esta biografia constitui a primeira parte de um trabalho mais amplo, que inclui, em segundo volume, uma análise de toda a obra literária de João Guimarães Rosa.

“Um escritor autenticamente brasileiro, de origens radicadas no interior do nosso país, Alaor Barbosa descende de mineiros da região da Serra da Canastra (Espírito Santo da Forqueilha, hoje Delfinópolis) e de paulistas de Igarapava, nasceu bem no âmago do Brasil: em Morrinhos, Goiás; e vive em Brasília, no Planalto Central, há 23 anos (2007).

“Escrevendo sobre ele em 1969, afirmou o contista e romancista José Edson Gomes: “Alaor Barbosa vem pacientemente desenvolvendo uma obra que terminará por explodir neste Brasil imenso e quase cego”.

“O romancista e crítico Assis Brasil assim o classificou, em 1996: “Um dos mais desenvolvidos e seguros narradores da nova literatura brasileira”.

“Em 2000, trinta e um anos depois da previsão de José Edson Gomes, o severo crítico Wilson Martins, ao escrever sobre o romance Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia, outorgou a Alaor Barbosa a definitiva consagração, colocando-o na família de Balzac, Thomas Hardy, Eça de Queiroz, Dostoievski, Graciliano Ramos e Giovanni Verga”.

Carta de Noemia Barbosa, filha de Alaor Barbosa, para Vilma Rosa, filha de Guimarães Rosa:

“Vilma,

“Nasci filha de escritor. Doei para o meu pai, desde o meu nascimento, longas horas da minha infância e da minha adolescência. Meus irmãos doaram outras tantas horas. Minha mãe dividiu o marido, durante décadas, com sua amante, a literatura. Mas meu ciúme de criança foi se atenuando, ao longo dos anos, e mais ainda com o chegar da maturidade. Passei a admirá-lo, respeitá-lo, reverenciá-lo. Principalmente, passei a compreendê-lo. Literatura, para o meu pai, o escritor Alaor Barbosa, é e sempre foi devoção. Triste do filho ou da filha que não respeita e nem compreende as devoções paternas.

“Assim como você, também sou herdeira de uma obra literária. Grande, extensa, profunda, séria. Fruto de muito trabalho, pesquisa e esforço, feita com paixão e talento. Obra reconhecida e tantas vezes premiada. Falo de quase meio século de produção literária, tempo bem maior do que eu mesma tenho de vida. Meu pai, Vilma, já era escritor antes de eu nascer.

“Tenho a sorte de ter meu pai comigo, avô carinhoso das minhas filhas, em almoços de domingo. Vivo, feliz e produtivo. Mas já estou de posse da herança que ele me legou. Foi uma partilha sem desavenças, entre a família e os amigos. Não a herança material, mensurável, quantitativa, que se deposita em conta bancária. Desta, basta-nos o óbolo de Caronte. O que recebi de meu pai foi um norte, um rumo, um equilíbrio, um eterno buscar da verdade. O amor e o respeito por tudo de bom que o ser humano já produziu.
Você, Vilma, também recebeu uma herança. Magnífica herança, portentosa, imensurável. A herança de um gigante. A herança de um gênio, primus inter pares. Temos, portanto, responsabilidades. Eu e você. A minha, talvez mais leve, é a de impedir que a herança de meu pai seja aviltada, desqualificada, vilipendiada. Isso, tenha certeza, não acontecerá. As inverdades, calúnias e difamações são muito fugazes e, uma vez reveladas, deixam despida aquela que as inventou. Aliás, é assim que eu vejo você: despida, nua, pelada. Porque mais marcado será sempre o caluniador do que o caluniado. Já a sua responsabilidade, Vilma, é a de não abastardar, não apequenar, não diminuir a sua herança, o seu legado. A obra do seu pai é universal. Não a amesquinhe, não reduza a herança à estatura da herdeira.

“Num país como o nosso, Vilma, tão carente de cultura, tão necessitado de modelos, tão merecedor de exemplos, resta-me recordar as palavras de outro ídolo de meu pai, Monteiro Lobato, cuja biografia para crianças também saiu da máquina de escrever Olivetti que havia na biblioteca lá de casa. Lobato disse que um país se faz com homens e livros. Você, portanto, quando tenta impedir a existência de um livro, de uma obra literária, espanca a inteligência nacional, ofende a tantos que tombaram em nome da liberdade e do direito de expressão e do livre pensamento! Talvez, Vilma, seu tempo tenha passado. Imagino você mais feliz vivendo uma outra época – mais escura do que a de agora. Talvez sob o Estado Novo ou abrigada pelo AI-5. Imagino você, Vilma, com um carimbo de censura na mão — arma formidável! — detentora exclusiva da faculdade de permitir ou não que alguém leia, fale ou pense. Para nossa sorte e infelicidade sua, vivemos tempos mais claros. E você, faça o que fizer, diga o que disser, jamais impedirá meu pai de ler, escrever, falar ou pensar. Nem meu pai nem ninguém.

“Portanto, Vilma Rosa, não acenda fogueiras com livros. O fumo do livro incinerado escurece uma nação.

“Cada um de nós tem seus próprios ídolos. Sorte do meu pai, que fez boas escolhas. Os seus, parecem ser o Index Librorum Prohibitorum, o Santo Ofício, Savonarola e Torquemada. Talvez, até Herr Goebbels... Eu, que também tenho os meus, cito um deles: você vai amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença...

“Lembre-se, Vilma, você é apenas uma filha. Você é apenas uma herdeira que avilta a herança magnífica que recebeu, constatar que nem tudo que Guimarães Rosa nos deixou é tão bom quanto a sua obra literária”.

(Noemia Barbosa Boianovsky é bacharela em Relações Internacionais, jornalista, advogada, consultora da Câmara Legislativa do Distrito Federal e filha de Alaor Barbosa.)

O fato é não temos legislação sobre o limite entre o direito à privacidade e o direito à informação sobre pessoas de notória projeção pública e celebridades, nem há jurisprudência sobre isso. Mas, agora, com o caso Guimarães Rosa, alguma luz começa a piscar. 
Fonte: WWW.raycunha.blogspot.com

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Itabuna 100 anos- A História Contada

"Itabuna 100 Anos", de Raquel Rocha, foi um projeto bem-sucedido em  minha gestão como diretor-presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania. Repercutiu de maneira favorável em nossa comunidade ao ser exibido no Centro de Cultura Adonias  Filho lotado, como parte das comemorações do Centenário da Cidade. 

A direção da cineasta Raquel Rocha e o conteúdo com depoimento de pessoas,  que nasceram aqui e vivenciaram a nossa história, fazem desse documentário uma fatura exemplar sobre a recuperação de um tempo perdido. A linguagem dos entrevistados que ecoa nesse tempo posto na imagem revela momentos significativos da memória grapiúna."   

Cyro de Mattos   



XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos

Retrato de Cyro de Mattos desenhado pelo renomado artista espanhol Miguel Elias, que vai figurar na  antologia em homenagem a Fray Luis de Leon, no XVI Encontro de  Poetas Iberoamericanos em Salamanca- Espanha, promovido pela Universidade de Salamanca, nos dias  02 e  03  de outubro de 2013.

domingo, 11 de agosto de 2013

A Patativa Nininha

                     A Patativa Nininha

                                          (Crônica de Cyro de Mattos)


Nininha era a patativa de nossa rua. Faladeira que só ela quando não estava cantando. Pequenina, pele cor de cobre, seus cabelos soltos iam até a metade das costas. Andava ligeira nos passos miúdos. Tinha cinco irmãos. Com o falecimento da mãe ficou incumbida de conduzir as tarefas de casa. Mal o sol despontava, eu ficava ouvindo do meu quarto  a vizinha desfiar na sua voz cantadora as canções mais românticas do nosso cancioneiro popular.
 
De manhã cedo, custava a sair da cama só para ficar ouvindo a vizinha interpretando alguma canção que seus cantores prediletos costumavam cantar.  Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Emilinha Borba, Alaíde Costa, Caubi Peixoto, Francisco Alves, Luís Gonzaga, Nelson Gonçalves, Moreira da Silva, Agnaldo Rayol e Orlando Silva. Nessa hora parecia que os passarinhos no pé de carambola gostavam também de ouvir a vizinha cantar na manhã cheia de luz. Eles ficavam assanhados,  não paravam de cantar e pular nos galhos do pé de carambola. Com cantos e pios faziam o fundo musical para que a voz maviosa de Nininha se propagasse na manhã festiva.
 
Nininha da Mata Virgem. Certa vez perguntei ao amigo Codinho, irmão de Nininha,  porque ele e as irmãs tinham aquele sobrenome Mata Virgem. Ele me disse que o pai andou muito pela mata virgem, cheia de cobras e bichos perigosos, para não se falar dos índios,  no tempo em que a lavoura cacaueira estava no início. Existiam poucas roças de cacau na região. As árvores nativas cobriam léguas de terra fértil. O pai de Codinho conseguiu derrubar um estirão de mata virgem na zona de Ferradas e plantar na clareira uma pequena roça de cereal e  cacau. Ficou assim conhecido como o homem da mata virgem. O chamamento, como se fosse o sobrenome,  pegou feito visgo no pai e  filhos.
 
Os meninos de meu tempo começavam a se interessar  em aprender a cantar os sambas e as marchinhas quando se aproximava o Carnaval. Quem soubesse cantar os sambas e as marchinhas carnavalescas tinha um trunfo para atrair e namorar as meninas bonitas, fantasiadas durante o baile na matinê do Itabuna Social Clube. Sempre contei com a ajuda de Nininha para aprender a letra e como cantar com fervor o samba e a marchinha. Ela tinha vários cadernos anotados com a letra da música carnavalesca. Ficava horas ao pé do rádio ouvindo o programa de carnaval nas emissoras da  Nacional, Tupi, Continental e Tamoio. Ouvia Jorge Veiga, Jorge Goulart, Marlene, Emilinha Borba, Francisco Carlos, Elza Soares, Carmélia Alves, as irmãs Linda e Dircinha Batista.  Ouvia bem atenta e ia passando para o caderno  a letra da marcha ou samba que aquelas  vozes animadas  cantavam no programa.
 
O cunhado de Nininha era o locutor do Serviço Regional de Propaganda Regional. Timóteo tinha uma voz metálica, que saía vagarosa pelo alto-falante no poste quando estava anunciando os produtos à venda com preço barato pelas casas comerciais. Ele costumava colocar o canto triste da ave-maria pelo alto-falante, em cada entardecer, para que tocasse no fundo da alma dos seus ouvintes e fãs, que trabalhavam  nas lojas do comércio, moravam nas casas perto do centro ou dos bairros da cidade.
 
Daquela vez houve um contratempo com o disco que costumava tocar a ave-maria. Amanheceu com defeito na gravação. Quando tocava a música, esta  ficava interrompida em várias passagens. Nininha foi chamada às pressas por Timóteo para cantar daquela vez a ave-maria. A interpretação de Nininha emocionou as pessoas, que ficaram comentando na semana o surpreendente desempenho de minha vizinha.  Nunca se tinha ouvido uma ave-maria ser cantada por voz tão piedosa e triste. Nininha recebeu muitas congratulações por sua cantata da ave-maria.  Timóteo foi uma das pessoas que muito se emocionou  com a voz dela  quando cantou a ave-maria.
 
Uma vez eu vi um homem conversando alegre com Nininha na sala da frente de sua casa. Soube depois que era o seu namorado. Daquele dia em diante ela  passou a cantar com mais intensidade as canções românticas na manhã ensolarada, o coração  irradiava felicidade por todos os cantos da casa.  Em pouco tempo ficaram noivos, o  casamento ocorreu daí a um ano,  com uma noiva baixinha, de véu e grinalda,  um noivo engravatado, alto e gordo, embora alguns vizinhos duvidassem que um dia aquele enlace  fosse  acontecer. 
 
Nininha foi cantar agora cantigas bonitas nas manhãs e tardes do novo lar. Sem a sua voz, as manhãs perderam o encanto na casa vizinha onde ela morava. Eu nunca mais fiquei ouvindo a patativa de minha rua cantar bolero, tango, baião, samba, samba-canção, marcha e valsa. Qualquer cantiga suave ou canção de fundo dramático do nosso cancioneiro popular com aquela voz que Deus lhe deu para alegrar a vida.  



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Edição e Reedição de Livros
        
         



Com mais de 74 anos de idade, tento reunir forças para prosseguir em minha jornada literária até quando Deus permitir. Dou de mim o que posso através dos sinais visíveis da escrita  para ser útil ao outro mais o mundo.  Sou apenas um elo na cadeia que nunca irá se partir, na qual se inserem  autores magistrais.  Gosto muito de escrever, bem ou mal. Amo a literatura, ela tem mostrado que gosta de mim. São quase cinqüenta anos nessa estrada de solidão solidária.
Escrevo porque é minha condição nessa guerra sem testemunha, usando a expressão do ficcionista Osman Lins, ao estudar o assunto. É dor, mas dá prazer. Competição acirrada, tantas vezes neurótica, diabólica, Santo Deus.  É maneira de liberar pesares, fantasmas. Gratifica quando meu texto recebe reconhecimento expressivo da crítica, impressão favorável dos leitores, aquilo que como braço ao abraço dá sentido à vida, tornando-a viável,  e que os ressentidos nunca vão perceber.   
A vida é falha, somos finitos, escreve-se também para responder perguntas que não têm  respostas. Meu coração é um rio subterrâneo, de onde vem para onde vai? (Fernando Pessoa). É maneira de conversar com Deus ou tocar na solidão de todos nós, a do nascer, viver e morrer.    
Assim, aos meus poucos leitores adianto que até o final deste mês  de agosto estarei publicando os livros “Onde Estou e Sou”, poesia, português-espanhol, pela Ler Editora, de Brasília, com prólogo e versão  do poeta Alfredo Pérez Alencart, e o infantil “O que eu vi por aí”, pela Editora Biruta, de São Paulo,  com ilustrações de Marta Igneriska. 
Esgotado há mais de trinta e  cinco anos, meu livro   “Os Brabos”, novelas, com prefácio de Gerana Damulakis,  vai ter ainda neste mês de agosto uma segunda edição pela Ler Editora, enquanto “Ecológico”, poesia, será publicado pela Editora da Universidade Estadual da Bahia – EDUNEB, na Coleção Nordestina, com prefácio da ficcionista e Professora Doutora Helena Parente Cunha.  “Ecológico” vai  ser lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, no final do mês. Foi  publicado primeiro em Portugal pela Palimage Editores, de Viseu e Coimbra,  em 2006.   
Para quem não sabe, a  primeira edição de  “Os Brabos” foi da Editora Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, na coleção Vera Cruz, em 1970. Quando inédito, recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Nacional Afonso Arinos, de conto e novela,  por unanimidade. A Comissão Julgadora esteve constituída de José Cândido de Carvalho, Herberto Sales, Bernardo Élis, Adonias Filho, Afonso Arinos e Alceu Amoroso Lima, o relator. “Ladainha nas Pedras”, uma das novelas inclusa em “Os Brabos”, participa, por sua vez,  da antologia “Espelho da América Latina” (Latinamerikas Spejl), da Editora Vindrose, de Copenhague, organizada pelos professores doutores Uffe Harder e Peter Poulsen, em 1982. Nesta antologia  figuram, entre outros, Juan Rulfo, Juan Carlos Oneti, Julio Cortázar, Clarice Lispector, Jorge Luís Borges, Alejo Carpentier e Mario Vargas Llosa.  
Enquanto isso,  o livro de poesia “Onde Estou e Sou” vai ser lançado  no   XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos de Salamanca, Espanha, nos dias  2 e 3 de outubro, com sessão de autógrafos e leitura de poemas por professores e atores locais. Este evento de repercussão  internacional é promovido pela Fundação  Cultural de Salamanca, com apoio da Universidade de Salamanca, Cidade do Saber e Cultura,   e Centro de Estudos Brasileiros.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

                       Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.
                                                                            Consuelo Pondé*

Esses dois intelectuais brasileiros se impuseram à admiração dos patrícios pelas teses inovadoras que defenderam, nos anos 30.   Ambos senhores de uma prosa encantadora, embora regidas  por uma psicologia  social antiquada, despertaram interesse inusitado  ao publicarem seus primeiros ensaios sobre o Brasil. Apesar  das constantes revisões, seus estudos são marcos fundantes na  análise da Cultura Brasileira.
Ambos  eruditos ,  foram , por seu turno, de acordo com suas concepções, ideólogos  da Cultura Brasileira, na tentativa de explicá-la   de acordo com as teses que ambos defendiam e  suas análises pessoais. Recebidos, efusivamente,  pela crítica , nos anos 30 ,  no momento exato  em que se revelaram  foram, no decorrer dos tempos,  sendo reavaliados em suas posições.
Assim, por exemplo,  somente após 1967 a crítica faz um balanço da produção de Gilberto Freyre, cujos 25 anos de lançamento de “Casa Grande e Senzala”  foram celebrados, mas também criticamente discutidos  por reconhecidos estudiosos brasileiros, que nele enxergava uma posição pouco acadêmica, comprometida com o pensamento da igreja no mundo luso-brasileiro. “Casa Grande e Senzala” tem sido acusado de não concluir sobre o assunto, mas interpretá-lo. De outro lado , tem sido destacada a sua posição regional, encobrindo o problema real do Brasil, no que tange às relações de dominação. Tal a beleza de sua obra que chegou a impressionar vivamente um crítico do porte de Fernando Braudel, que o tinha na conta de: “ de todos os ensaístas brasileiros o mais lúcido “.
            Gilberto Freyre, aluno de Franz Boas, nos Estados Unidos  trabalhou  muito  em torno da  “mestiçagem “ no Brasil, enquanto Sérgio Buarque adotou  uma prática modernista em  suas considerações. Ambas as posições revelam, a um só tempo, caráter misto entre o arcaico e o contemporâneo, o que  não impede sejam suas obras, freqüentemente, revisitadas   pelos estudiosos de hoje. Segundo Carlos Guilherme Mota , Freyre é,  por vezes , contraditório , definindo-se como sociólogo e , em outro sentido não . Considera-se liberal , mas critica os liberais , também revolucionário, porém um “revolucionário conservador “. Frequentes vezes  afirma que faz ciência, em outras ocasiões  diz ser um simples escritor, fugindo das linhagens antropológicas. Por outro lado, insinua que o aristocrata é um democrata, contrariando as idéias revolucionárias de Caio Prado Junior, este sim, um pensador descomprometido e progressista.  Ao avaliar “Casa Grande e Senzala”, Antônio Cândido  , situa-a no contexto em que foi produzida e dizendo o que significou para os novos naquele instante, lamentando, todavia, os descaminhos posteriores do mencionado intelectual .
Sérgio Buarque de Holanda também foi um dos mais ativos “explicadores” do Brasil, cuja obra mais conhecida é : “Raízes do Brasil” , ao lado da monumental : “História da Civilização  Brasileira “. “Raízes do Brasil” é um livro de 1936 , que apresenta uma interpretação original de “desmontagem”  da sociedade tradicional  brasileira e da emergência de novas estruturas políticas , criadas após a Revolução de 1930 . De certa forma, uma visão inovadora que introduziu conceitos de “patrimonialismo” e “burocracia” , explicando novos tempos .Descreveu o brasileiro como um “homem cordial “, atribuindo-lhe comportamentos ditados pelo coração e pelo sentimento. Em sua concepção  os brasileiros preferiam as relações pessoais  em lugar do cumprimento das leis objetivas e imparciais.   Percebeu que tudo fora herdado do nosso sistema colonial, porque diminuta era a organização social do país, do que resultava o recurso freqüente à violência  e ao domínio personalista, traços ainda identificáveis  na sociedade nacional.   Atribuía à escravidão  a desvalorização do trabalho e o favorecimento dos aventureiros, que aspiravam a “prosperidade sem custo”, traços observados até no cultivo da terra . Seu livro inovou no que se refere à busca da identidade nacional.
Como professor, Sérgio Buarque sempre teve postura acadêmica, diferenciando-se de Gilberto Freyre, um homem descomprometido em relação à formação da juventude.

*Consuelo Pondé é diretora-presidente do Instituto Geográfco e Histórico da Bahia e Professora Doutora da UFBA. Pertence à Academia de Letras da Bahia.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A Cidade Amada

 
A Cidade Amada
 
Debruço-me na ponte de teus anos,
Alegre  meu cantar de passarinho,
Descubro manhãs de céu azul,
Continentes luminosos de tesouro.

Há rações verdes nas esquinas,
Vermelhos estandartes nessas ruas,
Espocam bombas dos passeios,
Explodem papagaios nos quintais.

Minhas as mãos de cata-vento,
No peito os bichos meus irmãos,
Noites amenas vertem espaçonaves,
Margaridas, boninas, girassóis.

Quem me fez água de chuva
Branca correndo em amado chão,
Perfeito estilingue nas caçadas,
Bola de gude nos buracos ideais?

Passistas as tropas vêm chegando,
Festa suspensa em ruivo poeiral,
De cores carregam-me tão velozes,
Tremula minha cidade de metal.

São meus os frutos cheios de ouro:
Jaca, sapoti, cacau, manga, mamão,
Apinhada de esperança a geografia
Enche capanga de risos naturais.

Na paisagem viva vejo-te  amores,
Quermesse acariciando corações,
Primeira ternura de namorado,
Presépio coroando-me infante rei.

Dentro de mim aboios ressoam
E sustos movendo carrosséis,
Passam neste vale mágicas nuvens,
Cantigas de São João e de Natal.

Que me dizem ventos de agora?
Pedras, cortes, incompreensões,
Íngreme escarpa de ausências
Na pele resvalando o que faz mal.

Lombo levando este boi sábio,
Realejo tocando velha canção,
Cajado do tempo que não cansa,
Espanto no espetáculo o meu rio.
   
 
 
 
 


 
 
 
 

Catedral de São Sebastião

Catedral de São Sebastião
                
Subo os degraus e vejo
da  balaustrada formas
do silêncio suspensas
no espaço recriado
pela razão geometria
da tessitura humana.

Procuro esse milagre
da santa batina doada
sob o peso da abóbada.
Sinto a flor do coração,
outros a ela se juntam.
Dom Eduardo presteza,
Dom Eduardo amor,
Dom Eduardo oferenda.

Vejo assomar na avenida
a  enorme procissão
contrita sob cânticos.
Mãos mestiças em emoção,
este agasalho edificado
a São Sebastião flechado.
Ó comovente provação,
sinos anunciando a morte
sublimada na paixão.

Terço escorrendo no peito,
tríptico verso uni-verso,
alentado pão de todos,
oferta dessa praia bendita,
essencial como um todo
pela tábua das marés.
Estes ares em que eu medito,
roxos de penetrante compaixão
feita alma, força e vida.

Ao pé do outeiro ninho
de Deus que desceu do céu,
uma rosa é uma rosa
o que sustenta a base.

sábado, 3 de agosto de 2013

Cyro de Mattos comenta obra de Nadja Alves


"Vejo,  na tela pintada por Nadja Alves,  a vida com a graça, o dengue, o encanto da mulher baiana. Com flores, frutos, cores vivas, sinto o  estar-no-mundo faceiro dessa mulher,  que ali no quadro, como na vida real, seduz no primeiro encontro.

 Ingênua no melhor sentido, a artista mostra com suas figuras femininas que a vida acaricia quando retratada por um  talento raro,  que surge agora com delicadeza criativa nas artes plásticas da Região Cacaueira Baiana."

                                   Cyro de Mattos

 
  
 
 
 

 
 

Triptico Brasileño