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sábado, 4 de outubro de 2014

Helena Parente Cunha: O Escritor
e O Mundo Conturbado de Hoje


                                                    Entrevista de Cyro de Mattos


Helena Parente Cunha nasceu em SALVADOR, Bahia, Brasil.  Depois de lecionar no Curso de Letras, da Universidade Federal da Bahia, transferiu-se para o Rio de Janeiro onde vive há décadas, foi reconhecida como Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro e se tornou docente da Pós-Graduação da Faculdade de Letras. Autora de trinta livros publicados (poesia, conto, romance, ensaio, crítica literária) e quase uma centena de volumes com outros autores, no Brasil e no exterior. Seus livros receberam prêmios em concursos de expressão nacional.  É dessa mulher de caráter afável, erudita, criativa,  que procuramos saber sobre a condição do escritor e os caminhos da literatura  no mundo massificado de hoje, cheio de fortes  agressões e cobranças. 


Cyro de Mattos 1 - Thomas Mann acha que ser escritor é uma maldição, que começa cedo, terrivelmente cedo. Para  você, que caminha nessa estrada feita de solidões e desejos, dores e ternuras, o que é ser escritor? Destino, profissão, missão?
- Como escritora, vejo-me  levada a tentar dizer o que sinto no turbilhão de emoções em que a vida nos coloca. E também tentar dizer o que penso neste mundo de violência e atravessado de contradições e desacertos. Como a realidade é sempre mais do que as palavras podem abarcar, muitas vezes, na tentativa de dizer o indizível, é preciso ultrapassar a língua, mesmo desrespeitando a gramática e as normas da correção. Mas não pelo simples gosto da transgressão e sim pela urgência do dizer.
Não acho que ser escritor seja maldição. Escrever é muitas vezes doloroso na busca da palavra que se recusa a vir à tona.  Mas é sempre altamente gratificante e prazeroso.


2- Hoje vivemos em uma sociedade que prioriza o estômago, o corpo e o poder. Que função tem a literatura  em um mundo que cada vez mais concebe os valores éticos e espirituais como expressão de nadas?
- Acredito que a literatura não tenha obrigações salvacionistas, mas tem um compromisso com seu tempo, expressa as tendências da sua época, misérias ou grandezas, frustrações ou vitórias, vícios, esperanças.
Atualmente, em várias cidades brasileiras, sei da existência de inúmeros grupos de poetas e poetisas que se reúnem periodicamente, uma vez por semana ou por quinzena, por exemplo, para dizer poemas da própria autoria, sentindo-se estimulados para escrever sobre temas variados que podem transformar-se em livros individuais ou coletivos. Pelo que entendi, produzem por indiscutível prazer em criar e divulgar sua produção no próprio grupo ou na internet ou em performances em várias cidades e até estados. Por não haver sido ainda legitimada pelos críticos ou pelos cursos de Letras, essa produção fica um tanto à margem da chamada literatura oficial. De uma forma ou de outra, constitui uma das belas características de nossa pós-modernidade multifacetada, onde convivem os extremos positivos e negativos.

3 – A sociedade contemporânea cultiva, em grande escala,  a imagem e o som como linguagens para dizer a vida. O suporte do livro tradicional mudou com a chegada dos meios eletrônicos.  O livro impresso está na fase terminal?
Não acredito nesta visão um tanto apocalíptica. Da mesma forma que a fotografia não acabou com a pintura nem o cinema desbancou o teatro, acho que a riqueza do real exige novas linguagens para ser expressa, sem que uma necessariamente derrube a outra.

4 – Não se pode deixar de considerar que o texto literário abraçou  um novo espaço democrático graças à internet, através do exercício usual de blogs, jornais e revistas eletrônicas.   Isso  faz bem ou mal à literatura?
- Cada época tem seu modo específico de considerar o texto literário. Nossa época se caracteriza por mudanças radicais ocorridas em tempo recorde, o que resulta na coexistência de vários aspectos díspares e contraditórios que disputam espaço na página ou na tela. A especificidade do ser literário também se altera ao sabor das características temporais. No novo espaço democrático oferecido pelos meios eletrônicos, sinto que há mais flexibilidade para o gosto não só das elites acadêmicas, mas também para um espaço democrático.

5 – Com a presença forte da televisão e dos meios eletrônicos, a literatura passou a ter grandes  concorrentes como instrumentos de lazer e forma de conhecimento. De que maneira isso afeta o autor, que já foi muito prestigiado em outros tempos?
- Houve tempos em que o poeta era cultuado como um profeta ou enviado dos deuses. Em outros tempos se destacava como porta-voz da ideologia vigente.
E hoje, onde a tendência se volta para a multiplicidade de expressão, muitas vezes o autor ou a autora se vê pressionado pela originalidade do texto e pela urgência em inovar, o que pode redundar em extravagâncias e obsessão pelo ineditismo. O prestígio vivido pelo escritor no passado me parece obscurecido pela excessiva valorização do poder econômico e seu afã de abranger e deformar valores e princípios.

6 - Uma enxurrada de autores continua a passar  por debaixo da ponte. Hoje se escreve mais para menos leitores?
- Não sei se hoje se escreve mais para menos leitores, entretanto, talvez por conta da democratização trazida pelos meios eletrônicos, um número maior de autores encontrou mais possibilidades para suas publicações, considerando-se ainda as atuais tendências para abolir hierarquias e hierarquizações, rejeitar regras e formulações que em outros tempos se impunham para a criação literária.

7 – Seu romance, Mulher no Espelho, Prêmio Nacional Cruz e Sousa, da Fundação Cultural de Santa Catarina, já em décima edição, é um marco na moderna ficção feminina, a partir da década 70. Fale um pouco desse romance maior em nossas letras.
-  Como disse,  escrevo para dizer o que sinto e também o que penso e muito do que imagino. E para apontar abusos, injustiças, violência da sociedade patriarcal, desesperos do sentimento de culpa, hipocrisias das fórmulas vazias da falsa convivência de uma sociedade refém das aparências, as certezas de verdades mentirosas, os preconceitos contra os excluídos, o desejo, o corpo, mulheres anuladas ante o todo-poderoso pai ou marido, distorções da cultura machista, dilaceramento entre dúvidas e milenares perguntas sem respostas. Entre momentos líricos, irônicos, satíricos, dramáticos, trágicos, se sucedem monólogos, reflexões e angústias.
Escrever este livro foi aprendizado cruel que me levou a mais de um ano de depressão. Mas o prazer dessa escrita me trouxe a recompensa de sentir que vale a pena ser escritora.

   8  – Fale também sobre  Impregnações na Floresta, seu último livro de poesia,  motivado por uma viagem feita à Amazônia. Um belo livro  revestido  das percepções  íntimas, interiorizado por seu sentimento  e sensibilidade decorrente do seu estar no mundo. Como a crítica e seus leitores receberam o livro?   
- Foi um livro que procurou reviver momentos de silêncio e contemplação no encantamento indizível da floresta. Acho que, por este motivo, as pessoas que se comunicaram comigo me pareceram, de certo modo, integradas naquela magia.

8 –.  Embora sua obra seja de alto nível, elaborada em várias frentes,   estudada em universidades, não desfruta da mídia que privilegia um pequeno grupo.  Como você encara esse tempo que divulga inverdades e valores duvidosos?
- Para lhe dar uma resposta justa, teria que ler mais sobre o que a mídia  publica e mais dos livros com que a mídia se ocupa.

10 – Entre suas atividades literárias, qual a que mais lhe completa, a de ficcionista, poeta, ensaísta, crítica  ou professora universitária?

-  A depender do meu estado de espírito, eu percebo o gênero que mais me convém naquele momento. Quando me deixo levar pela emoção, pela fantasia, escolho o lírico, porquanto me parece que o poema curto concentra melhor o transbordar do sentimento.  Diante de realidades concretas que me chamam a atenção pelo abuso do poder, intolerância, discriminação, prepotência, etc, prefiro narrar e assinalar minha revolta ante os absurdos de muitos dos relacionamentos humanos. Nessas circunstâncias, é preferível o conto ou o romance. No ensaio proponho um estudo sobre questões de ordem cultural, social, psicológica e que em geral tem a ver com minhas pesquisas ou temas de minhas aulas. Quando escrevo sobre escritores, jamais critico, mas se o texto não me agrada, prefiro me calar.

11 - Você foi convidada para participar do XVII Encontro de Poetas Iberoamericanos em Salamanca, em outubro deste ano.  Trata-se de evento com repercussão internacional, promovido pela Fundação de  Salamanca, Cidade de Cultura e Saber, na Espanha. Qual a sua expectativa em integrar um conjunto de importantes poetas iberoamericanos  e, assim,  participar de evento que dignifica a poesia sob vários aspectos?  

- É uma alegria, uma honra, uma responsabilidade. Responsabilidade, porque sei da importância desse Encontro de Poetas iberoamericanos de repercussão internacional. Sei também do renome do poeta Alfredo Pérez Alencar que coordena esse Encontro. Todos sabem do valor histórico e cultural de Salamanca, no cenário mundial e da sua famosíssima Universidade. Portanto,  sinto-me honrada por fazer parte de um evento dessa dimensão. Apesar do peso da responsabilidade, alegro-me e agradeço pelo ensejo de viver tão rica experiência.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Poeta de Verdade
                                                                 
                Ao  fazer  o mapeamento da poesia brasileira no século XX, o crítico e romancista Assis Brasil solicitou-me nomes da região cacaueira  para figurar na antologia que estava organizando dedicada à Bahia. Indiquei Valdelice Soares Pinheiro, Walker Luna, Carlos Roberto Santos Araújo e Firmino Rocha. Na antologia  A Poesia Baiana no Século XX (1999),  Assis Brasil transcreveu trecho do comentário que lhe enviei sobre a poesia de Valdelice Soares Pinheiro. “Trata-se de um poeta que elabora sua poesia com uma linguagem  despojada”, eu disse, “projetando no texto contido uma visão de mundo preocupada com a condição humana. Poesia que só um poeta questionador, dotado de instrumental filosófico plasmado numa alma sensível, poderia compor”. 
Em Itabuna, chão de minhas raízes (1996), antologia por mim organizada, reuni  poetas e prosadores itabunenses e, na breve nota biobibliográfica de Valdelice Soares Pinheiro, chamei a atenção para esse poeta. Anos depois a poeta de Itabuna seria inserida como verbete no monumental Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (Editora Escrituras, São Paulo, 2001), de Nelly Novaes Coelho, por recomendação nossa.
A poesia de Valdelice Soares Pinheiro não precisa de abonos para ser reconhecida, tem em si mesma seu valor, no qual ela se mostra com equilíbrio e expressividade. O motivo que me levou a aboná-la nas situações mencionadas é porque tive a oportunidade de fazê-lo, levando-se principalmente em conta o fato  de que a poeta publicou em vida apenas dois pequenos livros, em edição particular e limitada, e por isso  estava fadada a ser  mais um dos inúmeros poetas da província cuja tendência  poderia ser a de continuar no anonimato.
No começo da década de 1990,  em texto divulgado no jornal A Tarde, lembrei-me de reverenciar a memória de Valdelice Soares Pinheiro e de outros poetas nascidos na região cacaueira baiana, como Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos e Firmino Rocha, apresentando-os naquela antologia de Itabuna, editada em 1996.
Filha de Vital Alves Pinheiro e Mariana Soares Pinheiro, desbravadores da região cacaueira baiana, Valdelice Soares Pinheiro nasceu em Itabuna, Bahia, no dia 24 de janeiro de 1929, e desde pequena teve educação esmerada. O curso primário  fez nos colégios  Ateneu e Saraiva, em Itabuna. Mudando-se para Ilhéus, vai cursar o ginasial e o magistério no Colégio Nossa Senhora da Piedade e Colégio Municipal, respectivamente. O licenciamento em Filosofia obtém na Universidade Católica do Rio Grande do Sul. De volta à Bahia,  começa a lecionar Estética e Ontologia na Universidade  de Santa Cruz, no sul do Estado.
Deixou um rico legado poético, e uma parte dele, constituída de  anotações e sessenta e três poemas,  teve publicação crítica pela Universidade Estadual de Santa Cruz, no livro A expressão poética de Valdelice Soares Pinheiro, em 2002, reunindo  estudos de alunos, sob a  coordenação da Professora Doutora Maria de Lourdes Netto Simões.  
         Este livro motivou  o artigo  A Expressão Poética de Valdelice Pinheiro em Resgate - Simplicidade: Liberdade de Ser, da professora universitária  Mari Guimarães Sousa, apresentado no VIII Seminário Nacional: Mulher e Literatura, Anais, Instituto de Letras e Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre a Mulher, na Universidade Federal da Bahia - Salvador, BA, 2000, e a dissertação de mestrado O  Canto da Cigarra: A Poesia Cósmica e Existencialista de Valdelice Pinheiro, de Nayanara Tavares Moreira, apresentada na Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, em 2007.
Com O Canto Contido, volume sob minha coordenação,  que reúne os dois livros De dentro de mim e Pacto, e poemas esparsos inseridos em antologias, de Valdelice Soares Pinheiro,  procuro contribuir  para a  circulação da  poesia publicada em vida por um dos poetas expressivos da Bahia. E, assim, fazer com que seja mais estudado e conhecido por um número maior de leitores, pois se trata de um  poeta de verdade. 
 Vadelice Soares Pinheiro  faleceu em Itabuna, no dia  29 de agosto de 1993.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Escritor Cyro de Mattos Lançou Seu Romance Os Ventos Gemedores na Academia de Letras da Bahia

Escritor Cyro de Mattos Lançou
Seu Romance Os Ventos Gemedores
na Academia de Letras da Bahia


O escritor  baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos lançou na Academia de Letras da Bahia, em Salvador, no dia 2 deste, sua nova obra, o romance Os Ventos Gemedores. Compareceu ao evento o presidente de Academia de Letras da Bahia, escritor Aramis Ribeiro Costa, os acadêmicos Fernando Rocha Perez, Urânia Azevedo, Myriam Fraga, João Eurico Mata, ensaísta Gerana Damulakis, cineasta Cícero Bathomarco, desenhista Ângelo Roberto,  professoras Margarida Fahel, Silmara Oliveira, doutor Antonio Luiz Calmon Teixeira, presidente do Instituto de Advogados da Bahia, desembargadora Lucy Lopes Moreira, amigos e leitores do autor.

O evento teve a cobertura da TV  Bahia, filiada da TV Globo, TV Educativa, Rádio CBN e jornal “A Tarde”. O presidente da Academia Aramis R. Costa fez a apresentação do autor, enquanto o acadêmico João Eurico Mata destacou a importância da obra de Cyro de Mattos, escritor versátil e de expressão moderna,  como contista, novelista, cronista, poeta, autor de livros para crianças e agora romancista com este Os Ventos Gemedores, que, no condado de Japará, imaginado pelo romancista,  aborda as misérias e conflitos  da terra, representados pela ambição desmedida de Vulcano Brás e pela  busca da liberdade do  vaqueiro Genaro.

 O editor Nicodemos Sena,  em seu discurso,  salientou que a editora Letra Selvagem, tem como objetivo publicar autores expressivos, dotados de humanismo e brasilidade, compromissados com a nossa realidade, como Olga Savary, Hernani Donato, Caio Porfírio Carneiro  e José Guilherme Dick, entre outros. Destacou que  Cyro de Mattos com sua humanidade,  narrativa labiríntica e linguagem de ritmo ágil  é o mais legítimo substituto  de João Ubaldo Ribeiro nas letras da Bahia..  

             Cyro de Mattos é jornalista e advogado aposentado. Seus contos e poemas figuram em mais de 50 antologias, no Brasil e exterior. Conquistou mais de 40  prêmios  literários expressivos e, entre eles, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, o da Associação Paulista de Críticos de Artes e o Internacional de Literatura Maestrale Marengo d`Oro, em Gênova, Itália,  segundo lugar, duas vezes. Obteve dez primeiros lugares nos prêmios concedidos anualmente pela União Brasileira de Escritores (Rio). Finalista do Jabuti três vezes. Participou como convidado do Terceiro Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra, em 1998, Feira do Livro de Frankfurt em 2009 e XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Cultural de Salamanca, Espanha, em 2013.  É membro efetivo do Pen Clube do Brasil e Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Instituto Histórico e Geográfico da Bahia,  Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna  (ALITA).  






sábado, 30 de agosto de 2014

O Fantástico Julio Cortázar

  Filho de argentinos, Julio Cortázar nasceu  na Embaixada da Argentina, em Ixelles, distrito de Bruxelas, na Bélgica, em 26 de agosto de 1914.  Com quatros anos de idade voltou à terra natal, passando maior parte de sua infância em Banfield. Não foi uma criança feliz. Vivia com freqüência na cama, lendo livros que o faziam mergulhar nas zonas de duendes, de elfos, dando-lhe um sentido de tempo e espaço diferente da realidade em que nós vivemos.  E isso iria influenciar sua obra de contista e romancista.
Em 1935, formou-se Professor em Letras e nessa época costumava frequentar lutas de boxe.   Em 1938, numa edição de 250 exemplares, publicou  Presencia, livro de poemas, sob o pseudônimo Julio Denis. Lecionou em algumas cidades do interior do país, foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia  e Letras da Universidade Nacional de Cuyo. Aos 37 anos, Cortázar, por não concordar com a ditadura na  Argentina, partiu para Paris onde se casou com Aurora Bernárdez,  uma tradutora argentina, em 1953.  Viveram em París sob condições econômicas difíceis.
Em 1959 saiu o volume Final de Jogo,contos. Publicou Histórias de Cronópios e Famas em 1962.  O  ano seguinte  marcou o lançamento de O Jogo da Amarelinha,  seu grande sucesso, que  teve cinco mil exemplares vendidos no mesmo ano
Autor de uma escrita ampla e notável, Julio Cortázar é o escritor mais importante da literatura hispanoamericana, o de maior projeção internacional, ao lado de Jorge Luís Borges. Dono de um texto inovador, inventivo na forma, revolucionário  na estrutura,  que exige um leitor íntimo das questões estéticas ligadas à vanguarda,  sem pressa, oferece em seus livros de contos e romances múltiplas possibilidades de leitura.  O Jogo da Amarelinha  representa para a literatura hispanoamericana o que  Ulisses, de Joyce, significa para a britânica e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, para a brasileira. Com Morelli, personagem desse  romance  articulado com várias linguagens, pode-se deduzir  uma teoria romanesca do romance moderno, na qual o escritor argentino não está interessado na narrativa que vai colocando os personagens na situação desenvolvida  linearmente em torno do enredo, mas na que propõe o inverso, instala a situação nos personagens. Com o que estes deixam de serem  personagens para se tornarem pessoas.( p. 438)
 O jogo da Amarelinha apresenta-se com uma divisão tripartida. Na primeira parte vemos o argentino Oliveira em Paris, à procura de Maga, a mulher amada e desaparecida; a segunda tem como espaço  Buenos Aires e o reencontro com Talita. A terceira parte é formada por capítulos sobressalentes, citações e recortes. A leitura pode ser feita sem essas citações, segundo o autor.  O caráter autobiográfico do livro é identificável  com o personagem Oliveira,  um escritor argentino;  através dele o autor empreende a peregrinação interior, na obsessão de questionar  a vida e persegui-la nos seus desvãos  como uma substituição constante de comportamentos.
Cortázar não é apenas um romancista ensaísta, alimentado por ideias, concepções filosóficas e literárias em sua visão da existência e contemplação do homem diante do real cotidiano.  Não é só o escritor ambíguo que constantemente recorre ao informe,  à desordem, ao acaso para extrapolar conteúdos dialéticos, recortes do homem indefinido ante o absoluto.  É também um narrador que comove quando toca nas emoções do amor e deixa escapar sentimentos, que são de todos  nós ante situações adversas, feitas de dor e lágrima.  Isso é visto no trecho da carta do pai ao filho, Bebé Rocamadour,  e em outras passagens de  O Jogo da Amarelinha.
       O realismo de Cortázar por ser mágico desconhece a realidade factual. Seu discurso  está embebido numa atmosfera alucinante,  que se move em vários planos:  consciente, poético, fantástico, inconsciente e humorístico. Embora permaneça  com os elementos que são inerentes ao homem na realidade cotidiana, o mundo projetado de Cortázar decorre  da eterna contradição  entre a razão e a crise, a lógica e o absurdo, o real e o imaginário.
       Diferente do que ocorreu com o romance regionalista latinoamericano, no qual se objetiva com veemência  a humanização  de grandes presenças  telúricas, a selva, o lhano, a zona andina e, no Brasil, as terras nordestinas da cana do açúcar, das secas no agreste, da civilização do cacau no sul da Bahia, o romance contemporâneo  tenta suplantar a visão esquemática do naturalismo. E Cortázar, como em Joyce e Faulkner,  procura mergulhar-nos no mundo em processo, em que a imagem do homem substitui a geografia, o protesto contra as dominações e situações locais  adversas.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              
      Carol Dunlop, sua última esposa, faleceu em 2 de novembro de 1982, o que causou a  Cortázar  uma profunda depressão.  Ele faleceu em 12 de fevereiro de 1984, em Paris, vítima de leucemia.  Em sua tumba se ergue a imagem de um cronópio, personagem criado pelo escritor.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Admirável Ângelo Roberto

                                 Cyro de Mattos

Diante dos desenhos de Ângelo Roberto, baiano de Ibicaraí, radicado em Salvador desde 1948, a primeira impressão que se tem  é de que a vida é ato de amor. Figuradas no real, criaturas simples sugerem o visual cativante através  de uma poetização imaginativa. Mãos e pés enormes não representam detalhes encaixados de maneira inteligente no humano que se pretende figurar. É mesmo o jeito próprio de imaginar o humano em seu excesso de pobreza, a nos atingir com amor em sua simplicidade. Podemos  perceber  isso  na imagem do menino, abraçando o cavalo amigo com todo o calor do coração. Em são Francisco de Assis e seus pássaros que acendem o dia, levando fraternidade pelos quatro cantos cardeais. Ainda na lágrima    da criança triste, riscada no instante do trauma causado  pelo passarinho morto na gaiola.
Ângelo Roberto, como se vê, é um poeta do traço expressivo. A  imaginação rica que possui lateja no drama  como um feixe de nervos numa só ritmação. Sensorial, intensa, sutil nos pontos que o artista sabe imprimir com mestria nas linhas. Nos poros abertos de sua verdade sentida pela vida. Linha, ponto e movimento pulsam com amor ao mesmo tempo, numa só projeção do drama. Flagrado no episódio tendo às vezes a configuração no mais exterior uma significação interna, de dor e cisão súbita feita na existência rústica. Acontece assim a concentração de forças que vibram na expressão oculta do vaqueiro baleado.
Já se disse que poesia é concentração, iluminação do ser e verdade no seio da linguagem plasmada. Então percebemos assim que Ângelo Roberto oferece com freqüência ao desenho momentos de poesia significativa. O gesto simples do artesão por suas criaturas, fraterno e doce tantas vezes nas emoções captadas configura na superfície branca o espírito pontilhado e delineado com o traço leve quando corporifica a matéria. Diríamos que a vida nesse instante flutua ou se flagra naquela zona suspensa do azul, que há muito tempo coabita dentro de nós, naquela aderência mansa de certo clima poético em nossa paisagem íntima.
Vagares de ternura, revelação solidária da tristeza, instante cálido da mulher com  flor no seio. Tudo idealizado por meio de pontos e linhas que determinam  um ritmo suave. Configuram na expressão segura o tema real do imaginário com objetivo de transmitir valores emotivos. Representam com habilidade a arte de riscar uma geometria que se projeta no tempo do viver, do sentir e do amar, para ocupar determinado estado onírico.
Posso dizer que os trabalhos desse artista humaníssimo que é Ângelo Roberto, de rica vocação para o traço poético, mostram outra vez que a Arte é necessidade fundamental da vida como forma de conhecê-la. Concordância de verdade e beleza, vínculo de gravidade e jogo, pode até não ser substitutivo da vida, não tendo mais importância do que comumente lhe é dada. Porém, útil compartilha a solidão, cativante aproxima as criaturas, dá prazer e faz meditar dentro daquele entendimento  tácito, que a vida no ritmo feroz de conflitos e abismos das civilizações atuais é destituída de sentido efetivamente.
Feita com amor e talento, de maneira humaníssima, reveladora do ser na existência, pode não salvar o indivíduo no conturbado lado de animal social, mas é ato que torna a vida suportável, sensível e essencial.
E viver sem ela seria mesmo impossível.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Livro Infantil de Cyro de Mattos  
na Bienal do Livro de São Paulo   




           A Bienal do Livro acontecerá neste ano em São Paulo,  no período de 22 a 31 de agosto, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, e terá  mais uma vez a participação da Editora Biruta, que ocupará o Estande G700 no qual apresentará o livro O que eu vi por aí, de Cyro de Mattos, entre os grandes lançamentos do ano.  O livro traz ilustrações vivas e coloridas da polonesa  Marta Ignerska.   
           
        O que eu vi por aí é  a história de uma criança sonhadora passeando pelo mundo. Aquilo que seus olhos enxergam pode se transformar em um cenário  magnífico, onde as ondas do mar são leões com jubas brancas e os raios de sol são as pernas finas e compridas de uma aranha dourada. Indicado para crianças a partir de 8 anos, o autor Cyro de Mattos aproxima os pequenos (e grandes) leitores de um universo mágico e divertido.

       Outros grandes lançamentos do ano da Biruta que estarão na Bienal são O dia em que b apareceu, de Milu Leite, O gigante Maracanã, de Cesar Cardoso, Primavera, de Oskar Lits, Piscina, Já!, de Luiz Antonio Aguiar, Quissamo – o império dos capoeiras, de Maicon Tefen, Como encontrar uma linda princesa, de Ricardo Viveiros, e Poemas para os meus netos, de Vitor Hugo, tradução de Laurent Cardoso.
         

      Considerada a editora dos livros infantojuvenis brasileiros, por oferecer o melhor texto, ilustrações criativas e projetos instigantes, a Editora Biruta promete chamar bastante a atenção das  crianças  na Bienal,  pois criará um ambiente descontraído no seu estande, cheio de figuras coloridas e interativas, levando um pouco dos personagens birutas para mais perto do público. Além disso, promoverá o Concurso  Cultural “Um Mundo sem Livros”, em que a pessoa enviará uma carta para a editora  mostrando  por que não se pode viver sem livro. Cada carta será fixada  em um expositor para no final ser sorteada uma delas, cujo autor receberá como brinde  o livro 2083 da Biruta. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Romance de Cyro de Mattos Será Lançado na Academia de letras da Bahia




O escritor Cyro de Mattos (baiano de Itabuna) estará lançando o seu primeiro romance, Os ventos gemedores, na Academia de Letras da  Bahia, em Salvador,  no dia 2 de setembro, às 18 horas. O livro é uma publicação da Editora LetrasSelvagem (SP) e traz  posfácio assinado pela  ensaísta Nelly Novaes Coelho, doutora em Letras e professora emérita da USP.

Em Os ventos gemedores, Cyro de Mattos penetra vulcânicos labirintos no coração da terra e  transmuda  o território do sul da Bahia no condado imaginário  do Japará.  Desenvolve nesse território bárbaro  o conflito movido por dramas, ambições, opressões e misérias da terra, vividos pelos por  Vulcano Brás e Edivirgem,  vaqueiro Genaro e    Almirinha,  os irmãos Olindo e Olívio, entre outros personagens marcantes  cujas ações conferem permanência ao romance,  terminada a sua leitura.  

Autor de ampla escrita, entre volumes de contos, novelas, poemas, crônicas e livros infantojuvenis, Cyro de Mattos é publicado em Portugal, Itália, Alemanha e França. Sua obra vem sendo aclamada por escritores e críticos, além de  ter o reconhecimento através dos vários prêmios conquistados pelo autor, no Brasil e no exterior.

        Como prosador e ficcionista publicou para o leitor adulto: Os brabos, contos, Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras; Duas narrativas rústicas, contendo “Inocentes e Selvagens”, Prêmio Internacional Miguel de Cervantes, da Casa dos Quixotes, Rio de Janeiro, e “Coronel, Cacaueiro e Travessia”, Menção Especial no Concurso Internacional de Literatura da Revista Plural, México; Os recuados, contos, Prêmio Leda Carvalho da Academia Pernambucana de Letras, Prêmio Jorge Amado do Centenário de Ilhéus, Menção Honrosa no Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro; Berro de fogo e outras histórias, Prêmio Nacional de Ficção da Academia Pernambucana de Letras, O mar na Rua Chile, crônicas, Finalista do Prêmio Jabuti;  Alma mais que tudo, crônicas,  O Velho Campo da Desportiva, memórias e crônicas; Um grapiúna em Frankfurt, crônicas, e Natal das crianças negras, narrativa, em cinco idiomas. 

 

domingo, 10 de agosto de 2014

POEMETO DO PAI de Cyro de Mattos


                                         
                                                          Amar/desamar
 absolver/acusar


      Doce-amarga boca,
         humanamente lá e cá.


                                                         Ido rei, ido réu
          noutro verso do vento.


       De repente os gomos
     da vida absorvemos.


                                                        O sal lambemos,
    disso tudo sorrimos.

sábado, 9 de agosto de 2014

JOÃO UBALDO VIVO por Aramis Ribeiro Costa


A avaliação intelectual de João Ubaldo Ribeiro vem sendo feita de forma bastante expressiva desde seu primeiro êxito literário, a novela Sargento Getúlio, ampliando-se grandemente com o monumental  romance Viva o Povo Brasileiro, livro que o consagrou, colocando-o definitivamente no panteão da literatura brasileira, e alargando-se a cada obra lançada no mercado.
Isso deve continuar. A obra completa do autor d’O Albatroz Azul, seu último romance, uma obra-prima cheia de sutilezas e sugestões, integrará para sempre o catálogo daquelas permanentemente visitadas pelos ensaístas, críticos e professores de literatura.
O momento, porém, aqui na Bahia, pelo menos, não é de analisar ou estudar a sua obra, mas de juntar depoimentos de todos aqueles que o conheceram em vida, e que possam trazer aspectos novos, curiosos, mas principalmente esclarecedores dessa personalidade marcante e altamente querida das nossas letras. Em outras palavras: de reconstruir e preservar João Ubaldo, o homem, vivo.
Há muito que dizer e escrever a esse respeito. A prova disso foi a sessão que realizamos na Academia de Letras da Bahia no dia 24 de julho, a primeira sessão ordinária após sua morte, na qual acadêmicos falaram informalmente sobre ele, em depoimentos que deveriam ser escritos, tal a riqueza de informações.
Ouvimos Cyro de Mattos, João Eurico Matta, Ruy Espinheira Filho, Myriam Fraga, Florisvaldo Mattos, Carlos Ribeiro, Evelina Hoisel, Luís Antonio Cajazeira Ramos e Joaci Góes, numa sessão que foi iniciada  às 17 horas e estendeu-se por duas horas e meia porque de fato  precisávamos terminá-la, já que, pela necessidade de depor e pela emoção dos depoentes, continuaríamos ali, noite adentro, falando dele.
De minha parte, quero testemunhar a alegria e a emoção de João Ubaldo ao ser eleito para a cadeira número nove da Academia de Letras da Bahia. Seu discurso de posse não obedeceu ao protocolo habitual da Academia, que determina a homenagem a todos  os antecessores. Limitou-se a citá-los, detendo-se um pouco em Cláudio Veiga, seu antecessor imediato, que ele conheceu pessoalmente e admirava.
Entretanto, foi uma bela página de declaração de amor à Bahia, e confesso que a considero um dos mais belos discursos de posse que ouvi na ALB com afirmações que me tocaram profundamente, e não apenas a mim, mas a todos que ali estavam naquela noite histórica, e o ouviram dizer, com sua voz grave e cheia, os olhos iluminados pela emoção;
“Não somos brancos, negros ou índios; somos baianos. Não pertencemos, no maior rigor da palavra, a nenhuma religião, nem mesmo somos ateus; somos baianos. Não pretendemos ser melhores que ninguém. Mas somos baianos.”
Uma lição de baianidade, sem dúvida. Mas, sobretudo, uma página de larga compreensão da civilização brasileira, e particularmente do universo misterioso, encantador e singular do povo da Bahia, que escritores como Jorge Amado, Vasconcelos Maia e ele próprio recriam com talento nas suas obras imortais.


*Aramis Ribeiro Costa é ficcionista e poeta. Presidente da Academia de Letras da Bahia. Nessa condição deu posse ao Dr. Marcos Bandeira como presidente da Academia de Letras de Itabuna (ALITA) na sessão solene de instalação, em  5 de novembro de 2011. O discurso que pronunciou, na oportunidade, é histórico. É também membro correspondente da ALITA.   

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão dedicou Sua Vida na Pesquisa dos Mistérios do Universo


Ronaldo Rogério de Freitas Mourão nasceu a 25 de maio de 1935, no Rio de Janeiro. Publicou seus primeiros artigos de divulgação científica na revista Ciência Popular (1952). Entrou em 1956 para a Universidade do Estado da Guanabara (atual UERJ), onde obteve, em 1960, os títulos de Bacharel e Licenciado em Física pela Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras. Astrônomo, escritor, membro titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), da Academia Carioca de Letras, da Academia Luso-Brasileira de Letras. Fundador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins. Escreveu cerca de l00 livros, entre os quais se destaca: O Livro de Ouro do Universo (Ediouro Publicações SA, 2000). Em janeiro de 1995, foi eleito membro titular do PEN Clube do Brasil pelo conjunto de seus ensaios científicos e literários. Ronaldo Mou-rão faleceu em 25 de julho no Hospital Quinta D'Or, no Rio de Janeiro.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Cyro de Mattos no que houve

Cyro de Mattos no que houve
                Henrique Fendrich*

cyrodemattos

É preciso ter vivido muitos anos para saber que a recordação de certos fatos e coisas nada mais é do que saudade da vida que passa com os dias, semanas e meses. As pessoas, bichos, casas e ruas fogem como nuvens, ninguém pode retê-los. Infelizmente. Nesse tempo de mim procuro juntar fragmentos para me suavizar um pouco com essa saudade permeada de fatos, seres e coisas. De longe retorno agora no que houve para latejar sentimentos para mais eu em mim. (Cyro de Mattos)

A introdução da crônica “Esse tempo de mim” bem pode servir como argumento para as outras que compõem “Um Grapiúna em Frankfurt” (Dobra Literatura, 2013), coletânea de Cyro de Mattos, também cronista da RUBEM. Suas crônicas são, justamente, fragmentos em que o escritor, impossibilitado de reter o tempo, suaviza-se através das recordações de histórias e pessoas que lhe marcaram a vida.
Assim é que o cronista revive episódios de uma infância no sul da Bahia, onde os desbravadores e, por extensão, os seus descendentes são chamados de grapiúna (o nome, de origem indígena, pode se referir a uma pequena ave preta que vive às margens do rio ou a um riacho preto, encontrado nas fazendas de cacau da região).
Nesta infância, sem jogos eletrônicos e com ruas pouco movimentadas, quando o trem ainda fazia parte da vida da cidade, Cyro de Mattos se lembra de antigos Natais, dos doces de sua avó Ana, do seu encantamento por Monteiro Lobato, de sua prima Gringa, de um singelo episódio de dor de dente. Mais crescido, o escritor se lembra da Boate ID e, através de uma fotografia amarelecida, recorda-se dos colegas da faculdade de Direito.
Estas são memórias mais pessoais, mas o livro também está recheado de pequenas biografias que contam episódios com personagens locais – às vezes célebres, como o amigo Jorge Amado, às vezes tipos locais, como o doido manso de apelido Jipe. Cyro de Mattos ressalta virtudes e aprendizados que encontrou através dessas convivências, através dessas amizades – e ele tem boas amizades que vêm desde a juventude e outras que nasceram graças ao milagre operado pela literatura.
Nem sempre, é claro, o cronista tem a felicidade de encontrar tipos tão admiráveis. Exemplo disso são os personagens de “Quatro mosqueteiros do mal”, todos tocando forte a clave da vaidade, conforme a metáfora usada pelo escritor em um dos textos mais significativos do livro, a crônica “A negação do outro”.
Embora reconheça que não é um político militante, Cyro de Mattos se diz alguém que teima em dar palavras aos sonhos, como faz em “Utopia dos Palmares”. É também com indignação que comenta a morte do rio de sua cidade enquanto os vereadores não mostram a menor preocupação com o dinheiro público. Em “A cereja do bolo”, faz uma importante defesa da cultura, normalmente vista com miopia pela classe política.
E, não fosse a natureza, é possível que Cyro de Mattos desanimasse de tanto desgosto que encontra o mundo. Mas ele ainda ouve o clarim da garrincha anunciando que a noite chegou ao fim, admira o canto mavioso do sabiá, pergunta-se o que seria de nós se não existissem os passarinhos soltos no embalo festivo da natureza. São pequenos seres que, certamente, também latejam sentimentos para mais Cyro em Cyro.

*Henrique Fendrich é jornalista, editor da revista de crônicas online RUBEM, em homenagem a Rubem Braga