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sexta-feira, 5 de junho de 2015



Dicionário de Escritores Contemporâneos
 da Bahia Será Lançado na Biblioteca  Pública  

Com o apoio da União Baiana de Escritores - UBESC e o Círculo de Estudo, Pensamento e Ação – CEPA, será lançado no dia 12 de junho (sexta-feira), às 18h, na Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Salão Nobre Kátia Mattoso), nos Barris, em Salvador, o “Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia”, organizado por Carlos Souza Yeshua, que apresenta 206 verbetes de autores baianos. A obra é publicada pela Editora CEPA e tem prefácio do professor Germano Machado.
O trabalho de catalogação e preparação das notas biobibliográficas durou aproximadamente dois anos e, embora não registre todos os artistas da palavra em atividade no estado, nomes importantes do cenário literário figuram  em suas páginas, como Antônio Torres (Academia Brasileira de Letras); Aleilton Fonseca, Antônio Brasileiro, Aramis Ribeiro Costa, Carlos Ribeiro, Florisvaldo Mattos, Ruy Espinheira Filho, Cyro de Mattos (Academia de Letras da Bahia); José Inácio Vieira de Melo, Adelice Souza, Állex Leilla, César Romero e José Carlos Limeira.
Os escritores Cyro de Mattos, Aramis Ribeiro Costa e Aleilton Fonseca  pertencem também à Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

quinta-feira, 4 de junho de 2015



Livros de Cyro de Mattos
No Catálogo Digital da EDITUS



Ao lado das edições de livros impressos escritos pelos  professores da Universidade Estadual de Santa Cruz e autores regionais, a  EDITUS,  editora da instituição, vem adotando a política das publicações de obras em forma digital, atendendo com isso  aos tempos atuais, que se apresentam velozes com base em uma tecnologia moderna, de natureza  internética.
Ao lado de títulos dos diversos campos de conhecimento, os livros do escritor Cyro de Mattos que estão no catálogo digital da Editus são os seguintes:   O Triunfo de Sosígenes Costa, coletânea, de parceria com Aleilton Fonseca, da Coleção Nordestina,  O conto em  vinte e cinco baianos, antologia,  da Coleção Nordestina, Berro de Fogo e Outras histórias, Prêmio Vania Souto  Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras,  A Casa Verde e Outros Poemas, português-inglês, com tradução de Luiz Angélico, professor Emérito da UFBA, ilustrações de Ângelo Roberto,  e Histórias Dispersas de Adonias Filho, coletânea, ilustrações de Ângelo Roberto.
Para a leitura dos livros, acesse  WWW.uesc.br/editora

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Lançamento A CASA VERDE DE Cyro de Mattos





Foi lançado nesta quinta-feira dia 28 de maio a terceira edição do livro "A casa verde" do escritor Cyro de Mattos. O evento contou com a presença de membros da Academia de Letras de Itabuna, bem como de amigos e leitores do escritor.

O livro de poesia foi inspirado no Museu casa verde, antiga residência do coronel do cacau Henrique Alves (1861-1942).  A edição bilíngue teve tradução para o inglês do professor Emérito Doutor Luiz Angélico.

Na noite de lançamento o editor Gustavo Felicíssimo falou de sua honra em publicar um autor como Cyro de Mattos, a presidente da Academia de Letras de Itabuna ressaltou a importância da preservação do nosso patrimônio cultural, como a antiga sede do colégio Divina Providência e também da importância da publicação de autores grapiúnas pela editora Mondrongo.

O autor Cyro de Mattos falou sobre o livro A Casa Verde, da literatura na atualidade e citou nomes de diversos autores grapiúnas que, como ele, preservam e constroem o patrimônio literário grapiúna. Atores e poetas declamaram poemas durante o evento.























terça-feira, 2 de junho de 2015

Crônica da Infância



Cyro de Mattos



 Depois de cortar com a tesoura o pano marrom, minha mãe ficou  na máquina de costura, fazendo aquela roupa, que parecia mais um vestido folgado de mulher.  Quando ficou pronta, ela me chamou para que fosse experimentá-la. Ela chamou de hábito aquela roupa que ela passou a manhã toda costurando na velha máquina de costura, marca Singer, que foi de minha avó.  Ora, toda menina vestia vestido, menino usava calça. Como era então que minha mãe foi arranjar aquela roupa de mulher para que eu vestisse no domingo quando fosse com ela  para a missa? Quando andava, a barra do hábito roçava nos meus pés. Meu  corpo ficava abafado quando estava vestido nele no domingo  azul de  verão.  O suor escorria do peito, as costas coçavam.

 A mãe cortou meu cabelo baixo, sem esquecer de fazer uma coroinha ali no meio da cabeça. Até alpercata de duas tiras ela mandou que calçasse.  Agora tinha que ir à missa aos domingos vestido como um frade. Durante um ano. Tinha que cumprir a promessa que ela fez porque não tinha morrido com o fundo de panela que fiquei arremessando para o alto como se fosse um disco.

Encontrei o fundo de panela na Praça Camacã, perto da beira do rio. Com dificuldade desenterrei-o da terra molhada com a chuva que caiu  durante a noite.  Várias vezes eu o lancei para o alto, tentando fazer com que chegasse cada vez mais longe, como uma vez vi um menino fazer no areal deixado pela cheia do rio Cachoeira. Era um menino maior do que eu. Mas tinha confiança em mim: aquela brincadeira de lançar fundo de panela para o alto eu também sabia fazer. Era só aparecer uma primeira oportunidade.

 Esperava que daquela vez o fundo da panela fosse subir mais alto. Quando o lancei como um disco bem para o alto, com todas as forças que pude reunir, mal tive tempo de vê-lo atravessar célere o espaço de cima, brilhando como um espelho na manhã com seus raios de sol que flechavam a terra. Voltou mais célere ainda e desceu como se quisesse me atingir.

Tudo foi bem rápido. Senti o corpo balançar quando ele me atingiu na testa. O sangue desceu pelo rosto, cambaleei e caí. Botei a boca no mundo, chamando por minha mãe. Soube depois que seu Isaías, que tinha uma oficina para consertar bicicleta no beco perto da padaria, foi quem me levou nos seus braços cabeludos para minha casa. Quando acordei, escutei a empregada dizendo que cheguei desmaiado, a cara toda melada de sangue. Minha mãe prometeu que, se eu escapasse daquela, ia fazer uma promessa para São Francisco.

O médico disse que  o fundo da panela não varou minha testa e atingiu o cérebro porque tive muita sorte. Era morte certa, se o cérebro fosse atingido pelo fundo da panela.  São Francisco não deixou que isso acontecesse, minha mãe observou. Achava que o santo de sua maior devoção havia escutado seus pedidos para que o filho não morresse.  Ela tinha certeza disso.

E o pior de tudo isso estava para acontecer. Ia ser motivo de mangação pelos amigos. Bastava que um deles descobrisse a novidade e corresse para dizer aos outros. Não demorou. Aconteceu isso no primeiro domingo quando então fui à missa vestido como um frade, o crucifixo de madeira no peito, pendurado na corrente, o cordão grosso amarrado em volta  da cintura.

 Duda, que só andava sorrindo se via alguma coisa engraçada nos outros amigos, não conteve o riso quando me descobriu  vestido de São Francisco na missa das oito. Não parava de sorrir quando olhava para mim, os olhos cintilando de contente. Foi ele quem me botou o apelido de Ciroca Fradeco, assim que contou aos amigos como tinha me encontrado na missa vestido de frade. Minha sorte foi  que a professora de português pegou Duda dormindo na aula. Como castigo, ela passou para ele fazer uma composição sobre o rio Cachoeira  com quinze linhas. Era para  trazer na próxima aula. Ele nunca tinha feito uma composição sobre qualquer assunto. Eu falei que ia ajudá-lo contanto que ele deixasse de me chatear,  chamando-me daquele apelido irritante, além de incentivar  os colegas para que também mangassem de mim.

 Fiz a composição sobre o rio para tirar o amigo do vexame.  Ele foi elogiado pela professora, que chegou a dizer que quando o aluno se entrega com interesse a um dever de aula  parecendo difícil  não existe tarefa que  ele não consiga fazer. Claro que ele cumpriu a sua parte no trato que fizemos. Os colegas prontamente deixaram de me chamar pelo apelido  de Ciroca Fradeco, o que não deixou de ser  um grande alívio para mim.   



A Poesia Existencialista de Walker Luna

                                                       Cyro de Mattos

         Nascido em Itabuna, no dia 6 de agosto de 1925, o poeta Walker Luna publicou  os seguintes livros de poesia: Estes Seres de  Mim (1969), Companheiro (1979), Estações dos Pés (1983) e Na Condição do Existir (1999). Deixou inédito   Onde Os Fogos Se Cruzam. Incluí esse poeta em minha antologia  Itabuna, Chão de Minhas Raízes (1966) e o indiquei para a de Assis Brasil,  A poesia baiana no século xx (1999),  como fiz com Valdelice Soares Pinheiro, Firmino Rocha e Carlos Roberto Santos Araújo.  Dotado de uma linguagem fluente, Walker Luna  move seu discurso num ritmo agudo dentro dos limites do existir. Expõe essa paisagem estranha e solitária que comporta o ser humano na dor do viver. Poesia vazada numa experiência humana vivida com intensidade, entre a amargura e a insônia, o sofrimento e a angústia.  
         Oferece um testemunho de resistência luminosa, corajosa, de limitações  suportadas  com dignidade e altivez. Mas seus versos, de plena lucidez nas estações que comovem, trafegam também com acenos que nos descobrem livres, nos tons verdes que, transformados  em sumo vital, proliferam frutos.  
         É sobre seu último livro,  Na Condição do Existir,  publicado pela Secretaria da Cultura e Turismo,  Selo As Letras da Bahia, Salvador,  que faço  agora algumas anotações de leitura. O seu discurso nesse livro é marcado novamente  pelo enfoque de ressonâncias agudas na aventura precária comportada pelo  ser humano ao assumir a vida. Na corrente do existir o poeta estabelece o diálogo com o viver no ser. Aqui, neste encontro de alma e soluço, realidade e sonho, sinto o pulsar de espantos e indignações como elementos essenciais de uma condição interior, na qual as imagens são mitificadas,provocam ferimentos e ressoam com o seu tom vertiginoso, suas angústias, que são as de todos nós, de todos os tempos. De momentos vertiginosos que não se escondem através dos rumores de nossos sentidos.
          O poeta sabe que, mesmo quando protesta na coerência falha dos mortais,/ num aprendizado duro e sem termo/ na convergência de todo extravio, procede  nas dobras do pensamento  secreto e puro. Custa saber que na alquimia obscura da existência há o risco e o transe que são expostos através de situações estranhas, em um ritmo secreto de contágio e fogo, numa  canção onde as constantes influências tocam-se nos extremos. Elabora seu enigma feito de abismos.
         Emotivo sem ser lamurioso, porque consciente de que poesia é coisa séria, destituída de desabafos ingênuos, reflexivo, mas não conceitual no sentido estéril,  a poesia de Walker Luna resulta de uma experiência humana de natureza crítica do homem solitário. Cercado de sombras, indagações, fugas, depressões. Seus versos queimam como fogo,  sinalizam verdades na lucidez no sonho. Como na solidão passiva dos loucos descobrem-nos livres dos falsos ajustes/neste estágio maravilhoso/ entre a vida e a morte. Assim, o poeta implora esta ausência total, desconhecimento da própria matéria./ verdadeiros símbolos/ de pureza unânime.
       Em seu clima adensado de conflitos interiores permanentes, a poesia de Walker Luna está expressa nos limites do existir com a sua problemática subjetiva inserida na dor de viver, nesse estar do mundo das criaturas  como cúmplices do sofrer ante o transitório e o inevitável. Vida é dor, disse o poeta Jorge de Lima, logo se vivemos, onde todos os fogos se cruzam, é porque sofremos. A dor de viver com toda a sua carga terrestre, as estações sempre em chamas, o ontem e o hoje como uma unidade que lateja nas cordas mais agudas da condição humana, essa é a  matéria que nas visões contínuas propostas pelos golpes da  vida  o poeta Walker Luna transfigura nos sinais poéticos da escrita, na palavra trabalhada com fluência para atingir aquelas zonas da ilusão,  própria  do sonho, que nos acompanha desde não sei quando e comove.
            Poesia de homogeneidade temática e formal,  dá a impressão de um poema puxar o outro, como uma canção cheia de delírios, esta poesia mostra como o poeta deve usar a palavra com suas imagens e metáforas precisas  para alcançar aquele nível  expressivo, íntimo da boa fatura estética. Com a força dos que amam,  a poesia de Walker Luna dá um testemunho dos que sofrem com lucidez  quando então   buscam na tristeza, na angústia,  a alma de todos nós,  seres contraditórios e finitos na condição do existir.  
            Walker Luna faleceu em 3 de julho de 2007, em Jundiaí, São Paulo.