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domingo, 8 de abril de 2018




                   Os Irmãos Riela
                  
                             Cyro de Mattos

                    O futebol de Itabuna,  digno de seu passado amador brilhante,  quando era vencedor, dava orgulho à cidade. Agora se tornara em  grande frustração, abatia  o torcedor que  gostaria de comparecer ao estádio para torcer com entusiasmo pelo seu time do coração.  A frustração  que esse torcedor carrega dentro dele hoje   força que  acenda o coração no sentimento da saudade. Lembre-se do tempo em  que esse futebol amador  foi pródigo em oferecer partidas  memoráveis,   portadoras da verdade  como reflexo da vida, dizendo que nesta  existe a alegria dos que vencem, a tristeza dos que perdem, conformismo ou  não dos que empatam em cada batalha. 
              Os quatro irmãos Riela formaram um capítulo à parte nas partidas disputadas no Campo da Desportiva. Eram conhecidos como  os quatro mosqueteiros do rei, pois constante era o   sentimento de união  entre eles no relacionamento com a vida.  Fernando, Carlos, Leto e Lua eram inseparáveis. A vida só conseguia separá-los quando eles se enfrentavam no campo de jogo, cada um defendendo o seu time.  Carlos e Fernando jogaram no Fluminense, Leto no Flamengo e Lua no Janízaros. Cada um dava o  melhor de si para defender o seu  time. Os quatro eram jogadores dotados de  recursos técnicos invejáveis.  Cada um possuía  a sua característica na intimidade  com a bola.
         Como observei,  fizeram história no Campo da  Desportiva.  Fernando como um ponta-esquerda que driblava numa  velocidade  espantosa, deixava o marcador para trás, batido pelo chão, e o torcedor incrédulo ante a investida impetuosa, fundamental na conclusão da jogada perfeita pela beirada do campo.  O  meia-direita Carlos  tinha boa  visão de jogo, não  olhava para a bola, de cabeça erguida via o companheiro, antevia o lance   e o campo para o lançamento preciso.  Leto jogou no Flamengo  e se sagrou campeão pela seleção de Itabuna, médio-esquerdo implacável na marcação,  com uma  eficiência exemplar anulava o ponta-direita, que pouco pegava  na bola durante os lances acirrados da  partida.
          Lua, o mais novo, era dos quatro  o que mais encantava, ora parecia flutuar em campo na condução da bola, um pássaro que se desvencilhava  do obstáculo e no chão  voava?  Gingava, driblava, enganava, aquele jogador franzino  transvestido  em um artista que desenhava a jogada como num sonho. Fazia a tabelinha com o companheiro, deslizava com a bola, sem tomar conhecimento do adversário,   bailarino ou  vento esperto, ligeiro, que fazia o espetáculo pontilhado de riso e gozo?     
           Os admiradores de Lua não cansavam de dizer que dos irmãos Riela ele era o melhor, o que tinha mais recursos técnicos,  o pequeno maior. Jogou no Janízaros e na seleção de Itabuna quando esta começou o declínio para não mais conquistar o Intermunicipal. O seu  futebol era de tão boa qualidade que foi aproveitado no time profissional do Itabuna. 

*Cyro de Mattos é membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em vários países europeus, Estados Unidos e México.   Contista, cronista, poeta, romancista, ensaísta e autor de livros para crianças  e jovens. Pertence às Academias de Letras de Ilhéus e de Itabuna.

segunda-feira, 2 de abril de 2018




Casa de Jorge Amado Publica
“Poemas Iberoamericanos”

A Fundação  Casa de Jorge Amado, de Salvador, publicou o livro “Poemas Iberoamericanos”, do autor baiano (de Itabuna)  Cyro de Mattos, na Coleção Casa de Palavras. O livro havia sido publicado no ano passado pela Editora Palimage, de Coimbra, Portugal, na coleção Palavra e Imagem.
Com prefácio do poeta e Doutor em Letras Carlos Felipe Moisés, da USP, o livro é dividido em três partes: poemas brasileiros, poemas portugueses e poemas espanhóis. Para a crítica, estes “Poemas Iberoamericanos” em boa hora nos trazem de volta o poeta de Itabuna, cidadão do mundo, na posse de sua arte luminosa e verdadeira.
Reafirmam o que a sua poesia tem de  mais regional e, simultaneamente, de mais universal. No prefácio à edição, Carlos Felipe Moisés afirma que na presente coletânea  surpreende ( para alguns ) o consórcio entre o regional e o universal,  a confirmar a justeza da observação de Graça Capinha, doutora da Universidade de Coimbra, em Portugal, ao se referir ao livro “Vinte Poemas do Rio”.
“Itabuna, Ilhéus, Salvador, Lisboa, Coimbra, Salamanca, Toledo são os cenários de predileção do poeta, explicitamente referidos, poema a poema, e ali aparecem como que entrelaçados, submetidos ao mesmo olhar inquieto, que incessantemente luta com as palavras (como diria Drummond), no encalço da poesia comum que seus versos possam captar”, observa o prefaciador.
E completa sua opinião: “Para além dos localismos  mais ou menos exóticos, o lugar da poesia é qualquer lugar onde o poeta  cinrcunstancialmente esteja, dispostos a permitir que “a cor local” se transforme em paleta multicolorida – como faz com maestria, o poeta de Itabuna.”

terça-feira, 27 de março de 2018







                      Poesia na Semana  Santa
                               
                                     Cyro de Mattos

Uma Prece

Bomba a alvejar manso rebanho,
Fera branca que se achou Deus,
Cidade grande em galope amarelo,
Faces levando sede e fome,
Droga a matar a maravilha,
Sangue inocente de réu negro,
Lágrima extirpada de índio,
Mãos de metralha do menino,
Pai que apagou a luz do filho,
Mãe que não quis sentir a rosa,
Irmão que fugiu do outro irmão,
Rei que esqueceu a oração,
Veneno na água, chão e céu.
Cura-me, ó Deus de todos os perdões.




 Louvemos Baixinho


                 Para Manuel Bandeira,
                 em memória

Nasceu numas palhas
O nosso reizinho,
Os matos cheiravam,
O vento embalava.

A Virgem Maria
Sentia como doía
O destino humano
Do filho de Deus.

Quando for um homem
Com o nome de Jesus
De tanto nos amar
Irá morrer na cruz.

Louvemos no Natal
O nosso reizinho
Enquanto ele dorme
Como um cordeirinho.

  

Tudo É Mistério
                
                      Para  Antonio Carlos Vilaça,
                      em memória

Certa vez
Ele me disse
No Flamengo.

Tudo é mesmo
Um mistério.
Três em Um.

Ser, não ser
Oscilamos
Na questão.

Um, um, um
Fiat luz
Na voz de Um.

 Um, um, um,
Fria foice
Em cada um.

Na dúvida
Depositando
Tantos danos,

Há na morte
Um final
Que liberta.

Dor ou tédio
Derrota-se
No caixão.

O temor
De algo após
Que não sabe

Enlaça   
Esse ator
Fugitivo

Que no fardo
Do mistério
          Segue finito.

         Na contradição.  

sábado, 24 de março de 2018






Fascinante Bola no Pé

Cyro de Mattos
                   
Parece que o futebol  jogado  antigamente no Campo da Desportiva   era melhor do que o que iria se apresentar depois na fase do  estádio Luíz Viana Filho, tempo  em que o time do Itabuna filiou-se à Federação Baiana de Futebol e se tornou profissional. Nos primeiros anos até que o  representante da cidade  se saiu bem como time profissional. Aproveitou alguns jogadores  remanescentes da seleção amadora,  como Luís Carlos, Carlos Riela, Fernando Riela, Lua,  Leto, Santinho e Déri.  Dava bons espetáculos dentro e fora de seus domínios, e, numa temporada,  foi  vice-campeão do campeonato baiano.
        Anos depois, administrado por dirigentes individualistas, ora querendo mais tirar proveito da situação  com os seus interesses políticos,   ora sem compromisso sério  com a cidade, alheio à sua gloriosa história esportiva,  o time do Itabuna profissional  mostrou-se  desorganizado na sua cúpula diretiva,  começou a descer a ladeira.  Foi se enfraquecendo de tal forma que não resistiu  e  caiu para a segunda divisão. De uns anos para cá nem sequer disputa  mais a segunda divisão do campeonato  baiano. Uma lástima. Como isso pode acontecer numa cidade de mais de  duzentos  mil habitantes,  com inúmeros torcedores  que amam o futebol e o tem na alma como uma das mais  fortes paixões  do povo,  é difícil  de aceitar.  
           Um dos craques que jogou no Campo da Desportiva e que me deu a  impressão como o melhor que atuou na sua posição foi o meia de armação   Déri.  Deixava o torcedor incrédulo com o lançamento  certo na bola longa. Atuou no Janízaros e na seleção amadora de Itabuna. Fez sucesso no campeonato baiano. Com o ilheense Deco formou uma famosa meia cancha que deu ao Galícia vitórias sensacionais contra os times do Bahia, Vitória,  Ipiranga e Botafogo. Sagrou-se campeão com o Vitória. Suas assistências e bola lançada longa  na área deixavam o atacante na posição ideal para fazer o gol. Até o torcedor  do time adversário aplaudia.
.        Na década de 70, o Confiança de Sergipe  teve um dos grandes times de sua  história. Sagrou-se novamente bicampeão estadual em 1976/77. Em 1977 realizou a melhor campanha de um time sergipano em campeonato nacional,  chegando a decidir a liderança do grupo contra o Flamengo, em pleno Maracanã.   Déri estava nesse time. Foi o dono da bola no jogo em que o Confiança venceu o Flamengo por três a um no Maracanã. Fez um dos gols na vitória do time sergipano, golaço. Assombrou com a sua atuação espetacular os torcedores e os jornalistas esportivos. Cláudio Coutinho, técnico  da Seleção Brasileira à época,  que assistiu a partida, impressionado com o  craque das terras baianas do cacau recomendou ao  Flamengo que o contratasse.
              Desse time do Confiança, vários destaques acabaram  jogando nos principais clubes do futebol nacional.

sábado, 17 de março de 2018


Aguerrida bola no pé
Cyro de Mattos



Um time de futebol não se faz somente com  jogadores que têm o fino trato com a bola, aqueles que constroem o jogo  e funcionam como o cérebro da equipe. Precisa daquele jogador que, impelindo-se na jogada com esforço, coragem e tenacidade destrua a intenção do  adversário. Na defesa é preciso que jogue sério, não enfeite, nem faça filigrana, antecipe-se no lance, deixando o atacante sem pegar na bola ou impedido de armar a jogada, frustrado. Entre os jogadores aguerridos, que se apresentaram no Campo da Desportiva,  lembro do  quarto zagueiro Itajaí e de Neném, o coringa.
Itajaí era quarto zagueiro vigoroso.  Jogou no Janízaros e na seleção amadora de Itabuna. Não perdia a jogada, entrava  duro, mas era  leal na marcação do atacante. Com ele, a bola tinha que ficar fora da zona de perigo. Acontecia que às  vezes sua jogada impetuosa cometia infração no atacante, recebia a vaia estrondosa do torcedor rival. Ele mais se inflamava, mais se empenhava, mais procurava anular o atacante. Só faltava comer a grama, queria a vitória do seu querido Janízaros ou da seleção de Itabuna, sem medir esforço. Uma de suas qualidades era não perder o tempo da bola.
Neném era o coringa do Janízaros. Defendeu também a  seleção amadora de Itabuna, meta maior que qualquer jogador  daquele tempo queria alcançar para se sentir realizado como atleta. O fôlego nele sobrava. Como lateral direito, o ala como é chamado hoje, incrível como corria e não cansava pela beirada do campo. Nessa posição tanto defendia como atacava. No vaivém do jogo, como um lateral moderno, era de uma entrega total na defensiva e ofensiva da faixa lateral do campo. Comum ir até a linha de fundo do time rival e cruzar a bola para o atacante de seu time fazer o gol.
Não se sabia onde era que arranjava tanto fôlego para correr com aquela disposição. Era adepto da boêmia, dizendo que com uma boa dama na dança,  cerveja gelada e bom papo com os colegas da noite, conseguia inspiração para atuar no domingo seguinte como um lateral direito eficiente, de mobilidade rara no vaivém da partida.
Era dançarino com passos que chamavam a atenção, os malabarismos engraçados que fazia com a dama sobressaíam entre os pares no salão. Arrancava suspiros da parceira no samba ou  bolero, somente ele sabia dançar o tango. No domingo seguinte,  como se não tivesse  a gosto,  durante a noite animada do sábado, véspera de jogo, corria os noventa minutos como um velocista nato. Fazia o torcedor vibrar,  a arquibancada tremer, quando tomava a bola do atacante e saía disparado na direção da linha de fundo do time adversário. Ninguém segurava o homem.
__________
Cyro de Mattos é contista, poeta,romancista, ensaísta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos,  o APCA com “O Menino Camelô” e O Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil com o romance “Os Ventos Gemedores”. Finalista do Jabuti três vezes.  Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil.


quarta-feira, 14 de março de 2018


Mundo Real
Cyro de Mattos

- Você soube o que aconteceu ontem na rua do comércio?
- Não faço ideia.
-Tiroteio da polícia com os traficantes.
- De dia?
- Pela tarde.  Resultado, três bandidos mortos, um policial assassinado, uma mulher grávida  que passava no passeio tombou morta com um tiro na barriga.
- Ninguém sabe  até onde vamos parar com essa onda de violência..
- Ninguém está seguro.
- Assalto a banco, bala perdida matando gente, latrocínio, estupro de padrasto em enteada de um ano, explosão de caixa eletrônica, político corrupto roubando milhões dos cofres públicos e do povo, aluno esmurrando a professora e por aí vai.
- Você sai vivo de casa e pode voltar morto.
-  Todo mundo se queixa de tudo,   mas ninguém respeita a vida.  
O magro fica  em silêncio. O gordo cabisbaixo.


sábado, 10 de março de 2018


Editora da Itália Publica Livro
    Infantil de Cyro de Mattos


Depois de lançar  no ano passado a antologia “Poesie Brasiliane della Bahia” (Poesia Brasileira da Bahia), a Editora Aracne, de Roma, publica agora o livro de poesia infantil “ Il Bambino Camelô” (O Menino Camelô), do acadêmico e escritor Cyro de Mattos, com ilustrações de Zeflavio Teixeira e tradução de Antonella Rita Roscilli, na Coleção Ragnatele.
Este livro destinado à garotada amante de versos de pé requebrado, bem bailados e esticados,  para brincar com bichos, de circo e com flores,  teve mais de doze edições quando foi publicado no Brasil e em 1992  conquistou o Grande Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes.  
         Considerado o melhor livro infantil do ano, a  ensaísta e professora doutora da USP, Nelly Novaes Coelho, relatora do Prêmio APCA – 1992, destacou as qualidades da obra:  Li e reli com vagar “O Menino Camelô”. Uma delícia! Ternura,  graça, ludismo e ritmo ágil que arrasta o leitor (pequeno ou grande)”.

       Poeta, contista, romancista, cronista, organizador de antologia e autor de livros para meninos e jovens, Cyro de Mattos possui mais de 60 livros publicados no Brasil, Portugal, Itália, França, Espanha e Alemanha. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo do Pen Clube do Brasil,  Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris  Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia).









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sábado, 3 de março de 2018


De pai para filho: o goleiro Leleta e sua história

Por Edônio Alves


Desta feita, mais uma vez amparado pela relação literatura e futebol, vamos destrinçar aqui a história de uma grande homenagem, tecida pelas malhas da ficção. O autor deste conto de futebol é Cyro de Matos, um experiente escritor que tem no jogo de bola aos pés uma das chaves de sua literatura abrangente e multifacetada. A análise que fizemos do seu texto, abaixo, visa tão somente apresentar ao apreciador deste blog (porque uma análise literária mais abrangente não caberia nesse espaço) a perícia que alguns escritores do tema têm ao jogar com a palavra como se bola elas fossem. Boa leitura!
 ***
O goleiro Leleta
Esta é uma narrativa simplória sobre futebol, o que não quer dizer desprovida de tom dramático e certo lirismo às vezes bucólico, às vezes elegíaco, que derrama seus efeitos sobre o leitor. O motivo do texto é contar uma situação humana particular vivida por entre um clima que mistura festa e alegria com pesar e tristeza. E em meio a tudo isso, o flagrar-se a universalidade do futebol enquanto motivo de sociabilidade humana presente nas mais diferentes culturas e nos mais distantes e longínquos rincões do mundo.
O bucolismo do texto é responsável por apresentar ao leitor essa faceta ubíqua da facilidade do jogo de bola em servir de fator de congraçamento universal entre os homens estejam onde eles estiverem. Trinta blocos-parágrafos de texto, quem sabe figurando os trinta anos de existência do Expressinho de Burburinho do Paraíso, clube de um lugarejo cerca de vinte quilômetros perto de Rio Claro, cidade onde se desenrola a história, são usados pelo narrador para contar um dia na sua vida e na vida de Leleta, o goleiro do time em apreço, que ao evitar um gol defendendo um pênalti em favor do adversário, dá o primeiro título ao clube fundado pelo seu pai, logo no dia em que ele morreu.
Depois de apresentar o lócus dos maiores atrativos da gente pacata dos dois lugarejos ­ em que se desenrola a história, nos dois blocos-textos que seguem:
“Em Rio Claro existe uma praça com jardim. A bandinha toca valsas, choros e marchas no coreto, aos domingos pela manhã. O cinema foi instalado no salão atrás da feirinha. O padroeiro da cidade é Santo Antônio, sua pequena igreja foi construída numa colina e é avistada de qualquer parte da cidade. Os fiéis chegam até à igreja depois de subirem uma escadaria com muitos degraus”.
***
“Burburinho do Paraíso (…) é bastante falado por causa da feira que funciona na pracinha onde o trem faz uma parada antes de seguir para o fim da linha, nas imediações do vilarejo de Serra Grande. O movimento é intenso em Burburinho do Paraíso aos sábados. A feira tem tudo que se possa imaginar. (…) Os moradores de Burburinho do Paraíso dizem que ali é que é lugar de viver. Ora essa, é um lugar mais bonito que Rio Claro. Nem se pode comparar” -,
o narrador desce propriamente às coisas do futebol sugerindo ligeiramente o clima de rivalidade entre as duas localidades. É esse clima que vai servindo de pano de fundo para se descortinar, através de uma prosa escorreita e leve, emocionalmente envolvente e psicologicamente empatizante, o dia triste de Leleta, vivido na mais esfuziante alegria, com a conquista do título de campeão pelo clube fundado pelo seu pai e no qual era ídolo da torcida.
“Quando se discute futebol em Rio Claro, na praça ou em outro lugar, o torcedor do São José Futebol Clube, sem esconder certo orgulho na voz, diz que o seu time é o mais querido na cidade. É o que tem mais torcida e mais títulos de campeão, entre os filiados à Liga Amadora de Futebol de Rio Claro”.
Todavia, há que se registrar, é precisamente esse contraste de uma cidade maior com um time melhor que prepara e potencializa, ao nível da narrativa, o impacto dramático do título de campeão, conseguido pelo Expressinho de Burburinho do Paraíso e vivido por Leleta, justamente no dia em que este perde seu pai:
“Quem esteve com o goleiro Leleta antes de começar o jogo ficou admirado de sua passiva tristeza. Ele explicou que queria jogar aquela partida de qualquer maneira porque nada mais adiantava fazer. ´(…) Essa é uma hora que chega pra todos nós`, observou, com seu jeito simples. Mas não ia ser um acontecimento difícil daquele que ia tirar a sua tranqüilidade e impedir que defendesse as cores do Expressinho de Burburinho do Paraíso”.
Consta, como se sabe, que o jogo houve e que o Expressinho de Burburinho do Paraíso foi campeão sobre o São José Futebol Clube, para a alegria e a tristeza do seu goleiro Leleta. E consta também que é típico do futebol o assentar-se sobre certos paradoxos de fundação, como o de separar para unir, o de perder pra ganhar, por exemplo; e aqui, o de sorrir para chorar, como conta Cyro de Matos nesta narrativa sob este aspecto bastante exemplar.
“Tudo era só festa na arquibancada e na geral. A torcida do Expressinho de Burburinho do Paraíso vibrava e cantava. Torcedores abraçavam-se. No gramado, um menino, que tinha Leleta como seu maior ídolo e depois viria a escrever esta história, viu quando o goleiro pegou a bola com as mãos sujas e aninhou-a no peito, como se estivesse tentando abafar uma dor que vinha pulsando dentro dele. (…) Geralmente, o goleiro atirava a bola ou sua camisa para o velho Neco no meio dos torcedores, onde sempre gostava de ficar, quando o Expressinho de Burburinho do Paraíso ganhava uma partida importante”.
Esta partida era particularmente importante, mas este não é o fim de tudo porque ainda consta que, então, o goleiro Leleta chorou muito só  – muito só -, debaixo do gol.
PARA SABER MAIS:
O conto O goleiro Leleta, analisado acima, integra a coletânea de história curtas organizada pelo autor, intitulada Contos brasileiros de futebol, publicada pela editora LGE, de Brasília, em 2005, e o livro O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol, Prêmio Adolfo Aizen da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro,  Editora Saraiva, São Paulo, 2009.
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Fonte: https://historiadoesporte.wordpress.com/2013/10/28/de-pai-para-filho-o-goleiro-leleta-e-su


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018





Conversa

Cyro de Mattos 


- Você soube o que aconteceu ontem na rua do comércio?
- Não faço ideia.
-Tiroteio da polícia com os traficantes.
- De dia?
- Pela tarde.  Resultado, três bandidos mortos, um policial assassinado, uma mulher grávida  que passava no passeio tombou morta com um tiro na barriga.
- Ninguém sabe  até onde vamos parar com essa onda de violência..
- Ninguém está seguro.
- Assalto a banco, bala perdida matando gente, latrocínio, estupro de padrasto em enteada de um ano, explosão de caixa eletrônica, político corrupto roubando milhões dos cofres públicos e do povo, aluno esmurrando a professora e por aí vai.
- Você sai vivo de casa e pode voltar morto.
-  Todo mundo se queixa de tudo,   mas ninguém respeita a vida.   
O magro fica  em silêncio. O gordo cabisbaixo.


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018





          Os Apelidos Entram em Campo

                      Cyro de Mattos
           
             O humor acontecia no Campo da Desportiva e entrava para o anedotário com os apelidos dos jogadores. Balaco, Galeão, Puruca, Tuta, Zé Prego, Sapateiro, Tenente Cotó, Ruído, Pipio,  Jeguinho, Lubião, Bacamarte e Mil e Quinhentos. No  tempo da Associação, São Cristóvão, Grêmio, Itabuna e Janízaros,  primeiros anos do Campo da Desportiva, os apelidos soavam como fantasia ou um sinal de identificação de inteira verdade.
          Apareceram tempos depois jogadores com o apelido de Camamu,   Mão-de-Tripa, Porroló, Galalau, Pantaleão, Nonô Piquete, Carrapeta,  Chicletes, Gajé, Mundeco, Bita, Pintado Alfaiate, Ferrugem  e  Diaço.  Dois jogadores tiveram o apelido  de Jeguinho em épocas diferentes. Eram  parentes, tio e sobrinho, jogaram no Janízaros como  zagueiro central.  Bacamarte também foi o apelido de dois zagueiros. Um  jogou na Associação, o outro no Flamengo de Paulo Ribeiro. Eram defensores vigorosos.  O chute violento de cada um deles  explodia como um tiro de bacamarte.  
        O  apelido era tirado do sobrenome do jogador.  Carpóforo, Mangabeira, Barros, Marinho e Wense, que de vez em quando aparecia no jornal escrito como Vence. Fazia alusão a um bicho. Caxinguelê, Peba e Macaquinho. Bacurau, ponta-direita, gostava de marcar gol no fim do segundo tempo, as sombras do entardecer  começando  a dificultar a visão da bola.
       Às vezes,  a expressão composta de nome e apelido formava o chamamento inusitado.  Eliezer Melgaço, Orlando Anabizu, Ronaldo Chiranha, Edson Gasolina, Alberto Pastor, Valdemir Chicão. Alguns apelidos revelavam que o seu dono era um jogador de recursos técnicos e possuía um futebol de alto nível. Doutor Clóvis, Professor Juca, Mestre  Delicado.
         Havia Tombinho e Tombinha. O primeiro jogou na Associação, ponta-direita,  de estatura pequena,  o corpo redondo tombava a todo instante, era só o marcador disputar a jogada com o ombro ou encostar nele, mesmo de leve.   Tombinha jogava para o time, não aparecia durante o decorrer da partida. Poucas eram as pessoas que o conheciam quando se falava em  Manoel Marques. Quando se falava em Tombinha, as façanhas do jogador mais catimbeiro que atuou  no Campo da Desportiva eram lembradas por jogadores e desportistas.  
         Corria no jogo  apelidos com o nome de mulher. Odete e Vanda. Do último se sabe que a alcunha veio da infância. O menino tinha os cabelos grandes e usava trança, a mãe achava-o parecido com uma menina, daí  ter dado ao filho o apelido de Vanda. De tanto os irmãos chamá-lo  pelo apelido, pegou feito visgo.   Também o craque Santinho trouxe o apelido da infância.  Os familiares que viam o menino dormindo  diziam que “ele parece um santinho.”
              Uns aludiam a peixe. Piaba,  Peixe-Louro. Outros lembravam um bicho. Caxinguelê. Gato Preto, Aranha, Macaquinho, Ratinho. E ainda outros davam a entender que o jogador tinha outra nacionalidade. Sírio, Sueco, China, Gringo, Americano, Paraguaio.  Para não se falar do apelido indicando que ali no dono  estava  um jogador igual a um corredor nato. Velocidade, Carlito Agonia. Chegavam a ser reverenciados pelos seus admiradores como os filhos do vento, tanto eles corriam.
         Zeferino,  Colatino.  Madeira,  Manchinha. Caticuri, Vivi,  Marão,   Jonga,  Beca.  Tindola.  Zoinho,  Mudo.  Noca, David Pintado.  Nocha. Macarrão.  Daú.  Nenzinho,   Neném. Pinga,  Zé Neguinha. Nininho.  Abissínia,  Bié.   Mamão,  Justo,  Bel.  Wilson Longo, Zequinha  Carmo,   Zé Moleque,   Patuca,   Mágoa, Pelé-Cotó.  Mateirinho, Brezegue, Dinho do Roque.  Zezé, Zezeco, Zelinho. Balancê da Mata, Mateirinho, Tico-Tico. Boca-Rica, Charuto. Barril, Tertu, Leto.  Pedrinha, Roliço. 
              Cada um com a sua classe, seu esforço, sua graça. Levava o torcedor ao pequeno e prazeroso Campo  da Desportiva  para aplaudir, vaiar ou sorrir,  do primeiro ao último minuto do jogo.      


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018



ÂNGELO ROBERTO NO PARAÍSO
     Por RUY ESPINHEIRA FILHO
        
        E o grande amigo e grande artista Ângelo Roberto se mudou, no último domingo, para a Eternidade. Cumprindo um velho compromisso, de quase 80 anos, pois a Eternidade sempre esteve presente na sua vida e na sua arte. Não era à toa sua intimidade com São Francisco de Assis, que considerava o mais alto dos santos. Agora mesmo estou vendo aqui, numa parede da sala do apartamento de minha mulher, Maria da Paixão, o “poverello” cercado de pássaros, nos traços admiráveis de Ângelo Roberto. Já na parede de minha casa, nos mesmos traços, uma caricatura: eu sentado num banquinho formado por livros empilhados, com um violão e cercado por garrafas de cerveja devidamente esvaziadas...
         Fui apresentado a Ângelo em 1961, pelo poeta Affonso Manta, no bar de Secundino, onde passei a conviver também com Carlos Anísio Melhor, Jehová de Carvalho, Fred Souza Castro. Outra presença constante era o fotógrafo e cineasta Roberto Gaguinho. Na época da apresentação, Ângelo tinha 23 anos; eu, 18. Veio de então o companheirismo e o afeto que logo se encerravam em nosso peito juvenil e assim se mantiveram ao longo de todas as águas do tempo que passaram e ainda passam...
         Certa vez Ângelo fez uma exposição no Barril Vermelho, bar e restaurante do Rio Vermelho, e o saudei numa crônica em versos que começava assim: “É no Barril Vermelho, galeria/ de arte, que o Artista inventa o dia.” Anos depois publiquei um romance intitulado “O príncipe das nuvens”, inspirado em nossas rondas boêmias, sobretudo em Carlos Anísio Melhor e Ângelo Roberto. Anísio aparece como o poeta C.A. Maior, mas Ângelo surge com o nome artístico completo: Ângelo Roberto. E também o poema se incorporou à história. Ângelo, dos amigos mais iluminados que tive...

         Manuel Bandeira dizia que com a idade o nosso coração fica como um cemitério. Quanto a mim, não sepulto ninguém. Todos os meus mortos continuam vivos e me fazendo companhia. E aqui estou eu com Ângelo ao meu lado. Agora e enquanto continuarem fluindo as águas da Eternidade...