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sábado, 10 de agosto de 2019






                                  Uma Amizade Antiga

                                           Cyro de Mattos 


O livro é esse amigo que nos acompanha há séculos, possibilitando o crescimento interior. Conhecemos outras vozes do mundo com esse amigo. Inauguramos  a vida com novos olhares, superamos vícios e medos. Sabemos de casos que divertem, viajamos  por  terras nunca conhecidas. Damos voo à razão através da  linguagem que usa  para  cada tipo de leitor. Um de seus milagres consiste em tornar leve todo o peso terrestre feito  de solidões, angústias  e perdas. Sua amizade não trilha os caminhos do interesse, transpira  sinceridade. Com ele aprendemos que só talento não basta para quem quiser se tornar um filósofo, cientista ou poeta. É necessário  o hábito da leitura. Esse amigo está pronto para dizer que, vivendo  na sua companhia,  a vida fica mais fácil. Matamos até a morte. 
Gosta de se mostrar nas livrarias. O lugar mais digno para acomodá-lo  em nossa  casa é a biblioteca. Quem não tem poder aquisitivo para adquiri-lo,  pode achá-lo em uma   biblioteca pública.. Lá está nas prateleiras o amigo solidário,  esperando nossa  visita para uma conversa útil. Mostra muitas coisas numa cumplicidade que informa, dá prazer, encanta. Faz aparecer paisagens impossíveis, que  vão entrando  na  medida em que uma página puxa a outra..
Livro xilografado, impresso com pranchas de madeira gravadas. Em rolos de papiro e também de pergaminho, no Egito. Nas telas de seda da China. Recolhido em manuscritos, no trabalho paciente e anônimo dos bibliotecários de Alexandria. Livro da sabedoria, do Antigo Testamento. Filosófico, científico e literário. Repositório do pensamento humano, dos povos para os povos, de geração em geração, com seus rumores milenares.
Vem contribuindo para que o mundo mantenha portas e janelas abertas, o sol acenda manhãs, o vento sopre momentos que somam. Das formas primitivas às técnicas de editoração moderna,  com esse amigo, como o braço ao abraço, os seres humanos aprendem que os dias de exercitar  a existência e conhecer  o outro ficam menos falhos. 
          O padre Antônio Vieira disse certa vez que “o livro é um mudo que fala,  um surdo que responde, um cego que via, um morto que vive.”  Acho  que a  fala da nossa maior figura da oratória sacra combina com o que eu  li num para-choque de caminhão: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.”  Verdade. Hoje, na minha terceira idade, reli O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry, a seguir  O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Saí depois  para a vida rejuvenescido.
De cabeceira ou de bolso, o livro é esse  fiel amigo por vias e arredios, capaz  de  dizer silêncios por meio dos sinais visíveis da escrita.  
Fiquei certa vez abatido por conta da afeição que nutro por esse amigo. Quando morei na fazenda São Bernardo, nas imediações de Ferradas, chão onde nasceu o  romancista do mundo Jorge Amado e o poeta Telmo Padilha,  os   livros que trouxe do Rio de Janeiro ficaram encaixotados até que pudesse comprar uma estante digna de recebê-los. E, numa noite sem estrelas, a chuva caiu pesada na terra centenária.  O telhado velho da pequena casa não suportou o volume da água que corria por entre as calhas.  Em pouco tempo, poças d’água formaram-se em vários cantos da casa por causa das goteiras.
No outro dia, encontrei molhados os caixões que guardavam velhos amigos. Lembro que apressado fui retirando do primeiro caixão  Além dos Marimbus,  de Herberto Sales, Uma Vida em Segredo, de Autran Dourado”, Poesias, de Manuel Bandeira, O Salto do Cavalo Cobridor, de Assis Brasil, Fábulas, de La Fontaine, Dom Quixote, de Cervantes,  Timeless Stories for Today and Tomorrow, de Ray Bradbury, Hamlet, de Faulkner, The Grass Harp, de Truman Capote,  A Metamorfose, de Kafka, O Muro, de Sartre, e A Moveable Feast, de Ernest Hemingway. Foram os livros mais atingidos pela chuva que  caíra  naquela noite cortada por relâmpago e trovoada. Páginas manchadas, letras borradas, capas danificadas. Ainda tentei salvá-los, espalhando-os abertos no passeio para que fossem aquecidos pelos raios de um  sol tímido.
Aqueles livros haviam sido adquiridos com o dinheiro da mesada que o pai mandava para o moço do interior na Capital, onde cursava a Faculdade de Direito.. Outros foram comprados nos meus anos de jornalista  no Rio de Janeiro. Meu coração sentia um tremor quando descobria um desses amigos na vitrina, balcão ou prateleira de livraria, acenando-me para que fosse adquiri-lo. 
À noite  peguei no sono como um herói inútil. Acordei deprimido no outro dia. Aqueles que não consegui salvar tinham me  ofertado ricos momentos de leitura, horas de sonho e palavras de amor varando as madrugadas. Madrugadas do homem solitário, que, no silêncio da noite, lograva  extrair sentidos  da vida com aqueles companheiros especiais. Jamais esqueci isso.  


segunda-feira, 5 de agosto de 2019






PAULO BOMFIM: O PRÍNCIPE DOS POETAS
                                                    
                                                   Raquel Naveira*

São Paulo ganha um toque mágico nos dias frios e chuvosos, quando mergulha na brancura úmida, que sempre caracterizou essas terras. Foi numa madrugada assim, de sete de julho de 2019, que faleceu, aos 92 anos, Paulo Lébeis Bomfim, o jornalista, o ativista cultural, o último “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Esse título foi outorgado pela primeira vez pela esfuziante revista Fon-Fon, que circulou de 1909 a 1958, marcando o estilo da Belle Époque, os hábitos cariocas como ir a cafés, cinemas, apreciar as artes e os jogos de futebol, ao som frenético das buzinas dos automóveis, ao poeta parnasiano Olavo Bilac. O título foi dado também aos poetas Alberto de Oliveira e Olegário Mariano. O jornal “Correio da Manhã” imitou a iniciativa e fez ascender Guilherme de Almeida. Mais tarde, a revista Brasília, através de votação, passou o título a Paulo Bomfim. Citava-se a máxima atribuída a Píndaro, poeta da Antiguidade Grega: “Os poetas são iguais aos príncipes e a glória do príncipe só existe graças aos poetas. Só se deve ser humilde perante a divindade, tal como os príncipes.”
Quem teve a alegria e o privilégio de conhecer e conviver com o poeta Paulo Bomfim, sabe, de forma natural, que ele era de fato um príncipe, um nobre, chefe do Principado da Poesia, o mais notável em talento e outras qualidades, entre seus pares. Um homem fino, alto, de maneiras polidas e aristocráticas. Seu porte era majestoso, grave e digno. Na Academia Paulista de Letras, na qual era o decano, tendo tomado posse há mais de cinquenta anos, assisti a alguns de seus pronunciamentos e declamações. Era entusiasmado, criativo, inspirado. Despertava o sentimento do belo, apontava o que havia de mais elevado e comovente nas pessoas e nas coisas, com encanto, graça, atração. Era íntegro e inteiro, na sua fala loquaz de homem consagrado à poesia, na sua capacidade de imaginação e devaneio, no seu caráter idealista. Era um verdadeiro fidalgo, que tinha nas veias o sangue dos bandeirantes paulistanos. Seus ancestrais ergueram cidades e igrejas, formaram famílias. Escreveu certa vez: “...sobre as mãos que teclam esta crônica, pousam as mãos de meu pai e de meu avô. As de meu pai empunhando a pena ou o bisturi, salvando vidas e apontando rumos; as de meu avô, mãos de semeador de civilização, de senhor de terras a perder de vista, transformadas em rosas que o sangue foi tornando rubras.”
O amor de Paulo Bomfim pela cidade de São Paulo era feito de ternura, compaixão, profundo conhecimento, arguto olhar sobre as mudanças ocorridas nas décadas de sua longa existência: a história de cada rua, de cada nome, de cada estátua, de cada prédio, tudo contava com minúcias, detalhes, memória clara de lago profundo. E sempre tinha um sorriso, um olhar azulado e inteligente, uma palavra generosa de incentivo e lealdade para com os amigos e companheiros de ofício. Lembro-me de sua alegria e gratidão, quando do lançamento do livro fotobiográfico Paulo Bomfim: Porta-Retratos, organizado pela jornalista Di Bonetti, em comemoração aos seus 90 anos. Exalava alegria e pureza, transparente como cristal.
Sua vigorosa poesia, que se firmou depois da fase heroica do Modernismo, buscou sempre uma linguagem essencial e dimensões temáticas como a metafísica, a social, a circunstancial, principalmente em relação à sua cidade. O editor Rodrigo Leal Rodrigues definiu-a como “uma permanente viagem através de si mesmo”, movido desde o início, “a nervos e emoções”. Pertenceu à chamada “geração de 45”, à qual se juntam nomes como Domingos Carvalho da Silva, Ledo Ivo, Thiago de Melo, Marcos Konder, Geraldo Vidigal e outros. Poetas com pendor para uma dicção erudita e a volta, nem sempre sistemática, a metros e formas fixas de cunho clássico como o soneto e a ode. Poetas que tendiam à pesquisa formal e concebiam poesia como arte da palavra, em contraste com abordagens que valorizavam o material extra-estético do texto. Poetas que reagiram a desafios históricos como a guerra fria, a bomba atômica, as lutas raciais, a corrida interplanetária, o neocapitalismo, a tecnocracia. Poetas que atingiram planos altos e complexos de integração. Poetas imagéticos, em busca de símbolos, de véus que ocultavam e, ao mesmo tempo, sugeriam sentimentos, estados da alma. Poetas que, por um lado, subestimaram o que o Modernismo trouxe de liberação e de enriquecimento cultural e, por outro, propuseram problemas importantes de poesia, com soluções mais conscientes do que nos tempos agitados do irracionalismo de 22.
A poesia de Paulo Bomfim é mesmo cheia de imagens e símbolos. Pinço alguns: há uma “nuvem que penetra a carne da manhã”, uma “cascata de pedras onde imprime seus passos de espuma”, uma parede de mundo, onde a janela se abre para “paisagens, naufrágios, cantigas e viagens”; uma campina onde dragões mastigam fogos verdes”. E de advertências para um momento de  vilezas e explorações como o nosso: “Ai daqueles que brincam com a esperança de um povo. Ai dos indiferentes, dos corruptos, dos mentirosos que fabricam a violência, a trama do medo e usam o dinheiro para prostituir, humilhar, deformar, traficar a feira dos seus mortos, enxovalhar as tradições. Ai dos que traem compromissos com o presente e o futuro, que se entregam sem lutar. Ai dos que morrem vivos.” No meio das avenidas neuróticas, das máquinas e dos roubos, o poeta, que é feito de tudo e nada, faz um apelo: “_ Mas deixai-me poetar!” Sim, poetar, até o fim, apesar de tudo.
Fazia frio naquela manhã de julho em São Paulo. Os amigos se reuniram no salão do Tribunal de Justiça para se despedirem do poeta. Por um instante, parece que vi o vulto do Príncipe, no seu terno de lã escura, empunhando um guarda-chuva negro, atravessar a rua e recostar sob um antigo lampião de luz chapada na neblina.


*RAQUEL NAVEIRA é escritora, professora universitária, crítica literária, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, autora de vários livros de poemas, ensaios, romance e infantojuvenis. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (onde exerce atualmente o cargo de vice-presidente), à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao PEN Clube do Brasil.

quarta-feira, 10 de julho de 2019




As Proezas do Soneto

Cyro de Mattos


A poesia permite  ao homem realizar-se como um ser mágico, que  consegue retirar a cegueira da matéria.  A poesia está em tudo. Procure bem, você a encontra.  Não esqueça que só o poeta a ergue no poema como testemunho de sua experiência perante a existência. Nessa corrente energética que emana da natureza humana, o soneto acontece como uma festa prazerosa de poucas estrofes.  Trata-se de uma forma fixa  de poema  com quatorze versos,  dispostos em dois quartetos e dois tercetos. O último verso é tido como “chave de ouro”,  devendo surpreender e encantar  com a sua revelação no desfecho. 
Combatido pelos vanguardistas, os protagonistas da Semana da Arte Moderna de 22 não lhe pouparam depreciações,  alardeando naquele movimento a indignação de  “fora a gaiola” contra o indefeso poema breve, além de    outras referências nada agradáveis. Sua febre imperceptível fez com que atravessasse séculos, permanecesse até hoje,  reverenciado com fidelidade por poetas modernos,   com vistas a atingir o nível superior da alma. Esse  breve espaço operacional da criatividade assim  vem sustentando  o ser em estado súbito da comoção.
A língua portuguesa ganhou em beleza e modulações rítmicas com o verso decassílabo.  Considerado  como o mais melodioso e harmonioso, é usado no soneto.  Apesar disso, é dado ao poeta que cultiva o soneto a  alcunha de soneteiro, sonetoso e sonetifero. O exímio sonetista baiano João Carlos Teixeira Gomes registra uma série de expressões em desfavor das andanças do  rejeitado  poema de quatorze versos:  “refúgio da decadência”, “gaiola da inspiração”, “bestialógico acadêmico”, “muleta da má poesia”, “cabresto da criatividade”, “onanismo poético”, “barbitúrico para insônia”, “sucedâneo de palavras cruzadas”, “museu do bolor  formalista”, “chavão de segunda ordem”,  “formalismo oco e vazio”, “museu de velharias passadistas” .
Não obstante o comportamento contundente dos que desfazem de  imbatível  criatura nanica,  sua garra  permite que continue de pé, ínfimo caminhante do  sol e da chuva   nos seus modestos passos de quatorze versos,  buscando em sua peripécia métrica e feiticeira do imaginário atingir o ponto máximo do encanto na alma do receptor.   Segue  indiferente às acusações e atropelos da legião de fanáticos,  que não o aceitam, sob qualquer hipótese. Teima em habitar com seus lampejos líricos a floresta dos poemas maiores,  de  poetas célebres  com suas criações em versos longos,  eloqüente  quantidade de  estrofes.
É dado a formar uma sequência  quando  vários poemas são ligados entre si por uma concepção e execução magistrais do tema,  como se deu com os cento e cinqüenta e quatro sonetos de Shakespeare. Outra de suas proezas quando escrito em sequência é formar a coroa de sonetos,  uma forma poética composta por 15 sonetos, que têm ligação entre si por um tema. Os  primeiros e últimos versos são versos de um outro (décimo quinto) soneto, denominado soneto-base, ou soneto-síntese.
O soneto em mãos seguras de mestres arrebata delírios, alimenta paixões, cultiva ilusões, carrega fardos, cai em desterros, colhe perdas,  ergue perjuros, dissemina encantos, enfeitiça nos vazios. Incrível, abre-se à participação de um acontecimento  raro, rico, exuberante. Transmuda-se em uma festa de  imagens opulentas, faz-se comunhão do saber aliado à beleza, espalha na vida as  suas sementes nas zonas encantatórias da beleza com síntese.
É visível que o seu procedimento fulgurante faz pensar no homem como resultado de outro ser, pleno de brilho na dimensão forjada de transcendência com  base em apetites e  desejos. Dotado dessa voz estranha,  em cuja inspiração tira o homem de si mesmo para ser tudo o que é, percebemos que o desejo posto na festa  lustrada com ritmos de versos esplêndidos é de algo que se confunde com cada um de nós. Visto como evocação, recriação de uma experiência, eis  que ressurge de uma senda que está dentro do lado noturno de  nós mesmos. Convém lembrar que essa imagem do mundo transmitida em poema com o formato breve, rígido, pode  causar ao poeta  a indiferença aos seus sonhos constrangidos, abafados no clamor de seus gemidos.
Sonoridade que serve como vínculo do verso para salientar a significação da vida, unidade rítmica que sustenta a ideia fluindo  no texto como música,  ardência que soa na rima com vibrações da palavra tradutora de inventiva rumorosa,  da qual emana com luzeiros e fulgores, procedidos como hábitos e atitudes, o  poeta eficaz aceita no soneto o desafio de exibir-se com indumentária repetitiva de inclinações breves. 
 No resultado final da imagem, o soneto, esse feitiço que perdura além do tempo, presta-se  à natureza diversa dos humanos, ao fogo do amor, que cresce como luz na treva. 


sexta-feira, 5 de julho de 2019


   



               Arte de Contar História
             
                 Cyro de Mattos  

O que é o conto? São muitas as definições que se encontram na  produção desse gênero literário, que se fez autônomo como entidade literária na sua evolução,  estruturado nos limites das  características próprias, variando, nas suas expressões, como breve história que relata um acontecimento ou  como um corte no fluxo da vida. Devido à dificuldade para precisar o que significa,  nenhuma definição basta-se  para informar   o que é esse gênero. O conto tem aparência fácil,  mas é difícil de ser escrito, como já notara Machado de Assis,  importante contista brasileiro de acontecimentos interiores.
As primeiras manifestações do conto começam através da oralidade e se perdem em tempos remotíssimos. Decorrente da convivência humana, contar história reuniu as pessoas que contam e as que escutam, em agrupamentos humanos primitivos,  com os sacerdotes e os discípulos juntos para a transmissão de ritos e mitos da tribo. No seu hábito milenar chega aos nossos tempos, à hora da refeição em torno da mesa ou perto do fogão a lenha.
Ainda sem a marca da tradição escrita, alguns acham que os contos mágicos dos egípcios são os mais antigos, remontam a 4 000 anos antes de Cristo.  Detectar as fases da evolução da arte de contar história é ir de encontro ao itinerário da própria história da humanidade, de sua cultura e dos momentos da narrativa que a representa.  Convém lembrar a história de Caim e Abel na Bíblia, várias estórias que existem na Odisseia e Ilíada, de Homero, os contos do oriente e As mil e uma noites, que da Pérsia, no século X, expandem-se para  o Egito, no século XII, e para toda a Europa, no século XVIII.
No século XIV, o registro escrito do conto ganha uma dimensão estética com o  Decameron (1350), de Bocaccio. No século XVI aparecem as Novelas Ejemplares (1613),  de Cervantes, enquanto no fim do século surgem os Contos da mãe Gansa, de Charles Perrault.  No século XVIII, La Fontaine aparece no cenário do conto como exímio  contador de fábulas, que são breves histórias vividas por animais com o fim instrutivo. .
No século XIX prevalece o conto motivado pela cultura medieval, ligado ao folclore e  ao popular. É  pelo desenvolvimento da imprensa  que o conto encontra o espaço ideal para ser publicado em revistas e jornais. O nome de Edgar Alan Poe insere-se  como fundamental no momento da criação do conto moderno. O criador do conto como unidade de efeito  propõe em sua teoria para esse gênero de curta duração na escrita o acontecimento extraordinário disposto na sucessão  dos  momentos de princípio, meio e fim. Com Edgar Alan Poe,  um projeto humano para o conto  é proposto no qual os acontecimentos obedecem a uma ordem  e se organizam  em uma série temporal estruturada.  Anton Checov vai substituir o momento do meio no conto tradicional  pela atmosfera criada com os acontecimentos interiores.  
São muitos os autores que se destacam na construção do conto moderno, ao trocar a  técnica convencional por novos meios de narrar uma  história breve. E, entre eles, Faulkner,  Jorge Luís Borges, Julio Cortázar,  Katherine Mansfield e Clarice Lispector. Transitam  esses contistas do que era disposto numa ordem linear para um discurso mesclado com feelings, sensações, percepções, fragmentos, revelações, sugestões íntimas,  monólogo ininterrupto, fluxo de consciência, labirintos do pensamento... O que era verdade para vários personagens na história clássica,  aventura e reviravolta nos acontecimentos extraordinários,  tende a ser agora a prevalência do  conflito ou labirinto do herói crítico.
O conto é uma breve narrativa do acontecimento verdadeiramente falso,  com princípio, meio e fim, na execução antiga.  É  síntese da vida, que deixa ao final uma impressão forte no seu auditório. Como querem os modernos, o conto é o corte crítico no fluxo da vida, fragmento que enfoca o conflito no espaço breve da ação ou movimento,  sem  a  importância que se dava antes ao enredo (plot).
Como acender e apagar de vagalume, obedecendo ou não  a uma ordem linear dos acontecimentos,  estruturado com simplicidade para alcançar a intensidade,  resolução do epílogo, ou como  fragmento  para externar a síntese  no fluxo da vida, usando para isso os elementos novos de sua invenção, o conto torna-se um problema quanto à sua terminologia quando incorpora à sua estrutura elementos de outras artes e novas técnicas.  É conhecido o gracejo de Mário de Andrade quando diz que o conto é tudo que o leitor aceita como conto.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

        


            O Parceiro Ângelo Roberto
                        
                    Cyro de Mattos

          
         Consagrado desenhista baiano, Ângelo Roberto nasceu em Ibicaraí, antiga Palestina, Sul da Bahia, em 1938. Estava  radicado há décadas em Salvador. Pertenceu à geração de Glauber Rocha. Figurou nas famosas Jogralescas, movimento estudantil com encenação de poetas modernos, dirigido por Glauber Rocha, no Colégio da Bahia (Central). Cursou a Escola de Belas Artes da UFBA. Participou de teatro amador, desenhou cartuns, fez ilustrações para jornais, revistas e livros de autores importantes da Bahia. Muitas exposições individuais e coletivas, no Brasil e exterior. Compareceu às duas Bienais Nacionais de Artes Plásticas na Bahia. Expôs individualmente no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Possui alguns prêmios de cartazes em salões universitários. É autor de várias apresentações de filmes de curta-metragem, tendo participado de alguns deles como ator.
Tive a sorte de ser amigo do Ângelo. Deus possibilitou nosso encontro na jornada da vida. Ele ilustrou vários dos meus livros. Foi  um parceiro fraterno,  que com seus desenhos de fina criação e conteúdo humano valoroso enriqueceu meus livros. Cito  A Casa Verde e Outros Poemas, Oratório de Natal, infantil, Poesie Brasiliane della Bahia (Poesia Brasileira da Bahia), publicado na Itália, Alma Mais Que Tudo, crônicas, e O Mundo É Uma Criança com  Palhaço e Lambança, ainda inédito, com projeto para ser publicado  pela editora baiana Kalango, neste ano.
Homem  simples, estimado no círculo de escritores e artistas baianos. Indiferente às traiçoeiras invenções da inveja.  Abria meu coração de alegria quando enviava as ilustrações  que iam figurar em algum dos meus livros.  De uma boa vontade que chamava a atenção pela repetição costumeira.   Sem querer nada de volta, a não ser o prazer que tinha  em fazer circular com o meu texto a beleza de sua arte. Tinha sentimentos dignos, inseridos,  sem esforço,  em seus desenhos para acender a luz do amor na inocência e no drama.
Foi um dia com as cores ressentidas de pesar  quando soube que o amigo Ângelo  havia nos deixado para  morar em outras paragens,  as quais no lado dos que ficam  expandem-se em mistério e no esquecimento. Aquele homem solidário, de boa prosa.  Quando se encontrava comigo em algum lançamento de livro  em Salvador,  na Academia de Letras da Bahia, por exemplo,  gostava de reviver  suas raízes provindas de Ibicaraí. Lembrava parentes e velhos amigos, gente que conviveu com ele na cidade natal, em tempo de infância. A conversa ficava animada e tomava ares de saudade incontornável  quando se dava com Mariza, minha esposa, sua conterrânea,  da mesma geração dele no chão de nascimento.
Tomo conhecimento que Marlene, a esposa de Ângelo, com a filha Naia,  teve a iniciativa de homenagear em boa hora a memória desse saudoso amigo, com a publicação póstuma de seu livro O Mistério do Arco-Íris, uma fábula para o público infantil. Ângelo diz na  escrita com os ares da pureza  que a  vida  só é possível com a amizade. Viável com os dias solidários, cheios de esperança.  Fiquei surpreso quando vi que  na última página desse pequeno grande livro consta o registro seguinte: “Ilustrador de mais de dez livros  de poesia e prosa do velho amigo, o escritor Cyro de Mattos, acredita (Ângelo)  que o fato de ilustrar seus  livros infantis, lhe deu a coragem para  retirar da gaveta esta velha história do arco-íris.”
          Claro que fiquei lisonjeado com a revelação do parceiro.  Se o Ângelo, em vida,  tivesse me dado para ler O Mistério do Arco-Íris,  não hesitaria em dizer-lhe:  “Amigo Ângelo, escreva mais livros para crianças, você sabe das coisas.” Encanto e graça nas asas da beleza,  foi o que eu senti quando fui arrastado pela  história de  O Mistério do Arco-Íris.  Os desenhos criativos como sempre dão  a sensação de pessoas se movendo num cenário vivo,  de tons que fazem bem aos olhos, de  rostos  nos  quais emanam  momentos  do riso,  de um lado, e, no outro, acalmam com a leveza dos gestos.     
        Conhecia Ângelo Roberto como desenhista dos bons,  o poeta do traço, como era chamado,  de fina  forma e conteúdo pontuado de lirismo.  Com O Mistério do Arco-Íris eis que passo a conhecer o autor de uma história interessante destinada à criançada,  mas que serve para o adulto amante de poesia  em prosa delicada,  ritmada de afeto e surpresa agradável. Delícia. 

*O Mistério do Arco-Íris, Ângelo Roberto, Pimenta Malagueta Editora,  Salvador, 

quinta-feira, 6 de junho de 2019






Pássaro Acauã

                                                                   Cyro de Mattos


 O canto agourento quando canta no galho seco. Cruz-credo, não sossega, com que insistência magoa o peito. O tempo anuncia com estiagem demorada, canta perto e longe. Céu de fósforo o amanhecer, forno quente no poente. Bocas na amplidão de fome e sede. Os pais, a mulher, os filhos pequenos, todos ouvindo o canto atanazado, ferindo os tímpanos. Manhãs e tardes. O pai: Não esmoreça nem desespere. Espere   que cante no galho verde. Lembre disso: No galho seco é do demo. No verde, canto bendito, o melhor tá pracontecer. O céu junta fiapos de nuvem no começo. Não demora de escurecer o teto. Vem chuvisco de primeiro, chuva de segundo, no fim aguaceiro. Relâmpago, trovão, temporal. Vento valente vira vendaval. Terra e água, uma só liga, mundéus. Quando o sol então abre o olho, a flor brota do chão humoso. Tronco morto vira árvore, o gavião rei amanhece. Pelos ares circulam  cantos, nas folhas o brilho dos pingos, no seio da natureza generosa tudo é festejo.
         Atravessar males da estiagem, ouvindo o canto agourento, veja que Deus tarda,  mas não falha, eis que um dia vem cantar no galho verde. Bom lembrar que acontecerão as  flores,  virão pra compensar os sentimentos esvaídos quando o canto é triste, repetido. O pai ouviu isso do avô, que ouviu do bisavô, que ouviu do trisavô, que ouviu do tetravô, que ouviu do tempo infindo.
         Crendice besta de velho sem juízo. Fizera pouco dos ditos, os ouvidos entupidos praquele tipo de iludição. O que existe mesmo pro pobre é trabalho muito e o pouco de-comer, vidas secas, destino. Pobre nasceu  pra ter na vida só secura, foi o que se deu com o pai, a mãe, os irmãos pequenos. Como dói olhar as cruzes deles nas covas junto do lajedo. Lembrar dos corpos com pele  e osso. Olhos mortiços.  
         Agora enfrenta essa estiagem braba há quase um ano. Nada pode fazer. Como brasa céu e margem. A história novamente acontece. Canto, encanto, desencanto. Frutos murchos, folhas mortas, choro oco, grito sem eco. Ele e o deserto, só deserto. Ares da morte nas pedras, tocos, troncos. Diabo de canto resinguento. E ainda o coro dos filhos nos  pedidos: “Tou com fome, tou com sede.” Surdo ele, muda a mulher. O coração de cada um doendo, a fome roendo nas tripas.
         Quem tem medo de acauã?
            Rumores, clamores, tremores: humanos anseios. Sonha com a chuva, no íntimo querendo ver a flor, o fruto,  pegar o verde. Inundar o olho alegre pela terra como brasa verdejante, de tanta beleza e brilho.  A-c-a-u-ã, a-c-a-u-ã, a-c-a-u-ã, o canto do Cão no arvoredo seco. Tenso apalpando, segue ouvindo, desespero no corpo, raiva  marca o ritmo da mente. Mira perfeita, dedo no gatilho, a bala bem no peito.do bicho. Como se saísse pela goela seca, latejando  ódio, vendo o bicho cair junto aos pés. Troço nojento, tão ruim quanto veneno!
         Quem falou que emudeceu? Na serra, baixada, jaqueira no terreiro. Depois do acontecido, mais cantou. Que estranha magia rege este canto secreto? Psiu, veja, homem de Deus,  chuvisco, daqui a pouco chuva, em pouco tempo aguaceiro. É mesmo?
         De cara virada  para o céu, chumbo, a chuva como chumbo  batendo na terra, o pai não disse? Esqueceu? Por que não quis ouvir o que os mais velhos bem conhecem? Encharcando-se, sentado no cepo do ipê,  lambendo os pingos. Do estômago à boca há um  gosto diferente. Sal de lágrima misturada com a água que cai do céu. Escorre  bendita por entre rachaduras, noites mal-dormidas. Ele todo febrento. Não é que o bicho cantou no arvoredo verde? Enfim, os olhos com visões alegres: capim chovido, a natureza toda alaridos.
         Solitário, cabisbaixo, a tristeza de dentro dele quer saber:  O que é, o que é, põe o sol como hóspede no arvoredo seco,  esperança no galho verde quando quer?
 A noite  envolve o casebre com as paredes de adobe exalando o cheiro de barro molhado. Ferrado no sono. Decerto um  canto propaga-se no sonho, atravessa caminhos sob o silêncio da noite turva. Preserva o mistério das falas. Sabe o flagelo do sol, o prazer da chuva.
De jejuns, de água. Desencanto ou encanto. Lá fora quieto. Por enquanto.  


terça-feira, 4 de junho de 2019


                 


                Euclides Neto e Seu Romance  Machombongo  
          
                                Cyro de Mattos


          Se com o romance Comercinho do Poço Fundo ( 1979) e a novela Os genros (1981) o ficcionista Euclides Neto passa a ocupar um lugar de destaque na expressiva literatura da região cacaueira na Bahia, é com o livro Machombongo (1986) que o escritor de Ipiaú consegue realizar a sua obra de ficção mais bem estruturada em termos de novelística moderna.
          Escritor que dá, em alguns de seus romances, um testemunho significativo de acontecimentos e vivências nas terras do cacau, outrora ricas,  registrando emoções, expressões e cenas típicas de uma realidade que tão bem conhece, Euclides Neto não coloca no coração do camponês a alegria que ele não possui. Não caminha também por certo regionalismo espiritual em que as impressões colhidas pelo ficcionista vão formando o clima da história, a atmosfera que sustenta a narrativa, deixando num plano secundário o ambiente onde os personagens vão mover seu drama.
        Euclides Neto não transfigura a realidade da região cacaueira na Bahia e nesta não instaura um império de tragicidade por onde as criaturas terão de inexoravelmente cavar as próprias sepulturas. O seu compromisso é antes de tudo com a realidade social, de exploradores e explorados em torno da lavoura cacaueira, da terra que brota o seu processo econômico com novos aspectos nos tempos atuais.
             Escritor experimentado, fiel à problemática social de sua região, Euclides Neto evita a gratuidade de certo esteticismo regionalista. Com um estilo vigoroso, impregnado de oralidade, muitas vezes com a linguagem recriada de maneira feliz, o romancista em Machombongo mais uma vez mostra ser conhecedor de sua arte, da psicologia de sua gente, da condição de miséria em que populações abandonadas vivem em sua região. E com isso nos dá em Machombongo um romance que é o resultado bem-acabado de ficção imbricada na realidade, envolvendo aspectos sociais, econômicos e culturais do homem como animal político.
        Machombongo trata dos desmandos do deputado Rogaciano, homem prepotente e atrabiliário, fazendeiro de cacau e pecuária, que antes do golpe militar de 64 já possuía muitas terras, mas que foi ampliando seu império durante o tempo da ditadura, quando passou a ter ampla influência na vida dos habitantes de sua região, no sudoeste baiano. Romance poderoso, de tema atual, relato da escalada ao poder do deputado Rogaciano em um teatro típico, com suas implicações psicológicas do coronel da região cacaueira na Bahia.
          Romance que, se fosse assinado por Jorge Amado, teria certamente grande ressonância no Brasil e, como sempre, correria o mundo.


·        Cyro de Mattos é poeta e escritor. .

sábado, 25 de maio de 2019


                       



                              O Doce

                  Cyro de Mattos

Coloquei um doce bom
Na boquinha de meu bem
Quando a mulher ama
Que doçura o homem tem.


Filhos, netos, parentes, de bom gosto alardeavam o feito incrível alcançado pelo pai. . Caso raro no planeta.  Alcançara a marca de 102 anos de idade. A comemoração festiva, os familiares, a cada ano do aniversário.  Ele nem ligava. As vozes fraternas  pelos cômodos da casa modesta.
Falava, escutava, cantarolava baixinho.
Gostava de pegar o banquinho, a enxada com o cabo pequeno. Sentava-se no quintal, Ali,  extirpava a erva  daninha, paciente. Lavrador desde jovem, hábito que cultivava prazeroso na passagem das estações. Mexia nas  veias e nervos, a tendência para lavrara a terra, lavouras de curta duração.
O  tempo, benevolente,  de mansinho ia sustentando-o. Ajudava a carregar as porções da vida na cacunda.
Morava com a filha Nicota, costureira de mão cheia, enviuvara   quando  andava nos seus 85 anos. Não tinha filhos, da vida não se queixava.
Pela manhã, com o sol quente, encerrava o agrário ritual pelo quintal.
Pela tarde, tirava um soninho, depois de fazer a refeição do almoço. Constava apenas de mingau de aveia e um copo de limonada.
Voltava à tarde ao ritual no quintal quando o sol esfriava. 

“Tá na hora de tomar seu banho”, dizia Nicota, chamando-o à porta da cozinha, que dava para o quintal. 
Recolhia-se para o banho fresco. Arrumava com cuidado  os cabelos ralos, a cabeça miúda.  Aparecia na sala para a última refeição do dia, mais uma merenda. Chá de cidreira com bolacha ou rodelas de pão torrado.
Quando havia visita da vizinha ao lado, aparecia na sala. Perfumado.   Os olhinhos miúdos, como duas contas, brilhavam. Vestido de camisa e calça azul, de mescla. A roupa engomada com cuidado pela Nicota, como ele pedia sempre.
Dizia para a visita:
- Dona, me arranje uma namorada.
A vizinha Lenilda,  viúva oitentona,  sorria.
Doceira de mão cheia, de voz macia, dava água na boca só de pensar nos doces que faziam as mãos dadivosas da vizinha Lenilda. 
A cada visita da vizinha à filha Nicota, na encomenda de um vestido ou blusa com florzinhas,  o pedido dele  não faltava.
- Me arranje uma namorada, dona...  te dou um doce.
Um dia, a vizinha apresentou-se como a eleita, que tanto ele procurava.  Alegre, a voz  cantante, maviosa.
Casamento no padre e no juiz. Casório bastante comentado na cidadezinha, aplaudido por uns, desaprovado por outros.
Agora, ao invés de oferecer um doce à antiga vizinha, ganhava dela  vários doces, uma delícia nos ingredientes caprichados. De abacaxi, goiaba,  batata doce, carambola, laranja, mamão, banana, jaca e até de bala de jenipapo. Tinha também  o de pudim de tapioca.  Uma gostosura.
O doce de leite era o  que ele mais gostava. 
Não cansava de elogiar o predileto. Chegava a chorar, de tanto comer esse tipo de doce. Se não recebesse um freio da Lenilda,  era capaz de acabar com a vida ali mesmo, de tanto comer e se lambuzar de doce de leite.





domingo, 12 de maio de 2019


                                       


                                      Mãe
       
                                            Cyro de Mattos
        
                

                   A  mãe era afeto, dedicação, bons conselhos. Apressada dizia: “Menino, já para dentro,  que  vem o vento ventoso   levado, levando cisco!   Menino, já para  dentro!” Alertava: “ Boa romaria faz  quem em sua casa está em  paz.” Gostava de fazer adivinhas.  Sobre o sol:  “ O que é,  o que é, o ano todo no deserto o mais quente é?”  Para estimular na resposta correta, ela recomendava: “Responda certo como um menino esperto.” De pura carícia era a adivinha sobre a própria mãe.  “O que é,  o que é, o beijo da noite, de dia a melhor sombra é?” Para facilitar na resposta dizia  que todos os dias essa pessoa acompanhava de coração  o filho onde ele estivesse. 
           A casa era pequena, mas os dias tinham sempre as  mãos zelosas da mãe. Colocavam nos vasos aquelas  rosas,  como sonho deixavam a manhã rosada e perfumada. Esbanjavam pelos ares só ternura. Davam vida à máquina de costura as suas pernas ativas. Os bordados, como beleza tecida por mãos até certo ponto divinas, ganhavam admiração de quem fizesse a encomenda e fosse recebê-la pronta.   Como o mundo de Deus era grandão. Os  doces que a mãe fazia   cativavam com açúcar.
        Uma mãe  é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe, ela  disse. Só depois como homem crescido,  o filho saberia o sentido justo do que  ela quis dizer com isso. Conheceria então   nos dias quanta falta suas mãos faziam, pois já não mais  cuidavam, não limpavam os caminhos do filho na lei da vida, agora teria  de ser sem ela   a  travessia.
        - Você quer ser peixe ou ser gente? – preocupada,  a mãe perguntou. - Primeiro a obrigação, depois a diversão, você só anda agora nadando e pescando no rio com o bando de amigos.  Finalizou e se dirigiu  calada para a cozinha.
          Com os queridos amigos, o filho nadava, mergulhava e pescava no rio,  que descia sereno com as águas de fontes puríssimas, dividindo a cidade em duas partes. Ultrapassava os seus limites na aventura da vida e alcançava as linhas do horizonte.  A mãe comungava com o desejo do pai. Sonhava com o filho formado  na profissão de advogado. Ao lado do marido,  não poupava esforços para que isso acontecesse um dia. O filho foi estudar interno no Colégio Irmãos Maristas,  em Salvador. Foi quando o tempo cor de sombras hospedou-se no corpo da  mãe com a doença traiçoeira. Não sabia  como,  em Salvador, conseguia estudar à noite no quarto enquanto ouvia no outro os gemidos da mãe. Doíam, como doíam. Das noites sem madrugada não houve nela revolta enquanto perdurou a agonia. Sem abraçar o rancor, escondia o choro no travesseiro.
        Sem esquecê-la, anos depois, andou solitário nas terras longes. Certo dia,  entre medos e sombras,   pressentiu  que as horas ultimavam  a vez de a mãe ser do vento memória. Chorou. Teve  saudades de si. Procurou  razões que explicassem essa hora do inevitável,  a mais certa de nossos momentos.  Nada, nada achou  nessa noite que se cobre com um sossegado manto eterno.   O que é, o que é, viver para morrer? Eis a questão, ser ou não ser. Quem é o mais sábio dos humanos que já achou a  resposta certa dessa adivinha? Cada um no seu canto, nesse  vale de lágrimas,  sofre o seu tanto, dissera a mãe.  


·        Cyro de Mattos é escritor e poeta. Da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.



quarta-feira, 1 de maio de 2019


            


                       Louvor da Virgem Maria
                       
                                Cyro de Mattos

A imagem da Virgem Maria era guardada no nicho de cedro. Permanecia no altar, embaixo de Jesus crucificado pendurado na parede.  A mãe forrava o pequeno  altar  com um pano de linho branco. Havia no oratório  jarros com flores, velas nos castiçais, eram acesas quando a mãe ia fazer suas orações.
       A mãe organizava a  pequena procissão, ela conduzia à frente a imagem da Virgem Maria, as outras mães seguiam  formando duas filas nas laterais da rua,  uma de cada lado, no meio as crianças levavam flores nos braços. As velas acesas, os cânticos e as rezas pela rua. A procissão saía da casa  onde a mãe morava e terminava em outra, que podia estar localizada na rua de cima. Ali, a imagem da Virgem Maria era entregue à dona da casa, que estava pagando uma promessa. O filho havia sido lembrado pela santa, fora salvo de uma doença que atacou o fígado da criança, já estava desenganada pelos médicos. A mãe em desespero não sabia mais o que fazer. Rogou à Virgem Maria pela salvação do filho e fez a promessa. Obteve a graça.
       Os rostos contritos, as rezas e os cânticos  na rua por onde  passava a pequena procissão, atraindo pessoas, que apareciam no batente das portas ou vinham até  as janelas.

                 Ave, ave, ave, Maria!
                 Ave, ave, ave, Maria!
                 Aos treze de maio
                Na Cova da Iria
                Aos três pastorinhos 
               Apareceu a Virgem Maria.

               Ave, ave, ave,  Maria!
                Ave, ave, ave,  Maria!

      Soltavam fogos coloridos, adrianinos e foguetes  quando  a  imagem da Virgem Maria era entregue pela mãe à dona da casa, que havia  alcançado a graça e estava pagando a promessa.  A imagem da Virgem Santa permanecia nove dias na casa da dona da casa, quando então era rezado à noite o terço  com as filhas de Maria. Quando a imagem da santa regressava  para a sua casa de origem, a mãe vinha recebê-la na porta.A seguir, rezava-se o terço. No final da reza soltavam-se de novo fogos coloridos.
       Com os corações contritos, terminada a reza, os que participavam da devoção à Virgem Maria regressavam  às suas casas. No outro dia a imagem da Virgem  era guardada no nicho.
       Era assim que, na cidade com cerca de vinte mil habitantes, a mãe e outras mães demonstravam o seu amor e a sua fé por  Nossa Senhora.      
       Todos os anos.  


·        Cyro de Mattos é escritor e poeta com prêmios literários importantes, no Brasil e exterior. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia,  Pen Clube do Brasil e  Ordem do Mérito do Governo da Bahia, no grau de Comendador.