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quinta-feira, 26 de março de 2020


        


         Câmara Municipal de Salvador
         Faz Homenagem  a Cyro de Mattos
        Com  Medalha Zumbi dos Palmares
        
O projeto de Resolução N* 16/2020, da Câmara Municipal de Salvador, publicado no Diário Oficial,  em 20 de março de 2020, concedeu ao escritor baiano Cyro de Mattos a Medalha Zumbi dos Palmares, uma das mais altas honrarias daquela instituição legislativa.  Foi criada para homenagear  a pessoas atuantes no combate ao racismo, discriminação e intolerância na cidade de Salvador e Bahia, bem como na valorização da cultura do negro afrodescendente baiano. .
O projeto  é de autoria do professor e vereador Edvaldo Brito, que salienta em sua justificativa a ênfase  que o autor baiano vem dando na sua vasta obra para a valorização do  negro,   através de publicação de  contos, crônicas,  poemas e artigos, em especial com os seus livros O Menino e o Trio Elétrico, Prêmio  da União Brasileira de Escritores (Rio), também editado na Itália, Natal das Crianças Negras, em seis idiomas, e Poemas de Terreiro e Orixás, das Edições Mazza (BH).
        Em Natal das Crianças Negras, Cyro de Mattos conta  o encontro pela primeira vez de duas crianças negras e pobres com   Papai  Noel na véspera de Natal. Na loja de brinquedos, o  velhinho aparece na telinha da televisão, de rosto alegre,  com suas promessas de presentear as crianças naquele dia cheio de inocência e esperança.  As crianças  Bel e Nel colocam os chinelos na janela. No outro dia, nada encontram neles. E então souberam que o Natal era a lágrima  que pelo rosto descia. Já em O Menino e o Trio Elétrico,  narra a história de Chapinha, um menino pobre e negro, que vende amendoim  no ônibus para ajudar  a mãe viúva e a vó Pequena no sustento  da vida.  Ele sonha  em ter  o seu abadá  para  sair atrás de um trio elétrico de arromba,   puxado por um astro da música popular baiana, mas em face de suas condições  pobres não vê como esse sonho possa ser realizado.  Cyro toca aqui  nas contradições do carnaval baiano, bom para turista se divertir e quem tem condições econômicas de viver  a festa   Em Poemas de Terreiro e Orixás, comparece com o seu modo solidário e encantatório de pensar o negro. Sentimentos refletem um jeito comovente de ser negro, ritmado no canto vindo da África, que transforma a alma em crença e magia.  Imagens dizem de coisas tristes,  que não se apagam no rastro das distâncias, na sucessão infeliz dos momentos e gritantes  situações adversas.   

















Prefeitura de  Recife Adquire 12 Mil Exemplares de Livro Infantil de Cyro de Mattos

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A Prefeitura Municipal de Recife acaba de adquirir doze mil exemplares de “Lorotas, Caretas e Piruetas”, de  Cyro de Mattos, livro de poesia infantil   publicado pela Editora  RHJ, de Belo Horizonte, com ilustrações de Luís Sartori do Vale.  O livro foi selecionado  e aprovado no Projeto –  Programa de Desenvolvimento  da  Educação e da Gestão Pública da Prefeitura Recifense, entre dezenas de autores brasileiros do gênero.  A Prefeitura de Recife destinará os exemplares  à rede escolar pública e privada, bibliotecas e instituições culturais.
“ Lorotas, Caretas e Piruetas”  recebeu  o Prêmio Alice Maria da Silva, da União  Brasileira de Escritores, RJ, em 2012. Reúne poemas em torno do mundo encantado e divertido do circo. Os personagens e cenas circenses compõem esta divertida coletânea de poesias. Os extraordinários versos com as peripécias  dos  palhaços brincam com o ritmo e os  sons das palavras, em poemas que garantem  a leitura ainda em processo e  alfabetização. Na Bienal Internacional do Livro de Minas, em 2012, escolas  de Belo Horizonte fizeram teatrinho dos poemas enquanto o autor recitou vários deles, como o Palhaço Sansão, Palhaço  Bom de Briga e o Palhaço Perguntador.
Ficcionista e poeta, Cyro de Mattos é membro das Academias de Letras da Bahia e de Ilhéus, Doutor Honoris  Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020




AINDA FACULDADE DE DIREITO

Cyro de Mattos



Ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia quando era localizada na Praça da Piedade, nas imediações do Gabinete Português de Leitura, terminando o curso no prédio novo  construído no Vale do Canela.
Informo que na minha turma da Faculdade,  idos de 1958 a 1962, havia o deputado federal Raul Ferraz, o deputado estadual Arquimedes Pedreira e a Desembargadora Lucy Lopes Moreira. O pensador social João Berbert, o que se foi tão cedo na viagem sem regresso. O padre Jair e o pianista Mário Boavista. Havia também uma juíza da Justiça do Trabalho, Marietinha, a pequena notável. Um juiz da Justiça Comum, Artur Caria, que usava óculos de lentes fortes, e o jurista Dylson Dórea, a causar espanto com o brilho de sua memória. O casal João Pedro e Célia, os noivos Eduardo Adami e Lícia. A estonteante Ynessa. O empresário Marcelo Gomes, alegre baterista do conjunto que tocava na faculdade, à noite, aos sábados. O nigeriano Edvaldo Brito, tributarista admirável, ‘’croner’’ do conjunto e o orador da turma. O civilista Antônio Luís Calmon Teixeira, de fino trato e jeito manso, campeão imbatível de pesca submarina nas águas do Rio Vermelho. O sinfônico Afrânio, tocador de oboé e outros instrumentos de música erudita. Os craques Adalberto, Jair, Marcelo Santos e Cadilaque. O filósofo Álvaro Peres, o poeta maior Ildásio Tavares, o magnífico romancista João Ubaldo Ribeiro e o arguto crítico literário Davi Sales.
Ressalta o cronista as molequeiras do delegado Dermeval Pó-Secante. As aventuras do Mascate Edvaldo Bispo, consagrado por tribos comedoras de gente como “O Grande Cacique Turgulês”, quando das suas negociações de terras devolutas no Baixo, Médio e Alto Amazonas. O faro incorrigível do promotor Cícero de Magalhães para descobrir as batidas mais gostosas nos botecos escondidos da Cidade Baixa. Os estudos abalizados do recatado Vilaboim, sempre recolhido à elaboração do vigésimo e último volume da primeira parte de seu Tratado Puro de Direito Internacional decorrente do comportamento atávico do urubu nas correntes aéreas.
Se lembrar é maneira de conhecer a vida, amá-la no vertical aceno das distâncias, como é bom saber que tive dentro daquela faculdade uma juventude marcante, a inscrever no tempo um calendário feito de sensações ricas, gestos discordantes e atos solidários. Discussões acaloradas aconteciam num ambiente de companheirismo, as opiniões se fazendo livres em seus ritmos de passagem. O pensamento ideológico conflitava-se e terminava muitas vezes em amizade permanente, o ideal dava lugar às relações cotidianas fora das dimensões críticas.
De anel no dedo e diploma na mão, regressaria ao Sul                                                                                 da Bahia com muitas lembranças agradáveis de meus idos acadêmicos na gloriosa Faculdade de Direito. Depois de muitos anos de militância profissional, questionando o percurso do moço do interior que se fez advogado, proclamaria dentro de mim a certeza dos que não se agacharam neste chão verbal  da lei com suas ervas daninhas nestes versos:
           
         “O sinete cônscio sempre
            para deslindar os cipós
            na terra a se fazer limpa
            refrescada pela chuva
            fecundada por um sol
com seus raios quentes
na pauta e julgamento,
o mundo desses crimes
nos porões e sonhos
de minha própria lei”.

                                 



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020






Prefeitura de  Recife Adquire
12 Mil Exemplares de  Livro
Infantil de Cyro de Mattos



        A Prefeitura Municipal de Recife acaba de adquirir doze mil exemplares de “Lorotas, Caretas e Piruetas”, de  Cyro de Mattos, livro de poesia infantil   publicado pela Editora  RHJ, de Belo Horizonte, com ilustrações de Luís Sartori do Vale, correspondendo ao valor de 120 mil reais. O livro foi selecionado  e aprovado no Projeto -  Programa de Desenvolvimento  da  Educação e da Gestão Pública da Prefeitura Recifense, entre dezenas de autores brasileiros do gênero.  A Prefeitura de Recife destinará os exemplares  à rede escolar pública e privada, bibliotecas e instituições culturais.
        “ Lorotas, Caretas e Piruetas”  recebeu  o Prêmio Alice Maria da Silva, da União  Brasileira de Escritores, RJ, em 2012. Reúne poemas em torno do mundo encantado e divertido do circo. Os personagens e cenas circenses compõem esta divertida coletânea de poesias. Os extraordinários versos com as peripécias  dos  palhaços brincam com o ritmo e os  sons das
palavras, em poemas que garantem  a leitura ainda em processo e  alfabetização. Na Bienal Internacional do Livro de Minas, em 2012, escolas  de Belo Horizonte fizeram teatrinho dos poemas enquanto o autor recitou vários deles, como o Palhaço Sansão, Palhaço  Bom de Briga e o Palhaço Perguntador.
         Ficcionista e poeta, Cyro de Mattos é membro das Academias de Letras da Bahia e de Ilhéus, Doutor Honoris  Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020





AUSCHIWTZ NUNCA MAIS
           
                                                          Cyro e Mattos 

Foi há pouco mais de meio século. Libertado pelos soviéticos, Auschiwtz era o maior campo de concentração, onde os alemães eliminavam milhares de judeus sob o ritmo implacável de um programa com incrível capacidade de persistência. Selecionavam homens, mulheres e crianças. Separavam os pais dos filhos, as mulheres dos maridos. Formava-se o grupo dos condenados à morte, o dos trabalhadores forçados, sendo que todos eram despojados de sua identidade cultural, substituída pelo número de série tatuado no pulso. Como gado que vai para o matadouro, criaturas indefesas apertadas nos vagões. Desapareciam sem que pudessem dizer adeus com esperança. Eram sombras, vestígios, pontos obscuros que se esfumavam ao longe.           
            Diante dos soldados do Exército Vermelho, em 27 de janeiro de 1945, muita gente morta, pessoas enforcadas e outras queimadas. Como o ser humano conseguia construir monstruoso absurdo e o que o tornava possível? O mundo não estava preparado para achar uma resposta ao horror executado pelos alemães nos anos do holocausto.                             Uma nação moderna, com a sua cultura requintada, que dera ao mundo homens como Bach, Mozart, Beethoven, Haendel, Goethe, Hesse, Thomas Mann, Rilke, Kant, Hegel, agora bloqueava um povo, recuava-o para os subterrâneos mais indignos, sugava sua identidade cultural, liquidava seus corpos e fazia com que o bem e o mal coexistissem numa vizinhança das mais imprevisíveis,  quanto mais niilista.
           Os corpos eram usados para experiências absurdas. Almas sem clamor e pequenos corações viviam aterrorizados sob a expectativa de que só sairiam de Auschiwitz pela chaminé,  reduzidos a cinzas. Tudo acontecia de maneira imperturbável. A fera ressurgia da antiga caverna para galopar nas trevas. Não concedia a trégua, bania a pomba na légua, só queria a selva, como se o amor fosse inútil e o absurdo fosse o horror na relva. O mal não tinha limites.
Como se os Direitos do Homem ainda não tivessem sido proclamados.  Foi há pouco mais de meio século. No século que celebrava os tempos modernos, da aviação, cinema e psicanálise. Fornos crematórios reduziam a cinzas milhares de judeus. Morriam com a sua mais difícil prova, a de que eram inocentes,  indefesos, e sem qualquer possibilidade para contradizer uma condenação sem sentido.  Naqueles idos de 1945, do lado de cá, numa cidade do interior da Bahia, um menino era levado pela mãe para aprender as primeiras letras no prédio escolar. Não sabia que milhares de habitantes da Europa eram reduzidos a cinzas por homens que se elegiam filhos de uma raça superior, sustentada em sua feição ariana por botas de ferro de soldados impassíveis.     
O menino assistiria a vitória do amor com o desfile sonoro do povo nas ruas e os sinos tocando na cidade pequena. À frente do desfile, um homem, baixote e gordo, levava uma tabuleta com esses dizeres: AUSCHIWITZ NUNCA MAIS. Era o gringo Leone Leibowitz, um judeu lituano que tinha uma loja de calçado, chapéu e tecido na rua do comércio. Vendia barato e ninguém entrava na sua loja para não comprar um sapato, chapéu ou tecido. Tinha uma maneira de falar engraçada, misturando o lituano com o português das terras do sul da Bahia.  Quase sempre o freguês demorava de  entender o preço exato que ele dava a um chapéu ou sapato. Gostava de fumar Yolanda Azul. O cigarro apagado ficava esquecido no canto da boca durante bons minutos. Não fazia mal a uma mosca.                                                                
           Os meninos de meu tempo gostavam muito dele.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020





Livro Infantil de Cyro de Mattos Foi Atração
no Festival Literário de Senhor do Bonfim

Com uma programação pra lá de especial, o  primeiro Festival  Literário de Senhor do Bonfim foi realizado em 19 e 20 de dezembro de 2019,  movimentando   o Centro-Norte da Bahia através  de encontros fascinantes entre os leitores e os livros.   Contou  para isso com uma série de eventos e, entre eles, na parte de contação de histórias,foi apresentado o livro infantil Minha Feira Tudo Tem Como Onda Vai Vem, de Cyro de Mattos, publicado pela editora Via Litterarum.

. A  Biblioteca de Extensãodo Estado (Bibex) teve dessa vez como ponto de parada o Festival Literário de Senhor do Bonfim (Flisbon), sendo esta a primeira edição do evento que patrocinou  na região.  A unidade da Bibex é integrada ao Sistema de Bibliotecas Públicas da Fundação Pedro Calmon (FPC), órgão da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA).
Foi esta a programação do Flisbon:
Quinta-feira (19):
9h às 12h – Exposição Bibliográfica;
9h às 12h – Visita à Biblioteca Móvel;
9h30 – Contação de História: O poderoso chinelinho. Autora: Patrícia Gonçalves;
10h30 – Entretenimento Cultural – Brincadeiras Educativas;
14h30 – Contação de Histórias: Minha feira tudo tem como onda vai e vem. Autor: Cyro de Mattos;
15h – Oficina Criativa: Origami.
Sexta-feira (20)
9h às 12h – Exposição Bibliográfica;
9h às 12h – Visita à Biblioteca Móvel;
9h30 – Contação de História: Mauro e o pé de pitanga. Autores: Camila Baqueiro;
11h – Oficina Artística: Pintura, desenho e colagem;
14h30 – Contação de Histórias: O rei bigodeira e a sua banheira. Autor: Awdrey Wood;
15h30 – Oficina Criativa: Primavera.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020






Editora de São Paulo Publica
Novo Livro de Cyro de Mattos


              A Editora Penalux, de São Paulo, acaba de publicar “Histórias de Encanto e Espanto”, livro que deu ao escritor baiano Cyro de Mattos o Prêmio Literário Nacional Cidade de Manaus, em 2018. Nas  dezesseis  “Histórias de Encanto e Espanto”,   encontram-se o dramático e o lírico, nos quais  certas  manifestações  do amor,  da tristeza,  do riso, da violência,    do  encanto e  do  espanto são  inventadas  graças a uma aguda compreensão da natureza humana.  Nestas narrativas de prosa prazerosa, percebe-se que Cyro de Mattos  dá continuidade ao seu projeto de ficcionista genuinamente brasileiro. 
As dezesseis histórias apresentam-se  em sete blocos, conforme o assunto. Os blocos com as respectivas histórias são estes:  1)  Histórias Enlaçadas no Amor -  As Ligações do Padre com  a Vizinha, Do Amor Desfeito e  Outro Mais Que Perfeito; 2)  Histórias da Velha Cidade - Seu Bem Maior, Os Negros; 3)  Histórias dos Mais Vividos - Um Homem  Muito Feliz, Uma Índia Chamada Kinani; 4)  Histórias do Riso - Fim de Carreira do Goleador,    O Rufião Simão dos Prazeres Neto e Joaninha da Mata Virgem ; 5)  Histórias  de Encanto e Espanto -  História de Vovó Maria da Guiné , Narrativa de Beda Cigano; 6)  Histórias do Calendário Triste -    Restos da Mata, Pelas Águas,  Menina de Rua; 7) Histórias Naquele Fim de Mundo -  O Cavaleiro Vingador contra o mandão da Crueldade,  Os Primitivos ou o Longo Curso da Violência, Nas Bandas de Tabocal.                                                                           
    Em artigo publicado no “Jornal de Letras” (Rio, 1980),    Jorge Amado referiu-se   à  personalidade vigorosa e original de Cyro de Mattos, à  condição humana dos personagens que surgem do seu conhecimento e emoção,  sem qualquer espécie de  artificialismo. Essas particularidades fazem com que “o autor  de Os brabos  pise chão verdadeiro, toque a carne e o sangue dos homens, entre sombras e abismos.”  O crítico Alceu  Amoroso Lima, relator do Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, concedido a Os brabos,  revelou ter encontrado neste livro “ narrativas dramáticas e brasileiríssimas, por seu tema e  por sua linguagem.”  Completou o seu pensamento: ‘Escritor visceralmente nosso... admirável  ficcionista.”
Cyro de Mattos nasceu na cidade baiana de Itabuna, em 31 de janeiro de 1939. Graduado em Direito pela Universidade Federal da Bahia. Contista, novelista, romancista, cronista, poeta, autor de livros para jovens e crianças, organizador de antologia e coletânea.  Publicou cinqüenta livros pessoais no Brasil, quatorze  no exterior e organizou nove antologias. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado em Portugal (quatro livros), Itália (seis livros), França (um livro), Alemanha (um livro),  Espanha (um livro) e Dinamarca, novela, ao lado de Mário Vargas Llosa, Alejo Carpentier, Jorge Luís Borges, Júlio Cortázar, Juan Rulfo,  Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, entre outros autores da América Latina. Participou como convidado do Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra, Portugal, Feira Internacional do Livro de Frankfurt, Alemanha, Encontro de Poetas Iberoamericanos, em Salamanca, Espanha, e Festa Internacional do Livro de Cachoeira (Fliqinha), Bahia.  Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna.  Diretor Presidente do Centro de Cultura Adonias Filho, da Fundação Cultural do  Estado da Bahia,  com sede em Itabuna, atuação para o  Sul da  Bahia, e Presidente da Fundação Itabunense de Cultura.

     Transcrevemos abaixo  a relação de distinções e prêmios do escritor Cyro de Mattos.    
Prêmios e distinções\: Prêmio Internacional Cervantes da Casa dos Quixotes do Rio de Janeiro, para autores de língua portuguesa, 1968. Prêmio de Ficção Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, 1978. Prêmio Nacional de Ficção Jorge Amado do Centenário de Ilhéus, 1981. Um dos Quatro Finalistas do Prêmio Internacional da Revista Plural do México, 1981. Prêmio Nacional de Ficção da Academia Pernambucana de Letras, 1983. Menção Honrosa do Jabuti, 1988. Comenda do Mérito Governo da Bahia, 1991. Prêmio Nacional de Poesia Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, 1997. Prêmio Adolfo Aizen da UBE/Rio, 1997. Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes, 2001. Prêmio Nacional de Ficção da Academia Pernambucana de Letras, 2002. Prêmio Adolfo Aizen Hors Concours da UBE/Rio 2002. Finalista do Jabuti, 2002. Finalista do Jabuti,  2003. Terceiro Lugar Prêmio Nacional Emílio Moura da Academia Mineira de Letras, 2003. Prêmio Marcos Almir Madeira da UBE/Rio, 2005. Segundo Lugar do Prêmio Marengo d’Oro, Obra Estrangeira Publicada, Itália, 2006. Segundo Lugar do Prêmio Marengo d’Oro, Obra Estrangeira  Obra Inédita, Itália, 2006. Prêmio Maria Alice de Lucas da UBE/Rio, 2007. Prêmio Internacional de Poesia Leodegário Azevedo da UBE/Rio, 2011. Prêmio Cancioneiro Infantojuvenil do Instituto Piaget de Portugal, 2012. Prêmio Olívia Barradas da UBE/Rio, 2012. Prêmio Maria Alice de Silva Lima da UBE/ Rio, 2013. Prêmio Internacional Jean Paul Mestas de Poesia da UBE/Rio, 2013. Membro Titular do Pen Clube do Brasil, 2013. Prêmio de Ficção Pen Clube do Brasil, 2015. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia, 2016. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, Sul da Bahia, 2016. Prêmio Literário Nacional Cidade de Manaus, 2018.  



quinta-feira, 16 de janeiro de 2020






Ginásio Divina Providência

Cyro de Mattos

O grande sonho dos estudantes de meu tempo era concluir o curso primário e, submetidos ao exame de admissão, ingressar no ginásio. Ser aluno do Ginásio Divina Providência era a maior glória. Significava pertencer a uma classe privilegiada de estudantes, motivo de orgulho dos pais, ser  admirado por pessoas importantes.
Ginásio de meninos e meninas como nuvens. Aquelas mesmas nuvens que acompanhavam a criatura em seus primeiros passos. Juntos queriam construir o futuro. Queriam melhorar de nível, atingir metas e entender tudo que é posto no mundo para ser alcançado.  Buscavam arma e bagagem para um dia tornar a vida rica de significados. Por isso suportavam o massacre diário, com exercícios aritméticos, lições de português, ciências naturais, geografia e história.
Era um tempo de desafio constante povoado de sombras. Tempo que ia passando com uma pesada carga de estudos. Noites de expectativa, alegria e susto quando chegava o fim do ano com a notícia de que tinha sido aprovado.  Havia em nosso ginásio professores com a sua maneira de ser rigorosa, como Nivaldo Rebouças, que ensinava inglês, e Odete Midlej, português. Havia também os de coração de açúcar, como Helena Borborema, padre Nestor, Lode Hage e ‘’seu’’ Queirós. Professores responsáveis todos eles, que não faltavam aula durante o ano, deixando nas lições sem disfarce a palavra fluir com dedicação e competência. Professores que, na voz tolerante, rigorosa ou paciente, faziam que os alunos amassem ou respeitassem o ginásio.
Ginásio dos meus verdes anos. Dos meninos Roland, Rafael e Nilton Gago. Das meninas Yeda, Ritinha e Mary Kalid. Dos futuros advogados Joel, Eraldo e Rui Fontes. Do engenheiro Dagô. Dos médicos Moacir, Euvaldo e José Orlando. Do escrivão Ronald Cravo, delegado Péricles e juíza Sônia Carvalho. Do deputado Jorginho Hage e prefeito Ubaldo Dantas. Do gringo Marcel Midlej. Das piadas inesquecíveis de Nilton Jega Preta. Dos namorados Carlos Euvaldo e Clotildes, Néviton e Marilene. Do goleiro Edsel e Chico, o craque. Do odontólogo Cleres Franco. Dos irmãos Ildo, Eudes, Uraci e Ovaci. Dos artistas plásticos Bebeto e Renart. Dos poetas, os lavradores do sonho, Valdelice e Florisvaldo. Dos que já não estão mais na sala, se foram cedo na viagem sem volta. João Berbert, Alberto Simões, Valter Delmondes, Vadinho. Valter Delmondes saltou da pequena ponte para as águas profundas. Aquela sombra que infunde medo instalou-se nas salas do ginásio. Pela primeira vez, solitário eu indagava pelos cantos sobre a escuridão daquelas águas.
Setembro tinha sentido com a cor do desfile no ar verde e amarelo. Tambores uníssonos, compenetrados do toque, rufavam a pátria amada. Marcha cívica ou efervescente música na pele de adolescentes com a alma de girassóis flamantes? Nem o aguaceiro que despencou de repente conseguiu tirar o brilho de um escudo glorioso sob os passos encharcados de sonho.
Ginásio de velhas brincadeiras em vozes tão novas.
Dona Lindaura, a diretora, certa vez me disse que o Colégio Divina Providência foi fundado pela Sociedade São Vicente de Paula, em 1924. Anos depois, o ginásio começou a ser administrado pelas irmãs de caridade. Criatura de estatura pequena, cabelos brancos e ralos, a diretora do ginásio segue nos passos firmes todos os dias rumo ao antigo sobrado da Rua São Vicente de Paula. Da primeira lição que ela me ensinou, nunca esqueci. Disse que para alguém ser gente na vida precisava conviver com o hábito do estudo. Ser gente era munir de saber a ideia. A cidade pequena escorregava na lama do inverno. Os alunos passaram a saber no ginásio  que as sementes boas do estudo para munir a ideia estavam no primeiro educandário da cidade. Colheitas desse saber haviam de ser feitas em pouco tempo. Com o passar dos anos, para orgulho dos pais, produziriam rimas ricas.


sábado, 4 de janeiro de 2020




FACULDADE DE DIREITO
Cyro de Mattos

Da Universidade Federal da Bahia. Gloriosa Faculdade de Direito, como eram comum alguns universitários dizerem, voz cheia de expressão feliz que o rosto deixava transparecer. No percurso que eu fiz na Faculdade de Direito, de 1958 a 1962, recordo a maneira de ser dos mestres nas aulas, a regularidade, a precisão e a ordem daqueles homens de vasto saber.
Diante de mim, nesse instante, a paixão de Adalício Nogueira pelo Direito Romano. A exposição exemplar que Nelson Sampaio fazia sobre a desumanização da Política ao longo dos séculos. A visão ampla e moderna de Machado Neto em torno da consideração do Direito concebido como norma de Kelsen, o jurista austríaco. A graça do professor Machadinho, o tetracatedrático, baixinho e gordo. Dizia em voz sonante, antes de iniciar a aula, que os alunos ficassem mais  que atentos, com os seus ensinamentos as paredes iriam tremer.
Lembro a eloquência de Josafá Marinho em suas lições de Direito Constitucional, a maneira encantatória das aulas de Direito Penal,  ministradas por Aloysio de Carvalho Filho, substituído  depois pela veemência de Raul Chaves. A eficiência de Elson Gottschalk para demonstrar o lado pragmático do Direito do Trabalho. O jeito elegante, a dicção objetiva, o poder de síntese e densidade com que o mestre Orlando Gomes transmitia,  sem esforço, as aulas admiráveis de Direito Civil.
Com esse e outros mestres, a razão do moço que veio do interior logo tomou conhecimento que o Direito é uma das maiores conquistas do ser humano neste planeta. Sem essa hora não existe o homem real, mas o regresso na escala biológica. Não há coexistência, a paz, meta maior de todos nós  nesse tão difícil gesto de viver.
Faculdade de Direito de minha adolescência. Dos jovens de ontem, residentes na Capital ou vindos do interior, alguns deles bem nascidos. A minha turma da Faculdade de Direito era também a de Antônio Luís Calmon Teixeira, o civilista, Marcelo Gomes, o empresário, Adalberto Carvalho, o cracão de bola, João Berbert, o cientista social, Dylson Dórea, de notável memória, o jurista, Artur Caria, o juiz, Raul Ferraz, o deputado, Lucy Lopes Moreira, a desembargadora, Ildásio Tavares, o poeta, João Ubaldo Ribeiro, o romancista, e Edvaldo Brito, o orador.
No rigor de atitude que comanda, o tempo passa e não perdoa. Sabe todos os caminhos, a claridade do dia e  a escuridão  da noite. Deixa-me sem resposta, se pergunto por essas  vozes, risos, expectativas, desafios, emoções que passam por meus olhos agora como sombra de uma paisagem precária. Por que tão depressa lá se foram esses gestos na curva da estrada? Ninguém pode me dizer algo sobre esse instante em que só tenho ouvido para escutar o rumor daquelas vozes.
Ninguém decifra como dói saber que a recordação de certas imagens nada mais é do que saudade de certos instantes. E as pessoas, objetos, bichos, ruas são fugidios. Como os dias, semanas e meses. Infelizmente.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2019






Prosa de Ano Novo




Grupos de pessoas vestidas de branco ocupam desde cedo as areias de Copacabana. Branco é a cor que se usa nesse dia especial. Dizem os fiéis que o branco nesse dia dá sorte, atrai os fluidos bons dos ventos que vão ser trazidos pelo Ano Novo. Festa de chegada do Ano Novo na praia de Copacabana atrai muita gente de várias partes do Rio, de todo o país e do exterior. Os fiéis vêm fazer suas preces e entregar presentes a Iemanjá. Flores, perfumes, espelhos, pentes e fitas no pequeno barco enfeitado são levados às ondas. Em sua linguagem mágica, atabaques tocam no tom cativante. Cânticos orantes saem de vozes suaves e contritas. Lamentos e pedidos.
Os pedidos são para que a Rainha do Mar apague o fogo dos inimigos com a força de suas águas. Traga ondas cheias de paz, saúde e prosperidade. Que sejam levados para os espaços mais profundos do mar desconhecido as dores, privações e ressentimentos.
Com o sol se pondo, o movimento de pessoas vai aumentando nas areias de Copacabana. À noite vai ser difícil alguém encontrar um espaço para se instalar de maneira cômoda. Turistas em trânsito pelo calçadão vão querer se aproximar dos grupos de pessoas que estarão entoando cânticos em torno do círculo de velas acesas na praia. Mais um ano que se vai e outro que vem, quando os ponteiros do relógio se encontrar nesse momento mais aguardado, irromperem as sirenes, soarem as buzinas no asfalto. Fogos de artifício soltarem suas flores e cores no céu, cascata cair do edifício num visual que emociona.
Todos os anos a mesma espera, a trégua igual, ritmo de onda que se estende por uma antevisão melhor de vida neste planeta. Sem que os dias sejam ofendidos por nós, humanos. Sem mistério, violência e medo. Sem o trauma da criança que morre com a boca no peito murcho da mãe, o corpinho com os ossos furando a pele, em terras sangrentas e áridas da Somália. Sem que menores sejam fuzilados com tiros na cabeça em pleno centro do Rio. Sem o sofrimento de guerra horrenda na Bósnia Herzegovina, a deixar um saldo de mais de 125000 mortos. Sem o extermínio de 73 índios ianomâmis por garimpeiros na aldeia brasileira de Haximu. Sem a vergonha da putrefação de políticos do Brasil, a vítima sendo como sempre o povo indefeso.
Despedindo-me do ano que se vai e, com desconfiança, acenando para o que vem, não gostaria de lembrar também dos rios que morrem de sede, do ar que tosse, do mar com águas viscosas pelas milhas de óleo despejado no azul. Das ruínas na fauna e da tristeza na flora.
Ah, como gostaria de não lembrar a droga que mata a maravilha. E fazer uma crônica, nesse momento que aguardamos  a vinda do Ano Novo, com o verde brotando dos quatro pontos cardeais. Se fazendo em nuvem sem tamanho, assistirmos esse verde molhar neste planeta os nossos insensatos corações. E mais que a esperança tivesse nesse instante certeza de que dessa vez o Ano Novo vai chegar para valer, rico calendário de voos naturais, sem o gosto amargo de mãos que matam e subtraem.
Apesar de tudo, como diz o sabido grilo Cricrilo, personagem de um livro infantil nosso, ainda inédito, a vida é bela, muita gente é que não dá valor a ela.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019





ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS EMPOSSA SUA NOVA DIRETORIA PARA 2020 

"Não haverá saída possível se não lançarmos um olhar frontal e desarmado para o presente. Não como súditos ou inimigos, mas enquanto cidadãos para construir, de forma inclusiva e generosa, o bem comum", enfatiza Marco Lucchesi em seu discurso de posse na Presidência da ABL.

A nova Diretoria da Academia Brasileira de Letras, eleita no dia 5 de dezembro, tomou posse no dia 12 de dezembro, às 17h00, no Salão Nobre do Petit Trianon (Avenida Presidente Wilson, 203 - Castelo, Rio de Janeiro).

O Presidente é o Acadêmico e escritor Marco Lucchesi. Assumiram, ainda, os seguintes Diretores: Secretário-Geral: Merval Pereira; Primeiro-Secretário: Antônio Torres; Segundo-Secretário: Edmar Bacha; Tesoureiro: José Murilo de Carvalho.
Em seu discurso de Posse, Lucchesi afirmou: "Não haverá saída possível se não lançarmos um olhar frontal e desarmado para o presente. Não como súditos ou inimigos, mas enquanto cidadãos para construir, de forma inclusiva e generosa, o bem comum’.

DIRETORIA DA ABL PARA 2020

MARCO LUCCHESI – Sétimo ocupante da Cadeira n.° 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Padre Fernando Bastos de Ávila, Marco Lucchesi, nascido no Rio de janeiro em 9 de dezembro de 1963, é o mais jovem Presidente da Academia Brasileira de Letras dos últimos 70 anos. O mais novo, em toda a história da ABL, foi o Acadêmico Pedro Calmon (1902-1985), que assumiu, em 1945, com 43 anos de idade.
Escritor muitas vezes premiado, tanto no Brasil quanto no exterior, Lucchesi é autor de uma obra que abarca poesia, romance, ensaios, memórias e traduções. Publicou mais de 40 livros ao longo de sua trajetória. Professor titular de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem pós-doutorado em Filosofia da Renascença na Alemanha. Formado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), possui mestrado e doutorado em Ciência da Literatura. Seus livros mais recentes são O carteiro imaterial (ensaios), Clio (poesia) e O bibliotecário do imperador (romance). Ganhou três Prêmios Jabuti da Câmara Brasileira do Livro.

MERVAL PEREIRA – Oitavo ocupante da Cadeira n.° 31, eleito em 22 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, Merval Pereira é jornalista e comentarista da GloboNews e da CBN, e colunista de O Globo. Foi eleito Correspondente Brasileiro da Academia das Ciências de Lisboa em novembro de 2016. Em 1979, recebeu o Prêmio Esso pela série de reportagens “A segunda guerra, sucessão de Geisel”, publicada no Jornal de Brasília e escrita em parceria com o então editor do jornal, André Gustavo Stumpf. A série virou livro, considerado referência para estudos da época e citado por brasilianistas, como Thomas Skidmore. Em 2009, recebeu o prêmio Maria Moors Cabot da Universidade de Columbia de excelência jornalística, a mais importante premiação internacional do jornalismo das Américas.

ANTÔNIO TORRES – Nascido na Bahia, Antônio Torres estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a Lua, considerado pela crítica a revelação daquele ano. Hoje, entre os seus 17 títulos publicados, destaca-se a trilogia formada por Essa terra (1976), O cachorro e o lobo (1997) e Pelo fundo da agulha (2006). Em 1998, foi condecorado pelo governo francês como Chevalier des Arts et des Lettres, pelos seus livros traduzidos na França. Em 2000, teve o reconhecimento nacional ao receber o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da sua obra. Em 2001, ganhou o Prêmio Zaffari & Bourbon. Recebeu ainda, entre outros, o Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, da Academia Carioca de Letras, e o Prêmio da Academia Petropolitana de Letras, ambos pelo conjunto da sua obra, da 9.a Jornada Nacional de Literatura, da Universidade de Passo Fundo, RS, pelo romance Meu querido canibal. Em 2007, Pelo fundo da agulha foi um dos ganhadores do Prêmio Jabuti. Seus livros, que passeiam por cenários rurais, urbanos e da História, têm tido várias edições no Brasil e traduções em muitos países; da Argentina ao Vietnã. De 1999 a 2005, foi Escritor Visitante da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, quando ministrava oficinas literárias, realizava aulas inaugurais e proferia palestras nos campi do Maracanã, da Faculdade de Formação de Professores da UERJ em São Gonçalo e da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense da UERJ em Duque de Caxias. 

EDMAR BACHA – Economista, fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças, um centro de pesquisas e debates no Rio de Janeiro, nasceu em Lambari, Minas Gerais, de uma família de escritores, políticos e comerciantes. Sexto ocupante da Cadeira n.° 40, eleito em 3 de novembro de 2016, na sucessão de Evaristo de Moraes Filho, concluiu a Faculdade de Ciências Econômicas na Universidade Federal de Minas Gerais e, em seguida, obteve o ph.D. em Economia na Universidade de Yale, EUA. É autor de inúmeros livros e artigos em revistas acadêmicas brasileiras e internacionais. O último livro foi Belíndia 2.0: Fábulas e Ensaios sobre o País dos Contrastes.

JOSÉ MURILO DE CARVALHO – Historiador e professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nascido em Andrelândia (MG), fez sua graduação em Sociologia e Política na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e é ph.D. pela Universidade de Stanford. Atuou como professor visitante e pesquisador em diversas universidades estrangeiras, como Oxford, Leiden, Londres, Stanford e Princeton. É autor de vasta produção de artigos e crônicas publicados em jornais e revistas, no Brasil e exterior, e de livros, como Os bestializados (1987), Pontos e bordados (1998), A formação das almas – o imaginário da República no Brasil (1990), Cidadania no Brasil: o longo caminho (2001) e Dom Pedro II (2007). Seu livro mais recente é O pecado original da República.


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

o circo







O CIRCO


      Cyro de Mattos


Como me esquecer do circo? Ficava a semana toda aguardando que o homem nas pernas de pau anunciasse a sua chegada. Quando isso acontecia, saía em disparada atrás dele, o coração preste a sair pela boca. Juntava-me a outros meninos, passando a fazer parte do coro de vozes ao redor do homem nas pernas de pau. À pergunta que ele repetia a todo instante, “o palhaço o que é”?, nossa resposta era uma só, explodindo a gritaria no ar, “ é ladrão de mulher!”  
Os circos que apareceram no início eram pequenos. Num desses, a lona furada, poucas luzes na fachada, conheci uma dupla de palhaço que nunca esqueci. Bacurau com a sua cara de mau e Perereca que sempre levava do parceiro um tapa na careca. Bacurau era catroca e tinha o nariz de pipoca. Perereca era um contador de piada sem igual e tinha um calombo na careca.
O circo ficava um mês na cidade. Filho de pais pobres, eu e meu irmão só tínhamos direito de ir ao circo uma única vez, geralmente no domingo. Sempre dava um jeito para ir ao circo mais vezes. Entrava pelo buraco da lona quando o vigia descuidava-se. Vendia jornal na venda, gibi velho na porta do cinema, até garrafa, com o dinheiro apurado comprava o ingresso do circo. Lá estava eu com o coração a bater acelerado, antes que desse início o espetáculo. Não me importava que os números fossem quase sempre os mesmos. Era bom sorrir com as piadas do palhaço, ficar todo arrepiado com o salto mortal que davam os irmãos Vilalba, lá em cima no trapézio da morte.
Foi grande a emoção quando apareceu o primeiro circo com as suas feras amestradas. Leão, tigre, elefante. O chimpanzé andava de bicicleta, fazia piruetas em cima da zebra, dando voltas seguidas no picadeiro. E o sensacional número do globo da morte? Era mesmo aquele circo o maior espetáculo da terra. Acrobatas, trapezistas, equilibristas, malabaristas. Dois times de cães pequenos faziam a bola correr num vaivém que nunca cessava. Flamengo contra o Vasco, a garotada numa gritaria doida quando o gol era marcado. O domador botava a cara dentro da boca do leão. O circo todo em silêncio, um frio corria na espinha, os aplausos demorados para aquele número inacreditável. 
O circo sempre foi para mim aquele mundo feito de aventura, riso e humildade. O mundo permanente de graça na boca escancarada do palhaço com a linguona de fora. Certamente comia palha e aço, daí ser chamado palhaço.  Doçura no frio com a equilibrista que tinha pernas formosas. Vontade de voar como pássaro com aqueles trapezistas lá no alto, no salto de vida ou morte. O perigo vivido com o domador que si arriscava na aventura de fazer com que cinco leões deitassem junto a seus pés, como se fossem uns pequenos grandes felinos bem comportados. Em mim, sensação de que a morte não existia. Meus olhos rodavam rápidos com aqueles dois irmãos que cruzavam e se encruzavam nas motos barulhentas dentro de um globo, onde circulava a perícia feita de nervos e aço.
Como me esquecer da pipoca, algodão doce, cocada, amendoim torradinho e roletes de cana?
Um dia, eu e os amigos resolvemos fazer um circo no quintal. Com palhaço de pernas tortas, a menina Dolores como a fada das flores, Dom Chicote, o incrível domador e suas terríveis feras, Lero-Lero, o cão que dançava bolero, e Cheiroso, o gato manhoso, além do trio que tocava zabumba, sanfona e reco-reco. Era o circo do Ciroca com palco armado embaixo de uma mangueira. O bilheteiro, o próprio dono do circo, feito um general usava grande chapéu de jornal e tinha uma espada de pau.
Uma pena aquele circo ter dado apenas um espetáculo. A plateia não se conformou com a ausência do macaco Caolho, que deveria subir no mastro de cabeça para baixo em menos de um minuto. Entre assobios e gritaria, a plateia começou então a jogar tomates no verde homem-jibóia e no anão Pimpão, que de tão pequeno não saía do chão. Foi tomate para todo lado, assovio, corre-corre, empurrão, nome feio, vexame. Quando o pano caiu por terra, foi logo rasgado em pedaços. O espetáculo foi encerrado com a plateia toda gritando sem parar um só instante: Queremos o macaco Caolho! Queremos nosso dinheiro de volta! Queremos mais espetáculo!