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quarta-feira, 24 de março de 2021

 

                 A Poesia com Afeto de Afonso Manta

                                                   Cyro de Mattos

                                         

Antologia Poética (2013), de Afonso Manta, é uma publicação da ALBA, editora da Assembleia Legislativa da Bahia, em parceria com a Academia de Letras da Bahia. O livro está inserido na Coleção Mestres da Literatura Baiana. Pela primeira vez um livro do poeta de Poções recebe uma publicação digna de sua lírica. Seus livros tiveram edições por gráficas e editoras pequenas do interior, fazendo com isso que sua poesia circulasse no ambiente de amigos e poucos leitores. Tornaram-se raridades bibliográficas. 

Essa Antologia Poética agora faz jus ao conhecimento e expansão de um poeta que tem um brilho inusitado, capaz de enlouquecer as flores, aprofundar as cores, tornando-se, no trânsito da ternura, como um anjo em voo do infinito.  Chegou a nos dizer que quando essa noite passar com o seu manto de trevas, numa “sinistra gaiola comendo o alpiste do dono... com seus frios caracóis de angústia e desesperança, praga dos que vivem sós... faz teu canto na manhã, que todo dia traz luz. E não é vã, não é vã.”

É fácil perceber que a poesia de Afonso Manta flui pelos caminhos da esperança, da ternura expressa por uma linguagem simples longe do vulgar, ao invés disso se apresentando com a palavra tomada emprestada ao encantamento. Toca-nos sem arroubos, nos versos simples sem pieguismo, encanta o pensamento e o sentimento com leveza, dizendo com nitidez sobre a tristeza diáfana. Nos momentos de sonho produz mel e ingenuidade, que confortam e possibilitam uma carícia de brisa. Em muitos casos usa a rima, a estrofe apoiada no verso que soa e fere a vida através das notas da contradição humana. Mostra a alma fragilizada de um homem sensitivo, que ao se ver no espelho flagra como está cansado de tudo.

Se a poesia no Brasil repercute no século vinte com o que tem de melhor na clave da solidão, intensa nos conflitos, em questões complexas, em Afonso Manta conserva-se nos ares ingênuos, embora de interioridades profundas, como na explícita certeza desses versos:

 

 Vale a pena viver, mesmo sofrendo.

Eu mesmo vivo assim, triste gemendo,

Escravo da ilusão e da beleza.

 

Essa é a maneira do poeta estar na vida com sinceridade, ter como base, apesar da dor, as construções de conteúdo inocente, guardadas pela alma de um cantor prisioneiro do menino, bebedor de umas doses de extravagância, mas sem maldades, a exalar a consciência do dever cumprido, banhar-se com as luzes de uma musa portadora de canários verdes na varanda. Entre a ordem e a vertigem, do viajante que transita para o último gemido, Afonso Manta tece seus poemas de versos harmoniosos. Escreve uma poesia clara, com a alma de um poeta que só precisa de um pouco de sonho para equilibrar-se em seus rumos e rumores loucos, de “estrelas na testa de rapaz” para que suas angústias fiquem serenas. Só assim, com a mansidão das amargas, o poeta se dará por contente.

Se tudo isso aqui onde vivemos é ilusão, para quem queira ler e ouvir a poesia de Afonso Manta vai saber como esse poeta foi um homem digno de seu estar no mundo, corajoso conforta-nos quando assume sua maneira de andar sozinho com os seus versos delicados para o alimento da alma, intenso de saberes, sustentando-o como um homem real, que transita na vida pela rua da solidão e do sonho com matizes do lilás. Vai senti-lo em dado momento aos frangalhos, mas consciente de que não precisa ser rico, nem ter crédito na praça, pois convive com o vento que o agita interior e largado. No poema “O Realejo do Vinho”, esse poeta sabe como a vida é falha, mas basta quando o torna com os cabelos devastados, rosto, sorriso e palavra.

Na fatura do soneto Afonso Manta é modelar, raro inventor de sentimentos na frase iluminada.  Qualquer um deles surpreende pela simplicidade da rima, condução nítida da ideia, o fluxo espontâneo que nos torna cúmplice da palavra simulada com emoção e simbolismo.  Libertos de sua camisa de força imposta pelo formato clássico, vemos como tamanha é a habilidade de sua elaboração por um mestre, que não se veste com a roupa compositiva de sua estrutura fixa. Faz com fluência que transmitam sentimentos doloridos, os ares do que é triste, que se encontrará sempre na paz do espírito redimido.   Assim o poeta procede em “O Rei Afonso”.

 

Aqui, o rei Afonso, o Derradeiro,

Vê naus que não são mais as naus do porto.

São já as naus febris do sonho morto

No mar tão vasto como traiçoeiro.

 

Aqui, o mesmo rei, também chamado

Restaurador do Império Agonizante,

Perde para o inimigo, doravante,

O reino duramente conquistado.

 

O rei, flor-de-lis santa e vulnerável

Ferido pela dor inevitável,

Perdoa a punhalada do assassino

 

E morre sem palavra de desgosto,

Mostrando paz até o fim no rosto,

A mesma paz dos tempos de menino... 

 

Louco esse poeta vestido do pôr do sol, mas que tinha uma rosa na cabeça?  Bicho estranho que não queria morrer enquanto existisse estrelas cintilando no céu e o pássaro cantando? Homem da lua, triste divagando pelas ruas da Bahia? O que tocava o violino nas solidões de sua cidade natal com as cordas do sorriso? Ousado guerreiro, dispersivo, que tudo arriscava num momento veloz e passageiro? Um detentor de humanas paixões, que morreu sereno e forte? 

 Era poeta que tinha um olhar vago, de mendigo e sonhador, de aspecto excessivo de profeta.  Banhava-se nas águas da esperança. Não há quem não desperte enriquecido quando se entra em contato com a sua lírica de alto nível, não se deixe encantar com o prontuário iluminado onde não morre a solidão solidária, imaginada nos toques do amor.  Quanta simplicidade em versos que enleiam, rumorejam com generosidade, primam por relâmpagos que nos mostram da vida verdades. Poeta de alma com doces soluços, brilhantes abraços da cor dos lírios, dos jasmins com seus inebriantes perfumes. Oferta, na chuva que bate nas orelhas, incandescentes ternuras naquele lugar onde a esperança não morre.  

No poema “De Um Rabisco”, de fino humor, os versos como se fossem para serem lidos em dia de riso, Afonso Manta alerta:

 

Há que deixar em paz o poema.

Ou o poema nos afeta.

O poema há de ser perfeito.

Ou ele come o poeta.

 

No seu caso, o poema, por ser perfeito, alimenta a alma, comete a catarse de curar como o melhor alento. 

 

Leitura Sugerida

 

*Antologia Poética, Afonso Manta, Editora da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia – ALBA, em parceria com a Academia de Letras da Bahia, Coleção Mestres da Literatura Baiana, organização, seleção e prefácio de Ruy Espinheira Filho, Salvador, 2013.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

 ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS

RELEASE- ARTE E CULTURA

MARÇO DE 2021

POSSE DA NOVA DIRETORIA DA ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS ACONTECE EM 14 DE MARÇO, DE FORMA REMOTA.

Na data regimental de 14 de março, data comemorativa do aniversário do poeta baiano Castro Alves e também do Dia da Poesia, a Academia de Letras de Ilhéus realiza sessão para abertura do ano acadêmico de 2021, ao tempo em que empossa a diretoria para o biênio de 2021 a 2023. A solenidade será presidida por André Luiz Rosa Ribeiro, atual Presidente, que dará posse ao próximo Presidente Pawlo Cidade, e a nova diretoria, formada por Vice-Presidente: Gustavo Cunha, Secretária Geral: Jane Hilda Badaró, 1º. Secretário: Sebastião Maciel, 2º. Secretária: Luh Oliveira, 1º. Tesoureiro: Anarleide Menezes e 2º. Tesoureiro: Leônidas Azevedo. Na oportunidade, o membro da Academia de Letras da Bahia e da Academia de Letras de Ilhéus, Aleilton Fonseca, falará sobre o tema “Castro Alves, entre a pandemia e o cancelamento”. Devido, ao distanciamento social imposto pelos riscos da pandemia do COVID-19, a sessão ocorrerá de forma remota, das 18 às 20 horas, e poderá ser acompanhada pelo Facebook “Academia de Letras de Ilhéus” (pt-br.facebook.com/academiadeletrasdeilheus/).

Uma das mais antiga do Brasil, a Academia de Letras de Ilhéus, fundada a 14 de marco de 1959, mantém acesos, em mais de seis décadas de história, os ideais sonhados por seus fundadores e o propósito expresso no lema do sodalício: “Patriae Litteras Colendo Serviam”, que seja, “ Servir à Pátria Cultuando as Letras”. Neste propósito, a Casa de Abel, assim chamada numa referência ao seu idealizador e fundador, poeta Abel Pereira, segue incentivando e promovendo a cultura, através da realização de conferências, concursos, cursos, premiações, e outras atividades de natureza literária, artística e cultural. Templo da inteligência e do espírito- desde a sua fundação, passaram intelectuais do mais alto quilate, à exemplo de Jorge Amado, Adonias Filho, Zélia Gattai, dentre tantos outros. No mesmo diapasão, encontra-se nos seus membros efetivos atuais, os atributos da intelectualidade - pessoas exponenciais no cenário artístico cultural de Ilhéus e da Bahia, visto que muitos extrapolam esta fronteira e galgam reconhecimento nacional.

PLANO DE AÇÃO E MEMBROS DA DIRETORIA PARA BIÊNIO 2021/2023

O plano de ação traçado para o biênio envolve estabelecer parcerias e filiações com as academias de letras da região, da Bahia e do Brasil; promover os autores da literatura regional; promover sessões literárias, musicais e lítero-musicais; promover eventos e parcerias com universidades e escolas públicas e privadas com vistas à valorização das letras e da arte; aconselhar, contribuir, estimular órgãos públicos nas políticas públicas de cultura; estimular o livro e a leitura como gênero de primeira necessidade; tomar a dianteira do movimento intelectual ilheense nas discussões de políticas públicas para a literatura, a cultura, a ciência e a arte. Entre as metas traçadas destacam-se a realização do Encontro Baiano de Academias de Letras e Artes; Seminário Regional de Literatura Baiano; Bate-papos com escritores; criação de campanhas de estímulo a compra do livro e a leitura; e criação do Boletim da Casa/Academia.

O Presidente a ser empossado para gerir a Academia de Letras de Ilhéus no biênio que se inicia em 14 de março vindouro, é Pawlo Cidade, dramaturgo, escritor com 18 livros publicados, especialista em Educação Ambiental, especialista em Gestão Cultural pela

UESC, especialista em Projetos Culturais pela FGV, ex-conselheiro estadual de cultura, ex-secretário municipal de cultura de Ilhéus, ocupante da cadeira n. 13 da Academia de Letras de Ilhéus, consultor de políticas públicas para cultura e atual Diretor das Artes da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

Gustavo Cunha, vice-presidente, é ocupante da cadeira n. 5 da Academia de Letras de Ilhéus, é medico, poeta e autor do livro “Chácara das Tormentas”. Possui especialização em Saúde Pública e em Infectologia. É membro titular da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), docente titular e fundador da cadeira de parasitologia da Faculdade madre Thaís (Ilhéus-Ba), Presidente da Comissão de Controle de Infecção hospitalar do Hospital Costa do Cacau. Médico referência em HIV/SIDA do Município de Ilhéus.

Ocupante da cadeira n. 6 da Academia de Letras de Ilhéus, Jane Hilda Badaró é poeta, artista plástica, advogada e professora do Departamento de Ciências Jurídicas na Universidade Estadual de Santa Cruz- UESC. Mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Como jornalista, atuou na imprensa regional, foi assessora de Imprensa da Fundação Cultural de Ilhéus, editora na Ilhéus Revista, colunista do Jornal Diário da Tarde e Folha da Praia. Autora do Livro “ Imagens & Sentimentos: poemas (des) engavetados e pinturas”. Participou de diversas exposições de artes em individuais e coletivas, em Ilhéus, outros Estados e países. Secretária Geral da Academia de Letras de Ilhéus desde outubro de 2017.

Sebastião Maciel é cearense da cidade do Crato, radicado em Ilhéus, cidade que há muitos anos escolheu para viver, trabalhar, estudar e constituir família. Professor, com 50 anos de efetiva regência de classe, na disciplina Língua Portuguesa, tanto na educação básica quanto superior. Ocupa a cadeira n. 2 da Academia de Letras de Ilhéus.

A baiana Luh Oliveira é poeta, professora, Mestra em Letras. Atualmente é pesquisadora do tema Literatura Infantil e Afetividade. Ocupa a cadeira n. 3 da Academia de Letras de Ilhéus. Membro do Mulherio das Letras Bahia e nacional. Ministra workshops virtuais de poesia para jovens, além de promover a literatura regional em lives no instagram. É colunista na Revista Ser Mulher Arte e editora da Vixe Bahia revista. Membro da comissão organizadora do Festival

Literário Sul-Bahia ( FLISBA) . Publicou seis livros infantis e três livros de poesia para adulto. Participação em várias coletâneas.

Anarleide Menezes ocupa a cadeira n. 29 da Academia de letras de Ilhéus. É especialista em Educação e Relações Étnicos Raciais pela Universidade Estadual de Santa Cruz- UESC.Graduada em Letras pela Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna -FESPI, atua como professora de Língua Portuguêsa e Produção Textual. Gestora do Museu da Piedade, dedica-se, há mais de dez anos aos estudos e à prática da museologia, conservação de acervo e educação para conservação do patrimônio. Participa ativamente do cenário cultural da Região Sul da Bahia, promovendo eventos culturais, artísticos, de memória e identidade regional. É Articuladora de Museus do Interior da Bahia, e produtora cultural.

Leônidas Azevedo é médico, professor, e autor de diversos livros de Literatura Infantil, lançados com o selo da EDITUS, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz-UESC. Ocupa a cadeira n. 10 do silogeu. Algumas de suas obras já foram disponibilizadas em braille e fonte ampliada, beneficiando os pequenos leitores com necessidades especiais.

quarta-feira, 3 de março de 2021

 

Nada Era Melhor

Cyro de Mattos

 

Já vai longe o tempo da minha infância na cidade onde nasci. A cidade tinha poucas ruas calçadas, três bairros, o jardim, o cinema, o ginásio e a igrejinha. Seu rio, chamado de Cachoeira, dividia a cidade em duas partes. E uma gente ribeirinha tirava dele o sustento de suas famílias: lavadeiras, tiradores de areia, pescadores e aguadeiros.

Lá naquela cidade distante joguei bola com a turma de queridos amigos nos campinhos improvisados dos terrenos baldios.  Roubei fruta madura nos quintais das casas perto da beira do rio.  Brinquei de mocinho e bandido. Fiz a primeira comunhão e tive a primeira namorada.

Lá também criei vaga-lumes para vê-los à noite piscando no quarto. Nadei como um peixe ágil nos poços bem claros do rio que tinha as águas doces. Andei como um bicho solto, sem ter medo de nada, nos caminhos do mato. Feito pássaro dava cada voo com o vento mais alto. Quando cresci, soube que a infância tem um sabor de fruta doce que acaba quando chega o tempo dos homens.

              Não querendo que aqueles dias vividos com aventuras, descobertas e sustos esplêndidos se perdessem no tempo que se foi, sem que eu percebesse de tão rápido, ficando trancados pelos homens dentro de mim, resolvi então escrever umas breves memórias com pedaços da infância. Nesses episódios que agora procuro contar, tecidos com os fios eternos do sonho, tento compartilhar com você um pouco da aventura da vida. Percorro caminhos e procuro encontrar o menino na fumaça do tempo, mas que ainda pulsa no meu coração porque não se cansou de ser menino. 

            Em Nada Era Melhor (Editus, 2020), cada episódio pode ser concebido como uma história, possui autonomia na sua estrutura, foi reinventado com os elementos tradicionais  de princípio, meio e fim. Como cada um deles é protagonizado por um menino em sua pré-adolescência, tendo como espaço a infância e o lugar onde acontece é a uma cidade do interior baiano, no início da segunda metade do século XX, com personagens secundárias que participam algumas vezes de muitos deles, não se pode deixar de considerar que Nada Era Melhor é também um romance, uma história comprida representativa da vida, ou seja, um romance de iniciação.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

 

Escritor Cyro de Mattos

Ganha Prêmio das Artes

Jorge Portugal da FUNCEB

 

Com o projeto de publicação da obra Canto até Hoje, o poeta Cyro de Mattos foi vencedor no Prêmio das Artes Jorge Portugal – Literatura – 2020, patrocinado pela Fundação Cultural da Bahia, no Programa Aldir Blanc. O prêmio a que o poeta fez jus é de 40 mil reais, que serão empregados na produção do livro Canto até Hoje, a ser publicado com o selo editorial da Fundação Casa de Jorge Amado, de Salvador, na Coleção Casa de Palavras.

           Com capa do consagrado desenhista Juarez Paraiso, prefácio do crítico Oscar D’Ambrósio, doutor em Artes da Universidade de Mackenzie, membro da Associação de Crítica Internacional, (SP), Canto até Hoje é um alentado volume de oitocentas páginas, constituído de livros publicados no Brasil e exterior, e ainda inéditos, além de apresentar um conjunto de textos críticos assinados por Jorge Amado, Eduardo  Portella, Helena Parente Cunha, Assis Brasil, Mário da Silva Brito, Carlos Moisés, Hélio Pólvora, Graça Capinha, Maria Irene Ramalho, Alfredo Pérez Alencart e outros.                                      

           Os livros que compõem  o volume Canto até Hoje são esses: Cantiga Grapiúna, Lavrador Inventivo, No Lado Azul da Canção, Vinte Poemas do Rio, Viagrária, A Casa Verde, Cancioneiro do Cacau,  Os Enganos Cativantes, Vinte e Um Poemas de Amor, Poemas Ibero-Americanos, Poemas de  Terreiro e Orixás, O Discurso do Rio; os inéditos Nesses Rumores e Mares, Agudo Mundo, Zurubundunga e Capanga de Sonetos;  os traduzidos e editados no exterior Canti della terra e dell’acqua,  Poesie Brasiliane della Bahia, Zwanzing Gedichte von Rio und Andere Gedichte, Donde Estoy y Soy, De Tes Instants dans le Poème, Il Bambino Camelô, Twenty River Poems, The Green House  e Of Cocoa and Water.

           A publicação de Canto até Hoje é uma edição comemorativa dos 60 anos de atividades literárias do autor.

 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

 

TE ESTREMECES POR EL LOBO Y EL CORDERO

              Poema de Alfredo Pérez Alencart *

 

Te estremeces por el lobo y al cordero.

Amas ultrahumanamente, sin límites, como la música

del universo. Oh profunda sinfonía forjando

lo sagrado de principio a fin, alto asidero donde sobrepuja

la esperanza. Oh sucesión eterna que desatas

unisonancias, instintos trajinando hacia el magma

de lo trascendente, de la cadencia absolutoria

concebida compartiendo a ultranza las aguas profundas

y las hondas delicias de un contravuelo angélico

que se abroquela para recibir al Viento más feraz.

Siempreviva estás, trashumante presencia.

Te hospedas en la Luz que no aniquilan los ocasos.

Estando sin estar, eres evidencia,

cerebro verbal resaltando chispas de pureza,

latidos sin cautiverio, ciertísimo llamado de traslación

más allá de anhelos y desveladas ensoñaciones.

Pertenencia al páramo del Desprendido de sí,

a su oculto ritmo, a su lenta llama venturosamente

extemporal, cual indescifrable alianza.

Pertenencia al portal de los testigos,

al presagio de otro Reino, al aliento acrisolado

cual plenitud donde prospera lo sublime.

Pertenencia al verbo de una estrella.

Pertenencia al llagado cuerpo de doliente ternura.

Pertenencia al ala que se desvanece por los aires.

Pertenencia al linaje que acopia inocencias de siete en siete.

Te perpetúas en la antelación de la alegría

y asciendes, porque tu Unidad sabe la fórmula

de diásporas y deslumbramientos.

Clamas por tu orfandad. Clamas contra látigos agresivos,

fraternizando con los perseguidos, abrazándoles,

compartiéndoles la realidad que hay en los milagros.

Nada te desmide,

Criatura de nombre hermosamente pronunciado,

piel consumante, contorno que se aviene a penetrar

en frondas de cálido renacer.

Mantienes el don de ser el antes y el después,

lámpara alumbrando los vuelos breves del pájaro, su sombra

en la alta noche del abismo.

Conduces los fervores hacia el alba adolescente,

pulsas con tu estatura de Árbol de vida, riegas violetas

con el cause de tus transpiraciones.

¡Horizontal ejemplo el de las manos extendidas,

el del pulso que sustenta! ¡Belleza de la Forma en el paisaje!

¡Oh Dios, qué desnudo afán el de este Amor

avanzando eterno, dándose así, tan pródigo!

 

¿Qué savias vas donando?, ¿qué otras luciérnagas te rondan?

 

 TE AGITAS PELO LOBO E O CORDEIRO 

        Poema de Alfredo Pérez Alencart

               Tradução de Cláudio Aguiar*

 

Te estremeces pelo lobo e pelo cordeiro.

Amas de forma ultra-humana, sem limites, como a música

do universo. Oh profunda sinfonia forjando

o sagrado do começo ao fim, alto pretexto onde domina

a esperança. Oh sucessão eterna que desencadeias

assonâncias, instintos laborando rumo ao magma

do transcendente, da cadência absoluta

concebida com o compartilhamento das águas profundas

e das saborosas delícias de um contravoo angelical

acomodadas para suportar o Vento mais copioso.

Estarás como a sempre-viva, qual presença transumante.

Ficarás na luz que não mata o pôr do sol.

Estando sem estar, tu eres evidência,

cérebro verbal destacando faíscas de pureza,

pulsações sem cativeiro, correta chamada de translação

além de anseios e de desvelados sonhos.

Pertencias ao terreno do Despretensioso,

ao seu ritmo oculto, à sua chama lenta, felizmente

extemporânea, qual aliança indecifrável.

Pertencias ao portal das testemunhas,

para profecia de outro Reino, ao refinado alento,

cuja plenitude reside onde floresce o sublime.

Integravas o verbo de uma estrela.

Pertencias ao corpo ferido de ternura sofredora.

Pertencendo à asa que desaparece pelos ares.

Pertencias à linhagem que coleta inocências de sete em sete.

Te perpetuas na antecipação da alegria

e ascendes, porque tua Unidade conhece a fórmula

das diásporas e dos deslumbramentos.

Clamas por tua orfandade. Clamas contra chicotes agressivos,

confraternizando com os perseguidos, abraçando-os,

compartilhando com eles a realidade dos milagres.

Nada te rebaixa,

criatura de nome formosamente pronunciado,

pele aliciante, contorno para penetrar

em frondes de renascimento quente.

Tu manténs o dom de ser o antes e o depois,

lâmpada iluminando os breves voos do pássaro, sua sombra

na alta noite do abismo.

Conduzes os fervores rumo ao amanhecer adolescente,

pulsas com tua estatura de Árvore da vida, regas violetas

com o leito de tuas transpirações.

Exemplo horizontal o das mãos estendidas,

o do pulso que sustenta! Beleza da forma na paisagem!

Oh Deus, que desejo nu é este Amor

avançando eterno, dando-se, assim, tão pródigo!

 

Que seivas estás doando? Que outros vaga-lumes te rodeiam?

 

 

*Poeta peruano-espanhol, Alfredo Pérez Alencart reside em Salamanca, Espanha, onde é professor universitário e organizador dos Encontros de Poetas Ibero-Americanos. Poeta premiado, de reconhecimento internacional. Já publicou mais de uma vintena de livros de poesia, é traduzido e publicado em inúmeros idiomas.  

** Cláudio Aguiar é ficcionista e ensaísta. Autor premiado com o Jabuti e pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. Foi presidente do Pen Clube do Brasil.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

O homem que sabia a verdade

 

Cacá Diegues                                                                     5 de fevereiro de 2021

 

Já disse, mais de uma vez, que João Ubaldo Ribeiro foi um presente que Glauber Rocha me deu. Quando soube que eu ia à Bahia pela primeira vez, para apresentar “A grande cidade”, meu segundo longa-metragem, num festival local, Glauber decretou formalmente que eu não veria ninguém na cidade antes de conhecer e encontrar Ubaldo. Pensando bem, não era apenas um presente que Glauber queria me dar. Era também uma ordem, como era seu costume fazer.

 

Como era meu costume fazer, cumpri ao pé da letra a ordem de Glauber. No dia seguinte à minha chegada, a cidade se preparava febril para o carnaval quando deixei o hotel e fui à redação do jornal em que Ubaldo trabalhava, conforme Glauber pusera num pedaço de papel, com data e hora, para que eu não me esquecesse.

 

Para minha surpresa, Ubaldo não era um sedutor afável como os outros baianos dessa geração que eu havia conhecido. Me perturbava ter de falar mais do que ele e obter respostas curtas que pareciam conter uma ironia que eu não era capaz de entender.  Ubaldo tinha que voltar para a redação e exagerava, como se tudo no jornal dependesse dele. Eu não podia ter argumento para mantê-lo a meu lado. 

 

Como no romance de Graciliano Ramos, conheci Ubaldo mas não o conheci de uma vez. Foram necessários fins de tarde indo aonde ele me mandava ir, descobrir de onde vinha sua capacidade de explicar o que a gente, sem lhe pedir nada, precisava que fosse explicado. Nossa amizade se desenvolveria depois, no crescente caos material e espiritual do Rio de Janeiro, para onde se mudara. Hoje, posso passar o resto de minha vida falando e escrevendo sobre ele. Embora, como todo personagem de romance que vale à pena, ainda não saiba exatamente quem era João Ubaldo.

 

Já disse também que adoro a epígrafe de “Viva o povo brasileiro”, esse monumento da literatura em língua portuguesa: “O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”. Uma versão solar da ideia de Gilles Deleuze a propósito de Proust: não existe a verdade, só interpretações. Mais adiante, ainda em “Viva o povo brasileiro”, ele se explica com clareza: “Saber da verdade e querer impô-la aos outros, num mundo onde tudo muda e tudo se encobre por toda sorte de aparências, é uma grave espécie de loucura”.

 

Há pessoas que, quando morrem, nos tiram pelo menos um pouco da graça da vida. Ubaldo foi uma delas.  Fico esperando que um texto seu, um excerto qualquer, me diga porquê. Quando fui informado pela direção do jornal que minha coluna passaria a ser publicada no domingo, como foi a dele até a semana de sua morte, tive a impressão de vê-lo a meu lado rindo muito, nem sei direito porquê. No próximo delírio sobre o assunto, vou pedir a Ubaldo que me traga com ele Glauber Rocha, para que eu possa explicar um pouco quem eu sou. Só um pouco, porque muito também não sei. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

 

Recordações do Internato

       Cyro de Mattos

 

             A primeira noite no internato não dormiu bem. A mangueira lá fora sob a claridade da lua projetava com os galhos figuras estranhas na parede do dormitório.  A chuva que caiu forte fez barulho no telhado. O vento uivou por entre a folhagem da mangueira. Os ruídos que chegavam de fora entravam no dormitório pelas gretas da janela. Teve medo. A noite tremia dentro dele com sombras e rumores. Que seria o mundo para ele dali para frente?   

   Levava consigo as lembranças que cada um carregava de sua cidade para onde fosse:  gestos, gostos, cores, bichos, sustos esplêndidos, risos com os amigos, pois era assim que respirava o dia na aventura da vida, lá no chão de seu nascimento, portando a flor do sol acesa no peito nu pelas ruas da fantasia e alegria. Recordou mergulhos e pescarias que fazia com a turma de amigos no rio de vertentes puras e claríssimas, o vaivém do jogo de bola nos campinhos improvisados dos terrenos baldios e o roubo constante de frutas maduras nos quintais espalhados pela sua cidade amada, que de tão enlameada com a chuva grossa de inverno sujava os sapatos dos seus habitantes, atolava os carros na rua. 

Houve naquela primeira noite do internato sombras que envolviam um pássaro com a plumagem do temor. Um pássaro que de repente se sentiu aprisionado, em vão tentara se libertar para voltar à paisagem da terra natal, no espaço sem voo ficava dando agora com as asas de encontro às paredes da gaiola. Sentia que o calendário reservado pelo tempo para ele era agora diferente, descortinava no caminho comprido só estudo, disciplina e reza. Atrás, na sua pequena cidade, o tempo se encarregaria de esfumar todas as manhãs do mundo tecidas nos eternos fios do sonho, com as brincadeiras pontilhadas na aventura feita com delícia e liberdade.

Não mais o tempo se apresentaria com suas mil línguas de chuva para arejar o dia com o cheiro cheiroso de terra molhada, nem daria uma sensação especial quando o sol resvalasse nos seres e coisas com o brilho de sua flor gigantesca aberta no céu. Não mais saberia do convite que o tempo costumava fazer para correr e ampliar-se na ciclagem de prazer que o coração nutria em si mesmo, em pulsações generosas, que pareciam não ter término.