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segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

 

 

TEMPO DE NATAL

Cyro de Mattos

 

 

Ceia

 

Traga o Natal

Frutos verdes.

 

De paz e amor

Ponha na mesa.

 

Afaste a sede

Triste dos dias.

 

Na luz da estrela

Ilumine a noite

 

Do medo no escuro

E na manhã brilhe.

 

Presépio

 

Do céu dos céus

Uma estrela

Que anuncia

Só amores

Para iluminar

As pobrezas

Dessa terra.

 

Na manjedoura

Ondas embalam

O menino no berço

Feito de palha.

É Natal! É Natal!

Os bichos propagam.

 

Cantam os anjos,

Tocam os pastores

Suas doces flautas.

Os reis magos

Estão sorrindo

De pura alegria.

 

 

O Pinheiro

 

Antes triste, no canto,
Só que de repente
Como por encanto
Aparece iluminado
Com estrelinhas do céu,
Não mais que de repente
Todo aceso de Deus.

 

Manjedoura

O que mais encanta
É nascer o menino
Na poeira desse chão
Onde os bichos andam
E até hoje esse menino
Com sua luz suave
Semear grãos azuis
De amor e de paz
Na manjedoura dos ares.

 

Menino Deus

São suas as proezas

De estrela numa só mesa

De todas as mãos.

 

Historinha de Menino Jesus

 

O galo cantou,

A vaca mugiu,

O burro zurrou,

A ovelha baliu.

 

A rosa acordou,

O peixe sorriu,

A cabra contou

Que a cobra sumiu.

 

Foi tanto balão

Que subiu ao céu,

Foi tanta canção

 

 

Que ventou ao léu

Que até hoje luz

Do menino a cruz.  

 

 

 

Natal

 

Uma estrela afugenta

Da noite o medo

Que se tem das trevas.

O canto do galo

Que fere a aurora

Dessa vez é mais belo.

Num sorriso silencioso

A Virgem Maria sabe

Do amor de Deus no chão.

Da flauta dos pastores

Sai essa canção que comove.

Todos os anjos entoam

O esplendor deste amor,

Em torno do mundo

Abelhas soltam

Zumbidos de ouro.

domingo, 18 de dezembro de 2022

 

                            Emmo Duarte e Seu Porto de Esperança

                                       

                                        Cyro de Mattos

 

Nas antologias Itabuna, Chão de Minhas Raízes, Editora Oficina do Livro, Salvador, 1966, e Ilhéus de Poetas e Prosadores, Edição da Fundação Cultural da Bahia, Coleção Letras da Bahia, Salvador, 1998, incluí os trechos Uma Progressista Cidade e Doutor Corumbá, extraídos do romance Porto de Esperança, de Emmo Duarte. Ambas as antologias têm meu prefácio, notas e seleção de texto. Como o poeta Sosígenes Costa, Emmo Duarte nasceu na cidade de Belmonte, Sul da Bahia, vindo ao mundo em 30 de outubro de 1920. 

Passou sua infância em Ilhéus, foi homem de imprensa com trânsito por Salvador, Maceió, Recife e Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro onde também exerceu a advocacia.  Traduziu ensaios sobre Graham Greene, William Faulkner e o romance Os Donos do Orvalho, do haitiano Jacques Romain, um belo livro de ficção engajada, de fundo telúrico, sem distorções entre o estético e o realismo da vida como ela é, com suas verdades reveladas através de notas pungentes, cruas pinceladas da realidade exterior, tocada pelos quadros formados entre opressores e oprimidos, estes como personagens relegados ao sabor da sorte enquanto seres excluídos pela dura lei da vida.

Em Porto de Esperança, o belmontino Emmo Duarte mostra em passagens irreverentes a alma lírica da cidade de Ilhéus, conta as histórias inspiradas pelo seu antigo porto exportador de cacau para o mundo.  Em cenário bem construído, faz desfilar personagens que vivem o cotidiano da cidade, movimentada com seus navios chegando e partindo, as longas conversas nos bares, cafés, casas de mulheres e jornais. 

         O romance Porto de Esperança sugere a ambiência realista retratada nos livros A Comédia Humana, de Willian Saroyan, e Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, a verdade de cada um expressa por tipos grotescos produzidos nas relações advindas do cotidiano. Focado na realidade exterior, o eixo romanesco do livro desdobra-se sem forçar as cenas marcadas de amargura, fixadas nas frustrações flagradas de uma pequena cidade com suas esperanças que se propagam como sonhos nunca alcançados.

Emmo Duarte deixou inédito o romance O Rei do Cacau e, em andamento, O País de Belmonte.

Adendo: quanto ao poeta Jacinta Passos, recomendo consultar o Portal de Poetas Ibero-Americanos editado por Antônio Miranda, que traz uma síntese biográfica da poeta baiana de Cruz das Almas, acompanhada de um conjunto de poesias, que dão uma imagem suficiente de um poeta com o estro apurado, estilo configurado nos moldes modernistas quando então o conteúdo de seus veros reveste-se de assunto do nosso folclore e do cancioneiro popular.  

                

sábado, 17 de dezembro de 2022

 

Acadêmica e Escritora Nélida Piñon Nos Deixou

 

A Acadêmica e escritora Nélida Piñon morreu no dia 17 de dezembro, aos 85 anos, em um hospital em Lisboa, Portugal. A causa da morte ainda não foi confirmada. O sepultamento será no mausoléu da ABL, que fará uma Sessão da Saudade no dia 02 de março, no Salão Nobre, em homenagem à autora. Nélida foi uma das maiores representantes da literatura brasileira. Era a quinta ocupante da Cadeira 30 da ABL, tendo sido eleita em 27 de julho de 1989, na sucessão de Aurélio Buarque de Holanda. Em 1996/1997, tornou-se a primeira mulher, em 100 anos, a presidir a Academia Brasileira de Letras, no ano do seu I Centenário.

Nélida Piñon estreou na literatura com o romance Guia-Mapa, de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961, pela GRD, que tem como temas o pecado, o perdão e a relação dos mortais com Deus. No romance A república dos sonhos, baseado em uma família de imigrantes galegos no Brasil, ela faz reflexões sobre a Galícia, a Espanha e o Brasil. Sua obra já foi traduzida em inúmeros países, tendo recebido vários prêmios ao longo de mais de 35 anos de atividade literária. Ganhou diversos prêmios, como o Pen Clube de Literatura por sua mais recente obra, Um Dia Chegarei a Sagres, lançada no final de 2020.

Com essa grande perda para as letras brasileiras, a Academia de Letras de Itabuna externa seus sentimentos de pesar aos familiares de Nélida, amigos e leitores, na certeza de que ela continuará conosco através de seus ricos romances enquanto viva for a Literatura Brasileira.

 

                                                  Wilson Caetano – Presidente da ALITA

 

Acadêmica e Escritora Nélida Piñon Nos Deixou

 

A Acadêmica e escritora Nélida Piñon morreu no dia 17 de dezembro, aos 85 anos, em um hospital em Lisboa, Portugal. A causa da morte ainda não foi confirmada. O sepultamento será no mausoléu da ABL, que fará uma Sessão da Saudade no dia 02 de março, no Salão Nobre, em homenagem à autora. Nélida foi uma das maiores representantes da literatura brasileira. Era a quinta ocupante da Cadeira 30 da ABL, tendo sido eleita em 27 de julho de 1989, na sucessão de Aurélio Buarque de Holanda. Em 1996/1997, tornou-se a primeira mulher, em 100 anos, a presidir a Academia Brasileira de Letras, no ano do seu I Centenário.

Nélida Piñon estreou na literatura com o romance Guia-Mapa, de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961, pela GRD, que tem como temas o pecado, o perdão e a relação dos mortais com Deus. No romance A república dos sonhos, baseado em uma família de imigrantes galegos no Brasil, ela faz reflexões sobre a Galícia, a Espanha e o Brasil. Sua obra já foi traduzida em inúmeros países, tendo recebido vários prêmios ao longo de mais de 35 anos de atividade literária. Ganhou diversos prêmios, como o Pen Clube de Literatura por sua mais recente obra, Um Dia Chegarei a Sagres, lançada no final de 2020.

Com essa grande perda para as letras brasileiras, a Academia de Letras de Itabuna externa seus sentimentos de pesar aos familiares de Nélida, amigos e leitores, na certeza de que ela continuará conosco através de seus ricos romances enquanto viva for a Literatura Brasileira.

 

                                                  Wilson Caetano – Presidente da ALITA

domingo, 11 de dezembro de 2022

 

                  Natal com Drummond e Valdelice

 

                  Cyro de Mattos

 

Há tempos vinha enviando em dezembro para pessoas de meu círculo afetivo, parentes, amigos e escritores, minha mensagem de Natal acompanhada de um poema. Penso que decorreram mais de trinta anos quando fiz o primeiro poema motivado pelo Natal com essa intenção. Lembro do primeiro que enviei. Manjedoura — O que mais encanta/ é acontecer o menino/ nas migalhas/ deste chão sonoro/ e ganhar grãos azuis/na manjedoura dos ares.

Certa vez ousei enviar para o poeta Carlos Drummond de Andrade a mensagem com um desses poemas. Era um soneto, um soneto menor, com versos de cinco sílabas, que contava a alegria de bichos e gente com o nascimento do menino pobre nas palhas, que depois viria ser o bem-amado salvador da humanidade. Assim era o sonetinho: Historinha do Menino Jesus — O galo cantou, / A vaca mugiu, / O burro zurrou, / A ovelha baliu. // A rosa acordou, / O peixe sorriu, / A cabra contou/ Que a cobra sumiu.// Foi tanto balão/ que subiu ao céu,/ Foi tanta canção// Que ventou ao léu/ Que até hoje luz/ Do menino a cruz.

Não demorou, um milagre aconteceu quando recebi do poeta Carlos Drummond de Andrade, como retribuição à minha mensagem de Natal, o poemeto seguinte: A Cyro de Mattos no Natal — Uma notícia irrompe desta árvore/ e ganha o mundo: verde anúncio eterno/ Certo invisível pássaro presente/ murmura uma esperança a teu ouvido. Depois de receber esse rico presente de um poeta grandão, de minha predileção, que poderia um poeta inventor de ingenuidades, desconhecido, morando e vivendo no interior da Bahia, querer mais naquele Natal?

O poema de quatro versos do trivial lírico de Itabira, com suas ondas cheias de ternura, dava-me a mesma sensação que tive quando era menino e acreditava em Papai Noel. Como até hoje acredito, não sorria, faz favor. Recebi naquele Natal que já vai muito longe como presente do bom velhinho uma bola de couro, que encontrei no outro dia pelo amanhecer sobre meu par de sapatos. Era o que mais queria, aquela bola de couro, para jogar futebol com meus queridos amigos nos campinhos improvisados dos terrenos baldios. Atordoado, não sabia, naquele instante, se o presente que me chegava do céu por encanto, com uma bola de couro, novinha, era sonho ou verdade. Neste caso, eu havia feito um bilhete a Papai Noel pedindo para que ele me desse no Natal a bola de couro e fui atendido naquilo que tanto desejava. No caso dos versos de Carlos Drummond de Andrade, chegou-me aquele presente de um coração lírico como era o do nosso poeta maior, sem que eu nada lhe ter pedido. Sustos esplêndidos do Natal aqueles, quer num caso, quer no outro.

         Transcorridos dez anos, dei conta que já havia enviado a cada dezembro para as pessoas um conjunto de poemas inspirados no Natal. Resolvi reunir e publicar os poemas no pequeno livro Natal Permanente, que teve ilustrações de Calasans Neto e o selo das Edições Macunaíma, de Salvador. Naquele dezembro de 1986, enviei para as pessoas esse pequeno livro, ao invés de um novo poema com tema do Natal, como eu vinha fazendo. Uma das surpresas agradáveis que tive foi quando recebi da poeta conterrânea Valdelice Soares Pinheiro uma pequena carta agradecendo o envio do meu pequeno livro. Ela me dizia que Natal Permanente lembrava-lhe “fonte, peixe e comunhão”, fazendo-a sentir “nesse caminho por onde os homens deveriam passar colhendo mel, preparando o pão”. Observava: “Traz-me a alegria de descobrir que sou cavalo, viagem, travessia desse menino, esse distante, mas ainda agora menino, que um dia, trinta e três anos depois, pregado em uma cruz, sonhou ser a luz dos homens, despregando, de seus braços doloridos, o amor e o perdão para a compreensão de sua presença de Pai e Filho, que, em um só, queria criar o Reino da Paz no Espírito Santo”. A certa altura, tomando emprestados alguns dos meus versos, ela perguntava: “Terão os homens entendido essas proezas numa só mesa de todas as mãos?”

          Até hoje vou aos meus guardados e busco a carta da conterrânea Valdelice Soares Pinheiro. Fico comovido quando a leio na época do Natal. Ela termina por me dizer que meu pequeno livro, além de estendê-la na consciência de não solidão, “me trouxe de volta a criança que um dia, queira ou não queira, a gente pensa que perde”.

Natal Permanente é o mesmo livrinho que passou a ser chamado Oratório de Natal, publicado pela Fundação Cultural da Bahia, em primeira edição, e, acrescido de mais dez poemas, em segunda, pela editora Duna Dueto, do Rio de Janeiro.  Com as ilustrações singelas do desenhista Ângelo Roberto, baiano nascido em Ibicaraí, que residiu muitos anos em Salvador, onde ficou conhecido como o poeta do traço. 

O livrinho Oratório de Natal, que vem me dando alegria, continua circulando em época ou não do Natal. Para que a vida seja sempre verde como na campina. Para que a vida seja sempre mansa como na colina. Para que a vida como a do menino dormindo no presépio seja sempre amiga e no meu peito cresça.

domingo, 27 de novembro de 2022

 

Os labirintos de Jorge Luís Borges

              Cyro de Mattos

 

 

As metáforas de teor metafísico em Borges soam soberbas e nos deixam perplexos. Não é por acaso que no poema “Cambridge” afirma: “Somos nossa memória. Somos esse quimérico museu de formas inconstantes, esse montão de espelhos rotos.” Foi como também viu a nossa condição na vida o magistral poeta Fernando Pessoa, ao dizer que sonhar era saber essa ilusão nos reinos espectrais do tempo.

                O é, o foi e o será perduram em Borges por entre inúmeros labirintos. Em Buenos Aires quando segue caminhando, sentindo nas esquinas o hoje tão lento e o ontem tão breve, nessas esquinas “sem por que nem quando”.  Perscruta assim, entre a alba e a noite, esta história universal, sem esperar que “o rigor desse caminho, que teimosamente se bifurca em outro, tenha fim.” Em “El Aleph”, a história que acompanhamos abre o caminho de um novo tipo de literatura, do fantástico, do enredo que vai sendo devorado pelos labirintos da imaginação. Assim posto em cena labiríntica o plano fictício e ao mesmo tempo real de “El Aleph”, o microcosmos dos alquimistas e dos cabalistas consiste em um dos pontos do espaço que contém todos os pontos. Aqui, o personagem encontra esse lugar onde se encontram, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos.  

No conto “Pierre Menard, autor do Quixote”, Borges imagina a história do homem que não queria compor outro Quixote, não pretendia conceber uma transcrição do original nem se propunha a copiá-lo. Sua soberba ambição era escrever O Quixote, páginas que coincidissem, palavra por palavra, linha por linha, com as de Miguel de Cervantes. Em “O Jardim dos caminhos que se dividem”, ele traça uma extensa adivinha ou parábola com o tempo, sendo talvez este para a crítica dos contos mais ricos escritos por Borges. Trata-se de história que espanta e encanta, pela dualidade em que se encontram a morte e o tempo.  Somente no último parágrafo o leitor pode achar a chave dessa ficção na forma tortuosa em que é executada.

Em “O imortal”, o tema tratado agora é o da imortalidade dos homens. Borges foca a situação do homem que sempre procura fugir da morte, após o nascimento. Basta estar vivo para morrer a cada instante, pensa o homem. Nessa história impressionante, exercida com linguagem enigmática, percorre-se os labirintos do tempo e do espaço na tentativa de encontrar a cidade dos imortais, que de tão distante só existe na imaginação humana. Essa cidade, com sua arquitetura pródiga em simetrias, ainda que localizada no centro de um deserto desconhecido, enquanto existir ninguém no mundo poderá ser corajoso e feliz.  É tão horrível que a sua presença confunde o passado e o futuro.

Borges a concebe, como

                                       um amontoado de palavras complexas, um                           

                                      corpo de tigre ou de touro, onde pulularam monstruosamente, conjugando-se e odiando-se, dentes, órgãos e cabeças, podem (talvez) ser imagens aproximadas.

Há quem afirme que o escritor só deve escrever sobre o que conhece, viu e viveu.  Essa maneira de postular o literário não se aplica a Jorge Luís Borges, o mais literário dos escritores, o que escreveu e imaginou o mundo como resultado do que leu e, logo depois que ficou cego em definitivo, enxergou como poucos seus caminhos metafísicos, sob o rigor do pensamento e da simetria. Tornou-se por isso mesmo um bruxo impressionante, que inventava com maestria enredos labirínticos e mitologias metafísicas, sem ter conhecido fisicamente a paisagem humana e a realidade objeto da sua escrita. E, assim, lendo e vendo com a alma, imaginando seus mundos criativos, num estilo sóbrio, passou a ser visto ele próprio como sinônimo de literatura, aquele que nos lega na poesia, no conto e no ensaio um universo fantástico, insólito e transcendente.

A literatura esteve sempre na sua alma, soube isso desde o início, como um destino a cumprir. Aos seis anos comunicou à família que queria ser escritor. O menino fora muito cedo iniciado na leitura pela mãe, criatura adorável, que o incentivava a viver intelectualmente no mundo das letras. Na biblioteca do pai havia descoberto os livros, esse mundo fantástico das histórias fabulosas onde iria passar a vida toda. Em idade precoce começou a redigir os primeiros textos, um conto ao modo de Cervantes e um ensaio sobre mitologia clássica.

Foi no ano em que começou a Primeira Guerra Mundial que a família de Borges viajou para a Europa. Em Genebra faz os estudos superiores, na Espanha participa de saraus e publica poemas em revistas espanholas. Quando regressa a Buenos Aires, encontra uma cidade diferente, que o encanta e o inspira para escrever os seus textos labirínticos, de temas metafísicos. Condenado à cegueira, que vinha gradualmente afetando-o, desde a infância, não viu nela nada de especialmente patético ou dramático. Submeteu-se a oito operações e, nesse ocaso gradativo, ficou cego desde os fins de 1950 para a leitura e a escrita.  Nessa oportunidade havia escrito o “Poema das Dádivas” e já era diretor da Biblioteca Nacional. Comentou então da esplêndida ironia que Deus reservou para ele, concedendo-lhe oitocentos mil livros e a escuridão.

Condenado à cegueira por herança paterna, o poeta e prosador que especulou sobre “o livro dos livros”, observando que não sabe se existe ou se é sonhado por Deus, lança-nos, em labirintos poéticos arquitetados de luzes e sombras, histórias fabulosas com galerias de espelhos onde ele explora o tema da dupla identidade. Jorge Luís Borges é o “fazedor” de outra dimensão da literatura, enredada no imprevisível, distante do previsível operado pelos realistas com os elementos da exterioridade circunstante, em que os dados da objetividade são transpostos para o texto, dando ao ficcionista uma feição de copiador literário.

É um fazedor de literatura no melhor sentido, com textos extremamente criativos na direção de contos maravilhosos, ditados pelo pensamento e com uma imaginação prodigiosa. Falou-nos de um homem, “que se propõe fazer uma pintura do universo. Depois de muitos anos, cobriu uma parede nua com imagens de navios, torres, cavalos, armas e homens, só para descobrir, no momento de sua morte, que desenhara um retrato de seu próprio rosto.”

Labiríntica, como nesse personagem, é a natureza da literatura de Jorge Luís Borges, alimentada e respirada em todos os livros que havia lido. Ele sempre viu a literatura como forma de conhecimento do mundo, fundamental como o amanhecer. Se não resolve os problemas cruciais da vida, como certa vez declarou, só com ela e sua linguagem que salva é que podemos atravessar o nosso lado noturno e alcançar o dia. 

       Por tantas qualidades excepcionais de um fino e instigante ficcionista, não se pode deixar de considerar o que, no final do longo artigo “Uma História do Conto”, dosado com humor, importantes sinalizações sobre o gênero e seus melhores autores, o escritor Guilhermo Cabrera Infante acentua a respeito dos contos excepcionais de Jorge Luís Borges:

 

           Foi Borges quem disse de Quevedo que não era um escritor, mas uma literatura. Com maior justiça se pode dizer o mesmo de Borges. Ele sozinho, em sua remota Buenos Aires, que depois dele sempre está perto, aqui ao lado, virando a página, Borges sozinho fez do conto toda uma literatura e até mais, uma teoria literária. Não preciso citar nenhum título, pois vocês conhecem todos. Mas são contos não para ler, e sim para reler, recordar, memorizar e sempre nos assombrar. Não só com sua cultura e seu humor, mas também com sua arte narrativa

Leituras Sugeridas 

 

FERREIRA, Serafim. Jorge Luís Borges, coletânea, Editorial Presença, Lisboa, 1965.

JOSEF, Bela. História da literatura hispano-americana, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1971.

CERQUEIRA, Dorine. América América: amostragem da ficção hispano atual, Editus, editora da UESC, Ilhéus, 2011.

BORGES, Jorge Luís. Entrevista em A história é amarela, coletânea, Editora Abril, São Paulo, 2017.

INFANTE, Guilhermo Cabrera. Uma história do conto, “Folha de São Paulo”, 30 de dezembro de 2001.

 

 

 

 

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

 

                    Academia de Letras de Itabuna

dá a Cyro de Mattos o título 

nobre de presidente de honra

 

         O presidente Wilson Caitano divulgou, na sessão virtual ocorrida no dia 10 deste mês, que a diretoria da Academia de Letras de Itabuna conferiu a Cyro de Mattos o título de Presidente de Honra da instituição.  O diploma da distinção nobre será entregue ao escritor e acadêmico em sessão solene, a ser realizada no dia 17 de dezembro deste ano.  Cyro de Mattos é um dos fundadores da Academia de Letras de Itabuna, para a qual vem contribuindo com atitudes e projetos, que se tornaram importantes no correr dos anos para a evolução e consolidação da entidade.

A concessão do título nobre ao acadêmico foi ideia da vice-diretora, acadêmica Janete Ruiz Macedo, que contou com o entusiasmado apoio do presidente Wilson Caitano e da acadêmica Raquel Rocha. A notícia foi recebida com alegria por integrantes da entidade, presentes à sessão virtual para tratamento do assunto e de outros. Cyro de Mattos foi presidente do Centro de Cultura Adonias Filho e Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.

 É autor de 62 livros pessoais, entre o romance, conto, crônica, ensaio, poesia e literatura infantojuvenil. Jornalista com passagem na imprensa do Rio, advogado aposentado, pertence também às Academias de Letras da Bahia e de Ilhéus, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. A crítica especializada destaca seu legado como de grande valor na literatura contemporânea.

Ele é premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado também em Portugal, Itália, França, Espanha, Dinamarca, Alemanha e Rússia. Seus textos de ficção e poemas estão inclusos em dezenas de antologias, no Brasil e no estrangeiro. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Foi distinguido no ano passado com a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara de Vereadores de Salvador.


Fonte: Blog VCosta do Cacau, Itabuna, ontem.

 

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

 

O mascate libanês

    Cyro de Mattos

 

O gringo Mansur desembarcou na estação do trem numa tarde de sol claro. Ao entrar na primeira rua de chão batido, depois de uma praça, sentiu no ar o odor denso de umas amêndoas secas que enchiam os armazéns de portas largas. Era o cheiro de resina do cacau. Encheu-lhe o peito o mesmo anseio dos que chegavam à região para realizar o sonho de ficar rico numa terra que oferecia a qualquer vivente muita benesse, graças à boa lavra das árvores dos frutos cor de ouro. Ele não chegava ali como outros com as mãos pobres. Trazia algum dinheiro, joias e uns caixotes contendo tecidos, tapetes, perfumes, sabonetes, talcos, carretéis de linha, tesouras, panelas, talheres, coisas miúdas e até vidrinhos com purgantes e óleo de rícino.

 De primeiro foi mascatear nos povoados, onde era aguardado com ansiedade e recebido com alegria por gente curiosa. Causava espanto aos tabaréus as novidades que trazia em mercadoria para ser vendida na porta das casas ou na pracinha pouco acostumada a visitas como aquela. Às vezes não se entendia o que ele falava naquela língua estranha, misturando as palavras e arranhando a voz, que saía engraçada. Ficava em cada povoado pouco tempo, resolvia penetrar a mata hostil, com a mercadoria nos baús em lombo de mula. Ia abrindo trilhas e atalhos, que serviam para interligar gente, que de tão distante na tapera e na roça de cereal plantada pelos fundos, na clareira aberta por machado e facão, não sabia um do outro.

Hoje aqui perto, amanhã nas lonjuras, sem os pais, irmãos, amigos, doce amor da bela amada, tangendo os burros com a mercadoria nos baús grandes. Nessas idas e vindas, ia formando caminhos que ligavam os povoados aos fundos da mata.

Tecedor de sol e chuva, peito armazenado de solidões pela mata bruta. Respingava de suor no rosto, pulsando com o sangue dos ancestrais nas veias da madrugada. Picado por carrapato e mosquito, sedento, faminto, resmungando por trilhas e atalhos no mato grosso. Seda rara, tapete, broche, anel, perfume, linho, porcelana, revólver, rebenque, espora, lâmpada mágica. Tudo sacolejava nos baús que os burros levavam, já formando uma tropa pequena e nova.

Alimentava-se nas veredas com o sonho de se tornar um dia fazendeiro de vastas roças de cacau, nas horas de maior solidão ajoelhava-se. Inclinava o peito para frente várias vezes seguidas. Apoiando-se com as mãos no chão coberto de folhas secas, contrito, sob o silêncio imenso da mata trevosa, beijava o chão e emitia cânticos orantes:

         

           Ilumina-me, Alá

Com o teu espírito,

Ilumina-me,

Ilumina-me,

Deixa-me sentir

Aqui no coração

Todo o teu calor,

Todo o teu amor

Para sempre,

Para sempre.  

 

Ilumina-me, Alá,

Com o teu espírito,

Ilumina-me,

         Ilumina-me,

Deixa-me sentir

Aqui na minha mente

O brilho bem forte

De todo o teu amor

Para sempre,

Para sempre.

 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

                           Picada de Carrapato

                                 Cyro de Mattos

 

 

             Sergei Turgenief, conhecido como o general bebedor de sangue, foi nomeado pelo presidente de Jurapov, Ivan Putinik, para comandar os novos ataques à Ucranzineia, agora centrados na infraestrutura civil do país. Conhecido por ser brutal e linha-dura, o comandante se especializou em infantaria e ataques aéreos.  É reconhecido justamente por não poupar infraestrutura civil em ataques aéreos, que atingiram casas, escolas, instalações de saúde e mercados onde as pessoas vivem, trabalham e estudam.

            Ele mal chegou ao novo posto e já ordenou o ataque a alvos civis em toda a Ucranzineia, incluindo um entroncamento rodoviário próximo a uma universidade e a um parque infantil. Uma de suas ofensivas brutais, do que mais se orgulha, destruiu grande parte da cidade de Sureppo.

           Turguenief é absolutamente implacável, com pouca consideração pela vida humana. Por mais de 30 anos, a carreira militar foi marcada por alegações de corrupção e brutalidade.

          Sempre gozou de vida saudável.

         Recentemente apareceram-lhe dores de cabeça, vômitos e tonturas. Foi ficando pálido, transtornado, magro como se alguma coisa invisível estivesse chupando o sangue e minando suas carnes. Foi se depauperando aos poucos, ficou sem o brilho dos olhos pequenos, falava com dificuldade. Passava noites sem conseguir pegar no sono. Um suplício. Uma junta médica, do mais alto nível no combate às doenças raras, foi convocada às pressas para lhe dar assistência, na tentativa de encontrar a causa e debelar a doença.  

          Ele foi enterrado com honras militares. Qual foi a causa de sua morte?  A picada de um carrapato. A princípio era uma ferida, não parecia nada grave.  Por caminhos ocultos, a inflamação foi se expandindo, ocupou as zonas de perigo dos nervos e vasos sanguíneos até que chegou ao ponto final do campo de batalha.

            O implacável comandante perdia a guerra por uma aparente e imprestável picada de carrapato. 

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

 

Arte como esperança: Cyro de Mattos

                                Oscar D’Ambrosio*

 

Prêmio Jorge Portugal de Literatura da Secretaria de Cultura da Bahia (SECULTBA) de 2020, “Canto até hoje” é uma Edição Comemorativa dos Sessenta Anos de Atividades Literárias de Cyro de Mattos. O conjunto de obras, já publicadas e inéditas, constitui um painel da criação de um artista a favor da liberdade e contra qualquer tipo de suplício.

Explico melhor lembrando de três sofrimentos célebres impostos pelas divindades gregas. Tântalo, por exemplo, sofreu eternamente sem poder comer ou beber. Mesmo rodeado de água até o pescoço, ele não podia alcançá-la, pois, quando tentava beber, ela baixava o nível e, ao tentar pegar frutos, os galhos das árvores estendiam-se para além dos seus braços.

Íxion, por sua vez, foi amarrado a uma roda em chamas. Em lugar de cordas, foram utilizadas serpentes; e ele recebeu como punição girar no calor do inferno. Assim como no Tântalo, a dor é eterna e sem possibilidade aparente de escapatória, pois as punições divinas são justamente assim: terríveis e permanentes.

E temos ainda Sísifo, que recebeu como castigo empurrar uma pedra até o topo de uma montanha. Toda vez que estava chegando ao alto, a rocha rolava novamente ao ponto de partida, tornando, assim, a atividade um labor eterno, que se torna uma metáfora, do mesmo modo que os casos anteriores, da estagnação do ser humano.

A poesia de Cyro de Mattos é uma resposta aos suplícios. Contra a dor de Tântalo, que não consegue atingir o que deseja, melhor ler o poema abaixo:

Árvore dos Frutos Dourados
O cacaueiro
é sedução
da aurora
ao crepúsculo.
Cílios,
impressões
de folhas,
a fio e prumo
segredo.

Os versos apresentam aquilo que o universal artista da palavra baiano tem de melhor: a observação poética do cotidiano para construir um lirismo em que as árvores de Tântalo se tornam objeto de sutil sedução e de esperança, pois “da aurora ao crepúsculo” existem as “impressões de folhas” nunca iguais, sempre repletas de segredos.

Os “frutos dourados” da árvore da arte também auxiliam Íxion. Para enfrentar o seu eterno rodar marcado pelas víboras e pelo calor do mundo subterrâneo, aponto o dístico “O Jabuti” e o haicai “Varal”, de Cyro de Mattos:

 

O Jabuti
Geológicas passadas
quem tem pressa tropeça

Varal
Manhã colorida.
Voz desse mundo sem mancha.
Sonhar é preciso
. 

A sabedoria simbolizada pelo animal, que administra o tempo de sua maneira toda especial, caracterizada por um vagar sem desespero pela existência, encontra um paralelo na manutenção do sonho, que se renova a cada manhã por mais improvável que isso possa parecer nas mais variadas situações.

Acreditar em algum tipo de futuro também é mentalmente saudável para Sísifo. Saber que seu esforço aparentemente inútil não é só dele, mas é de toda a humanidade, pode ser um consolo, uma pílula de realismo, como aponta o poema...

A Relva e a Foice
Aventura solitária
humano destino ter
entre estar e ir
basta vir para sair
renascer sem fim
como um talo de capim?
Ai de mim na relva,
ais que doem na lâmina, 
eu que vislumbro estrelas,
indiferentes perscrutam-me.

A aventura solitária de todo ser humano é, no fundo, a de todo e qualquer ser vivo. Nascer é morrer em um ciclo interno, no qual o trabalho é uma das facetas de uma caminhada existencial que muitas vezes pode parecer não ter sentido algum, pois as estrelas indiferentes tudo olham, mas sem se manifestar, ao menos aparentemente.

As palavras de Carlos Drummond de Andrade a Cyro de Mattos, escritas no Rio de Janeiro, em 1980, parecem resumir bem como o poeta combate, com suas criações, o suplício da vida:

Drummond a Cyro
Uma notícia irrompe desta árvore
e ganha o mundo: verde anúncio eterno
Certo invisível pássaro presente
murmura uma esperança a teu ouvido.

As visões (“notícias”) que surgem da existência (“árvore”), na voz poética de Cyro de Mattos, se espalham permeadas pela natureza e pela esperança anunciada pelos célebres olhos verdes de Pandora, a primeira mulher do mito grego que, como o próprio nome indica, tinha todos os dons, mas também carregava em sua célebre caixinha todos os males que nos preenchem internamente e nos rodeiam para sempre.

O pássaro a murmurar esperanças é o poeta. O canto que Cyro de Mattos faz até hoje é o seu dizer individual que se conecta com a sociedade e o mundo. A obra reunida do artista da palavra é um delicado grito de crença e de esperança no futuro que serve como bálsamo para as dores internas e externas de Tântalo, Íxion e Sísifo, cujas agruras, em última análise, são as de todos nós.

*Oscar D'Ambrosio é jornalista, graduado em Letras (Português/Inglês), com especialização em Literatura Dramática (ECA-USP), mestrado em Artes Visuais (Unesp) e doutorado e pós-doutorado no Programa de Educação Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

domingo, 2 de outubro de 2022

 

 

 

 

 

 

          Nunca mais discussão 

Cyro de Mattos

 

Aconteceu que Zé Inácio, motorista de ônibus em Buraquinho da Felicidade, ao chegar em sua residência, na rua da frente, do bairro Pau Miúdo, encontrou a mulher Belinha no sofá com um desconhecido. Revoltado, ele que é mais velho do que ela uns trinta anos, esperou que o rival saísse e partiu para tomar satisfações à mulher infiel.

          Xingando alto, sem ligar para os vizinhos que vieram até o passeio, Belinha revidava às agressões verbais do marido, chegando ao ponto de dizer que carinhoso era o amante, ninguém no mundo era mais quente do que ele. Olhar de ódio, lábio inferior mordido, mãos trêmulas, o Zé Inácio resolveu dar uma dúzia de tapas na mulher. Ela se defendeu armada de um velho facão, não tendo medo de enfrentar o marido traído. Vendo-se em desvantagem, ele pegou uma garrafa quebrada e atirou contra a mulher adúltera. Ela se livrou do projétil ao se abaixar rápido, indo se proteger por trás de uma pequena mesa. A garrafa atingiu o filho caçula do casal, que  teve um ferimento grave na cabeça.

          Chamados pelos vizinhos, os mesmos policiais prenderam Zé Inácio em flagrante. Já mais calmo, não esboçou qualquer reação quando recebeu a ordem de prisão e foi algemado. Ele admitiu na delegacia que não tinha sido essa a primeira vez que encontra a mulher com algum desconhecido em sua residência. “A vida é assim mesmo, nada se pode fazer, cada um já entra nela pra cumprir sua sina”. Logo que saísse da cadeia, ia pedir perdão à mulher e tentar a reconciliação.

          Comentou que ainda não sabia o que tinha se passado com ele para cometer cenas vexatórias como aquelas diante dos vizinhos, mesmo sabendo que ela o trai, gostava muito dela. A briga que ele teve com a mulher já era coisa do passado, a paz voltaria a reinar no lar, “amanhã será outro dia”. Com rosas no jarro posto por Belinha em cima da mesinha.

          A pequena mesa com a toalha branca de linho, tendo no centro o coração grande bordado de vermelho, atravessado pela flecha dourada de Cupido. Só era usada em ocasião especial, presente de Belinha no aniversário dele. Era a toalha que ele mais gostava, embora a razão nunca conseguisse explicar ao coração os motivos desse querer tanto. Também pudera! - como na musiquinha que gostava tanto de cantarolar, o coração tem razões que a própria razão desconhece. 

          Além do mais, quando morrer, não queria choro nem vela, somente uma fita amarela gravada com o nome dela.

           De agora em diante prometia se comportar direitinho e nunca mais  vai ter discussão  com a Belinha.