Dor é vida, sofremos porque vivemos, li no
poeta Jorge de Lima. A vida torna-se leve quando habitada com amor. Há milênios
que as religiões estão tentando mostrar ao ser humano que só o amor constrói.
Braço ao abraço a rota fica mais fácil. Há milênios, nós os humanos estamos
construindo a história de nossa condição com intolerâncias, violência, egoísmo,
traição, infâmia, em atestado absurdo, quase sem fim, do quanto gostamos de cultivar
o ódio, fazer uso da farsa e vaidade, escrever a vida às avessas. Desviados da
ternura, mais para urubu do que para curió. O que sabe hoje o nosso pobre
coração humano de Deus? Do enigma, da dor e do amor?
Essa
lição fácil, dar alpiste aos desvalidos, injustiçados, pássaros tristes com as
penas doídas, o filho unigênito de Deus, aquele homem de coração solidário,
pleno de amor, ensinou no dia a dia. Por onde andou o seu coração foi para
dizer que Deus existe. Podemos senti-lo na flor do coração. Basta amar o outro.
A flor do coração sente-se em outros que em afeto se juntam. O semeador de
esperança, curador de enfermidades, vencedor da morte, o que abriu as portas da
esperança, o bem amado salvador da humanidade, no país dos que elegiam a vida
sustentada com os valores materiais, em que o ouro e a prata ocupavam a
primazia, disseminava que como cantiga plantada na ciranda do deserto a morada
neste planeta se faz possível com todas as mãos numa só comunhão.
Ghandy
lembra que a cada dia a natureza produz o suficiente para nossas carências. Se
cada um de nós tomasse o que lhe fosse necessário, não haveria pobreza no
mundo. Ninguém morreria de fome. O genial Charles Chaplin fala do caminho da
vida com beleza e liberdade. Lamenta que tenha ocorrido o desvio da ternura. Ressalta
que a inveja, o ciúme e a cobiça envenenaram a alma dos homens, ergueram muralhas
de ódio no mundo, fazendo-nos marchar a passos de ganso para a miséria e horror
dos morticínios.
Gostava
de oferecer um abraço de bom coração a qualquer um quando percorria a cidade,
em seu rito de amar o próximo como se fosse a si mesmo. Em linguagem simples,
com amenidade de nuvem, dizia que todos nós somos missionários. Consistia a
prática em doar-se ao outro, semear o amor entre os excluídos de uma vida
digna, muitos deles sem saber a razão da fome e sede. Ele assim prosseguia
sereno, ao mesmo tempo que era o pai, o filho, o irmão.
Homem que
doou a vida ao outro como a maior prova de amor. Um libertador para os enfermos e possuídos do
mal. O que foi enviado para ser crucificado como resultado da bondade que a
todos ofertou. O que no último gemido ainda pediu ao Pai eterno que nos
perdoasse, não sabíamos o que estávamos fazendo com o Amor.
sábado, 15 de abril de 2023
Crônica de Coimbra
Cyro de Mattos
Para
João Paulo
Moreira
Logo que conheci, tocou-me o
coração. Fez lembrar a antiga Salvador. Grandes casas de muitas janelas nas
encostas. Ruelas, becos e ladeiras. Tudo é relíquia preciosa nessa paixão
secular, a vida aflora em ofícios de outros tempos. Transpira na pele do tempo
aderência de seres e coisas numa sequência soberba de raridades arquitetônicas.
Na Alta de Coimbra a rainha
do coração da cidade, a Universidade, fundada em 1º de março de 1290. A Torre
desponta como o seu emblema e da própria cidade, mal o dia mostra os primeiros
vestígios. A mulher no hotel disse-me que um dos sinos, numa das grandes
janelas, chamado de “a cabra”, regulou a vida acadêmica e da cidade durante
muitos anos. A Torre emerge num sobranceiro barroco, a sobressair na linha dos
telhados.
A Biblioteca Joanina
distingue-se também na Alta de Coimbra. Obra de artistas portugueses, com o seu
portal nobre no exterior, de estilo barroco. Cobertos por sólidas estantes as
paredes no interior. Ricamente decorado o andar superior com três amplas salas.
Decoradas com talha lacada a verde, vermelho e dourado, comunicam-se entre si
por arcos idênticos ao portal que na parede superior ostentam insígnias das
antigas Faculdades. Formas arquitetônicas da ilusão impressionam, a revelar o
milagre do fazer a vida além da morte, de maneira artística. O edifício começou
a ser construído por ordem do Rei D. João V, entre 1716 e 1724. Abriga
riquíssimo conjunto bibliográfico mundialmente famoso, superior a trezentos mil
volumes.
A cidade cantada nas
histórias que encantam guarda uma atmosfera de recolhimento. Altares em formas
de tessitura humana artisticamente trabalhada e o órgão barroco. A Sé Velha
assenta-se num monumento românico considerado o mais belo de Portugal. Ali, a
Igreja de Santa Cruz. Fundada há mais de oitocentos anos pelo primeiro rei de
Portugal, D. Afonso Henriques, foi berço esplendoroso da renascença Coimbrã.
Ali, a Igreja de São Tiago e a Praça do Comércio para onde convergem ruas
medievais. E o Arco de Almedina e as escadinhas do Quebra-Costas e a Porta
Manuelina do Palácio de Sub-Ripas e a Torre do Anto. E a silhueta monumental da
Sé Nova e o Museu Nacional Machado de Castro, com suas admiráveis coleções de
pintura, escultura, ourivesaria e tapeçaria. E, junto à margem esquerda do rio
Mondego, a Igreja de Santa-Clara-A-Velha, abrigo maternal do imponente Mosteiro
de Santa-Clara-a-Nova, onde repousa a Rainha Santa Isabel, a padroeira da
cidade.
Estende-se belíssimo manto
branco de casario na cidade cruzada por séculos e séculos de história, que
aconchega nas serenatas de fado de Coimbra e suaviza em seus beirais floridos.
Faz da noite criança adormecida de sono nas cantigas cantadas pelas vozes
jovens do grupo As Mondeguinas.
Comoventes vozes,
alternância de vagas tristes e remotas, que batem e voltam e batem. No aceno da
distância amanheço com esses raios de sol no quarto e vou até a sacada do
apartamento no hotel. Ruídos acendem o dia, acontecem em geral com os humanos
por todos os pontos da cidade cheia de vida.
Saudade e paixão, saber e
beleza, labor e oração. Inteligência que se vê em líquido sentido no espelho
real do rio Mondego. À margem o provisório tempo secular ante o eterno que
passa por debaixo dos arcos da Ponte de Santa Clara. Melhor sabem isso as
andorinhas que trissam no céu azul. Desfiam o vento ameno e propõe sobre os
telhados outra manhã de verão.
Cyro de Mattos: ‘Amado galileo’ y otros textos traducidos por A. P. Alencart
Amado Galileu
Para Alfredo Perez Alencart
Contam que nasceu numa manjedoura, o berço de palha. Foi anunciado por uma estrela, no céu toda acesa de Deus. Os bichos cantaram: Jesus nasceu! Jesus nasceu! Os pastores tocavam uma música serena nas suas doces flautas. São José, o pai, o que tinha mãos no labor de enxó, plaina e formão, soube que de agora em diante ia talhar a mais pura fé do seu constante coração. Virgem Maria, mãe do menino, dizia baixinho: Pobrezinho quando for um homem, de tanto nos amar, vai morrer na cruz.
Os três reis magos foram chegando, vieram de longe, muito longe, atravessaram montanhas e desertos. Traziam, como presente para o menino, mirra, incenso e ouro. Ajoelharam-se. Não eram dignos de tocar naquela palha, mas bastava agora que fizessem o bem ao próximo seriam salvos. Abelhas com os seus zumbidos de ouro vieram colocar afeto e mel no coração de cada um dos reis.
Contam mais que foi um menino que brincava como qualquer menino, mas que gostava de ficar às vezes sozinho, olhando para a linha do horizonte. Quando ficou rapaz, não teve dúvida, havia sido o escolhido entre os seres humanos para ultrapassar aquela linha. Para conseguir a façanha teria que fazer uma mágica em que disseminasse uma rosa na manjedoura dos ares. Juntar todas as mãos numa só mesa onde todos seriam irmãos. Teve que trazer as sementes dadas pelo Pai para plantar cirandas nas areias do deserto. Os sentimentos daquele homem com olhar de mendigo e profeta correram nas águas doces do rio, seguiram no vento manso, que soprou a flor sozinha na plantinha do brejo. Foram levados pela borboleta até o lugar onde o amor sempre permanece.
Ora, vejam só, sair por aí de mãos dadas como criança e espalhar num instante só ternura nessa terra? Convencer os homens de que viver vale a pena desde que a vida seja exercida numa comunhão em que não haja desigualdade, injustiça, opressão? A vida sem solidão, a vida como uma dança, a vida sem agressão? Os bichos sem matança e a mata sem queimada? Sem veneno as nuvens na chuva despejando a poluição?
Os donos do poder no sistema organizado não perdoaram a afronta. Traçaram o mais pérfido calvário. Fizeram que carregasse uma cruz pesada. Puseram uma coroa de espinho na cabeça, cuspiram, chicotearam. Ó desamor, quão amarga é a tua memória! Morra o rebelado, o falso profeta, o demolidor da ordem, o falso fazedor de milagre? Os que estavam cegos investiam, urravam, não se cansavam. Até que decretaram a crucificação. Não aceitaram que no seu lugar ficasse o ladrão, que para ali fora apenado com a crucificação pelos crimes cometidos.
Mas o que se viu, depois de perversa infâmia, é que até hoje toca um sino na cidade e na campina, só para nos dizer que do menino se fez o homem, em duras pedras no caminho. Vestido de aleluias, ressuscitou, ressuscitou, por ser divino e eterno só nos quer o bem.
Esse amado galileu.
Amado galileo
Para Alfredo Perez Alencart
Cuentan que nació en un pesebre o cuna de paja. Fue anunciado por una estrella, en el cielo toda iluminada de Dios. Los animales cantaban: ¡Nació Jesús! Los pastores tocaban una música suave en sus dulces flautas. San José, el padre, quien tenía manos trabajadas por azuela, cepillo y formón, supo que de ahora en adelante debía tallar la más pura fe de su constante corazón. La virgen María, madre del pequeño, decía en voz baja: Pobrecito, cuando sea un hombre, de tanto amarnos morirá en la cruz.
Los tres reyes magos fueron llegando, vinieron de lejos, de muy lejos, atravesando montañas y desiertos. Traían, como regalos para el niño, mirra, incienso y oro. Se arrodillaron. No eran dignos de tocar esa paja, pero era suficiente que ahora hicieran el bien al prójimo y serían salvos. Abejas con sus zumbidos de oro llegaron para poner afecto y miel en el corazón de cada uno de los reyes.
Cuentan también que fue un niño que jugaba como cualquier niño, pero que a veces le gustaba quedarse solo, mirando hacia la línea del horizonte. En su adolescencia ya no tuvo duda, había escogido entre los seres humanos para traspasar esa línea. Para lograr esa proeza tendría que hacer un milagro donde dispersase una rosa en el pesebre de los aires. Juntar todas manos en una mesa donde todos serían hermanos.
Tuvo que traer las semillas dadas por el Padre para sembrar rondas en las arenas del desierto. Los sentimientos de aquel hombre con mirada de mendigo y profeta corrieron en las aguas dulces del río, siguieron en el viento manso que sopló la flor solita en la plantita del brezo. Fueron llevados por la mariposa hasta el lugar donde el amor permanece siempre.
Ahora, ¿lo vieron salir por ahí, con las manos enlazadas como niño y expandir en un instante solo ternura en esa tierra? ¿Convencer a los hombres que vivir merece la pena, mientras que la vida sea practicada en una comunión donde no exista desigualdad, injusticia, opresión? ¿La vida sin soledad, la vida como una danza, la vida sin agresión? ¿Los animales sin matanzas y los bosques sin incendios? ¿Sin veneno las nubes en la lluvia limpiando la polución?
Los dueños del poder en el sistema organizado no perdonarán la afrenta. Trazaron el más pérfido calvario. Hicieron que cargase una pesada cruz. Pusieron una corona de espinas en la cabeza, escupieron, latiguearon.
Os donos do poder no sistema organizado não perdoaram a afronta. Traçaram o mais pérfido calvário. Fizeram que carregasse uma cruz pesada. Oh, desamor, ¡cuán amarga es tu memoria! ¿Muera el revelado, el falso profeta, el rompedor del orden, el falso hacedor de milagros? Los que estaban ciego se implicaban, lanzaban hurras sin cansancio. Hasta que decretaron la crucifixión. No aceptaron que en su lugar quedase el ladrón, para que allí fuera castigado con la crucifixión por los crímenes cometidos.
Pero lo que se vio, después de perversa infamia, es que hasta hoy toca una campana en la ciudad y en el campo, solo para decirnos que el niño se hizo hombre en las duras piedras del camino. Vestido de aleluyas, resucitó, resucitó por ser divino y eterno, y porque solo quiere el bien para nosotros.
…Ese amado galileo.
Cristo en la cruz, de Miguel Elías
Cravo do Cristo
A terra tremeu, Portas da esperança abertas, A morte vencida.
Evocando espinho, Até hoje perfuramos Através do bem.
Clavo de Cristo
La tierra tembló, abiertas el portal de la esperanza, la muerte vencida.
Evocando la espina, hasta hoy atravesamos mediante el bien
Haicai do Cristo
Espinhos furam Rei do perdão renegado, Do sangue bebem.
Pedra, cuspe, crivo, Ululantes cães na festa Do sol tenebroso.
Haiku de Cristo
Espinas hieren al negado rey del perdón, beben su sangre.
Piedra, asador, tamiz, ululantes perros en la fiesta del sol tenebroso.
Via impiedosa
Cuspido no caminho por onde passa respinga sangue dos espinhos que a carne perfura. Do ódio não desistem gargantas que apedrejam, uma coroa sabe a dor do vento nas manadas sem rumo enfurecidas.
Todos os rancores vergastam no rosto, abomináveis renegam a união como verdade. Tudo é solidão, é dor, o mundo que se cala com a surra desferida no rei único do perdão.
Pelas ofensas cometidas, sei que não sou digno de entrar em tua morada, mas basta uma só palavra para que eu seja salvo. Em tuas mãos entregue, faz de mim tua criatura, recolhe-me da injusta onda entre vilezas e ignomínias tingindo de roxo o coração.
Vía despiadada
Escupido en el camino por donde pasa salpica sangre de las espinas que perforan la carne. Del odio no desisten gargantas que apedrean, una corona conoce el dolor del viento en las manadas sin rumbo enfurecidas.
Todos los rencores azotan en el rostro, abominables reniegan la unión como verdad. Todo es soledad y dolor, el mundo que se calla ante los golpes asestados al único rey del perdón.
Por las ofensas cometidas, sé que no soy digno de entrar en su morada, pero basta solo una palabra para que yo me salve. En tus manos estoy, has de mí tu criatura, recógeme de injustas olas entre vilezas e ignominias tiñendo de rojo el corazón.
Cyro de Mattos (Itabuna, Bahía, 1939). Poeta, Narrador, Periodista y abogado. Es miembro de la Academia de Letras de Bahía y ha obtenido varios galardones, como el Premio Nacional Ribeiro Couto, el Premio Afonso Arinos, el Premio Centenario Emílio Mora o el Premio Internacional de Literatura Maestrale Marengo (Génova). Tiene obra publicada en Alemania, Francia, Portugal, Rusia, Estados Unidos, México, Dinamarca, Suiza e Italia. Entre sus libros de poesía están Vinte Poemas do Rio, Cancioneiro do Cacau, Ecológico, Vinte e Um Poemas de Amor y Oratório de Natal, entre otros.
El escritor brasileño Cyro de Mattos leyendo en el Teatro Liceo de Salamanca (foto de José Amador Martín)
Imagen de cabecera: ‘Cristo’, pintura de Miguel Elías
domingo, 2 de abril de 2023
Amado Galileu
Cyro de Mattos
Contam que nasceu numa manjedoura, o berço era
de palha. Foi anunciado por uma estrela, no céu toda acesa de Deus. Os bichos
cantaram: Jesus nasceu! Jesus nasceu! Os pastores tocavam uma música serena nas
suas doces flautas. São José, o pai, o que tinha mãos no labor de enxó, plaina
e formão, soube que de agora em diante ia talhar a mais pura fé do seu
constante coração. A Virgem Maria, mãe do menino, dizia baixinho: Pobrezinho
quando for um homem, de tanto nos amar, vai morrer na cruz.
Os três reis magos foram chegando, vieram
de longe, muito longe, atravessaram montanhas e desertos. Traziam, como
presente para o menino, mirra, incenso e ouro. Ajoelharam-se. Não eram dignos
de tocar naquela palha, mas bastava agora que fizessem o bem ao próximo e seriam
salvos. Abelhas com os seus zumbidos de ouro vieram colocar afeto e mel no
coração de cada um dos reis.
Contam mais que foi um menino que brincava
como qualquer menino, mas que gostava de ficar às vezes sozinho, olhando para a
linha do horizonte. Quando ficou rapaz, não teve dúvida, havia sido o escolhido
entre os seres humanos para ultrapassar aquela linha. Para conseguir a façanha
teria que fazer uma mágica em que disseminasse uma rosa na manjedoura dos ares.
Juntar todas as mãos numa só mesa onde todos seriam irmãos.
Teve que trazer as sementes dadas pelo Pai
para plantar cirandas nas areias do deserto. E os sentimentos daquele homem com
olhar de mendigo e profeta correram nas águas doces do rio e seguiram no vento
manso, que soprou a flor sozinha na plantinha do brejo. E foram levados pela
borboleta até o lugar onde o amor sempre permanece.
Ora, vejam só, sair por aí de mãos dadas
como criança e espalhar num instante só ternura nessa terra? Convencer os
homens de que viver vale a pena desde que a vida seja exercida numa comunhão em
que não haja desigualdade, injustiça, opressão? A vida sem solidão, a vida como
uma dança, a vida sem agressão? Os bichos sem matança e a mata sem queimada?
Sem veneno as nuvens na chuva despejando a poluição?
Os donos do poder no sistema organizado
não perdoaram a afronta. Traçaram o mais pérfido calvário. Fizeram que
carregasse uma cruz pesada. Puseram uma coroa de espinho na cabeça, cuspiram,
chicotearam. Morra o rebelado, o falso profeta, o demolidor da ordem, o
mentiroso fazedor de milagre, alardearam.Os que estavam cegos investiam, urravam, não se cansavam de pedir que
fosse condenado o subversivo do sistema.Ficaram calados quando foi decretada a crucificação. Não aceitaram que
no seu lugar ficasse o ladrão, que para ali fora apenado com a crucificação
pelos crimes cometidos.
Mas o que se viu, depois de perversa
infâmia vinda de uma perseguição canina, é que até hoje toca um sino na cidade
e na campina, só para nos dizer que do menino nascido na manjedoura se fez o
homem para ofertar a todos o amor e receber de volta duras pedradas. No final
crucificado para que se cumprisse a profecia, o bendito salvador da humanidade
veio para nos dizer que era o filho do Pai Eterno, inocente morreu por nos querer
mais bem.
sexta-feira, 24 de março de 2023
Considerações sobre o
conto brasileiro
Cyro de Mattos
Críticos brasileiros e estrangeiros vêm
contribuindo com estudos e juízos para definir o conto, mas sua variedade
dificulta uma definição satisfatória, bem como a sua expressão que se funde com
outras manifestações literárias, como a poesia e o drama. O conto moderno
incorpora à estrutura elementos de outras áreas artísticas, recorrendo ao
cinema, o teatro, às artes plásticas e à música. Forma de prosa de ficção em
páginas breves intercomunica-se com outras manifestações culturais. Convém
lembrar que a imprensa e a mídia eletrônica vêm afetando os códigos e os
cânones da literatura brasileira nos tempos atuais.
O conto como uma forma de
narrar histórias procede de tempos primitivos. A mais antiga expressão da
literatura de ficção atravessou séculos para tornar-se leitura prazerosa e/ou
crítica do mundo na forma escrita. O interesse insaciável do homem pelas
histórias sempre o acompanhou, antes mesmo que ele fizesse armas de pedra como
extensão da mão para se defender e sobreviver.
Entre nós, não a
narrativa oral, o conto começou a ser cultivado como entidade literária durante
o Romantismo. Impregnado dessa escola, estilo ou tendência, foi que surgiu uma
vocação autêntica para expressar o conto em textos autônomos, elevando-o à
categoria de gênero importante, em sua composição e arte.
Pesquisar a presença e
evolução do conto no Brasil terá como momento maior o de encontro com Machado
de Assis no século dezenove. O autor de Papéis
Avulsos, Páginas Recolhidas e Histórias sem Data praticou a prosa de
ficção curta com a mesma mestria dos romances, a narrativa tradicional absorveu
o corte vertical naestrutura para
ainterpelação do destino humano,permitindo a criação de um clima na sondagem
da alma em seu instante agudo.
No fim do século dezenove
e no princípio do vinte, o conto brasileiro buscou os elementos necessários
para representar a vida no espaço geográfico: linguagem, personagens, ação,
cenas e costumes, elementos capazes de fixar a paisagem humana e física de um
país telúrico. Ao desdobrar na história os elementos do espaço geográfico, o
conto dessa época credenciou-se através de uma vertente regional, em que se
destacam o paulista Valdomiro Silveira, o gaúcho João Simões Lopes Neto, o
mineiro Afonso Arinos e o goiano Hugo de Carvalho Ramos.
Com o Modernismo, que se
mostrou primeiro com a poesia e depois com o romance, nacionalizando nossos
temas, autores sensíveis e criativos introduziram modificações nos elementos
tradicionais do conto. A linguagem deixou de ser convencional, desprezou-se a
fabulação acadêmica que fazia com que o ficcionista escondesse o imaginário,
mascarando-se em seu relacionamento interior com o mundo. Nesse momento do
conto brasileiro, em que a fabulação deixou de acontecer linearmente,
sobressaem Mário de Andrade, com a valorização da nota lírica justaposta à
dispersão do enredo, e Antônio de Alcântara Machado, transpondo o popular ao
nível literário, introduzindo um novo personagem à literatura brasileira, o
ítalo-brasileiro. Cabe lembrar antes o impressionista Adelino Magalhães, com o
seu jeito de flagrar a vida, focando-a no instante que se esgota em si mesmo,
documentando-a numa cena para deixar no leitor aquela impressão que causa pena,
solidariedade e riso.
Na evolução do nosso
conto, dois caminhos divergentes, próprios da literatura, podem ser
visualizados: o do elogio da linguagem com o seu fetichismo e o da economia dos
meios expressionais com a linguagem descarnada. Por esses caminhos o Brasil
tornou-se, de uns tempos para cá, um país de admiráveis contistas. Lembrando alguns
nomes dessa contística maior, na fatura psicológica encontramos Lígia Fagundes
Telles, Samuel Rawet, Tânia Faillace; nas localizações geográficas com apelos
universalistas, João Guimarães Rosa, Adonias Filho, Bernardo Elis, Caio
Porfírio Carneiroe Ricardo Ramos (na
primeira fase), assim como nas aculturações humanísticas dessa tendência,
Juarez Barroso, Flávio José Cardozo e João Ubaldo Ribeiro; na propensão
alegórica, através de espaços atemporaisintercomunicantes, José J. Veiga, Murilo Rubião e Maria Lysia Corrêa de
Araújo; no real captando pedaços de vida, com o autor participando e julgando o
mundo no cotidiano violento, de solidão, miséria, medo, sonhos incabíveis,
sentimentos perversos, humor de cenas ordinárias que causam espanto, riso e/ou pena,
Rubem Fonseca, João Antônio, Dalton Trevisan, Luís Vilela, José Edson Gomes e
Wander Piroli; na experimentação da linguagem poética como mergulho na situação
existencial do indivíduo, criando a atmosfera no lugar do enredo, Clarice
Lispector, Walmir Ayala, Maura Lopes Cançado, Nélida Piñon, Helena Parente
Cunha e Elias José.
Alegórico, documental,
psicológico, impressionista, supra real, regional de alcance universal, de
antecipação na corrente de ficção científica, o conto no Brasil circula hoje em
sua dimensão própria, convincente, não como aprendizado para o autor dar o
passo mais largo e definitivo de romancista, como muitos concebiam. Críticos
apontam que há nesse conto emancipado feito entre nós hoje a inevitável
influência de latino-americanos no caminho de ficcionistas jovens, porém,
nossos contistas não são mais situados com referências a escritores
estrangeiros: Maupassant, Tchecov, Kafka e Mansfield. Consolidado na trajetória
ficcional que ilude na síntese, o conto brasileiro contemporâneo circula com a
sua marca própria, seu legítimo acento, sua feição eficaz e dinâmica atraente.
Acham os clássicos que
conto é aquilo que conta alguma coisa, desenvolvendo-se a história nos momentos
tradicionais de princípio, meio e fim. Síntese de emoção aguda, acidente de
vida, tensão e concisão no espaço que prevalece sobre o tempo, acham os
modernos. Seja como for, encontrará o leitor nas breves páginas do conto atual
no Brasil um feixe de observações, o dizer sobre coisas agudas em informações
lúcidas. Pelo imaginário, temática pessoal, densidade, linguagem tradicional ou
ligada à vanguarda as gradações e variações da condição humana: ternura,
sentimentos baixos, humor, conflitos, a máquina do sistema na crueldade de seu
absurdo, o dilema da razão a gerar insegurança, abandono, contradições e
perplexidades.
Na sensação de que o
mundo é falho, participará, enfim, do mistério do viver sob o trânsito dos
humanos, o qual alcança hoje ritmo veloz, que cada vez mais assusta, subversão
constante dos valores como premonição do caos, a que o conto como instante de
reflexão, testemunho fragmentário do real ou em sua visão metaforizada do
mundo, dilatando o micro no macro, tão bem se ajusta. Ainda assim, visto esse
estar crítico do ser humano na trama, acena das fissuras a esperança como
possibilidade do amor, vocação que o indivíduo é possuidor em sua problemática
existencial para aflorar das rupturas e reconstruir o mundo.
A literatura brasileira
detém hoje a eficiente autonomia de um gênero que possui joias insuperáveis.
Uma das grandes invenções dessa entidade literária no discurso que combina,
harmoniosamente, o a forma e o fundo, a
que assistimos hoje, foi levada no Brasil por Dalton Trevisan. Esse mestre da
ficção breve na prosa enxuta e atraente, com mais de uma vintena de livros
publicados, possui uma maneira de dizer histórias originalíssimano encalço de fixar os encontros e
desencontros de todos os Joões e Marias, de uma Curitiba descida ao chão das
pequenas misérias, frustrações, devassidões, fetichismos inúteis.
Ferradas è uno degli insediamenti più antichi dello stato brasiliano di Bahia. Nel 1815 ricevette la visita del principe tedesco Massimiliano Alexandre Felipe. Ricevette anche la visita dei naturalisti Spix e Martius. All'inizio della civiltà del cacao a Bahia, possedeva un nome aristocratico: Vila de Dom Pedro de Alcântara. La sua storia è legata alla catechesi degli indigeni, ricordiamo la figura del frate cappuccino Ludovico da Livorno che i pionieri e conquistatori della terra definirono come dotato di poteri soprannaturali. Prima di svolgere una missione evangelizzatrice tra gli indigeni, fra’ Ludovico da Livorno fu cappellano nell'esercito napoleonico.
Nella fattoria Auricídia di Ferradas nacque Jorge Amado, lo scrittore più popolare del Brasile e il più tradotto al mondo. A Ferradas nacque anche il poeta Telmo Padilha. All'epoca delle esplorazioni, a Ferradas era molto attivo il commercio, con magazzini dalle ampie porte e file di muli che arrivavano carichi di cacao. La lotta per il possesso della terra, che attirava per la sua fertilità, rese la cittadina teatro di crimini commessi dai jagunços[1], come racconta anche Jorge Amado nel romanzo Terras do Sem Fim, che mostra il violento paesaggio di Ferradas, uno dei domini del colonnello Horácio.
A quei tempi il villaggio si snodava su una lunga strada sterrata. Lì mandriani e viandanti ferravano gli animali, asini e muli, che dovevano affrontare vie strette e pericolose, sentieri sassosi d'estate e fangosi d'inverno. Nelle loro marce instancabili si dirigevano verso la città di Vitória da Conquista, nell'alto sertão[2]. Il quartiere di Ferradinhas sorse dopo il villaggio. Molto dopo. Poco meno di vent'anni fa nacque un altro quartiere, quello di Nova Ferradas, con case modeste, su strade sterrate e mal disposte.
Annoto il paesaggio monotono di Ferradas. Tutto è naturale. Le donne alla finestra come uva sulla vite. Anziani seduti sulla sedia, sul marciapiede di casa. Il cielo di cuscini. Le case che sussurrano e guardano le strade assonnate. Il silenzio grasso in tutto. L'ape sui fiori del giardinetto dell'unica piazza. L'aria verde degli alberi nei fruttuosi cortili. Gli uccellini che cinguettano beccando il mattino luminoso. Il vento tiepido della mattina scalda i passi dell'uomo barbuto che entra nella macelleria. Lontano dai viali, strade che non hanno fine, viadotti e gallerie, macchine veloci che cantano sull'asfalto, i miei passi che condividono questa proposta di vita in lento cammino.
Trovo simpatico il ragazzo che gioca con i piccioni sul marciapiede vicino alla chiesetta. Nel villaggio bucolico, vedo l'asino che ora pascola nella piazza.
* La cronaca “Ferradas” fu scritta nel 1998. Fa parte del libro “O Mar na Rua Chile e Outras Crônicas” finalista del Premio Jabuti, della Câmara Brasileira do Livro, in competizione con libri di racconti e cronache di autori brasiliani.
[1] Individuo che si presta a lavoro di difesa, sorta di guardia del corpo armata, solitamente assunta dai “fazendeiros” e dai "coroneis” nell'entroterra del Brasile, specialmente nel nord e nordest del Brasile. NdT
[2] Regione semi-arida che abbraccia molti stati del nord est brasiliano (Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraiba, Rio Grnade do Norte, Cearà, Piauì e Maranhão) arrivando fino alla parte nord dello Stato di Minas Gerais. NdT
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Cyro de Mattos. Nato ad Itabuna (Bahia) nel 1939. Giornalista, avvocato, scrittore, poeta, saggista. Membro del seggio n. 22 dell’Academia de Letras da Bahia . Membro dell’Academia de Letras de Ilhéus e di Itabuna. jornalista, advogado, contista, novelista, romancista, poeta, ensaísta. Ha pubblicato più di 60 libri, di diversi generi, ed ha organizzato dieci antologie e collezioni. Le sue opere sono state pubblicate anche in Portogallo, Italia, Francia, Spagna, Germania, Danimarca, Russia e Stati Uniti. Ha ricevuto premi letterari in Brasile e all’estero: tra di essi il Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, della Academia Brasileira de Letras , con il libro "Os Brabos"; Premio Jabuti (menzione d’onore), per l’opera "Os Recuados", Premio della APCA con il libro per ragazzi “O Menino Camelô, Prêmio Nacional de Poesia Ribeiro Couto, con il libro “Cancioneiro do Cacau”, Prêmio Nacional de Ficção Pen Clune do Brasil per il romanzo “Os Ventos Gemedores” e Prêmio Nacional Cidade de Manaus, per il libro “Histórias de Encanto e Espanto”. Per dieci volte al primo posto nei concorsi letterari della Uniao Brasileira de Escritores (Rio). Ha ottenuto il secondo posto per l’opera pubblicata nel Concorso Internazionale di Letteratura Maestrale Marengo d’Oro, Genova, Italia, con il libro “Cancioneiro do Cacau” e secondo posto per l’opera inedita con il libro “Poemas escolhidos/Poesie scelte”. E’ stato uno dei quattro finalisti del Prêmio Internacional de Literatura da Revista Plural, in Messico, con la novella “Coronel, Cacaueiro e Travessia”. Nel 2020 ha ricevuto il Premio Conjunto de Obra della Academia de Letras da Bahia e Eletrogóes. É membro del Pen Clube do Brasil. Primo Dottore Honoris Causa della Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiato con la Medalha Zumbi dos Palmares dalla Camera Municipale di Salvador (2020).
Traduzione dal portoghese di Antonella Rita Roscilli
terça-feira, 7 de março de 2023
Poemas de denúncia sobre
o rio Cachoeira motivam
novo livro de Cyro de Mattos
Águas de meu rio é o novo livro de poesia
de Cyro de Mattos, que acaba de ser publicado pela editora Ibis Libris, do Rio,
com prefácio de Denise Emmer, poeta premiada em concursos expressivos
nacionais, musicista, e um dos nomes importantes da poesia contemporânea
brasileira. O livro é um poema longo dividido em vinte partes em que o poeta
aponta com tristeza, em versos de lirismo agudo, a situação doentia do
Cachoeira, outrora de águas límpidas e peixe em abundância, fonte de sustento
para muitos e lugar de alegrias para meninos e gente grande.
Autor de 64 livros pessoais, entre o
romance, conto, crônica, poema, ensaio e literatura infantojuvenil, o baiano de
Itabuna Cyro de Mattos (cyropm@bol.com.br)
já publicou vinte e dois livros de poesia para o leitor adulto, três deles com
o tema inspirado no Cachoeira, formando uma trilogia do rio com esse Águas emeu
rio. Os outros dois livros da trilogia são Vinte poemas do rio/Twenty River
Poems, tradução de Manuel Portela, e O discurso do rio, constituído de trinta
sonetos, ambos publicados pela EDITUS, editora da UESC. Esses dois livros foram
também editados em Portugal, pela Palimage, de Coimbra, na coleção Palavra e
Imagem, dirigida pelo poeta Jorge Fragoso.
Vinte Poemas do rio foi adotado por três
anos para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz. Pequeno livro de
versos cativantes, vem sendo estudado em escolas e universidades. Seus poemas
foram declamados pelos alunos da Escola São Jorge de Ilhéus no Teatro de Ilhéus
para um público que lotou as dependências do auditório.
Do livro Águas de meu rio é o poema VIII
em que o poeta revela as suas relações afetivas com o rio de sua infância, quando
o cenário era de pureza e alegria.
Leiam abaixo o poema.
VIII
aprendi a nadar em tuas águas
aprendi a mergulhar em tuas águas
aprendi a pescar em tuas águas
aprendi a sorrir em tuas águas
aprendi a cantar em tuas águas
aprendi a saltar em tuas águas
aprendi a flutuar em tuas águas
aprendi a dormir em tuas águas
aprendi a sonhar em tuas águas
enquanto as nuvens passavam
as borboletas voavam em bando
não querias que eu esquecesse tuas
águas
O Poeta e o Rio
Afonso Manta
E
vendo as águas do rio
e
outras águas renhidas
o
poeta Cyro reinventa
o
mistério de nossas vidas.
Cyro
de Mattos observa as lavadeiras quando
antigamente
lavavam as roupas e estendiam
nas
pedras, que ficavam coloridas.
quinta-feira, 2 de março de 2023
Erudição e Sabedoria em Rui Barbosa
Cyro de Mattos *
Rui Barbosa nasceu em
Salvador, aos 5 de novembro de 1849. Filho de Maria Adélia, moça de temperamento
calmo e bem educada. Seu pai, João Barbosa, fora um político atuante,
jornalista inflamado, homem preocupado com as reformas humanas no ensino, um
médico que abandonara a profissão.
Rui foi membro da Academia de Letras da
Bahia e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, tendo sido
presidente quando Machado de Assis faleceu. Era um homem de estatura baixa,
franzino, a cabeça grande sustentada por um pescoço fino. Tímido e feio, mas
tinha uma voz poderosa quando ocupava a tribuna. Os olhos faiscavam, de cada
centelha a oratória incendiava com a argumentação fascinante, baseada na
verdade.
Fora incapaz de
conceber a vida sem um ideal. Liberal convicto, construtor da República,
deu-lhe o arcabouço jurídico inicial. Não aceitava a escravidão, clamava pela
adoção das eleições diretas, reforma do ensino com métodos humanos, investia
contra o poder papal, como defensor ferrenho da ideia de separação entre o
Estado e a Igreja.
A erudição adquirida ao longo do
tempo era aplicada com brilho nas relações sociais, no intuito de construir a
vida, só querendo fazer o bem. Gostava de repetir o versículo, “todo o bem que
fizeres, receberás do Senhor.” No elogio a José Bonifácio, falecido no fim de
1886, desabafou contra aquele mundo político, que o fizera sofrer várias derrotas
e que era considerado por ele como meio louco e míope, espécie de divindade
gaga, protetora do daltonismo e da surdez, uma combinação da esterilidade das
estepes com a paisagem onde não se
canta, supondo-se que assim fosse inimiga da harmonia, contradição do belo,
como tem sido neste país. E, numa intencional advertência ao poder monárquico,
reafirmou como encarava a questão da escravatura na célebre frase, primeiro a
abolição, nada sem a abolição, tudo pela abolição.
Amara de verdade
duas profissões: o jornalismo e a advocacia. O jornalismo sempre foi a janela
de sua alma, por onde se acostumou a conversar durante todo o tempo, todas as
manhãs, para a rua com os seus compatriotas, como informa Luís Viana, seu
melhor e mais completo biógrafo, em A Vida de Rui Barbosa. Advogado do
povo, foi o patrono dos professores demitidos de suas funções na Escola
Politécnica. Quando o Congresso decretou a anistia, julgando impossíveis de
revisão as penas e os processos dos aparentemente beneficiados, ele bate às
portas dos tribunais para se opor à situação que feria a lei e maltratava a
justiça.
Ao se dedicar à política, fora
eleito Deputado Provincial em 1878 e no período de 1879-1884 exerceu mandato
na Câmara dos Deputados do Império. Com o advento da República, nomeado
Ministro da Fazenda, a política financeira que adotou caracterizou-se pelo
abandono do lastro-ouro e a adoção de grandes emissões garantidas por apólices
do Governo, visando fomentar o comércio, além da criação do Tribunal de Contas
e delegacias fiscais.
O conferencista falava mais de três
horas, sem que houvesse um murmúrio desaprovador do auditório repleto de
pessoas. Quando terminava, no meio das palmas demoradas ouvia-se: “Continue!
Continue!” Pessoas riam, choravam, deliravam, indignavam-se, aplaudiam, acompanhavam
o orador hipnotizadas pelas emoções que a sua alma a todos transmitia.
Designado pelo Senado para examinar
o projeto do Código Civil, já revisto pelo filólogo baiano Carneiro Ribeiro,
essa tarefa sem natureza política revelaria ao Brasil um gramático conhecedor amiúde
e melhor na colocação dos pronomes. Em pouco tempo, o seu parecer apresentou
mais de mil emendas ao texto revisto por Carneiro Ribeiro, o antigo mestre do
Ginásio Baiano, sendo corrigido agora pelo ex-aluno nas regras gramaticais.
Em Haia, o assunto mais importante da
Conferência era a organização do Tribunal Permanente de Arbitragem, com o palco
previamente armado para o papel de destaque das potências que governavam o
mundo e mandavam nos povos.
A voz impetuosa e indignada de Rui apresenta
sua proposta para a Organização do Tribunal, onde todos os países terão
assento. Fica ao livre arbítrio dos contendores submeterem as suas questões ao
plenário do Tribunal. Falou em francês castiço, entre o silêncio geral, perante
um auditório que o desconsiderava, mas que ficara espantado. No final fora
reconhecido como uma das mais poderosas vozes da assembleia. Aquele homem
pequeno, de voz ritmada na verdade e no direito, derrotara os que representavam
os direitos e interesses das grandes potências, Alemanha, Estados Unidos,
Inglaterra, França, Rússia e Itália. Por seu desempenho superior ficou
conhecido como a Águia de Haia.
O discurso de Rui surpreende pela
variedade e nas expressões soberbas de suas leituras. Da palavra imantada nas
imagens candentes emergem verdades que iluminam a vida, mas sua erudição não é
apenas variada, de vocabulário ilimitado, domínio do idioma, citações e
argumentos que impressionavam vivamente. Pode-se dizer desse paladino da
liberdade que fora um erudito abraçado com um sábio.
Rui Barbosa, o que conhecia Vieira,
lia Castilho, recitava Camões aos dez anos, santo Deus, o erudito e o sábio.
Deixou este velho mundo em 1 de março de 1923. Fora residir na morada do
eterno.
Referência
A Vida de Rui Barbosa, Luís Viana Filho, Lelo &
Irmãos, Porto, Portugal, 1981.
*Cyro de Mattos é membro efetivo da Academia de Letras da
Bahia. Ocupa a cadeira 22 fundada por Rui Barbosa.