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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

 

 

Meu Bahia na mocidade  

 Cyro de Mattos 

Depois que vi o Bahia jogar em minha cidade natal, no velho Campo da Desportiva, passei a ter duas paixões como fiel torcedor de um time grande de futebol. Agora era torcedor do Vasco da Gama do Rio e do Bahia de Salvador.

Já crescido, esse mesmo menino dentro do rapaz, que fora estudar em Salvador, saberia das gloriosas conquistas de seu novo time de futebol com as cores azul, vermelho e branco.  Procediam do querido Bahia, famoso tricolor de aço, um time sem igual, o que nasceu para vencer na boca do torcedor. O moço do interior apegara-se tanto ao famoso esquadrão tricolor que não parava de torcer na arquibancada de cimento do estádio da Fonte Nova durante o desenrolar da partida.

Tinha certeza da batalha vencida quando a partida jogada era válida pelo campeonato estadual. Vibrava inquieto com as jogadas magistrais dos craques de seu time do coração, ídolos para ver e não esquecer. No meio da torcida desfraldava a bandeira de seu amado tricolor baiano, não perdia um jogo, soltava da garganta o grito de gol com todas as forças que pudesse retirar do coração de adolescente.    

         As vitórias desse Bahia vitorioso empolgavam, atravessam agora a memória do torcedor idoso e se aninham no fundo do gol como se o ontem fosse o hoje. Emerge do fumo do tempo com a sua maneira afetiva e festiva de se manifestar no teatro da bola. Tem o hábito de fazer com que o torcedor seja capaz de se reinventar diante do sol partindo-se na gargalhada da vitória. É o autor de proezas como poucos times conseguem realizar quando então a torcida entra em delírio, justamente no momento em que a bola foi morrer no fundo do gol quando a derrota parecia ser inevitável. Bahia! Bahia! Bahia! O grito sonoro de mais um Bahia, repetido seguidas vezes, de repente inventa um coral diferente com o qual o pobre fica rico, o gago aprende a falar, qualquer um se torna herói ante os maiores desafios da vida.

           O grito do torcedor entusiasmado propaga-se com os sons da alegria derramados ao toque do hino eletrizante do time, a invadir as ruas e os becos da cidade de santos e orixás.  Em pouco instante a maior felicidade cabe em vários cantos da cidade com a sua beleza antiga, vibra por onde o trio elétrico segue tocando o hino do esquadrão de aço. A festa da vitória irrompe e não cessa com as vozes do amor impregnadas de fé pelo time mais popular da Bahia.  

           Há muito tempo soube que a vida tem algo diferente para o torcedor do Bahia. Principalmente quando a bola balança a rede do gol adversário com o chute desferido pelo craque Léo Briglia. Num pacto da emoção com a paixão, selado com a conquista de outro campeonato, há então um torcedor veemente que proclama:

            - Deus me livre não ser torcedor do Bahia!  

           Ah, meu Bahia, de uns anos para cá, vejo-te tropeçando nas pernas, sem aquela garra e técnica admiráveis, que o faziam brilhar com as vitórias nos gramados baianos e de fora. Ando meio sem graça com sua performance, rolando nos últimos lugares do campeonato brasileiro de futebol, lutando para não ser rebaixado para a segunda divisão. Como dói. Tenho saudades de mim, daquele moço vindo interior para cantar teu hino brioso no estádio cheio da fonte Nova.

 

Somos a turma tricolor

Somos a voz do campeão

Somos do povo um clamor

 

Ninguém nos vence em vibração!

Vamos, avante, esquadrão!

Vamos, serás o vencedor!...

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

 

Angústia e Medo de Anne Frank

 

Cyro de Mattos

 

Um dos livros que mais me causou profunda tristeza foi O diário de Anne Frank. Antes de ler esse livro, já sabia que a jovem Anne, seus pais, a irmã e os outros quatro clandestinos que viviam no Anexo do escritório iriam ser descobertos a qualquer dia e seriam enviados pelos alemães para o campo de concentração. Como não queria que isso acontecesse, era impotente para impedi-lo, a tristeza foi se alojando dentro de mim na medida em que ia lendo os relatos e conhecendo o círculo negro que se fechava em torno de oito criaturas vivendo como ratos. O que o poeta Cassiano Ricardo disse certa vez, a mais difícil prova é a da inocência, deixava de ser metáfora dolorosa para ser verdade cruel diante de meus olhos, vinda da leitura que eu fazia de O diário de Anne Frank.

A destruição da inocência mostrava-se diante de mim com a força de relatos que descreviam atrocidades e horrores cometidos contra os judeus. A pungente narrativa da jovem Anne Frank conta isso no período compreendido entre 12 de junho de 1942 a 1* de agosto de 1944 quando viveu escondida no Anexo do sótão do escritório de Otto Frank, durante a Segunda Guerra Mundial. Aflições de uma menina que se faz mulher, a revelação do amor em seu primeiro despertar, pequenas alegrias de um espírito jovem que sonha em ser jornalista e escritora, para que não se tornasse uma pessoa comum, mas útil mesmo depois de morta, tudo isso na adversidade aterradora dos momentos revela uma alma ingênua, que cresceu e amadureceu durante o sofrimento.

Filha de um banqueiro e de uma dona de casa, aos quatro anos de idade Anne foi obrigada a sair da Alemanha com a família, pouco depois da chegada de Adolfo Hitler ao poder. Com a perseguição aos judeus deflagrada também na Holanda, Otto Frank, a senhora Frank, a adolescente Anne Frank e a irmã Margot unem-se ao senhor van Daar, senhora Daar, o filho Peter e o cidadão Dussel e decidem se esconderem dos invasores alemães.

Anne Frank chamou seu diário Querida Kitty, durante o período de angústia e medo, alimentação com legumes podres e mau cheiro de objetos no Anexo. O diário foi para sua alma angustiada o único instrumento que encontrou para liberar os pensamentos e sentimentos. Ela passou a registrar com realismo do que vivia a tensão e as transformações dos confinados, constantemente se chocando uns com os outros. A atmosfera desesperadora, a conversa em sussurros, os momentos em que nem podiam se mexer, a fome terrível, os juízos vindos da crença em Deus, a distração que consistia em ouvir rádio com as notícias da guerra e a leitura de alguns livros, muitos dias de silêncio entram no conteúdo do diário numa época em que os ideais são estilhaçados e ressoam como caos, sofrimento e morte. E essa era a época em que a humanidade vivia no século que celebrava os tempos modernos, marcados pela chegada da aviação, cinema e psicanálise.

Pessoas pobres e desamparadas eram retiradas de suas casas. Mulheres chegavam das compras e descobriam que as casas foram lacradas e as famílias desapareceram. Crianças voltavam das escolas e não encontravam mais os pais. Milhares de judeus sob o ritmo implacável de um programa com incrível capacidade de persistência eram eliminados pelos alemães. Selecionavam homens, mulheres e crianças. Separavam os pais dos filhos, as mulheres dos maridos. Não poupavam os velhos e os doentes. Formava-se o grupo dos condenados à morte, o dos trabalhadores forçados, ao mesmo tempo em que todos eram despojados de sua identidade cultural, a qual era substituída pelo número de série tatuado no pulso. Tinham as cabeças raspadas.

A talentosa escritora adolescente indaga a certa altura de seu diário que sentido tem a guerra. Por que as pessoas não podem viver juntas em paz? Por que toda aquela destruição? Como gado doente e sujo, que vai para o matadouro, criaturas indefesas apertadas nos vagões. Uma nação moderna, com a sua cultura requintada, que dera ao mundo homens como Bach, Mozart, Beethoven, Haendel, Goethe, Hesse, Thomas Mann, Rilke, Kant, Hegel, agora bloqueava um povo, recuando-o para os subterrâneos mais indignos.

Frágil e indefesa, tanto quanto milhares, Anne Frank morreu de tifo, no campo de concentração Bergen-Belsen, aos 15 anos de idade. Sua vida contradizia uma condenação sem sentido no diário que deixou como um memorial precioso para a humanidade. Destacam-se nesse livro sentimentos e pensamentos inquestionáveis, como o de que sem liberdade o ser humano não respira, caminha numa viagem dolorosa por um buraco negro feito de irracionalidades.

 

 

Angústia e Medo de Anne Frank

 

Cyro de Mattos

 

Um dos livros que mais me causou profunda tristeza foi O diário de Anne Frank. Antes de ler esse livro, já sabia que a jovem Anne, seus pais, a irmã e os outros quatro clandestinos que viviam no Anexo do escritório iriam ser descobertos a qualquer dia e seriam enviados pelos alemães para o campo de concentração. Como não queria que isso acontecesse, era impotente para impedi-lo, a tristeza foi se alojando dentro de mim na medida em que ia lendo os relatos e conhecendo o círculo negro que se fechava em torno de oito criaturas vivendo como ratos. O que o poeta Cassiano Ricardo disse certa vez, a mais difícil prova é a da inocência, deixava de ser metáfora dolorosa para ser verdade cruel diante de meus olhos, vinda da leitura que eu fazia de O diário de Anne Frank.

destruição da inocência mostrava-se diante de mim com a força de relatos que descreviam atrocidades e horrores cometidos contra os judeus. A pungente narrativa da jovem Anne Frank conta isso no período compreendido entre 12 de junho de 1942 a 1* de agosto de 1944 quando viveu escondida no Anexo do sótão do escritório de Otto Frank, durante a Segunda Guerra Mundial. Aflições de uma menina que se faz mulher, a revelação do amor em seu primeiro despertar, pequenas alegrias de um espírito jovem que sonha em ser jornalista e escritora, para que não se tornasse uma pessoa comum, mas útil mesmo depois de morta, tudo isso na adversidade aterradora dos momentos revela uma alma ingênua, que cresceu e amadureceu durante o sofrimento.

Filha de um banqueiro e de uma dona de casa, aos quatro anos de idade Anne foi obrigada a sair da Alemanha com a família, pouco depois da chegada de Adolfo Hitler ao poder. Com a perseguição aos judeus deflagrada também na Holanda, Otto Frank, a senhora Frank, a adolescente Anne Frank e a irmã Margot unem-se ao senhor van Daar, senhora Daar, o filho Peter e o cidadão Dussel e decidem se esconderem dos invasores alemães.

Anne Frank chamou seu diário Querida Kitty, durante o período de angústia e medo, alimentação com legumes podres e mau cheiro de objetos no Anexo. O diário foi para sua alma angustiada o único instrumento que encontrou para liberar os pensamentos e sentimentos. Ela passou a registrar com realismo do que vivia a tensão e as transformações dos confinados, constantemente se chocando uns com os outros. A atmosfera desesperadora, a conversa em sussurros, os momentos em que nem podiam se mexer, a fome terrível, os juízos vindos da crença em Deus, a distração que consistia em ouvir rádio com as notícias da guerra e a leitura de alguns livros, muitos dias de silêncio entram no conteúdo do diário numa época em que os ideais são estilhaçados e ressoam como caos, sofrimento e morte. E essa era a época em que a humanidade vivia no século que celebrava os tempos modernos, marcados pela chegada da aviação, cinema e psicanálise.

Pessoas pobres e desamparadas eram retiradas de suas casas. Mulheres chegavam das compras e descobriam que as casas foram lacradas e as famílias desapareceram. Crianças voltavam das escolas e não encontravam mais os pais. Milhares de judeus sob o ritmo implacável de um programa com incrível capacidade de persistência eram eliminados pelos alemães. Selecionavam homens, mulheres e crianças. Separavam os pais dos filhos, as mulheres dos maridos. Não poupavam os velhos e os doentes. Formava-se o grupo dos condenados à morte, o dos trabalhadores forçados, ao mesmo tempo em que todos eram despojados de sua identidade cultural, a qual era substituída pelo número de série tatuado no pulso. Tinham as cabeças raspadas.

A talentosa escritora adolescente indaga a certa altura de seu diário que sentido tem a guerra. Por que as pessoas não podem viver juntas em paz? Por que toda aquela destruição? Como gado doente e sujo, que vai para o matadouro, criaturas indefesas apertadas nos vagões. Uma nação moderna, com a sua cultura requintada, que dera ao mundo homens como Bach, Mozart, Beethoven, Haendel, Goethe, Hesse, Thomas Mann, Rilke, Kant, Hegel, agora bloqueava um povo, recuando-o para os subterrâneos mais indignos.

Frágil e indefesa, tanto quanto milhares, Anne Frank morreu de tifo, no campo de concentração Bergen-Belsen, aos 15 anos de idade. Sua vida contradizia uma condenação sem sentido no diário que deixou como um memorial precioso para a humanidade. Destacam-se nesse livro sentimentos e pensamentos inquestionáveis, como o de que sem liberdade o ser humano não respira, caminha numa viagem dolorosa por um buraco negro feito de irracionalidades.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

 

            A Mudança 

 

Cyro de Mattos

 

Inconformado com a morte do vizinho. Chorou, soluçou, gemeu, uivou.  Em estado lamentável, indisposto nas refeições, o coração nas profundezas do desvão, só depressão. A mulher sem entender a reação brusca. Deveria estar feliz. Nunca suportou os ganhos do vizinho na vida. Sortudo, bafejado pela sorte, repetia-se, o rosto de cólera. Esbravejava, os punhos cerrados.

O vizinho presenteado com a felicidade por todos os lados.  Mulher esbelta, filhos saudáveis, família invejável. Carro de luxo. Casa grande com piscina, jardim, quintal. Patrimônio sólido. Nada lhe faltava.

Lamentava o seu tanto pelo canto, saía mês, entrava mês. Casa pequena, tinta desbotada nas paredes.  Precocemente envelhecido como a mulher, sem filhos, no lar o vazio avançava numa doença incurável.  Mísero salário, balconista na casa de materiais para construção.

Ruminava as pragas, jogadas no outro. À tona a fúria, babava-se, tomado na vontade de querer quebrar tudo em casa.  Ter que aturar aquele felizardo ao lado, bafejado com as benesses da vida. Uma desgraça, não merecia a vizinhança daquele homem felizardo, afrontas com o brilho nos olhos, a dentadura perfeita, riso saudável, de bem-estar com a vida.

Até quando suportar aquela fronte tocada de orgulho? Fraturas e feridas, riscava.    

Daí para a incompreensão da mulher, houve repentina mudança de atitude. Consternado com a morte do vizinho, o fato em si deveria funcionar ao contrário, um alívio, em boa hora. Vitória finalmente festejada, anunciada sem pejo pela indesejada, sua visita varria as desigualdades, nivelava as diferenças com um só padrão coberto de pó e esquecimento. 

 Triste, muito triste, o quadro hostil da indesejada, dona de um sinistro rosto, famoso, impenetrável. Disse, vou ao velório, acompanho o enterro, levo uma coroa de flores, deposito no túmulo dele. 

As pessoas surpresas com o seu gesto súbito.

Mostrava-se arrasado. A última pá de terra jogada na cova. Nunca mais ia vê-lo no passeio da casa ao lado, movimentando-se lá dentro, cercado de conforto, cantarolando, beneficiado em tudo, entre os poucos privilegiados.                           

Nos dias revoltos odiá-lo, nunca mais. Morreria breve, frustrado. De inveja incomum ausente, traiçoeiro ciúme, raiva primorosa, seguidas vezes o desconforto.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

 

Revista italiana publica textos de

Cyro de Mattos e Ildásio Tavares

 

 

Editada pela escritora Antonella Rita Roscilli, doutora em letras, a revista intercultural SARAPGEBE, bilíngue, português e italiano, acaba de publicar o seu número 28, no qual você poderá ler em italiano ou português artigos de escritores brasileiros e italianos. O número atual começa com uma cuidadosa e justa homenagem a Domenico De Masi, professor estudioso, sociólogo, pesquisador e sempre amigo do Brasil, escrita pelo renomado escritor Noronha Goyos Jr, ex-presidente da UBE-União Brasileira dos Escritores.

 

A seguir, informa o editorial que um belo ensaio do escritor, poeta e crítico literário brasileiro Cyro de Mattos fará refletir o leitor sobre a escrita de Jorge Amado. Além disso, dois artigos pretendem relembrar a memória do prof. Giovanni Ricciardi, um dos mais ilustres brasilianistas italianos: um denso artigo de Maria Fontes, e primeira parte de artigo do próprio Giovanni Ricciardi sobre o poeta Ildásio Tavares.

 

Conforme comunicação na revista anterior, a editora Antonella decidiu dedicar a Giovanni Ricciardi, que era um assíduo colaborador, a republicação de alguns dos artigos dele. E, ainda, um artigo sobre a vida e a ação do presidente humanista de Angola: o poeta Agostinho Neto

 

Para finalizar o número 28, no Angolo della Poesia, SARAPGEBE reproduz a Ária de Lorenzo, retirada de Lídia di Oxum, de Lindembergue Cardoso, com libreto de Ildásio Tavares. Trata-se da primeira Ópera Negra Baiana e a primeira Ópera brasileira escrita em português e youruba.

EM ITALIANO E PORTUGUÊS.  http://www.sarapegbe.net/

 

sábado, 30 de dezembro de 2023

 

                          Chuva de Janeiro  

                                 Cyro de Mattos

 

Depois que o marido faleceu perdeu o interesse pela vida. Vivia por viver. Com ele vivera trinta anos de casada e soubera como o calor do corpo se aquecia no amor. Quando se é idosa, a experiência de vida diz que esse calor do corpo sai de cena, ainda mais quando o seu homem já não está ao seu lado para consumar o ato mais prazeroso da vida.

Os dois filhos estavam casados, viviam no exterior. Ela morava em um apartamento de quarto e sala. Passava com a aposentadoria de professora estadual. Todos os dias seguia para a pensão onde fazia a refeição do almoço. Sentava-se à mesa pequena, reservada para ela no canto da sala.  De lá viu pela primeira vez o homem de cabelos brancos, olhava para ela. Tinha um brilho diferente nos olhos.  O olhar dele se repetiu nos outros dias, deixando-a sem jeito. Ficou assustada quando ele se levantou de sua mesa e pediu permissão para fazer-lhe companhia durante a refeição.

          Disse que era um viúvo aposentado, fora funcionário do Banco do Brasil. Um dia convidou-a para passear no parque. A princípio relutou, mas diante da insistência dele outras vezes, resolveu aceitar o convite.  Conversaram sobre a vida, seus momentos entre o alegre e o triste, foram se tornando íntimos.  Num ponto concordaram, viver sozinho, sem ter ninguém como companhia, era ruim. Deram uma volta no jardim, sentaram no banco embaixo da árvore frondosa. Jogaram migalhas para os pombos, a seguir para os peixes na lagoa.

Na tarde fresca, um vento morno passava no rosto dela como delicadeza de lenço, leveza de carícia. Um casal de namorados, em cada beijo que sorvia nas bocas ávidas, revelava que a vida era boa e bela, se fazia saudável no calor que se estendia por toda a extensão da pele, tinha que se dar valor a ela.

Ele fez questão de levá-la até o prédio onde ficava o apartamento dela. Na entrada do pequeno edifício olharam-se em silêncio antes de cada um querer dizer algo ao outro, que eles mesmos já sabiam o que era e que se mexia como uma chama que lampeja dentro. Talvez um convite para conhecer o apartamento de perto por ele. Convite dessa natureza seria impossível, embora houvesse no rosto de cada um deles o olhar de brilho conivente.

          Ele disse:

- Muito obrigado pela companhia.

Ela disse:

- Obrigada digo eu.

Despediram-se com leve aperto de mão.

Daquela vez quando terminaram de fazer o passeio pelo parque, ele a convidou para conhecer o apartamento dele. Era também um quarto e sala. Ela perguntou quem fazia a arrumação e o asseio. Respondeu que havia contratado uma faxineira. Vinha duas vezes na semana fazer a faxina. Notou que certas coisas não estavam no lugar devido. Fez a arrumação com esmero.  Limpou a poeira na mesa e nas duas cadeiras. Deu brilho em alguns objetos domésticos. Um pouco cansada foi tomar um banho no chuveiro de água quente. Vestiu o roupão que pertenceu a ex-mulher dele. 

Ela sorriu quando ouviu o convite para ir se deitar com ele.

           Então vieram os primeiros beijos. O ato para que alcançasse o auge exigia concentração e esforço. E aconteceu o máximo quando o prazer de ambos ao mesmo tempo precipitou a vertigem. Souberam que ainda restavam um pouco neles daquilo que motiva a vida. Era preciso de agora em diante aproveitar bem antes que não restasse mais nada. Foram alguns anos de convívio harmonioso, decorrente da união sem atrito entre o espírito e o corpo, que acordava rejuvenescido, embora no estado de fuga repentina, em cada vez que o ato se consumava dentro, como algo precioso que ia ficando longe nos seus contornos e desejos.  

   Quando ocorreu aquela primeira vez em que dormiram juntos, ela lembrava agora, acordou cedo, sorrindo na madrugada que chegava cheia de vida. Os fogos já haviam espalhados suas flores no céu da noite festiva.  Movimentou-se no quarto com cuidado, não queria interromper o sono tranquilo dele.

Fora até a janela. Lá ficou olhando a chuva que caía frequente, embora

sem fazer barulho molhava a rua. Escorria pelo vidro da janela na primeira madrugada de janeiro.  

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

 

        O Maravilhoso Trovador Minelvino  

Cyro de Mattos

 

Sertanejo autêntico, nascido no município de Mundo Novo, Bahia, em 29 de novembro de 1924, o trovador Minelvino Francisco Silva primeiro foi garimpeiro em Jacobina onde se criou. Depois passou a vendedor de coisas miúdas na feira da cidade sertaneja: pente, espelho, escova, pasta dental, agulha, carretel de linha, sabonete, livrinho de cordel.

Depois dos 15 anos de idade, lembra que comprou um ABC e teve apenas um mês de aula. Aprendeu a escrever o nome.  Daí em diante, com esforço, sacrifício e persistência, procurou conhecer o mundo através da leitura. Resolveu escrever uma história em versos populares, aos vinte e dois anos de idade.  A primeira motivação que teve para contar uma estória com apelo popular veio da enchente de Miguel Calmon, lugar próximo a Jacobina. Compôs o livrinho e foi um sucesso.  

Tornou-se em pouco tempo poeta afinado com o verso popular, do jeito que o povo gosta. Atento aos acontecidos, de natureza social, política, façanhas e desastres, colocava na estória do cordel maravilhas do imaginário, humor do real, invenções do divino, notícias do amor e da dor, gente e bichos, conselhos e saberes, tudo bem alinhavado na rima certa e espontânea.

Escreveu mais de quinhentos folhetos de cordel. Sua arte ultrapassou as fronteiras regionais, passou a ser estudada em teses defendidas na universidade. Foi publicado em São Paulo pela Hedra, editora de circuito nacional, que em sua coleção Cordel, dirigida pelo professor Josep M. Luyten, Doutor em Comunicação pela USP, já divulgou   alguns dos mais relevantes e autênticos representantes da poesia popular brasileira. Recebeu os estudos da professora doutora Edilene Matos em O imaginário na literatura do cordel (1986), que reconheceu seu valor na condição de porta-voz da comunidade, correspondendo a uma necessidade social, pois é através de seus versos que as notícias do cotidiano alcançam com rapidez uma enorme faixa de leitores.

Em Minelvino – Trovador Apóstolo (2015), alentado volume exemplar de ensaio, calcado em interpretações lúcidas, capacidade de investigação minuciosa, análise convincente sobre a estilística e a temática diversa capturada por Minelvino no imaginário coletivo e na experiência de vida, Jorge de Sousa Araújo ressalta  na obra desse esplêndido trovador uma permanente sintonia com as raízes da cultura popular brasileira, notadamente da poesia popular legitimada  por grandes cultores, além de ser versado em valores cristãos.   

Trovador de senso devocionário, comparecia sempre às romarias de Bom Jesus da Lapa, Nossa Senhora das Candeias e do Padre Cícero, a cada ano. Conhecedor da História Sagrada, autor de inúmeros benditos, que divulgava na procissão como romeiro. Era seu costume dirigir seus temas com a consciência dos valores cristãos, intenções católicas e místicas, daí ser alcunhado como o Trovador Apóstolo. 

Homem bom, simples, querido pelo povo, de voz mansa. Dono do ofício desde os primeiros momentos quando já mostra habilidade e espontaneidade na construção do cordel, cuja história ou relato conectados com o imaginário coletivo prende até o fim, agrada na escrita espontânea, imaginação cativante,

No cordel O Encontro do Poeta com a Natureza conta que deparou com a dama de translúcida beleza, rosto formoso, dentes de marfim, cabelos de ouro e quase perde os sentidos. Acabara de saber de seu lindo nome: NATUREZA. Inspirado com a musa Natureza denuncia sem esforço a riqueza de seu imaginário, a capacidade admirável de inventar heróis e personagens, reinventá-los com espontaneidade, tecer com cenas e gestos atraentes as figuras emblemáticas dos poetas Castro Alves, Zé Pacheco, João Athayde, do mártir Tiradentes, inventor Santos Dumont, descobridor Pedro Alves Cabral e tantos outros personagens ilustres, que foram   desenhados com a mestria do excelente trovador.  

Nos folhetos de disputa, peleja ou desafio entre cantadores muitos vieram para ficar na mente popular do leitor. Destaca-se Os Repentes e Proesas de Bocage, um herói picaresco que lembra o personagem Zé Grilo, reinventado por Ariano Suassuna na comédia nordestina. Bocage ganhou do rei todos os desafios que lhe foram impostos. Apareceu no palácio vestido numa tarrafa, montado em uma porca, às seis horas, com o povo sorrindo com a sua aparição estranha, que driblava a morte prometida pelo rei se não vencesse o desafio.

Quantidade e qualidade são inseparáveis na produção maravilhosa do cordelista Minelvino. Radicado em Itabuna durante grande parte de sua vida, criou família na cidade importante para a formação e desenvolvimento da civilização cacaueira baiana. Não se esqueceu de relatar as agruras da cidade e da região em seus momentos de crise. A Greve de Itabuna e A Vassoura de Bruxa no Sul da Bahia atestam a solidariedade de um cordelista autêntico no momento crítico atravessado por determinado contexto.            

A vida sabe que ficou mais pobre com a morte do cordelista. Ele sempre rezava o terço. Rogava a seus santos protetores, Jesus e Virgem Maria, que “queria morrer junto a eles quando chegar este dia”.  

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

 

A Mais Difícil Prova

Cyro de Mattos

 

Montado no jumentinho. Barba ruiva por fazer, cabelos crescidos entrando pelos ouvidos. Corpo magro, camisolão esfarrapado. Lábios feridos, sedentos na travessia do deserto. Olhos pálidos na cavidade das órbitas fundas. Pediu água ao homem, que estava enchendo o pote na fonte.  O homem achou estranho, alguém querendo ter alguma coisa de graça na aldeia, tudo ali era pago.

            Foi a uma hospedaria, lá pediu um pouco dos restos de comida deixada pelos hóspedes. Só havia comido gafanhoto no deserto, assim mesmo quando com sorte encontrava. O dono da hospedaria achou absurdo o que pedia. De graça não ia conseguir nada. Trabalhasse como os outros. Tinha que pagar para comer as sobras da comida, eram aproveitadas pelos porcos.

           De volta à montanha. Vários dias em jejum. Apareceu na feira num sábado. A feira cheia de gente como sempre. Curiosos formaram grande multidão em torno dele.

Disse numa voz clara e vagarosa:

- O dinheiro não é o mandamento de tudo, a força do mundo. Não compra o amor, a amizade, a paz, tantas coisas maravilhosas.

Alguns chegaram com as tabuletas. Mostraram à multidão de curiosos diante dele. Diziam: 

 

 Dinheiro eu te quero bem,

 Por isso o meu bolso sempre tem.         

         

           Se o dinheiro não traz felicidade,

         Me dê o seu e seja feliz.

Dinheiro estocado,

Pensamento comprado

 

           Quem disser que tem amigo

          Tem de si pouca ciência.

          Amigo só existe aquele,

          O da própria conveniência

 

             Braços dele clamando aos céus:

             - É mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que o rico entrar no reino do céu. 

     Pronunciou as palavras com o peito contrito, certo de que estava alertando os incautos com uma frase de sabedoria milenar. 

     Recebeu estrondosa vaia. Os mais irados pegaram pedras. Começaram a atirar nele.

Pisotearam, cuspiram no cadáver. Acharam que devia ser enterrado ali mesmo, evitando-se que as carnes dele, com um cheiro horroroso, propagassem a peste.

           Jogada a última pá de terra no buraco, o céu escureceu, trovões ribombaram no lado do crepúsculo. Chuva de fogo caiu de repente, túmulos abriram-se, vento uivou sem cessar.  Terremoto começou a partir a terra em pedaços.

      Tempos depois, o Conselho dos Aldeões Velhos mandou erguer o monumento junto ao túmulo para homenagear a sua memória. No pedestal da estátua do homem desconhecido, colocaram esta inscrição:

 

A MAIS DIFÍCIL PROVA É A DA INOCÊNCIA

 

*A mais difícil prova é a da inocência, verso do poeta Cassiano Ricardo.

 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

 

Meus saberes dos outros

Cyro de Mattos

 

 

Viver como cadáver ambulante que procria não é necessário; necessário é criar com alma, força e vida.

Existe homem mau inteligente, quando vence não convence.

Espera-se bondade do vitorioso, cospe demônios o invejoso.   

Até o arroto do gigante é um golpe individualista e marginal, esmaga o pequeno sem lhe dar chance.  

Tudo pode acontecer, só não acredito em Deus pecar.

Se ficar pensando no inimigo não vive nem nada.

Vira herói o orador diante da covardia do morto.

Atirar com a pólvora do outro é o melhor esporte, nada custa.  

Dar palpite de plantão é gostoso, tirar uma de sabichão sem esforço.

Primeira a obrigação depois a diversão.

Uma mãe é para cem filhos, cem filhos não são para uma mãe.

Boa romaria faz quem em sua casa está em paz.

Depois da caça morta aparece é caçador.

Antes só do que má acompanhado.

Duro com duro não dá bom muro.

Só atiram pedras em árvore que dá bons frutos.

Depois de uma viagem longa e fria melhor é tomar um banho na fonte da poesia.  

Quem quiser fazer o bem sempre olhe para trás porque o mal aí vem.

O bom sempre é odiado, é do que mais gosta o invejoso.  

Viver pior do que um bicho o homem gosta, quem quiser veja o noticiário na tevê.

Com o rio cheio de sujeira, a lua já não tem lugar para derramar sua prata.

Um abraço dado de bom coração é como uma bênção depois da oração.

O mundo de Deus é grande, trago na mão fechada, o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada.

O sino de Belém quando toca é por te querer mais bem.

Falar sem dar a prova pode dar o maior desconforto.

O tempo não socorre os que dormem.

Na mesma árvore que nasce a preguiça come, cresce e morre.

A poesia é o melhor incentivo para atravessar o rio escuro.

 Com mãos nas mãos a vida fica viável.

Não fosse o tolo, não existia o sabido, infelizmente.

Dinheiro é chave de portas, deflorar a inocência é do que gosta.

O amor consiste em dar e não em receber, mas o homem faz do egoísmo uma religião acima de todos os valores. 

O pior do cego é pensar que enxerga.    

 Nas marés do amor só vale a enchente.

Sem o passarinho o homem é triste por estar sozinho.

Quando se desgarrou da natureza, o homem tornou-se um bicho estranho.

 Não adianta gritar, melhor rezar, nesse vale de dores só os anjos escutam.

Romance bonito tem sofrimento, podendo alcançar o eterno.

Tudo a vida aguenta, a marreta da morte não aguenta.      

A vida só é dura pra quem gosta de moleza.  

Pingo d’água em pedra dura tanto bate até que fura.  

O amor é o sentimento mais forte, a liberdade o de maior valor.

Quem cedo não morre de velho não escapa.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

 

Revanche de Osvaldo Gigante,

Providência do Delegado Sepúlveda

Por Cyro de Mattos

 

Foi no tempo do velho Campo da Desportiva. Mereceu destaque na semana o desentendimento envolvendo o desportista Osvaldo Gigante e o adolescente Sílvio Sepúlveda, filho de delegado Reinaldo Sepúlveda. Osvaldo Gigante era veemente torcedor da Associação. Sílvio Sepúlveda não dormia quando seu Itabuna perdia. Foi barrado na entrada da Desportiva pelo Osvaldo Gigante, que não admitia que ninguém entrasse de graça no estádio. Nem se fosse o filho do delegado. Armou-se forte discussão entre os dois contendores. Pessoas importantes da cidade interferiram para acalmar os ânimos entre os dois torcedores rivais. Terminou com o Sílvio Sepúlveda entrando na Desportiva, uns dizem que de graça, outros que ele teve de pagar o ingresso. Pelo sim, pelo não, no auge da discussão, o Sílvio Sepúlveda disse para o Osvaldo Gigante que o timeco da Associação era de racistas e infiltrado de integralistas.

 

A Associação era um time muito superior ao Itabuna. Ganhou o jogo para o Itabuna com uma estrondosa goleada, lavando a alma do Osvaldo Gigante, que saiu do estádio rindo pelos cotovelos e mangando do Sílvio Sepúlveda.

 

De mansinho, sem que ninguém visse, o derrotado torcedor do Itabuna saiu da Desportiva muito antes do término da partida. Torcedores mais velhos do Itabuna, alguns deles hoje em outras dimensões cósmicas, comentam que a Associação praticava naquele tempo um profissionalismo disfarçado, pagando um pequeno salário mensal aos jogadores e prêmio quando venciam uma partida importante.

 

Com relação à discussão entre os dois torcedores rivais, o delegado Reinaldo Sepúlveda encontrou um jeito para acabar com aquela desavença entre o filho e o torcedor extremado da Associação. Se continuasse, a situação poderia se agravar e não trazer boas consequências. Osvaldo Gigante andava se vangloriando com a goleada aplicada pela Associação no Itabuna. O delegado conseguiu que o Osvaldo Gigante fosse transferido da firma compradora de cacau Correia Ribeiro para trabalhar numa filial da empresa em Palestina, atual Ibicaraí. A cidadezinha de Palestina ficava a cerca de quarenta e cinco quilômetros de Itabuna, com seus dias calmos e longe do mundo. O ônibus que ia de Itabuna para Ibicaraí percorria uma estrada de barro esburacada. No verão a poeira sobrava, no inverno era a vez da lama. O motorista botava fogo pelas narinas com os solavancos que o ônibus dava por causa dos buracos. Os passageiros cuspiam cobras e lagartos durante a viagem. O percurso entre as duas cidades durava mais de três horas.

 

Osvaldo Gigante nunca esqueceu aquela punição, arranjada pelo delegado Sepúlveda para resolver o duelo entre os dois torcedores apaixonados por seus times. Passava agora as tardes em Ibicaraí, mansas de dar sono em qualquer forasteiro que por ali chegasse. Ficava assim sem assistir as partidas de futebol no Campo da Desportiva, principalmente aquelas em que a Associação participava. Isso era o que mais lhe doía. Tempos depois foi morar em Pirangi, atual Itajuípe, cidadezinha que ficava mais perto de Itabuna. E lá fundou o Bahia, que fez algumas partidas amistosas com o Itabuna do Silvio Sepúlveda, ganhando todas, lá em Itajuípe e cá na Desportiva.

 

Para a felicidade e a algazarra que o Osvaldo Gigante fazia em cada vitória quando saía do estádio. Para a amargura e a humilhação que o Sílvio Sepúlveda passava em cada derrota de seu não menos querido Itabuna.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

 

      Dezembro

        Cyro de Mattos

 

       Tudo é canto pelos ares, chão, mares.

       Todas as manhãs acesas, o mundo esplende de paz.

       Luz nunca vista ilumina seres e coisas.

      Põe amor nas vistas, de tão pura.

      Alegra nessa estrada por onde os bichos andam.

        Pés no chão.  Um deles pergunta:

      - Por que tanta luz?

       O mais velho responde:

      - Em Belém nasceu Jesus.

sábado, 2 de dezembro de 2023

 

Bilhete do Menino

Cyro de Mattos

 

Vou escrever

a Jesuscristinho

no pedaço  

deste papelão

que achei

lá na rua  

onde cato

só espinho,

pego cisco

no olho

e apanho

vento

na cara.

 

Quanta noite

sem sono,

quanta pedra

na capanga,

quanta poeira

e topada.

 

Nessa estrada

tão comprida

que eu não sei

onde começa

 nem tampouco

onde acaba,

vá desculpando

os garranchos,

a mão que treme,

a letra torta,

a lenga-lenga

por não ter

uma bola

de borracha

ou até mesmo

de gude

umas duas.

 

Não esqueça

 de lembrar

à minha madrinha

Nossa Senhora

que nunca

tive uma

caneta,

um caderno,

uma borracha

e nunca fui

a uma escola.