Páginas

sábado, 11 de maio de 2013

O Que Disse Minha Mãe

O Que Disse Minha Mãe

                             Crônica de Cyro de Mattos



Quando era o verão, no meu tempo de menino, gostava de olhar as nuvens trafegando no céu azul. Vinham das lonjuras do mar não muito longe da cidade. Da balaustrada do jardim, observava seus movimentos vagarosos, ora como grandes rochas brancas, ora como enormes cogumelos, ora como colchões brancos e macios.  Às vezes estendiam lençóis compridos que flutuavam acima do rio. Faziam descer do céu suas figuras esboçadas, que  ficavam sombreando o espelho das águas aqui embaixo.
Afastavam-se da cidade pela tarde em suas embarcações pesadas, provavelmente transportando gente e carga. Antes que as sombras da noite chegassem, ocultando a tarde abafada, elas contornavam um dos bairros populares da cidade,  situado  no outro lado do rio  com suas casas acanhadas, construídas por gente humilde nas inclinações  do morro. Lá se iam empurradas pelo vento mais alto, rumo às serras azuis que cercavam uma das partes da cidade.
Um dia vi o arco-íris descer de uma nuvem gorda acima da ilha e, lentamente, entrar  no meio do rio. A seguir, ele caminhou  com as suas sete cores e ficou limpando o lodo das águas. Depois  bebeu a  água limpa na corredeira; certamente brincou com os peixinhos ariscos no leito raso, feito de areia brilhante,  pedrinhas lisas e redondas.
         De vez em quando elas inventavam gigantes que sumiam por trás dos morros. Desenhavam carneirinhos que subiam as ladeiras do céu. Mostravam velho de barba e cabelos longos, sentado no tapete que voava. Deixavam sair de um barco encalhado uns  bichos feios, que desapareciam  rápidos. No fim da tarde ofereciam-me flores, que de repente viravam pássaros  luminosos de prata, numa mágica que somente elas sabiam fazer.
 Rendilhadas, onduladas ou achatadas, convidavam-me a viagens imaginárias pelo azul do céu. Maravilhosas travessias em que eu sobrevoava continentes, mares, quintais e jardins de outras cidades. Sentia-me, nesses momentos, que somente eu era o  cavaleiro rico entre os meninos de minha rua. Dono de castelos, que elas me davam de graça, ninguém duvidasse disso.
         Mas não era somente da balaustrada do jardim o local em que eu ficava olhando paras as nuvens no céu límpido do verão. De calção e peito nu, deitava-me no pátio, e, com o rosto para o céu, demorava-me  vendo elas passarem cheias de luz, em suas viagens diárias ao redor da terra.
           Numa manhã em que o sol resvalava seus raios mornos por todos os cantos de nossa casa, o rosto de minha mãe apareceu na janela da cozinha. Depois de me perguntar se já tinha feito os deveres da escola e receber de mim a resposta afirmativa, ela se mostrou interessada em saber o que era que eu estava conversando com as nuvens daquela vez. Disse que estava querendo saber delas se quando crescesse e me tornasse um homem poderia retornar ao mundo da infância para brincar com os meus amigos nas aventuras mais empolgantes.  Fazer essa viagem de volta, como elas que desapareciam e apareciam por onde sempre passavam, como se o tempo fosse um só, sem que houvesse a sua passagem através dos dias, semanas e meses. Espantada com o que tinha acabado de ouvir, minha mãe, sorridente, falou que só existia uma maneira de se voltar ao passado distante quando a gente se torna uma pessoa adulta.
             - De que jeito? – perguntei-lhe, curioso.
             - Sonhando acordado como se o homem, que um dia você vai ser, ainda fosse um menino.  


*Cyro de Mattos é autor de Vinte e um poemas de amor e Os brabos, novelas, Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, entre outros livros.  

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Livro de Crítica de Nelly Novaes Coelho Será Lançado com Festa-Homenagem à Professora da USP na Casa das Rosas em SP


LETRASELVAGEM & CASA DAS ROSAS convidam para o lançamento da obra “ESCRITORES BRASILEIROS DO SÉCULO XX – Um Testamento Crítico”, de Nelly Novaes Coelho


Data: 29 de maio de 2013 (quarta-feira), às 19 horas.Local: Casa das Rosas (Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura). Av. Paulista, 37 (Metrô Brigadeiro) - São Paulo/SP - Brasil. Entrada franca.


HOMENAGEM:

Na ocasião, IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO e CYRO DE MATTOS (representando os escritores brasileiros) e FÁBIO LUCAS e BENJAMIN ABDALA JR. (pelo setor acadêmico) proferirão homenagem à professora NELLY NOVAES COELHO, pela passagem de seus 91 anos de idade e 50 de docência universitária e exercício da crítica literária. (V. Convite anexo)





O LIVRO


Escritores brasileiros do século XX, de Nelly Novaes Coelho (Professora Titular da USP – Universidade de São Paulo), é a suma de 50 anos de pesquisas, leituras e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América.
Segundo a Autora, foi a “Sorte ou o Acaso” que puseram em seu caminho os 81 escritores reunidos e analisados neste livro. Ao lado dos mais conhecidos (Amado, Graciliano, Rosa, Mário, Oswald, Ubaldo, Loyola...) aparecem nomes que a insensibilidade crítica e o desinteresse do “mercado” colocaram numa espécie de “limbo” (Cornélio Pena, Adonias Filho, Murilo Rubião, Victor Giudice, Campos de Carvalho, Gustavo Corção, Alcides Pinto...) e outros que o desinformado (ou defraudado?) “público” precisa conhecer (Vicente Cecim, Olavo Pereira, Agrippino de Paula, Fausto Antonio, Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel Rawet, Cyro de Mattos, Alaor Barbosa...).
No testemunho desses escritores manifesta-se a crise de paradigmas que afeta uma sociedade cansada de si, de Deus, das ideologias... e de todas as velhas e arraigadas crenças – mas que, entretanto, não parece ter ficado mais livre e feliz no caos liberticida e materialista em que o “mundo novo” (moderno ou “pós-moderno”) a engolfou.
Escritores brasileiros do século XX é, como diz o subtítulo, o Testamento Crítico de uma intelectual que sempre pugnou em defesa da língua e da literatura brasílicas, e por meio do qual a autora entrega um legado de conhecimento e sensibilidade crítica à atual e às novas gerações de leitores deste nosso imenso – mas ainda inculto – país.

TATIANA BELINK: “Livro fascinante, fruto de amplas e profundas pesquisas, estudos, leituras e, claro, ideias, conclusões, hipóteses e mesmo perguntas da sua ilustre autora – esta incrível Nelly Novaes Coelho. Ela, a querida e sempre admirada mestra Nelly, com as suas posturas ético-filosóficas, ‘antigas’, contemporâneas, modernas e até ‘pós-modernas’, bem fundamentadas e eruditas, sem deixarem de ser otimistas”


A AUTORA

Nelly Novaes Coelho nasceu na capital de São Paulo, em 17 de maio de 1922, pouco depois da Semana de Arte Moderna. Pertence ao tronco dos Novaes, um dos mais antigos do Vale do Paraíba. Paixões desde a infância: música e literatura. Faz os primeiros estudos no Externato São José e estudos de piano com professor particular. Adolescente, completa o curso de pianista no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde foi aluna de Mário de Andrade, em História da Música, pouco antes de ele se desligar do cargo de Professor Catedrático. Dedica-se intensamente aos estudos de piano; vence o Concurso “Maestro Cantú” (para aperfeiçoamento pianístico na Itália), mas a sonhada carreira de pianista frustrou-se, por circunstâncias adversas (o início da II Guerra Mundial/1939 impede os fundamentais estágios de estudo na Europa e, terminada a guerra, em 1945, os caminhos já eram outros).
“Nel mezzo del camin”, já casada e mãe, outro projeto surge: o de tornar-se Professora. Volta aos estudos: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (Rua Maria Antônia/SP), área de Letras Neo-Latinas (Licenciatura, 1959). Concluído seus estudos, colaborou com o Prof. Luiz Amador Sanchez, titular do Deptº de Literatura Espanhola e Hispano-Americana.
Em 1960, inicia a carreira de docente universitária, como professora-assistente do Prof. Antônio Soares Amora, área de Literatura Portuguesa.
Em 1961, acumula esse cargo com o de professora titular de Teoria da Literatura, na Faculdade de Letras de Marília (onde lecionava nos fi ns de semana). Segue a carreira universitária: doutora em Letras (USP, 1967), livre docência (USP, 1977). Professora-adjunta (USP, 1981) e professora titular de Literatura Portuguesa (USP, 1985).
Nesse período, inicia-se como crítica e ensaísta literária, colaborando no Suplemento Literário de “O Estado de São Paulo”. Especializa-se em Literatura Contemporânea (portuguesa e brasileira). No decorrer da carreira acadêmica, entrega-se à docência e à crítica, publicando em jornais e revistas do Brasil e do exterior.
Como intelectual atuante, desde 1961 participa de congressos e seminários nacionais e internacionais, apresentando comunicações, posteriormente publicadas nos Anais. Em decorrência dessa atividade, torna-se membro de várias instituições culturais: APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte (presidente em 1990); UBE-União Brasileira de Escritores de São Paulo; IHGSP-Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; Instituto Internacional de Literatura Ibero-Americano (Pennsylvania/USA); APC-Association pour La Pensée Complexe (convidada por Edgar Morin); Fulbright Alumini Association (Washington-USA); AEILIJ-Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil e membro-correspondente de várias Academias de Letras nacionais.
Em 1964, como bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian/Lisboa, faz seu primeiro estágio de estudos em Portugal, em pesquisas para embasamento de sua futura tese de doutorado sobre Aquilino Ribeiro.
Em 1966, inicia a carreira de escritora, com a publicação de O ensino da literatura, obra destinada à formação de professores, na área da Literatura, e que propunha princípios teóricos e respectivas práticas analíticas, visando a introdução dos estudos literários, desde as primeiras séries escolares, conforme exigência da nova Lei de Diretrizes e Bases nº 4.024/1961.
A esse livro de estreia seguem-se novos títulos, conforme foram sendo exigidos pelo desdobrar da carreira universitária e intensa participação em congressos, colóquios e estágios de estudos ou docência, realizados no Brasil e no exterior.
Como docente e pesquisadora, em 1970 ministrou curso de Cultura e Literatura Brasileira, na Faculdade de Letras/Lisboa e, em 1979, na UCLA-California University/Los Angeles (bolsista da Fulbright Foundantion/USA). Em 1980, em face do novo boom de Literatura Infantil em expansão, criou na USP-Universidade de São Paulo/Área de Letras o curso Estudos Comparados de Literatura Infantil/Juvenil (diurno/noturno, graduação/pós-graduação). Foi uma das pioneiras como docente a trabalhar com a interdisciplinaridade. Ministrou vários cursos de especialização na USP a professores de Ensino Médio a partir da literatura.
Ao longo da carreira, exerceu vários cargos administrativos ou acadêmicos:
chefe-suplente do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH/USP; vice-diretora do CEP-Centro de Estudos Portugueses/USP; membro fundador e presidente do CELIJU-Centro de Estudos de Literatura Infantil e Juvenil; diretora do CELAB-Centro de Estudos Luso-Afro-Brasileiros de LIJ; diretora da APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte (setor Literatura) e outros. Sua obra publicada abrange dezenas de livros sobre Literatura Contemporânea, Teoria Literária, Estratégias de Ensino e Educação. Destacam-se O ensino da literatura, 1966; Mário de Andrade para a nova geração, 1970; Escritores portugueses, 1973; Escritores portugueses do século XX/Lisboa, 2007; Literatura e linguagem, 1974; Guimarães Rosa, 1975; Literatura: arte, conhecimento e vida, 2000; A literatura infantil, 1980; Panorama histórico da literatura infantil/juvenil brasileira, 1982 e 2006; Dicionário crítico de escritoras brasileiras, 2002; O conto de fadas (Símbolos/Mitos/Arquétipos), 2003; Primeiro dicionário escolar, 2005, e outros. Dentre as antologias: Ética, solidariedade e complexidade (Edgar de Assis Carvalho, Maria da Conceição de Almeida, Nelly Novaes Coelho, Nelson Fiedler Ferrara, Edgar Morin. 1998); Edgar Morin religando fronteiras (Edgar Morin, André Baggio, Nelly Novaes Coelho, Humberto Mariotti, Mauro Maldonato. Org: Tania M. K Rosing e Nurimar Maria Falci. 2004). Sua produção abrange ainda várias centenas de artigos e ensaios sobre literatura contemporânea do Brasil e Portugal, publicados em jornais e revistas nacionais e do exterior.
Entre os prêmios e distinções recebidos, destacam-se: Prêmio Internacional
Bocage (Ministério da Educação e Cultura de Lisboa/1966); Prêmio Especial/Ensaio-APCA, 1983; Prêmio Jabuti-Ensaio/Câmara Brasileira do Livro, 1975; Medalha Clara Ramos/UBE-RJ, 1993; Troféu Jaburú-Personalidade do Ano 1998/Conselho Estadual de Cultura, Goiânia; Título de Comendadora/UMATI-Universidade do Minho/Portugal, 1997; Troféu Vasco Prado/10ª Jornada Nacional de Literatura. Passo Fundo/RS, 2003; Medalha Imperatriz Leopoldina/HIGSP, março de 2001, e Comenda D. Pedro I/HIGSP, setembro de 2011.
Aposentada pela USP, em 1992, prossegue em atividade, dedicada à pesquisa e análise da Literatura Contemporânea Brasileira e Portuguesa em produção.

_______________________________________________________________________________________________
LETRASELVAGEM: Praça Santa Cruz da Exaltação, 21, Centro, CEP 12.080-540 – TAUBATÉ / SP / BRASIL. Tel: (12) 3635-3769 / (12) 9203-3836. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br


domingo, 5 de maio de 2013

Íntimos Caminhos

ÍNTIMOS CAMINHOS

Florisvaldo Mattos

"Não sei para onde vou / - Sei que não vou por aí “                   

  (José Régio: “Cântico negro", in Poemas de Deus e do   Diabo, 1925)

Não. Nada de penhascos irreais,
Tampouco de florestas invisíveis!
Por aqui tudo fala à sensação;
Ao olhar, ao aroma, à língua, ao tato,
Ao som. Feliz de quem os tem. Ó vós,
Que ditais pelos montes de onde venho,
Por trás de sombras como que vazias?
Enquanto me desfaço de meus fardos
Ancestrais, meu cabedal de fadigas,
Lábios trazem clarões de frescas auras,
Meus pés sibilam sobre sendas rudes,
Mas com promessa de horizontes novos.
Se me pedes que siga o teu caminho,
Descansa. Sei que não vou por aí!

SSA/BA, 1º de maio de 2013

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Na Feira do Livro de Itapé

       Na Feira do Livro de Itapé

                  Cyro de Mattos
             
            Nasci em Itabuna. Lá, naquela cidade da outrora rica região cacaueira baiana, tive uma infância diferente de hoje na qual os jogos eletrônicos transmitem o prazer ausente de  sentidos e  valores na aventura da vida. Foi lá, naquela cidade com trinta mil habitantes,  que   tive a primeira escola, a primeira comunhão,  a primeira namorada, o primeiro Carnaval, a primeira gravata, o primeiro banho de rio, o primeiro São João. Joguei a primeira partida de futebol com os queridos amigos de infância.
          Fiz o curso primário em minha cidade natal. Cursei dois anos no Ginásio Divina Providência. Minhas primeiras leituras foram em revistas de quadrinhos, os meninos de meu tempo chamavam de gibi e guri. Nem sabia que com meus heróis inesquecíveis, Mandrake, Homem-Morcego, Tarzan,  Capitão Marvel, Super-Homem,Tocha Humana, O Fantasma, Flash Gordon, Roy Rogers, Príncipe Submarino e outros – estava entrando na morada dos sonhos para nunca mais sair.  No único ginásio da cidade conheci trechos das obras de Camões, Bilac, Eça de Queiroz, Machado de Assis e Ruy Barbosa. Tive os primeiros contatos com os clássicos de nossa língua, através do sujeito, predicado, objeto, adjunto adverbial e outros elementos gramaticais de análise lógica. Os primeiros livros que eu li foram da coleção O tesouro da juventude, de Júlio Verne, os de Edgard Allan Poe, Charles Dickens e Monteiro Lobato. Seu Zeca Freire, o dono da farmácia, emprestava-me os livros desses autores e incentivava para que eu não deixasse de ler outros, também importantes, como Machado de Assis e José de Alencar.   
            O menino do interior foi para Salvador,   como o pai queria,  para se tornar advogado. Na Capital  concluí o curso ginasial  no Colégio Nossa Senhora da Vitória, dos Irmãos Maristas, onde descobri histórias de Machado de Assis, crônicas de Humberto de Campos, romances de José de Alencar e poemas de Castro Alves,  na pequena biblioteca do grêmio estudantil. Fiz o curso clássico no Colégio Estadual da Bahia (Central). Meu professor de português, Antônio Barros, indicou-me uma lista do que julgava serem os cem melhores livros da literatura brasileira. Fui devorando-os na biblioteca durante os anos de estudante naquele colégio.                    
            Publiquei  o conto “A Corrida” quando cursava a Faculdade de Direito, em 1959, no suplemento literário do Jornal da Bahia, dirigido por meu amigo e colega João Ubaldo Ribeiro. De leitor passava pela primeira vez  para autor de uma história.   A sensação dessa passagem foi de pura alegria. Não parei mais de andar nesse caminho de dar palavra ao sonho.  Depois de escrever alguns volumes de contos e novelas  migrei para a poesia. De repente surgiu de dentro de mim aquele menino, pedindo que escrevesse também para crianças. Obedeci e tenho prazer quando brinco com as palavras e as crianças. Quero que esse menino nunca mais se afaste de meu pequeno coração,  que um dia foi trancado na alma com pedaços de infância pelo mundo dos homens, e  assim teve o gosto de uma fruta que acaba.   Fiz até um poema em que falo disso,  está no meu livro “O Marujinho Poeta”, ainda inédito.   Eis o poema:  

            





A Estrelinha

Achei uma estrelinha
Que caiu no mar
E veio dar na praia.

Perguntei pra ela:
- O que vale mais,
Brilhar no céu
Ou no vaivém das ondas?

Ela então respondeu:
-  O mundo me encanta
Quando brilho lá dentro
E nunca se apaga
Seu coração de criança.

         Hoje sou autor de uma dezena de livros, volumes de contos, crônicas, poemas e literatura infanto-juvenil, além de ser organizador de antologia. Tenho livro publicado também em Portugal, Itália, França e Alemanha. Alguns prêmios de expressão, como o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, o Nacional  Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores (Rio), o  da Associação Paulista de Críticos de Artes, o Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Genova, Itália, duas vezes, e fui finalista do Jabuti três vezes.
          Nessa estrada de solidão e solidariedade, a essa altura comprida, venho sempre me perguntando o que é literatura. Para que servem os livros? Muitas vezes já me fiz essas perguntas. Literatura é forma de conhecimento dos seres e coisas, da vida e do mundo, através dos sinais visíveis da escrita. É fundamental como o amanhecer. É linguagem representativa, condensada, de ricos significados. A literatura usa metáforas para provocar reações emotivas no receptor. Exemplo de texto não literário:  O  sol amanheceu quente neste verão. Vejamos o do texto literário: O bem-te-vi, batendo as asas, canta radiante  para o sol:  Bem-te-vi! Bem-te-vi!
              A literatura oral ou escrita  acompanha os seres humanos para devolver a eles o que  é próprio deles, ideais,  razões, sentimentos, desejos, vontades, imaginações, fantasias. Dar ao homem a possibilidade mais ampla de  conhecer a si mesmo, os outros mais o mundo.  Com a  literatura fico sabendo que estou inserido na natureza em contínua transformação. Sou um animal social compromissado com a história.
        Sinto que sou uma pessoa  quando começo a ler um livro,  outra quando termino a leitura. Com o livro, esse bom amigo que gosta de morar na estante,  passo a conhecer  tantos casos, tantas coisas. Viajo por terras tão distantes, falo com gentes diferentes, de todas as cores, alegres e tristes, ricas e pobres.   A  literatura pode ser concebida como adulta e não adulta. A literatura não-adulta indica tanto os livros infantis, destinados  a pré-leitores, leitores iniciantes e leitores em processo, como os infanto-juvenis, para os leitores fluentes e os juvenis, para leitores críticos. Na generalidade do conceito, a literatura não-adulta destina-se à criança, “o pequeno leitor, o ser em formação ou em processo de aprendizagem da vida e da cultura, para quem tal literatura é criada ou produzida”, como ensina no livro Literatura Infantil  a escritora Nelly Novaes Coelho, Doutora em Letras, Professora Emérita da USP.   
        Os críticos costumam dizer que  dificilmente o termo literatura poderá ser definido com exatidão devido à complexidade de sua natureza, que expressa  uma determinada experiência humana, através de linguagem específica. Mas não é preciso ser crítico para saber que cada época produziu e compreendeu a literatura ao seu modo Fez emergir do seu contexto histórias e poemas para  representar os seres e as coisas.  A literatura é fenômeno da criatividade humana,  é arte, a vida e o sonho entrelaçados na linguagem específica. E  a literatura infantil é literatura porque funde os sonhos e a vida circunstanciada,  a fantasia e o real, os ideais, ternuras,  sentimento e sua possível ou não realização.
            Há um equívoco quando se concebe  a criança como uma criatura minúscula do homem e  que por isso mesmo a literatura que a expressa é inferior. Livro bom é o  rico de conteúdo inaugurando novos sentidos da vida.   A literatura infantil  possui seu tempo e espaço,  sua gradação que corresponde a um estágio da nossa evolução biopsíquica. Destina-se ao leitor em desenvolvimento. Para que o convívio  desse leitor e o livro  resulte eficiente, nessa aventura harmoniosa do espírito,  é necessária a intervenção do adulto. O auxílio dos pais em família, do professor na sala de aula,  desses agentes do amor, que nesse diálogo leitor/livro devem estimular as potencialidades da mente em formação, com vistas à sua progressão na existência. 
           Ao contrário do que existia antes,  em que o ensino na escola era rígido,  alimentado em bases dogmáticas, a  intervenção agora do professor é  de contribuir para a humanização do mundo de hoje,  manipular  o saber que leve a descobertas e redescobertas dos caminhos a serem  trilhados pelas novas gerações. O educador deve estar antenado com os meios adequados e modernos de estimular esse leitor/criança, através de jogos, contação de histórias, brincadeiras com a palavra e a imagem, teatrinhos, tudo que sirva para engajar  a mente em formação em uma experiência rica de vida. Contribua para estimular a inteligência em desenvolvimento para que nela entrem e latejem sustos esplêndidos, surpresas admiráveis,  ternuras e emoções.     
           Na globalização do mundo,  de assustador aumento de populações e  crescente consumismo, nessa embriaguês constante do embalo motivado pelas coisas materiais, nesta era da informática, na sociedade da imagem e som, o elétrico no ar galopando milhares ao largo, sob o furor selvagem das manadas, nesses tempos saturados de informações, tratamento computadorizado,  velocidade, encurtamento das distâncias, em que se lida mais com signos, sabores desenfreados do corpo e mente, desviados dos  valores e verdades humanas, gerando o vazio, a ausência de sentidos da vida, é ao livro, à palavra escrita metaforizada que devemos atribuir  a maior responsabilidade na formação da consciência do mundo das crianças  e dos jovens.
          Educar é ato de amor,  alimenta a recepção verdejante dos sentimentos e ideias. Maneira de se doar para as descobertas e revelações da alma invisível das coisas, da história, da vida com suas propostas  e desafios. Com suas fluências e confluências, entre suave e alegre, sacrifício e persistência, é maneira de participar de seu tempo em forma de entendimento, auxílio  e carícia.  Nenhuma forma de ler o mundo é tão abrangente e rico  quanto a que a literatura propõe em seu prodígio de dialogar com seres e coisas.  Õ exercício de novas estratégias,  em salas de aula e bibliotecas, que são espaços privilegiados para a circulação da leitura,  é fundamental para auxiliar essa criança  desenvolver sua mente. É, assim,   de grande importância o estímulo para o fluxo dessa energia mágica que só a palavra produz, inventa, simboliza  e perdura.  E nos conduz para uma humanidade tantas vezes desumanizada ontem e hoje.
        Contente,  agradeço aos diretores da Escola Pingo de Gente, na pessoa de Luan Felizardo, coordenador do evento,  e aos produtores do Projeto Caravana de Escritores, da Fundação da Biblioteca Nacional, na pessoa da professora e escritora  Suzana Vargas, pelo convite para participar  nesta Feira do Livro, ao lado dos autores de livros infanto-juvenis Ulisses Tavares e  Kalunga.
            Chego ao fim de minhas anotações  com estes versos de meu livro “A Poesia de Calça Curta”:

                         
                            A Poesia de Calça Curta

Acende a lanterna no porão,
Vai à caça de fantasma.

Suja a toalha de mesa
Enquanto limpa a cara.

No vaivém do balanço
Ri do vento quando sopra.

Aparece de espingarda
Pra atirar no bicho onça.

Sobe  no muro do quintal,
Dá um salto para a rua.

Tropeça no galho seco,
Cai e não levanta.

Com essa não contava,
De perna engessada na cama.
                         



·        Palestra proferida na Feira do Livro de Itapé, Sul da Bahia, 21 de abril de 2013.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Feira do Livro de Itapé (Bahia)

Itapé/ Ba: 1ª Feira do Livro - A festa

          Ontem, 21 de abril de 2013 foi dia de festa literária na bela cidade de Itapé.
          Realizou-se  a PRIMEIRA FEIRA DO LIVRO que durante todo o dia manteve em atividade escolas, artistas, escritores numa interação maravilhosa com o povo da cidade e os muitos visitantes que lotaram a praça da Igreja Bom Jesus. Com abertura às 9 horas aconteceu apresentação de Show musical, Balllet clássico, grupos de dança, música popular brasileira, poesia, leitura, etc. Ao adquirir um livro, você recebia um cartão bônus que lhe dava direito a outro livro à sua escolha.
          Notável a presença do escritor/poeta Grapiúna Cyro de Mattos membro da Academia de Letras da Bahia (ALB), da Academia de Letras de Ilhéus (ALI) e da Academia de Letras de Itabuna (ALITA) em sessão de autógrafos e lançamento do seu livro de crônicas “Alma mais que tudo”. Acompanhava Cyro de Mattos sua esposa e musa Mariza.
          Também presentes o escritor gaúcho Kalunga e Ulisses Tavares, escritor paulista. Os dois  posaram para fotos, autografaram e esbanjaram simpatia e alegria todo o tempo.
          O poeta itabunense Oscar Benício dos Santos e sua irmã, a poetisa Jasmínea Benício dos Santos, membro da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL) também visitaram a 1ª Feira do Livro.
         Um dia diferente e muito gratificante para a população de Itapé. E serve de exemplo para as demais cidades do sul da Bahia, ao mostrar que é possível numa região marcada pela violência principalmente contra os jovens dar um primeiro passo para uma mudança profunda, ao colocar em prática o imperativo do poeta baiano Castro Alves, no poema O livro e a América: “Oh! bendito o que semeia livros, livros à mão cheia e manda o povo pensar...”
          ITABUNA CENTENÁRIA – RSIC esteve presente, participou e fotografou.

Veja abaixo fotos do evento:

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Índio Pataxó

Cyro de Mattos
      
    Apareceu de repente, sem ninguém esperar ou pensar que isso pudesse acontecer um dia. Não usava cocar feito com penas de tucano. Nem usava enfeites nos braços e pernas com penas de arara. Não tinha o beiço de baixo furado e metido por ele um osso, como uma vez eu tinha visto na revista. Ao invés de tanga, uma calça de mescla azul arregaçada nas pernas até o joelho. O peito nu. Era alto, tinha braços compridos, musculosos. Lábios grossos, cara achatada, cabelos pretos, crescidos, amarrados atrás com um cordão grosso, dando idéia de um pequeno rabo de cavalo.

            Passou a morar na Ilha do Jegue, que ficava no meio do rio. De onde ele tinha vindo? Um menino metido a saber das coisas disse que veio da Reserva Paraguaçu-Caramuru, que ficava a cerca de algumas léguas da vila de Pau-Brasil. Devia ter cometido algum malfeito na aldeia e foi colocado pelo cacique para fora da tribo. O menino acrescentou que o pai tinha fazenda de pecuária lá naquelas bandas. Uma vez ele foi de jipe com o pai até a Reserva Paraguaçu-Caramuru conhecer os índios. Trouxe de lá um cocar, que o pai comprou do cacique e deu para ele.

            O menino foi logo desmentido. O que acabara de contar era  pura conversa fiada. Segundo a professora de geografia e história, aquele índio pertencia ao povo Pataxó, que vivia amalocado em Camacã, um povoado que surgiu com os acampamentos armados pelos forasteiros no meio da mata. A professora havia informado também que os homens derrubavam as árvores nativas com o machado para que a madeira de lei fosse aproveitada como tábua, peças, esteios e estacas. Com a derrubada das árvores grandes, a mata ia sendo raleada. Apareciam as clareiras e,  ao mesmo tempo, a caça desaparecia. Os índios tinham dificuldade para encontrar o que comer nas matas onde a caça ia cada vez mais desaparecendo com a presença dos machadeiros.

            A professora observara que, em contato com os homens que derrubavam as árvores nativas, os índios iam pegando sarampo e gripe, doenças que eles não conheciam. Como remédio feito com folha e raiz não curava aquelas doenças que foram  trazidas pelos machadeiros, os índios iam morrendo da noite para o dia. Dizimados pelas doenças dos brancos, talvez só restasse da tribo apenas aquele índio que acabava de aparecer na cidade e estava morando na Ilha do jegue, lá no meio do rio.

            Os outros meninos ficaram sorrindo com o que acabava de contar o mais franzino da turma, aquele pixote que um dia ia se tornar escritor para narrar histórias de gente grande e pequena acontecidas na região com suas vilas e cidades, que iam surgindo com a derrubada das matas.

            Ele não falava, o tempo todo tinha o rosto fechado. Os olhos pretos quase imóveis. Do barranco gostava de ficar olhando o rio. Pegava o arco, esticava-o e disparava a flecha, que subia feito um raio, sumia e ia cair na ilha, lá longe. Os meninos ficavam pasmados, abrindo a boca e fazendo óóóóó! Só um homem como aquele índio, com força descomunal, era capaz de fazer tamanha proeza. Um homem habilidoso no manejo do arco e flecha, que tivesse a pontaria certeira como a dele.

            Um dia, o índio surpreendeu ao menino franzino, mostrando o rosto tomado por um sorriso. Ele tinha acabado de avistar um gavião lá no alto do céu. Soltava pios estridentes e seguia soberbo no voo, rumo às serras que cercavam uma das partes da cidade, no outro lado do rio. Nesse dia, o céu estava bem azul e brilhava feito um espelho, com poucas nuvens gordas. Nesse mesmo instante em que ele havia avistado o gavião, disse alguma coisa numa fala que não se entendia, como se fosse feita de ruídos, grunhidos ou talvez gemidos. O que ele falara era por causa do gavião, não havia dúvida, os olhos dele brilhavam na direção da ave que foi sumindo num ponto longínquo. O que seria que ele queria dizer no momento que avistou o gavião atravessando o céu alagado de azul?

             De dia era visto nadando e mergulhando nos poços mais fundos. Demorava muito no fundo das águas, tinha um fôlego que deixava gente grande admirada. Quando vinha à tona, trazia o peixe espetado na lança. Nadava veloz, atravessava o rio sem precisar descansar em alguma pedra, proeza que homem algum da cidade conseguia fazer. Em pouco tempo se tornou no fato mais importante da cidade, através de comentários constantes, face às façanhas mais incríveis que só ele fazia. Para tristeza minha e de outros meninos, desapareceu de repente como havia aparecido, sem ninguém esperar ou pensar que isso fosse acontecer um dia.