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sexta-feira, 21 de junho de 2013

O terrível Nonô Piquete  

                                              Crônica de Cyro de Mattos

Era feio, tinha a voz fanhosa. Troncudo, corcunda, a cabeça enterrada no pescoço. Pernas grossas, braços musculosos, os dentes sujos e falhos  apareciam na boca larga quando dava um sorriso. Corria desengonçado, fungava e espumava na carreira esquisita. Com uma careta feia na cara, partia para cima do adversário para tomar a bola.  Sua figura horrível crescia e metia medo ao jogador que estivesse com a bola dominada.  
Era tido como perna de pau, não sabia dominar a bola, queria logo se desfazer dela, chutando-a com violência para o campo adversário. Gostava de fazer falta para parar o atacante, abusava de pontapés e cotoveladas. Seu rosto cor de carvão respingava de suor no vaivém do jogo. Como tinha porte físico avantajado para um adolescente de sua idade, não era surpresa vê-lo participando de uma pelada no meio de gente grande no campo da várzea.
Só queria na semana jogar pelada nos campos espalhados pelos terrenos baldios da cidade e na várzea. Não importava que os meninos dos dois times na pelada tivessem um tamanho menor que o dele. Para tranqüilizar e arranjar um lugar no jogo, ia se aproximando de jeito manso. Argumentava que tanto fazia ganhar como perder, queria apenas se divertir. Não entraria duro quando fosse disputar a bola. Só não topava jogar de goleiro, mas aceitava ficar em qualquer posição.
Era costume, entre os meninos, que o dono da bola escolhesse os jogadores que ficariam no seu time. Daí a vantagem de quem era o dono da bola quando ia se disputar uma pelada. Era sempre o que escolhia entre a meninada os melhores jogadores para jogar do seu lado.  Os outros que sobravam na escolha iam atuar no outro time.  
Naquele domingo de janeiro, o sol brilhado no céu azul, o dono da bola já havia escolhido os meninos que iam jogar no seu time. O jogo ainda não havia começado porque ficou faltando um jogador para completar o outro time. Ora, com um time superior e com um jogador a mais, a pelada não ia ter graça. O time do dono da bola ia sapecar no outro uma sonora goleada.
Começa o jogo, não começa, parecia que dessa vez não ia acontecer mesmo o jogo de bola numa pelada naquele campo sem grama, próximo a uma das margens  do rio.  Foi aí que um menino lourinho, vermelho feito peixe de água salgada, pediu ao dono da bola que deixasse Nonô Piquete  participar da pelada para completar o time em que estava faltando um jogador..   
Como quem não quer nada, com ares de bom amigo,  humilde e sereno, Nonô Piquete pediu para completar o outro time com a sua escalação como zagueiro. Não ia entrar duro em qualquer menino, nem se esforçar para ganhar a bola dando pontapé na canela do adversário.  Prometeu fazer vista grossa em todos os lances de qualquer atacante, estaria em campo apenas para fazer número, não deixar o time dos meninos que sobraram na escolha dos jogadores pelo dono da bola com um a menos, em desvantagem gritante.
O jogo transcorreu sem que o placar até a metade do segundo tempo fosse mexido por um dos dois times. O que parecia vitória fácil para o time do dono da bola, tinha virado um jogo bem disputado, que alternava lances aguerridos  com jogadas sensacionais do menino vermelho feito peixe de água salgada. Então, aconteceu a penalidade boba contra o time do dono da bola. Um lance sem perigo, a bola já tinha sido dominada e chutada pelo zagueiro, que fez aquela besteira de dar uma rasteira no menino vermelho feito peixe de água salgada.  O juiz não hesitou,  trilou o apito e apontou para a marca do pênalti.
Nonô Piquete pegou a bola e disse que ia bater o pênalti. Não ia chutar forte, bater pênalti era jeito, sabia como fazer para que a bola entrasse no gol devagar, disse.  Mas não foi o que se viu. Tomou distância e meteu o pé na bola com violência. O goleiro caiu dentro do gol, abraçado à bola. Preocupados, os meninos viram que o goleiro não saiu de lá de dentro do gol.  Viram que ele não mexia os olhos, tinha uma cor esverdeada no rosto e chegou a golfar duas vezes uma saliva amarela.
– Água! Tragam logo água! Ele está morrendo! – gritou o dono da bola.
Despejaram a água no rosto dele. Ele acordou com os olhos sem enxergar os meninos que estavam à sua frente. Disse:
– Vi um bocado de borboletas, agora vejo tudo anuviado.
Como se nada de mais tivesse acontecido, Nonô Piquete aproximou-se do goleiro, que soltou a bola e ficou em pé com a ajuda de alguns companheiros.  
            Pensávamos que ele fosse pedir desculpas pelo que fez quando chutou a bola com violência. 
          De cara fechada, disse:
– Você viu, seu bobo,  futebol é pra homem!
Depois que ele disse isso ao goleiro, ninguém mais quis que a partida continuasse. Fizemos um trato para o resto da vida de não participar de uma pelada com Nonô Piquete jogando até de goleiro em qualquer um dos times. De agora em diante ele  estava riscado de participar em nossas brincadeiras. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Livro de Poesia de Cyro de Mattos
Publicado na França  Ganha Prêmio
Internacional Jean-Paul Mestas


Publicado no ano passado pelas Editions Du  Cygne, de Paris, na Coleção Poesia do Mundo, WWW.editionsaducygne.com, o   livro "De tes instants dans le poème”, de Cyro de Mattos, tradução de Pedro Vianna, acaba de conquistar   o Prêmio Internacional de Poesia Jean-Paul Mestas, da União Brasileira de Escritores, Seção do Rio de Janeiro. O tradutor do livro  para o francês, Pedro Vianna,  também foi agraciado com o mesmo prêmio, por sua tradução do livro.  As láureas serão entregues aos agraciados em outubro, no Rio de Janeiro, no salão nobre da Academia Brasileira de Letras. A comissão julgadora do prêmio esteve integrada  dos escritores Luís Gondim, Stella leonardos e Margarida Finkel.   O livro De tes instants dans le poème (De Teus instantes  no poema) é uma seleção de poemas extraídos de Vinte Poemas do Rio, Cancioneiro do Cacau, Vinte e Um poemas de Amor, livros publicados, e dos inéditos Agudo Mundo, Rumores de Relva e de Mar e Devoto do Campo.
A obra laureada tem apresentação de Margarida Fahel,  professora da Universidade Estadual de Santa Cruz, especializada em Literatura Brasileira. Bebendo na tradição da poesia universal, existencial e humanista, sem esquecer os muros da aldeia, o poeta Mattos apresenta, nesta obra, um conjunto de sentimentos e ideias através de versos límpidos, em nível da fala, que inauguram novos sentidos da vida: purezas da infância, solidões da colheita do nada, verdes visões na rota da solidariedade,  mundo selvagem do homem contra o homem, o erótico e o afetivo no encontro perfeito do amor, vozes do campo, ora gemidas, ora fraternas, rumores de relva e de mar, idênticos  na ternura e dores, que ressoam a fabulosa diversidade da vida nas  paisagens urdidas pelo tempo.   


União Brasileira de Escritores (Rio)

                            A União Brasileira de Escritores, Seção do Rio de Janeiro, é uma entidade cultural integrada à Federação Latinoamericana de Sociedade de Escritores. Fundada em 1958, mantém, entre suas suas atividades, a revista Renovarte, palestras sobre literatura, concursos, encontros e eventos culturais.  Neste ano de 2013 promoveu os seguintes concursos  para livros inéditos, inscritos sob pseudônimo: Prêmio Humberto de Campos, contos, Prêmio Alejandro Cabassa,  crônicas, Prêmio Vicente de Carvalho, poesia,  Prêmio Viana Moog,  ensaio, Prêmio José de Alencar, romance, Prêmio Ganymedes José, livros infanto-juvenis, e ainda o Prêmio Internacional Jean-Paul Mestas para livros de autor brasileiro traduzidfo e publicado no exterior, que não depende de inscrição. Entre os escritores que já receberam prêmios da União Brasileira de Escritores (Rio), figuram Celso Furtado, Afonso Felix de Sousa, Astrid Cabral, Neide Arcanjo, Denise  Emer, Nélida Piñon, Francisco Sena, Carlos Nejar, Antonio Olinto, Gilberto Mendonça Telles, Jorge Amado, Adonias Filho, Antonio Torres, Rita Olivieri Godet, Helena Parente Cunha, Ruy Espinheira Filho, Florisvaldo Mattos, Ana Maria Machado, Amélia Sparano, Marcus Accioly, Flávio José Cardoso e Lúcia  Aizim.
                             

quinta-feira, 13 de junho de 2013

CYRO DE MATTOS PROFERE HOMENAGEM À DOUTORA NELLY NOVAES COELHO NA CASA DAS ROSAS: SÃO PAULO












terça-feira, 11 de junho de 2013

Cyro de Mattos Participou das Homenagens
à Escritora Nelly Novaes Coelho em São Paulo







No dia 29 passado,  a Editora Letras Selvagem e a Casa das Rosas (Centro de Literatura e Cultura Haroldo de Campos) prestaram homenagem em São Paulo à consagrada escritora Nelly Novaes Coelho, pela passagem de seus 91 anos de idade, docência universitária e exercício da crítica literária durante 50 anos. Os escritores Ignácio Loyola Brandão e Cyro de Mattos, os críticos Benjamin Abdala Jr e Fábio Lucas, doutores em Letras, da USP,  integraram a mesa oficial do evento e proferiram  homenagem à Nelly Novaes Coelho, Professora Emérita da USP.
Na oportunidade, depois das homenagens prestadas,    Nelly Novaes Coelho lançou o livro  “81 Escritores da Literatura Brasileira no Século XX”, publicado pela Editora Letra Selvagem, de São Paulo, volume de quase mil páginas, no qual  é analisada pela ensaísta  a obra de  grandes autores da ficção brasileira.  

Eis na íntegra a fala de Cyro de Mattos homenageando Nelly Novaes Coelho:

“Senhores e senhoras:
A linguagem literária é caminho  importante para a compreensão do outro mais  o mundo.  As obras literárias falam à imaginação e ao sentimento. As científicas, de preferência à razão. A soma da sabedoria humana não está apreendida por nenhuma linguagem. Nenhuma linguagem em particular é capaz de exprimir todas as formas e graus de compreensão humana. De todas as linguagens a que mais se aproxima dessa condição é a literária
A literatura é a expressão mais completa do homem, como ente que pensa e sente. Todas as outras expressões referem-se ao homem enquanto especialista de uma atividade. Só a literatura concebe e apreende o homem enquanto homem. Sem distinção nem qualificação alguma. É a via mais direta para que os povos se entendam e se encontrem como irmãos. Assim, ela devolve ao ser humano, o que de fato lhe  pertence como aptidão e aderência:  a inteligência e a emoção.
            Essa crença nos sinais visíveis da escrita como expressão do pensamento mágico e lógico é o que Nelly Novaes Coelho  vem transmitindo em  sua prática de docência universitária e exercício da crítica literária durante 50 anos. Portadora de uma didática admirável,  pesquisadora exemplar, analista  lúcida.  Registra a voz de muitos autores que vêm dando seu testemunho de vida e ideais por meio da Palavra. Seus dicionários de escritoras brasileiras e da literatura infantil e juvenil brasileira são pontos elevados na valorização do corpo literário brasileiro.
           Ao colocar a cultura e a literatura  em tão rico  patamar, contribuindo decisivamente para a construção do patrimônio comum a todos os estudiosos e criadores literários, o trabalho dessa  intelectual é assombroso. A tarefa de pesquisa,  cara às universidades, à reflexão das mutações do mundo, historicidade e atualidade do homem, circunstanciado no ontem e no hoje,  encontra em Nelly Novaes Coelho  a dinâmica perfeita que emerge da vocação voltada para os campos investigativos e interpretativos, culturais e literários.
             Em sua contribuição enciclopédica e analítica da literatura, como os iluministas de ontem,  essa intelectual rara desincumbe-se da jornada  com erudição, consciência crítica e uma santa paciência de pesquisadora. Ela sempre está  surpreendendo. Depois de enriquecer o corpo das letras brasileiras com volumes importantes  como  Literatura e Linguagem, Literatura Infantil, Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras,  Dicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira, Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil,  na idade em que muitos já aposentaram suas ferramentas, eis que  ela  brinda agora seu público leitor com este 81 Escritores Brasileiros do Século XX, resultado de 50 anos de pesquisas, leituras e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, congressos, seminários, colóquios, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América.       
           São 81 escritores analisados neste precioso e extenso livro. Dos mais conhecidos,  Jorge Amado, Graciliano Ramos. Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão,  passando por nomes expressivos que ficaram esquecidos da crítica e  mercado editorial,  Cornélio Pena, Gustavo Corção, Adonias Filho, Murilo Rubião, Victor Giudice, Campos de Carvalho,  Alcides Pinto, e ainda outros  que precisam de divulgação para melhor serem conhecidos:  Vicente Cecim, Olavo Pereira, Agrippino de Paula, Fausto Antonio, Ricardo  Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel Rawet,  Alaor Barbosa  e outros.  Todos esses autores dão voo à razão e à emoção quando abordam a problemática existencial do ser humano e a crise  de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. 
           A escritora admirável revela que  foi a “Sorte ou o Acaso” que puseram em seu caminho os 81 escritores reunidos e analisados neste seu último livro. A generosidade, a humildade e  a solidariedade são marcas da alma dessa grande  criatura.   Os   autores aqui analisados  tiveram, sim,  a sorte ou o acaso de ser posta em seus caminhos uma intelectual da grandeza de  Nely. Um autor para ser instituído como cânone precisa de um crítico dotado  de instrumental teórico suficiente, que  chame a atenção para as questões estéticas, seja capaz de revelar os elementos estruturantes que entraram  na composição da  forma e conteúdo da obra.
         No meu caso,  de autor baiano insulado em Itabuna, cidade localizada  no sul da Bahia, distante do eixo Rio e São Paulo,  que ainda funciona como tambor cultural desse país inculto, por mais que o mundo hoje seja uma aldeia globalizada, nem sei como agradecer a inclusão  na relação desses escritores maiores elencados no testemunho crítico da Nelly.
           É uma grande honra está aqui,  nesse momento festivo, de reconhecimento e afetividade.  Felicito a sempre  lembrada  e querida amiga  Nelly  por seus 91 anos de idade, repetindo,  como ela certa vez nos disse,  que  sem leitura e escrita a vida não tem emoção.  Termino  minha pequena homenagem a quem tanto deu às letras brasileiras, às inúmeras gerações em seu ciclo de docência universitária e no exercício da crítica literária, durante 50 anos, dizendo: “Obrigado,  Nelly,  por tudo que você  fez pela sociedade e, em particular, pela  literatura brasileira. Você ama a literatura. A literatura tem mostrado que ama você”.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Caboclo Alencar

                              Caboclo Alencar

                                      Cyro de Mattos

    
Não é caboclo, mas mulato, de olhos pequenos e espertos. Dono do barzinho ou boteco ABC da Noite, no Beco do Fuxico, antes Travessa dos Artistas, onde ficavam as tendas de cabeleireiro, alfaiate, sapateiro, relojoeiro e vendedores de coisas miúdas. O dono do ABC da Noite é filósofo por vocação, bebe no saber popular. Logra extrair da vida com simplicidade e espontaneidade uma sabedoria que dá alegria e descontração ao freguês que freqüenta o seu pequeno estabelecimento comercial: político, comerciário, professor, profissional liberal, caminhoneiro, pedreiro, viajante, estudante, jornalista, escritor, artista e por aí vai.
É tanta gente que  por lá aparece que ele não sabe o nome de muitos. E para não cometer a gafe, errando o nome, passou a chamar todo mundo de caboclo. E os fregueses passaram a chamá-lo também de caboclo. O chamamento pegou como visgo de jaca.  È ficou sendo  conhecido como o Caboclo Alencar, muito mais do que  Alencar Pereira da Silveira, comerciante há mais de setenta anos.
 De primeiro começou ajudando o padrasto a vender no único cômodo da casa o óleo animal, banhas e gorduras. Nos idos de 1950 houve uma queda no comércio de carne, o Caboclo Alencar resolveu assumir o ponto sozinho para transformá-lo em um pequeno bar. Surgiu o ABC da Noite, especializado na venda de batidas feitas com fruta e cachaça.
O ABC da Noite tem  mais de cinqüenta anos funcionando para sua distinta e fiel freguesia. Tornou-se um ponto tradicional na vida da cidade. No início funcionava até 21,30 horas. Hoje está aberto das 10 às 12,30 horas, e das 17 às 19 horas.  O dono do ABC da Noite fez a mudança de horário para aliviar o movimento na rua, que já é  estreita e, no horário do funcionamento do bar,  fica impossível de ser transitada, de tanto freguês ocupando seu espaço no lado de fora, à espera de sua vez para ser atendido no balcão pelo Caboclo Alencar.
O que faz um barzinho com um pequeno cômodo, uma geladeira, uma pia, um balcão, atrair  tanta gente para falar da vida alheia, sendo o prato principal do cardápio a fuxicaria política? Não se pode deixar de considerar que as batidas feitas pelo Caboclo Alencar são deliciosas, não existindo outras na cidade com igual sabor: de caju, cajá, gengibre, maracujá, pitanga e outras. Cada uma mais saborosa do que a outra. Juntem a isso os ensinamentos sábios do Caboclo, sem cobrar nada, com suas tiradas, sentenças,  provérbios, conselhos e ditos populares.
Há quem afirme que caminhoneiros vão visitar o ABC da Noite para pescar alguma frase interessante sobre a vida e colocá-la depois no pára-choque do caminhão. Pode ter certeza que o Caboclo Alencar vem dando uma contribuição inestimável  para a filosofia e a poesia na estrada com frases como essas:

Pior juiz é a consciência, tá?
Que bom se corrupção desse AIDS
Pobre só come carne fresca quando morde a língua
Fazer a criança é fácil, difícil é consertar o homem
Se morte é descanso prefiro viver cansado
O erro do médico a terra esconde
Faça da sua vida uma canção de amor

Para quem não sabe, o Caboclo Alencar é o criador da ciência Mulherologia. Vem transmitindo saberes e sabores da vida com muita propriedade aos freqüentadores da  Escolinha ABC da Noite. Tem dado tratamento notável aos diversos assuntos envolvendo o objeto que essa ciência estuda, embora ele seja um autodidata e só tenha concluído apenas o curso primário. No quadro negro o freguês da Escolinha ABC da Noite lê o assunto que deve ser abordado na semana.  Leva para a casa a ideia anotada  para ser desenvolvida em uma lauda, escrita legível, pode ser em prosa  ou verso. A composição deve ser lida depois pelo aluno em dicção clara. O aluno, leiam freguês, pode molhar a  goela com  uma  e, no máximo, duas batidas, antes de começar a leitura de um dos assuntos abaixo relacionados:

 Proteja seu cão: vacine sua sogra contra a raiva;
 Se casamento fosse bom, Cristo  não tinha morrido solteiro;
 Pra quem ama catinga de bode é cheiro;
 Namorar muito, noivar pouco e casar nunca;
Se Deus  fez algo melhor que  a mulher só  fez pra Ele;
 Carinho de mulher feia é dentada;
 Vitamina de chofer é sorriso de mulher;
 Por não ter uma roupa nova passei o ferro na velha;
 Saudade no jardim é flor, é dor;
 Marido de mulher feia só acorda assustado;
Faça da vida uma alegria, mas com mulher.

Para evitar tumulto e queixas de injustiça, na escolha do assunto anunciado no quadro negro, é feito um sorteio entre os alunos da Escolinha do ABC da Noite.
Antes que me esqueça, você encontra na parede do ABC da Noite, em letras grandes, a portaria seguinte:

Art. Primeiro – Aqui é permitido sonhar e sorrir.
Art. Segundo – Revogam-se as disposições em contrário.

                                   Caboclo Alencar.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Antonio Menezes Amigo

Antonio Menezes Amigo 

                                   Crônica de Cyro de Mattos


Prefiro vê-lo garoto jogando pelada comigo no campo da Praça Camacã, próximo à beira do rio. Cabelos finos assanhados, o rosto agitado, o corpo suado  no vaivém do jogo. Ele era  três ou quatro anos mais novo do que eu, sem dúvida  o mais jovem dos meninos que disputavam pelada  no campo de barro com muitos buracos. Jogava no meu time porque era meu amigo, mas não era bom de bola,  não chegando a ser ruim,  digamos que era um peladeiro esforçado.
Fui estudar em Salvador no internato do Colégio  Maristas, ele ficou estudando em Itabuna. Deixamos de nos encontrar para jogar futebol ou tomar banho no rio depois de cada pelada. Quando saí do internato,  soube que ele estava estudando em Salvador e por feliz coincidência ficamos hospedados duas vezes na mesma pensão.
Ele sempre foi o primeiro aluno dos colégios em que estudou. Tinha uma inteligência privilegiada, mas não se valia disso, estudava, estudava.  Tudo que estudava aprendia com facilidade. Tudo que lhe era transmitido pelo professor na sala de aula absorvia e não esquecia. Passou em primeiro lugar no vestibular de Medicina e fez o curso inteiro  como o primeiro aluno da classe.
 Em Salvador, na noite do sábado, encontrávamos agora no restaurante Cacique, junto do Cine Guarani e próximo do cabaré Tabaris. Conversávamos sobre nossas aventuras amorosas, informando um ao outro qual era a namorada conquistada daquela vez.  O assunto podia mudar para futebol, as aulas de capoeira com mestre Bimba ou algum fato interessante envolvendo pessoa conhecida  em nossa cidade, no Sul da Bahia. A conversa era sempre acompanhada de bons goles de cerveja e tira-gosto. Riso houvesse  quando a piada contada era muito boa. Depois íamos dar um pulo  no dancing da Boate Id, casa de mulheres que atraía estudantes, jornalistas, intelectuais e boêmios, gente que gostava de viver a noite de Salvador com música, amor  e sonho, embalando-a nos braços como se fosse o seu bem.  
Prefiro vê-lo com o ímpeto próprio do jovem que deseja  conhecer  a vida, sem temer  os perigos, os desafios  e os obstáculos. E como gostava de dançar nos bailes realizados no  Itabuna Clube e Grapiúna Tênis Clube. Era um pé de valsa que não poupava energia para dançar com a namorada até o fim do baile. No Carnaval era um folião bem animado. Em qualquer baile no Itabuna ou Grapiúna a  festa ficava mais alegre quando ele chegava. Contagiava os amigos, despertava suspirinhos e piscar de olho das meninas mais bonitas.  Por seus dotes de rapaz esbelto, sorridente, galanteador, ficou logo conhecido como Tonho Bonito. Apelido que foi dado por Seixas, seu amigo íntimo há anos, mas que Zé Laurindo, outro amigo íntimo, contestava e afirmava, alto e bom som,  que foi ele quem colocou. Não abria mão disso sob quaisquer aspectos.  Não admitia mesmo que fosse contestada a autoria desse apelido como reconhecimento de seus dons de rapaz atraente e sedutor, disputado pelas garotas mais bonitas da sociedade.
Prefiro vê-lo atuante como médico ortopedista do time profissional do  Itabuna Clube, sem cobrar nada. Como médico competente desde que iniciou a carreira. Montou uma clínica em sua especialização e adquiriu rápido uma grande clientela formada por  gente rica e pobre, que recebia dele o trato decente de quem exercia a profissão com amor, respeito ao paciente, sem distinção de classe. Aconteceu que precisei de seus serviços médicos.  Não quis que eu pagasse pelos seus serviços profissionais. Antes e depois dos exames que ele realizou em mim, ficou lembrando   nossa querida cidade naquele tempo que se foi com os momentos bons  da juventude.
Prefiro vê-lo como eficiente presidente do Instituto de Cacau da Bahia, zeloso provedor da Santa Casa de Misericórdia, deputado estadual inflamado quando discursava  e defendia um projeto com vistas ao bem-estar da cidade natal. Era dono de uma oratória arrojada, impressionando a quem ouvisse.
Encontrei com Carlinhos Galvão no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo,  quando eu estava para embarcar para  Belo Horizonte onde ia participar da Bienal do Livro de Minas. Aquele nosso amigo, radicado em São Paulo há anos, perguntou-me: “Como vai nosso amigo Tonho?”. Respondi: “ A situação dele é a mesma, bem difícil”. Os amigos Seixas e Zé Laurindo são sempre os que me dão notícias dele.
Prostrado na cama há muito tempo.  Reconhece  os entes queridos, os amigos Seixas e Zé Laurindo, não se mexe. “Tudo a família tem feito  para tirá-lo dessa situação”, disse Zé Laurindo. “O quadro é triste, dói, como dói”, disse Seixas. Não suportaria vê-lo minguando nas forças, outrora tão dinâmicas, sem que eu pelo menos possa  suavizar um pouco as cores desse quadro triste, sem sentido.  Prefiro vê-lo como marido exemplar, pai cuidadoso, fazendeiro operoso. Filho de quem os pais tanto se orgulhavam. Homem com olhares positivos quando reconhecia com prazer  as qualidades do outro no mundo. Gostava de valorizar suas origens neste chão engastado na memória do tempo a que se chama vida.
Prefiro vê-lo dentro das lembranças boas, cativantes, solidárias, desinteressadas, que só um verdadeiro amigo pode deixar como um legado que não tem preço. Dono de sonhos e beijos, esperanças e conquistas,  como ele sempre teve.  No rio da vida do qual somos parte sob o curso inexplicável do mistério. Nesse perfume vindo de uma roseira que plantamos com os nossos gestos, sentimentos e razões. Nossos ideais  que pulsaram ardentes  no coração do menino, no jovem e no homem. No torvelinho de  manhãs  e tardes sem a traiçoeira invenção da vida. 

*Cyro de Mattos é escritor premiado no Brasil e exterior, em concursos expressivos. Distinguido com a Comenda do Mérito do Governo do Estado da Bahia.



sexta-feira, 17 de maio de 2013

Entrevista a Albano Martins, notable poeta portugués.





“El tiempo pasó irrevocable, pero quedó la Poesía”

Entrevista de Alfredo Pérez Alencart, Universidad de Salamanca
Fotos: Jacqueline Alencar y Casino de Figueira
Ilustración: Miguel Elías, Universidad de Salamanca

Afincado Oporto, donde hasta hace poco dio clases en la Universidad Fernando Pessoa, un poeta destila la fiebre siempre nueva de la Poesía. No hace pirotecnias verbales, solo dice: “Basta una flor,/ basta un ala/ para saber que la primavera/ entró en nuestra casa”. Admiro a este Poeta a quien pude conocer personalmente en mi Salamanca, allá por octubre de 2009, como acredita su propio corazón en “Salamanca 2009”, un poema escrito en el hospital salmantino, mientras se sometía a una sesión de diálisis: “En el Colegio del Arzobispo,/ medalla y emblema/ de la ciudad, sólo los palomos y algún/ pardal solitario cargan/ en su pico el misterio/ del tiempo, hecho canto,/ y la música/ de las piedras, hecha/ oración del silencio./ (A Jacqueline y a Alfredo)”.
 
Con esta entrevista quiero trazar algunos de los puntos cardinales de Albano Martins (Telhado, Fundão, 1930), uno de los grandes nombres de la poesía portuguesa actual, junto con António Salvado, António Osório y Vasco Graça Moura. Licenciado en Filología Clásica por la Facultad de Letras de la Universidad de Lisboa, ejerce como profesor en Universidad Fernando Pessoa, de Porto. Publicó su primer libro, Secura Verde, en 1950. Su obra poética comprende más de 25 títulos, buena parte de ellos reunidos en Assim São as Algas (2000), Posteriormente publicó Castália e Outros Poemas (2001), Três Poemas de Amor Seguidos de Livro Quarto (2004)  Palinódias, palimpsestos (2006), así hasta llegar a Estão agora floridas as magnolias (2012). Una buena muestra de su obra se encuentra en As Escarpas do Dia (Poesia 1950-2010), publicada por Afrontamento  Además de poeta, también es traductor. Entre los autores que él trasvasó al portugués, destacan Pablo Neruda (seis libros, entre ellos Canto General, que le supuso el Gran Premio de Traducción APT/PEN Club Português), Giacomo Leopardi, Rafael Alberti y Nicolás Guillén. La República de Chile le concedió la  Orden al Mérito Docente y Cultural Gabriela Mistral. Es Doctor Honoris Causa por la Universidad S. Marcos (S. Paulo, Brasil). En España se publicó Escrito en rojo (Editorial Germanía, Alzira, 2009), en versión de Ana María da Costa Toscano.

Han pasado 62 años entre Secura verde y Estão agora floridas as magnolias, tu primero y último libro publicado, por el momento. ¿Qué ha pasado, además del tiempo? ¿O es que por la Poesía no pasa el Tiempo porque ella misma es nudo y plenitud de tiempos que no se queman?
 
Entre Verde sequía, de 1950, y Ahora están florecidas las magnolias, de 2012, el tiempo pasó irrevocable, pero quedó la Poesía, esa que vive y palpita en todos los poemas que escribí. En ellos, de algún modo, también el tiempo es el que vive y palpita. Apresado en una jaula dorada, añadiría.

¿Tuviste mortales impaciencias cuando joven o siempre te amparó el sosiego?

Tuve, naturalmente, como todos los jóvenes, mortales impaciencias, porque la juventud es un tiempo de inquietud (de revelación y revolución, también) y, como diría Pessoa, la oportunidad de “sentir todo de todas las formas”. El descubrimiento del amor, por ejemplo, es una experiencia única, intransferible, que nos roba el sueño y devora las entrañas. El sosiego, ése del que hablas, no pasa de ser, juzgo yo, una buena metáfora. ¿Cómo puede, en verdad, tener sosiego el poeta, cuando siguen sin respuesta las preguntas de Gauguin, cuando el hombre se ve todos los días agredido en su dignidad y la justicia es una mera figura retórica? No es casualidad que una de las obras fundamentales de Pessoa, y del siglo XX, pienso yo, tiene por título Libro del Desasosiego.

¿Cuáles tus lecturas iniciales, los autores que más te conmovieron hasta que te afirmaste con esa impronta tuya?

Comencé, naturalmente, por los autores de las antologías escolares; esto es, por los clásicos. En primer lugar Camões, a los que se unieron poetas como Bocage, Eugénio de Castro, Antero de Quental, Gonçalves Crespo, António Nobre, Cesário Verde, Camilo Pessanha y otros más, antes de llegar a los contemporáneos. De todos ellos, los antiguos y los modernos, los que más han contribuido a mi formación como poeta fueron, además de Camões, Cesário Verde y Camilo Pessanha. Pero hay otros que estimo mucho, hablando sólo de los portugueses: Pessoa (no todo), el Miguel Torga de los tres primeros volúmenes del Diario (allí están algunos de sus más bellos poemas), Vitorino Nemésio  (especialmente el de El animal armonioso y Yo, conmovido al oeste), Carlos de Oliveira, Sophia de Melo Breyner Andresen… Juzgo, por lo tanto, que nuestra idiosincracia, en cuanto creadores, es un complejo mosaico de influencias que, de forma sutil y encadenada, componen la imagen de ese puzzle de inquietudes y misterios a que llamamos poeta.
¿Poesía o Vida? ¿Acaso hay distinción alguna, salvo el lenguaje donde el poeta hace cocción de esa vida que luego presenta en forma de poema?

Poesía es Vida. No concibo una sin la otra, la primera sin la segunda. Tampoco son concebibles el fruto sin la flor, el árbol sin la raíz.
Además de poeta notable, eres traductor de clásicos griegos, italianos e hispanoamericanos. Háblanos de las traducciones que más te han marcado.

Neruda es una de las pasiones de mi adolescencia. Descubrí, a los diecinueve años, uno de sus libros más fascinantes y que siempre me ha acompañado: Veinte poemas de amor y una canción desesperada. Más adelante me surgió la invitación para traducir otro libro suyo, Los versos del capitán, de buena acogida editorial. Después vinieron otros, hasta los siete libros que traduje, de los cuales resaltaría el Canto general. Éste, juntamente con los Cantos de Leopardi, la Antologia Palatina y la  Antologia de la poesía griega clásica fueron las grandes aventuras –las verdaderas odiseas–  de mi actividad como traductor-amador. Esas obras han sido las que más me marcaron, no sólo por la dificultad y complejidad de las versiones, sino también por el desafío que representaron y por entusiasmo que me suscitaron.
Te has acercado a la poesía oriental, el haiku y sus variantes. ¿Crees necesario este abordaje para cualquier poeta que busque esencialidades?

Mi poesía siempre ha estado marcada por la consición. El descubrimiento de la poesía japonesa, del hayku, allá por 1967, significó el encuentro con una forma de expresión que en sí contenía la representación de lo esencial. Idea que ya estaba, en fin, contenida en los fragmentos de los líricos griegos arcaicos que encontré en las aulas de la universidad  (Safo, Alceu, Anacreonte, Mimnermo, Teógnis, entre otros), y en los epigramas seleccionados en las varias antologías organizadas a lo largo del tiempo, en particular en esa que hoy conocemos por el nombre de Antologia Palatina.
¿Qué recuerdos de tu infancia y adolescencia por esas duras y cautivantes tierras de A Beira Interior?

La Beira, la región de la Beira Interior y su paisaje son la matriz de todo. De ella viene mi amor por los árboles, por las flores, por los animales. Crecí allí, a la orilla del agua. Frente a la casa donde pasé la infancia, la casa de la Quinta da Rascoa, próxima a la aldea de Capinha, donde hice los estudios primarios, frente a esa casa, decía, pasaba el río Meimoa, con sus caudales temperados, solo alterados en invierno, sus embalses, sus chopos, almendros y sauces, sus sombras acogedoras donde, en el verano, me recogía a veces buscando protección y frescor ante el calor abrasante. En El espacio compartido, Rodomel Rododendro y otros lugares de mi escritura, se encuentra todo ese lugar que vuelve envuelto en una capa de poesía.
En O espaço partilhado, en Rodomel Rododendro y en la sección ‘Timbres e alegorias’ de O mesmo nombre te instalas en el poema en prosa. ¿Qué te impulsó a incluir estos prosemas en una obra signada por la brevedad o la fragmentación de exiguos versos poderosos?

El poema en prosa llegó de forma espontánea, no premeditada o programada. Su más amplia respiración (o mayor aliento) es dictada –impuesta– por las circunstancias o necesidades del instante creativo. Ella obedece a otras leyes (si de leyes se pueden hablar aquí), instaura otro ritmo, se expande por otros márgenes, pero no le disminuye ni limita el significado y el alcance. Por otro lado, hoy sabemos que lo que distingue la poesía de la prosa no es la extensión de las líneas, aunque sí el tipo de lenguaje de que una y otra se sirven.
La pintura, Albano, siempre ha estado a tu lado o tú al lado de ella. ¿Será porque también tú pintas con palabras? Háblanos de tu relación con ese otro lenguaje que interpreta la belleza y el horror del mundo.

Es verdad: la pintura siempre ocupó en mi vida un largo e importante lugar. Ya en otra oportudidad afirmé que si no fuese poeta es muy problable que sería pintor. Soy extemadamente sensible a las formas y a los colores, y esa inclinación se manifiesta ampliamente, estimo, en mi poesía, que está marcada por una fuerte sensorialidad y, hasta diría, por una vibrante sensualidad. En ella, todos mis sentidos estan empeñados de forma incondicional, esto es, de modo absoluto y sin reservas. Finalmente resaltaría que mi ambición es esa, de hecho, que las palabras valgan lo que para la pintura valen los colores. Como sabes, ya el viejo poeta Horacio proclamaba el Ut pictura poesis en su Arte Poética. Esto es “la poesía como la pintura”. Capte ella (o interprete, como dices) la belleza  o “el horror do mundo”.
Cuáles tus pintores favoritos. Ahora recuerdo que traduje tu poema dedicado al Jardín de las delicias… Qué porción de afectos ocupan Miró, Picasso, Klimt, Matisse…

Esos que citas son, efectivamente, algunos de mis pintores preferidos. Pero hay otros, incluyendo los portugueses Júlio, Mário Botas, Jorge Pinheiro y Cruzeiro Seixas. A Miró, sobre cuya pintura yo mantenía ciertas reservas, me rendí completamente, y de modo definitivo, cuando un día en Madrid entré al Museo Thyssen y vi una retrospectiva del grande pintor catalán. Delante mío tenía un conjundo de óleos titulados “Las Constelaciones”. Era el deslumbramiento. Fue en la secuencia de esa exposición que escribí el conjunto de poemas que titulé “En los jardines de Miró”, incluido en el libro La voz del mirar. En Picasso reconozco la genialidad, que se manifiesta en todos sus grados y variantes. En Klimt, la novedad de las tintas y la pureza de la expresión. En Matisse, al que sumaría a Chagal, es el lirismo del trazo y del color lo que me seduce. Pero también me seducen los “dibujos” de Lorca y las tentativas de Rafael Alberti por el dominio de las artes plásticas. Algunas de esas tentativas son verdaderos poemas coloridos, como esas que adornan la Antología Poética publicada en 1998 por la barcelonesa Editorial Optima.
El Eros en tu poesía está como vivificando las vocales de tus poemas. ¿Mientras vive el hombre siente y desea?

El Eros es, de hecho, como sugieres, la gran fuerza que recorre y sacude mi poesía, matizada, aquí y allí, por algunas notas de melancolía, derivada de la consciencia de la precariedad y de la fugacidad del tiempo. Tempus fugit, decían los latinos, y Horacio tradujo en una oda esa misma consciencia a través de la expresión carpe diem. Está ahí, sobreentendido, un consejo: aprovecha el día –el momento– que pasa, porque el tiempo se escora y no sabes si mañana estarás vivo. Es también esa lección del epicureísmo, filosofía de la vida –la filosofía del placer– que suscribo por completo.
Concluyendo: el amor es la única arma capaz de resistir a los asaltos del tiempo y, como sabes, a él no se hurtaron los propios dioses, comenzando por Júpiter, el padre de todos ellos. Respondo, finalmente, a tu pregunta: el hombre es un ser destinado para el amor y solo la muerte matará su deseo.

Brasil te viene reconociendo, tal como tú has reconocido, líricamente, a esa parte sustancial de la lusofonía. ¿Cuál el entrañamiento tuyo con Brasil? ¿Va más allá de A voz do chorinho…?

Sí, mi poesía ha encontrado en Brasil una receptividad y un reconocimiento mayor, bastante mayor, que en Portugal. Hace poco recibí, desde S. Paulo, la información de que una profesora de universidad prepara una tesis de doctorado sobre mi obra. Se sumaría así a otra ya defendida hace años en Río de Janeiro. Y también es verdad, como señalas, que a Brasil tengo dedicado un indefectible afecto. Mi deslumbramiento, que habrá sido semejante al de los navegantes que en 1500 desembarcaron por vez primera en aquellas tierras, ocurrió cuando en 1985 descendí en Galeão y entré en contacto con la realidad brasileña, teniendo inmediata traducción de dos libros que allí publiqué: A voz do chorinho ou os apelos da memória y Poemas do retorno. En los años siguientes volví a Brasil unas veinte veces, donde tengo hoy muchos y buenos amigos, además de numerosos admiradores y exégetas de mi poesía. Si existe una segunda patria, la mía es Brasil.
Lo vegetal (el bosque, la selva, las flores…) aparece con frecuencia en muchos de tus libros publicados.

El mundo vegetal lo traigo aferrado a la piel desde la infancia. En la vasta naturaleza muerta que era la Quinta da Rascoa predominaban los tonos verde, solo quebrados, en los otoños, por la invasión de otros colores de su variada paleta y, en el verano, por el amarillo de las mieses. Crecí con las flores, las plantas, los árboles del bosque (robles, eucaliptos, pinos) y del huerto (higueras, naranjos, cerezos, almendros). Dormí con ellas, las llevé a la escuela. Los sabores de los frutos de algunas de esas plantas todavía los guardo en mi memoria gustativa. Lo que he hecho, en mi poesía, es traerlos a la antecámara del habla, que es la palabra escrita. Es darles una voz y un nombre. Así les retribuyo, así les pago, la compañía y el bien que me hicieron en aquellos años dorados.
¿Qué significancia tiene el mar para un portugués como Albano?

El mar quedará siempre como símbolo del viaje y de la aventura. Metáfora mayor, en él caben todas las otras metáforas, las del Arte y las de la Vida. Es así desde Homero, Virgilio y Camões. Para mí, que no soy marinero, algunas veces el mar ha sido pretexto para viajes imaginarios y saltos en el abismos. En O espaço partilhado, le dediqué un largo poema en prosa y tengo un libro inédito, de poemas breves, Desta varanda, o mar, que también le es dedicado. A través de él, navego –navegamos todos, entiendo yo- en dirección a las ítacas que siempre se perfilan en nuestro horizonte vital.
Y hablando de España, ¿cuál es tu sentimiento hacia ella?

Tengo por España un antiguo y arraigado afecto o, diría mejor, admiración. Por el carácter de su pueblo, por la idiosincrasia de sus gentes, por su cultura: sus pintores, sus escultores, sus escritores, sus poetas. También por su música, por sus cantantes: Plácido Domingo, José Carreras, Monserrat Caballé. Y tengo, finalmente, algunos buenos amigos españoles. Es tanta la admiración que tengo, como decía Neruda, a “España en el corazón”.

Descríbenos tu relación con Vicente Aleixandre.

Mi relación epistolar con Vicente Aleixandre data de principios de los años cincuenta del siglo pasado. Deseoso de conocer más de cerca la obra del poeta, que yo sabía era uno de los nombres relevantes de la generación española del 27, le remitó un ejemplar de mi primer libro, Verde sequía, pidiéndole que me hiciera llegar un libro suyo, explicándole la dificultad de encontrar en las librerías lisboetas obras publicadas al otro lado de la frontera. Recibí, como respuesta, una carta y un ejemplar de Sombra del Paraíso, uno de sus libros más celebrados. Hasta 1956 fueron frecuentes entre nosotros el intercambio epistolar, acompañado por el envío de otros libros del poeta. Entonces mi vida sufrió un cambio radical: ingresé al servicio militar obligatorio; terminé la licenciatura de Filología Clásica en la Facultad de Letras de Lisboa; comencé una carrera de profesor; me casé y tuve una hija; hice la pasantía y prácticas pedagógicas; concursé a las oposiciones de la enseñanza oficial y fui a parar al Liceo de Angra do Heroísmo, en las islas Azores… Todo eso, sumado, contribuyó para que durante diecisiete años perdiese el contacto con Aleixandre. Lo retomé en 1980, cuando estuve ligado a la revista Nova Renascença, de Oporto, pidiéndole una colaboración para la misma. Estuve en Madrid en septiembre de 1981, para el lanzamiento del número 4 de la revista, dedicado en parte a Juan Ramón Jiménez. Intenté un encuentro con el poeta, pero estaba fuera de Madrid, convaleciente de una reciente intervención quirúrgica. Todo eso, y más, consta en el volumen Cartas a Albano Martins, ahora publicado en España por la Universidad de Córdoba.
¿Cuánto de antiguo tendría que ser un poeta moderno?

Juzgo que ningún poeta digno de este nombre puede recusar la herencia del pasado. Parafraseando a Alceu, poeta lírico griego del siglo VII-VI a. C., de la nada nada nacerá. Lo que cada uno recoge de esa herencia depende, necesariamente, de su cultura, formación e idiosincracia. Por otro lado, los términos ‘antiguo’ o ‘moderno’ son un tanto ambiguos y engañosos. Homero, Virgilio y Catulo, por ejemplo, son, desde mi punto de vista, tan modernos como Pessoa o Aleixandre.
Reflexiona sobre la Amistad, tan escasa, tan endeble cuando existe.

Que la Amistad resulta un valor importante en las relaciones sociales lo acredita, de hecho, que sobre ella escribió un tratado, De amicitia, el gran orador latino Marco Tulio Cicerón. Me acuerdo de que, cuando era joven, muchas veces oía decir: “Tener un amigo es tener un tesoro”. En esta formulación está contenida, me parece, toda una sabiduría. Si los hombres fuesen más amigos y solidarios de cierto que otra sería la historia humana. Auschwitz-Birkenau, Dachau y Treblinka no serían los lugares de horror que conocemos, sino simples referencias toponómicas sin mayor significado en la geografía europea.
Rica y valiosa es la lírica portuguesa de todos los tiempos. Danos tu canon básico de autores imprescindibles.

En la cumbre, Camões. Sumaría dos nombres, a mi modo de ver, irrebatibles: Cesário Verde y Camilo Pessanha. Y hay, también, poetas indispensables: Pessoa y Pascoaes, a que añadiríam ya más próximos a nosotros, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Sophia de Melo Breyner Andresen, Mário Cesariny de Vasconcelos…
¿En qué trabajas ahora? ¿Cuáles tus nuevos proyectos de escritura?

Tengo para próxima publicación unos diez libros, entre ellos dos pequeñas historias infantiles, cuatro libros de poesía, una Antología de Ugo Foscolo, el grande poeta italiano del siglo XVIII-XIX, otra del chileno David Rosenmann-Taub, contemporáneo nuestro, y una segunda edición de las Carminas de Catulo, con la traducción de treinta nuevos poemas. Mientras tanto, estoy reuniendo los textos en prosa escritos en los últimos años, con vista a publicar un tercer volumen de Circunloquios. Pido a los dioses que me den vida y salud para tener oportunidad de verlos todos en letra de imprenta. ¿Nuevos proyectos? Te confieso que nunca hice proyectos. Generosa amiga fue siempre la Poesía, que me buscó y no yo a ella.

El pasado 25 de febrero di muchos abrazos a mi amigo Albano. Fue en el Casino de Figueira  da Foz, donde se le tributó un reconocimiento y recibió un dibujo del pintor Miguel Elías. Antes, en los salones del hotel, hablamos largo y profundo, con su amada Kay y mi amada Jacqueline como testigos. Allí le recordé su bello hayku titulado “Las palabras”:
Ninguna rama
 es segura. Frágiles
 son las palabras.

Más abrazos, hasta siempre.



Sobre el autor
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Alfredo Pérez Alencart es poeta peruano-español, profesor de la Universidad de Salamanca y Miembro de la Academia Castellana y Leonesa de la Poesía. Ha obtenido, entre otros reconocimientos, el Premio Internacional de Poesía “Medalla Vicente Gerbasi” (Venezuela, 2009) y el Premio de Poesía “Jorge Guillén” (España, 2012). Su poesía se ha traducido a veinte idiomas: portugués, alemán, inglés, ruso, coreano, filipino, francés, croata, búlgaro, japonés, rumano…