Páginas

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Itabuna 100 anos- A História Contada

"Itabuna 100 Anos", de Raquel Rocha, foi um projeto bem-sucedido em  minha gestão como diretor-presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania. Repercutiu de maneira favorável em nossa comunidade ao ser exibido no Centro de Cultura Adonias  Filho lotado, como parte das comemorações do Centenário da Cidade. 

A direção da cineasta Raquel Rocha e o conteúdo com depoimento de pessoas,  que nasceram aqui e vivenciaram a nossa história, fazem desse documentário uma fatura exemplar sobre a recuperação de um tempo perdido. A linguagem dos entrevistados que ecoa nesse tempo posto na imagem revela momentos significativos da memória grapiúna."   

Cyro de Mattos   



XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos

Retrato de Cyro de Mattos desenhado pelo renomado artista espanhol Miguel Elias, que vai figurar na  antologia em homenagem a Fray Luis de Leon, no XVI Encontro de  Poetas Iberoamericanos em Salamanca- Espanha, promovido pela Universidade de Salamanca, nos dias  02 e  03  de outubro de 2013.

domingo, 11 de agosto de 2013

A Patativa Nininha

                     A Patativa Nininha

                                          (Crônica de Cyro de Mattos)


Nininha era a patativa de nossa rua. Faladeira que só ela quando não estava cantando. Pequenina, pele cor de cobre, seus cabelos soltos iam até a metade das costas. Andava ligeira nos passos miúdos. Tinha cinco irmãos. Com o falecimento da mãe ficou incumbida de conduzir as tarefas de casa. Mal o sol despontava, eu ficava ouvindo do meu quarto  a vizinha desfiar na sua voz cantadora as canções mais românticas do nosso cancioneiro popular.
 
De manhã cedo, custava a sair da cama só para ficar ouvindo a vizinha interpretando alguma canção que seus cantores prediletos costumavam cantar.  Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Emilinha Borba, Alaíde Costa, Caubi Peixoto, Francisco Alves, Luís Gonzaga, Nelson Gonçalves, Moreira da Silva, Agnaldo Rayol e Orlando Silva. Nessa hora parecia que os passarinhos no pé de carambola gostavam também de ouvir a vizinha cantar na manhã cheia de luz. Eles ficavam assanhados,  não paravam de cantar e pular nos galhos do pé de carambola. Com cantos e pios faziam o fundo musical para que a voz maviosa de Nininha se propagasse na manhã festiva.
 
Nininha da Mata Virgem. Certa vez perguntei ao amigo Codinho, irmão de Nininha,  porque ele e as irmãs tinham aquele sobrenome Mata Virgem. Ele me disse que o pai andou muito pela mata virgem, cheia de cobras e bichos perigosos, para não se falar dos índios,  no tempo em que a lavoura cacaueira estava no início. Existiam poucas roças de cacau na região. As árvores nativas cobriam léguas de terra fértil. O pai de Codinho conseguiu derrubar um estirão de mata virgem na zona de Ferradas e plantar na clareira uma pequena roça de cereal e  cacau. Ficou assim conhecido como o homem da mata virgem. O chamamento, como se fosse o sobrenome,  pegou feito visgo no pai e  filhos.
 
Os meninos de meu tempo começavam a se interessar  em aprender a cantar os sambas e as marchinhas quando se aproximava o Carnaval. Quem soubesse cantar os sambas e as marchinhas carnavalescas tinha um trunfo para atrair e namorar as meninas bonitas, fantasiadas durante o baile na matinê do Itabuna Social Clube. Sempre contei com a ajuda de Nininha para aprender a letra e como cantar com fervor o samba e a marchinha. Ela tinha vários cadernos anotados com a letra da música carnavalesca. Ficava horas ao pé do rádio ouvindo o programa de carnaval nas emissoras da  Nacional, Tupi, Continental e Tamoio. Ouvia Jorge Veiga, Jorge Goulart, Marlene, Emilinha Borba, Francisco Carlos, Elza Soares, Carmélia Alves, as irmãs Linda e Dircinha Batista.  Ouvia bem atenta e ia passando para o caderno  a letra da marcha ou samba que aquelas  vozes animadas  cantavam no programa.
 
O cunhado de Nininha era o locutor do Serviço Regional de Propaganda Regional. Timóteo tinha uma voz metálica, que saía vagarosa pelo alto-falante no poste quando estava anunciando os produtos à venda com preço barato pelas casas comerciais. Ele costumava colocar o canto triste da ave-maria pelo alto-falante, em cada entardecer, para que tocasse no fundo da alma dos seus ouvintes e fãs, que trabalhavam  nas lojas do comércio, moravam nas casas perto do centro ou dos bairros da cidade.
 
Daquela vez houve um contratempo com o disco que costumava tocar a ave-maria. Amanheceu com defeito na gravação. Quando tocava a música, esta  ficava interrompida em várias passagens. Nininha foi chamada às pressas por Timóteo para cantar daquela vez a ave-maria. A interpretação de Nininha emocionou as pessoas, que ficaram comentando na semana o surpreendente desempenho de minha vizinha.  Nunca se tinha ouvido uma ave-maria ser cantada por voz tão piedosa e triste. Nininha recebeu muitas congratulações por sua cantata da ave-maria.  Timóteo foi uma das pessoas que muito se emocionou  com a voz dela  quando cantou a ave-maria.
 
Uma vez eu vi um homem conversando alegre com Nininha na sala da frente de sua casa. Soube depois que era o seu namorado. Daquele dia em diante ela  passou a cantar com mais intensidade as canções românticas na manhã ensolarada, o coração  irradiava felicidade por todos os cantos da casa.  Em pouco tempo ficaram noivos, o  casamento ocorreu daí a um ano,  com uma noiva baixinha, de véu e grinalda,  um noivo engravatado, alto e gordo, embora alguns vizinhos duvidassem que um dia aquele enlace  fosse  acontecer. 
 
Nininha foi cantar agora cantigas bonitas nas manhãs e tardes do novo lar. Sem a sua voz, as manhãs perderam o encanto na casa vizinha onde ela morava. Eu nunca mais fiquei ouvindo a patativa de minha rua cantar bolero, tango, baião, samba, samba-canção, marcha e valsa. Qualquer cantiga suave ou canção de fundo dramático do nosso cancioneiro popular com aquela voz que Deus lhe deu para alegrar a vida.  



quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Edição e Reedição de Livros
        
         



Com mais de 74 anos de idade, tento reunir forças para prosseguir em minha jornada literária até quando Deus permitir. Dou de mim o que posso através dos sinais visíveis da escrita  para ser útil ao outro mais o mundo.  Sou apenas um elo na cadeia que nunca irá se partir, na qual se inserem  autores magistrais.  Gosto muito de escrever, bem ou mal. Amo a literatura, ela tem mostrado que gosta de mim. São quase cinqüenta anos nessa estrada de solidão solidária.
Escrevo porque é minha condição nessa guerra sem testemunha, usando a expressão do ficcionista Osman Lins, ao estudar o assunto. É dor, mas dá prazer. Competição acirrada, tantas vezes neurótica, diabólica, Santo Deus.  É maneira de liberar pesares, fantasmas. Gratifica quando meu texto recebe reconhecimento expressivo da crítica, impressão favorável dos leitores, aquilo que como braço ao abraço dá sentido à vida, tornando-a viável,  e que os ressentidos nunca vão perceber.   
A vida é falha, somos finitos, escreve-se também para responder perguntas que não têm  respostas. Meu coração é um rio subterrâneo, de onde vem para onde vai? (Fernando Pessoa). É maneira de conversar com Deus ou tocar na solidão de todos nós, a do nascer, viver e morrer.    
Assim, aos meus poucos leitores adianto que até o final deste mês  de agosto estarei publicando os livros “Onde Estou e Sou”, poesia, português-espanhol, pela Ler Editora, de Brasília, com prólogo e versão  do poeta Alfredo Pérez Alencart, e o infantil “O que eu vi por aí”, pela Editora Biruta, de São Paulo,  com ilustrações de Marta Igneriska. 
Esgotado há mais de trinta e  cinco anos, meu livro   “Os Brabos”, novelas, com prefácio de Gerana Damulakis,  vai ter ainda neste mês de agosto uma segunda edição pela Ler Editora, enquanto “Ecológico”, poesia, será publicado pela Editora da Universidade Estadual da Bahia – EDUNEB, na Coleção Nordestina, com prefácio da ficcionista e Professora Doutora Helena Parente Cunha.  “Ecológico” vai  ser lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, no final do mês. Foi  publicado primeiro em Portugal pela Palimage Editores, de Viseu e Coimbra,  em 2006.   
Para quem não sabe, a  primeira edição de  “Os Brabos” foi da Editora Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, na coleção Vera Cruz, em 1970. Quando inédito, recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Nacional Afonso Arinos, de conto e novela,  por unanimidade. A Comissão Julgadora esteve constituída de José Cândido de Carvalho, Herberto Sales, Bernardo Élis, Adonias Filho, Afonso Arinos e Alceu Amoroso Lima, o relator. “Ladainha nas Pedras”, uma das novelas inclusa em “Os Brabos”, participa, por sua vez,  da antologia “Espelho da América Latina” (Latinamerikas Spejl), da Editora Vindrose, de Copenhague, organizada pelos professores doutores Uffe Harder e Peter Poulsen, em 1982. Nesta antologia  figuram, entre outros, Juan Rulfo, Juan Carlos Oneti, Julio Cortázar, Clarice Lispector, Jorge Luís Borges, Alejo Carpentier e Mario Vargas Llosa.  
Enquanto isso,  o livro de poesia “Onde Estou e Sou” vai ser lançado  no   XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos de Salamanca, Espanha, nos dias  2 e 3 de outubro, com sessão de autógrafos e leitura de poemas por professores e atores locais. Este evento de repercussão  internacional é promovido pela Fundação  Cultural de Salamanca, com apoio da Universidade de Salamanca, Cidade do Saber e Cultura,   e Centro de Estudos Brasileiros.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

                       Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.
                                                                            Consuelo Pondé*

Esses dois intelectuais brasileiros se impuseram à admiração dos patrícios pelas teses inovadoras que defenderam, nos anos 30.   Ambos senhores de uma prosa encantadora, embora regidas  por uma psicologia  social antiquada, despertaram interesse inusitado  ao publicarem seus primeiros ensaios sobre o Brasil. Apesar  das constantes revisões, seus estudos são marcos fundantes na  análise da Cultura Brasileira.
Ambos  eruditos ,  foram , por seu turno, de acordo com suas concepções, ideólogos  da Cultura Brasileira, na tentativa de explicá-la   de acordo com as teses que ambos defendiam e  suas análises pessoais. Recebidos, efusivamente,  pela crítica , nos anos 30 ,  no momento exato  em que se revelaram  foram, no decorrer dos tempos,  sendo reavaliados em suas posições.
Assim, por exemplo,  somente após 1967 a crítica faz um balanço da produção de Gilberto Freyre, cujos 25 anos de lançamento de “Casa Grande e Senzala”  foram celebrados, mas também criticamente discutidos  por reconhecidos estudiosos brasileiros, que nele enxergava uma posição pouco acadêmica, comprometida com o pensamento da igreja no mundo luso-brasileiro. “Casa Grande e Senzala” tem sido acusado de não concluir sobre o assunto, mas interpretá-lo. De outro lado , tem sido destacada a sua posição regional, encobrindo o problema real do Brasil, no que tange às relações de dominação. Tal a beleza de sua obra que chegou a impressionar vivamente um crítico do porte de Fernando Braudel, que o tinha na conta de: “ de todos os ensaístas brasileiros o mais lúcido “.
            Gilberto Freyre, aluno de Franz Boas, nos Estados Unidos  trabalhou  muito  em torno da  “mestiçagem “ no Brasil, enquanto Sérgio Buarque adotou  uma prática modernista em  suas considerações. Ambas as posições revelam, a um só tempo, caráter misto entre o arcaico e o contemporâneo, o que  não impede sejam suas obras, freqüentemente, revisitadas   pelos estudiosos de hoje. Segundo Carlos Guilherme Mota , Freyre é,  por vezes , contraditório , definindo-se como sociólogo e , em outro sentido não . Considera-se liberal , mas critica os liberais , também revolucionário, porém um “revolucionário conservador “. Frequentes vezes  afirma que faz ciência, em outras ocasiões  diz ser um simples escritor, fugindo das linhagens antropológicas. Por outro lado, insinua que o aristocrata é um democrata, contrariando as idéias revolucionárias de Caio Prado Junior, este sim, um pensador descomprometido e progressista.  Ao avaliar “Casa Grande e Senzala”, Antônio Cândido  , situa-a no contexto em que foi produzida e dizendo o que significou para os novos naquele instante, lamentando, todavia, os descaminhos posteriores do mencionado intelectual .
Sérgio Buarque de Holanda também foi um dos mais ativos “explicadores” do Brasil, cuja obra mais conhecida é : “Raízes do Brasil” , ao lado da monumental : “História da Civilização  Brasileira “. “Raízes do Brasil” é um livro de 1936 , que apresenta uma interpretação original de “desmontagem”  da sociedade tradicional  brasileira e da emergência de novas estruturas políticas , criadas após a Revolução de 1930 . De certa forma, uma visão inovadora que introduziu conceitos de “patrimonialismo” e “burocracia” , explicando novos tempos .Descreveu o brasileiro como um “homem cordial “, atribuindo-lhe comportamentos ditados pelo coração e pelo sentimento. Em sua concepção  os brasileiros preferiam as relações pessoais  em lugar do cumprimento das leis objetivas e imparciais.   Percebeu que tudo fora herdado do nosso sistema colonial, porque diminuta era a organização social do país, do que resultava o recurso freqüente à violência  e ao domínio personalista, traços ainda identificáveis  na sociedade nacional.   Atribuía à escravidão  a desvalorização do trabalho e o favorecimento dos aventureiros, que aspiravam a “prosperidade sem custo”, traços observados até no cultivo da terra . Seu livro inovou no que se refere à busca da identidade nacional.
Como professor, Sérgio Buarque sempre teve postura acadêmica, diferenciando-se de Gilberto Freyre, um homem descomprometido em relação à formação da juventude.

*Consuelo Pondé é diretora-presidente do Instituto Geográfco e Histórico da Bahia e Professora Doutora da UFBA. Pertence à Academia de Letras da Bahia.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A Cidade Amada

 
A Cidade Amada
 
Debruço-me na ponte de teus anos,
Alegre  meu cantar de passarinho,
Descubro manhãs de céu azul,
Continentes luminosos de tesouro.

Há rações verdes nas esquinas,
Vermelhos estandartes nessas ruas,
Espocam bombas dos passeios,
Explodem papagaios nos quintais.

Minhas as mãos de cata-vento,
No peito os bichos meus irmãos,
Noites amenas vertem espaçonaves,
Margaridas, boninas, girassóis.

Quem me fez água de chuva
Branca correndo em amado chão,
Perfeito estilingue nas caçadas,
Bola de gude nos buracos ideais?

Passistas as tropas vêm chegando,
Festa suspensa em ruivo poeiral,
De cores carregam-me tão velozes,
Tremula minha cidade de metal.

São meus os frutos cheios de ouro:
Jaca, sapoti, cacau, manga, mamão,
Apinhada de esperança a geografia
Enche capanga de risos naturais.

Na paisagem viva vejo-te  amores,
Quermesse acariciando corações,
Primeira ternura de namorado,
Presépio coroando-me infante rei.

Dentro de mim aboios ressoam
E sustos movendo carrosséis,
Passam neste vale mágicas nuvens,
Cantigas de São João e de Natal.

Que me dizem ventos de agora?
Pedras, cortes, incompreensões,
Íngreme escarpa de ausências
Na pele resvalando o que faz mal.

Lombo levando este boi sábio,
Realejo tocando velha canção,
Cajado do tempo que não cansa,
Espanto no espetáculo o meu rio.
   
 
 
 
 


 
 
 
 

Catedral de São Sebastião

Catedral de São Sebastião
                
Subo os degraus e vejo
da  balaustrada formas
do silêncio suspensas
no espaço recriado
pela razão geometria
da tessitura humana.

Procuro esse milagre
da santa batina doada
sob o peso da abóbada.
Sinto a flor do coração,
outros a ela se juntam.
Dom Eduardo presteza,
Dom Eduardo amor,
Dom Eduardo oferenda.

Vejo assomar na avenida
a  enorme procissão
contrita sob cânticos.
Mãos mestiças em emoção,
este agasalho edificado
a São Sebastião flechado.
Ó comovente provação,
sinos anunciando a morte
sublimada na paixão.

Terço escorrendo no peito,
tríptico verso uni-verso,
alentado pão de todos,
oferta dessa praia bendita,
essencial como um todo
pela tábua das marés.
Estes ares em que eu medito,
roxos de penetrante compaixão
feita alma, força e vida.

Ao pé do outeiro ninho
de Deus que desceu do céu,
uma rosa é uma rosa
o que sustenta a base.

sábado, 3 de agosto de 2013

Cyro de Mattos comenta obra de Nadja Alves


"Vejo,  na tela pintada por Nadja Alves,  a vida com a graça, o dengue, o encanto da mulher baiana. Com flores, frutos, cores vivas, sinto o  estar-no-mundo faceiro dessa mulher,  que ali no quadro, como na vida real, seduz no primeiro encontro.

 Ingênua no melhor sentido, a artista mostra com suas figuras femininas que a vida acaricia quando retratada por um  talento raro,  que surge agora com delicadeza criativa nas artes plásticas da Região Cacaueira Baiana."

                                   Cyro de Mattos

 
  
 
 
 

 
 

Triptico Brasileño


quarta-feira, 31 de julho de 2013

O trovador Minelvino 
 ou do jeito que o povo gosta
           


Sertanejo autêntico, nascido no município de Mundo Novo, Bahia, o trovador Minelvino primeiro foi garimpeiro em Jacobina onde se criou. Depois passou a vendedor de coisas miúdas na feira de Jacobina: pente, espelho, escova, pasta dental, agulha, carretel de linha, sabonete, livrinho de cordel. Comprava os livrinhos de cordel a José Bernardo da Silva, João Martins de Ataíde e Rodolfo Coelho Cavalcante em Salvador ou mandava buscar pelo correio.
A primeira motivação que teve para contar uma estória com apelo popular veio da enchente de Miguel Calmon, lugar próximo a Jacobina. A enchente virou trem, alagou ruas, derrubou casa,  desabrigou gente e matou. Contaram-lhe sobre o estrago medonho que o rio fez,  ele então percebeu  que os acontecidos podiam ser contados como estória de  cordel. Compôs o livrinho e mandou para Rodolfo Cavalcante em Salvador, que fez algumas correções e imprimiu. Foi um sucesso. O primeiro folheto deu-lhe incentivo para continuar no ofício de trovador. Sem hesitar prosseguiu na jornada, deixando sua profissão de vendedor de coisas miúdas na feira.
Ele viveu mais de cinqüenta anos em Itabuna, cidade que conheceu no seu começo, os animais tropeçando na lama quando passavam  carregados de cacau ensacado. Tinha poucos bairros e  muitas ruas eram sem calçamento. No sul da Bahia foi se familiarizando com a arte de escrever estória em cordel. Ele mesmo imprimia as histórias que escrevia. De estória em estória,  contada pelo alto-falante na feira e na rua, foi vendendo os livrinhos.  E assim conseguiu criar os quatro filhos,  comprar uma casa modesta no bairro e os instrumentos necessários para tornar a estória que escrevia uma coisa do povo com um suporte material simples. Como contou em versos, ele mesmo escrevia a estória, fazia o clichê, a impressão e  ia vender o folheto,  cantando na praça pública, na rua e na feira para todo mundo ver. 
Atento aos acontecidos, façanhas e desastres, Minelvino tornou-se em pouco tempo poeta afinado com o verso popular,  do jeito que o povo gosta. Colocava na estória maravilhas do real, invenções do divino, notícias do amor e  dor, gente e bichos,  conselhos e saberes, tudo bem alinhavado na rima certa e espontânea. Utilizou em suas composições a sextilha, estrofe de seis versos  de sete sílabas. Como trovador sua arte de versejar  diferia do repentista, que faz o verso  cantado  no improviso, enquanto a dele manifesta-se na  composição popular da poesia escrita.
Escreveu mais de oitocentos folhetos de cordel. Sua arte rompeu as fronteiras regionais, passou a ser estudada em teses defendidas na universidade. Foi publicada em São Paulo pela Hedra, editora de circuito nacional, que em sua coleção Cordel, dirigida pelo professor Josep M. Luyten, Doutor em Comunicação pela USP, já divulgou   alguns dos mais relevantes e autênticos representantes da cultura brasileira, como Patativa do Assaré, Cuica de Santo Amaro, Rodolfo Coelho Cavalcante, Franklin Maxado, Manoel Caboclo, Oliveira de Panelas e outros. 
Tive um encontro com o poeta no local de sua casa onde estava montada  a  tipografia e a sua oficina de xilogravura. Disse-me que fazia a composição do livrinho com letras de chumbo compradas em São Paulo. Na composição ia colocando com paciência  letra a letra até fazer o nome. Aí fazia a chapinha e colocava na ruma. Depois na máquina para a impressão. Disse ainda que para o clichê da xilogravura na  capa fazia o desenho em umburaninha, madeira que é mole, dá polimento e não  pega bicho. Mostrou as ferramentas que utilizava no trabalho, faquinha, canivete, goiva, prego, furador, buril. Observou que a matriz da xilogravura geralmente servia  como ilustração para o tema da história.
Vi na parede da oficina vários diplomas e recortes de jornais emoldurados no quadro. Registravam o reconhecimento de sua fama e sua participação em eventos importantes nacionais, no setor da poesia popular e cantoria. Fotos com a sua passagem na romaria de Bom Jesus da Lapa. Tinha perdido a conta de quantos benditos havia escrito. Vendera dezenas nas romarias de Bom Jesus da Lapa, nos quais contava  com devoção e fé os milagres e estórias de santos.  Ficou por isso  conhecido como O Trovador Apóstolo.
A cidade entristeceu quando o trovador Minelvino faleceu com setenta e quatro anos de idade, vitimado por um infarto quando estava no hospital em busca de ser medicado e aliviar seu momento de dor. Um dos filhos contou que ligaram depressa o aparelho, colocaram a máscara no rosto para a nebulização. O coração, neste momento, foi atacado com um golpe forte. Fizeram massagem no peito, quiseram operá-lo. Já não agüentando mais o embalo da vida, o coração do poeta parou. 
Homem bom, querido pelo povo, de voz mansa. Todos os anos, o poeta  tinha seus benditos cantados pelos romeiros em louvor do Bom Jesus da Lapa. A televisão, a rádio e  o jornal deram  a notícia como cidade e região estavam abaladas com a sua morte. Os romeiros de Bom Jesus da Lapa sentiram  a perda de seu trovador apóstolo. Morreu sem fazer fortuna, como é costume acontecer com os legítimos poetas.
Até hoje a vida sabe que ficou mais pobre sem esse divino trovador.                

sábado, 27 de julho de 2013



                                    Nossa Saga



O termo saga significa narrativas históricas e lendárias, mescladas com fatos verídicos, imaginários e folclóricos, que contam  os feitos heróicos de um povo. Não tendo vindo da Finlândia e Escandinávia, nem sendo  falsa, inventada com a palavra alada na prosa poética de Guimarães Rosa,  a saga da civilização cacaueira na Bahia é muito  especial  e importante.  Forjada no espaço ocupado por uma geografia elementar, a saga do homem do cacau no Sul da Bahia foi implantada  com suor e sangue, cobiça e morte. No enfrentamento da natureza bárbara estabeleceu-se  um modo singular de vida ao longo dos anos.
O homem do cacau não mandou, ele mesmo foi com o facão na bainha, o machado na mão, o de-comer no embornal,  para recuar a selva hostil e impenetrável.  Derrubar, derrubar, derruba. Plantar  , plantar, plantar. Nas vestes simples carregou sombras e sortilégios, deu voo à razão, alimentou o coração com uma vontade de ferro para conquistar a terra, que lhe acenava e atraía com suas léguas cobertas pela mata virgem.
Mal surgia a manhã,  esse  homem levantava na solidão de seus confins,  de tal sorte era o destamanho da terra que um não sabia se o outro existia.  Conversava com os rios quando ia se banhar perto de clarear o dia. Contas, Pardo, Jequitinhonha, Almada, Salgado, Aliança, Cachoeira, os amigos que lá estavam com uma música líquida cheia de vozes cantantes para ressoar nos seus ouvidos. 
          Essa era a sua morada improvisada na infância da selva. O homem do cacau esteve no baile da caipora, levou mel, fumo de corda, cachaça, farinha, pólvora. Encontrou no mato escuro a prata derramada pela  madrinha lua. Escutou acauã nas manhãs e tardes   prenunciando chuva ou estiagem.  Dormiu com o boitatá no galho da jaqueira. Sonhou que era macaco, chupando amêndoas doces que valiam muito dinheiro. Os caroços chupados eram jogados com os dentes na terra virgem.  As sementes brotavam e viravam, daí a três, quatro, cinco anos,  roças cheias das  árvores dos frutos que tinham a cor de ouro quando amadureciam.
         A força, a alma e a vida do cacau  ergueram vilarejos e cidades, enquanto o relógio do sol resvalava-se nos cacaueiros entre o brotar dos verdes e a queda dos maduros. O  rigor do tempo que comandava os passos do homem,  de sol a sol, tinha  as estações temperadas com a chuva, que tocava piano quando caía grossa nas folhas secas cobrindo o chão da mata.
       O homem do cacau adubou a terra com a carne dos dedos, molhou-a com o suor do rosto, teve o primeiro jardim no cacaueiro florido. Sorriu com a bela surpresa que um dia fez seus olhos ter  um brilho vivo,  o rosto com tanto riso que ele não se agüentou em pé, de tanto que ficou contente.  Criou uma folhinha tão dele  para marcar os dias nos talhos  da jaqueira. Comeu jaca no café com rapadura, assou e mastigou bicho do ar e do chão, na  noite escura foi iluminado a candeeiro. Guardou debaixo da cama de vara a criação do terreiro,
       Esse homem dormiu ouvindo a orquestra fantasmal dos sapos que coaxavam lá fora no brejo. Soube do rastejo da noite escura, o  bote da tocaia nas serras e baixadas. O estampido na curva da estrada, os cacaueiros  inventando ciladas na trama da ambição  desmedida. Matou, morreu, sujou-se de sangue. Renasceu como um mato qualquer. Nas carnes profundas da terra com avidez instalou seu reino. Teve nessa hora tensa, entre o épico e o dramático, a barba por fazer, o visgo nas mãos, o cipó nos pés, as unhas de gavião crescidas, a pele grossa como casca de madeira velha.
       Ébrio de frescor silvestre, de repente se viu nas cidades que  criou com umas mãos  rudes e persistentes,   amamentando-se  com o tempo desalmado de todos os dias.  Esperou,  esquecido, a vida inteira. Colheu a vida inteira. Quebrou, transportou a vida inteira. Pisoteou a vida inteira, respirou todo o ar do deserto. Na trama dos acontecimentos, cuja música era tocada  pela orquestra do destino, viu seu  território pulsar e crescer, superar  a marca de cem municípios, movimentar-se  na energia de   uma população com  mais de um milhão de habitantes. Os ventos trouxeram   a benesse das safras, o mel para alguns, o fel para muitos.  Custa a acreditar que, depois do auge das ricas plantações do cacau no passado,  viva hoje em clima de melancolia, sem entender a razão de estar sitiado de ocasos. Se a  terra  tremia antes com o nome daquele  que era um dono abastado de  roça de cacau,  hoje somente ele e  a tristeza,  nada mais. 
         Esse homem  que veio de longe, muito longe, cheio de sonhos, para conquistar a terra e ficar rico da noite para o dia,  com orgulho dizia ao chegar ao Sul da Bahia :
                     - Cheguei para ser um próspero dono de roça de cacau.
                     E, tendo a certeza da guerra vencida,  finalizava sem hesitar:
                    - Deixei mãe quando menino. 

terça-feira, 23 de julho de 2013

Salamanca Promove Encontro
de Poetas Iberoamericanos
      

      O XVI Encontro de Poetas da América Hispânica irá prestar homenagem a Fray Luis de León e  será realizado no  Teatro Liceu de Salamanca, Espanha, nos días 2 e 3 de outubro. O Encontro receberá cerca de cinquenta poetas de treze países iberoamericanos e, entre eles, o baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos, que lerá poemas de sua obra e lançará a antología poética “Onde Estou e Sou” no Centro de Estudos Brasileiros, da Universidade de Salamanca.
        A antologia “Onde Estou e Sou” é uma publicação bilíngue da Editora Ler, de Brasília, com   prefacio e tradução do poeta peruano-espanhol  Alfredo Pérez Alencart. Além do lançamento do livro,  haverá também  uma exposição de diversos livros de  Cyro de Mattos no Centro de Estudos Brasileiros, durante o Encontro. .  
         “O Encontro, de Poetas Iberoamericanos é promovido pela Fundação Cultural de Salamanca. “Já se tornou em referencial da literatura da América Hispânica, assim como um espaço obrigatório para convivência e intercambio entre os amantes da boa poesía”, declarou Alfredo Pérez Alencart, o coordenador  do evento. Na sua décima sexta edição será aberto com a conferência de Luis N. Rivera, renomado teólogo de Porto Rico, e contará com uma convidada especial, a japonesa Satoko Tamura, tradutora de Pablo Neruda, Gabriela  Mistral, Cesar Vallejo e Garcia Márquez.
           Entre os poetas iberoamericanos que, como convidados,  participarão do XVI Encontro e integrarão a antología dedicada a Fray  Luís León estão Elvira Ardalani (México), Eduardo Curbielo (Uruguai), Jorge Cadavid, Juan Felipe Robledo e Catalina González Restrepo (Colombia), Maria do Sameiro Barroso, Antonio Salvado e Albano Martins (Portugal), Gary Daher (Bolívia), Julia Erazo (Equador), Cyro de Mattos, Rizolete Fernandes, Álvaro Alves de Faria e Paulo de Tarso Correia de Melo (Brasil), Humberto Avilés (Nicaragua), Nestor Ulloa (Honduras), Hector Ñaupari (Peru), Enrique Viloria e José Tomás Angola (Venezuela) e  Juan Cameron (Chile). A delegação espanhola será integrada por  Antonio Colinas, Víctor Manuel Márquez Pailos, Daniel Zazo, Carlos Aganzo, Jesus Hilario Tundidor, Rafael Soler, Jesus Fonseca, José María Muñoz Quirós, Araceli Sagüillo, Jesús Losada, José Antonio Valle, L. Samprón e José Pulido.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Academia de Letras da Bahia discute a cultura no século XXI
Seminários com grandes nomes de nossa cultura nas letras e nas artes

No próximo dia 25 de julho, quinta-feira, às 17h, a Academia de Letras da Bahia dá início a uma série de mesas-redondas e conferências intituladas “Seminários Arte e Pensamento – Transformações da Cultura no Século XXI”, com escritores, artistas e pensadores da cultura em língua portuguesa. Com periodicidade mensal, o evento traz reflexões sobre literatura, artes e as transformações da cultura. Na mesa-redonda de abertura, os debatedores serão a escritora, professora da Universidade Federal da Bahia e membro da ALB Cleise Mendes, o artista plástico Vauluizo Bezerra e o filósofo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Guilherme Castelo Branco. A mediação será da professora do Instituto de Letras da UFBA e membro da ALB Evelina Hoisel. O tema para discussão será “O Corpo e suas Cartografias”.
Sob a coordenação dos acadêmicos Luís Antonio Cajazeira Ramos e Paulo Costa Lima, os seminários serão realizados no auditório da ALB, na Avenida Joana Angélica, 198, no bairro de Nazaré, em Salvador, com entrada franca. O programa faz parte das atividades do Ponto de Cultura da ALB, com o apoio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia e do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. O IRDEB transmitirá ao vivo os encontros (www.irdeb.ba.gov.br) e a TVE fará a gravação.
Sendo cada encontro sempre numa quinta-feira, está programada para 22 de agosto a conferência “A Paz Perpétua em Antonio Vieira: Perspectiva e Atualidade", a ser ministrada pelo filósofo e professor da Universidade de Lisboa Pedro Calafate, com mediação do escritor e presidente da ALB Aramis Ribeiro Costa. Em 26 de setembro, haverá a mesa-redonda "A Poética da Cidade", com o poeta e ex-diretor do INEPAC/RJ Alexei Bueno, o cineasta e diretor-geral do IRDEB Pola Ribeiro e o arquiteto, urbanista e membro da ALB Paulo Ormindo de Azevedo, mediados pelo poeta, letrista e membro da ALB José Carlos Capinan. Em 24 de outubro, será a conferência "Cidadania, Pertencimento e Liberdade", a ser proferida pelo poeta, jurista e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto, com mediação do memorialista, ex-governador da Bahia e membro da ALB Roberto Santos.
Novos seminários darão sequência ao projeto, com vistas a promover a discussão de temas atuais, suscitar o debate do meio acadêmico com a sociedade e fomentar o interesse por diversas manifestações de cultura em língua portuguesa.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Ecos do Campo da Desportiva
                    
                                         
                                            

Recebi e-mail de Florisvaldo Mattos, grapiúna de Uruçuca, antiga Água Preta, jornalista e consagrado  poeta baiano. Leia o que ele mandou dizer:

“Vivamente interessado, até curioso e encantado, logo que recebi hoje, bailei (como dizem os argentinos) por toda a extensão de seu O Velho Campo da Desportiva, lembrando de coisas a que assisti, acompanhei, e pessoas, então jovens, com as quais convivi, e até com elas joguei em peladas vespertinas naquele templo de emoções juvenis, em companhia de Vitório e seu irmão, o vitorioso e consagrado no futebol amador, Zequinha Carmo, ambos meus colegas no Ginásio da Divina Providência. Joguei também peladas com mais dois ali, embora não lhes tenha acompanhado as carreiras vitoriosas, desde que, quando brilharam  na seleção de Itabuna e em clubes, eu já não andava por Itabuna, formado em Direito e fazendo jornalismo em Salvador. Joguei  também na Desportiva com Santinho e Tombinha.  No entanto, presenciei pelo menos dois eventos daquela saga aqui na capital: quando da conquista do torneio intermunicipal na Fonte Nova, em 1957 (tinha que estar lá por questão de honra e fidelidade a origens adolescentes), e, em 1961, quando a seleção jogava uma partida, no Campo da Graça, então destinado a jogos da divisão de amadores, contra seleção municipal cujo nome não guardo, mas lembro que a vitória pertenceu a Itabuna, com Zequinha Carmo goleador.
“Suas narrativas me trouxeram novidades interessantes, mas as maiores foram  referentes ao jogador Nandinho (Epaminondas da Silva Moura), que jogou no Flamengo, com muita classe e fama nos anos de 1941, 42 e 43, sendo duas vezes campeão, na avalanche para o tricampeonato de 1944. Primeiro, não sabia que ele era itabunense; nem que era tio do saudoso Santinho. Sabia que jogara no Bahia. Tanta fama conquistou este craque, malabarista da bola e goleador, que talvez seja o único futebolista baiano a figurar em letra de samba, como neste que foi sucesso na época (1941) na voz do grande Moreira da Silva - "Doutor em futebol", samba de Waldemar Pujol e Moacyr Bernardino -, em cuja letra protagonizam dois versos, acentuando a ginga da interpretação, pois, numa tirada de humor malandro, o personagem promete ser "um craque verdadeiro, um perigoso artilheiro, e ser sucessor de Pirilo" (grande goleador daquele Flamengo), para então adiante avisar: "suplantando o sêo Nandinho", no drible de corpo. Fui ver no Google, Nandinho nasceu em 8 de novembro de 1922, não em 1921, mas não encontrei data de falecimento dele. Estará vivo ainda? Como resgate de uma saga esportiva, seu livro é um primor de memória cultural e sentimental. Em tempo: também tive dúvidas quanto ao time em que jogava o craque mineiro Barbatana, um primor de centromédio, hoje meia de ligação, eu vi jogar. Suponho que se chamava Metalusina. Parabéns, grande, e um abraço. Florisvaldo”.
Já em outro e-mail opina o poeta e jornalista Florisvaldo Mattos sobre a essência sensitiva do meu  livro O Velho Campo da Desportiva:É um livro precioso, para espíritos que se associam a essa lembrança  do passado itabunense recente, ditado pelas vozes do coração e do amor à terra e sua  gente”.
Adianto ao leitor que O Velho Campo da Desportiva não é um livro de história, que precisa relacionar os fatos com neutralidade, objetividade, seqüenciando-os com precisão as datas e situações elencadas. Trata-se de livro de memórias, que relata e, ao mesmo tempo,  recria o que o autor viveu com a alma sensível de quem participou, viu e  ouviu sobre a vida em determinado lugar. Não é um livro que arrolou  pessoas e fatos para servir de documento para quem queira abordar o assunto sob bases históricas. É formado de gente e suas emoções,   que ficaram latejando na alma do autor e que emergem no livro, hoje, através dos sinais  visíveis da escrita  para tocar o coração do leitor.  Busca recuperar um tempo perdido, sem querer agradar o ego de algumas pessoas, sobreviventes daquela saga.   
Quanto ao amigo Florisvaldo Mattos, grapiúna de Uruçuca, antiga Água Preta, homem generoso, desprovido da inveja e intriga, jornalista  lúcido, que sabe com equilíbrio  analisar e aproximar dos fatos as pessoas,  poeta humaníssimo, de linguagem cativante, rara inspiração, reconhecido nacionalmente,  só me resta agradecer comovido suas impressões lúcidas,  favoráveis ao  meu livro O Velho Campo da Desportiva. As memórias relatadas e as literárias,  reunidas  no livro, com feição de crônica, são dedicadas aos que fizeram daquele campo de futebol amador  um lugar de encanto, lazer e emoções.