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segunda-feira, 20 de julho de 2015



NOVO LIVRO DE CLEBERTON SANTOS
Lançamento previsto para Setembro 2015!
 
Livro: “Travessia de abismos” (poemas)
Autor: Cleberton Santos
Editora: Via Litterarum (Itabuna)
Ilustração da capa: Nanja Brasileiro (Feira de Santana)
Fotografia: Emanuel Fonseca (Bahia)
Orelha: José Geraldo Neres (São Paulo)
Prefácio: María Pugliese (Argentina)
Editora: Via Litterarum (Itabuna)
 
O novo livro do poeta Cleberton Santos apresenta 60 poemas de tonalidade filosófica que refletem sobre a travessia da existência humana e sua profunda relação com a criação literária. O poder da linguagem humana em sua fonte mais profunda: o mistério da palavra poética. Com o projeto editorial da Editora Via Litterarum, o livro tem uma belíssima capa ilustrada pela artista plástica feirense Nanja Brasileiro, uma orelha em prosa poética do escritor paulista José Geraldo Neres e um prefácio da professora e escritora argentina María Pugliese.
 
 
Cleberton Santos é poeta, crítico literário e professor do IFBA. Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. Autor dos livros “Ópera urbana” (poesia, 2000), “Lucidez silenciosa” (poesia, 2005) “Cantares de roda” (poesia, 2011), “Aromas de Fêmea” (poesia, 2013), "Estante Viva” (crítica literária, 2013 ) e "Travessia de abismos" (poesia, 2015). Tem artigos e poemas publicados em várias antologias e jornais do Brasil e do exterior. Edita o blog http://clebertonsantos.blogspot.com.br

terça-feira, 14 de julho de 2015



Poemas da Cidade Antiga

Por Cyro de Mattos

Soneto da Infância Perdida
I
Céus conquistavam minhas mãos afoitas,
Pegavam no barranco borboletas,
Pés andavam nos ventos das disputas
Esparramados nas manhãs perfeitas.

A vida: esse afã  da  bola traquina,
Giramundo de gestos aguerridos,
Ventos assinalavam na retina
O que é próprio  de versos coloridos.

O tempo rindo... Ventos, outros ventos.
Afastaram-me assim daquele intenso
Pelejar sobre verdes sentimentos,

Que  de repente, nesse tom inverso,
Trouxeram um ritmo, sempre adiante,
Transformado  na voz de um homem triste.



II

De amadas borboletas na retina,
Virginal caminho de margaridas,
Velhas vozes vêm de longe, em surdina,
Avivando  manhãs adormecidas.

Minha cidade nas cenas ladinas
O mundo tece de sonhos, minas.
Janeiros urdem aventuras, dadas
De graça nas conquistas preferidas.

O tempo passa. Ventos, outros ventos.
No lugar que festejavam momentos
Lindos puseram tristes sentimentos.

Nessa gaita sem o pelejar tenso,
Nessa gaita sem verdes pensamentos,
Apenas cantos no sepulcro imenso.





                                 Soneto da Rua do Quartel Velho

                                 O tempo acostumado com as paixões
                                 Nunca pôde evitar as discussões
                                 Um só dia, nem desviar a bola
                                 Que estilhaçava o vidro da janela.

                                 O coração rodava no pião,
                                 Despontava no estilingue, o verão
                                 Era gasto na ruma que rendia
                                 Horas melhores. Naturalmente via

                                 Como o vento empurrava-me lá,  doido,
                                 Mas sem quaisquer desenganos, tornando
                                 A vida curtição pura, gravando

                                 No dorso da manhã  meu nome certo.
                                 Razões de sobra pulsavam o jeito
                                 Insaciável de meu tempo solto.


terça-feira, 7 de julho de 2015



REINO DE PALAVRAS

Por Florisvaldo Mattos

Sem ser imodesto, celebro no dia de hoje uma data para mim especial.Completam-se, neste 7 de julho, justamente 50 anos (uma vida!) do lançamento de meu primeiro livro, REVERDOR (Edições Macunaíma, formatação gráfica e ilustrações de Calasans Neto). Lembro da tarde noite, na hoje extinta Livraria Civilização Brasileira da Rua Chile, com a presença de uma qualificada plateia, pois lá estava a gente alistada nas hostes das letras e artes modernas, ainda, por incrível que pareça, enfrentando resistências nas fortalezas conservadoras. Lembro também que o "fato" mereceu chamada de primeira página, com foto, do hoje também extinto "Jornal da Bahia" e que mereceu destaque de Jorge Amado, em sessão da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Mais lembranças: por causa desse livro, cujos poemas compunham um painel de experiências rurais, ganhei na época o apelido de "´poeta agrário"; ia publicar o livro com o título de "Reverdor - A sombra do reino", quando Glauber Rocha me aconselhou a só manter a primeira palavra, por sua carga metafórica e por ser inventiva, pois não existia no dicionário. Então, obedeci ao sempre considerado líder da chamada "Geração Macunaíma". Ufa!
Abaixo, transcrevo o poema de abertura do livro, que funciona como introdução aos "Cinco Monólogos de Garcia D´Ávila" (aquele do Castelo da Torre...) e a ilustração que mereceu do gravador Calasans Neto.
Em tempo: o livro se inclui no conjunto de "Poesia Reunida e Inéditos" (São Paulo: Escrituras Editora, 2011).
A DOMAÇÃO DAS PEDRAS
(Onde se alude a varões portugueses que aqui vieram ter poderes e honrarias, – entre eles Garcia D´Ávila, conquistador primeiro, suas lutas pela dominação da terra, feudo tropical onde reinou e reina).

I
Os homens de Reverdor
os cavaleiros verdes
por aqui passaram ágeis.
Negros cavalos
moviam cúpulas ágeis.
Céu de esporas cintila. Chão
rápido/coturno/elmo suspenso.
Pulverizam aldeias e costumes
metais furiosos.
Verdes passaram armaduras roídas
(cavaleiros seguiam com olhos roídos)
sobre terra/sobre águas instantâneas/
súbito ecoaram buzinas de espuma.
O sangue soava/ as pedras soavam/
um anjo inclinou-se rodeado de lâminas.
Entre colunas de primitivo sono
Garcia D´Ávila alongou garras lunares:
lavrava um território de salmoura
onde corriam escamosos ginetes
dentadura feudal sofregamente
tritura caracóis aurinevados.
De gelo sob céu fixo vaso que veste
arquitetura cega das semanas
os dias passam roendo cavaleiros.
Rútilo (consumido em chamas e distância)
rei olha de cima campo/mar/espelho
onde gado mugeme inexistente.
II
Há poentes: aves renascentes
armaduras cintilam aço e escamas.
Outono muge de elmos reluzente.
Abril (diurno algoz) que somos nós?
Sob desfraldados relhos dorsos tesos.
Metais fuzilam. Descem das narinas
herança e gelo de armas latifúndio;
raízes da memória, rastros velhos,
presença de chão rútilo/meus sóis
ultramarinos. Aéreos potros puxam
meus avós: galope surdo anterior.
REINO
III
Cavaleiros de retorno sofrem
súbita lança dos meses contra
limo das equipagens. São
cavaleiros em fogo rodeados
de fúria, ancoram sombra e cúpulas. Não
dormem, nem olho nem aparições.
Nem elmos cruzados. Ó nuvem
de remota poeira, já meus deuses
singram de rio leito calcário.
IV
Há ferrugem. Goteja dos escudos
hora incêndio das três. Garcia D´Ávila
madruga em caracóis, amadurece
BOÍNVIO transmudado agricultor
refúgio de evidências perseguidas.
Um pouco vem do mal. Do outro lado
perde-se acontecido sem mudanças,
gira escasso pensar embrutecido:
“Tantas pedras arrasto, tanto sono”.
Feudo, casa plural do Ávila.
FEUDO.

terça-feira, 30 de junho de 2015



FALTA DE POESIA E OUTRAS FALTAS
                                  RUY ESPINHEIRA FILHO
         De vez em quando o Brasil se toma especialmente de amores pela falta de qualidade, e 2014 foi um dos anos que mais se destacaram neste aspecto. No caso da poesia, por exemplo, foi fenomenal. Entenda-se: no caso da falsa poesia – e até, com brilhantismo, da não-poesia. Não vou citar nomes, não é necessário, quem acompanha o movimento editorial sabe do que estou falando. Sim, porque todas as livrarias do país receberam e expuseram em destaque essa infame mercadoria.
            Belos e vastos volumes, precedidos de muita propagada e aparato “crítico”. Ponho esta palavra entre aspas porque é o que ela, no caso, merece. Aliás, o que há no país é ruindade crítica, tanto na mídia quanto nas produções universitárias. Quando não é ruindade por falta de talento, é ruindade por falta de caráter – que forma igrejinhas, máfias e similares, nas quais vigora o elogio recíproco de seus componentes.
            A crítica, na verdade, mesmo a melhor, sempre deixa algo a desejar. Certa vez escreveu Jorge Luís Borges: “Sempre que folheava livros de estética, tinha a desconfortável sensação de estar lendo as obras de astrônomos que nunca contemplavam as estrelas. Quero dizer, eles escreviam sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa, e não o que é em realidade: uma paixão e um prazer.” Lendo isto, percebi,  aliviado, que havia lido bem minhas estéticas – sempre achando que ficavam distante da arte. Aliás, lembro-me agora de que Rilke dizia que nada está mais distante da poesia do que a crítica.
            E, no caso das tais publicações de 2014, essas “tarefas” foram particularmente infelizes. Os que não percebem que a poesia é uma paixão e um prazer aproveitaram-se para babar suas tolices recheadas de citações falsamente eruditas (porque, como não chegavam à poesia, igualmente não chegavam ao verdadeiro sentido daquilo que tanto citavam). E aqueles falsos poetas – e até não-poetas – foram atirados aos berros aos mais influenciáveis, que os compraram aos milhares. E, claro, se tornaram leitores ainda piores.
            Crítica boa existe, mas não tem espaço. Se a jogada é vender subliteratura, para que estragar o negócio expondo-o à boa crítica? Citei Borges, vejamos Paul Valéry: “Entre esses homens sem grande apetite de poesia, que não sentem necessidade dela e que não a teriam inventado, quer a má sorte que se inclua um grande número daqueles cujo fardo ou destino é julgá-la, discorrer sobre ela, estimular e cultivar o gosto por ela; e, em suma, conceder o que não têm. Frequentemente, eles dedicam a isso toda sua inteligência e todo seu zelo: o que nos faz temer pelas consequências.”
            Não há como não lembrar Borges e Valéry ao ler certas coisas que vemos na imprensa, assim como certos estudos universitários. Porque o que se dá de equívoco, de incompatibilidade com a poesia, não é brincadeira. E, assim, a poesia digna deste nome, produzida por poetas verdadeiros, é marginalizada, esquecida. E surgem nomes badaladíssimos que na verdade são, em termos de poesia, autêntica escória. Resta-nos esperar que o presente ano não nos traga tal tsunami de “poesia” e péssima e abominável “crítica”. Porque já nos basta todo o resto que é tão desonesto, ai de nós!...
           

·        Ruy Espinheira é um poeta dono de um lirismo que encanta e dá prazer em ser lido.  Doutor em Letras, cronista, ensaísta, contista, romancista, membro  da Academia de Letras da Bahia.  Premiado em concursos de expressão nacional. Com As sombras luminosas venceu o Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa, da Fundação Catarinense de Cultura. E com Memória da chuva conquistou o Prêmio Nacional de Poesia Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores (Rio).  

quarta-feira, 17 de junho de 2015



Meu São João

     Cyro de Mattos


Não queria ficar olhando os outros meninos soltando fogos no São João, lá em nossa rua ou em qualquer canto da cidade. Teria que arranjar uma maneira de ganhar algum dinheiro para comprar os fogos. Pensei em vender revistas e jornais velhos aos donos de armazém na Rua da Lama. Sabia que jornal velho servia para enrolar certas coisas que os donos de armazém vendiam. Tinha observado um dia seu Júlio Sergipano enrolando sabão no balcão do armazém com uma folha de jornal velho. Pensei também em vender garrafas ao dono de uma pequena fábrica de vinagre perto da nossa casa.
Ia de casa em casa, procurando por jornais e revistas velhos, garrafas grandes e pequenas. Com o dinheiro que ganhava, vendendo garrafa, revistas e jornais velhos, ia comprando os fogos para soltar no São João. Guardava-os numa caixa de sapato, que escondia debaixo da cama para que meu pai não os descobrisse.  Se ele descobrisse que eu estava comprando fogos para soltar no São João, certamente ia argumentar zangado:
- Do menino se faz o homem, tenha juízo. Guarde seu dinheiro para usar com as coisas sérias e não para queimá-lo com fogos no São João. É uma grande besteira o que você quer fazer, muitas vezes já lhe disse isso. Finalizava: - Soltar fogos é queimar dinheiro.
Esperava meu pai dormir no quarto ao lado e, quando percebia que ele estava ferrado no sono, apanhava debaixo da cama a caixa de sapato com os fogos que vinha juntando para soltar no São João. Ficava examinando pacientemente os fogos que tinha comprado com dificuldade. Passava e repassava-os diante de meus olhos encantados, mesmo sabendo que ainda eram poucos: chuva de prata, chuva de ouro, cobrinha, estrelinha, fósforo de cor, traques e vulcão.
Os dias demoravam de passar até chegar o mês de São João, embora desejasse que voassem o mais rápido possível. De vez em quando ia olhar na folhinha quantos dias faltavam para chegar o dia tão esperado.  Fazia as contas e via que faltavam quase três meses para a chegada da festa do santo que tinha um carneirinho, como uma vez tinha visto a imagem no quadro emoldurado da Vidraçaria Santo Antonio, pendurado na parede.
Quando percebi no mês de maio que não estava mais conseguindo garrafas para vender, nem revistas e jornais velhos, chegou-me aquela ideia de vender minhas revistas em quadrinhos, além dos dois álbuns de figurinhas, um com os jogadores de futebol dos times do Rio e o outro com os artistas do cinema americano.
Não seria difícil vender meus álbuns de figurinhas entre os meninos lá da rua. Tanto o álbum de jogadores de futebol como o de artistas de cinema eram cobiçados por muitos meninos da cidade. Ambos estavam completos,  tinha conseguido preenchê-los com as figurinhas mais difíceis, que ainda faltavam. E as revistas em quadrinhos? Tinha  minhas dúvidas se ia conseguir vender algumas delas, qualquer menino lá da rua já havia lido todas elas.
Depois de resistir uns dias, vendi os dois álbuns de figurinhas ao filho do juiz por um bom preço. E, sem esperança, fui vender depois minhas revistas em quadrinhos no passeio do Cine Itabuna. Para a minha satisfação, vendi todas elas nos quatro domingos do mês de maio. Espalhados no passeio do cinema,  sempre vendia meus gibis e guris velhos aos outros meninos antes de começar a primeira sessão da matinê.
Tive então um susto esplêndido quando chegou o mês de junho e percebi que possuía agora seis caixas de sapato cheias de fogos, podendo naquele ano de inverno frio soltá-los  nos dias de São João e em São Pedro.
Enquanto fui menino nunca deixei de soltar fogos no São João e São Pedro. Sempre dava um jeito para arranjar o dinheiro e  comprar os fogos. Soltava-os e queria soltar mais. Nunca estava satisfeito. Lá pras nove horas da noite  lembrava de ir com a turma de amigos soltar balõezinhos na beira do rio. Era uma sensação de vitória quando acendíamos  o balão e víamos o vento levá-lo vagaroso acima do rio. Tínhamos certeza que os balõezinhos que subiam, às vezes oscilando, conquistavam as estrelas e a lua, lá no alto do céu.
Ah, aquelas noites de junho, o coração tanto queria. Crepitavam dentro de mim antes que chegassem com as fogueiras acesas nas ruas. Pipocavam com bombas e foguetes. Esbanjavam com licor e canjica.