Páginas

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016



Emoções do Trem

          Cyro de Mattos




O trem fagulhava, atritava, resfolegava. Soltava fumaça que o vento levava e se perdia  no verde da  várzea. O trem alegrava a moça que ficava na janela, recebia adeuses das pessoas que estavam no terreiro quando passava apitando. Dentro do trem havia coisas que cheiravam a mato. Havia também choro de criança e aquela conversa tola, falando das coisas corriqueiras da vida, entre alguns passageiros que calçavam alpercata para aliviarem os calos dos pés que andavam bastante em grandes distâncias. Eram pessoas que fumavam seu cigarrinho de palha na tarde de verão enquanto o trem resfolegava quando contornava a serra.                       
Desde aquele dia em que o amigo Babinha perdeu a perna quando foi saltar do trem em movimento, decidi esquecer para sempre aquela máquina terrível com sua voz barulhenta,  que infundia agora medo quando chegava à cidade. Tornou-se uma coisa pavorosa com suas rodas de ferro, atritando nos trilhos, triturando nos ferros. Era um bicho estúpido quando partia, apitando e soltando fumaça.
             Quando o trem apitava, lembrava-me do amigo Babinha, o goleador do time de futebol da Rua do Quartel Velho onde eu morava.  Babinha  era um pretinho esperto, ligeiro com a bola nos pés, não havia quem o marcasse. Tinha dribles inacreditáveis, deixavam sempre o marcador batido no chão. Os jogadores de defesa do outro time tremiam quando viam que ele ia jogar. Quantas vezes ele impedira a derrota do time da Rua do Quartel Velho quando parecia impossível de ser evitada, já tinha perdido a conta. Com ele, um goleador incrível, a vitória era certa quando o time da Rua do Quartel Velho jogava contra o time da Rua de Cima.
            As partidas de futebol  com o time da Rua de Cima eram realizadas no campinho improvisado  de um terreno baldio, na  Rua da Linha, que era assim chamada porque por ali passava o trem quando vinha da cidade vizinha. No litoral.  Babinha  comprava cordas de caranguejo, caju e coco da praia na cidade vizinha. Trazia a mercadoria no trem para vender em Itabuna. Dessa maneira ajudava aos pais na luta pela sobrevivência. A mãe era lavadeira, o pai fazia carvão, que vendia num cômodo da pequena casa, situada na única avenida que existia naquele quarteirão da Rua do Quartel Velho.
            Daquela vez em que o trem vinha cheio de gente, Babinha  também estava entre os passageiros. Tinha ido à cidade vizinha comprar cordas de caju para vender na feira. Avistou pela janela do primeiro vagão o time da Rua do Quartel Velho jogando uma partida contra o time da Rua de Cima, no campinho da Rua da Linha, perto de um brejo. Não pode controlar a vontade, logo quis participar também do jogo, entre os dois times de meninos com mais rivalidade na cidade. Disputavam outra  vez uma partida acirrada. Babinha tentou saltar do trem  em movimento, mas escorregou e por sorte não ficou debaixo das rodas. Os meninos saíram correndo quando ouviram aqueles gritos do amigo, assim que o trem havia acabado de passar  por cima de uma das pernas dele..
            Parecia um saci agora, só com uma  perna participava das peladas no campinho da Rua da Linha. Dava pena vê-lo correr apoiado na muleta e não conseguir alcançar a bola uma só vez.
           Tentando aliviar minha tristeza, a mãe disse-me que o tempo se encarregava de fechar as feridas, sepultando as coisas amargas  na medida em que os dias vão passando. O tempo era o melhor remédio para curar as dores, explicara a mãe com a sua voz mansa. Transcorridos dois anos do acidente com Babinha, resolvi ir comprar guloseimas na estação do trem: amendoim torrado, bolinho de arroz doce, sonho, cocada, quebra-queixo, roletes de cana, sem esquecer o mingau de tapioca, que Vovó Maria Conga, uma preta vestida de baiana, vendia na plataforma.
            Foi quando de repente escutei vozes e ruídos que se propagavam pela plataforma. Era sábado. O  trem havia acabado de chegar de uma das cidades vizinhas. Os passageiros faziam algazarra no desembarque como acontecia sempre. No meu peito, a tarde brilhava as cores do verão. Numa sensação difícil de explicar, pulsaram dentro de mim naquele instante  sentimentos de uma paisagem que me  era íntima. Dava-me um prazer na boca como uma coisa que tem um sabor especial, que eu  pensava ter esquecido.
            Era aquela mesma paisagem que o trem costumava mostrar-me  durante as viagens, ou através daquelas cenas que os passageiros faziam quando partiam ou chegavam. Cenas formadas com adeuses, abraços e beijos. Naquele dia, o trem voltou a aparecer em meu sonho com seus  ventos generosos. Mostrou-me  pela janela uma paisagem quente e pura enquanto subia e descia pelos campos verdes do meu pequeno coração.          


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016



                                   Carnaval e Literatura Infantil

                                                                    Elias José

           
            Não sei se os leitores já repararam, mas o Carnaval nunca foi tema explorado em literatura para crianças. O futebol aparece, mais raramente do que deveria, mas aparece. Agora me surpreendo com um livro novo do baiano de Itabuna, Cyro de Mattos, que sempre nos surpreende com novidades literárias, feitas com paixão, competência e talento. O menino e o trio elétrico é a história de Chapinha,  que vendia amendoim e adorava carnaval. Ele morria de vontade de ir atrás do trio elétrico, com abadá, quase impossível de ser adquirido pelo pobre,  a animação e alegria que não perguntam por classe social. Sonha sair dançando e cantando com os seus artistas preferidos, divertindo-se com o seu povo. Curiosamente, Chapinha vendia amendoim, e isto é outra surpresa. Na nossa imaculada literatura para crianças é quase proibido, é politicamente incorreto falar do trabalho de crianças, como se isto não fosse problema brasileiro, de norte a sul. Um tema que merece inclusive melhor discussão por parte de nossa sociedade e pede a criação de muitas escolas profissionais. Mas isto é assunto para outro dia. Agora, eu quero é acompanhar Chapinha, menino negro e esperto, em sua luta pela sobrevivência diária e pelo seu sonho de carnavalesco.
            Para dar mais realismo e, ao mesmo tempo, mais fantasia à história de seu herói, Cyro de Mattos levanta o roteiro carnavalesco  dando nomes de ruas  e trios que por elas passam. Coloca na rua, isto é, no seu livro, os mais famosos trios elétricos de Salvador, com os seus ídolos cantores puxando o ritmo, acompanhados pelos muitos músicos competentes e pelo maior coro da terra. O coro dos foliões de todo o país e até do exterior. Se o ritmo contagiante e a alegria chegam até o leitor, acompanhados das cores alegres da festa mais popular da Bahia, imaginem como acontece no imaginário e nos sonhos daquele menino louco por carnaval. Daquele menino dono de todas aquelas ruas. Como um menino pode ficar indiferente diante de uma festa popular e tão nossa, que está dentro de nós através de tantas heranças culturais? Como não torcermos para que esse menino Chapinha consiga realizar os seus sonhos, tornando-se mais um no bloco, ou melhor, no trio elétrico? Se ele conseguirá ou não, o autor em depoimento  não quis revelar na última capa do livro. E não serei eu que vou quebrar o prazer da descoberta pelo leitor, seja ela alegre ou triste. Se o final for triste, deveremos perdoar o autor, pois nem tudo tem  que dar certo, assim a vida nos ensina no dia-a-dia. Se o final for um carnaval daqueles de não se esquecer nunca, a melhor saída do leitor é fechar o livro após o final e, imaginariamente, entrar também num trio elétrico, com toda euforia, energia  e alegria exigidas.
            Para concluir, devo dizer que o tema carnaval, em literatura infantil, pode e deve dar samba. Todo mundo sabe que o samba da Bahia é mais axé, feito para pular, curtir,  e não para ouvir em casa.Todo mundo sabe que os sambas de enredo do Rio de Janeiro são todos iguais e quase sempre chatos, válidos apenas enquanto belas escolas desfilam. Axés e sambas de enredo duram aqueles poucos dias de carnaval, nem têm qualidade de música e letra para sobrevivência eterna a não ser as raras exceções, como aconteceram com centenas de sambas e centenas de marchinhas em nosso cancioneiro popular. Mas ninguém pensa nisto na hora da folia, o assunto é bem outro. Cyro de Mattos não pretende discutir raízes culturais e carnaval, arte e massificação na história contagiante e deliciosa de Chapinha.
O que Cyro de Mattos mostra nessa história de um menino  que tem dificuldades para levar a vida, vive numa casa acanhada com a mãe e vó Pequena,  é a festa que move e comove, envolve e faz a gente acreditar na alegria. Alegria que pode ser de velhos, adultos, jovens, adolescentes e crianças. Em qualquer parte do Brasil, acontece a alegria do carnaval, mas não adianta discutir, em Salvador, Recife, Olinda e no Rio de Janeiro a vibração é diferente. Por ser uma festa tão cara à cultura brasileira, por que o carnaval ficar distante das obras de arte voltadas para o público infantil?  


* Elias José é mineiro de Guaxupé onde lecionou na Faculdade de Letras. Contista, romancista e autor de mais de 50 livros para meninos e jovens. Ganhou inúmeros prêmios, como o Jabuti, Fundação  Educacional do Estado do Paraná (FUNDEPAR) e o Odylo Costa Filho, da Fundação de Literatura Infantil e Juvenil. Publicou, entre outros, “Viagem ao Fundo do poço”, contos, “Inventário do Inútil”, romance,  “Lua no Brejo”, juvenil, e “Um Pouco de Tudo”, infantil. 





domingo, 17 de janeiro de 2016



O Goleiro Leleta É O  Mais
 Comprado no Shopping BOL


O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol, de Cyro de Mattos, publicado pela editora  Saraiva, na  Coleção Jabuti, está sendo anunciado no  Shopping BOL como o livro mais comprado no mês,  alcançando o índice de   73 por cento. Vem em seguida como os mais comprados A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak, A Tulipa Negra, de Alexandre Dumas,  e Harry Porter e As Relíquias da Morte. Já em ortografia atual, numa segunda tiragem, o Goleiro Leleta venceu o Prêmio Hors Concours  Adolfo Aizen da União Brasileira de Escritores (Rio) em 2002.

O livro é constituído ainda das narrativas O Bahia Contra o Brasil, O Goleiro Galalau e O Dia em que Vi Garrincha Jogar. Tem um pé na infância e fala de futebol com sabor de lembranças: os tempos difíceis, as expectativas para assistir aos jogos da seleção brasileira, o desprezo da torcida, os jogos amadores no fundo de qualquer quintal ou em campinhos improvisados, debaixo de chuva ou sol escaldante.

Cyro de Mattos já publicou quatorze livros que são destinados ao público infantojuvenil, vários deles premiados em concurso de expressão nacional e, entre eles, O Menino Camelô, em décima segunda edição, Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, e Histórias do Mundo que Se Foi, Prêmio Adolfo Aizen, da UBE/Rio, que foi adquirido pelo MEC numa edição de seis mil exemplares para distribuição nas bibliotecas  brasileiras como integrante do Programa Nacional da Biblioteca Escolar e selecionado para o  Plano Nacional do Livro Didático.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016



Poemas de Diego Mendes Sousa




TINTEIROS DO TÉDIO

O que sonhamos
além da partitura
– humanos de partida
não será o destino em chispada?


Não, não será…
e vejamos a guinada!
Nossos olhos tristes
(rumorejar distante de tudo)


E o tempo a atropelar
outros destinos
declinados:
choro de Deus
no horizonte
sem pressa
– céus do suspiro,
banjo de dor –
todos os rios
sem rumo
em declive
como a vida
ainda a explodir
cá dentro de nós,
onde a atmosfera
é um raio
de saudade
ensurdecida?
Chuvas do amanhã,
nuvens e pássaros…


Não, a nossa prece
emoção audível
– harpa ao longe
e intercalada
por mistérios
é um rosto reflexo,
aventura íntima
de uma travessia
oceânica
e incompleta.


O homem, à deriva,
o mar, o abismo,
as tréguas da alma:
o sol
fogo em debandada,
punhalada do tédio,
a mapear tinteiros
e poemas
extremamente
azuis.


Ó desesperados
ambulantes do amor
como as fugas
romeiras
na paisagem!

======================

TINTEIROS DA PASSAGEM

Tinteiros de pena doída
são os meus nervos
de veia e sangue
contraídos

=====================
TINTEIROS DA MÁGOA


Era tarde, nas escrituras da alma,
noite escura de mágoa,
quando escrevi poemas
sobre a dor
– essa sensação que sempre
me persegue recomposta
de luzes súbitas!
Aves arrebatadas de desejos
e os meus livros que são missais
de sonhos desconsolados:
metafísicas, candelabros, gravidades.


A palavra, ora destino,
é a miséria verdadeira
dos caminhos destampados
de tristezas vulcanizadas:
meu ressentimento terrível,
meus versos de música desigual,
minhas notas de uma solidão supina.
Poeta – trovador dos passos –
espantalho na aurora cravejado
de sombras que verdejam.

 

DIEGO MENDES SOUSA
 
Nasceu em Parnaíba, Piauí, em 1989. Começou a escrever poesia aos quatorze anos de idade. Conquistou o  Prêmio Olegário Mariano (incentivo a Jovens Poetas) da União Brasileira de Escritores, entregue no salão da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, em outubro de 2009. Publicou, entre outros, Metafísica do Encanto, Candelabro de Álamo e 50 Poemas Escolhidos. Mantém o blog de artes PROPARNAÍBA, de alto nível, no qual divulga a boa poesia de nossas letras, poetas e escritores mais representativos.
Eis algumas vozes expressivas que se manifestaram sobre a poesia de Diego Mendes Sousa:
“Diego é um poeta solitário, introspectivo e arredio por natureza. A angústia existencial que às vezes o atormenta é revelada em “Candelabro”, poema comovente e de grande sensibilidade.”  Tarciso Prado
Diego veio de longe, lá do Piauí, nordeste do Brasil... Muito moço, 20 anos de idade, que belo! A União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro te concede, Diego, o Prêmio Olegário Mariano, por sua Metafísica do Encanto. Parabéns e quanta felicidade. Diego é um poema.  Stella Leonardos
                                                                                         
Diego, tão jovem, você escreve com muita propriedade sobre o Amor. Gostei da dedicatória da Metafísica do Encanto ao poeta Gerardo Mello Mourão. Daqui a 30 anos, com a madureza da sua poesia, você será (já é) considerado um dos grandes poetas deste Brasil.    José Santiago Naud

Diego, sua Metafísica do Encanto é de uma beleza formidável, sofisticada, erudita, elevada e carrega dentro do seu universo de espanto, o canto apaixonado, a voz solitária, o desespero da alma à Piaf.  Messody Benolie

A poesia de Diego Mendes Sousa se levanta como um jorro matinal, um arrebatamento lírico nutrido pelos instantes estilhaçados de um dia explosivo. Ledo Ivo