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domingo, 22 de janeiro de 2017

            

           Adonias Filho no Rio de Janeiro

                  Cyro de Mattos


Adonias Filho (1915-1990) preferiu deixar as terras do Sul da Bahia, a cidade de Salvador e o mar como cenário privilegiado de suas criações, escolhendo o Rio de Janeiro como o espaço ideal onde irão acontecer as ações do drama na pequena novela Amor no catete e no romance Noite sem madrugada. A densidade dramática ligada à ambiência primitiva da Região Cacaueira Baiana, aos mares de Luanda e Beira, na África, de Ilhéus e Salvador, na Bahia, ou ainda ao logradouro do Largo da Palma e à casa mágica povoada de espíritos e histórias de um forte, na capital baiana, irá ser conduzida agora pelo ficcionista seguro e estilista fino por onde o frio e o vento de inverno fazem a sua morada. Gente nos ônibus, lojas, passeios, imprimem o ritmo da vida diária.

Amor no Catete conta uma história que se passa em um lugar do Rio de Janeiro, dando-nos a sensação que aquele cenário carioca bem tocava a sensibilidade de Adonias Filho. A Rua do Catete com sua gente nas esquinas, discutindo futebol e política, as luzes dos postes iluminando os bondes que passavam, a hora dos gatos que fugiam dos velhos casarões para correr nos passeios desertos constituíram um cenário que permaneceu na memória sensitiva do escritor e no coração que acordava com saudade do tempo em que ali morou, quando então era um rapaz vindo do Sul da Bahia, cheio de esperança e sonho para assumir o compromisso de se tornar escritor um dia.
Em Amor no catete, o cenário de uma rua, com o vento trazido do mar pelas ruas do Flamengo, povoada de bares, lojas, estudantes que se recolhiam nas pensões, serve como o local de um encontro casual que culmina em amor, vivido entre um rapaz vindo do campo e uma mulher idosa, marcada pelo trauma da morte do filho.

Já em Noite sem madrugada, em uma das primeiras passagens, a personagem Vilma e os filhos encontram cedo a Rua do Catete com o movimento grande.

“Um povo afobado, andando com pressa, a subir nos ônibus, a encher os cafés e as lojas, a entupir os passeios. O barulhão dos motores e das buzinas, o fumaceiro dos ônibus, os sacos de lixo nas calçadas, as bancas de jornais”. (p.14)

Outros locais do Rio, como Jacarepaguá, Praça Quinze, Niterói, Icaraí, Leblon, servem como referências por onde Vilma, um dos personagens centrais do romance, em seu percurso permeado de esperança e aflição, transita na busca de provar a inocência de Eduardo, o marido, um homem bom, manso como um cordeiro, que não fazia mal a uma mosca, acusado de repente de ter participado de um assalto ao banco e assassinado um homem e uma mulher.

Em Amor no Catete, o local onde os personagens aparecem com suas ações fundamentais que conduzem a trama, a Rua do Catete, é aproveitado como elemento da realidade exterior com mais ênfase do que em Noite sem madrugada, mas em ambos os casos está longe de ser o espaço frequente que se configura como fundamental, marcado de simbolismo, por exemplo, no romance O forte e nos contos de O Largo da Palma ou ainda nos mares trágicos de Luanda, Beira Bahia, e em todas as histórias que acontecem no Sul da Bahia.

Adonias Filho ocupou cargos importantes na administração pública brasileira e exerceu significativas atividades culturais. Foi nomeado diretor da Editora A Noite (1946-1950), do Serviço Nacional de Teatro (1954) e da Biblioteca Nacional (1961-1971). Em 1966, foi vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa; de 1969 a 1973, exerceu a função de membro do Conselho Federal de Cultura; em 1972, presidiu a Associação Brasileira de Imprensa; e de 1977 a 1990, o Conselho Federal de Cultura.

Sua formação jornalística desenvolveu-se no Rio de Janeiro e em São Paulo. Foi colaborador em jornais importantes, como Correio da Manhã e o Jornal do Comércio. Participou como crítico literário do jornal Hora Presente, A Manhã, Jornal de Letras, Diário de Notícias, O Estado de São Paulo e na Folha da Manhã. Exerceu a crônica na Última Hora. Tanta atividade em suas trilhas de vida, dedicada à imprensa e à gestão cultural, que poderia ter se afastado de sua vocação literária. Tal não ocorreu porque tinha uma vocação legítima para ser escritor, um raro talento que não permitia que fosse diferente o homem que escolheu a literatura como leitura da vida.

Jamais recorreu ao pai para sobreviver. Como tradutor e jornalista, buscou os meios para subsistir com dignidade. Alcançou cargos importantes por méritos. Nunca cobiçou, nem procurou confundi-los com a sua carreira de escritor.

NOTA:
 A novela Amor no Catete faz parte da antologia Histórias dispersas de Adonias Filho, organizada por Cyro de Mattos, da Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz,sul da Bahia.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017






                    LUTO NAS ARTES DO SUL DA BAHIA



Nascido em Buerarema, o grapiúna Ramon Vane, que completaria 58 anos hoje, 17 janeiro, terça-feira,  morreu na madrugada deste domingo (15), após ser internado na semana passada no Hospital de Base de Itabuna, vítima de um AVC. A notícia da morte dele foi publicada nas redes sociais pelos amigos de teatro. Personalidade versátil, advogado, ator, poeta, era uma das figuras expressivas nas artes da  região do sul da Bahia.

 Foi revelado no Grupo de Arte Macuco, que agitou os meios culturais da Região Cacaueira Baiana no período de 1976 a 1991,  atuando em vilas, povoados e cidades. Movimento dos mais importantes nas artes do  Sul da Bahia, o Grupo Macuco tinha em suas fileiras de jovens talentosos além de Ramon Vane, os atores José Delmo, Carlo Alberto (Betão), Jackson Costa e Gal Macuco, entre outros. Vane, ao lado de José Delmo, apresentou-se tempo depois com  a peça Deus e o Diabo na Terra Brasilis em muitas cidades brasileiras.

 Em outubro de 2011, ele foi premiado pela interpretação no longa-metragem O homem que não dormia. Fez o personagem Pra Frente Brasil, no filme dirigido pelo cineasta Edgar Navarro, que  foi rodado em Igatu, na Chapada Diamantina.O filme  conta a história de cinco pessoas que, numa mesma noite, sofrem o mesmo pesadelo, no qual  um homem sinistro e a procura por um tesouro (imaginário) formam as relações motivadoras de cenas e situações na história estranha. .

domingo, 15 de janeiro de 2017




Mais Dois Novos Livros

Acabo de publicar mais dois novos livros:  O Velho e O Velho Rio, contos e novelas, Editora Escrituras (SP), e A Anotação e a Crítica, ensaios, Editora Via Litterarum, da Bahia. Ao longo de uma carreira literária  com  mais de 50 anos,  consigo  atingir a marca de 52 livros publicados, no Brasil e exterior, vários deles com prêmios literários expressivos no âmbito nacional e internacional.  O  livro O Velho e o Velho Rio reúne nove histórias, quatro acontecem na zona rural enquanto as outras cinco na cidade e, entre elas, as duas  O Velho e o Velho Rio e Quando o Rio Tinha Peixe são inspiradas no rio Cachoeira, que divide a cidade de Itabuna em duas partes,  na época em que possuía águas puríssimas e abundância de peixe.
A obra  A Anotação e a Escrita  é meu primeiro livro de ensaio e crítica.  Dividido em quatro partes – Algumas Anotações, Anotações como Comentário, Anotações  como Depoimento e Outras Escritas – o volume de 303 páginas reúne textos que foram publicados em revistas, jornais e blogs importantes de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo.  No volume, reafirmo minha crença na literatura como forma de conhecimento de vida, fundamental como o amanhecer, abordo  temas como o reino do conto,  a caracterização da novela,  o percurso do romance, a narrativa de bicho,  o futebol nas letras brasileiras e outros assuntos de teor literário e cultural.                         
      

O Velho e o Velho Rio
Contos e novelas
126 páginas, 25 reais 


A Anotação e a Escrita
Ensaios e crítica
303 páginas, 40 reais
www.vleditora.com.br



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


Inocentes e Selvagens

Conto de Cyro de Mattos

Uma neblina densa passa vagarosa e envolve  a fazenda por todos os cantos. Esfuma-se nos pastos da baixada e na Serra do Japu. O  canto do galo pedrês acorda as galinhas no poleiro, fere as últimas sombras da noite e se perde sanguinolento por entre os vestígios da madrugada. Quando a manhã chega ao terreiro, a mulher não sabe o que fazer para acalmar as galinhas assanhadas em torno dela. A falta de comida torna inquietas as aves, umas ferem às outras com os bicos  famintos. Há meses que não cai  um pingo de chuva, a plantação de milho e feijão não vingou na roça plantada com tanto sacrifício. A única  mão de milho que a mulher joga no dia provoca nas aves uma danação que assusta e dá pena..Cruz-credo! De sua boca o cuspe sai violento,  dá para  ver no rosto  a expressão de rancor,  que se alojou nela desde que o tempo tornou-se  abrasador na estiagem prolongada. Nas roças, os cacaueiros estão parecendo visagem em seus ares fúnebres, com os galhos e as folhas secas. Muita plantação naquela cor sem brilho, que  infunde medo, os olhos aproximam-se e não chegam a compreender, até as árvores altas   mostram as folhas amarelecidas.
            Esfomeados, os porcos estão grunhindo constantemente no chiqueiro. Fuçam nos pés das estacas, escavam em todos os cantos da terra seca. Não sossegam no  trincar de dentes,  à noite escuta-se o som metálico de suas ferezas batendo  nas queixadas.
           Todas as  manhãs, o homem segue para o curral pequeno, feito de estacas velhas e arame enferrujado, a cobertura de zinco furado.O homem vai tirar o leite da vaca Borboleta, que mesmo com os pastos sem o capim verde  ainda dá cinco litros na espuma, sem falhar um dia. Não sabe como ela consegue dar esse  leite, quente e bom. Não existe o  capim verde para alimentar Borboleta, o pasto está com uma cor de ferrugem, o ribeirão é um fio d’água na baixada.. Depois de feita a ordenha, o homem deixa uma quantidade pequena de leite no úbere de Borboleta para alimentar o bezerro.
O baque na cancela da estrada real desperta a atenção do homem, que acaba de soltar a vaca e  entregar o balde com leite para o filho ir levar para a mulher, que se move agora  na cozinha pequena da casa com paredes de adobe, erguida num outeiro. O  menino avista como o pai os dois homens que vêm andando pela estrada real.
- Parece que é Seu Dorinato acompanhado de outro homem  - observa o menino com os olhos espertos. 
A neblina vai diminuindo no terreiro aos poucos, continua lá  na serra com suas toalhas gelatinosas, esbatendo-se entre as árvores nativas, de tronco grosso e copa frondosa. A  neblina  aparece inclemente na madrugada, nesses meses de estiagem forte, penetra os ossos e corta como faca afiada.  A terra já começa a receber na baixada os raios de um sol quente, que logo mais irá queimar tudo que existir como plantação verde. A paisagem ficará iluminada por todos os cantos,  os ares abafados, como nunca acontecera   na região do Japará  onde a chuva sempre caiu grossa nas estações estáveis.
Os dois homens chegam limpando o suor do rosto. Seu Dorinato, o dono da fazenda Boa Sentença, dá o bom-dia  num rosto aborrecido,  fixando os olhos nos   cacaueiros  da roça, ali atrás do curral, com as folhas secas.
            - Só mesmo os credores me faziam vir aqui nesse momento  - ele diz numa voz triste, acrescentando: - Quem  vendeu o cacau antes da safra  para entregar no futuro, vai enfrentar  um tempo difícil para efetuar os compromissos, com tanto sol e tudo seco ninguém vai ver um só fruto do cacau na época da colheita.
           Pensativo:
           - Só se vê fazendeiro vendendo a roça de cacau e ninguém arrisca comprar nem por baixo preço.
            Ao lado do fazendeiro, o outro homem que veio comprar os porcos: alpercatas de sola grossa, camisa por fora das calças, queixo de ponta no rosto vermelho, os olhos frios, quase imóveis, neutros, distantes da paisagem com seus ares fúnebres.
            - Onde estão os porcos?  Como estão eles, Abdias?  – as perguntas do fazendeiro revelam sua  preocupação sobre o estado dos porcos.  
            - Estão magros, há semanas não comem nem mandioca nem jaca. Só estão comendo folha de bananeira.
            Após acender o cigarro feito com fumo enrolado na palha de milho:           
             - As trovoadas não demoram, as águas caindo tudo vai melhorar, os porcos vão ter comida farta e engordam em pouco tempo.
            Com a voz mansa:
            - Digo isso porque vi  no minador da roça velha um fio d’água descendo pela terra seca.
- Não quero mais  criar porco aqui na fazenda, ainda mais com esse tempo seco e até  as dívidas pequenas crescendo.
             Os homens caminham até o chiqueiro, irascíveis os porcos lá dentro, os dentes trincando na manhã que prossegue com suas lâminas de calor.
             O comprador com os olhos sagazes:
             - Esses bichos nem podem sentir cheiro de gente.
             Sem qualquer interesse:
             - Pior que a magreza vai ser o transporte deles até o embarque de caminhão na estrada real
           - Isso não é problema.
           - Como não é problema?
           - Abdias sabe guiar os bichos.
            O comprador faz os cálculos, examina os porcos atentamente, olhos  saltados das  órbitas no gesto de repulsa e desprezo.
        - Posso até fazer uma proposta por esses famintos.
- Qual?
- Fico com todos na base da arrobação.
- Impossível. Só pra engorda devem ser vendidos e não pelo peso.
O comprador tranqüilo:
- Só na arrobação mesmo.
- Quantas arrobas você dá por eles?
- Duas arrobas, um pelo outro: talvez nem  cheguem a 80 arrobas todos eles.
       - E qual o seu preço por arroba?
- Metade da metade  do preço que é pago na região.
- Negócio fechado com as 40 cabeças.
É quando com a voz tímida interfere Abdias.
- 39, Seu Dorinato.
-  Não estou entendendo.
       - O porco reprodutor, todo pintado no pelo,  é do meu menino Dadico. Ele comprou
lá na feira da cidade quando  ainda era um leitãozinho, tinha sido  apartado da porca há poucos dias.
      - Como é mesmo? O que foi que você disse?
      No ar quente vibra o que pergunta Seu Dorinato; na verdade não passa de uma afronta que fere um rosto apreensivo. Aloja-se na garganta de Abdias uma massa de humilhação,  que ele bem conhece em seus modos antigos. “Quem já viu naquelas bandas qualquer animal ter como dono filho de capataz ou de roceiro?” – pensa  o fazendeiro com uma cara feia.
     - Pois foi, acredite no que  afirmo.
     - Lamento que só agora eu  venha  saber isso, mas nada  posso fazer, o porco de seu menino também está vendido.

             Escutou a conversa do fazendeiro com o comprador dos porcos, a observação do pai acerca do porco que ele havia comprado na feira quando ainda era um leitãozinho. A venda do porco Pidão com os outros porcos repercute dentro como um sinal ameaçador, indicando grande  perigo. Sente um enxame de abelhas zumbindo nos ouvidos. Levanta-se nas pernas sem equilíbrio, cheio de medo com aquela decisão tomada pelo dono da fazenda Boa Sentença, onde ele nasceu e cresceu caçando passarinho com estilingue, armando a arapuca e botando o laço para pegar os bichos. Onde se uniu na amizade com um porco, que causava espanto a quem visse  como se não fosse coisa deste mundo o esquisito apego entre eles dois. 
             Por que o porco Pidão foi se meter no meio daqueles bichos famintos?  Tomaí, porco desobediente, como um castigo vai ser também vendido. Pensamentos vão passando por entre  magoados gemidos. Os passos agoniados encontram, enfim,  a velha mangueira perto do açude. Lugar escolhido como abrigo quando alguma coisa ruim acontecia e o deixava bastante aborrecido. Olhos espertos piscam agora sem brilho, circulam quase sem vida numa paisagem íntima, que se formou de aventuras  pelo mato a dentro. Com as  travessuras de um menino e um porco com suas  maneiras manhosas, bicho de  tanta estimação pelo dono que era tido como algo que não tem preço.
            Nesse instante de tristeza, somente ele e nada mais. Numa  paisagem que se ressente dessa vez dos ventos soprados com alegria. De pés afoitos que caminhavam por trilhas e atalhos, acompanhados de um porco especial. Mãos de cata-vento vasculhavam os cantos do dia e, quando ele retornava para casa, vinha  com o bornal cheio de descobertas, momentos generosos que o tempo lhe oferecia.

           Comprara o leitãozinho numa manhã de verão. Na feira da cidade que tudo tem, movendo-se aos sábados intensa de gente, naquela onda que   vai e vem. O céu estava como um espelho, nuvens alvas que formavam bichos mansos, barcos de algodão, enormes cogumelos. Quando chegou da feira, logo  apressou o pai Abdias para que retirasse os caçuás do burro, sabendo que  o leitãozinho fora  acomodado no fundo de um deles. Os olhos espertos tinham um brilho forte naquele momento,  admirados com o leitãozinho amarrado pelas pernas, o focinho nervoso, dentes trincando e esganiçando gritos. Quando foi desamarrado, ergueu o focinho num tremor engraçado, andou ligeiro e quase se batera nas pernas do menino. Farejou um monturo de lixo e lá se foi apressado, todo gozoso e roliço.
                - Corra,  bichinho, passa a conhecer seu terreiro! 
                Naquele mesmo dia recebera o nome de Pidão, rapidamente passou a ser as preocupações, os cuidados e os caprichos do menino Dadico. Sua comida era mandioca e milho verde, a água na gamela estava sempre limpa, a dormida ficava  num cercado que o dono  construíra  atrás do galinheiro. Com o passar dos dias, o leitãozinho foi encorpando, ficando cada vez mais apegado ao menino. Simples era a linguagem que o Dadico usava para ganhar a afeição dele. Agrados escorriam por lombo e barriga,  era costume ser recebido com alegria quem chegava com o focinho inquieto, farejando o ar e remexendo a terra. Sujo por andar se banhando nos buracos grandes da terra enlameada.
             Passados uns cinco meses, Pidão mostrava-se com  as papadas cheias de gordura,  as pernas fortes e mais ligeiras. Os trabalhadores da Boa Sentença nunca tinham visto um apego daquele entre um porco e um menino. Nas roças de cacau, nas caçadas de passarinho, nas armadilhas paara pegar bichos de carreira, nas pescarias pelo ribeirão ou na lagoinha, eles dois lá estavam. Um não saía de perto do outro. Eram estranhas as travessuras do menino com o porco todos os dias, os roceiros  reconheciam nos comentários freqüentes. Era o porco que nem cão de guarda ou de caça? Seria um bicho  possuidor de  alguma magia especial,  que nesse mundo aparece como coisa do sobrenatural e ninguém consegue explicar a razão de tal  encantamento? O menino sabia que o inverno era venturoso, o verão tonto de azul com as suas surpresas. Aquele porco manhoso com cada esquisitice deixava o pai do menino encabulado e a mãe  incrédula com o que os olhos viam através das  cenas costumeiras.
          O porco Pidão tinha o pelo arruivado, manchado de pequeninas bolas pretas, as pernas compridas. Seu corpo era até certo ponto grande para um porco mestiço. Rapidamente se alastrara sua fama de bom reprodutor, seguro e possante,  porca houvesse na Boa Sentença e nas fazendas vizinhas para que ele cobrisse. Certa vez ele brigara com uma cobra enorme, de igual para igual. Chamara para si a atenção do inimigo, que traiçoeiramente  já tinha o bote preparado para ser lançado nas pernas do menino. Travou-se renhida a luta entre o porco Pidão e a cobra grande, do tamanho de uma vara de  dois metros, grossa e comprida. Ficou equilibrada porque o porco  sabia ser paciente, usava esperteza durante os botes  que a cobra desferia.  A cobra com os botes sucessivos buscava atingir qualquer ponto de um corpo roliço. O porco Pidão esquivava-se com voltas e recuos, escorregava por entre as moitas do mato, procurava assim cansar o inimigo, que não desistia de lançar os botes  em nenhum momento. E mais botes perigosos eram enviados de um corpo escorregadio, que se arrastava insidioso, às vezes parava, erguia-se, encolhia-se, dilatava-se no arremesso mortal para um alvo corajoso, grunhindo. O porco afastava-se rápido e evitava que a cobra atingisse com o bote qualquer ponto de seu corpo,  cada vez mais inquieto. A luta, que já durava quase uma hora,  estralava os matos,  deixava na terra  marcas  dos pés do porco Pidão e trilhas de um corpo peçonhento.
              Do galho da jaqueira, o menino via todas as cenas, nada podendo fazer para que a cobra fosse derrotada na briga.
            Aflito:
 - Pelo amor de Deus, Pidão, fuja, antes que seja tarde!
A cobra e o porco desapareceram numa ponta de capoeira, os matos eram amassados com a passagem deles dois. Na danação da briga, o porco soltava grunhidos fortes, a cobra o perseguia sem dar trégua,  parecia que ia crescendo de tamanho chão a dentro, na medida em que a briga demorava e ficava mais feia.
O porco Pidão só foi aparecer pelo entardecer  no terreiro. A língua de fora, fios de baba pela boca, o sangue quente no corpo ainda agitado. Talvez soubesse que a grande vitória  foi salvar o menino dos botes de um inimigo terrível. Na guerra que tivera com a cobra, se não foi vitorioso, também não saiu vencido. Sua fama de porco que não tem medo de enfrentar  cobra grande venenosa correu pelas outras fazendas. O  menino chegava a dizer que ele era um lutador  invencível, botava pra correr até onça parida, cobra no ninho e jacaré no choco. Nem do lobisomem nem da alma penada tinha medo.
           O verão entrou pelas outras estações, prosseguiu no  calor de brasa viva, terra seca e pouca água. Os fazendeiros  bem tristes  com a paisagem definhando perante o céu sem um fiapo de nuvem. Os semblantes desolados com a criação de animais e aves  sem comida, nas estradas só a poeira grossa, os  ribeirões morrendo. Abdias falou que  se o tempo continuasse naquele castigo, o porco Pidão ia cair na faca, melhor ser abatido do que ver o bicho com as costelas de fora, emagrecendo.
           - Onde anda esse porco, Dadico?
           Susto danado:
          - Nem faço idéia, pai, há dias que ele anda sumido, se já não morreu de fome e virou comida dos urubus carniceiros..
             Com os olhos de assombro, foi logo se afastando do pai, que há pouco instante chegara do curral onde   fora curar com creolina a bicheira da vaca Borboleta.
             Acreditava que o seu segredo nunca haveria de ser descoberto. O porco Pidão estava bem guardado no esconderijo que ele encontrara, entre as pedras grandes,  na Serra do Japu. Dias depois, o pai recuara daquela intenção de abater o porco, Pidão aparecera de repente no terreiro contra o gosto de Dadico, em estado de causar pena. Afastado do menino, sem as travessuras costumeiras, não conseguira permanecer no esconderijo lá  da serra por muito tempo. Faminto, sedento, havia nele uns ares tristes de bicho  esquecido.

            “Antes nunca tivesse aparecido no terreiro, valia a pena ficar  só com pele e osso  lá no esconderijo das pedras grandes na  Serra do Japu, mas salvo de ser vendido com os outros porcos. Por que entendeu de sair do lugar onde estava protegido? Por que não ficou no esconderijo mais tempo? Tomaí, porco besta, veja o que arranjou agora, vai ser vendido com os outros, pesado na balança, castrado pra engordar, de novo pesado quando desse no ponto  pra ser abatido, com o toicinho fazendo  dobras no couro e a gordura balançando nas papadas pra quem botasse os olhos de usura em cima dele e logo lambesse os beiços e zapt, faca afiada nesse bicho lerdo e gorduchento, que é chegado o momento...”

            O coração que bate célere impele o corpo franzino no gesto corajoso. Os dois homens já iam próximos à cancela do pasto que serve  de dormida para os animais de serviço. Pararam de repente quando ouviram  um barulho que vinha do chiqueiro. De lá o vento trazia ruídos de bicho na sanha, querendo derrubar tudo que encontrasse pela frente. Assustados, retornam na carreira apressada. Avistam os porcos  querendo fugir pela portinhola do chiqueiro,  todos ao mesmo tempo. Em cima do mourão, o menino segura a portinhola do chiqueiro. O porco Pidão consegue fugir primeiro com mais seis porcos na carreira estonteada. O menino sorri de contente. Não percebe quando o homem saca o revólver e dispara  seis tiros na direção dele. Um dos tiros derruba o menino para dentro do chiqueiro, logo o corpo passa a ser disputado  pelos porcos famintos, que restaram no chiqueiro. Um salto relâmpago impele o pai Abdias para dentro do chiqueiro. Ele cai no meio dos porcos já com o facão a desferir golpes sucessivos: na queixada, na perna, na estaca, no arame, no focinho, na terra, na orelha, no lombo, na papada, em tudo que encontra pela frente. E, após desferir golpes sucessivos e certeiros, consegue, enfim, o pai retirar do chiqueiro o corpo do filho.

                       
Difíceis agora os passos numa dor que penetra veias, coração e nervos. As pernas cambaleiam, é com esforço que o pai respira,  nos braços o corpo do filho.
          - Por que, por que  isso?
         - Só atirei para amedrontar o menino.         
           
            No resto do dia, a terra como se fosse irromper numa fogueira enorme, de  tão abafado o ar, num calor  intenso. O  sol ainda não desapareceu com a tarde por trás da serra. E algumas nuvens cinzentas, vindas dos lados da Serra do Japu, passam vagarosas  acima dos pastos da baixada. As nuvens tornam-se   maiores  quando passam acima do curral e seguem na direção das roças de cacau. Quando a noite chega do céu apagado de estrelas, o tempo está armado com nuvens negras e  pesadas, prenunciando  felizmente   ventos fortes e aguaceiros. A princípio é uma chuva fraca que cai, os pingos batendo no telhado da casa  e no zinco que cobre o curral velho.

          O homem acende o candeeiro, a luz em cima da mesinha como uma  língua irrequieta forma figuras disformes na parede. Gemidos da mulher misturam-se  com o chio dos morcegos, asas negras passam assustadas pelos cômodos no voo baixo,  de arrepio e medo. Lá fora, com o andar arrastado, o homem atravessa o terreiro, a chuva engrossa na noite escura, cortada por relâmpagos sucessivos. Os pingos fortes batem como diminutas bolotas de chumbo quando caem na terra centenária. As veias da terra ficam intumescidas com a força da chuva trazida pela noite negra. Na pobreza das vestes aquele vulto magro, todo encharcado, passa pelo curral e segue em direção ao chiqueiro.

Ali, ele permanece sentado num pedaço de cocho feito de tronco de jaqueira velha. A madeira lascada pelos porcos que se apertavam na portinhola do chiqueiro. Uns mordiam os outros,  procuravam enfurecidos a saída por onde pudessem escapar na sanha cheia de grunhidos.  Parado, solitário, triste. O rosto em contato com as mãos calosas. Enxuga o rosto  com o lenço velho, a dor que sente agora fere o coração  na ausência de um menino amigo de um porco e de um porco amigo de um menino. Na  mais estranha e alegre  amizade que o mundo podia conceber. Nesse vazio que atinge corpo e alma a fúria da bala deflagrada traz o ritmo do horror e do que nunca  vai se desgarrar de seu peito. 
Na vastidão da noite que segue escurecida, com ventos fortes, relâmpagos e aguaceiros.        
        

·       * O conto “Inocentes e Selvagens” conquistou o Prêmio Miguel de Cervantes, patrocinado pela Casa dos Quixotes, Rio de Janeiro, para autores de Língua Portuguesa, em 1968.





sábado, 17 de dezembro de 2016







Natal das Crianças Negras

         Cyro de Mattos



             (Em Seis Idiomas)







  



1- Natal das Crianças Negras


  Cyro de Mattos


                    
Eles moravam no morro, a irmã era chamada de Bel, o irmão de Nel.  Bel não recebia da vida a doçura feita com mel. E Nel não vivia a vida, lá no alto morro, como se estivesse no céu. A mãe deles chamava-se Maria. Vestia trajes simples, gastos pelo uso diário. Nunca vestiu um manto azul feito de seda para brilhar no dia, como se via na igreja com a imagem da Virgem Maria.   
A mãe de Bel e Nel era lavadeira. Tinha as mãos grossas de calo de tanto bater roupa na correnteza de águas límpidas. Durante a semana descia o caminho pelo barranco com a bacia de roupas sujas  na cabeça. Quando chegava à beira do rio, colocava a bacia de roupas em uma pedra grande, junto ao areal. Não demorava e começava a tirar as roupas da trouxa. Molhava, ensaboava, esfregava, lavava e torcia. Estendia as roupas nas pedras pretas para secar ao sol. As pedras pretas, cobertas de roupas estendidas, de repente apareciam coloridas naquele trecho do rio.      
O pai de Bel e Nel  chamava-se José, era carpinteiro. Sabia usar com habilidade  os  instrumentos de trabalho:  martelo,  serrote,  enxó,  plaina e  formão. Suas mãos pequenas faziam cadeira, mesa e banco. Consertavam porta, janela e portão. No mês que Bel completou seis anos de idade, o carpinteiro José começou a sentir  dores na espinha. Os ossos inflamados, as  mãos trêmulas, o corpo todo doía. À noite no quarto gemia. O coração dele foi diminuindo o amor que tinha por São José, o padroeiro da cidade, por causa da doença que o afligia. Até  que um dia o pai de Bel e Nel perdeu  para sempre sua constante fé em São José, o santo protetor dos carpinteiros.
O tempo de Natal era chegado. Nel queria um avião grande, Bel uma boneca que chora. Viram o velho gordo com o rosto rosado pela primeira vez na televisão da loja.  Carregava um saco de brinquedos nas costas. Tinha a barba branca e os cabelos sedosos. Vestia uma roupa vermelha. Calçava botas pretas. Numa das cenas em que aparecia na telinha, deixava escapar do rosto rosado um sorriso que transmitia uma sensação de alegria e paz a cada criança que ia falar com ele e receber o seu carinho.  Os meninos no passeio da  loja não tiravam os olhos da televisão. Comentavam que o velho  dava  brinquedos à criançada  sem  querer nada de volta. Eles sorriam quando o velho aparecia com as roupas folgadas na telinha. Olhinhos deles todos no querer, como que encantados cintilavam.
Com olhinhos espertos e risinhos que enchiam os dentinhos, Bel e Nel foram olhar a árvore enfeitada com bolinhas e luzinhas,  armada em um dos cantos da loja. À noite as luzinhas acendiam e apagavam. A estrela no alto comovia. Descobriram depois  o presépio em outro canto da loja, com os camponeses, pastores e bichos. Ficaram admirando  o pequeno estábulo do presépio, que tinha o teto coberto de folha  de palmeira. Um galo de crista vermelha estava  no telhado. Uma estrela brilhava na cumeeira, toda acesa de Deus. Nossa Senhora e São José mostravam os semblantes felizes, ao lado de  Jesuscristinho, que  dormia o sono bom no berço puro e quente, feito de palha.  E os três reis magos, ali no presépio,  davam a entender que não eram dignos de  tocar na palha onde Jesuscristinho  dormia o sono sereno.
 Sentados no meio-fio do passeio da loja, Bel e Nel escutavam agora a musiquinha  que saía alegre pelo alto-falante no poste. De vez em quando o alto-falante baixava o som. Então a   musiquinha fazia um fundo musical no mesmo instante em que entrava  a voz pausada do locutor.  A voz dele informava que  vinha de Belém a estrela mais bela. Fora trazida pelas mãos da maior madrugada. Seu brilho imenso descaía do céu e vinha iluminar a relva onde os bichos anunciavam e cantavam o nascimento do menino Jesus. A voz do locutor ficava emocionada quando comunicava  que naquele dia o menino pobre nascia no estábulo. Esse menino Deus  vinha para afugentar o mal de toda a terra. A voz doce  do locutor terminava  a mensagem de paz eterna com mais emoção no final quando então revelava que os sinos do mundo inteiro nessa hora  tocavam: É Natal! É Natal!
O alto-falante voltava a tocar a musiquinha alegre, acompanhada dessa vez  de uma cantiga cativante. Bel e Nel continuavam sentados no meio-fio do passeio. Recebiam  o sopro da brisa que circulava na rua, ao final do dia. A brisa suavizava os rostos deles dois em silêncio, enquanto seus pequenos corações eram tocados pela cantiga que se repetia e  começava assim:

Botei meu sapatinho
Na janela do quintal.
Papai Noel deixou
Meu presente de Natal...

Dizia a cantiga ainda mais, que o velhinho  sempre visitava  o quarto de cada menino onde  deixava, ali,  um brinquedo como  presente naquela noite especial. Seja rico, seja pobre, seja branco, seja preto, como  Bel e Nel, o velhinho sorridente e bondoso  não esquece de ninguém.
Bel e Nel colocaram os chinelos na janela do quarto. Nada acharam no outro dia. Do ponto mais alto do morro ficaram olhando as nuvens alvas, trafegando no céu como grandes almofadas. Umas nuvens menores desenhavam brinquedos enquanto iam passando  mansas diante dos olhos tristes deles dois.
Eles viam nesse instante a cidade lá embaixo, aos seus pés. Imaginavam a algazarra da manhã festiva. No passeio, no jardim, em qualquer canto da casa. Cada menino o brinquedo exibia. Saltava, dançava, corria, sonhava, voava, sorria.
Então souberam como o mundo dava as costas a Jesus. Não queria ver Maria. Escondia-se de José.  O Natal era a lágrima que pelo rosto deles dois  descia.
E uma canção desfazia.




  

               2 - THE BLACK CHILDREN’S CHRISTMAS


A short story by Cyro de Mattos

Translated by Fred Ellison





           They lived up on the hill, the sister was named Bel, her brother Nel.  Life for Bel had none of the sweetness of milk and honey. And Nel knew all about the hard life, he would go to the top of the hill, as if he were in heaven. Their mother was called Maria.   Her dresses were very  plain and worn out with daily use. She never wore a blue silk cloak that shimmered in the daylight, like you’d see in church with the Virgin Mary’s image.
         Bel and Nel’s mother took in washing.  Her hands were calloused and  thick from always  pounding clothes in the clear flowing water.  During the week she’d  come down the steep path along the river bank with the can of dirty clothes on top of her head. When she got to the river’s edge, she would set the can of clothes down on top of a big rock, near the sandbar.  She wasted no time taking the clothes our of her bundle. She’d wet them, soap them, rub, rinse, and wring them.  Then she’d lay the clothes out on the black stones to dry in the sun. The black stones, covered with clothes all laid out, suddenly  looked many-colored  along that stretch of the river.
         Bel and Nel’s father was called José, he was a carpenter. He was skilled in the use of the tools he worked with: hammer, saw, adze,  plane, and chisel.  His small hands made chairs, tables, benches. They could fix doors, windows, gates.  The month that Bel reached six years of age, José the carpenter began to feel pains in his back.  Inflammation in his bones, trembling of his hands, his whole body hurting.  At night, in his room he’d moan. In his heart there was less and less  room for the love he used to have for Saint José, the city’s patron saint, because of the sickness afflicting him.  Finally, one day, Bel and Nel’s father lost forever his steady faith in Saint José, the saint protector of carpenters.
         Christmastime had come. Nel wanted a big airplane, Bel a doll that would cry. They saw the round figure of the old man with his pink cheeks for the first time on the television at the store.  On his back he was carrying a bagful of toys.  He had a white beard and his hair was silky.  He was wearing a red suit, he had on black boots. In one of the scenes in which he appeared on the tiny screen, he made his pink face into a smile that conveyed a sense of happiness and peace to every child who went up to talk with him and be held.  The kids standing on the sidewalk outside the store couldn’t take their eyes off the television.  They noted that the old man gave toys to all the kids, without wanting anything in return.  They would smile when the old man appeared on the TV screen dressed in his ample robes.  Their little eyes all fixed upon their wishes, they seemed to sparkle with enchantment.
         Alert of eye and with giggles behind their little teeth, Bel and Nel went inside to look at the tree, decorated with little balls and tiny lights, set up in one of the corners of the store.  By night the tiny lights would go on and off.  The star at the top made them marvel.  Next they discovered in another corner the Nativity scene, with field hands, shepherds and animals.  They stood admiring the little stable in the manger, whose roof was covered with palm leaves. A rooster with a red comb was on the roof.  On the  ridgepole, a star was all aglow with God.  Our Lady and Saint José showed their happy faces, alongside the Christ-child, who was sleeping his blessed  sleep in the warm, pure cradle of straw.  The three wise kings, there in the manger, gave the impression that they weren’t worthy of touching the straw, where the Christ-child was serenely asleep
         Sitting on the curb in front of the store’s sidewalk, now Bel and Nel were listening to the Christmas music coming joyfully from the loud-speaker on  the lamp post.  From time to time the volume of the loud-speaker would be turned down.  Then the Christmas  melodies  would serve as  musical background at the very moment when the announcer in his measured  voice would break in.  His voice brought the word that the most beautiful of stars was coming from Bethlehem.  It was brought in the hands of the greatest of dawns.  Its immense  brilliance was descending from heaven and came to shine on the grass where the animals were announcing and singing of the birth of the child Jesus.  The announcer’s voice choked with emotion when he communicated that on that very day the child of poverty was being born in the stable. That child-God was coming to drive out evil from all the world.  The gentle voice of the announcer was concluding his message of eternal peace with rising emotion at the end when he revealed that the bells throughout the world were pealing: It’s Christmas! It’s Christmas!
         Once more the loud-speaker was playing its happy Christmas music, featuring  this time a catchy tune.  Bel and Nel continued sitting on the street curb.  They could feel the touch of the breeze that was blowing in the street, at the end of the day. The breeze softened the faces of the two, both of them in silence, while their childish  hearts were touched by the songs that were repeated and that started thus:

I set out my little shoe
on the window-sill
Father Noël left me
my Christmas gift

         The Christmas song said something else, that the little old man would always visit every child’s  room, and, then and there, he would leave a toy as a present on that special night. Whether rich or poor, whether white or black like Bel and Nel, the smiling and generous little old man doesn’t forget anyone.
         Bel and Nel placed their old shoes on the window-sill of their room.  They found nothing the next day. From the highest point on the hillside, they stood there watching the white clouds,  coming and going like pillows.  A few of the smaller clouds took the shape of toys as they passed softly in front of the saddened eyes of the two of them. 
         They could see at that moment the city below them, at their feet. They imagined the excitement on that festive morning.  On the sidewalk, in the garden, in whatsoever  part  of the house.  Every child would be showing off his toy. He’d be leaping, dancing, running, dreaming, flying, smiling.
         At that moment they knew that the world had turned its back on Jesus.  It didn’t want to see Maria. It hid itself away from José.  Christmas was the tear that was rolling down both their faces.
         And a Christmas song was losing its sweetness.

                   


* Fred Ellison was born in 1922,  in Denton, Texas, EUA. He received his Bachelor’s degree in French and Spanish in 1941 from the University of Texas, at Austin, USA.  Received the doctoral degree in Romance Languages, with a dissertation, later appearing  as a  monograph The Novel of Brazil's Northeast: Four Northeastern Masters (Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos, José  Lins do Rego. He is Professor Emeritus of the University of Texas.







3 - Le Noël des enfants noirs

Conte de Cyro de Mattos

                              Traduit du brésilien par Luciana Wrege Rassier
et Jean-José Mesguen


 Ils habitaient sur le morne, la sœur s’appelait Bel, le frère Nel. La vie n’offrait pas à Nel la douceur du miel. Et Nel ne vivait pas sa vie, là-haut sur le morne, comme s’il était au ciel. Leur mère s’appelait Maria. Elle était vêtue simplement, de vêtements usés à force d’être portés chaque jour. Elle n’avait jamais porté de manteau de soie bleue fait pour briller en plein jour, comme on en  voyait à l’église sur la statue de la Vierge Marie.
La mère de Bel et Nel était lavandière. Elle avait les mains épaisses et calleuses à force de battre le linge dans le courant des eaux limpides. Toute la semaine elle descendait le chemin en pente en portant sur sa tête la bassine pleine de linge sale. Quand elle arrivait au bord de la rivière, elle posait la bassine de linge sur un grand rocher, à côté du sable. Sans tarder elle commençait à tirer des vêtements du paquet. Elle trempait, elle savonnait, elle frottait, elle lavait et elle tordait. Elle étendait les vêtements sur les rochers noirs pour qu’ils sèchent au soleil. Et tout à coup les rochers noirs, couverts de vêtements étendus, paraissaient plein de couleurs le long de ce bout de rivière.
Le père de Bel et Nel s’appelait José, il était menuisier. Il savait se servir habilement de ses instruments de travail : marteau, scie, herminette, robot et ciseau. Ses petites mains faisaient des chaises, des tables et des bancs. Elles réparaient des portes, des fenêtres et des portails. Le mois où Bel eut six ans, le menuisier José fut pris de douleurs dans la colonne vertébrale. Les os enflammés, les mains tremblantes, tout son corps lui faisait mal. La nuit dans sa chambre il gémissait. Dans son cœur commença à fléchir l’amour qu’il portait à Saint Joseph, le patron de la ville, à cause de la douleur qui le tourmentait. Au point qu’un jour le père de Bel et Nel perdit définitivement la foi qu’il avait toujours eue en Saint Joseph, le saint patron des menuisiers.
Le temps de Noël était venu. Nel voulait un grand avion, Bel une poupée qui pleure. Ils virent le gros vieux bonhomme au visage rose pour la première fois à la télévision du magasin. Il portait un sac de jouets sur le dos. Il avait une barbe blanche et des cheveux soyeux. Il portait des vêtements rouges. Il chaussait des bottes noires. Dans une des scènes où on le voyait à l’écran, se dessinait sur son visage rose un sourire qui communiquait une sensation de joie et de paix à chaque enfant qui allait parler avec lui et recevoir une caresse. Les enfants devant le magasin ne pouvaient détourner le regard de la télévision. On disait que le vieux bonhomme donnait des enfants à tous les enfants sans rien demander en retour. Ils souriaient quand le vieux bonhomme apparaissait avec ses vêtements bouffants sur l’écran. Ses petits yeux pleins d’amour scintillaient comme s’ils étaient enchantés.
Les yeux pleins d’espièglerie et souriant de toutes leurs dents, Bel et Nel allèrent regarder l’arbre décoré de boules et de guirlandes, installé dans un coin du magasin. La nuit les lumières s’allumaient et s’éteignaient. L’étoile tout en haut les impressionnait. Ils découvrirent ensuite la crèche dans un autre coin du magasin, avec les paysans, les bergers et les bêtes. Ils restèrent un moment à admirer la petite étable de la crèche, dont le plafond était couvert de feuilles de palmier. Un coq à la crête rouge se trouvait sur le toit. Une étoile brillait à la cime, brillant divinement. Notre Dame et Saint Joseph avaient l’air heureux, à côté du Petit Jésus, qui dormait d’un bon sommeil dans son berceau pur et chaud, fait de paille. Et les trois rois mages, dans la crèche, donnaient à entendre qu’ils n’étaient pas dignes de toucher la paille sur laquelle le Petit Jésus dormait de son sommeil serein.
Assis au bord du trottoir devant le magasin, Bel et Nel écoutaient maintenant la petite musique qui sortait joyeusement du haut parleur suspendu au lampadaire. De temps en temps le son du haut-parleur baissait. Alors la petite musique faisait un fond musical au moment où apparaissait la voix posée de l’animateur. Sa voix annonçait qu’arrivait de Bethléem l’étoile la plus belle. Elle avait été amenée par la nuit la plus longue. Sa lueur immense tombait du ciel et venait illuminer l’herbe où les bêtes annonçaient en chantant la naissance de l’enfant Jésus. La voix de l’animateur s’emplissait d’émotion quand il faisait part de la naissance en ce jour de cet enfant pauvre dans son étable. Cet enfant Dieu venait pour chasser le mal de toute la terre. La voix douce de l’annonceur achevait le message de paix éternelle avec encore plus d’émotion à la fin quand il révélait alors que les cloches du monde entier à cet instant sonnaient : Noël ! Noël !
La joyeuse petite musique reprenait dans le haut-parleur, accompagnée cette fois d’une chanson envoûtante. Bel et Nel étaient toujours assis au bord du trottoir. Ils recevaient le souffle de la brise qui se promenait dans la rue, à la fin du jour. La brise caressait doucement leur visage en silence, tandis que leurs cœurs étaient touchés par la chanson qui se répétait :

J’ai mis mon petit soulier
À la fenêtre de la cour.
Le Père Noël a laissé
Un cadeau, c’est mon tour

Il était encore dit dans la chanson que le petit vieux visitait la chambre de chaque enfant où il laissait un jouet comme cadeau lors de cette nuit particulière. Riche ou pauvre, blanc ou noir comme Bel et Nel, le petit vieux souriant au bon sourire n’oublie personne.
Bel et Nel mirent leurs tongs à la fenêtre de leur chambre. Ils ne trouvèrent rien quand le jour vint. Du haut du morne ils restèrent à regarder les nuages blancs, qui traversaient le ciel comme de grands oreillers. Quelques nuages plus petits prenaient des formes de jouets en passant doucement devant les yeux tristes des deux enfants.
Ils voyaient à cet instant la ville tout en bas, là-bas, à leurs pieds. Ils imaginaient le tohu-bohu de ce matin de fête. Dans la rue, dans le jardin, dans tous les coins de la maison. Chaque enfant montrait fièrement son jouet. Et sautait, et dansait, et courait, et rêvait, et volait, et souriait.
Alors ils comprirent comment le monde tournait le dos à Jésus. Il ne voulait pas voir Marie. Il se cachait de Joseph. Noël était la larme qui tombait le long de leur visage.
Et la chanson était défaite.






*Luciana Wrege Rassier a enseigné la littérature et la culture brésiliennes en France, d’abord à l’université de Montpellier (1994-2002) et ensuite à l’université de La Rochelle (2003-2010).  . Depuis 2010 elle enseigne au sein de l’Ecole doctorale en Etudes de la Traduction, à l’Universitée Fédérale de Santa Catarina, au Brésil.
**Jean-José Mesguen, né en 1952 à Rio de Janeiro, vit à Marseille, France. Auteur de quelques travaux sur le cinéma brésilien, traducteur d'articles sur les mouvements sociaux et politiques brésiiens, il co-traduit avec Luciana Wrege-Rassier Pequod, de Vitor Ramil, et Primeiro de Abril, de Salim Miguel.





  
4 - La Navidad de los niños negros



Cuento de Cyro de Mattos

Traducción de Meritxell Hernando Marsal




Vivían en el cerro, a la hermana la llamaban Bel, al hermano Nel. Bel no recibía de la vida la dulzura hecha con miel. Y Nel no vivía la vida, allá en lo alto del cerro, como si estuviese en el cielo. Su madre se llamaba María. Vestía ropas simples, gastadas por el uso diario. Nunca vistió un manto azul hecho de seda para brillar de día, como se veía en la iglesia con la imagen de la Virgen María.
La madre de Bel y Nel era lavandera. Tenía las manos gruesas de callos de tanto sacudir ropa en la corriente de aguas límpidas. Durante la semana descendía el camino por el barranco con el balde de ropa sucia en la cabeza. Cuando llegaba a la margen del río, colocaba el balde en una piedra grande, junto al arenal. No tardaba y comenzaba a sacar las ropas del hato. Mojaba, enjabonaba, fregaba, lavaba y torcía. Extendía las ropas en las piedras negras para que se secasen al sol. Las piedras negras, cubiertas de ropas extendidas, de repente aparecían coloreadas en aquel tramo del río.
El padre de Bel y Nel se llamaba José y era carpintero. Sabía usar con habilidad sus instrumentos de trabajo: martillo, sierra, gubia, cepillo y formón. Sus manos pequeñas hacían sillas, mesas y bancos. Arreglaban puertas, ventanas y portones. El mes que Bel completó seis años de edad, el carpintero José comenzó a sentir dolores en la columna. Los huesos inflamados, las manos trémulas, todo el cuerpo le dolía. Por la noche en el cuarto gemía. Su corazón fue disminuyendo el amor que le tenía a San José,  el patrón de la ciudad, a causa de la enfermedad que lo afligía. Hasta que un día el padre de Bel y Nel perdió para siempre su constante fe en San José, el santo protector de los carpinteros.
El tiempo de la Navidad había llegado. Nel quería un avión grande, Bel una muñeca que llora. Vieron al viejo gordo con rostro rosáceo por primera vez en la televisión de la tienda. Cargaba un saco de juguetes en la espalda. Tenía la barba blanca y los cabellos sedosos. Vestía una ropa colorada. Calzaba botas negras. En una de las escenas en que aparecía en la pantalla, dejaba escapar del rostro rosáceo una sonrisa que transmitía una sensación de alegría y paz a cada niño que iba a hablar con él o a recibir su cariño. Los niños en la vereda de la tienda no quitaban los ojos de la televisión. Comentaban que el viejo daba juguetes a los chiquilines sin querer nada a cambio. Ellos sonreían cuando el viejo aparecía con las ropas holgadas en la pantalla. Sus ojitos, en un solo querer, cintilaban como encantados.
Con los ojitos atentos y risitas que llenaban los dientecitos, Bel y Nel fueron a mirar el árbol adornado con bolitas y lucecitas, armado en uno de los lados de la tienda. Por la noche las lucecitas se encendían y se apagaban. La estrella en lo alto conmovía. Descubrieron después el belén en otro lado de la tienda, con los campesinos, los pastores y los animales. Se quedaron admirando el pequeño establo del pesebre, que tenía el techo cubierto de hojas de palmera. Un gallo de cresta roja estaba en el tejado. Una estrella brillaba en la cumbrera, toda encendida de Dios. Nuestra Señora y San José mostraban los semblantes felices, al lado de Jesuscristito, que dormía un sueño bueno en la cuna pura y caliente, hecha de paja. Y los tres reyes magos, allí en el pesebre, daban a entender que no eran dignos de tocar la paja donde Jesucristito dormía su sueño sereno.
Sentados en el borde de la vereda de la tienda, Bel y Nel escuchaban ahora la musiquita que salía alegre por el altavoz del poste. De vez en cuando el altavoz bajaba el sonido. Entonces la musiquita daba lugar a un fondo musical en el mismo instante en que entraba la voz pausada del locutor. Su voz informaba que llegaba de Belén la estrella más bella. La trajeron las manos de la aurora mayor. Su brillo inmenso descendía del cielo e iluminaba la hierba donde los animales anunciaban y cantaban el nacimiento del niño Jesús. La voz del locutor se emocionaba cuando comunicaba que aquel día nacía el niño pobre en el establo. Ese niño Dios venía para ahuyentar el mal de toda la tierra. La voz dulce del locutor terminaba su mensaje de paz eterna con más emoción al final, cuando revelaba que las campanas del mundo entero tocaban en ese momento: ¡Es Navidad! ¡Es Navidad!
El altavoz volvía a tocar la musiquita alegre, acompañada esta vez de una canción encantadora. Bel y Nel continuaban sentados al borde del paseo. Recibían el soplo de la brisa que circulaba en la calle, al final del día. La brisa suavizaba sus rostros en silencio, mientras que sus pequeños corazones eran tocados por la canción que se repetía y comenzaba así:

Dejé mi zapatito
en la ventana del patio.
Papá Noel ha dejado
mi regalo de Navidad…

  
Decía la canción más cosas aún, que el viejito siempre visitaba el cuarto de cada niño y allí dejaba un juguete como regalo esa noche especial. Sea rico, sea pobre, sea blanco, sea negro, como Bel y Nel, el viejito sonriente no se olvida de nadie.
Bel y Nel colocaron sus alpargatas en la ventana del cuarto. No encontraron nada al otro día. Del punto más alto del cerro se quedaron mirando las blancas nubes, transitando en el cielo como grandes almohadas. Unas nubes menores dibujaban juguetes mientras iban pasando mansas frente a los ojos tristes de los dos.
Veían en ese instante la ciudad allá abajo, a sus pies. Imaginaban la algarabía de la mañana festiva. En el paseo, en el jardín, en cualquier lado de la casa. Cada niño exhibía su juguete. Saltaba, bailaba, corría, volaba, sonreía.
Entonces supieron como el mundo le volvía la espalda a Jesús. No quería ver a María. Se escondía de José. La Navidad era la lágrima que por el rostro de los dos se escurría.
Y una canción deshacía.


* Meritxell Hernando Marsal nació en 1977 en Barcelona. Cursó la Maestría en la Universidad Nacional Autónoma de México y en Brasil realizó el Doctorado en la Universidad de São Paulo. Profesora de literatura en la Universidad Federal de Santa Catarina, en Florianópolis.















5 - Natale dei bambini negri


Racconto di Cyro de Mattos

Traduzione di Mirella Abriani

                             

Abitavano su una collina, la sorella si chiamava Bel e il fratello Nel. Bel non riceveva dalla vita la dolcezza fatta con il miele. E Nel non viveva, lassù sulla collina, come se fosse in cielo. La loro mamma si chiamava Maria. Indossava abiti modesti, consunti dall’uso. Non aveva mai indossato un manto di seta che risplendesse di giorno come si vedeva nelle chiese nelle immagini della Vergine Maria.
La mamma di Bel e Nel era una lavandaia. Aveva le mani ingrossate dai calli da tanto battere roba nella corrente delle acque limpide. Durante la settimana scendeva lungo il dirupo con la bacinella di roba sporca sulla testa. Quando arrivava in riva al fiume, metteva la bacinella sopra un grande sasso, vicino al greto. Non perdeva tempo e incominciava a togliere le cose dal mucchio. Bagnava, insaponava, sfregava, lavava e torceva. Stendeva gli indumenti su delle pietre nere perché si asciugassero al sole. Le pietre nere coperte di roba stesa, improvvisamente apparivano colorate in quel tratto del fiume.
Il papà di Bel e Nel si chiamava Giuseppe, era falegname. Sapeva usare con destrezza i ferri del mestiere: martello, sega, ascia, pialla e scalpello. Le sue piccole mani facevano sedie, tavoli e panche. Riparava porte, finestre e portoni. Quando Bel compì sei anni, il falegname Giuseppe cominciò a sentire dei dolori alla schiena. Le ossa infiammate, le mani tremanti, dolori dappertutto. Di notte, a letto, si lamentava. Il suo cuore andò spegnendo l’amore per San Giuseppe, il patrono della città, a causa della malattia che lo affliggeva. Finché un giorno il padre di Bel e Nel perse per sempre la sua inalterata fede in San Giuseppe, il santo protettore dei falegnami.
Arrivò Natale. Nel voleva un grande aereo, Bel una bambola che piange. Videro per la prima volta il vecchio grasso dal volto rubizzo nella televisione di un negozio. Reggeva un sacco di giocattoli sulle spalle. Aveva la barba bianca e i capelli setosi. Indossava una veste rossa e calzava stivali neri. In una delle immagini in cui appariva sul teleschermo, dal volto gli usciva un sorriso che comunicava una sensazione di allegria e pace a ogni bambino che andava a parlare con lui e a ricevere il suo affetto. I bambini che passavano di lì non toglievano gli occhi dalla televisione. Commentavano che il vecchio dava dei regali ai bambini senza chiedere niente in cambio. Ssorridevano quando il vecchio appariva sullo schermo con il suo ampio abito. I loro occhietti, incantati, scintillavano.
Con occhi vispi e sorrisetti che riempivano i dentini, Bel e Nel andarono a vedere l’albero decorato con palline e lucine, allestito in un angolo del negozio. Di sera le lucine si accendevano e si spegnevano. La stella in alto commuoveva. Dopo scoprirono il presepio in un altro angolo del negozio, con i contadini, i pastori e gli animali. Si fermarono ad ammirare la piccola stalla del presepio che aveva il tetto ricoperto di foglie di palma. Un gallo dalla cresta rossa si trovava sul bordo del tetto. Una stella brillava sulla sommità, tutta infiammata da Dio. La Madonna e San Giuseppe avevano un’espressione felice accanto al piccolo Gesù Cristo che dormiva il sonno del giusto nella culla pura e calda, fatta di paglia. E i tre re magi, lì nel presepio, lasciavano intendere che non erano degni di toccare la paglia dove il piccolo Gesù Cristo dormiva il suo sonno sereno. 
Seduti nel bel mezzo del passaggio del negozio, Bel e Nel ora ascoltavano la musichetta che usciva allegra dall’altoparlante. Ogni tanto l’altoparlante abbassava il volume. E allora la musichetta diventava un sottofondo musicale nello stesso momento in cui entrava la voce cadenzata dell’annunciatore. La voce informava che la stella più bella veniva da Betlemme. Era stata portata dalle mani della più grande alba. La sua immensa luce scendeva dal cielo e veniva a illuminare il prato dove gli animali annunciavano e cantavano la nascita del Bambino Gesù. La voce dell’annunciatore era emozionata quando comunicava che in quel giorno il bambino povero nasceva nella stalla. Questo Bambino Dio veniva a mettere in fuga il male di tutto il mondo. La voce dolce dell’annunciatore terminava il messaggio di pace eterna con più emozione quando  alla fine rivelava che le campane di tutto il mondo in quel momento risuonavano: È Natale! È Natale!
L’altoparlante tornava a suonare l’allegra musichetta, accompagnata questa volta da una canzone coinvolgente. Bel e Nel continuavano a stare seduti a metà del passaggio. Ricevevano il soffio della brezza che circolava fuori in strada sul finire del giorno. La brezza addolciva il volto dei due in silenzio, mentre i loro cuoricini erano toccati dalla canzone che si ripeteva e incominciava così:

Ho messo le mie scarpette
Alla finestra del cortile.
Babbo Natale ha lasciato
Il mio regalo di Natale...

Diceva altro la canzone, che il vecchietto andava sempre nella stanza di tutti i bambini dove lasciava un giocattolo di regalo in quella notte speciale. Che fosse ricco, povero, bianco, nero come Bel e Nel, il vecchietto sorridente e buono non dimenticava nessuno.
Bel e Nel misero le ciabattine alla finestra della stanza. Il giorno dopo non trovarono niente. Dal punto più alto della collina rimasero a guardare le candide nuvole che correvano in cielo come grandi cuscini. Delle nuvole più piccole disegnavano giocattoli mentre passavano mansuete davanti agli occhi tristi dei due.
Loro vedevano in questo momento la città là in basso, ai loro piedi,. Immaginavano lo schiamazzo della mattina di festa. Per strada, nei giardini, in qualsiasi angolo della casa. Ogni bambino esibiva il suo giocattolo. Saltava, ballava, correva, sognava, volava, sorrideva.
Allora seppero come il mondo dava le spalle a Gesù. Non voleva vedere Maria. Si nascondeva a Giuseppe. Il Natale era la lacrima che scendeva dal volto di loro due.
E una canzone si sgretolava.


  
* Mirella Abriani (Milano-Italia) è stata insegnante di Materie Letterarie. Si dedica alla traduzione di opere letterarie dal portoghese con particolare attenzione per gli scrittori e i poeti brasiliani. Há ottenuto buoni riconoscimenti in concorsi nazionali e internazionali, fra cui il Premio Leodegário A. De Azevedo Filho della União Brasileira de Escritores – RJ con la traduzione di “Cantos da Terra e da Água” di Cyro de Mattos.










Weihnachten der schwarzen Kinder

Eine Erzählung von Cyro de Mattos


Aus dem Portugiesischen
von Marcel Vejmelka



Sie lebten in der Favela, oben auf dem Hügel, die Schwester hieß Bel, der Bruder Nel. Für Bel war das Leben kein Honigschlecken. Und Nel lebte dort auf dem Hügel nicht wie im Himmel. Ihre Mutter hieß Maria. Sei trug einfache Kleidung, die schon abgetragen war. Nie trug sie einen festlichen blauen Seidenmantel, wie ihn die Jungfrau Maria in der Kirche trägt.  
Die Mutter von Bel und Nel war Wäscherin. Ihre Hände waren voller Schwielen vom vielen Waschen im klaren Fluss. Während der Woche stieg sie mit dem Korb voller Schmutzwäsche auf dem Kopf den Hang hinunter. Am Flussufer stellte sie den Wäschekorb auf einen Felsen am kleinen Strand. Dann nahm sie die Wäschestücke aus dem Bündel. Sie weichte ein und seifte ein, sie schrubbte und wusch und wrang. Sie breitete die Wäschestücke auf den schwarzen Felsen aus, damit sie in der Sonne trockneten. Von den ausgebreiteten Wäschestücken bedeckt, leuchteten die schwarzen Felsen an diesem Stück des Flusses plötzlich ganz bunt.     
Der Vater von Bel und Nel hieß José und war Tischler. Er war sehr geschickt mit seinem Werkzeug: mit dem Hammer, der Säge, dem Dechsel, dem Hobel und dem Beitel. Seine kleinen Hände bauten Stühle, Tische und Bänke. Sie reparierten Türen, Fenster und Tore. In dem Monat, in dem Bel sechs Jahre alt wurde, spürte der Tischler José Schmerzen im Kreuz. Seine Knochen waren entzündet, seine Händer zitterten, sein ganzer Körper schmerzte. Nachts im Bett stöhnte er. Wegen der Krankheit, die ihn so plagte, wandte sich sein Herz allmählich vom Heiligen Josef, dem Patron er Stadt, ab. Und eines Tages schließlich verlor der Vater von Bel und Nel seinen festen Glauben an den Heiligen Josef, den Schutzheiligen der Tischler, für immer.
Die Weihnachtszeit hatte begonnen. Nel wollte ein großes Flugzeug, Bel eine Puppe, die weinen konnte. Sie sahen den dicken alten Mann mit den roten Backen zum ersten Mal im Fernseher in einem Laden. Er trug einen Sack voller Spielzeug auf dem Rücken. Er hatte einen weißen Bart und silberne Haare. Er trug einen roten Mantel. Er trug schwarze Stiefel. In einer der Szenen auf Fernsehschirm formte sein rotbäckiges Gesicht ein Lächeln, das jedem Kind, das zu ihm kam und von ihm gestreichelt wurde, mit Freude und Frieden erfüllte. Die Kinder auf dem Gang im Laden konnten die Augen nicht vom Fernseher abwenden. Sie sprachen darüber, dass der alte Mann den Kindern Spielzeug gab, ohne etwas dafür zu verlangen. Sie lachten, wenn der alte Mann mit dem weiten Mantel auf dem Bildschirm erschien. Ihre Äuglein waren voller Wünsche und blinzelten wie verzaubert.
Mit klugen Augen und strahlend weißem Lachen schauten sich Bel und Nel den mit Kugeln und Lichtern geschmückten Baum in einer Ecke des Ladens an. Nachts blinkten die kleinen Lichter. Der Stern auf der Spitze war erwärmte das Herz. Danach entdeckten sie in einer anderen Ecke des Ladens die Krippe mit den Bauern, Hirten und Tieren. Sie bestaunten den kleinen Stall, dessen Dach aus Palmblättern war. Ein Hahn mit rotem Kamm stand auf dem Dach. Ein Stern leuchtete auf dem Dachfirst und verbreitete Gottes Glanz. Die Jungfrau Maria und der Heilige Josef schauten glücklich drein neben dem Christuskind, das in der reinen und warmen Wiege aus Stroh friedlich schlief. Und die heiligen drei Könige in der Krippe brachten zum Ausdruck, dass sie nicht würdig waren, das Stroh zu berühren, in dem das Christuskind so ruhig schlief.
Bel und Nel saßen auf der Bordsteinkante vor dem Laden und hörten nun die Musik, die fröhlich aus dem Lautsprecher an der Straßenlaterne drang. Hin und wieder wurde die Musik aus dem Lautsprecher leiser und bildete den Hintergrund für die nun einsetzende Stimme des Sprechers. Seine Stimme verkündete, dass von Betlehem der schönste aller Sterne kam. Er wurde vom größten aller Morgen auf den Händen getragen. Sein heller Glanz erstrahlte vom Himmel und erhellten den Rasen, wo die Tiere die Geburt des Christuskinds verkündeten und besangen. Die Stimme des Sprechers war ganz bewegt, als er erklärte, dass der Junge in einem Stall geboren wurde. Dieses Kind Gottes war gekommen, um das Böse von der gesamten Erde zu vertreiben. Die weiche Stimme des Sprechers beendete die Botschaft des ewigen Friedens mit größter Ergriffenheit und verkündete, dass in diesem Augenblick auf der ganzen Welt die Glocken läuteten: Es ist Weihnachten! Es ist Weihnachten!
Wieder ertönte die fröhliche Musik aus dem Lautsprecher, nun begleitet von einem bezaubernden Liedchen. Bel und Nel saßen noch immer auf der Bordsteinkante. Sie spürten den Atem der Abendprise, die durch die Straße wehte. Der Wind kühlte ihre schweigenden Gesichter, während ihre kleinen Herzen von dem Liedchen ergriffen wurden, das immer wieder erklang und so begann:

Meine Schuhe stellt ich
Ins Festerlein
Der Weihnachtsmann tat
Mein Geschenk hinein

Das Lied besagte weiter, dass der alten Mann immer alle Kinder in ihren Zimmern besuchte und dort in dieser besonderen Nacht ein Spielzeug als Geschenk zurückließ. Ob reich oder arm, ob weiß oder schwarz wie Bel und Nel, ... der lächelnde und gütige alte Mann vergisst niemanden.
Bel und Nel stellten ihre Sandalen aufs Fensterbrett in ihrem Zimmer. Nichts fanden sie dort am nächsten Morgen. Vom höchsten Punkt des Hügels aus betrachteten sie die weißen Wolken, die wie große Kissen über den Himmel zogen. Einige kleinere Wolken sahen aus wie Spielzeug, als sie gemächlich an ihren traurigen Augen vorbeizogen.
In diesem Augenblick sahen sie die Stadt dort unten zu ihren Füßen. Sie stellten sich das festliche Treiben dieses Morgens vor. Auf dem Gehweg, im Garten, überall im Haus. Jedes Kind zeigte sein Spielzeug her. Hüpfte, tanzte, rannte, träumte, flog und lachte.
Da wussten sie, dass die ganze Welt Jesus Christus den Rücken zuwandte. Und niemand wollte Maria sehen. Alle versteckten sich vor Josef. Weihnachten war die Träne, die über ihre beiden Gesichter lief.
Und ein Lied verklang.

                         

*Marcel Vejmelka, 1973 in Aachen geboren, ist wissenschaftlicher Mitarbeiter und Dozent der Abteilung Spanische und Portugiesische Sprache und Kultur am Fachbereich “Translations-, Sprach- und Kulturwissenschaften” (FTSK) der Johannes Gutenberg-Universität Mainz in Germersheim.