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quinta-feira, 26 de setembro de 2019





São Paulo

Cyro de Mattos

Para Samuel Penido,
em memória

            O Brasil é uma nação com várias nações dentro de seu território de dimensões continentais. Encontramos em São  Paulo todas essas nações brasileiras com pessoas vindas dos lugares mais distantes do País. Nessa cidade com uma superpopulação sempre crescente ouvimos, diariamente,  vozes estranhas,  costumes vindos  de povos que possuem  tradições das mais singulares.
          O homem do interior que pisa pela primeira vez nessa aldeia global fica como peixe fora d’água. Impressiona-se com a paisagem feita de cimento e aço, de grandes edifícios, que buscam as nuvens mais altas.  No asfalto, pneus cantam,  o homem passa anônimo e veloz nessa forja gigantesca que nunca descansa.
       Corre no tempo que nessa cidade  trabalho e dinheiro andam de mãos dadas.  O homem aqui tem que ganhar dinheiro com unhas e dentes numa maratona suicida.  O coração financeiro da cidade é a Avenida Paulista  com o seu modo intenso de estipular o mundo.
      Riqueza e pobreza são vizinhas em São Paulo. Ao céu aberto e nas galerias, elas estão juntas, vivem em seu ritmo tumultuado.  Soltam fumaça nas fábricas com suas inúmeras chaminés, que tornam o sol pálido, as nuvens cinzentas e o ar que tosse constante. Prenhe de detritos, o Tietê percorre a cidade na descida triste inventada por  bocas de vômito. Um rio com sua mágoa desce  no curso viscoso, pulmões quase sem ar nas águas escuras, , como a dizer SOS São Paulo antes tarde do que nunca.
Falam que o ser humano em São Paulo está  prisioneiro  num tempo de bruma. Diluído na multidão. É um partir que não chega, um caminhar sem parar. Hospitais,, escolas, igrejas, fichários,, descargas de fumaça, lá se vai o fiel habitante sem bagagem e com suas armas que comovem.  Nas esquinas, bares, restaurantes, , danceterias, madrugadas. Nos motéis com fumos, com cio, álcool, drogas. Colmeia gigantesca, aqui o homem tem a língua presa na sua ânsia de falar com solidariedade e doçura.  Esse homem sem nome na selva de pedra.  No shopping  center, no subsolo, na Avenida São João,  no estádio, no metrô,  no supermercado,  na fábrica, no elevador. O homem e seus dentes de fera naquele velho aprendizado de ter uma vida com sobras.  Nessa cidade onde o povo é fluxo e refluxo em torno de si mesmo, tão luta.
O homem tão do mundo, vivendo o seu medo na cidade enevoada.
Você acha um lugar ao sol na praça, onde os pombos fazem uma bela aparição. Igual à Cinelândia, no Rio de Janeiro. Os pombos fazem uma bela formação, baralham em festa tormentas, suavizando o animal insano, o desarmado pedestre, o audaz andarilho diário em seu estado de graça.


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domingo, 22 de setembro de 2019







          Homem Insuportável

Cyro de Mattos


Não que fosse cheio de rancor. Depressivo, pessimista.
Alimentada era a alma com as coisas boas da vida.
Só que ninguém queria chegar perto dele para um dedo de prosa. Vizinhos evitavam  encontrá-lo. Não queriam cruzar com ele  no mesmo passeio.
A pobre mulher faleceu daquele odor horrível. Generosa, sacrificada. Uma santa, os vizinhos comentavam. Durante anos suportar o cheiro mal-cheiroso do marido. 
Comigo ninguém pode, nem percevejo nem bode, dizia contente, sorrindo.
Acostumado  à solidão da casa.
Desde pequeno o pavor de água. A mãe empurrava–o para o banheiro aos gritos. Ameaçava-o com os piores castigos.  Resistia até quando podia. A presença do pai com a taca na mão intimidava-o. Ficava sem saída. Um horror quando a água do chuveiro batia na pele fétida. Chorava alto.
 Quando ficasse grande, sairia de casa para não sofrer o castigo diário. Banho de água fria ou quente nunca mais. 
 Jovem, em plena força da idade, cada dia mais distante de um banho para refrescar o corpo no verão. Demorava dias. Mesmo que fosse rápido. Num abrir e fechar de olho. Resistia.
O cheiro insuportável aderindo à pele, grossa como casca de madeira,  com o lodo dos  anos passando, encrespando, cascuda. 
Aproveitava o calorão do tempo abafado como numa estufa. Passeio sob o sol a pino.  Voltava para a casa com o corpo molhado de suor. Tirava a roupa, torcia a calça, a camisa. Deixava aquele caldo oleoso ir caindo da roupa  na bacia. Aí, sim, jogava-o no corpo aos poucos.  Não se enxugava. Lograva com isso  o suor extraído  do corpo,  suficiente para banhá-lo como se água fosse. 
No ônibus ninguém se aventurava a ficar perto dele. Passageiros espirravam. Tapavam o nariz. Alguns esbravejavam.
Urubus ficavam assanhados no telhado, pressentiam que ele circulava entre os cômodos da casa.
          Os vizinhos nem conseguiam mais dormir.
          Achou conveniente ir morar na cadeia. Conviver com aquela gente imunda. Como ele. Certamente não gostava de tomar banho.
          Os presos fizeram greve de fome. Exigiram que saísse o mais breve da cadeia. O mau cheiro vindo de sua cela deixava todos eles enfurecidos, gritando, ameaçando-o de morte.
          Sem querer mais transtornos, decidiu morar  nos arredores da cidade. Lugar solitário. Somente ele, ninguém mais. Junto do lixão.
Teve um dia que trancou portas e janelas. E lá dentro,  no escuro, permaneceu  para sempre. Protegido dos clamores, ameaças, xingamentos. Em seu reduto intransponível. Somente ele com a fedentina do  corpo.
Deleite das horas,  absorvidas com o maior prazer.        



sexta-feira, 13 de setembro de 2019



Literatura Infantil e Juvenil Baiana

Entrevista a Cyro de Mattos por Normeide  Rios,
Professora da Universidade Estadual de Feira de Santana.


Normeide Rios - Como o senhor se tornou escritor? O que o motivou a escrever para crianças e jovens?
Cyro de Mattos - Publiquei  meu primeiro conto “A Corrida” no suplemento literário do Jornal da Bahia, editado por João Ubaldo Ribeiro, em 1960. Daí para cá nunca mais parei. Meu  livro de estréia foi Berro de fogo, contos, em 1966. Está riscado de minha bibliografia porque seu texto envelheceu em pouco tempo. Pelo menos serviu para deflagrar meu processo criativo. Escrever começou assim  na adolescência e se fez dentro de mim fundamental como o amanhecer. Ainda que seja um grão no deserto, escrever é a minha maneira de inaugurar sentidos, estar sozinho e solidário num só tempo,  dizendo silêncios. Este é meu  lugar onde arrisco tudo. Agradeço à ternura que herdei de minha mãe  a inclinação para escrever livros infanto-juvenis. Quando já tinha escrito uma vintena de livros para adultos, aconteceu no escritor idoso o menino acordar  e pedir  que eu escrevesse para crianças e jovens. Tudo foi de repente, sem programar nada. Não sei explicar. De uns vinte anos para cá, tenho escrito para crianças e jovens.  Vem dando  certo, com prêmios importantes e reedições sucessivas de livros.

Normeide Rios - Existem diferenças entre escrever para adultos e escrever para crianças e jovens?
 Cyro de Mattos - O livro para adultos tem suas características próprias, sua técnica, espaço, tempo, lugar  e modo. Tratamento e abordagem que o diferem da obra escrita para crianças e jovens. O livro infantojuvenil possui  universo criativo específico, com suas nuances, linguagem, ritmo, psicologia. Mas livro bom é o  rico de sentidos, servindo  para idosos e pequenos. Convenhamos que Kafka, Pessoa, Jorge Luís Borges, Eça de Queiroz e Machado de Assis, entre outros, que eu saiba não escreveram seus livros importantes  para crianças e adolescentes.  Não é o caso de Bartolomeu Campos Queirós, Ana Maria Machado, em parte Monteiro Lobato, esse que veio para encantar e morar  no coração de crianças e jovens. Para não se falar em Cecília Meireles  com o  seu admirável Ou isso ou aquilo .

Normeide Rios -  O que é preciso considerar para escrever para o público infantojuvenil?
 Cyro de Mattos -  A psicologia do que se pretende dizer deve  emergir e corresponder às razões e emoções da criança e do jovem. A linguagem ser clara, sem perder o poético. Ternura, graça,  ritmo ágil, rima cativante. Na prosa uma história que prenda do princípio ao fim, como aprendi em minhas primeiras  leituras das revistas em quadrinhos, os meninos de meu tempo chamavam guri e gibi. 

Normeide Rios -  O conceito de literatura está sempre mudando, de acordo com o contexto histórico e cultural. Qual é a sua visão de literatura? O que é literatura?
Cyro de Mattos - Forma de conhecimento da vida através dos sinais visíveis da escrita. Não resolve os problemas econômicos, políticos, sociais e religiosos. Mas torna a vida viável e viver  sem ela é impossível.  Meu livro de crônicas  Alma mais que tudo traz esta epígrafe  retirada de Drummond: Se procurar bem, você acaba encontrando/ Não a explicação (duvidosa) da vida/ Mas a poesia (inexplicável) da vida. Se quiserem, é como digo neste poema mínimo: Poesia. Meu amor. Minha dor. Ó flor.

Normeide Rios -  O que é literatura infantojuvenil?
Cyro de Mattos - Caminhos da escrita que se abre para a formação de uma mentalidade em crescimento. Dá prazer, faz sorrir, viajar na infância ou juventude, enriquece e nada toma em troca. Como a que é feita para adultos,  sua matéria são as palavras - o pensamento, a ideia,  a imaginação – estando ligada diretamente a uma das atividades básicas do indivíduo em sociedade: a leitura.  Busca alcançar o leitor iniciante para uma formação integral, em que entra o eu mais o outro mais o mundo. Seu espaço, como se vê, é o da iniciação à vida,  que  cada um deve cumprir e viver em seu meio social.  

Normeide Rios - A literatura direcionada a crianças e jovens durante muito  tempo foi marginalizada por ser considerada um gênero menor. Qual a sua opinião sobre isso?
Cyro de Mattos - Esta é uma visão que se ressente de perspectiva crítica. Um grande equívoco, preconceito calcado em uma ótica  de que o que vale é o sujeito adulto, criança e jovem ainda não são gente, seu universo pouco tem a dizer, dado que superficial e  inconseqüente.  Isso é um absurdo adotado pelos distraídos  que ainda não perceberam que a verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da consciência  de mundo, situações  e circunstâncias   que cada um vai armazenando  desde a infância.  

Normeide Rios - Apenas recentemente a literatura infantojuvenil começou a abandonar o vínculo com a pedagogia, que a marcava desde o seu surgimento, e buscou se afirmar como arte literária. Como escritor de obras literárias para crianças e jovens, quais as suas considerações sobre a relação literatura infantojuvenil, pedagogia e arte?
Cyro de Mattos - O livro predisposto a fazer a cabeça da criança e do jovem revela deformações flagrantes. Tal predominância parece-nos sem sentido. Estamos com Nelly  Novaes Coelho quando diz que  a Literatura, em  especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor//livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola.  A escola é hoje o espaço em que a relação entre o leitor e o livro mais se desenvolve na descoberta do eu mais o outro mais o mundo. Natural que  os princípios ordenadores da vida  neste espaço  transmitidos contribuam para motivar o acontecimento de uma nova civilização. De outra parte, a literatura infantojuvenil é arte que se faz com engenho e linguagem sedutora.  As relações de aprendizagem  e vivência  são fundamentais nesta perspectiva que nos informa ser somente ela, como a que é feita para adultos,  capaz de devolver à criatura humana o que é próprio  da criatura humana: inteligência e sentimento.

Normeide Rios -  E sobre a tríade autor-obra-leitor?
Cyro de Mattos - Ninguém escreve  um livro para ficar no fundo da gaveta.  O autor  pretende com o livro transmitir uma experiência de vida e estabelecer uma dialética de tácito entendimento com o leitor pelas vias e arredios do ser, entre o  belo e o feio,  o alegre  e o triste , o riso e o rancor,  o amor e o ódio, a aventura e o risco, a vida e a morte.

Normeide Rios -  Como autor, de que forma o senhor busca interagir com o seu leitor?
Cyro de Mattos - Comprometido  com as verdades essenciais do ser humano. Cheio de sonho.

Normeide Rios -  Como é o processo de criação de suas obras literárias infanto-juvenis? Quais os elementos que o senhor considera essenciais para garantir a qualidade artística das produções?
Cyro de Mattos - É uma viagem gratificante sob os instantes do menino e  jovem. Retorno ao tempo colorido  do  antigamente, que já vai longe. Reúno  pedaços da infância  e adolescência que os homens  trancaram na alma.  Noto  que os componentes estruturais do texto resultante desta pulsação  do coração  devem corresponder ao mundo da criança ou do jovem. Tanto na forma como no fundo. Entra nisso  como ingredientes importantes   a espontaneidade e  a habilidade, que o autor deve possuir na criação de  um livro de poesia ou prosa de ficção para crianças e jovens. A expressão deve se manifestar com simplicidade  no aparentemente fácil.   .

Normeide Rios - Como aconteceu o seu primeiro contato com livros literários? O que costumava ler na infância e adolescência?
Cyro de Mattos - Quando era pequeno comecei lendo revistas em quadrinhos. Descobri  Júlio Verne, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Poe e Dickens na biblioteca de seu Zeca Freire,  o dono da farmácia em minha cidade natal, e também na livraria e papelaria  A Agenciadora.. Quase adolescente fui estudar interno em Salvador, e, na biblioteca do Colégio Maristas,  foi a vez de ler Castro Alves, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, José de Alencar, Humberto de Campos e Machado de Assis. Ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia  e nesse tempo gostava de visitar pela tarde a Livraria Civilização Brasileira, na Rua Chile. Sedento, buscava ali o pote da leitura.  Foi o tempo do conhecimento  de Dostoiewski, Tolstoi, Checov, Katherine Mansfield, Sartre, Kafka, Pessoa, Brecht, Joyce, Faulkner,  Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Adonias Filho, Lúcio Cardoso, José Lins do Rego, Jorge Amado,  Autran Dourado, Aníbal Machado, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Mário de Andrade,  Drummond, Cecília  Meireles, Cassiano Ricardo, Jorge de Lima,  entre tantos admiráveis escritores  que me ensinaram a  ver melhor a vida,  equilibrar-me entre vazios,  crenças e verdades,  que se formavam  tecidas com  os fios eternos do imaginário. 

 Normeide Rios -  Qual a sua opinião sobre a atual produção de obras para crianças e jovens?
Cyro de Mattos - Muita boa, digna de qualquer literatura no mundo. Lembro Bartolomeu Campos Queirós, Elias José, Ana Maria Machado, Lígia Bojunga, Sylvia Orthof, Mário Quintana  e outros. Entre nós baianos, gosto da literatura infantojuvenil de   Gláucia |Lemos..

Normeide Rios -  No panorama nacional, como se posiciona a produção de escritores baianos?
Cyro de Mattos -  Há quem diga que a melhor poesia brasileira está sendo feita hoje no Nordeste e, em especial, aqui na Bahia. Concordo. Ressalto que contistas e alguns romancistas daqui são também  de qualidades insuspeitadas.  A literatura brasileira está entregue hoje em boas mãos aqui na Bahia. Não entendo por que ainda  não se escreveu uma crítica e ampla   História da Literatura Baiana, de Gregório de Matos aos tempos atuais. Seria um projeto para ter o apoio do   Governo do Estado,   executado  por um corpo  de professores universitários e autores expressivos, que preencheria  certamente uma  omissão no mínimo lastimável.     

Normeide Rios -  Suas obras infantojuvenis são produzidas tanto em verso quanto em prosa. Há predileção do autor entre essas duas formas de escritura?
Cyro de Mattos - Sinto-me à vontade na prosa como no verso. Quem determina se prosa ou verso  é o assunto, o momento,  a inspiração ou seja lá o que for. 

Normeide Rios - Cyro de Mattos recorre a lembranças da infância e da adolescência para criar seu mundo ficcional? Pode-se dizer que Histórias do mundo que se foi é um livro de “memórias da infância”?
Cyro de Mattos - A infância é uma das vertentes de minha  poesia para adultos, da prosa de  ficção para crianças e jovens. Como acontece em Histórias do mundo que se foi, “memórias da infância” transfiguradas como ficção podem ser encontradas também em Roda da infância, novela que está acabando de sair do forno da editora  Dimensão, e O Menino na memória, pequeno romance juvenil ainda inédito. 

Normeide Rios -  O menino e o trio elétrico é a história de um sonho que se realiza, mas é também uma narrativa que aborda questões culturais e diferenças sociais. Houve o objetivo de fazer denúncia social? Qual o papel da literatura infantojuvenil frente aos problemas sociais e econômicos presentes na realidade do leitor?
Cyro de Mattos - Não tive intenção de fazer denúncia social na história triste do Chapinha com final  feliz. Do texto escorre  humanismo social entrelaçado  com a poesia da vida. Não forcei nada. Simplesmente busquei representar o real  com ternos sentimentos de mundo, ser  coerente frente aos problemas e contradições do carnaval  hoje em Salvador. Alguns críticos disseram que fui o primeiro a trazer a realidade aguda do carnaval de hoje, em Salvador, para a literatura infantil, numa história bem concebida,  escrita com espontaneidade, solidariedade e amor.  


     * Entrevista concedida à professora Normeide Rios, da Universidade Estadual de Feira de Santana,  incluída na tese de mestrado Os caminhos da literatura infanto-juvenil baiana: em sintonia com o leitor, apresentada na Universidade Estadual de Feira de Santana, aprovada com distinção e louvor. A dissertação foi publicada como livro pela Editora da Universidade Estadual da Bahia – EDUFBA.         

sexta-feira, 6 de setembro de 2019





  ABISMO DA RAZÃO
                     
                          Cyro de Mattos

Do lado de lá, nas terras longes, o homem irascível, bigodinho nervoso. Acabava de instalar  o império do medo. Desejava ser o dono do mundo, montado na crença da supremacia da raça branca. Dos mais sofisticados, em alta escala, os armamentos bélicos. Milhões de criaturas indefesas reduzidas  a cinzas nos fornos crematórios.
           Anos de fogo, sombras, pesadelos. O mal sem limites.  Corpos usados para expe­riências absurdas. Mães separadas dos filhos, maridos das mulheres. A terra virada no inferno. Milhões de inocentes eliminados sem dó, na enchente a morte. A liberdade recuada para os subterrâneos mais  indignos.
         Sirenes, bombas, torpedos. Explosões, cra­teras, escombros.  A fera ressurgia da antiga caverna, assoberbada galopava nas trevas. Não concedia  a trégua, bania a razão para os confins inimagináveis do abismo mais profundo.  A vida nutrida de fúria galopava  na engrenagem monstruosa do absurdo, o elogio de nadas,  tudo sem sentido. Orgulhoso o hominho irascível,  inundado de prazer, sorrindo de contente com o  holocausto, rostos de penúria, estilhaços de gente por todos os cantos.
         No final,  o triunfo do amor. Solda­dos uníssonos no campo da vitória. Retirada do estúpido  abismo,  de forças dementes   a razão açoitada no gesto vil, a pobre coitada ainda resistia.  Encerrada com os corpos de  pessoas fuziladas, o tenebroso acúmulo de ossatura, o teatro fétido  nos  odores da morte, empilhada nos canais enormes.  
         Grande passeata  pelas ruas do lado de cá, gente grande e  pequena  dando vivas à liberdade.  O sorriso que alarga o rosto apareceu na rua de barro batido,  os habitantes da cidade pequena em euforia incontrolável.  Bombas inimigas caladas para sempre. Já não existem mais as horas do mundo cheio de grito e agonia. Os sinos tocando sem parar a canção constante da paz, antiga, belíssima, irradiando bondade e alegria.  
       Acreditava-se nos dias promissores. O homem redimido agora, renascido da razão,   nervos fraternos, sentimentos do amor. Cânticos emanavam do peito o bem supremo da felicidade. Não mais o coração esmagado sob as patas impassíveis de manadas enfurecidas. Nos ares libertos da opressão, bemóis da  cantiga geral  da união como verdade.
     A praça,  um bloco extenso de gente, comoventes olhos brilhavam na direção do homem fardado no palanque. De volta da guerra, o rosto do herói numa máscara feita de tecidos sólidos. O locutor chamou  o  guardador dos ramos da vitória.  Entregou-lhe o microfone. “ Comece, por favor,  estão ansiosos para ouvir seu relato sobre o horror.”  O homem disse para o locutor, tinha o   olhar imóvel  diante da multidão,  soltando murmúrios, o vozear confuso,  “não posso”.   “Faça um esforço”, retornou  o locutor, animando-o.  “Não tenho palavras para descrever o terror. ” Acrescentou, mastigando as palavras, “é impossível”.   O locutor ainda perguntou, “não tem palavras?”  O herói fez um esgar medonho,  deixou todos com a expressão no assombro diante do silêncio impassível.  Com dificuldade,  confirmou,  “perdi as palavras nos anos de fogo e bombardeio.”  
           A multidão frustrada, gente triste rumo às suas casas, passos pesados, arrastados, em silêncio, rostos para o chão. Uma procissão de almas penadas,  visagens de outro mundo.  O herói  havia ajudado esmagar uma mulher diabólica, que arrasa os sonhos, bombardeia projetos, dizima a maravilha, mata a esperança, tritura a ternura, no lugar põe o abismo, que engole a razão sem remorso.  Com sua corrida desembestada, pisoteia tudo que nasce do amor.  Era importante ouvi-lo. Inútil sua palavra congelada. Imprestável para relatar o terror.  Sua razão não tinha sã consciência para descrever a imensa desgraça que viveu no pior abismo.      


quinta-feira, 29 de agosto de 2019



                         

                    Caçador Guinó
                                  
                          Cyro de Mattos

        Quando era pequeno ouviu o caçador Guinó  dizer no alpendre da casa de quatro águas: ”Os netos dos fazendeiros de cacau  não serão fazendeiros de cacau..” Voz lerda: ”Cacau gosta de chuva. E as chuvas vão escassear com tanto desmatamento que não para.” Não chegou a compreender o que o caçador Guinó quis dizer com o futuro sombrio que o tempo estava reservando para a lavoura.  As matas eram profundas de tão escuras e se estendiam por baixadas e serras, até lá onde ninguém consegue alcançar e o céu acurva. As chuvas caíam sempre grossas, demoradas, os homens nunca iriam conseguir desbastar tantas léguas de mata, que cobriam  a terra por léguas e léguas.
Vivera na fazenda períodos felizes da vida,  infância despreocupada, dias alegres  chegados dos campos de chuva e flor. Passavam ligeiros sem que percebesse, de tanto prazer que lhe davam. Derrubava  na jaqueira a fruta madura com o podão. Comia a jaca mole e doce sem pressa, sob a sombra dos cacaueiros. Andava de volta para a casa com os passos  misturando-se com as folhas secas do chão, os ruídos quebrando o silêncio das roças. O suor molhava a camisa,  respirava  o ar puro feito de árvore e flor, que o envolvia dos pés à cabeça.
Quando anoitecia,  colocava o banquinho para o caçador Guinó sentar junto dele no alpendre. Aquele negro de corpo roliço, olhos quase imóveis, nariz achatado, lábios grossos, sabia  contar como ninguém  histórias com bichos, pássaros, peixes e assombrações. Era o único que podia andar dias na mata turva. Os homens curvavam–se à sua vontade quando o assunto era a mata trevosa. Os pés descalços, pequenos, mas resistentes. Munido de farinha, carne-seca e aguardente, cruzava a mata fechada em todas as direções, como que guiado pelo faro invisível de um bicho atento.  Conhecia as árvores pela casca e folhas. Os pássaros pelos pios e cantos. Os bichos pelos ruídos e odores. As flores pelos cheiros e cores. Tinha dois cães espertos, que o acompanhavam em suas andanças pela mata. Um colar com dentes de caititu no pescoço. Espingarda e bornal a tiracolo
            A primeira vez que apareceu no terreiro já tinha uma cicatriz feia no braço esquerdo, marca deixada pela dentada de uma onça. Pelos cabelos brancos e pele com vincos no rosto, dava para se observar que era um homem  idoso, boca quase desdentada, apenas quatro dentes, dois na parte de cima e dois na de baixo. O pai Alvinho perguntou uma vez onde ele morava, respondeu que era numa caverna abandonada por uma onça pintada com duas crias já grandes, bem longe dali, perto de uma cachoeira que caía da serra numa pancada forte e formosa. Tinha aberto uma clareira lá, onde plantou uma roça de milho e feijão, não adiantou nada, não vingou nenhuma coisa nem outra, as chuvas grossas que caíram nas semanas azedaram tudo. Adiantou que só caçava para comer o necessário,  o mesmo fazia quando pescava num ribeirão de águas claras. Só matava o macho de cada caça, de preferência quando o bicho estava velho. Conhecia a idade do bicho perseguido pelo fôlego. Bicho velho não corre muito, cansa mais rápido e se entrega. Quando uma fêmea ou filhote caía no laço, soltava.
Uma vez por mês aparecia na fazenda,  os cachorros rodeando a casa, farejando tudo. O pai perguntou se ele quisesse morar na fazenda, escolhesse o tipo de serviço que mais agradasse, nas roças de cacau ou na lida com os animais de serviço ou até mesmo derrubando pau grande na mata. Ninguém nasce sabendo, tudo na vida tem um começo, o pai incentivando para ele ficar com a gente. Terminou aceitando, vindo trabalhar como apontador dos pedações de mata contendo árvores com muita madeira de lei.
 Durante o tempo que ficou na fazenda, nunca deixou de ir caçar à noite na mata fechada. Uma vez falou para os trabalhadores que a onça não mete medo nestas bandas, nem o gavião-gigante, nem a cobra enorme da lagoa. O que mete medo mesmo é um bicho que anda em duas pernas aqui em cima, este é o mais perigoso. Onde só um manda, os demais não andam porque vivem se arrastando com a canga que lhes foi botada. Ele mesmo já tinha passado por isso na pele, no tempo que foi escravo, lá no Engenho de Porto Verde. Num momento de distração do feitor, fugiu da senzala, saiu disparado pelo canavial, ganhando cortes das folhas da cana, ferindo-se no corpo todo. Passou fome, sede, frio, noites acordadas. Rezou para os espíritos da mata, dormiu em cima de árvore, mas ficou livre para sempre, melhor do que ser escravo é viver como caçador dentro da mata braba.
Pai Alvinho, ao saber daquelas falas dele, achou que era uma afronta que merecia ser corrigida. Mandou que ele não ficasse mais na fazenda, fosse morar na mata, era lá o seu lugar, no meio dos bichos de pelo e de pena, que ele tão bem conhecia e entendia como ninguém neste mundo.
           Foi justamente o que aconteceu.  O caçador Guinó foi morar na mata, perigosa, escura,  de tão fechada. Nunca mais se ouviu falar dele.

sábado, 10 de agosto de 2019






                                  Uma Amizade Antiga

                                           Cyro de Mattos 


O livro é esse amigo que nos acompanha há séculos, possibilitando o crescimento interior. Conhecemos outras vozes do mundo com esse amigo. Inauguramos  a vida com novos olhares, superamos vícios e medos. Sabemos de casos que divertem, viajamos  por  terras nunca conhecidas. Damos voo à razão através da  linguagem que usa  para  cada tipo de leitor. Um de seus milagres consiste em tornar leve todo o peso terrestre feito  de solidões, angústias  e perdas. Sua amizade não trilha os caminhos do interesse, transpira  sinceridade. Com ele aprendemos que só talento não basta para quem quiser se tornar um filósofo, cientista ou poeta. É necessário  o hábito da leitura. Esse amigo está pronto para dizer que, vivendo  na sua companhia,  a vida fica mais fácil. Matamos até a morte. 
Gosta de se mostrar nas livrarias. O lugar mais digno para acomodá-lo  em nossa  casa é a biblioteca. Quem não tem poder aquisitivo para adquiri-lo,  pode achá-lo em uma   biblioteca pública.. Lá está nas prateleiras o amigo solidário,  esperando nossa  visita para uma conversa útil. Mostra muitas coisas numa cumplicidade que informa, dá prazer, encanta. Faz aparecer paisagens impossíveis, que  vão entrando  na  medida em que uma página puxa a outra..
Livro xilografado, impresso com pranchas de madeira gravadas. Em rolos de papiro e também de pergaminho, no Egito. Nas telas de seda da China. Recolhido em manuscritos, no trabalho paciente e anônimo dos bibliotecários de Alexandria. Livro da sabedoria, do Antigo Testamento. Filosófico, científico e literário. Repositório do pensamento humano, dos povos para os povos, de geração em geração, com seus rumores milenares.
Vem contribuindo para que o mundo mantenha portas e janelas abertas, o sol acenda manhãs, o vento sopre momentos que somam. Das formas primitivas às técnicas de editoração moderna,  com esse amigo, como o braço ao abraço, os seres humanos aprendem que os dias de exercitar  a existência e conhecer  o outro ficam menos falhos. 
          O padre Antônio Vieira disse certa vez que “o livro é um mudo que fala,  um surdo que responde, um cego que via, um morto que vive.”  Acho  que a  fala da nossa maior figura da oratória sacra combina com o que eu  li num para-choque de caminhão: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.”  Verdade. Hoje, na minha terceira idade, reli O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry, a seguir  O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Saí depois  para a vida rejuvenescido.
De cabeceira ou de bolso, o livro é esse  fiel amigo por vias e arredios, capaz  de  dizer silêncios por meio dos sinais visíveis da escrita.  
Fiquei certa vez abatido por conta da afeição que nutro por esse amigo. Quando morei na fazenda São Bernardo, nas imediações de Ferradas, chão onde nasceu o  romancista do mundo Jorge Amado e o poeta Telmo Padilha,  os   livros que trouxe do Rio de Janeiro ficaram encaixotados até que pudesse comprar uma estante digna de recebê-los. E, numa noite sem estrelas, a chuva caiu pesada na terra centenária.  O telhado velho da pequena casa não suportou o volume da água que corria por entre as calhas.  Em pouco tempo, poças d’água formaram-se em vários cantos da casa por causa das goteiras.
No outro dia, encontrei molhados os caixões que guardavam velhos amigos. Lembro que apressado fui retirando do primeiro caixão  Além dos Marimbus,  de Herberto Sales, Uma Vida em Segredo, de Autran Dourado”, Poesias, de Manuel Bandeira, O Salto do Cavalo Cobridor, de Assis Brasil, Fábulas, de La Fontaine, Dom Quixote, de Cervantes,  Timeless Stories for Today and Tomorrow, de Ray Bradbury, Hamlet, de Faulkner, The Grass Harp, de Truman Capote,  A Metamorfose, de Kafka, O Muro, de Sartre, e A Moveable Feast, de Ernest Hemingway. Foram os livros mais atingidos pela chuva que  caíra  naquela noite cortada por relâmpago e trovoada. Páginas manchadas, letras borradas, capas danificadas. Ainda tentei salvá-los, espalhando-os abertos no passeio para que fossem aquecidos pelos raios de um  sol tímido.
Aqueles livros haviam sido adquiridos com o dinheiro da mesada que o pai mandava para o moço do interior na Capital, onde cursava a Faculdade de Direito.. Outros foram comprados nos meus anos de jornalista  no Rio de Janeiro. Meu coração sentia um tremor quando descobria um desses amigos na vitrina, balcão ou prateleira de livraria, acenando-me para que fosse adquiri-lo. 
À noite  peguei no sono como um herói inútil. Acordei deprimido no outro dia. Aqueles que não consegui salvar tinham me  ofertado ricos momentos de leitura, horas de sonho e palavras de amor varando as madrugadas. Madrugadas do homem solitário, que, no silêncio da noite, lograva  extrair sentidos  da vida com aqueles companheiros especiais. Jamais esqueci isso.  


segunda-feira, 5 de agosto de 2019






PAULO BOMFIM: O PRÍNCIPE DOS POETAS
                                                    
                                                   Raquel Naveira*

São Paulo ganha um toque mágico nos dias frios e chuvosos, quando mergulha na brancura úmida, que sempre caracterizou essas terras. Foi numa madrugada assim, de sete de julho de 2019, que faleceu, aos 92 anos, Paulo Lébeis Bomfim, o jornalista, o ativista cultural, o último “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Esse título foi outorgado pela primeira vez pela esfuziante revista Fon-Fon, que circulou de 1909 a 1958, marcando o estilo da Belle Époque, os hábitos cariocas como ir a cafés, cinemas, apreciar as artes e os jogos de futebol, ao som frenético das buzinas dos automóveis, ao poeta parnasiano Olavo Bilac. O título foi dado também aos poetas Alberto de Oliveira e Olegário Mariano. O jornal “Correio da Manhã” imitou a iniciativa e fez ascender Guilherme de Almeida. Mais tarde, a revista Brasília, através de votação, passou o título a Paulo Bomfim. Citava-se a máxima atribuída a Píndaro, poeta da Antiguidade Grega: “Os poetas são iguais aos príncipes e a glória do príncipe só existe graças aos poetas. Só se deve ser humilde perante a divindade, tal como os príncipes.”
Quem teve a alegria e o privilégio de conhecer e conviver com o poeta Paulo Bomfim, sabe, de forma natural, que ele era de fato um príncipe, um nobre, chefe do Principado da Poesia, o mais notável em talento e outras qualidades, entre seus pares. Um homem fino, alto, de maneiras polidas e aristocráticas. Seu porte era majestoso, grave e digno. Na Academia Paulista de Letras, na qual era o decano, tendo tomado posse há mais de cinquenta anos, assisti a alguns de seus pronunciamentos e declamações. Era entusiasmado, criativo, inspirado. Despertava o sentimento do belo, apontava o que havia de mais elevado e comovente nas pessoas e nas coisas, com encanto, graça, atração. Era íntegro e inteiro, na sua fala loquaz de homem consagrado à poesia, na sua capacidade de imaginação e devaneio, no seu caráter idealista. Era um verdadeiro fidalgo, que tinha nas veias o sangue dos bandeirantes paulistanos. Seus ancestrais ergueram cidades e igrejas, formaram famílias. Escreveu certa vez: “...sobre as mãos que teclam esta crônica, pousam as mãos de meu pai e de meu avô. As de meu pai empunhando a pena ou o bisturi, salvando vidas e apontando rumos; as de meu avô, mãos de semeador de civilização, de senhor de terras a perder de vista, transformadas em rosas que o sangue foi tornando rubras.”
O amor de Paulo Bomfim pela cidade de São Paulo era feito de ternura, compaixão, profundo conhecimento, arguto olhar sobre as mudanças ocorridas nas décadas de sua longa existência: a história de cada rua, de cada nome, de cada estátua, de cada prédio, tudo contava com minúcias, detalhes, memória clara de lago profundo. E sempre tinha um sorriso, um olhar azulado e inteligente, uma palavra generosa de incentivo e lealdade para com os amigos e companheiros de ofício. Lembro-me de sua alegria e gratidão, quando do lançamento do livro fotobiográfico Paulo Bomfim: Porta-Retratos, organizado pela jornalista Di Bonetti, em comemoração aos seus 90 anos. Exalava alegria e pureza, transparente como cristal.
Sua vigorosa poesia, que se firmou depois da fase heroica do Modernismo, buscou sempre uma linguagem essencial e dimensões temáticas como a metafísica, a social, a circunstancial, principalmente em relação à sua cidade. O editor Rodrigo Leal Rodrigues definiu-a como “uma permanente viagem através de si mesmo”, movido desde o início, “a nervos e emoções”. Pertenceu à chamada “geração de 45”, à qual se juntam nomes como Domingos Carvalho da Silva, Ledo Ivo, Thiago de Melo, Marcos Konder, Geraldo Vidigal e outros. Poetas com pendor para uma dicção erudita e a volta, nem sempre sistemática, a metros e formas fixas de cunho clássico como o soneto e a ode. Poetas que tendiam à pesquisa formal e concebiam poesia como arte da palavra, em contraste com abordagens que valorizavam o material extra-estético do texto. Poetas que reagiram a desafios históricos como a guerra fria, a bomba atômica, as lutas raciais, a corrida interplanetária, o neocapitalismo, a tecnocracia. Poetas que atingiram planos altos e complexos de integração. Poetas imagéticos, em busca de símbolos, de véus que ocultavam e, ao mesmo tempo, sugeriam sentimentos, estados da alma. Poetas que, por um lado, subestimaram o que o Modernismo trouxe de liberação e de enriquecimento cultural e, por outro, propuseram problemas importantes de poesia, com soluções mais conscientes do que nos tempos agitados do irracionalismo de 22.
A poesia de Paulo Bomfim é mesmo cheia de imagens e símbolos. Pinço alguns: há uma “nuvem que penetra a carne da manhã”, uma “cascata de pedras onde imprime seus passos de espuma”, uma parede de mundo, onde a janela se abre para “paisagens, naufrágios, cantigas e viagens”; uma campina onde dragões mastigam fogos verdes”. E de advertências para um momento de  vilezas e explorações como o nosso: “Ai daqueles que brincam com a esperança de um povo. Ai dos indiferentes, dos corruptos, dos mentirosos que fabricam a violência, a trama do medo e usam o dinheiro para prostituir, humilhar, deformar, traficar a feira dos seus mortos, enxovalhar as tradições. Ai dos que traem compromissos com o presente e o futuro, que se entregam sem lutar. Ai dos que morrem vivos.” No meio das avenidas neuróticas, das máquinas e dos roubos, o poeta, que é feito de tudo e nada, faz um apelo: “_ Mas deixai-me poetar!” Sim, poetar, até o fim, apesar de tudo.
Fazia frio naquela manhã de julho em São Paulo. Os amigos se reuniram no salão do Tribunal de Justiça para se despedirem do poeta. Por um instante, parece que vi o vulto do Príncipe, no seu terno de lã escura, empunhando um guarda-chuva negro, atravessar a rua e recostar sob um antigo lampião de luz chapada na neblina.


*RAQUEL NAVEIRA é escritora, professora universitária, crítica literária, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, autora de vários livros de poemas, ensaios, romance e infantojuvenis. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (onde exerce atualmente o cargo de vice-presidente), à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao PEN Clube do Brasil.

quarta-feira, 10 de julho de 2019




As Proezas do Soneto

Cyro de Mattos


A poesia permite  ao homem realizar-se como um ser mágico, que  consegue retirar a cegueira da matéria.  A poesia está em tudo. Procure bem, você a encontra.  Não esqueça que só o poeta a ergue no poema como testemunho de sua experiência perante a existência. Nessa corrente energética que emana da natureza humana, o soneto acontece como uma festa prazerosa de poucas estrofes.  Trata-se de uma forma fixa  de poema  com quatorze versos,  dispostos em dois quartetos e dois tercetos. O último verso é tido como “chave de ouro”,  devendo surpreender e encantar  com a sua revelação no desfecho. 
Combatido pelos vanguardistas, os protagonistas da Semana da Arte Moderna de 22 não lhe pouparam depreciações,  alardeando naquele movimento a indignação de  “fora a gaiola” contra o indefeso poema breve, além de    outras referências nada agradáveis. Sua febre imperceptível fez com que atravessasse séculos, permanecesse até hoje,  reverenciado com fidelidade por poetas modernos,   com vistas a atingir o nível superior da alma. Esse  breve espaço operacional da criatividade assim  vem sustentando  o ser em estado súbito da comoção.
A língua portuguesa ganhou em beleza e modulações rítmicas com o verso decassílabo.  Considerado  como o mais melodioso e harmonioso, é usado no soneto.  Apesar disso, é dado ao poeta que cultiva o soneto a  alcunha de soneteiro, sonetoso e sonetifero. O exímio sonetista baiano João Carlos Teixeira Gomes registra uma série de expressões em desfavor das andanças do  rejeitado  poema de quatorze versos:  “refúgio da decadência”, “gaiola da inspiração”, “bestialógico acadêmico”, “muleta da má poesia”, “cabresto da criatividade”, “onanismo poético”, “barbitúrico para insônia”, “sucedâneo de palavras cruzadas”, “museu do bolor  formalista”, “chavão de segunda ordem”,  “formalismo oco e vazio”, “museu de velharias passadistas” .
Não obstante o comportamento contundente dos que desfazem de  imbatível  criatura nanica,  sua garra  permite que continue de pé, ínfimo caminhante do  sol e da chuva   nos seus modestos passos de quatorze versos,  buscando em sua peripécia métrica e feiticeira do imaginário atingir o ponto máximo do encanto na alma do receptor.   Segue  indiferente às acusações e atropelos da legião de fanáticos,  que não o aceitam, sob qualquer hipótese. Teima em habitar com seus lampejos líricos a floresta dos poemas maiores,  de  poetas célebres  com suas criações em versos longos,  eloqüente  quantidade de  estrofes.
É dado a formar uma sequência  quando  vários poemas são ligados entre si por uma concepção e execução magistrais do tema,  como se deu com os cento e cinqüenta e quatro sonetos de Shakespeare. Outra de suas proezas quando escrito em sequência é formar a coroa de sonetos,  uma forma poética composta por 15 sonetos, que têm ligação entre si por um tema. Os  primeiros e últimos versos são versos de um outro (décimo quinto) soneto, denominado soneto-base, ou soneto-síntese.
O soneto em mãos seguras de mestres arrebata delírios, alimenta paixões, cultiva ilusões, carrega fardos, cai em desterros, colhe perdas,  ergue perjuros, dissemina encantos, enfeitiça nos vazios. Incrível, abre-se à participação de um acontecimento  raro, rico, exuberante. Transmuda-se em uma festa de  imagens opulentas, faz-se comunhão do saber aliado à beleza, espalha na vida as  suas sementes nas zonas encantatórias da beleza com síntese.
É visível que o seu procedimento fulgurante faz pensar no homem como resultado de outro ser, pleno de brilho na dimensão forjada de transcendência com  base em apetites e  desejos. Dotado dessa voz estranha,  em cuja inspiração tira o homem de si mesmo para ser tudo o que é, percebemos que o desejo posto na festa  lustrada com ritmos de versos esplêndidos é de algo que se confunde com cada um de nós. Visto como evocação, recriação de uma experiência, eis  que ressurge de uma senda que está dentro do lado noturno de  nós mesmos. Convém lembrar que essa imagem do mundo transmitida em poema com o formato breve, rígido, pode  causar ao poeta  a indiferença aos seus sonhos constrangidos, abafados no clamor de seus gemidos.
Sonoridade que serve como vínculo do verso para salientar a significação da vida, unidade rítmica que sustenta a ideia fluindo  no texto como música,  ardência que soa na rima com vibrações da palavra tradutora de inventiva rumorosa,  da qual emana com luzeiros e fulgores, procedidos como hábitos e atitudes, o  poeta eficaz aceita no soneto o desafio de exibir-se com indumentária repetitiva de inclinações breves. 
 No resultado final da imagem, o soneto, esse feitiço que perdura além do tempo, presta-se  à natureza diversa dos humanos, ao fogo do amor, que cresce como luz na treva.