Páginas

sábado, 19 de outubro de 2019



JORNALISTA IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO TOMA POSSE NA CADEIRA 11 DA ABL E AFIRMA: “NÃO PODEMOS REPOUSAR A CABEÇA ALHEIOS AO TERROR NEM PERMITIR QUE NOS ARRANQUEM A VOZ DE NOSSAS GARGANTAS” 
A chegada de Ignácio de Loyola Brandão à Academia Brasileira de Letras constitui motivo de júbilo pessoal e institucional. Somos leitores de sua bela ficção, audaciosamente brasileira, composta de muitas vozes. Ignácio realiza em plenitude o diálogo entre literatura e liberdade. Tal gesto reflete o destino da Casa de Machado. Bem-vindo, Ignácio”, afirmou o Presidente da ABL, Acadêmico Marco Lucchesi.


O jornalista Ignácio de Loyola Brandão tomou posse na Cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras, hoje, sexta-feira, dia 18 de outubro, em solenidade no Salão Nobre do Petit Trianon. O novo Acadêmico foi eleito no dia 14 de março deste ano, na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe, falecido em 9 de setembro de 2018. Em nome da ABL, o Acadêmico e escritor Antônio Torres fez o discurso de recepção.
Antes, Ignácio de Loyola Brandão discursou na tribuna. Ao terminar, assinou o livro de posse. A seguir, o Presidente Marco Lucchesi convidou o Acadêmico Celso Lafer para fazer a aposição do colar; o Acadêmico e professor Arnaldo Niskier (decano presente) para entregar a espada; e a Acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira para entregar o diploma. Terminada a cerimônia, o Presidente, então, declarou empossado o novo Acadêmico.
A mesa da cerimônia foi presidida por Marco Lucchesi e composta pelos Acadêmicos Ana Maria Machado, José Murilo de Carvalho, Merval Pereira e Antônio Torres.
Os ocupantes anteriores da Cadeira foram: Lúcio de Mendonça (fundador) – que escolheu como patrono Fagundes Varela –, Pedro LessaEduardo RamosJoão Luís AlvesAdelmar TavaresDeolindo CoutoCelso Furtado e Helio Jaguaribe.

DISCURSO DE POSSE
Em seu discurso de posse, o Acadêmico Ignácio de Loyola Brandão declarou: “para desenvolver o Brasil precisamos de Desenvolvimento, democracia, liberdade, saúde para sobreviver, ensino e trabalho, ausência de fome e miséria, de segurança e acima de tudo ética e verdade. E principalmente nos relacionarmos sem ódio, indignação, acirramento.” 
E encerrou: “não podemos repousar a cabeça alheios ao terror nem permitir que nos arranquem a voz de nossas gargantas”.

DISCURSO DE RECEPÇÃO
O Acadêmico Antônio Torres afirmou em seu discurso de recepção: “precisaria de mil e uma noites para juntar no Salão Nobre do meu cérebro todos os grãos separados em minhas leituras, releituras, anotações, e memórias em torno da sua imensurável trajetória.
“Eu me recordo de uma redação agitada e barulhenta de um jornal vibrante, no Vale do Anhangabaú, na qual éramos colegas de trabalho há mais de um ano, mas pouco nos falávamos.
“Num dia em que bati o ponto no grande relógio postado um pouco além da porta de entrada da redação bem antes da hora, imaginando ser o primeiro a chegar, fui surpreendido com o tac-tac-tac de uma máquina de escrever, único sinal de vida naquele salão vazio. Ao passar perto de quem, de costas para a entrada, catava feijão nas teclas completamente absorvido pelo seu matraquear, tive outra surpresa: a de um aceno para que me aproximasse. A mão que acenava apontou para uma pilha de páginas que mal cabiam na borda de uma estreita mesa, enquanto uma voz dizia: - Dá uma olhada nisso.
“E foi assim, ao acaso, que me senti testemunha ocular do nascimento do primeiro livro de um escritor que não demoraria muito a se tornar um dos expoentes de uma geração que chegaria a esta Casa”.


O NOVO ACADÊMICO
Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara, São Paulo, em 1936. Jornalista na sua cidade natal, foi para São Paulo aos 21 anos, onde continuou sua carreira. Trabalhou no jornal Última Hora, nas revistas Cláudia, Realidade, Setenta, Planeta, Ciência e Vida, Lui e Vogue. Atualmente escreve uma crônica quinzenal para o jornal O Estado de S. Paulo.
Viveu em Roma e depois em Berlim. Em 2008, ganhou o prêmio Jabuti, com o O Menino que Vendia Palavras, considerado a melhor ficção do ano. Em 2011, lançou A Morena da Estação, crônicas sobre trens, ferrovias, estações. Publicou, em 2014, Os olhos cegos dos cavalos loucos, um emocionante pedido de perdão de um neto para seu avô. Em 2016, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.
Para ele, literatura é sonho, paixão, divertimento, prazer, viagem por mundos desconhecidos, terapia. Com sua filha Rita Gullo subiu ao palco em teatros e nas unidades do SESC com o show “Solidão no fundo da agulha”, experiência inédita em que relembra momentos importantes de sua biografia.
Publicou mais de 40 livros, entre romances e contos, crônicas infantis e infantojuvenis. 


segunda-feira, 14 de outubro de 2019





O Menino e a Bola
         Cyro de Mattos

-         Abra essa porta, menino.
-         Não quero não.
-         O que é que você tem?
-         Não sei.
-         Por que você não acaba com esse choro?
-         Não posso não.
-         Você vai ficar trancado aí dentro o tempo todo?
-         Vou.
-         E sua mãe, seu pai?
-         Eu não quero ver ninguém.
-         Jura?
-         Não quero.
-         E seus brinquedos?
-         Dê pro Tonico.
-         Deixe de bobagem, Vilinho. Tudo já passou.
-         Eu não vou esquecer.
-         Esqueça tudo, Vilinho. Você já é um homem.
-         Não posso.
-         Mas que coisa mais esquisita!
-         Ainda dói, tio.
-         O quê?
-         Dói muito, aqui no lado esquerdo.
-         Você foi o vencedor?
-         Fui.
-         E então? O que é que você mais queria?
-         Isso não importa.
-         Como não importa?
-         Eu já disse que nunca vou esquecer.
-         Tire,  menino, tire logo essas bobagens da cabeça.
-         Não posso.
-         E por que você não pode?
-         Tio, por favor...
-         Olhe, o Tonico e o Dudu estão aqui fora.
-         Eles ainda estão aí? E por que não vão embora?
-         Eles estão dizendo que você tinha razão, foi provocado primeiro.
-         Eu não queria.
-         Hein?
-         Não queria brigar não.
-         Mas isso tinha que acontecer um dia.
-         Eu já disse que não queria.
-         Aconteceu também comigo quando eu tinha a sua idade.
-         Antes eu tivesse dado a bola a ele.
-         Ele quem?
-         O Armando, que quis tomar minha bola.
-         O filho do juiz?
-         Ele mesmo.
-         Mas ele é maior que você!
-         É.
-         E você ganhou mesmo a briga?
-         Ganhei.
-         No duro?
-         Ganhei.
-         Fale a verdade.
-         Estou falando.
-         Você bateu muito nele?
-         Bati.
-                                                  -  Então por que todo esse choro? Por que ficar trancado aí dentro o tempo todo?
-         Eu não  tive outro jeito.
-         O que mesmo?
-         Não tive outro jeito.
-         Abra essa porta, menino!
-         Não abro.
-         Vai abrir ou não vai?
-         Acredite, tio, só bati nele pra me defender.
    Um choro agudo irrompeu dentro do quarto.
-         Abra essa porta, Vilinho. Por que você não quer abrir?
-         Não posso.
-         Abra logo. O Tonico e o Dudu estão querendo falar com você.
-         Não me interessa falar com ninguém.
-         Por que você não quer?
-         Porque não quero.
-         Quer que eu mande chamar seus pais?
-         Não.
-         Tem certeza?
-         Tenho.
-         E o que é que você quer que eu faça?
-         Tio, por favor, vá embora... me deixe aqui em paz.
     E o choro agudo continuou dentro do quarto.

                           






terça-feira, 8 de outubro de 2019




Novo livro de Cyro de Mattos
É de Poemas Sobre o Negro



Com quase oitenta e um anos de idade, mais de cinqüenta dedicados à literatura, o escritor baiano Cyro de Mattos,  membro da Academia de Letras da Bahia, continua em plena  vitalidade de  criação literária.  Seu novo livro,   Poemas de Terreiro e Orixás, que acaba de ser publicado pela Mazza Edições (BH) , vai ser lançado no dia 30 de outubro, às 17 horas, na sede da Academia de Letras da Bahia, na avenida Joana Angélica, 198, Nazaré, Salvador.
           Em Poemas de Terreiro e Orixás,  Cyro de Mattos comparece com um  modo encantatório de pensar o negro. Seus sentimentos refletem um jeito comovente de ser negro, ritmado no canto vindo da África, que transforma a alma em crença e magia.  As imagens de seus versos dizem de coisas tristes,  que não se apagam no rastro das distâncias, na sucessão infeliz dos momentos.  Mas há também nelas  vozes de uma gente alegre, que consegue suplantar os limites contrários impostos pela existência.
       Com saberes, histórias, sonhos, costumes,  preceitos, liturgias, os poemas desse livro apresentam o negro com seus orixás, sua cantiga feita de amor, para seduzir com  solidariedade.  Esse  negro afrodescendente com o  seu universo plantado na Bahia, como testemunho do homem carregado de poesia,  valores que tornam  perceptíveis os movimentos viáveis da vida.



quinta-feira, 26 de setembro de 2019





São Paulo

Cyro de Mattos

Para Samuel Penido,
em memória

            O Brasil é uma nação com várias nações dentro de seu território de dimensões continentais. Encontramos em São  Paulo todas essas nações brasileiras com pessoas vindas dos lugares mais distantes do País. Nessa cidade com uma superpopulação sempre crescente ouvimos, diariamente,  vozes estranhas,  costumes vindos  de povos que possuem  tradições das mais singulares.
          O homem do interior que pisa pela primeira vez nessa aldeia global fica como peixe fora d’água. Impressiona-se com a paisagem feita de cimento e aço, de grandes edifícios, que buscam as nuvens mais altas.  No asfalto, pneus cantam,  o homem passa anônimo e veloz nessa forja gigantesca que nunca descansa.
       Corre no tempo que nessa cidade  trabalho e dinheiro andam de mãos dadas.  O homem aqui tem que ganhar dinheiro com unhas e dentes numa maratona suicida.  O coração financeiro da cidade é a Avenida Paulista  com o seu modo intenso de estipular o mundo.
      Riqueza e pobreza são vizinhas em São Paulo. Ao céu aberto e nas galerias, elas estão juntas, vivem em seu ritmo tumultuado.  Soltam fumaça nas fábricas com suas inúmeras chaminés, que tornam o sol pálido, as nuvens cinzentas e o ar que tosse constante. Prenhe de detritos, o Tietê percorre a cidade na descida triste inventada por  bocas de vômito. Um rio com sua mágoa desce  no curso viscoso, pulmões quase sem ar nas águas escuras, , como a dizer SOS São Paulo antes tarde do que nunca.
Falam que o ser humano em São Paulo está  prisioneiro  num tempo de bruma. Diluído na multidão. É um partir que não chega, um caminhar sem parar. Hospitais,, escolas, igrejas, fichários,, descargas de fumaça, lá se vai o fiel habitante sem bagagem e com suas armas que comovem.  Nas esquinas, bares, restaurantes, , danceterias, madrugadas. Nos motéis com fumos, com cio, álcool, drogas. Colmeia gigantesca, aqui o homem tem a língua presa na sua ânsia de falar com solidariedade e doçura.  Esse homem sem nome na selva de pedra.  No shopping  center, no subsolo, na Avenida São João,  no estádio, no metrô,  no supermercado,  na fábrica, no elevador. O homem e seus dentes de fera naquele velho aprendizado de ter uma vida com sobras.  Nessa cidade onde o povo é fluxo e refluxo em torno de si mesmo, tão luta.
O homem tão do mundo, vivendo o seu medo na cidade enevoada.
Você acha um lugar ao sol na praça, onde os pombos fazem uma bela aparição. Igual à Cinelândia, no Rio de Janeiro. Os pombos fazem uma bela formação, baralham em festa tormentas, suavizando o animal insano, o desarmado pedestre, o audaz andarilho diário em seu estado de graça.


·        

domingo, 22 de setembro de 2019







          Homem Insuportável

Cyro de Mattos


Não que fosse cheio de rancor. Depressivo, pessimista.
Alimentada era a alma com as coisas boas da vida.
Só que ninguém queria chegar perto dele para um dedo de prosa. Vizinhos evitavam  encontrá-lo. Não queriam cruzar com ele  no mesmo passeio.
A pobre mulher faleceu daquele odor horrível. Generosa, sacrificada. Uma santa, os vizinhos comentavam. Durante anos suportar o cheiro mal-cheiroso do marido. 
Comigo ninguém pode, nem percevejo nem bode, dizia contente, sorrindo.
Acostumado  à solidão da casa.
Desde pequeno o pavor de água. A mãe empurrava–o para o banheiro aos gritos. Ameaçava-o com os piores castigos.  Resistia até quando podia. A presença do pai com a taca na mão intimidava-o. Ficava sem saída. Um horror quando a água do chuveiro batia na pele fétida. Chorava alto.
 Quando ficasse grande, sairia de casa para não sofrer o castigo diário. Banho de água fria ou quente nunca mais. 
 Jovem, em plena força da idade, cada dia mais distante de um banho para refrescar o corpo no verão. Demorava dias. Mesmo que fosse rápido. Num abrir e fechar de olho. Resistia.
O cheiro insuportável aderindo à pele, grossa como casca de madeira,  com o lodo dos  anos passando, encrespando, cascuda. 
Aproveitava o calorão do tempo abafado como numa estufa. Passeio sob o sol a pino.  Voltava para a casa com o corpo molhado de suor. Tirava a roupa, torcia a calça, a camisa. Deixava aquele caldo oleoso ir caindo da roupa  na bacia. Aí, sim, jogava-o no corpo aos poucos.  Não se enxugava. Lograva com isso  o suor extraído  do corpo,  suficiente para banhá-lo como se água fosse. 
No ônibus ninguém se aventurava a ficar perto dele. Passageiros espirravam. Tapavam o nariz. Alguns esbravejavam.
Urubus ficavam assanhados no telhado, pressentiam que ele circulava entre os cômodos da casa.
          Os vizinhos nem conseguiam mais dormir.
          Achou conveniente ir morar na cadeia. Conviver com aquela gente imunda. Como ele. Certamente não gostava de tomar banho.
          Os presos fizeram greve de fome. Exigiram que saísse o mais breve da cadeia. O mau cheiro vindo de sua cela deixava todos eles enfurecidos, gritando, ameaçando-o de morte.
          Sem querer mais transtornos, decidiu morar  nos arredores da cidade. Lugar solitário. Somente ele, ninguém mais. Junto do lixão.
Teve um dia que trancou portas e janelas. E lá dentro,  no escuro, permaneceu  para sempre. Protegido dos clamores, ameaças, xingamentos. Em seu reduto intransponível. Somente ele com a fedentina do  corpo.
Deleite das horas,  absorvidas com o maior prazer.        



sexta-feira, 13 de setembro de 2019



Literatura Infantil e Juvenil Baiana

Entrevista a Cyro de Mattos por Normeide  Rios,
Professora da Universidade Estadual de Feira de Santana.


Normeide Rios - Como o senhor se tornou escritor? O que o motivou a escrever para crianças e jovens?
Cyro de Mattos - Publiquei  meu primeiro conto “A Corrida” no suplemento literário do Jornal da Bahia, editado por João Ubaldo Ribeiro, em 1960. Daí para cá nunca mais parei. Meu  livro de estréia foi Berro de fogo, contos, em 1966. Está riscado de minha bibliografia porque seu texto envelheceu em pouco tempo. Pelo menos serviu para deflagrar meu processo criativo. Escrever começou assim  na adolescência e se fez dentro de mim fundamental como o amanhecer. Ainda que seja um grão no deserto, escrever é a minha maneira de inaugurar sentidos, estar sozinho e solidário num só tempo,  dizendo silêncios. Este é meu  lugar onde arrisco tudo. Agradeço à ternura que herdei de minha mãe  a inclinação para escrever livros infanto-juvenis. Quando já tinha escrito uma vintena de livros para adultos, aconteceu no escritor idoso o menino acordar  e pedir  que eu escrevesse para crianças e jovens. Tudo foi de repente, sem programar nada. Não sei explicar. De uns vinte anos para cá, tenho escrito para crianças e jovens.  Vem dando  certo, com prêmios importantes e reedições sucessivas de livros.

Normeide Rios - Existem diferenças entre escrever para adultos e escrever para crianças e jovens?
 Cyro de Mattos - O livro para adultos tem suas características próprias, sua técnica, espaço, tempo, lugar  e modo. Tratamento e abordagem que o diferem da obra escrita para crianças e jovens. O livro infantojuvenil possui  universo criativo específico, com suas nuances, linguagem, ritmo, psicologia. Mas livro bom é o  rico de sentidos, servindo  para idosos e pequenos. Convenhamos que Kafka, Pessoa, Jorge Luís Borges, Eça de Queiroz e Machado de Assis, entre outros, que eu saiba não escreveram seus livros importantes  para crianças e adolescentes.  Não é o caso de Bartolomeu Campos Queirós, Ana Maria Machado, em parte Monteiro Lobato, esse que veio para encantar e morar  no coração de crianças e jovens. Para não se falar em Cecília Meireles  com o  seu admirável Ou isso ou aquilo .

Normeide Rios -  O que é preciso considerar para escrever para o público infantojuvenil?
 Cyro de Mattos -  A psicologia do que se pretende dizer deve  emergir e corresponder às razões e emoções da criança e do jovem. A linguagem ser clara, sem perder o poético. Ternura, graça,  ritmo ágil, rima cativante. Na prosa uma história que prenda do princípio ao fim, como aprendi em minhas primeiras  leituras das revistas em quadrinhos, os meninos de meu tempo chamavam guri e gibi. 

Normeide Rios -  O conceito de literatura está sempre mudando, de acordo com o contexto histórico e cultural. Qual é a sua visão de literatura? O que é literatura?
Cyro de Mattos - Forma de conhecimento da vida através dos sinais visíveis da escrita. Não resolve os problemas econômicos, políticos, sociais e religiosos. Mas torna a vida viável e viver  sem ela é impossível.  Meu livro de crônicas  Alma mais que tudo traz esta epígrafe  retirada de Drummond: Se procurar bem, você acaba encontrando/ Não a explicação (duvidosa) da vida/ Mas a poesia (inexplicável) da vida. Se quiserem, é como digo neste poema mínimo: Poesia. Meu amor. Minha dor. Ó flor.

Normeide Rios -  O que é literatura infantojuvenil?
Cyro de Mattos - Caminhos da escrita que se abre para a formação de uma mentalidade em crescimento. Dá prazer, faz sorrir, viajar na infância ou juventude, enriquece e nada toma em troca. Como a que é feita para adultos,  sua matéria são as palavras - o pensamento, a ideia,  a imaginação – estando ligada diretamente a uma das atividades básicas do indivíduo em sociedade: a leitura.  Busca alcançar o leitor iniciante para uma formação integral, em que entra o eu mais o outro mais o mundo. Seu espaço, como se vê, é o da iniciação à vida,  que  cada um deve cumprir e viver em seu meio social.  

Normeide Rios - A literatura direcionada a crianças e jovens durante muito  tempo foi marginalizada por ser considerada um gênero menor. Qual a sua opinião sobre isso?
Cyro de Mattos - Esta é uma visão que se ressente de perspectiva crítica. Um grande equívoco, preconceito calcado em uma ótica  de que o que vale é o sujeito adulto, criança e jovem ainda não são gente, seu universo pouco tem a dizer, dado que superficial e  inconseqüente.  Isso é um absurdo adotado pelos distraídos  que ainda não perceberam que a verdadeira evolução de um povo se faz ao nível da consciência  de mundo, situações  e circunstâncias   que cada um vai armazenando  desde a infância.  

Normeide Rios - Apenas recentemente a literatura infantojuvenil começou a abandonar o vínculo com a pedagogia, que a marcava desde o seu surgimento, e buscou se afirmar como arte literária. Como escritor de obras literárias para crianças e jovens, quais as suas considerações sobre a relação literatura infantojuvenil, pedagogia e arte?
Cyro de Mattos - O livro predisposto a fazer a cabeça da criança e do jovem revela deformações flagrantes. Tal predominância parece-nos sem sentido. Estamos com Nelly  Novaes Coelho quando diz que  a Literatura, em  especial a infantil, tem uma tarefa fundamental a cumprir nesta sociedade em transformação: a de servir como agente de formação, seja no espontâneo convívio leitor//livro, seja no diálogo leitor/texto estimulado pela escola.  A escola é hoje o espaço em que a relação entre o leitor e o livro mais se desenvolve na descoberta do eu mais o outro mais o mundo. Natural que  os princípios ordenadores da vida  neste espaço  transmitidos contribuam para motivar o acontecimento de uma nova civilização. De outra parte, a literatura infantojuvenil é arte que se faz com engenho e linguagem sedutora.  As relações de aprendizagem  e vivência  são fundamentais nesta perspectiva que nos informa ser somente ela, como a que é feita para adultos,  capaz de devolver à criatura humana o que é próprio  da criatura humana: inteligência e sentimento.

Normeide Rios -  E sobre a tríade autor-obra-leitor?
Cyro de Mattos - Ninguém escreve  um livro para ficar no fundo da gaveta.  O autor  pretende com o livro transmitir uma experiência de vida e estabelecer uma dialética de tácito entendimento com o leitor pelas vias e arredios do ser, entre o  belo e o feio,  o alegre  e o triste , o riso e o rancor,  o amor e o ódio, a aventura e o risco, a vida e a morte.

Normeide Rios -  Como autor, de que forma o senhor busca interagir com o seu leitor?
Cyro de Mattos - Comprometido  com as verdades essenciais do ser humano. Cheio de sonho.

Normeide Rios -  Como é o processo de criação de suas obras literárias infanto-juvenis? Quais os elementos que o senhor considera essenciais para garantir a qualidade artística das produções?
Cyro de Mattos - É uma viagem gratificante sob os instantes do menino e  jovem. Retorno ao tempo colorido  do  antigamente, que já vai longe. Reúno  pedaços da infância  e adolescência que os homens  trancaram na alma.  Noto  que os componentes estruturais do texto resultante desta pulsação  do coração  devem corresponder ao mundo da criança ou do jovem. Tanto na forma como no fundo. Entra nisso  como ingredientes importantes   a espontaneidade e  a habilidade, que o autor deve possuir na criação de  um livro de poesia ou prosa de ficção para crianças e jovens. A expressão deve se manifestar com simplicidade  no aparentemente fácil.   .

Normeide Rios - Como aconteceu o seu primeiro contato com livros literários? O que costumava ler na infância e adolescência?
Cyro de Mattos - Quando era pequeno comecei lendo revistas em quadrinhos. Descobri  Júlio Verne, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Poe e Dickens na biblioteca de seu Zeca Freire,  o dono da farmácia em minha cidade natal, e também na livraria e papelaria  A Agenciadora.. Quase adolescente fui estudar interno em Salvador, e, na biblioteca do Colégio Maristas,  foi a vez de ler Castro Alves, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, José de Alencar, Humberto de Campos e Machado de Assis. Ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia  e nesse tempo gostava de visitar pela tarde a Livraria Civilização Brasileira, na Rua Chile. Sedento, buscava ali o pote da leitura.  Foi o tempo do conhecimento  de Dostoiewski, Tolstoi, Checov, Katherine Mansfield, Sartre, Kafka, Pessoa, Brecht, Joyce, Faulkner,  Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Adonias Filho, Lúcio Cardoso, José Lins do Rego, Jorge Amado,  Autran Dourado, Aníbal Machado, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Mário de Andrade,  Drummond, Cecília  Meireles, Cassiano Ricardo, Jorge de Lima,  entre tantos admiráveis escritores  que me ensinaram a  ver melhor a vida,  equilibrar-me entre vazios,  crenças e verdades,  que se formavam  tecidas com  os fios eternos do imaginário. 

 Normeide Rios -  Qual a sua opinião sobre a atual produção de obras para crianças e jovens?
Cyro de Mattos - Muita boa, digna de qualquer literatura no mundo. Lembro Bartolomeu Campos Queirós, Elias José, Ana Maria Machado, Lígia Bojunga, Sylvia Orthof, Mário Quintana  e outros. Entre nós baianos, gosto da literatura infantojuvenil de   Gláucia |Lemos..

Normeide Rios -  No panorama nacional, como se posiciona a produção de escritores baianos?
Cyro de Mattos -  Há quem diga que a melhor poesia brasileira está sendo feita hoje no Nordeste e, em especial, aqui na Bahia. Concordo. Ressalto que contistas e alguns romancistas daqui são também  de qualidades insuspeitadas.  A literatura brasileira está entregue hoje em boas mãos aqui na Bahia. Não entendo por que ainda  não se escreveu uma crítica e ampla   História da Literatura Baiana, de Gregório de Matos aos tempos atuais. Seria um projeto para ter o apoio do   Governo do Estado,   executado  por um corpo  de professores universitários e autores expressivos, que preencheria  certamente uma  omissão no mínimo lastimável.     

Normeide Rios -  Suas obras infantojuvenis são produzidas tanto em verso quanto em prosa. Há predileção do autor entre essas duas formas de escritura?
Cyro de Mattos - Sinto-me à vontade na prosa como no verso. Quem determina se prosa ou verso  é o assunto, o momento,  a inspiração ou seja lá o que for. 

Normeide Rios - Cyro de Mattos recorre a lembranças da infância e da adolescência para criar seu mundo ficcional? Pode-se dizer que Histórias do mundo que se foi é um livro de “memórias da infância”?
Cyro de Mattos - A infância é uma das vertentes de minha  poesia para adultos, da prosa de  ficção para crianças e jovens. Como acontece em Histórias do mundo que se foi, “memórias da infância” transfiguradas como ficção podem ser encontradas também em Roda da infância, novela que está acabando de sair do forno da editora  Dimensão, e O Menino na memória, pequeno romance juvenil ainda inédito. 

Normeide Rios -  O menino e o trio elétrico é a história de um sonho que se realiza, mas é também uma narrativa que aborda questões culturais e diferenças sociais. Houve o objetivo de fazer denúncia social? Qual o papel da literatura infantojuvenil frente aos problemas sociais e econômicos presentes na realidade do leitor?
Cyro de Mattos - Não tive intenção de fazer denúncia social na história triste do Chapinha com final  feliz. Do texto escorre  humanismo social entrelaçado  com a poesia da vida. Não forcei nada. Simplesmente busquei representar o real  com ternos sentimentos de mundo, ser  coerente frente aos problemas e contradições do carnaval  hoje em Salvador. Alguns críticos disseram que fui o primeiro a trazer a realidade aguda do carnaval de hoje, em Salvador, para a literatura infantil, numa história bem concebida,  escrita com espontaneidade, solidariedade e amor.  


     * Entrevista concedida à professora Normeide Rios, da Universidade Estadual de Feira de Santana,  incluída na tese de mestrado Os caminhos da literatura infanto-juvenil baiana: em sintonia com o leitor, apresentada na Universidade Estadual de Feira de Santana, aprovada com distinção e louvor. A dissertação foi publicada como livro pela Editora da Universidade Estadual da Bahia – EDUFBA.