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sexta-feira, 24 de março de 2023

 

Considerações sobre o conto brasileiro           

                Cyro de Mattos

 

 

 Críticos brasileiros e estrangeiros vêm contribuindo com estudos e juízos para definir o conto, mas sua variedade dificulta uma definição satisfatória, bem como a sua expressão que se funde com outras manifestações literárias, como a poesia e o drama. O conto moderno incorpora à estrutura elementos de outras áreas artísticas, recorrendo ao cinema, o teatro, às artes plásticas e à música. Forma de prosa de ficção em páginas breves intercomunica-se com outras manifestações culturais. Convém lembrar que a imprensa e a mídia eletrônica vêm afetando os códigos e os cânones da literatura brasileira nos tempos atuais.

O conto como uma forma de narrar histórias procede de tempos primitivos. A mais antiga expressão da literatura de ficção atravessou séculos para tornar-se leitura prazerosa e/ou crítica do mundo na forma escrita. O interesse insaciável do homem pelas histórias sempre o acompanhou, antes mesmo que ele fizesse armas de pedra como extensão da mão para se defender e sobreviver.

Entre nós, não a narrativa oral, o conto começou a ser cultivado como entidade literária durante o Romantismo. Impregnado dessa escola, estilo ou tendência, foi que surgiu uma vocação autêntica para expressar o conto em textos autônomos, elevando-o à categoria de gênero importante, em sua composição e arte.

Pesquisar a presença e evolução do conto no Brasil terá como momento maior o de encontro com Machado de Assis no século dezenove. O autor de Papéis Avulsos, Páginas Recolhidas e Histórias sem Data praticou a prosa de ficção curta com a mesma mestria dos romances, a narrativa tradicional absorveu o corte vertical na  estrutura para a  interpelação do destino humano,  permitindo a criação de um clima na sondagem da alma em seu instante agudo.

No fim do século dezenove e no princípio do vinte, o conto brasileiro buscou os elementos necessários para representar a vida no espaço geográfico: linguagem, personagens, ação, cenas e costumes, elementos capazes de fixar a paisagem humana e física de um país telúrico. Ao desdobrar na história os elementos do espaço geográfico, o conto dessa época credenciou-se através de uma vertente regional, em que se destacam o paulista Valdomiro Silveira, o gaúcho João Simões Lopes Neto, o mineiro Afonso Arinos e o goiano Hugo de Carvalho Ramos.

Com o Modernismo, que se mostrou primeiro com a poesia e depois com o romance, nacionalizando nossos temas, autores sensíveis e criativos introduziram modificações nos elementos tradicionais do conto. A linguagem deixou de ser convencional, desprezou-se a fabulação acadêmica que fazia com que o ficcionista escondesse o imaginário, mascarando-se em seu relacionamento interior com o mundo. Nesse momento do conto brasileiro, em que a fabulação deixou de acontecer linearmente, sobressaem Mário de Andrade, com a valorização da nota lírica justaposta à dispersão do enredo, e Antônio de Alcântara Machado, transpondo o popular ao nível literário, introduzindo um novo personagem à literatura brasileira, o ítalo-brasileiro. Cabe lembrar antes o impressionista Adelino Magalhães, com o seu jeito de flagrar a vida, focando-a no instante que se esgota em si mesmo, documentando-a numa cena para deixar no leitor aquela impressão que causa pena, solidariedade e riso.

Na evolução do nosso conto, dois caminhos divergentes, próprios da literatura, podem ser visualizados: o do elogio da linguagem com o seu fetichismo e o da economia dos meios expressionais com a linguagem descarnada. Por esses caminhos o Brasil tornou-se, de uns tempos para cá, um país de admiráveis contistas. Lembrando alguns nomes dessa contística maior, na fatura psicológica encontramos Lígia Fagundes Telles, Samuel Rawet, Tânia Faillace; nas localizações geográficas com apelos universalistas, João Guimarães Rosa, Adonias Filho, Bernardo Elis, Caio Porfírio Carneiro  e Ricardo Ramos (na primeira fase), assim como nas aculturações humanísticas dessa tendência, Juarez Barroso, Flávio José Cardozo e João Ubaldo Ribeiro; na propensão alegórica, através de espaços atemporais  intercomunicantes, José J. Veiga, Murilo Rubião e Maria Lysia Corrêa de Araújo; no real captando pedaços de vida, com o autor participando e julgando o mundo no cotidiano violento, de solidão, miséria, medo, sonhos incabíveis, sentimentos perversos, humor de cenas ordinárias que causam espanto, riso e/ou pena, Rubem Fonseca, João Antônio, Dalton Trevisan, Luís Vilela, José Edson Gomes e Wander Piroli; na experimentação da linguagem poética como mergulho na situação existencial do indivíduo, criando a atmosfera no lugar do enredo, Clarice Lispector, Walmir Ayala, Maura Lopes Cançado, Nélida Piñon, Helena Parente Cunha e Elias José.

Alegórico, documental, psicológico, impressionista, supra real, regional de alcance universal, de antecipação na corrente de ficção científica, o conto no Brasil circula hoje em sua dimensão própria, convincente, não como aprendizado para o autor dar o passo mais largo e definitivo de romancista, como muitos concebiam. Críticos apontam que há nesse conto emancipado feito entre nós hoje a inevitável influência de latino-americanos no caminho de ficcionistas jovens, porém, nossos contistas não são mais situados com referências a escritores estrangeiros: Maupassant, Tchecov, Kafka e Mansfield. Consolidado na trajetória ficcional que ilude na síntese, o conto brasileiro contemporâneo circula com a sua marca própria, seu legítimo acento, sua feição eficaz e dinâmica atraente.

Acham os clássicos que conto é aquilo que conta alguma coisa, desenvolvendo-se a história nos momentos tradicionais de princípio, meio e fim. Síntese de emoção aguda, acidente de vida, tensão e concisão no espaço que prevalece sobre o tempo, acham os modernos. Seja como for, encontrará o leitor nas breves páginas do conto atual no Brasil um feixe de observações, o dizer sobre coisas agudas em informações lúcidas. Pelo imaginário, temática pessoal, densidade, linguagem tradicional ou ligada à vanguarda as gradações e variações da condição humana: ternura, sentimentos baixos, humor, conflitos, a máquina do sistema na crueldade de seu absurdo, o dilema da razão a gerar insegurança, abandono, contradições e perplexidades.

Na sensação de que o mundo é falho, participará, enfim, do mistério do viver sob o trânsito dos humanos, o qual alcança hoje ritmo veloz, que cada vez mais assusta, subversão constante dos valores como premonição do caos, a que o conto como instante de reflexão, testemunho fragmentário do real ou em sua visão metaforizada do mundo, dilatando o micro no macro, tão bem se ajusta. Ainda assim, visto esse estar crítico do ser humano na trama, acena das fissuras a esperança como possibilidade do amor, vocação que o indivíduo é possuidor em sua problemática existencial para aflorar das rupturas e reconstruir o mundo.

A literatura brasileira detém hoje a eficiente autonomia de um gênero que possui joias insuperáveis. Uma das grandes invenções dessa entidade literária no discurso que combina, harmoniosamente, o a forma e o fundo,  a que assistimos hoje, foi levada no Brasil por Dalton Trevisan. Esse mestre da ficção breve na prosa enxuta e atraente, com mais de uma vintena de livros publicados, possui uma maneira de dizer histórias originalíssima   no encalço de fixar os encontros e desencontros de todos os Joões e Marias, de uma Curitiba descida ao chão das pequenas misérias, frustrações, devassidões, fetichismos inúteis.

Nessa causticante comédia humana, povoada de desastres e ressentimentos, temos a expressão admirável de como se pode reconhecer o máximo no mínimo, identificando-o tocado daquelas verdades essenciais que fazem da vida comoção de ínfimos universos corroídos de duro lirismo.

 

sexta-feira, 10 de março de 2023

 Sarapegbe

Ferradas
Cyro de Mattos
TESTO IN ITALIANO   (Texto em português)

Ferradas è uno degli insediamenti più antichi dello stato brasiliano di Bahia. Nel 1815 ricevette la visita del principe tedesco Massimiliano Alexandre Felipe. Ricevette anche la visita dei naturalisti Spix e Martius. All'inizio della civiltà del cacao a Bahia, possedeva un nome aristocratico: Vila de Dom Pedro de Alcântara.
La sua storia è legata alla catechesi degli indigeni, ricordiamo la figura del frate cappuccino Ludovico da Livorno che i pionieri e conquistatori della terra definirono come dotato di poteri soprannaturali. Prima di svolgere una missione evangelizzatrice tra gli indigeni, fra’ Ludovico da Livorno fu cappellano nell'esercito napoleonico.

Nella fattoria Auricídia di Ferradas nacque Jorge Amado, lo scrittore più popolare del Brasile e il più tradotto al mondo. A Ferradas nacque anche il poeta Telmo Padilha. All'epoca delle esplorazioni, a Ferradas era molto attivo il commercio, con magazzini dalle ampie porte e file di muli che arrivavano carichi di cacao. La lotta per il possesso della terra, che attirava per la sua fertilità, rese la cittadina teatro di crimini commessi dai jagunços[1], come racconta anche Jorge Amado nel romanzo Terras do Sem Fim, che mostra  il violento paesaggio di Ferradas, uno dei domini del colonnello Horácio.

A quei tempi il villaggio si snodava su una lunga strada sterrata. Lì mandriani e viandanti ferravano gli animali, asini e muli, che dovevano affrontare vie strette e pericolose, sentieri sassosi d'estate e fangosi d'inverno. Nelle loro marce instancabili si dirigevano verso la città di Vitória da Conquista, nell'alto sertão[2]. Il quartiere di Ferradinhas sorse dopo il villaggio. Molto dopo. Poco meno di vent'anni fa nacque un altro quartiere, quello di Nova Ferradas, con case modeste, su strade sterrate e mal disposte.

Annoto il paesaggio monotono di Ferradas. Tutto è naturale. Le donne alla finestra come uva sulla vite. Anziani seduti sulla sedia, sul marciapiede di casa. Il cielo di cuscini. Le case che sussurrano e guardano le strade assonnate. Il silenzio grasso in tutto. L'ape sui fiori del giardinetto dell'unica piazza. L'aria verde degli alberi nei fruttuosi cortili. Gli uccellini che cinguettano beccando il mattino luminoso. Il vento tiepido della mattina scalda i passi dell'uomo barbuto che entra nella macelleria. Lontano dai viali, strade che non hanno fine, viadotti e gallerie, macchine veloci che cantano sull'asfalto, i miei passi che condividono questa proposta di vita in lento cammino.

Trovo simpatico il ragazzo che gioca con i piccioni sul marciapiede vicino alla chiesetta. Nel villaggio bucolico, vedo l'asino che ora pascola nella piazza.
 
* La cronaca “Ferradas” fu scritta nel 1998. Fa parte del libro “O Mar na Rua Chile e Outras Crônicas” finalista del Premio Jabuti, della Câmara Brasileira do Livro, in competizione con libri di racconti e cronache di autori brasiliani.


[1] Individuo che si presta a lavoro di difesa, sorta di guardia del corpo armata, solitamente assunta dai “fazendeiros” e dai "coroneis” nell'entroterra del Brasile, specialmente nel nord e nordest del Brasile. NdT
 
[2] Regione semi-arida che abbraccia molti stati del nord est brasiliano (Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraiba, Rio Grnade do Norte, Cearà, Piauì e Maranhão) arrivando fino alla parte nord dello Stato di Minas Gerais. NdT


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  Cyro de Mattos. Nato ad Itabuna (Bahia) nel 1939. Giornalista, avvocato, scrittore, poeta, saggista. Membro del seggio n. 22 dell’Academia de Letras da Bahia . Membro dell’Academia de Letras de Ilhéus e di Itabuna. jornalistaadvogadocontistanovelistaromancistapoetaensaísta. Ha pubblicato più di 60 libri, di diversi generi, ed ha organizzato dieci antologie e collezioni. Le sue opere sono state pubblicate anche in Portogallo, Italia, Francia, Spagna, Germania, Danimarca, Russia e Stati Uniti. Ha ricevuto premi letterari in Brasile e all’estero: tra di essi il Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, della Academia Brasileira de Letras , con il libro "Os Brabos"; Premio Jabuti (menzione d’onore), per l’opera "Os Recuados", Premio della APCA con il libro per ragazzi “O Menino Camelô, Prêmio Nacional de Poesia Ribeiro Couto, con il libro “Cancioneiro do Cacau”, Prêmio Nacional de Ficção Pen Clune do Brasil per il romanzo “Os Ventos Gemedores” e Prêmio Nacional Cidade de Manaus, per il libro “Histórias de Encanto e Espanto”. Per dieci volte al primo posto nei concorsi letterari della Uniao Brasileira de Escritores (Rio). Ha ottenuto il secondo posto per l’opera pubblicata nel Concorso Internazionale di Letteratura Maestrale Marengo d’Oro, Genova, Italia, con il libro “Cancioneiro do Cacau” e secondo posto per l’opera inedita con il libro “Poemas escolhidos/Poesie scelte”. E’ stato uno dei quattro finalisti del Prêmio Internacional de Literatura da Revista Plural, in Messico, con la novella  “Coronel, Cacaueiro e Travessia”. Nel 2020 ha ricevuto il Premio Conjunto de Obra della Academia de Letras da Bahia e Eletrogóes. É membro del Pen Clube do Brasil. Primo Dottore Honoris Causa della Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiato con la Medalha Zumbi dos Palmares dalla Camera Municipale di Salvador (2020).

Traduzione dal portoghese di Antonella Rita Roscilli

terça-feira, 7 de março de 2023

 

Poemas de denúncia sobre

o rio Cachoeira motivam

novo livro de Cyro de Mattos

 

Águas de meu rio é o novo livro de poesia de Cyro de Mattos, que acaba de ser publicado pela editora Ibis Libris, do Rio, com prefácio de Denise Emmer, poeta premiada em concursos expressivos nacionais, musicista, e um dos nomes importantes da poesia contemporânea brasileira. O livro é um poema longo dividido em vinte partes em que o poeta aponta com tristeza, em versos de lirismo agudo, a situação doentia do Cachoeira, outrora de águas límpidas e peixe em abundância, fonte de sustento para muitos e lugar de alegrias para meninos e gente grande.  

Autor de 64 livros pessoais, entre o romance, conto, crônica, poema, ensaio e literatura infantojuvenil, o baiano de Itabuna Cyro de Mattos (cyropm@bol.com.br) já publicou vinte e dois livros de poesia para o leitor adulto, três deles com o tema inspirado no Cachoeira, formando uma trilogia do rio com esse Águas emeu rio. Os outros dois livros da trilogia são Vinte poemas do rio/Twenty River Poems, tradução de Manuel Portela, e O discurso do rio, constituído de trinta sonetos, ambos publicados pela EDITUS, editora da UESC. Esses dois livros foram também editados em Portugal, pela Palimage, de Coimbra, na coleção Palavra e Imagem, dirigida pelo poeta Jorge Fragoso.  

Vinte Poemas do rio foi adotado por três anos para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz. Pequeno livro de versos cativantes, vem sendo estudado em escolas e universidades. Seus poemas foram declamados pelos alunos da Escola São Jorge de Ilhéus no Teatro de Ilhéus para um público que lotou as dependências do auditório.    

Do livro Águas de meu rio é o poema VIII em que o poeta revela as suas relações afetivas com o rio de sua infância, quando o  cenário era de pureza e alegria.    

Leiam abaixo o poema.

 

VIII

aprendi a nadar em tuas águas

aprendi a mergulhar em tuas águas

aprendi a pescar em tuas águas

 

aprendi a sorrir em tuas águas

aprendi a cantar em tuas águas

aprendi a saltar em tuas águas

 

aprendi a flutuar em tuas águas

aprendi a dormir em tuas águas

aprendi a sonhar em tuas águas

 

enquanto as nuvens passavam

as borboletas voavam em bando

não querias que eu esquecesse tuas águas

 

  O Poeta e o Rio

   Afonso Manta

 

E vendo as águas do rio

e outras águas renhidas

o poeta Cyro reinventa

o mistério de nossas vidas.

 

Cyro de Mattos observa as lavadeiras quando

antigamente lavavam as roupas e estendiam 

nas pedras, que ficavam coloridas. 

 


quinta-feira, 2 de março de 2023

 

Erudição e Sabedoria em Rui Barbosa

                         Cyro de Mattos *

 

Rui Barbosa nasceu em Salvador, aos 5 de novembro de 1849. Filho de Maria Adélia, moça de tempe­ramento calmo e bem educada. Seu pai, João Barbosa, fora um político atuante, jornalista inflamado, homem preocupado com as refor­mas humanas no ensino, um médico que aban­donara a profissão.

       Rui foi membro da Academia de Letras da Bahia e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, tendo sido presidente quando Machado de As­sis faleceu. Era um homem de estatura baixa, franzino, a cabeça grande sustentada por um pescoço fino. Tímido e feio, mas tinha uma voz poderosa quando ocupava a tribuna. Os olhos faiscavam, de cada centelha a oratória incendiava com a argumentação fascinante, baseada na verdade.

Fora incapaz de conceber a vida sem um ideal. Liberal convicto, construtor da Repúbli­ca, deu-lhe o arcabouço jurídico inicial. Não aceitava a escravidão, clamava pela adoção das eleições diretas, reforma do ensino com méto­dos humanos, investia contra o poder papal, como defensor ferrenho da ideia de separação entre o Estado e a Igreja.

            A erudição adquirida ao longo do tempo era aplicada com brilho nas relações sociais, no intuito de construir a vida, só querendo fazer o bem. Gostava de repetir o versículo, “todo o bem que fizeres, receberás do Senhor.” No elogio a José Bonifácio, falecido no fim de 1886, desabafou contra aquele mundo político, que o fizera sofrer várias derrotas e que era considerado por ele como meio louco e míope, espé­cie de divindade gaga, protetora do daltonis­mo e da surdez, uma combinação da esteri­lidade das estepes com a paisagem onde não se canta, supondo-se que assim fosse inimiga da har­monia, contradição do belo, como tem sido neste país. E, numa intencional advertência ao poder monárquico, reafirmou como encarava a questão da escravatura na célebre fra­se, primeiro a abolição, nada sem a abolição, tudo pela abolição.

Amara de verdade duas profissões: o jor­nalismo e a advocacia. O jornalismo sempre foi a janela de sua alma, por onde se acos­tumou a conversar durante todo o tempo, todas as manhãs, para a rua com os seus compatriotas, como informa Luís Viana, seu melhor e mais completo biógrafo, em A Vida de Rui Barbosa. Advogado do povo, foi o patrono dos professores demitidos de suas funções na Escola Politécnica. Quando o Congresso decretou a anistia, julgando impossíveis de revisão as penas e os processos dos aparen­temente beneficiados, ele bate às portas dos tribunais para se opor à situação que feria a lei e maltratava a justiça.

Ao se dedicar à política, fora eleito De­putado Provincial em 1878 e no período de 1879-1884 exerceu mandato na Câmara dos Deputados do Império. Com o advento da Re­pública, nomeado Ministro da Fazenda, a polí­tica financeira que adotou caracterizou-se pelo abandono do lastro-ouro e a adoção de grandes emissões garantidas por apólices do Governo, visando fomentar o comércio, além da criação do Tribunal de Contas e delegacias fiscais.

       O conferencista falava mais de três horas, sem que houvesse um murmúrio desaprova­dor do auditório repleto de pessoas. Quan­do terminava, no meio das palmas demora­das ouvia-se: “Continue! Continue!” Pessoas riam, choravam, deliravam, indignavam-se, aplaudiam, acompanhavam o orador hipno­tizadas pelas emoções que a sua alma a todos transmitia.

           Designado pelo Senado para examinar o projeto do Código Civil, já revisto pelo filólo­go baiano Carneiro Ribeiro, essa tarefa sem na­tureza política revelaria ao Brasil um gramático conhecedor amiúde e melhor na colocação dos pronomes. Em pouco tempo, o seu parecer apre­sentou mais de mil emendas ao texto revisto por Carneiro Ribeiro, o antigo mestre do Ginásio Baiano, sendo corrigido agora pelo ex-aluno nas regras gramaticais.

         Em Haia, o assunto mais importante da Conferência era a organização do Tribunal Permanente de Arbitragem, com o palco pre­viamente armado para o papel de destaque das potências que governavam o mundo e manda­vam nos povos.

        A voz impetuosa e indignada de Rui apre­senta sua proposta para a Organização do Tri­bunal, onde todos os países terão assento. Fica ao livre arbítrio dos contendores submeterem as suas questões ao plenário do Tribunal. Falou em francês castiço, entre o silêncio geral, perante um auditório que o desconsiderava, mas que ficara espantado. No final fora reconhecido como uma das mais poderosas vozes da assembleia. Aque­le homem pequeno, de voz ritmada na verdade e no direito, derrotara os que representavam os direitos e interesses das grandes potências, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e Itália. Por seu desempenho superior fi­cou conhecido como a Águia de Haia.

O discurso de Rui surpreende pela va­riedade e nas expressões soberbas de suas leituras. Da palavra imantada nas imagens candentes emergem verdades que iluminam a vida, mas sua erudição não é apenas variada, de vocabulário ilimitado, domínio do idio­ma, citações e argumentos que impressiona­vam vivamente. Pode-se dizer desse paladino da liberdade que fora um erudito abraçado com um sábio.

Rui Barbosa, o que conhecia Vieira, lia Castilho, recitava Camões aos dez anos, santo Deus, o erudito e o sábio. Deixou este velho mundo em 1 de março de 1923. Fora residir na morada do eterno.

 

Referência

A Vida de Rui Barbosa, Luís Viana Filho, Lelo & Irmãos, Porto, Portugal, 1981. 

*Cyro de Mattos é membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Ocupa a cadeira 22 fundada por Rui Barbosa.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

 

                 A História de Chapinha

                          Cyro de Mattos

 

Quando escrevi O Menino e o Trio Elétrico não sabia que pela primeira vez abordava na literatura infantil brasileira o tema que trata do carnaval baiano com seus famosos trios elétricos, que virou há tempos coisa para turista e rico, e dos que não podem participar da festa.   Queria apenas escrever sobre um menino pobre como Chapinha, com o seu sonho como algo quase impossível de se realizar, porque um abadá a vestimenta que identifica um bloco, chega a custar muito dinheiro.

            Nem sabia que na história de Chapinha e o trio elétrico caberiam “todos os cheiros de Salvador, com suas ladeiras e becos, santos e orixás, alegria de seu povo no agito de uma festa que faz a cidade trepidar por todos os cantos”, como comentou a escritora Helena Parente Cunha. Foi a professora doutora Normeide Silva Rios que me chamou a atenção sobre esse aspecto inovador da história de Chapinha quanto ao assunto enfocado. Ela ressalta: “Convém registrar o caráter inovador do livro O Menino e o Trio Elétrico, de Cyro de Mattos, por ser o primeiro na literatura infantojuvenil baiana a apresentar como protagonista um garoto pobre da cidade grande e tematizar as desigualdades presentes na realidade social da capital baiana, evidenciando-as.”

          Acresce ao seu estudo publicado no livro Os Caminhos da Literatura Infantojuvenil Baiana, EDUFBA, Editora da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012, o texto   Carnaval e Literatura, de Elias José, publicado primeiro no Suplemento de Minas Gerais. O consagrado autor de livros infantis destaca o carnaval como tema na história de Chapinha e mais, a de um menino pobre e preto que vende amendoim nas ruas de Salvador para sobreviver. Isso pouco ocorria na literatura infantil brasileira, o assunto do menino pobre no seu trabalho diário como tema de uma história.

Distinguido com o Prêmio Maria Alice de Lucas, da União Brasileira de Escritores (RJ, 2008), a história de Chapinha fez leitores nas escolas brasileiras. Foi traduzido pela poeta Mirela Abriani e publicado na Itália pela editora Romar, de Milão.  Mostrava-me mais uma vez como a literatura gostava de operar milagres. Para que tudo isso acontecesse, como foi que surgiu o motivo para que escrevesse a história de Chapinha e o trio elétrico? Uma atraente história infantil na opinião do tradutor Fred Ellison, professor emérito da Universidade de Austin, nos Estados Unidos.

Ele observou: “Vejo refletido neste livrinho para crianças (e adultos) muitas das melhores qualidades de sua arte. Especialmente aquela paixão pela rica cultura nordestina (principalmente a baiana). O Menino e o Trio Elétrico é um vasto tesouro acerca da vida nas ruas da cidade de Salvador. O trio elétrico torna-se um foco ideal para a exibição desse tesouro. Nós não temos nada igual a isso.”

       Conto agora como fui motivado para escrever a história.

      “Certa vez eu estava dando um passeio pela orla de Salvador quando vi um menino negro entrar no ônibus para vender amendoim torrado aos passageiros. A festa do carnaval ia acontecer dali a uma semana. Ia mexer, como sempre, na “alma” da cidade de todos os santos e orixás, transformando-a numa onda de alegria, feita de ritmos e cores vibrantes, com os foliões pulando, cantando, abraçando e beijando... na maior felicidade...

“Ao retornar ao hotel à noite, imaginei como seria a vida daquele menino durante o carnaval, vendendo amendoim enquanto a cidade se divertia. Foi assim que começou a nascer esta história dentro de mim. Não vou contar se a história de Chapinha termina com a vitória da tristeza e a derrota da alegria. Bem, isso eu deixo para você ler e sentir comigo todos os lances marcantes do primeiro livro que escrevi para meninos de todas as idades, ambientado na cidade de Salvador, Bahia, com seus dias embalados na folia.”

          Não preciso dizer que amo a literatura, ela tem mostrado que gosta de mim.

 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

 

A crônica octogenária de Cyro de Mattos

Data: 16/02/2023Autor: Anthony Almeida, in revista da crônica RUBEM, Curitiba.

Cyro de Mattos é um cronista experiente e octogenário. Estes dois adjetivos se sobressaem na teia que interliga os textos do seu quinto livro no gênero do velho Braga. Gabriel García Márquez e outras crônicas (Editus, 2021) reúne muitas memórias e reflexões sobre as vivências do autor. Sejam elas passadas ao longo dos últimos anos ou da vida inteira, as reminiscências e o que elas despertam são os ingredientes principais da maior parte do trabalho do velho Mattos, que também é cronista da Revista RUBEM, às quintas-feiras.

As lembranças, contudo, não são os únicos elementos da obra. Cyro também se dedica à escrita da crônica narrativa e claramente ficcional, aquela em que não aparece a típica dúvida de quem lê — será que isso aconteceu mesmo com ele? Com personagens inventadas, tramas, conflitos e desfechos que geram reflexões, os textos desenvolvidos por essa abordagem revelam a experiência não apenas do cronista, mas do escritor. Em seus mais de oitenta anos de vida, Mattos se dedicou a outros gêneros literários e bem sabe que algumas ideias funcionam melhor num ou noutro tipo textual. Ele sabe, portanto, quando esta ou aquela ideia pode ser bem aproveitada numa crônica.

Aqui, o autor reúne 43 textos organizados em três conjuntos: crônicas literárias, crônicas de futebol e crônicas de natureza diversa. Ao contrário do que se pensa, quando se lê o título do primeiro conjunto, todas são crônicas literárias, mesmo as que têm o futebol como tema. É nos textos com a bola no pé, devidamente uniformizado com calção e camisa numerada nas costas, que o cronista bem desenvolve o recurso da crônica narrativa. Uma das mais envolventes da obra é justamente a que narra um “Gol incrível“.

Dentre as crônicas de natureza diversa, mais uma artimanha. Se o que se pensa é que os textos deste bloco tratam sobre aleatoriedades e assuntos avulsos, com a leitura percebemos que é da diversidade da natureza — e das vivências dentro dela — que as crônicas tratam. Nelas, o menino Mattos “sempre achava um jeito de chupar uma manga, um pedaço de melancia ou laranja para tapear a barriga”. Em “Nos tempos das Marinetes”, há um trecho que daria um belo título de livro: “Cordas de caju. Cordas de caranguejos”.

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O primeiro conjunto, que o autor chamou de crônicas literárias, entretanto, é o principal destaque da obra e explica a escolha do título da coletânea. O bloco, na verdade, agrega textos sobre literatos e quase sempre em tom de réquiem. Todos temos a nossa antologia de mortos e, quanto mais tempo vivemos, mais refletimos sobre as mortes e os mortos que passam por nós. Morre alguém que escrevia, o cronista faz um texto sobre a pessoa e sua relação com ela. É um temário comum entre os cronistas idosos — o próprio Rubem Braga, em As boas coisas da vida, seu último livro, emprega bastante este recurso.

A primeira crônica do livro de Cyro é dedicada à memória de Nelly Novaes Coelho, professora universitária e doutora em Letras. Para ele, a intelectual, da qual foi correspondente por alguns anos, era “soberba como ensaísta” e uma docente que “contribuiu para a formação de inúmeras gerações no campo das letras”. E o uso do “era”, este tempo verbal que nos adianta uma perda, deixa claro que esta é uma crônica-homenagem, coisa que o gênero costuma fazer muito bem.

E é mesmo este bem que Mattos busca trazer no texto, apesar de estar triste e chateado. Ele desabafa sua chateação em saber não apenas da morte de Nelly Coelho, mas em descobrir que “somente depois de um mês de seu falecimento, a imprensa paulista divulgou o fato em notas acanhadas”. É realmente de se lamentar. Mas, deixa estar, Cyro, teu texto bonito está aqui e Nelly estaria orgulhosa de saber do teu carinho por ela.

A memória e a reflexão ganham espaço neste bloco, pois é nele que se tecem digressões sobre autoras e autores, sobre a escrita e sobre a literatura. O título da obra vem justamente de um dos escritos que celebra o escritor Gabriel García Márquez. Na crônica sobre ele, Mattos rememora os encontros que teve com o colombiano. E, além disso, viaja magicamente com o autor de Cem anos de solidão. O encontro de cronista e romancista me remete a outra obra de Márquez: Memória de minhas putas tristes. No romance, o protagonista é um velho cronista que, ao completar noventa anos de idade, escreve para o jornal, em sua crônica dominical, sobre como é andar de bicicleta aos noventa.

 

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Tomara que o nosso cronista octogenário também nos brinde, em suas crônicas de quinta-feira, com reflexões sobre como é ser cronista aos noventa. E, se for em cima de uma bicicleta, melhor ainda.

Anthony Almeida

Professor e escritor

Gabriel García Márquez e outras

 crônicas — Cyro de Mattos
Editus, 2021, 136 p.

 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

 

                   Carnaval e Literatura Infantil

 

                                                     Elias José

 

            Não sei se os leitores já repararam, mas o Carnaval nunca foi tema explorado em literatura para crianças. O futebol aparece, mais raramente do que deveria, mas aparece. Agora me surpreendo com um livro novo do baiano de Itabuna, Cyro de Mattos, que sempre nos surpreende com novidades literárias, feitas com paixão, competência e talento. O Menino e O Trio Elétrico é a história de Chapinha, que vendia amendoim e adorava carnaval. Ele morria de vontade de ir atrás do trio elétrico, com abadá, quase impossível de ser adquirido pelo pobre, a animação e alegria que não perguntam por classe social. Sonha sair dançando e cantando com os seus artistas preferidos, divertindo-se com o seu povo. Curiosamente, Chapinha vendia amendoim, e isto é outra surpresa. Na nossa imaculada literatura para crianças é quase proibido, é politicamente incorreto falar do trabalho de crianças, como se isto não fosse problema brasileiro, de norte a sul. Um tema que merece inclusive melhor discussão por parte de nossa sociedade e pede a criação de muitas escolas profissionais. Mas isto é assunto para outro dia. Agora, eu quero é acompanhar Chapinha, menino negro e esperto, em sua luta pela sobrevivência diária e pelo seu sonho de carnavalesco.

            Para dar mais realismo e, ao mesmo tempo, mais fantasia à história de seu herói, Cyro de Mattos levanta o roteiro carnavalesco dando nomes de ruas e trios que por elas passam. Coloca na rua, isto é, no seu livro, os mais famosos trios elétricos de Salvador, com os seus ídolos cantores puxando o ritmo, acompanhados pelos muitos músicos competentes e pelo maior coro da terra. O coro dos foliões de todo o país e até do exterior. Se o ritmo contagiante e a alegria chegam até o leitor, acompanhados das cores alegres da festa mais popular da Bahia, imaginem como acontece no imaginário e nos sonhos daquele menino louco por carnaval. Daquele menino dono de todas aquelas ruas. Como um menino pode ficar indiferente diante de uma festa popular e tão nossa, que está dentro de nós através de tantas heranças culturais? Como não torcermos para que esse menino Chapinha consiga realizar os seus sonhos, tornando-se mais um no bloco, ou melhor, no trio elétrico? Se ele conseguirá ou não, o autor em depoimento não quis revelar na última capa do livro. E não serei eu que vou quebrar o prazer da descoberta pelo leitor, seja ela alegre ou triste. Se o final for triste, deveremos perdoar o autor, pois nem tudo tem que dar certo, assim a vida nos ensina no dia-a-dia. Se o final for um carnaval daqueles de não se esquecer nunca, a melhor saída do leitor é fechar o livro após o final e, imaginariamente, entrar também num trio elétrico, com toda euforia, energia e alegria exigidas.

            Para concluir, devo dizer que o tema carnaval, em literatura infantil, pode e deve dar samba. Todo mundo sabe que o samba da Bahia é mais axé, feito para pular, curtir, e não para ouvir em casa.  Todo mundo sabe que os sambas de enredo do Rio de Janeiro são todos iguais e quase sempre chatos, válidos apenas enquanto belas escolas desfilam. Axés e sambas de enredo duram aqueles poucos dias de carnaval, nem têm qualidade de música e letra para sobrevivência eterna, a não ser as raras exceções, como aconteceram com centenas de sambas e centenas de marchinhas em nosso cancioneiro popular. Mas ninguém pensa nisto na hora da folia, o assunto é bem outro. Cyro de Mattos não pretende discutir raízes culturais e carnaval, arte e massificação na história contagiante e deliciosa de Chapinha.

O que Cyro de Mattos mostra nessa história de um menino que tem dificuldades para levar a vida, vive numa casa acanhada com a mãe e vó Pequena, é a festa que move e comove, envolve e faz a gente acreditar na alegria. Alegria que pode ser de velhos, adultos, jovens, adolescentes e crianças. Em qualquer parte do Brasil, acontece a alegria do carnaval, mas não adianta discutir, em Salvador, Recife, Olinda e no Rio de Janeiro a vibração é diferente. Por ser uma festa tão cara à cultura brasileira, por que o carnaval ficar distante das obras de arte voltadas para o público infantil?  

 

 

* Elias José é mineiro de Guaxupé. Contista, romancista e autor de mais de 50 livros para meninos e jovens. Ganhou inúmeros prêmios, como o Jabuti, Fundação Educacional do Estado do Paraná (FUNDEPAR) e o Odylo Costa Filho, da Fundação de Literatura Infantil e Juvenil. Publicou, entre outros, “Viagem ao Fundo do poço”, contos, “Inventário do Inútil”, romance, “Lua no Brejo”, juvenil, e “Um Pouco de Tudo”, infantil. 

 

** O menino e o trio elétrico, Cyro de Mattos, Prêmio da União Brasileira de Escritores (Rio de Janeiro), Atual Editora, São Paulo, 2007.

 

 

 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

 

             Tempos de Carnaval

                       Cyro de Mattos

 

O Carnaval no Rio de Janeiro não é o mesmo de Olinda, Recife, Salvador e outras cidades brasileiras. Conservando o elemento comum que os une, a participação coletiva que se extravasa na maior felicidade, o Carnaval no Rio tem na escola de samba sua marca pessoal. Na ópera popular, a se exibir na passarela do asfalto, sobressaem passistas, ritmistas, fantasias, carros alegóricos, samba-enredo, bateria com um grande número de figurantes, alas de baiana e comissões de frente. Figurações diversas que, em sua feição de cores e luxo, impressionam vivamente e deslumbram a quem assiste. A vida dança ritmos ardentes, solta desvairadas vibrações de corpo, cantos e prazeres numa maravilhosa ventura em torno do sonho. Em Olinda e Recife, bonecos gigantescos arrastam multidões sob o ritmo rápido do frevo. Passistas improvisam uma coreografia individual e frenética.

Ao fechar o banco, o escritório, a indústria, o comércio, o Carnaval é sempre o mesmo. Com a sua máquina de fazer alegria, inventar o êxtase e o riso varre as formas de viver do mundo rotineiro, trazendo os ventos da utopia para empurrar a onda humana que canta e pula na avenida. Em Salvador, com ou sem turista, dinheiro ou sem dinheiro, vibra na tanga do índio, na mortalha suada da moça, vocifera, trepida ao som do trio elétrico, mexe, remexe sob a nova dinâmica dos ritmos negros, suaviza a vida quando passa numa onda mística com o bloco “Filhos de Ghandy”.

Serve de extroversão a milhares de pessoas e de fuga aos que preferem à casa de praia ou de campo. Na quarta-feira de cinzas, quando o coral frenético silencia, o carnaval oferece a muitas pessoas uma oportunidade de ganhar o sustento nessa incrível arte da sobrevivência. Muitos nesse Brasil tropical e carnavalesco estão a postos para limpar o lixo da euforia.

Tempo de carnaval. O banco, o escritório, a indústria e o comércio são substituídos por uma máquina de fazer alegria. Em Salvador de Bahia, no antigamente, o corso passava pela Avenida Sete numa maravilhosa ventura em torno do tempo perdido na história.  Improvisava figurações diversas, tinha feições de cores e luxo, inventava uma ópera no desfile do carro alegórico, lembrava a Grécia antiga, Veneza. O êxtase e o riso invadiam a Rua Chile. Começava a acontecer com a guitarra elétrica na fóbica, puxando atrás pequena multidão, formada por gente do povo nos intensos prazeres, vibrações de corpo que insinuavam uma dança frenética. O bar Cacique, antes Bob’s, vizinho ao Cine Guarani e ao cabaré Tabaris, era parada obrigatória do folião para o chope.

      O moço do interior impregnava-se no carnaval com sua forma extrovertida de conceber a vida, não querendo saber do mundo rotineiro. A onda humana fantasiava-se para cantar e dançar na avenida. Blocos antigos, afoxés, batucadas. Na tanga do índio, na mortalha suada da moça, no amor da colombina. A vida era assim embalada pelos ventos da utopia. Movimenta-se serena na onda mística do bloco Filhos de Ghandy.

              Tempo que transformava o branco no preto, o pobre no rico, o sacro no leigo, de mãos dadas passavam o padre e a freira. Não havia vencedores e vencidos, viver era igual a se divertir. O folião, todo alegre, como não devia deixar de ser, seguia pelo salão com a espada de pau. O olho tapado na cara de mau. E a cigana que fingia ser definitivo o seu amor passageiro no carnaval.  O chão cheio de confete, serpentina colorindo o ar, a lança que perfumava a melindrosa em cada volta. Aqueles risos com mais de mil palhaços no salão, pierrô fazendo suas juras, arlequim chorando pelo amor da colombina no meio da multidão. 

            Vestido de marujo o moço do interior, viajando pelo mundo de uma só cor, a da euforia. Na quarta-feira de cinzas, quando o coral silenciava, sem o sopro no apito da alegria, descia da nau, que chegava ao porto, situado no jardim da Piedade. Chegava de madrugada a nau empurrada pelos ventos da alegria, polvilhada de fadiga pela cauda, puxando a manhã fresca e pura.

            Foi nessa viagem gasta na avenida que conhecemos a festa da alegria em Salvador.  Aquele grande alvoroço tive nos dias que eram apenas um cenário de euforia. Lindo marujo, de lá para cá haveria de perceber que sobre outra onda foi rolar o mundo. Na orla nunca soubera por que tudo haveria de acontecer sem agitação um dia, desligado do corpo da juventude, recolhido nos braços de um idoso sem brilho. E, assim, sem cores e sons, fosse levado, em silêncio, pelas marés da nostalgia. 

Ressalte-se que em Itabuna antigamente os vizinhos costumavam colocar cadeiras no passeio para desfiarem um dedo de prosa. Esse costume servia para que estreitassem os laços de amizade, distraindo assim a mente cansada dos afazeres diários. Com a lua clara resvalando sua prata no calçamento, prosseguia a conversa animada entre os vizinhos, geralmente em torno de um assunto interessante ligado à cidade, até quando fosse chegada a hora de se recolherem no sono que descansa e reconforta. Numa dessas conversas entre vizinhos, lá estava seu Zeca, o dono da farmácia, dizendo ao outro que o começo do carnaval na cidade que tropeçava nas pernas remontava ao ano de 1908. A festa naqueles idos era conhecida como “Domingo do Entrudo”.

O dono da farmácia informava que no começo os bailes carnavalescos eram realizados no armazém da rua do comércio ou no Cine Odeon. Com a inauguração do primeiro clube, em 1940, os bailes mudariam de cenário. Durante quatro noites e duas matinês, foliões adultos e pequenos iriam ser acolhidos agora nos salões de um clube. Ao lado do carnaval nas ruas, a folia passava a contagiar no clube os blocos formados por senhores e senhoras, rapazes e moças da elite. De bigode retorcido nas pontas, de braço dado com as esposas, esses senhores sisudos davam voltas contínuas no salão. Bem entusiasmados, não paravam de cantar as marchinhas “Linda Lourinha”, “Pirata da Perna de Pau”, “As Pastorinhas”, “Touradas em Madri”, “Alá-Lá-Ô” e tantas outras que ficaram famosas em nosso cancioneiro popular.

O Carnaval de ontem era do tempo da serpentina, confete e lança perfume só para animar. Era o carnaval da musa colombina, pierrô apaixonado, arlequim sonhador, palhaços que não paravam de brincar e soltar piadas para as moças. Era o Carnaval dos quadros satíricos em que não faltavam fantasias e brincadeiras bobas. Era comum a sátira ser usada por blocos e cordões. Aproveitava-se um fato político, econômico, social ou esportivo com repercussão no ano como assunto engraçado para animar o carnaval.

Pessoas de minha cidade, que pertencem a uma geração mais velha, tem saudade do Carnaval daquele tempo. Uma dessas pessoas é seu Sessa. Funcionário Aposentado do Banco do Brasil, outrora folião dos mais animados, disse certa vez que nunca vai se esquecer daquele palhaço irrequieto e da pastorinha enamorada. Daquele palhaço de calças folgadas e nariz de limão, que não parava de pular e soltar piadas no salão quando a orquestra fazia uma pausa para que os foliões descansassem um pouco.

Já vai longe o tempo em que o carnaval começava cedo, aos sábados. Vestindo calça listrada, sem camisa, usando cartola e fraque, o Zé Pereira aparecia tocando o bombo, com meninos sujos e afoitos atrás. Batia forte no bombo o Zé Pereira, em frente às lojas e armazéns. Já vai longe esse tempo, o Zé Pereira ordenava a toda voz aos comerciantes que fechassem suas portas. É pra já! Cedo a folia vai tomar conta da cidade, ele ordenava.  

 

 

 

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

 

 

Memória da Ponte Velha

Cyro de Mattos

 

Não só as cenas de tristeza, ocorrências com espanto, horror e medo, a Ponte Velha presenciara durante o tempo que existira de pé, altaneira e soberana no curso invariável do tempo, que tudo dá e toma. Acontecia também o afago do vento no rosto dos namorados, na manhã morna ou na tarde fresca. Para pessoas que moravam nos dois lados da cidade, era um corpo sólido erguido para servir sem nada exigir em troca, dotado de vigor e beleza, que funcionava como orgulho dos habitantes da pequena cidade. O professor Vilaboim, o que mais entendia da história da cidade, não tinha dúvida em afirmar que ela tinha voz oculta, boca que conversava consigo em segredo, ouvido que escutava atento aos ruídos da natureza e os gestos das pessoas. Sua alma era profunda para nas disposições interiores gravar com as fibras potentes de ferro e cimento tudo que se passava através das cenas rotineiras. Era dotada de uma magia que ninguém alcançava, nem sequer conseguia chegar perto de sua sabedoria lendária.

Um dia, os namorados chegaram de mãos dadas, debruçaram em uma das balaustradas e dali ficaram apreciando a paisagem do rio na tarde morna. As correntezas embaixo faziam espumas quando desciam no barulho por entre as pedras perto da ponte. Sustentados pela leveza dos ares, dali traçaram os sonhos com os olhos expectantes de esperança, querendo alcançar o horizonte. Um fazia carícia no outro, beijavam-se, sorriam com a felicidade estampada no rosto. 

Outras vezes vieram com o intuito de alimentar o sonho do amor no dia de verão morno. Pressentiam nas ondas do amor onde uma casa seria habitada pelos hábitos do afeto, cuidaria ela dos filhos, ele com o trabalho daria o sustento necessário para que os meninos crescessem e se tornassem um dia pessoas respeitáveis. Ele gostava de dizer a ela que uma ponte é uma ponte, uma rosa é uma rosa. A ponte servia para que fizessem a travessia sobre o rio da vida e fossem alcançar na outra margem as metas melhores. A rosa emitia fragrâncias nas horas suaves da existência, mas durava pouco. A ponte morava no pensamento, já a rosa no sentimento. Com o equilíbrio e segurança de uma mais a formosura de outra, regiam-se ambas pelos dons milagrosos da natureza e se cabiam na gramática que Deus criara para a criatura não conviver com o sentimento do nada. Tanto a ponte como a rosa reinventavam-se na proposição de cada sonho.  

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023


Coisas da Ponte Velha

        Cyro de Mattos

 

O tráfego de automóvel e carroça nem sempre fluía com desembaraço quando a travessia para um dos lados da cidade era feita através da Ponte Velha. Só podia passar um carro de cada vez, não havia espaço para transitar sobre o piso dois carros ao mesmo tempo, em direções opostas. O motorista em uma das entradas tinha que esperar que o outro saísse com o seu carro para que na sua vez pudesse adentrar na ponte. Até que acontecia o que sempre transtornava. Dois carros entravam na ponte ao mesmo tempo, um de cada lado, em posições contrárias. Quando se encontravam, paravam e ficavam impedindo o trânsito livre dos pedestres na bicicleta, que reclamavam impacientes com o impasse criado.  Gente nervosa queria seguir em frente, mas não tinha como fazê-lo por falta de espaço.  Pequeno ajuntamento de pessoas ia se formando por detrás de cada carro, do meio do aglomerado humano alguns soltavam gaiatice.

Um gritava, exasperado:

“Quero passar, antes que perca a paciência e jogue esse calhambeque no rio!”

 Cada motorista não recuava de sua posição no volante. Nenhum deles queria dar marcha a ré para desobstruir a passagem para o outro automóvel seguir em frente.

O motorista da caçamba sugeriu que fosse tirado a sorte nos dados para ver quem iria recuar primeiro o seu carro para o outro ter passagem.   O mulato com a voz rouca ganhou no jogo de dados para o motorista que tinha a barriga estufada, parecendo de mulher grávida. A solução encontrada nos lances com os dados desfazia o impasse entre o caminhão de carroceria de madeira e a caçamba carregada de areia, parados no meio da ponte. 

Um projeto municipal foi decretado no dia seguinte proibindo que carro, carroça e animal de alto porte transitassem pela Ponte Velha.