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domingo, 16 de novembro de 2014

Poemas do Negro





                                                                                Cyro de Mattos



                                         Candomblé

Preceito e respeito.
Se for de paz, entre.
Vamos conversar
Com os orixás.
Vamos dançar.
Vamos cantar.
Também se come
A comida de lá.
E se bebe aluá.
Fique sabendo
Da África sabores,
Ritos e cores.
Quem é do axé 
Não nega que é.








Abolição

     
Na zoeira do terreiro
Batucam que batucam
Tambores sem cambão.

Trepidam nesses punhos
O suor, a lágrima, o sangue
Nos rastros do negro fujão.

Todos batem nesse tambor,
Pode até não ser de fato
A tão esperada abolição.

Mas é o começo duma hora
Que se faz tão grandiosa
Como o verde na amplidão.

 África agora é uma só voz
Na esperança das manhãs
Sem o ferro do vilão.

  Ibejis
                                                                  
                                       A travessia de Iansã
                                       Com a sua espada afiada
                                       Na floresta desconhecida.

Suas queixas aos orixás
Pelo filho que lhe roubou
O rude vento assassino.

As graças do Orun,
Lá no reino de Oyó,
À guerreira destemida.

Ao invés de tristeza
O  milagre da alegria
Anunciado por borboletas.

Gente pobre bonita,
Pintura festiva da vida,
Tanto canto, tanta música.

Nos fios sem fim da poesia,
Com leveza na escrita,
Feita memória e fantasia.

A lenda de Ibejis
Da Nigéria à Bahia
É o que conta Edsoleda.

Preto Velho
Me ensinou,
Sim senhor,
Me ensinou,
Com sua figa,
Cachimbo e pó,
O seu patuá,
O canto manso
E fé maior.

Um abraço dado
De bom coração
É mesmo
Bom abrigo,
Uma bênção,
Uma salvação.

         
            Vovó Maria Conga
         
         Saia branca engomada,
         Pulseiras em cada braço,
         Figa de guiné. Miçangas.
         Filha de Nanã Burucu.
         Dos orixás das águas
         A mais velha Nanã é.
       
         Conhece os caminhos,
         Fala com os orixás
         Na língua vinda da África.
         Na dança bonita de ver
          Movimentos vagarosos
                            Como onda leve do mar.

Rezou a menina, baforou
Com o velho cachimbo.
Deu passes na testa.
Saiu um bicho medonho
Esgoelando-se. Pela janela
Fugiu numa nuvem escura.
Grande medo causou.  

Nem ligou. Cuspiu.
De contente sorriu.

Quá-quá-quá
Quá-quá-quá.

Vozes doces e quentes
 Das filhas cantando:

Cadê a sua pemba,
Cadê a sua guia,
Seu congado
Veio de longe,
Veio pra ficar
 Aqui na Bahia.

Cabelos brancos
Parecendo de  bucha.
Olhos miúdos e negros.
Sua voz aconselhando:

Vovó não quer casca
 de coco no terreiro
pra não lembrar
do cativeiro.

Suas filhas dançando
Numa ciranda branca.
Repetindo a cantiga
Que ela mais gosta.

Quá-quá-quá
Quá-quá-quá
Chega vovó,
Chega vovó

Pra dar sua bênção,
Sua cura, seu axé,
Seu passe, sua flor
Que só vovó sabe dar.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

                           Sobre Os Ventos Gemedores

                                                      Ricardo Cruz*

Li recentemente um livro de Ismail Kadaré: Dossiê H. Nos confins da Albânia, início do século XX, dois estudiosos para lá se dirigem com o propósito de pesquisar os cânticos épicos dos trovadores, em busca das raízes ou chaves para decifração de Homero. Tal presença causa impacto aos habitantes, que tomam os dois pesquisadores como espiões a serviço de alguma potência estrangeira, cuja missão seria a de perturbar-lhes a vida, expondo as raízes, não as de Homero, mas dos conflitos e tragédias que lhes atormentam a existência desde sempre. Entre outras preciosidades os dois “espiões” ouvem a fala de um poeta albanês: “Na cólera entre nós nascemos”. E logo vem a descoberta: cólera: mênin, a mesma palavra encontrada no início da Ilíada...
Li Os Ventos Gemedores sem pressa, aos poucos, às vezes voltando ao capítulo anterior, deslumbrado com a poética de cada frase, em como você conseguiu criar um romance/poesia inspirando-se nos brutos, nos brabos. Nos tempos selvagens que ainda existem. Esse novo território grapiúna de sua invenção – Japará –, a cada página me fez relembrar o território de guerras e tragédias grapiúnas, território também de Kadaré. Porque é mesmo a partir do pequeno território de nossas invenções que levamos ao mundo em forma lírica, ou em prosa, as tragédias ou conflitos que testemunhamos, às vezes compartilhamos. Revisitei páginas de Os Brabos, buscando as raízes para Os Ventos Gemedores, e tive uma certeza, você o engrandeceu com a extensão de sua prosa, de sua poética.
Em Os Ventos Gemedores, logo no prólogo você bem que nos dá aviso do que se trata: romance de compromisso, com sabor (e saber) de poesia, escrito com a força de quem sabe tirar mel das pedras, a nos lembrar da trágica e brutal existência humana nas brenhas selvagens dos cacauais de antanho. De antanho? Nem tanto, vivemos outros tempos. Há outras formas de violência, da exploração do homem pelo homem.  E de contá-las. O tirano Vulcano Brás, a submissa Edvina, seus filhos Olívio e Olindo, Vaqueiro Genaro, Almira, Aparício Pança-Farta, são personagens marcantes que nos introduz no mundo hostil, por vezes pueril e sem dúvida encantatório. Personagens esses a se desesperarem ante a infâmia, cansados de desavenças, exploração e sofrimento, tendo como cenário a natureza exuberante e dadivosa do Sul Baiano. Fartos, decidem-se e declaram guerra ao clã dos Braz. O escritor Cyro de Mattos, na melhor tradição dos contadores de histórias, indo além, neste Os Ventos Gemedores, nos dá notícia dessa guerra, também exerce, como os rapsodos dos tempos do Amor Cortês, e no melhor de sua criação, entremeia a narrativa com o som de sua poesia, que no final comparece ao modo do coro grego, numa ciranda, como Homero:
Que faça sol ou faça chuva/
Viva a vida boa e justa /
Tendo sempre a seu favor /
Tanto o amor como a flor pura.
Que faça sol ou faça chuva /
Viva a vida boa e justa /
Inocente na sua dor /
Mas sobrada de valor.


·        Ricardo Cruz é médico psiquiatra. Contista e romancista.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

SecultBA vai lançar 2º volume de livro “Autores Baianos:Um panorama”, publicação que visa difundir a literatura baiana
Neste número, o livro Autores Baianos: Um Panorama reunirá 12 autores da Bahia
A Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia (SecultBA), através da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), da Fundação Pedro Calmon (FPC) e de sua Assessoria de Relações Internacionais, investindo na internacionalização e difusão da literatura baiana, está iniciando a produção do 2º volume do livro Autores Baianos: Um Panorama, uma publicação trilíngue (inglês, alemão e espanhol) que, neste novo número, apresentará mais 12 nomes que representam a atual produção literária da Bahia.
A proposta é de que a obra seja utilizada em iniciativas de difusão em feiras e eventos literários internacionais, com distribuição estratégica, direcionada a agentes literários e editoras. A lista de autores participantes, de distintas gerações, perfis e gêneros, vai ser formada por Antonio Brasileiro, Cyro de Mattos, José Carlos Limeira, Marcus Vinicius Rodrigues, Maria da Conceição Paranhos, Narlan Matos Teixeira e outros. Eles foram indicados por uma comissão especializada, que está também selecionando mostras dos trabalhos dos artistas para compor a publicação. Os textos serão acompanhados por uma minibiografia.
A comissão de seleção foi formada por Aleilton Fonseca, Florentina da Silva Souza, Jailma dos Santos Pedreira Moreira, João Vanderlei de Moraes Filho, José Castello, Kelvin dos Santos Falcão Klein, Milena Britto e Rachel Esteves Lima.
Sobre o 1º volume do livro Autores Baianos: Um Panorama – Em outubro de 2013, o Brasil foi o país homenageado na Feira do Livro de Frankfurt. Esta ocasião foi palco do lançamento do 1º volume do livro, que reuniu 18 autores: Adelice Souza, Aleilton Fonseca, Állex Leilla, Antonio Risério, Carlos Ribeiro, Daniela Galdino, Florisvaldo Mattos, Hélio Pólvora, João Filho, Karina Rabinovitz, Kátia Borges, Lima Trindade, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Mayrant Gallo, Myriam Fraga, Roberval Pereyr, Ruy Espinheira Filho e Ruy Tapioca. Eles foram indicados por uma comissão de seleção formada por Antonio Carlos Secchin, Antonio Marcos Pereira, Jorge Araújo, Josélia Aguiar, Milena Britto e Nancy Vieira.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Literatura Infantil na FLICA 2014


A Festa Literária Internacional de Cachoeira 2014  está prestes a acontecer, de 30 de outubro a 2 de  novembro,  e mais novidades foram liberadas pela curadoria a respeito da programação oficial. A Fliquinha, que acontece paralelamente aos debates das mesas principais durante os dias 29 de outubro a 2 de novembro, será sediada no Cineteatro Glória e tem como confirmados o ilustrador Roger Mello e os autores Cyro de Mattos e Heloisa Prieto – que esse ano inaugura um bate-papo entre professores e coordenadores de escolas convidadas –, entre outros. Todas as conversas serão mediadas por uma das curadoras do evento, Mira Silva.
As atrações têm início na quinta-feira, dia 30, às 09h30 da manhã, com um grupo de contação de histórias que será revelado pela curadoria em breve. Na sequência, às 10h30, o contista, cronista, poeta e autor de literatura infanto-juvenil baiano, Cyro de Mattos, bate-papo com o público sobre as suas obras. Advogado aposentado e jornalista, ele passou por importantes jornais do Brasil e publicou mais de 36 livros, tendo sido premiado 41 vezes.
No período da tarde, às 14h30, é a vez de Luis Augusto, cartunista, escritor e contador de histórias, mostrar o seu talento e conversar com os pequenos. Foi ainda garoto, aos 17 anos, que fez parte da equipe do Ziraldo, criando histórias para a revista do Menino Maluquinho. Em 1996, criou o Fala, Menino!, que é uma série de tiras – também para adultos – sobre o diálogo com a infância e o respeito às diferenças. As tiras viraram livros, que viraram uma série de animação exibida nacionalmente pela TV Brasil.
Casa de Barro – Cachoeira (Foto: Caroline Moraes)
Com profissionais consagrados tanto no mercado editorial quanto em outras artes do âmbito infantil e educativo, as apresentações incluem contação de histórias; palestra sobre astronomia com o autor do blog O Guardador de Estrelas, Fernando Munaretto, que fará uma viagem lúdica e descontraída com as crianças pelo universo através de astros e estrelas; exibição de filmes na sala de cinema e até oficinas de cordel e ilustração.
Nesta edição, que tem patrocínio da Oi, COELBA e Governo do Estado da Bahia, através do programa FazCultura, o Cineteatro Glória foi escolhido para sediar o espaço lúdico. Construído na cidade em 1923, e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (IPHAN) em 1937, o centro cultural é resultado de um investimento de R$ 6 milhões na restauração e na aquisição de equipamentos. Após as obras, o prédio agora tem um aparato moderno para a exibição de filmes e também está pronto para receber manifestações cênicas, com espaços de camarins e galerias, além de equipamentos de projeção, sonorização, iluminação e cenotécnica.
Próximo dali, enquanto os filhos se divertem e aprendem, os pais podem acompanhar a programação oficial da Flica, com debates sobre os mais variados temas, desde a mesa A tolerância aos intolerantes, com a presença do filósofo lituano Leonidas Donskis, a temas específicos sobre linhas editorias.
Programação Fliquinha
·         Dia 30/10, quinta-feira
09h30  (novidade que será divulgada em breve)
10h30  Bate-papo com o autor Cyro de Mattos
14h30  Bate-papo com o cartunista, escritor e contador de histórias Luis Augusto, do projeto Fala Menino!, sobre sua produção literária
15h30  Oficina musical com o professor Gabriel Macedo
17h30  Cine Fliquinha (curtas baianos ou longas-metragens nacionais que logo serão divulgados)
19h00 Bate-papo com Heloisa Prieto – a autora conversa com professores e coordenadores de escolas.
·         Dia 31/10, sexta-feira
09h30  (novidade que será divulgada em breve)
10h30  Recital de Poesia da Casa de Barro, formado por crianças e adolescentes de Cachoeira que declamam poesia de autores nacionais e locais.
11h00  Bate-papo sobre a produção literária das autoras baianas Debora Knittel e Érica Falcão
14h30  Oficina de desenho com Athos Sampaio, ilustrador de livros e criador de jogos virtuais.
15h30  Bate-papo com a escritora Heloisa Prieto
17h30  Palestra sobre astronomia com o autor do blog O Guardador de Estrelas, Fernando Munaretto (astrônomo e educador), que fará uma viagem lúdica e descontraída com as crianças pelo universo através de astros e estrelas.
·         Dia 01/11, sábado
09h30  (novidade que será divulgada em breve)
10h30  Bate-papo sobre a produção literária com a autora baiana Sandra Popoff
14h30  Oficina de Cordel com o cantor e compositor Maviael Melo
15h30  Bate-papo com o ilustrador Roger Mello
17h30  Atração musical (novidade que será divulgada em breve)
·         Dia 02/11, domingo
09h30  (atração de encerramento. Será divulgada em breve)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

                                        BALANÇO FINAL
                                                             *Sônia Carvalho de Almeida Maron

            Seja qual for o resultado do segundo turno, seja qual for o vitorioso, o grande perdedor é o Brasil. O exemplo deplorável de uma campanha suja e sem regras civilizadas marcou o ritmo imposto e costumeiro do partido do governo. Prevaleceu desde o início, o domínio do Código Penal: na parte geral, o instituto da legítima defesa; na parte especial, o capítulo dos crimes contra a honra.
Todo brasileiro lúcido desistiu de acompanhar os debates movidos a MMA para não assistir ao clichê criado pelo ex-presidente Fernando Collor. Lembram do “bateu levou”? Aliás, o culto da mediocridade tem sido a tônica das escolhas do povo brasileiro no presente milênio, embora o bad boy e “mauricinho” Collor tivesse surgido no cenário do século passado.
            Esclarecendo a alusão ao Código Penal, lembro que o crime de calúnia é praticado quando alguém é acusado de um crime que não cometeu; a difamação ocorre quando é divulgado fato ofensivo à reputação de alguém, salientando que na difamação o fato pode ser verdadeiro; a injúria atinge a dignidade e o decoro, ficando isento de pena o autor quando o ofendido provocou injustamente a injúria. Esse tem sido o dia a dia vivido pelo povo brasileiro, contaminando a mente das crianças e adolescentes,  levando adultos e idosos ao desespero pela impotência de impedir que a prática distorcida e deletéria da conduta dos pretendentes aos cargos eletivos no executivo e legislativo chegue ao conhecimento das gerações do futuro, criando um ciclo vicioso de prática de crimes e impunidade, na luta irracional pela permanência no poder. Nossos adolescentes serão os líderes do amanhã e amadurecerão acreditando que o exercício de cargos aparentemente relevantes está reservado para aqueles que praticam o crime mais perfeito e conseguem escapar às malhas da lei.
            A imprensa divulgou fartamente, em jornais, revistas e notícias jornalísticas, via internet, a declaração de um político influente afirmando “que faria qualquer coisa, faria o diabo...” para garantir a reeleição presidencial. A depender da afinidade ou preferência, o diabo pode ser invocado à vontade mas não conduzirá a mente do candidato eleito, seja ele quem for. Vamos lembrar que o cancioneiro popular afirma que o “O Brasil é um país tropical, abençoado por DEUS e bonito por natureza”, no verso inspirado de  Wilson Simonal. E os baianos sabem cantar o hino de Nosso Senhor do Bonfim: “Nesta colina sagrada/ mansão da misericórdia/ dá-nos a graça divina/ da Justiça e da Concórdia”.
            O Brasil é um país predominantemente católico e sua Lei Magna assegura a liberdade de culto e de expressão. Assim, todas as religiões do seu sincretismo abençoado invocam a paz, a união, a justiça e a concórdia. Ateus ou agnósticos, todos desejam que energias positivas comandem o caminho e o destino dos brasileiros, até mesmo dos que não sabem o que fazem.

·        Sonia Carvalho de Almeida Maron é Juíza de Direito aposentada e presidente da Academia de Letras de Itabuna – ALITA.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Poesia Inédita 



A Poesia Existe em Tudo

Sua alma invisível força-me
Um novo olhar que veja
O real além da aparência.
Entre manhã e noite,
Intervalo no que sou
Sob o peso do mistério, 
Escreve meus rumores.
Em tudo a poesia permanece,
Empresta a palavra ao sonho
E frêmitos feridos na asa,
Idêntica de ternuras e dores..

        A Poesia É Um Pássaro
A Poesia é um pássaro
Que canta em meu ouvido.
De tal sorte encanta
Com suas cantigas
Pelo bico de sol e chuva
Que ao retornar sereno
Aos campos do eterno
Deixa esses rumores
De relva como sonho.
Com eles o coração
Bate-me na boca
O que no mundo
De mais verde existe.


          Poesia

          Meu amor,
          Minha dor,
          Ó flor.




terça-feira, 7 de outubro de 2014

                  Escritor Ricardo Cruz  e Seu Romance
                    “A Vida Pregressa de WQ”



Em seu último livro, o  romance “A Vida Pregressa de WQ”, Ricardo Cruz, médico em Salvador, escritor baiano que passou a adolescência em Itabuna,  aborda temas como tráfico de drogas e armas, retratando o Brasil de nossos dias e servindo não apenas como leitura atual, mas, no futuro, aos pesquisadores que se interessem em refazer nossa época turbulenta.

“A Vida Pregressa de WQ” se desenrola a partir da queda de um pequeno avião executivo na floresta amazônica e todos os passageiros morrem, menos um. No hospital, o sobrevivente, pistoleiro profissional e ex-membro da polícia civil do Rio de Janeiro, conta sua história a um interlocutor não identificado, o leitor, que, no final é quem irá desvendar toda a trama narrada. WQ, na tentativa de projetar-se como um dos “pilares morais” da sociedade grapiúna, depois de graves acontecimentos que protagoniza, vai dedicar-se a todo tipo de mutreta, entre as quais o contrabando de drogas da Colômbia, de armas do Paraguai: o avião em que vinha de lá trazia justamente isso, drogas e armas para abastecer traficantes cariocas, paulistas, baianos, quem mais der.

Ricardo Cruz é psicanalista, autor de 4 livros de contos e participou, nesta modalidade, de várias antologias nacionais e uma estrangeira. Publicou crônicas e contos nos jornais A TARDE, DIÁRIO DE NOTÍCIAS E TRIBUNA DA BAHIA e nas revistas: REVISTA DA BAHIA e QUINTO IMPÉRIO (Revista de Cultura e Literaturas da Língua Portuguesa). É de sua autoria o romance A Vingança de Xangô.

O que os autores Marcos Santarrita, Cyro de Mattos e Hélio Pólvora falam sobre Ricardo Cruz:

Hélio Pólvora, (ficcionista, crítico literário, ensaísta e membro da Academia de Letras da Bahia), escreve sobre o livro de contos Roteiro para uma Tempestade: “Escritor quase veterano, portanto, e que escreve devagar, preocupado com a qualidade e sem querer forçar os favores da mídia, conquistou com recursos exclusivamente literários um lugar de relevo na contística baiana.”

Sobre A Vingança de Xangô, escreve escritor Marcos Santarrita (autor, dentre outras obras, dos romances: A Juventude Passa, Lady Luana Savage, e Mares do Sul, Ed. Record; é ainda tradutor, colunista e crítico literário do Jornal do Brasil e da Folha de São Paulo): “Ricardo tece sua trama com o encantatório talento do verdadeiro contador de histórias, adequando a linguagem ao tema nos volteios e ritmos barrocos da frase, e adotando um estilo platônico de narrativa para extrair da mente do leitor as conclusões”.

Depoimento de Cyro de Mattos (Contista, poeta, cronista, ensaísta e autor de livros infantis, baiano, possuidor de 50 prêmios literários), sobre Ricardo Cruz: “Ricardo Cruz pertenceu à Geração Revista da Bahia, juntamente com Ildásio Tavares, Marcos Santarrita, Nancif Ganem, Olney São Paulo, Fernando Batinga, Cyro de Mattos e outros. Sempre foi sóbrio, nunca se preocupou com a estrada do outro e até hoje se mantém fora da guerra acirrada das letras. Estreou com “Roteiro para uma Tempestade”, de boa repercussão nos meios literários baianos. Além de estar presente em antologias na Bahia, seu conto “O Réprobo” participa de coletânea publicada na Rússia, de ficcionistas importantes da América Latina, como Julio Córtazar, Mário Benedeti, Rosário Castellanos e René Marques. Há tempos conseguiu ocupar seu espaço como ficcionista de qualidade no panorama das letras baianas. Tensos na trama de teor dramático, do erótico às relações cúmplices do cotidiano, seus personagens transmitem infortúnios, absurdos e solidões, que só um autor talentoso e experiente consegue retransmitir.”


                                                        
Em seu último livro, o  romance “A Vida Pregressa de WQ”, Ricardo Cruz, médico em Salvador, escritor baiano que passou a adolescência em Itabuna,  aborda temas como tráfico de drogas e armas, retratando o Brasil de nossos dias e servindo não apenas como leitura atual, mas, no futuro, aos pesquisadores que se interessem em refazer nossa época turbulenta.

“A Vida Pregressa de WQ” se desenrola a partir da queda de um pequeno avião executivo na floresta amazônica e todos os passageiros morrem, menos um. No hospital, o sobrevivente, pistoleiro profissional e ex-membro da polícia civil do Rio de Janeiro, conta sua história a um interlocutor não identificado, o leitor, que, no final é quem irá desvendar toda a trama narrada. WQ, na tentativa de projetar-se como um dos “pilares morais” da sociedade grapiúna, depois de graves acontecimentos que protagoniza, vai dedicar-se a todo tipo de mutreta, entre as quais o contrabando de drogas da Colômbia, de armas do Paraguai: o avião em que vinha de lá trazia justamente isso, drogas e armas para abastecer traficantes cariocas, paulistas, baianos, quem mais der.

Ricardo Cruz é psicanalista, autor de 4 livros de contos e participou, nesta modalidade, de várias antologias nacionais e uma estrangeira. Publicou crônicas e contos nos jornais A TARDE, DIÁRIO DE NOTÍCIAS E TRIBUNA DA BAHIA e nas revistas: REVISTA DA BAHIA e QUINTO IMPÉRIO (Revista de Cultura e Literaturas da Língua Portuguesa). É de sua autoria o romance A Vingança de Xangô.

O que os autores Marcos Santarrita, Cyro de Mattos e Hélio Pólvora falam sobre Ricardo Cruz:

Hélio Pólvora, (ficcionista, crítico literário, ensaísta e membro da Academia de Letras da Bahia), escreve sobre o livro de contos Roteiro para uma Tempestade: “Escritor quase veterano, portanto, e que escreve devagar, preocupado com a qualidade e sem querer forçar os favores da mídia, conquistou com recursos exclusivamente literários um lugar de relevo na contística baiana.”

Sobre A Vingança de Xangô, escreve escritor Marcos Santarrita (autor, dentre outras obras, dos romances: A Juventude Passa, Lady Luana Savage, e Mares do Sul, Ed. Record; é ainda tradutor, colunista e crítico literário do Jornal do Brasil e da Folha de São Paulo): “Ricardo tece sua trama com o encantatório talento do verdadeiro contador de histórias, adequando a linguagem ao tema nos volteios e ritmos barrocos da frase, e adotando um estilo platônico de narrativa para extrair da mente do leitor as conclusões”.

Depoimento de Cyro de Mattos (Contista, poeta, cronista, ensaísta e autor de livros infantis, baiano, possuidor de 50 prêmios literários), sobre Ricardo Cruz: “Ricardo Cruz pertenceu à Geração Revista da Bahia, juntamente com Ildásio Tavares, Marcos Santarrita, Nancif Ganem, Olney São Paulo, Fernando Batinga, Cyro de Mattos e outros. Sempre foi sóbrio, nunca se preocupou com a estrada do outro e até hoje se mantém fora da guerra acirrada das letras. Estreou com “Roteiro para uma Tempestade”, de boa repercussão nos meios literários baianos. Além de estar presente em antologias na Bahia, seu conto “O Réprobo” participa de coletânea publicada na Rússia, de ficcionistas importantes da América Latina, como Julio Córtazar, Mário Benedeti, Rosário Castellanos e René Marques. Há tempos conseguiu ocupar seu espaço como ficcionista de qualidade no panorama das letras baianas. Tensos na trama de teor dramático, do erótico às relações cúmplices do cotidiano, seus personagens transmitem infortúnios, absurdos e solidões, que só um autor talentoso e experiente consegue retransmitir.”

               

sábado, 4 de outubro de 2014

Helena Parente Cunha: O Escritor
e O Mundo Conturbado de Hoje


                                                    Entrevista de Cyro de Mattos


Helena Parente Cunha nasceu em SALVADOR, Bahia, Brasil.  Depois de lecionar no Curso de Letras, da Universidade Federal da Bahia, transferiu-se para o Rio de Janeiro onde vive há décadas, foi reconhecida como Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro e se tornou docente da Pós-Graduação da Faculdade de Letras. Autora de trinta livros publicados (poesia, conto, romance, ensaio, crítica literária) e quase uma centena de volumes com outros autores, no Brasil e no exterior. Seus livros receberam prêmios em concursos de expressão nacional.  É dessa mulher de caráter afável, erudita, criativa,  que procuramos saber sobre a condição do escritor e os caminhos da literatura  no mundo massificado de hoje, cheio de fortes  agressões e cobranças. 


Cyro de Mattos 1 - Thomas Mann acha que ser escritor é uma maldição, que começa cedo, terrivelmente cedo. Para  você, que caminha nessa estrada feita de solidões e desejos, dores e ternuras, o que é ser escritor? Destino, profissão, missão?
- Como escritora, vejo-me  levada a tentar dizer o que sinto no turbilhão de emoções em que a vida nos coloca. E também tentar dizer o que penso neste mundo de violência e atravessado de contradições e desacertos. Como a realidade é sempre mais do que as palavras podem abarcar, muitas vezes, na tentativa de dizer o indizível, é preciso ultrapassar a língua, mesmo desrespeitando a gramática e as normas da correção. Mas não pelo simples gosto da transgressão e sim pela urgência do dizer.
Não acho que ser escritor seja maldição. Escrever é muitas vezes doloroso na busca da palavra que se recusa a vir à tona.  Mas é sempre altamente gratificante e prazeroso.


2- Hoje vivemos em uma sociedade que prioriza o estômago, o corpo e o poder. Que função tem a literatura  em um mundo que cada vez mais concebe os valores éticos e espirituais como expressão de nadas?
- Acredito que a literatura não tenha obrigações salvacionistas, mas tem um compromisso com seu tempo, expressa as tendências da sua época, misérias ou grandezas, frustrações ou vitórias, vícios, esperanças.
Atualmente, em várias cidades brasileiras, sei da existência de inúmeros grupos de poetas e poetisas que se reúnem periodicamente, uma vez por semana ou por quinzena, por exemplo, para dizer poemas da própria autoria, sentindo-se estimulados para escrever sobre temas variados que podem transformar-se em livros individuais ou coletivos. Pelo que entendi, produzem por indiscutível prazer em criar e divulgar sua produção no próprio grupo ou na internet ou em performances em várias cidades e até estados. Por não haver sido ainda legitimada pelos críticos ou pelos cursos de Letras, essa produção fica um tanto à margem da chamada literatura oficial. De uma forma ou de outra, constitui uma das belas características de nossa pós-modernidade multifacetada, onde convivem os extremos positivos e negativos.

3 – A sociedade contemporânea cultiva, em grande escala,  a imagem e o som como linguagens para dizer a vida. O suporte do livro tradicional mudou com a chegada dos meios eletrônicos.  O livro impresso está na fase terminal?
Não acredito nesta visão um tanto apocalíptica. Da mesma forma que a fotografia não acabou com a pintura nem o cinema desbancou o teatro, acho que a riqueza do real exige novas linguagens para ser expressa, sem que uma necessariamente derrube a outra.

4 – Não se pode deixar de considerar que o texto literário abraçou  um novo espaço democrático graças à internet, através do exercício usual de blogs, jornais e revistas eletrônicas.   Isso  faz bem ou mal à literatura?
- Cada época tem seu modo específico de considerar o texto literário. Nossa época se caracteriza por mudanças radicais ocorridas em tempo recorde, o que resulta na coexistência de vários aspectos díspares e contraditórios que disputam espaço na página ou na tela. A especificidade do ser literário também se altera ao sabor das características temporais. No novo espaço democrático oferecido pelos meios eletrônicos, sinto que há mais flexibilidade para o gosto não só das elites acadêmicas, mas também para um espaço democrático.

5 – Com a presença forte da televisão e dos meios eletrônicos, a literatura passou a ter grandes  concorrentes como instrumentos de lazer e forma de conhecimento. De que maneira isso afeta o autor, que já foi muito prestigiado em outros tempos?
- Houve tempos em que o poeta era cultuado como um profeta ou enviado dos deuses. Em outros tempos se destacava como porta-voz da ideologia vigente.
E hoje, onde a tendência se volta para a multiplicidade de expressão, muitas vezes o autor ou a autora se vê pressionado pela originalidade do texto e pela urgência em inovar, o que pode redundar em extravagâncias e obsessão pelo ineditismo. O prestígio vivido pelo escritor no passado me parece obscurecido pela excessiva valorização do poder econômico e seu afã de abranger e deformar valores e princípios.

6 - Uma enxurrada de autores continua a passar  por debaixo da ponte. Hoje se escreve mais para menos leitores?
- Não sei se hoje se escreve mais para menos leitores, entretanto, talvez por conta da democratização trazida pelos meios eletrônicos, um número maior de autores encontrou mais possibilidades para suas publicações, considerando-se ainda as atuais tendências para abolir hierarquias e hierarquizações, rejeitar regras e formulações que em outros tempos se impunham para a criação literária.

7 – Seu romance, Mulher no Espelho, Prêmio Nacional Cruz e Sousa, da Fundação Cultural de Santa Catarina, já em décima edição, é um marco na moderna ficção feminina, a partir da década 70. Fale um pouco desse romance maior em nossas letras.
-  Como disse,  escrevo para dizer o que sinto e também o que penso e muito do que imagino. E para apontar abusos, injustiças, violência da sociedade patriarcal, desesperos do sentimento de culpa, hipocrisias das fórmulas vazias da falsa convivência de uma sociedade refém das aparências, as certezas de verdades mentirosas, os preconceitos contra os excluídos, o desejo, o corpo, mulheres anuladas ante o todo-poderoso pai ou marido, distorções da cultura machista, dilaceramento entre dúvidas e milenares perguntas sem respostas. Entre momentos líricos, irônicos, satíricos, dramáticos, trágicos, se sucedem monólogos, reflexões e angústias.
Escrever este livro foi aprendizado cruel que me levou a mais de um ano de depressão. Mas o prazer dessa escrita me trouxe a recompensa de sentir que vale a pena ser escritora.

   8  – Fale também sobre  Impregnações na Floresta, seu último livro de poesia,  motivado por uma viagem feita à Amazônia. Um belo livro  revestido  das percepções  íntimas, interiorizado por seu sentimento  e sensibilidade decorrente do seu estar no mundo. Como a crítica e seus leitores receberam o livro?   
- Foi um livro que procurou reviver momentos de silêncio e contemplação no encantamento indizível da floresta. Acho que, por este motivo, as pessoas que se comunicaram comigo me pareceram, de certo modo, integradas naquela magia.

8 –.  Embora sua obra seja de alto nível, elaborada em várias frentes,   estudada em universidades, não desfruta da mídia que privilegia um pequeno grupo.  Como você encara esse tempo que divulga inverdades e valores duvidosos?
- Para lhe dar uma resposta justa, teria que ler mais sobre o que a mídia  publica e mais dos livros com que a mídia se ocupa.

10 – Entre suas atividades literárias, qual a que mais lhe completa, a de ficcionista, poeta, ensaísta, crítica  ou professora universitária?

-  A depender do meu estado de espírito, eu percebo o gênero que mais me convém naquele momento. Quando me deixo levar pela emoção, pela fantasia, escolho o lírico, porquanto me parece que o poema curto concentra melhor o transbordar do sentimento.  Diante de realidades concretas que me chamam a atenção pelo abuso do poder, intolerância, discriminação, prepotência, etc, prefiro narrar e assinalar minha revolta ante os absurdos de muitos dos relacionamentos humanos. Nessas circunstâncias, é preferível o conto ou o romance. No ensaio proponho um estudo sobre questões de ordem cultural, social, psicológica e que em geral tem a ver com minhas pesquisas ou temas de minhas aulas. Quando escrevo sobre escritores, jamais critico, mas se o texto não me agrada, prefiro me calar.

11 - Você foi convidada para participar do XVII Encontro de Poetas Iberoamericanos em Salamanca, em outubro deste ano.  Trata-se de evento com repercussão internacional, promovido pela Fundação de  Salamanca, Cidade de Cultura e Saber, na Espanha. Qual a sua expectativa em integrar um conjunto de importantes poetas iberoamericanos  e, assim,  participar de evento que dignifica a poesia sob vários aspectos?  

- É uma alegria, uma honra, uma responsabilidade. Responsabilidade, porque sei da importância desse Encontro de Poetas iberoamericanos de repercussão internacional. Sei também do renome do poeta Alfredo Pérez Alencar que coordena esse Encontro. Todos sabem do valor histórico e cultural de Salamanca, no cenário mundial e da sua famosíssima Universidade. Portanto,  sinto-me honrada por fazer parte de um evento dessa dimensão. Apesar do peso da responsabilidade, alegro-me e agradeço pelo ensejo de viver tão rica experiência.