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domingo, 17 de março de 2019





           O Triunfo do Amor   

Cyro de Mattos

O moço morava no outro lado do rio. Lá havia uma olaria. Trabalhava ali, fazia moringa, panela,  bonecos e santos.  Mãos caprichosas, artesão afamado. A moça  morava no lado de cá, margem esquerda do rio,  onde havia a pequena cidade com o seu comércio próspero. Fazia  toalha, tapete, rede. As mãos delicadas, tecelã admirada. 
Em cada domingo, empreendia o caminho das águas. Na canoa remava. Sentia-se bem  com a manhã clara, a aflorar sentimentos de ternura, a cada lance que remava.  ”Rema, rema,  remador, se queres ver o teu amor”.    
 Manejava o remo com serenidade, a  canoa singrava no espelho das águas. Prosseguia na manhã sem nuvens,  o moço concentrado em cada remada que dava, a canoa como uma folha  deslizando nas águas claras,  de fontes puríssimas.  “Se a canoa não virar, devagar chegarás  lá,  o teu  amor vais encontrar. ”   
        O casamento foi marcado para maio, mês de nascimento do moço artesão  e da moça tecelã.  Era para acontecer num desses domingos de sol radiante.  Na igrejinha de paredes alvas,  erguida na colina, no pátio  enfeitada de bandeirolas. Lá dentro os vasos com cravos e rosas, os ares ativados com o perfume das flores.  O sino velho na torre saudaria os noivos, as batidas fazendo blem, blem, blem, alegrando a cidadezinha na manhã luminosa.
Vontade de chegar depressa, abreviar o caminho das águas. Bater à porta da casa onde a moça o esperava desde cedo, o coração temeroso, o rosto de ânsia.  A canoa impelida  pelo remo em lances cadenciados. O vento, a princípio manso, de repente assoviou forte,  no peito do moço bateu enraivado.  Mostrava que também estava enamorado da moça. Vento virado em bicho ciumento, danado,  como se quisesse derrubar nas águas  o moço, impedindo-o de se encontrar com a moça.  Bateu mais forte na canoa,  que bateu na pedra,  virou de lado, encheu de água. Desceu para o fundo do poço.  
Nadou com firmes  braçadas. Para se encher de ânimo, o moço dizia para si, entre os redemoinhos da alma.  “Nada, nada, nadador, se queres ver o teu amor.” Até que pisou em terra firme. Estava cansado, o peito arfava. Colheu flores silvestres no barranco, antes de prosseguir na jornada. 
Já desanimada, a moça não mais esperava que ele aparecesse. Ouviu alguém bater palmas lá fora. “Tem alguém aí em casa?”  Apressada foi abrir a porta. Queria saber de quem eram as palmas fortes.  Assustada, viu o moço que aparecia risonho,  um rosto de expressão vitoriosa.  
Entregou à moça o buquê de flores. Pediu uma xícara de café quente. Sentou na cadeira da sala,  vestido com outras roupas, limpas e engomadas,  que a própria moça providenciara. Depois de aquecer o peito com o café, bebido  aos poucos, começou a contar por que se atrasara.  O vento cheio de ciúme  bateu na canoa com uma rajada medonha, suficiente para fazer um  rombo na popa. A canoa afundou.  Para não esmorecer na travessia, fortaleceu a vontade com uma coragem impressionante. Impeliu-se em arrojadas braçadas. Nada o atemorizava. Nem o poço fundo, a correnteza poderosa, o vento incontrolável, que enciumado  assoviava  na manhã tormentosa.   
Durante a difícil travessia, só queria que chegasse aquela  hora para dizer à moça o que sempre desejara:
- Estou esperando na igrejinha para receber você como a minha esposa.  
 Como  havia prometido,  desde aquele dia em que o artesão afamado deu o seu  primeiro beijo na tecelã amada.   

·        Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários expressivos no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.    

segunda-feira, 11 de março de 2019





           A ACADEMIA DE LETRAS DE ILHÉUS
            COMEMORA 60 ANOS DE HISTÓRIA

                    Por Jane Hilda Badaró

Aos quatorze dias do mês de março de mil novecentos e cinquenta e nove (1959), nesta cidade de Ilhéus, do Estado Federado da Bahia, precisamente as 17 horas, na residência do intelectual Abel Pereira, Edifício Magalhães, 2o. andar, apartamento 2, à Praça Visconde de Mauá, reuniram-se os srs. Abel Pereira, Nelson Schaun, Wilde Oliveira Lima e Plínio de Almeida, membros da comissão de iniciativa , e mais os convidados Dom Caetano Antonio Lima dos Santos, Osvaldo Ramos, José Cândido de Carvalho Filho, Halil Medauar, Jorge Fialho e Otávio Moura- para o caso especial de se estudar o plano e consequente fundação da Academia de Letras de Ilhéus. Nessa reunião, fizeram-se representar pelo Sr. Abel Pereira, por meio de cartas de autorização, os srs. Fernando Diniz Gonçalves, Sosígenes Costa, Camilo de Jesus Lima, Raimundo Brito, Eusígnio Lavigne, Ramiro Berbert de Castro, Flávio Jarbas, Heitor Dias, Flávio de Paula e Milton Santos”.
Com o texto acima, foi iniciada a Ata Especial da Fundação da Academia de Letras de Ilhéus, lavrada em 14 de março de 1959, oportunidade em que registrou-se a designação da primeira diretoria do novel silogeu, composta por Presidente- Abel Pereira, 1º. Vice Presidente- Halil Medauar, 2º. Vice Presidente- Osvaldo Ramos, Nelson Schaun- Secretário Geral, Francolino Neto-1º. Secretário, José Nunes de Aquino- 2º. Secretário, Jorge Fialho-1º. Tesoureiro, Washington Landulfo- 2º. Tesoureiro, Nilo Cardoso- Diretor da Biblioteca, e Plínio de Almeida- Diretor da Revista.
Naquela reunião histórica, o primeiro orador, Plinio de Almeida, “disse considerar aquele dia um dos maiores para os forais ilheenses, pois que, no dia do nascimento de um dos mais altos poetas das Américas, Castro Alves, fundava-se em Ilhéus, graças aos esforços do Sr. Abel Pereira, uma Academia de Letras. Salientou o orador que o cometimento não era pequeno. Uma Academia de Letras requer muito esforço, muito denodo, muita renúncia. Ela, ao nascer, tem de fazer face a muita crítica, sendo, portanto, necessário o esforço dos fundadores para que a obra não fracasse. Esta, acentuou, não fracassará, porque nasceu sob a égide de Castro Alves, que foi um excelso poeta e magnífico batalhador”.
A profética oratória mostra força de concretude na medida em que em 14 de março de 2019 a Academia de Letras de Ilhéus - uma das Academias de Letras mais antiga do Brasil- comemora sessenta (60) anos de fundação. Decerto a missão é hercúlea, exigiu e exige grande esforço de muitos idealistas, desde os fundadores, até seus atuais membros, intelectuais e cultores das Artes e das Letras, mantendo viva a entidade no seu fidedigno propósito expresso no lema do sodalício: “Patriae Litteras Colendo Serviam”. E a Casa de Abel – assim chamada numa referência ao seu idealizador e fundador poeta Abel Pereira- segue firme no cumprimento da missão de incentivar e promover a cultura, através da realização de conferências, concursos, cursos, premiações, e outras atividades de natureza literária, artística e cultural.
Vale assinalar alguns nomes referenciais que ocuparam uma das 40 cadeiras da ALI: Jorge Amado, Adonias Filho, Otávio Moura, Carlos Monteiro, Leones da Fonseca, Paulo Cardoso Pinto, Clarêncio Baracho, Ramiro Berbert de Castro, Otávio Moura, Pe. Nestor Passos, Osvaldo Ramos, Carlos Pereira Filho, Natan Coutinho, Leopoldo Campos Monteiro, José Nunes de Aquino, João Mangabeira, Gileno Amado, Zélia Gattai, Amilton Ignácio de Castro, Janete Badaró, Ariston Cardoso, Dorival de Freitas, Ton Lavigne, Mario Pessoa, Hélio Pólvora, Érito Machado, Raymundo Sá Barreto, Claudio Silveira, Manoel Carlos de Almeida, Hans Tosta Schaeepi, João Hygino Filho, dentre outros.
A despeito da rica história, e maturidade, a Academia de Letras de Ilhéus é hoje uma academia jovem e vigorosa. Existe entre seus atuais membros personalidades das mais diferentes idades, desde o decano ministro José Cândido Carvalho Filho, contando seus 96 anos de vida, Gumercindo Dórea com 95 anos, até o poeta Geraldo Lavigne, hoje com 32 anos, empossado desde 2014. Todos contribuem para o crescimento e enriquecimento da instituição na medida das riquezas de suas trajetórias, da força que empreendem nas lides culturais e artísticas das terras grapiúnas, regionais, estaduais, ou de suas produções literárias. Muitos dos membros da Academia ilheense ganharam, e/ou ganham, visibilidade e reconhecimento que extrapolam as fronteiras nacionais e internacionais.
A Academia de Letras de Ilhéus celebra portanto bodas de diamante, e o momento será comemorado em 14 de março, na sede da Rua Antonio Lavigne de Lemos, às 19 horas, ocasião da abertura do Ano Acadêmico de 2019, com uma preleção sobre a trajetória da instituição proferida por Arléo Barbosa, e posse da Diretoria eleita para o biênio 2019-2021: Presidente: André Luiz Ribeiro Rosa, Vice Presidente- Arléo Barbosa, Secretária Geral: Jane Hilda Badaró, 1ª. Secretária- Maria Schaun, 2º. Secretário- Josevandro Nascimento, 1º. Tesoureiro- Gerson dos Anjos e 2º. Tesoureiro- Gustavo Cunha.
Compõem ainda o quadro da Academia de Letras de Ilhéus: o decano José Cândido Carvalho Filho, Raymundo Laranjeira, Antônio Lopes, Aleilton Fonseca, Luis Pedreira Fernandes, Carlos Roberto Santos Araújo, Cyro de Mattos, Ruy Póvoas, Geraldo Lavigne, Baísa Nora, Eliane Sabóia Ribeiro, Soane Nazaré de Andrade, Ramayana Vargens, Antônio Ezequiel, Jabes Ribeiro, Maria Luiza Heine, Neuzamaria Kerner, Neuza Nascimento, Edvaldo Brito, Carlos Eduardo Passos, Mário Albiani, Pawlo Cidade, Neide Silveira, Anarleide Menezes, Sebastião Maciel, Vercil Rodrigues, Leônidas Azevedo, Gumercindo Dórea, Jorge Luiz Matos, Fabrício Brandão, Luh Oliveira e Carlos Valder Nascimento.
Programada para ocorrer com o quadro completo - com seus membros efetivos ocupando as 40 cadeiras existentes - o destino, entretanto, resolveu surpreender, e, na semana que antecede a solenidade, no dia 8 de março p.p., o advogado João Hygino Filho se despediu deste plano, tendo deixado vaga a cadeira de número 1, e um sentimento de pesar entre seus pares, que, por ocasião da “Sessão da Saudade”, com data ainda a ser definida, eternizarão a sua memória, ressaltando os méritos que possuía enquanto pessoa, profissional e acadêmico.

sexta-feira, 1 de março de 2019


             

                A Metamorfose
        
           Cyro de Mattos

Da sacada do apartamento, jogava o milho pisado para os pombos. Via com prazer  a cena inquieta dos bicos catando as migalhas na rua.
Comprava o passarinho com a gaiola,  na feira, aos sábados. Abria a portinhola, ficava feliz vendo o bichinho bater asas,  desaparecer. Tomava a direção da mata.
Comprara o binóculo para observar com detalhes o espetáculo dos periquitos voando acima dos telhados, próximos ao edifício  onde morava, erguido na colina.
Gritos constantes das aves. Até que se empoleiravam nas árvores perto da igreja.
Acordavam cedo, nuvem de asas acima da torre da igreja. Tomavam depois a direção da mata. Voltavam pela tarde em busca do poleiro nas árvores.
Aqueles bichinhos foram feitos por Deus para voar pelas estações temperadas de sol e chuva. Bicar nas manhãs frutíferas.  Alegrar a natureza com voos e cantos. Cumprir a lei da reprodução da natureza, perpetuar a espécie.  Preso algum deles na gaiola, a vida do cantor prisioneiro passava sem graça, em canto e plumagem perdia o sentido. 
Igual a um castigo destamanho só o de alguém que nascesse sem os braços ou  arrancados do corpo em algum acidente, por exemplo.  
Teve a certeza dolorida disso quando foi atropelado por um caminhão, que  passou na rua desembestado.
Com a pancada, perdeu um dos braços, o outro mutilado, sem a mão, imprestável também.  Sorte não ter morrido. 
Difícil acostumar com a situação precária. Abatia seus  sentimentos e nervos. Os olhos denunciavam  a alma   entristecida.
Os de casa não ligavam para ele. Só servia quando era gerente de banco, sustentando a mulher e os três filhos, a cunhada, a sogra e o sogro. .
Deficiente, impossível agora dar milho pisado aos pombos.  Ficava em silêncio, sentindo pena de si mesmo, a situação irreversível. 
Até que uma manhã acordou com umas asas no lugar dos braços. A princípio achou o acontecimento estranho.  Dessas coisas que por mais que se force a inteligência não se acha a explicação lógica do seu acontecimento. Um milagre, para Deus nada é impossível.
 Foi até a sacada. De lá alçou voo. Não hesitou,  seguiu na direção da mata. O  mundo visto do alto pareceu-lhe então perfeito, cheio de brilho e cores.   

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019





    Sua Única Briga
                 
                 Cyro de Mattos

Só brigou uma vez no internato. Foi com um menino que jogava de ponta-esquerda no time de camisa branca. Jogando como lateral direito no time de camisa azul,  ele dava uma marcação implacável àquele menino gago, troncudo, baixo, braços musculosos.  Em compensação era menor do que ele, que sempre se antecipava para tomar a bola dele, um  atacante arrojado,  precisando ser marcado de perto.
 Era um duelo à parte entre os dois quando o time de camisa azul enfrentava o de camisa branca.
Na última partida, o marcador e o atacante  chocaram-se na lateral do campo, temeu-se que os dois contendores tivessem se machucado gravemente. Houve bate-boca, dedo em riste no rosto, da próxima vez eu lhe quebro a canela, jogadores dos dois times apartaram os dois para evitar a briga. Terminado o jogo, com o sangue ainda quente,  atracaram-se,  a briga não continuou por mais tempo porque o Irmão Já-Morreu trilou o apito várias vezes, pedindo a seguir  que os dois rivais lhe acompanhassem.
Adiante, no campo vazio, sem grama, improvisado no terreno arenoso, localizado entre  a parede alta de um dos pavilhões  do pavimento térreo, de um lado, e um muro, no outro com uma tela aramada, também alta, na frente e fundo,  o Irmão Já-Morreu ordenou:
- Agora podem brigar à vontade. Ninguém vai apartar.
A briga demorou mais de uma hora. Nos lances com murros desfechados um ao outro, procurou  evitar que o rival agarrasse o seu corpo. Se isso acontecesse, seria derrubado, e, no chão, dominado, certamente ia ser massacrado pelo rival,  sem ter a mínima chance para vencer a briga.
A certa altura da briga renhida, os brigões mostravam cansaço, um se  agarrava ao outro para não cair, mas nenhum deles  recuava, pensando em correr. Até que de tão cansados com os golpes desfechados, os dois desabaram ao mesmo tempo, cada um caiu para um lado. E ali mesmo ficariam desacordados, sem forças para levantar, não fosse o Irmão Já-Morreu que jogou  um balde de água para despertar os  brigões,  ainda com o sangue quente.

·        Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Detentor de prêmios literários importantes e, entre eles, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, Associação dos Críticos Literários de São Paulo, Nacional de Poesia Ribeiro Couto (UBE-RJ), Internacional Maestrale  Marengo d’Oro, Itália, duas vezes, Menção Honrosa do Jabuti, Nacional Pen Clube do Brasil e Nacional Cidade de Manaus. Publicado em oito idiomas.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019







Indiano Abhay Kumar lança antologia
que inclui o poeta Cyro de Mattos


Sessenta poetas  nacionais estão na antologia bilíngüe New brazilian poems/Novos poemas brasileiros, organizada pelo poeta e diplomata indiano Abhay Kumar, que está na capital federal desde 2016, onde trabalha na Embaixada da Índia. Publicada pela editora Ibis Libris, do Rio de Janeiro, a antologia inclui poema do poeta Cyro de Mattos, além dos poetas baianos  Myriam Fraga, Antonio Risério, Ruy Espinheira Filho e Roberval Pereyr.  O prefácio do livro é assinado por Nicholas Birns, professor de Literatura da Universidade de Nova York  nos Estados Unidos.
        “Dunas” é o poema do poeta baiano  Cyro de Mattos que participa da antologia  bilíngüe New Brazilian Poems/ Novos Poemas Prasileiros. Foi selecionado  do livro Poemas escolhidos/Poesie scelte, da Editora Escrituras, que deu ao escritor  Cyro de Mattos  o Segundo Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, Genova, Itália, para obras inéditas.         
Abhay K. é autor de oito livros de poesia, incluindo O Senhor dos Oito Olhos de Katmandu e A Profecia de Brasília. Também é o editor de CAPITALS – 100 Grandes Poemas da Índia e Mais 100 Grandes Poemas da Índia. Seus poemas já foram publicados em mais de 60 revistas literárias, incluindo Poetry Salzburg Review e Asia Literary Review. Seu poema “Earth Anthem” foi traduzido para mais de 30 idiomas em todo o mundo. Recentemente, foi convidado para gravar seus poemas na Biblioteca do Congresso, em Washington D.C.

"Por trás da janela/ vejo o país/ que me condena:/ cidades e campos,/ rios e ruas/ na retina./ Prisioneiros somos/ da perspectiva/ que nos afasta/ do que é em nós/ mais terra e sangue./ Por isso nos escondemos/ atrás de mesas executivas,/ folheamos manuais/ de covardia./ Há de chegar o dia/ de dizer/ com orgulho: brasileiro,/ muito prazer”, diz o poema Sou brasileiro, do porto-alegrense José Eduardo Degrazia, que foi incluído na antologia  bilíngue New brazilian poems, do diplomata indiano Abhay Kumar, lançada no dia 17 de janeiro de 2019, na sede da Associação Nacional de Escritores, em Brasília,
        O diplomata, responsável pela edição e tradução dos textos que estão na antologia, reúne 60 poetas para compor essa nova antologia de poemas brasileiros traduzidos para a língua inglesa. “São vários poetas de diferentes regiões do Brasil. De Brasília, há nomes como Nicolas Behr, Climério Ferreira, José Carlos Vieira e Francisco Alvim”, diz Abhay, que é também poeta.
      “A poesia brasileira fala muito sobre problemas sociais, problemas cotidianos, além de serem também muito geográficos. Aqui, em Brasília, fala-se muito do cerrado; no nordeste, mais sobre o sertão, e assim por diante”, conta o indiano.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019


                               


                                  O Apostador
                                    
                                 Cyro de Mattos

            Começou jogando no bicho. Mudou para a loteria federal. Meses depois migrou para  a loteria esportiva. Agora estava de olho gordo na  mega-sena. Só valia ganhar, se fosse o único ganhador, entre milhares de apostadores. Mega-sena acumulada,  ao felizardo marés de milhões. Ele, o apostador incorrigível. 
           A mulher tentou livrá-lo do vício. Brincadeira no início, logo pegou feito  visgo. De tudo tentou. Benzedeira, banho com sal grosso, cartomante. Candomblé, espiritismo. Fez promessa forte a santo Expedito, o santo das causas impossíveis. Não adiantou.
         O pequeno patrimônio, com tanto esforço adquirido, sendo dissolvido. Primeiro o sítio, depois o automóvel, a própria casa. Morador agora de apartamento pequeno, sem luz do sol, vento fresco. Aluguel modesto, conjunto habitacional popular.
         A aposentadoria precária evitava que passasse fome. 
         Não tinha jeito.  Todos os dias fazia o jogo,  bebia sua bebida especial. Mês entrava, mês fugia.  Até as joias da mulher, herança recebida da mãe, que recebera da avó,  foram vendidas. Apostava, apostava. Venderia a alma ao tinhoso, se preciso. Seguia em frente. Um dia acordaria como o grande ganhador. Não conseguia fazer sequer  a quadra, não desistia. Quem não aposta,  nunca ganha, uma máxima que os apostadores não esqueciam, seguiam à risca,  dela não fugiam.
Alardeava. No dia que tirasse a sorte grande com a mega-sena acumulada,  faria  a maior  surpresa a centenas de pessoas de sua cidade natal. A cena diante dos rostos pasmos, na avenida principal, abarrotada de gente.  Distribuiria dinheiro gordo com muita gente, de preferência com os mais desvalidos. Queria ver todo mundo sorridente.     
         Foi comprar o pão na padaria do bairro. Na rua, as fezes do pombo  acertaram sua cabeça. Que nojo! Considerou o fato, podia ter sido um aviso. Entre tantos habitantes da cidade populosa, só ele foi o agraciado, ao ser carimbado com as fezes das aves na cabeça. O imponderável poderia favorecer-lhe em dados positivos lá na frente.  Acertaria na mega-sena,  para isso acontecer continuasse fazendo as apostas seguidas.     
         Fez o jogo, riscou apenas uma sena na cartela.  O dinheiro estava curto,  há tempos não fazia jogo alto. Foi conferir depois, o coração acelerado.   Só alegria,  acertou em cheio na mega-sena. Sozinho. Ganhou o mundo a notícia. Acertador do maior prêmio acumulado pela mega-sena fez apenas um jogo em uma cartela.  
        Cumpriria a promessa. Compartilharia o dinheiro ganho na mega-sena  com muita gente.
         Estavam crentes, pobres, medianos e ricos, que ele ia distribuir muito dinheiro na avenida principal.
        O trânsito  interrompido. O locutor pelo megafone parabenizava o homem da sorte grande. Não cabia de gente a avenida principal naquele trecho.
      Todos ficaram perplexos  com a cena surpreendente. Tirou as roupas do corpo, tacou o facão em cima e tocou  fogo. Ficou gritando: “Dinheiro você diz que me quer bem,  no meu bolso você vem!”
      Foi morar no sanatório Bom Retiro. Lá continuou  a fazer as apostas para acertar de novo na mega-sena. 

*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Publicado  por editoras europeias. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, México, Itália e Portugal.


terça-feira, 22 de janeiro de 2019







                  Minhas Memórias Esportivas do Goleiro Luís Carlos
                                                      
                                          Cyro de Mattos

    


            O goleiro Luís Carlos deixou-nos na véspera do Natal. Foi jogar nas canchas do céu, defender a cidadela de um time divino e maravilhoso,   neste certamente estarão atuando jogadores amadores inesquecíveis,  que se exibiram com a sua classe e empenho, do lado de cá, no Velho Campo da Desportiva, como Leo Briglia, Santinho, Humberto Cesar, Leto, Abiezer, Tombinha, Valdemir Chicão, Zequinha Carmo, Porroló, Zé Davi e o velocista Nenem, entre outros. 
              Luis Carlos Alves Franco, casado, pai de três filhos. Um goleiro elástico e elegante quando agarrava a bola ou mandava para escanteio, em defesas sensacionais. Sabia repor a bola em jogo com habilidade. Jogou em vários times importantes do futebol amador: Grêmio, Janízaros, Flamengo e Fluminense. Foi hexacampeão pela seleção de Itabuna no Intermunicipal. Assim que a seleção amadora tornou-se um time profissional para participar do campeonato baiano, ele foi o goleiro de várias temporadas. Numa delas, em 1967, conquistou o título de vice-campeão pelo Itabuna. Jogou também futebol de salão e basquete.
        Começou no Vasquinho, de Gil Néri, o técnico que dirigiu a seleção amadora de Itabuna e se sagrou campeão em vários anos. O Vasquinho disputava o campeonato no campo do bairro de Fátima. Do Vasquinho, ele foi defender o Grêmio, um dos times grandes do campeonato realizado no Campo da Desportiva. No Grêmio atuou primeiro no segundo quadro, até se firmar como goleiro do time principal. Foi campeão pelo Flamengo, duas vezes  pelo Janizaros e tetra pelo Fluminense. Como não existia televisão naquela época, costumava acompanhar o campeonato carioca nas transmissões pelo rádio. As rádios de Salvador não entravam em Itabuna, pouco se sabia dos times profissionais que disputavam o campeonato baiano na Capital. Era um leitor voraz das revistas  “Mundo Ilustrado” e “Manchete Esportiva”, que traziam lances dos times nas partidas do campeonato carioca e estampava fotos dos goleiros fazendo grandes defesas.
         Jogou ao lado e contra os melhores jogadores do futebol amador de Itabuna. O lateral Albérico, no Grêmio, Zequinha Carmo, Péricles, Tertu, Gagé, Codinho, no Flamengo, para não falar na seleção amadora com Santinho, Pinga, Ronaldo Dantas, Valdemir Chicão, Humberto, Tombinha, Abiezer, Jonga, Leto, Lua, Fernando e Carlos Riela. Ele informou que a seleção amadora de Itabuna fazia a preparação física de madrugada no Campo da Desportiva ou às vezes em alguma praça no centro da cidade. Quando o rio Cachoeira voltava ao curso normal, depois de uma grande cheia, deixava um grande areal perto do poço da Pedra do Gelo. Gostava de jogar pelada no areal. Tombinha, seu companheiro de time no Janízaros, não perdia uma pelada. Santinho era outro que participava das peladas no areal.
      No seu tempo, o clássico local mais disputado era entre o Flamengo e o Fluminense. Em um desses clássicos dos mais disputados, o Flamengo perdia de três a zero no primeiro tempo. O centroavante Caçote virou o jogo no segundo tempo, fazendo quatro gols. Os gols saíram rapidamente. Caçote parecia que estava com um demônio no corpo naquela partida. Fazia um gol atrás do outro. Ele comentou que Seu Astor era um torcedor ferrenho do Fluminense. O filho Fernando Riela estava no Rio de Janeiro e já ia assinar contrato com o Vasco da Gama. O pai mandou chamar o filho para jogar aquele Fla-Flu. Fernando Riela fez misérias nesse jogo, mas o Flamengo teve mais sorte, saiu vencedor e campeão daquela temporada.
      Na época em que passou a jogar futebol como goleiro, Luis Carlos disse que foi beneficiado na posição porque também jogava basquete, o que lhe ajudou na firmeza dos braços. Naquele tempo não existia preparador físico para treinar os jogadores amadores, quem fazia esse trabalho, no fundo do quintal ou em algum jardim, de madrugada, eram os próprios jogadores. Disse Luis Carlos que sempre foi bem recebido em todos os times que jogou, mas no Janizaros conquistou mais títulos. Da seleção amadora de Itabuna lembrava que a de 1966 era um timaço. Foi dela que saiu a base para o Itabuna se tornar um time profissional.
        Quando a seleção vencia fora de casa, informou,  o time era recebido com festa. Tinha até missa na catedral de São José. A festa continuava à noite na sede do Itabuna Social Clube onde hoje funciona o Banco do Brasil. Era ali que acontecia a grande homenagem aos atletas  com discursos de agradecimento, baile com direito à cerveja de graça e muito samba para alegrar a rapaziada. “Era uma verdadeira apoteose, feita de orgulho e felicidade. A nossa seleção transmitia amor a todos”, revelou.  
      Com tristeza, guarda bons momentos desse tempo que não voltam mais. Existem muitas fotos que foram guardadas com carinho pelo goleiro. Olhando algumas delas hoje, podemos visualizar o Campo da Desportiva lotado nos clássicos, os ares felizes de seus torcedores quando a seleção jogava e sempre ganhava. “Não me lembro que ela tenha perdido um jogo na Desportiva”, disse Luís Carlos.
     Para qualquer jogador da região era uma grande conquista pertencer a um dos times grandes que participava do campeonato no Campo da Desportiva. O goleiro Luís Carlos não conseguiu dormir quando vestiu a camisa do Grêmio pela primeira vez. Aquilo que tanto queria deixava de ser um sonho. Relembrou uma velha Desportiva cheia de lama, o piso esburacado, a grama sem qualquer tratamento. Mas ali era o palco em que desfilaram grandes jogadores durante quase meio século. Muitos deles foram atuar em equipes profissionais de Salvador, alguns até do Rio, São Paulo e Belo Horizonte.
        Os meios de comunicação daquela época não eram como hoje. Vivíamos isolados no interior. Ilhéus tinha um aeroporto e navegação marítima, o que facilitava seu contato com o mundo de fora. Se fosse hoje, muitos jogadores amadores do seu tempo fariam carreira em grandes clubes do Brasil, disso não tinha dúvida o goleiro Luís carlos. A torcida de cada time e da seleção era fiel e vibrante. Quando superlotava o pequeno estádio, onde não cabia uma agulha de tanta gente, tinha torcedor que ficava no galho das árvores, no lado de fora, ao redor do campo; no telhado das casas, no terraço do prédio do Hospital Maria Goreti e no morro onde foi erguida a igreja Maria Goretti,  do bairro da Mangabinha.
          Antes de se tornar um jogador da Desportiva, ele assistia belas partidas no estádio local e, numa delas, quando ainda era adolescente, viu de perto a atuação do Botafogo com  Mané Garrincha na velha Desportiva. “Ele deu um show de bola e só jogou um pouco no primeiro tempo. E nesse pouco tempo pagou o ingresso.”
              Falar de alguns companheiros? Pinga era um centroavante arisco, rápido, bom controle de bola, frio na hora de fazer o gol. Zequinha Carmo era o tipo do centroavante rompedor. Deu muitas vitórias ao Flamengo em partidas decisivas. Acreditava em todos os lances, não havia bola perdida para ele. Quando todos pensavam que não ia alcançar a bola, ele a pegava e fazia o gol. Ronaldo Dantas, um zagueiro de estatura pequena, mas com ótima impulsão. Pulava acima dos atacantes altos, parecendo que tinha mola nos pés. Danielzão, por exemplo, não levava uma melhor com ele quando disputavam a bola pelo alto. Tinha uma técnica invejável, saía jogando com calma de dentro da área, depois de driblar o atacante. Abiezer era outra categoria, batia no calcanhar do atacante com toque sutil, sem ninguém perceber. Ele tinha uma técnica de desarmar o atacante que impressionava. Era um atleta magro como uma vara, mas o atacante tinha dificuldade em vencê-lo pelo alto ou com a bola no chão. Era muito eficiente. Fernando Riela, um ponteiro esquerdo que até hoje ele não  viu no Brasil outro igual. Carregava a bola pela linha de fundo, cruzava, pegava o rebote e fazia o gol.
      Para Lúis Carlos, José de Almeida Alcântara foi o prefeito que mais incentivou o futebol amador de Itabuna. Ele apoiava a seleção de Itabuna quando jogava fora de casa. Decretava feriado quando o time retornava com o título de campeão. Como prefeito foi o maior torcedor. Se Luís Carlos fosse formar a melhor seleção com os jogadores de sua geração, escolheria: Plínio, Zé Davi e Ronaldo; Valdemir Chicão, Abiezer e Hamilton; Gajé, Santinho, Jonga, Tombinha e Fernando Riela. “O excesso de bons craques amadores naquele tempo tornava difícil fazer uma escalação com os onze melhores”, observou o goleiro. Ele guarda muitas medalhas conquistadas como campeão dos times que defendeu e pela seleção. Os filhos não se interessam por futebol, mas os netos, quem sabe, poderão se tornar bons atletas, e elas servirem de incentivo para eles. Além das medalhas, o goleiro guarda com carinho e saudade alguns recortes de jornais, trazendo noticias, crônicas e muitas fotos dos tempos áureos do futebol amador de Itabuna na velha Desportiva.
           “A imprensa sempre vivenciou o nosso futebol amador em todos os momentos. Nomes como Lourival Ferreira, Orlando Cardoso, Geraldo Borges, Iedo Nogueira, Lima Galo, Edson Almeida, Raimundo Galvão e Ramiro Aquino souberam muito bem divulgar, valorizar e incentivar o esporte em nossa cidade”,  completou  Luís Carlos.

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019






Poesia de Valdelice Pinheiro
É Publicada na Espanha  com
Tradução de A. P. Alencart



Com o título de “Bautismo y Otros Poemas/Batismo e Outros Poemas ”, o poeta peruano-espanhol Alfredo Perez Alencart  traduziu cinco poemas de Valdelice  Soares Pinheiro, que foram publicados no jornal  “Protestante Digital”, em edição de 10 de janeiro deste ano. Os poemas de Valdelice foram ilustrados com imagens dos pintores Tintoretto,  Nicolás  Maes e Picasso e são os seguintes: “El Bautismo de Cristo/Batismo de Cristo”, “Creación/ Criação”, “Poema para la Natividad/Poema de Natal”, “Paz/Paz” e “Se yo te digo adiós/Se eu te disser adeus”. Além disso, a matéria sobre a autora itabunense   traz na introdução uma foto  grande quando a poeta era jovem.  
O poeta Alfredo Perez Alencart referiu-se a  Valdelice Soares Pinheiro como uma autora excelente, ressaltando que apesar de pouco conhecida no Brasil é possuidora de uma poesia magnífica. “ Com especial prazer, traduzi estes  poemas da brasileira Valdelice Soares Pinheiro (1929-1993), nascida e falecida em Itabuna, Estado da Bahia. Em vida ela apenas publicou dois livros de poemas : “De Dentro de Mim” (1961) e “Pacto” (1977. Além desses poemários publicou   alguns poemas esparsos. Em 2011 apareceu “O Canto Contido”, coletânea organizada pelo poeta e ficcionista Cyro de Mattos, reunindo os dois primeiros livros e textos dispersos, do qual foram extraídos os cinco poemas que verti para o espanhol.”
         Alfredo Perez Alencart é um poeta peruano há anos radicado em Salamanca onde é professor da universidade dessa cidade conhecida como de saber e cultura. É tradutor dos poetas brasileiros Carlos Nejar,  Álvaro Alves de  Faria, Cyro de Mattos, Paulo de Tarso  e da portuguesa Maria do Samero Barroso, entre outros.  Muito premiado, autor de mais de vinte livros,  esse poeta imenso é publicado em mais de vinte países.
          Leia abaixo os poemas de Valdelice Soares Pinheiro publicados na Espanha:

EL BAUTISMO DE CRISTO: .   BAUTISMO   Yo te prometo, hermano, un bautismo cristiano. Haré tu inmersión en las mismas aguas mías, dentro de las mismas oportunidades. Sin caridad, por obligación, te envolveré en la flor del trigo azul, perfumaré tu cuerpo en la realidad del pan y te untaré de leche y miel. Abriré tu sonrisa en una nueva Primavera. CREACIÓN   Dios besó a las abejas y a las cerezas y dibujó los divinos dientes en la pulpa de una guayaba. Después encargó a los niños y a los pajaritos el sabor de la vida. POEMA PARA LA NAVIDAD   En medio de todas las alegrías por el Niño Dios nacido, tanta sangre por los niños que no nacen. En medio de todos los perfumes y hosannas, tanto grito, tanto olor de dolor en la boca de los niños con hambre. En medio de toda la paz de aquella estrella, tanta inquietud en los ojos de mis hermanos, tanto odio en las manos de los generales.   Niño Jesús, cruz y redención, abre de nuevo tu cuerpo sobre nosotros.  PAZ   Plántense los sueños en la alborada de los dedos. Coséchense las espigas en la mañana de las manos. Y, en el descanso de la noche, la mesa puesta, nazca el amor en el calor del pan. SI YO TE DIGO ADIÓS   Yo abriré mis ojos llenos de lágrimas sí, un día, a la orilla de cualquier camino, yo te digo adiós

Para ler a matéria sobre Valdelice no”Protestante Digital” clique no link abaixo:   http://protestantedigital.com/cultural/46180/Bautismo_y_otros_poemas_de_Valdelice_Soares_Pinheiro_traducidos_por_A_P_Alencart


quarta-feira, 2 de janeiro de 2019


            


        Conversa com Luís Carlos

                      Cyro de Mattos

           O goleiro Luís Carlos deixou-nos na véspera do Natal. Foi jogar nas canchas do céu, defender a cidadela de um time divino e maravilhoso,  neste certamente estarão atuando jogadores amadores inesquecíveis,  que se exibiram com a sua classe e empenho, do lado de cá, no Velho Campo da Desportiva, como Leo Briglia, Santinho, Humberto Cesar, Leto, Abiezer, Tombinha, Valdemir Chicão, Zequinha Carmo, Zé Davi, Porroló e o velocista Nenem, entre tantos de qualidades  expressivas.
          Luis Carlos Alves Franco, casado, pai de três filhos. Um goleiro elástico e elegante quando agarrava a bola ou mandava para escanteio, em defesas sensacionais. Sabia repor a bola em jogo com habilidade. Jogou em vários times importantes do futebol amador: Grêmio, Janízaros, Flamengo e Fluminense. Foi hexacampeão pela seleção de Itabuna no Intermunicipal. Assim que a seleção amadora tornou-se um time profissional para participar do campeonato baiano, ele foi o goleiro de várias temporadas. Numa delas, em 1967, conquistou o título de vice-campeão pelo Itabuna. Jogou também futebol de salão e basquete.
     Começou no Vasquinho de Gil Neri, técnico campeão  várias vezes pela seleção de Itabuna no Intermunicipal.  Com tristeza, guardava bons momentos daqueles tempos da Desportiva, que não voltam mais. Existem muitas fotos que foram guardadas com carinho pelo goleiro. Olhando algumas delas hoje, podemos visualizar o Campo da Desportiva lotado nos clássicos, os ares felizes de seus torcedores quando a seleção jogava e sempre ganhava. “Não me lembro que ela tenha perdido um jogo na Desportiva”, disse Luís Carlos.
     Para qualquer jogador do Sul da Bahia era uma grande conquista pertencer a um dos times grandes que participava do campeonato no Campo da Desportiva. O goleiro Luís Carlos não conseguiu dormir quando vestiu a camisa do Grêmio pela primeira vez. Aquilo que tanto queria deixava de ser um sonho. Relembrou uma velha Desportiva cheia de lama, o piso esburacado, a grama sem qualquer tratamento. Mas ali era o palco em que desfilaram grandes jogadores durante quase meio século. Muitos deles foram atuar em equipes profissionais de Salvador, alguns até do Rio, São Paulo e Belo Horizonte.
          Antes de se tornar um jogador da Desportiva, ele assistia belas partidas no estádio local e, numa delas, quando ainda era adolescente, viu de perto a atuação do Botafogo com Mané Garrincha, o demônio de pernas tortas.  “Ele deu um show de bola e só jogou um pouco no primeiro tempo. E nesse pouco tempo pagou o ingresso.”
      Para Luis Carlos, José de Almeida Alcântara foi o prefeito que mais incentivou o futebol amador local.  Ele apoiava a seleção de Itabuna quando jogava fora de casa. Decretava feriado quando o time retornava com o título de campeão. Como prefeito foi um torcedor entusiasta.  Se Luís Carlos fosse formar a melhor seleção de futebol da cidade  com os jogadores de sua geração,  escolheria: Plínio, Zé Davi e Ronaldo; Valdemir Chicão, Abiezer e Hamilton; Gajé, Santinho, Jonga, Tombinha e Fernando Riela. “O excesso de bons craques amadores naquele tempo tornava difícil fazer uma escalação com os onze melhores”, observou o goleiro.
        Fora das canchas esportivas, Luís Carlos foi  exemplar filho, marido, pai, avô e  irmão.  Bancário condigno. Amigo atencioso e franco.  Querido pelos parentes, reverenciado pelos desportistas. Cidadão itabunense dos bons.  Sua jornada que se fez aqui neste planeta deixa marcas positivas, próprias da natureza humana de criaturas emblemáticas.

·        *Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da UESC. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Publicado em Portugal, Itália, Espanha, França, Alemanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Autor de 44 livros de diversos gêneros.  Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. 


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

               










                                     
        Natal
       
         Cyro de Mattos

       Tudo é canto pelos ares, chão e mares.
       Todas as manhãs  acesas, o mundo esplende de paz.
       Luz nunca vista ilumina seres e coisas.
      Põe amor nas vistas, de tão pura.
      Alegra nessa estrada por onde os bichos andam.
       O menino pergunta:
      - Por que tanta luz?
      O pai responde:
      - Em Belém nasceu Jesus.

sábado, 15 de dezembro de 2018








Crença

Cyro de Mattos


Por que os homens
Amam a droga
E não da abelha
Os favos de mel?
Por que os homens
Amam as balas
E não a paz
Sem nenhum fuzil?

                                     Mas eu creio nessa manhã
Anunciada em Belém
Por um menino rei
Em seu berço de palha.

Eu gosto de ouvir
Sua canção na estrada
Falando duma união geral,
Que viver vale a pena
Quando a vida é uma dança
Com os homens como irmãos,
Cantando como passarinho,
Sorrindo como criança.